{"id":31207,"date":"2023-12-30T20:38:41","date_gmt":"2023-12-30T23:38:41","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=31207"},"modified":"2023-12-30T20:38:41","modified_gmt":"2023-12-30T23:38:41","slug":"belem-palestina-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31207","title":{"rendered":"Bel\u00e9m, Palestina, 2023"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"31208\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31207\/unnamed-24\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"705,470\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1.jpg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-31208\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1.jpg?resize=705%2C470&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"705\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1.jpg?w=705&amp;ssl=1 705w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 705px) 100vw, 705px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Cr\u00e9ditos \/ Anadolu Agency<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>Em Bel\u00e9m, terra da origem do cristianismo, reinaram este ano o sil\u00eancio sepulcral, a dor de milhares de fam\u00edlias enlutadas, o risco permanente de ter de fugir. A P\u00e1scoa no lugar do Natal.<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 imposs\u00edvel celebrar o Natal este ano, quando o nosso povo em Gaza est\u00e1 sofrendo um genoc\u00eddio\u00bb<\/p>\n<p>(Muther Ishaq, pastor da Igreja Luterana de Bel\u00e9m, na Palestina)<\/p>\n<p>A not\u00edcia est\u00e1 dispon\u00edvel h\u00e1 alguns dias, mas parece n\u00e3o ter encontrado eco no sistema de propaganda que molda as consci\u00eancias e as mentalidades ocidentais, possivelmente porque n\u00e3o conv\u00e9m estragar o neg\u00f3cio: todas as igrejas crist\u00e3s de Bel\u00e9m, o lugar na Palestina onde, segundo a hist\u00f3ria, os mitos, a lenda e as escrituras religiosas ter\u00e1 nascido Jesus Cristo, decidiram este ano n\u00e3o festejar o Natal. Entenderam que n\u00e3o faz qualquer sentido celebrar em festa, com ilumina\u00e7\u00f5es e as tradicionais manifesta\u00e7\u00f5es de alegria, uma efem\u00e9ride de paz enquanto decorre, a poucas dezenas de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, o mart\u00edrio de mais de dois milh\u00f5es de pessoas, sujeitas a uma matan\u00e7a de que parece n\u00e3o haver mem\u00f3ria, nem mesmo naquelas terras de tantas matan\u00e7as.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o foi tomada pelo conjunto de igrejas crist\u00e3s que administram os lugares santos de Bel\u00e9m \u2013 cat\u00f3lica, protestantes, ortodoxas e arm\u00eanias \u2013 pelo que, no lugar do primeiro de todos os natais, o Natal deste ano foi assinalado apenas por liturgias religiosas. \u00c9 \u00abum ato de solidariedade com o povo sofredor da Terra Santa\u00bb, uma manifesta\u00e7\u00e3o de \u00abluto por aqueles que foram e est\u00e3o sendo massacrados\u00bb, l\u00ea-se na declara\u00e7\u00e3o conjunta emitida pelas v\u00e1rias confiss\u00f5es crist\u00e3s respons\u00e1veis pelos lugares m\u00edticos da Terra Santa, a Palestina.<\/p>\n<p>Uma atitude natural, pr\u00f3pria de quem conserva sensibilidade e sentido de humanismo, mas que, para os que ainda sofrem de ingenuidade para surpreender-se com estas coisas, n\u00e3o se estende, incompreensivelmente, a toda a virtuosa civiliza\u00e7\u00e3o ocidental e crist\u00e3.