{"id":3117,"date":"2012-07-03T01:53:27","date_gmt":"2012-07-03T01:53:27","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3117"},"modified":"2012-07-03T01:53:27","modified_gmt":"2012-07-03T01:53:27","slug":"crise-na-zona-euro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3117","title":{"rendered":"Crise na Zona Euro"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Crisis in the Euro Zone <\/em><strong>[1]<\/strong> de Costa Lapavitsas e outros, \u00e9 um livro not\u00e1vel e fundamental para a compreens\u00e3o do que est\u00e1 a acontecer e das op\u00e7\u00f5es a tomar (e das op\u00e7\u00f5es que est\u00e3o a tomar em nosso nome). Trata-se, na boa tradi\u00e7\u00e3o marxista, de uma an\u00e1lise abrangente da economia pol\u00edtica da zona euro. Isto, por si mesmo, j\u00e1 \u00e9 um feito cient\u00edfico not\u00e1vel. Mas os autores v\u00e3o mais al\u00e9m pois examinam um a um os desenlaces poss\u00edveis para a crise que abala os fundamentos da UE, da Uni\u00e3o Monet\u00e1ria Europeia e da sua moeda mal concebida.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as enxurradas de desinforma\u00e7\u00e3o, ideias confusas e tentativas de instilar o medo despejadas diariamente por comentaristas da televis\u00e3o e dos jornais, este livro surge como o\u00e1sis de lucidez e clareza. Ele s\u00f3 poderia ter sa\u00eddo do ambiente intelectual da School of Oriental e African Studies (SOAS) da Universidade de Londres. Ali, a vasta experi\u00eancia dos autores em rela\u00e7\u00e3o ao que j\u00e1 acontece h\u00e1 d\u00e9cadas em pa\u00edses do terceiro mundo, a par do rigor conceptual, serviu de base para evidenciar o que se est\u00e1 a passar na Europa de hoje.<\/p>\n<p>At\u00e9 recentemente havia o trabalho de Varoufakis acerca do metabolismo, ou melhor, da falta dele, no interior da UE. A sua an\u00e1lise, em\u00a0<em>O Minotauro Global <\/em><em>[2]<\/em> \u00e9 poderosa. Ali se mostra a inanidade do FEEF e do MEE (independentemente dos montantes com que forem dotados) e avan\u00e7a propostas de solu\u00e7\u00e3o. Mas por muito perfeitos que sejam os diagn\u00f3sticos de Varoufakis, as terapias do Plano A que preconiza s\u00e3o reformistas e a UE n\u00e3o \u00e9 reform\u00e1vel (talvez por isso Varoufakis mencione um Plano B, que \u00e9 a sa\u00edda da zona euro). No mesmo pecado n\u00e3o incide Lapavitsas e sua equipe.<\/p>\n<p>Como todos sabem, a presente crise come\u00e7ou no sector imobili\u00e1rio dos EUA, transmutou-se numa crise do sistema banc\u00e1rio (estado-unidense e europeu) e acabou por cristalizar em crises de d\u00edvidas soberanas europeias. Esta crise veio revelar os males inerentes ao grande projecto das classes dominantes europeias: a cria\u00e7\u00e3o de uma moeda capaz competir com o d\u00f3lar e promover o sub-imperialismo europeu. J\u00e1 se pode dizer que este projecto fracassou e a raz\u00e3o para isso est\u00e1 na pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do mesmo. A crise de 2008-09 apenas tornou isso evidente.<\/p>\n<p>E agora, quais as sa\u00eddas? Diante da crise que se abate sobre a UE e amea\u00e7a desagreg\u00e1-la, o livro disseca as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que se apresentam aos pa\u00edses perif\u00e9ricos da UE. Elas v\u00e3o desde sa\u00eddas regressivas \u2013 que est\u00e3o agora a ser impostas aos pa\u00edses da periferia \u2013 at\u00e9 uma poss\u00edvel sa\u00edda progressista. A preferida do capital financeiro europeu \u00e9 a que est\u00e1 agora a ser adoptada nos pa\u00edses submetidos a troikas: \u00e9 a austeridade com o corte de sal\u00e1rios e pens\u00f5es, aumentos de impostos, reformas ditas &#8220;estruturais&#8221; para flexibilizar o mercado de trabalho, privatiza\u00e7\u00f5es, etc. Em suma, transferir o fardo do ajustamento para as costas dos trabalhadores. A segunda alternativa seria reformar a zona euro. Todos reconhecem que pol\u00edtica monet\u00e1ria unit\u00e1ria e pol\u00edtica fiscal fragmentada constituem uma mistura n\u00e3o funcional e tentar-se-ia consertar estas mazelas sem desafiar as quest\u00f5es fundamentais contidas no Tratado de Maastricht, no Pacto de Estabilidade e Crescimento e no Tratado de Lisboa. Ou seja, tentar-se-iam solu\u00e7\u00f5es que mantivessem o conservadorismo inerente \u00e0 eurozona. Esta segunda alternativa, tamb\u00e9m chamada a estrat\u00e9gia do &#8220;bom euro&#8221; est\u00e1 certamente fadada ao insucesso pois falta \u00e0 UE um estado unit\u00e1rio ou federal e n\u00e3o h\u00e1 perspectiva de o mesmo concretizar-se no futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Finalmente, surge a terceira alternativa: a da sa\u00edda da eurozona. Mesmo aqui, contudo, h\u00e1 duas variantes alternativas. Uma \u00e9 a &#8220;sa\u00edda conservadora&#8221;, que \u00e9 muitas vezes discutida na imprensa anglo-sax\u00f3nica. O objectivo da mesma \u00e9 simplesmente desvalorizar a moeda do pa\u00eds que saiu. Alguns dos custos do ajustamento seriam transferidos para o exterior e as exporta\u00e7\u00f5es ganhariam novo impulso. A desvaloriza\u00e7\u00e3o da nova moeda seria provavelmente acompanhada de medidas de austeridade para os trabalhadores.<\/p>\n<p>A outra variante \u00e9 uma &#8220;sa\u00edda progressista&#8221; da zona euro, a qual exige uma mudan\u00e7a do poder econ\u00f3mico e social favor\u00e1vel aos trabalhadores dos pa\u00edses perif\u00e9ricos. Nesta variante, haveria desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda acompanhada por uma cessa\u00e7\u00e3o de pagamentos e uma reestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica. Para impedir o colapso do sistema financeiro seria preciso a nacionaliza\u00e7\u00e3o da banca, com a cria\u00e7\u00e3o de um sistema de bancos p\u00fablicos. Tamb\u00e9m teriam de ser impostos controles na conta de capital a fuga impedir a fuga do mesmo. E para proteger a produ\u00e7\u00e3o e o emprego, finalmente, seria necess\u00e1rio expandir a propriedade do sector p\u00fablico sobre \u00e1reas chave da economia como utilities, transporte e energia. Sobre esta base seria poss\u00edvel desenvolver uma pol\u00edtica industrial que combinasse recursos p\u00fablicos com cr\u00e9dito p\u00fablico.<\/p>\n<p>&#8220;Uma pol\u00edtica de sa\u00edda progressista para pa\u00edses perif\u00e9ricos teria evidentes custos e riscos. As vastas alian\u00e7as pol\u00edticas necess\u00e1rias para apoiar uma tal mudan\u00e7a ainda n\u00e3o existem no presente&#8221;, reconhecem os autores. E acrescentam: &#8220;Esta aus\u00eancia, a prop\u00f3sito, n\u00e3o \u00e9 necessariamente devida \u00e0 falta de apoio popular para a mudan\u00e7a radical. O mais importante \u00e9 que at\u00e9 agora nenhuma for\u00e7a cr\u00edvel na Europa teve a coragem de se opor \u00e0 austeridade&#8221;.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora os povos europeus t\u00eam sido submetidos a campanhas maci\u00e7as para inculcar o medo de uma sa\u00edda do euro. A sa\u00edda \u00e9 assunto tabu e quando os fazedores de opini\u00e3o chegam a falar nisso \u00e9 para apresent\u00e1-la como coisa terr\u00edfica, verdadeira fonte de horrores. Durante mais de 20 anos martelaram na cabe\u00e7a das pessoas que o euro \u00e9 o apogeu da unidade europeia e assim uma moeda cujo objectivo \u00e9 servir os interesses dos grandes bancos e do capital monopolista foi apresentada como se se tratasse de um projecto social-democrata.<\/p>\n<p>Mas e as for\u00e7as consideradas progressistas e que s\u00e3o supostas defender os trabalhadores, onde est\u00e3o elas e o que dizem quanto \u00e0 sa\u00edda da zona euro? Muitas delas est\u00e3o coniventes com essa mistifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso dos integrantes do Partido de Esquerda Europeu (PEE), que aceitaram de facto n\u00e3o por em causa o capitalismo nem a Europa dos monop\u00f3lios. \u00c9 o caso do seu representate em Portugal, o BE. O seu l\u00edder, Francisco Lou\u00e7\u00e3, faz discursos grandiloquentes sobre os malef\u00edcios do programa imposto pela troika \u2013 mas defende a perman\u00eancia na zona euro a todo custo. Outros partidos, por timidez ou por c\u00e1lculo eleitoral, n\u00e3o se atrevem a preconizar a sa\u00edda progressista da zona euro. Eles condenam-se assim a uma actua\u00e7\u00e3o ineficaz pois n\u00e3o t\u00eam propostas s\u00e9rias para combater a austeridade que esmaga os pa\u00edses da periferia da Europa e amea\u00e7a transformar os seus povos em servos do capital financeiro.<\/p>\n<p>Como diz, e bem, Lapavitsas: &#8220;O apoio para a uni\u00e3o monet\u00e1ria da esquerda europeia tem afectado decisivamente o desenvolvimento pol\u00edtico da crise. Muitos tem falado voluvelmente acerca das iniquidades do capitalismo, a natureza desastrosa do neoliberalismo, o absurdo da austeridade, o veneno da desigualdade e assim por diante. Mas sempre que a discuss\u00e3o se vira para o euro, o qual, afinal de contas, tem sido o ponto focal da crise, grande parte da esquerda tem procurado simplesmente mudar de assunto. Ou tem apresentado propostas com impec\u00e1veis credenciais da ci\u00eancia econ\u00f3mica corrente, incluindo a emiss\u00e3o de eurobonds e o empr\u00e9stimo pelo Banco Central Europeu aos estados membros&#8221;. Realmente, \u00e9 muito estranha essa esquerda respeitosa para com o capital financeiro. Ser\u00e1 ainda esquerda? N\u00e3o \u00e9 casual que em Fran\u00e7a a sra. Le Pen tenha tido a vota\u00e7\u00e3o que teve: foi o \u00fanico candidato que defendeu a sa\u00edda da zona euro \u2013 indica apoio popular \u00e0 ideia. A esquerda encolhida n\u00e3o foi capaz disso.<\/p>\n<p>Na verdade, um radicalismo que n\u00e3o est\u00e1 preparado para contemplar o abandono da divisa comum pouco tem para contribuir para o debate p\u00fablico ou para a luta pol\u00edtica que actualmente se verifica na Europa. Os dias de hoje v\u00e3o definir os destinos desta e de futuras gera\u00e7\u00f5es. Se a resposta conservadora prevalecer, o futuro ser\u00e1 sombrio. O capital financeiro e oligopolista impor\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o regressiva que condenar\u00e1 o povo trabalhador a rendimentos estagnados, alto desemprego e estados previd\u00eancia enfraquecidos. Direitos democr\u00e1ticos ficar\u00e3o em causa e o continente mergulhar\u00e1 no decl\u00ednio. Se, em contrapartida, as for\u00e7as progressistas prevalecerem o equil\u00edbrio poderia ser mudado contra o capital e a favor do trabalho e assim as sociedades europeias seriam rejuvenescidas do ponto de vista econ\u00f3mico, ideol\u00f3gico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>[1]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.versobooks.com\/books\/1155-crisis-in-the-eurozone\" target=\"_blank\">Crisis in the Euro Zone<\/a> , Costas Lapavitsas et al., Verso, Londres, 2012, 243 p. <\/strong><\/p>\n<p><strong>[2] Ver cap\u00edtulo &#8220;O Minotauro global&#8221; em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.chiadoeditora.com\/index.php?page=shop.product_details&amp;category_id=0&amp;flypage=flypage.tpl&amp;product_id=634&amp;option=com_virtuemart&amp;Itemid=&amp;vmcchk=1&amp;Itemid=1\" target=\"_blank\">Ascens\u00e3o e queda do euro<\/a> , Ed. Chiado, Lisboa, 2012, 351 p. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta resenha encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\npor Jorge Figueiredo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3117\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3117","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Oh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3117","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3117"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3117\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3117"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}