<\/p>\n<p>Ilus\u00e3o de paz no cora\u00e7\u00e3o da guerra<br \/>\nVisitei Bel\u00e9m pela primeira vez num dia sombrio e sob uma forte tempestade em fevereiro de 1988; viviam-se ent\u00e3o os primeiros meses da revolta popular que ficou conhecida como a \u00abPrimeira Intifada\u00bb, um levante espont\u00e2neo dos palestinos \u00abdo interior\u00bb, os que vivem nos territ\u00f3rios ocupados de Israel, contra os seus carcereiros e algozes. Um movimento de raiva incontida que se iniciou em Gaza e na \u00e9poca surpreendeu o mundo com o desassombro da juventude palestina ao resistir com pedras, atiradeiras e outras \u00abarmas\u00bb de ocasi\u00e3o contra os jipes e os tanques das tropas sionistas ocupantes.<\/p>\n<p>A coragem dessas popula\u00e7\u00f5es fez acordar muita gente, em todo o mundo, para a exist\u00eancia do drama palestino; gerou at\u00e9 algumas ondas significativas de emo\u00e7\u00e3o e solidariedade, nada que o aparelho transnacional de propaganda do sionismo, com a cumplicidade das redes internacionais de comunica\u00e7\u00e3o social \u2013 embora ainda sem um funcionamento t\u00e3o org\u00e2nico como atualmente \u2013 n\u00e3o tenha resolvido em alguns meses. N\u00e3o tardou que os ocupantes e opressores passassem a ser apresentados como as v\u00edtimas injustas da selvageria de garotos que atingem precocemente o comportamento de adultos ao enveredarem pelo \u00abterrorismo\u00bb, isto \u00e9, o combate pelos seus direitos mais elementares.<\/p>\n<p>Bel\u00e9m, uma pequena cidade a 15 quil\u00f4metros de Jerusal\u00e9m \u2013 talvez seja mais realista chamar-lhe uma grande aldeia \u2013 refletia a situa\u00e7\u00e3o, uma vez que a revolta iniciada em Gaza se estendera ao conjunto dos territ\u00f3rios ocupados e o aparelho sionista de repress\u00e3o respondia generalizando o clima de guerra. Um grande edif\u00edcio aquartelado da pol\u00edcia sionista, envolvido por gradeamentos, dominava uma das alas da Pra\u00e7a da Manjedoura, onde se situa a igreja e gruta da Natividade, enquanto jipes militares, com os p\u00e1ra-brisas igualmente protegidos com redes met\u00e1licas, circulavam em todas as dire\u00e7\u00f5es, tentando desencorajar quem tivesse m\u00e3o leve para os apedrejamentos; detendo e sequestrando qualquer transeunte que o livre arb\u00edtrio pr\u00f3prio dos her\u00f3is cuja coragem se mede pelo n\u00famero de balas disparadas considerasse \u00absuspeito\u00bb.<\/p>\n<p>Cidade \u00e1rabe palestina, na sua ess\u00eancia, na sua estrutura urbana \u2013 uma teia intrincada de ruas e ruelas onde a cultura milenar se funde harmonicamente com uma vida tornada mais cosmopolita atrav\u00e9s da diversidade dos cultos crist\u00e3os e do turismo de massas que lhe est\u00e1 associado, Bel\u00e9m n\u00e3o deixa de ser, acima de tudo, um burgo marcado pelas vicissitudes da ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em contraponto ef\u00eamero, numa visita posterior vivi o otimismo, desconfiado \u00e9 certo, ainda assim prop\u00edcio a um tipo de vida mais distendido, refor\u00e7ado com o aumento da aflu\u00eancia de peregrinos, durante os primeiros tempos da \u00abautonomia palestina\u00bb e do chamado \u00abprocesso de paz\u00bb, desenvolvido a partir de 1993 e lentamente assassinado pelos Estados Unidos e Israel, com a cumplicidade da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>O desanuviamento do cotidiano foi sol de pouca dura\u00e7\u00e3o, porque ainda antes da virada do s\u00e9culo nasceu o mastod\u00f4ntico \u00abmuro de separa\u00e7\u00e3o\u00bb, um aut\u00eantico muro da vergonha para quem o construiu e para os governos e os meios de comunica\u00e7\u00e3o de todo o mundo que o toleram silenciando a sua exist\u00eancia, desvalorizando-a ou at\u00e9 justificando-a como instrumento necess\u00e1rio \u00abpara estabelecer a paz\u00bb. Assim como h\u00e1 guerras \u00abboas\u00bb ou \u00abm\u00e1s\u00bb, autoritarismos \u00abaceit\u00e1veis\u00bb ou \u00abinaceit\u00e1veis\u00bb, existem tamb\u00e9m os muros malditos e outros t\u00e3o justificados como \u00fateis. E o \u00abprocesso de paz\u00bb teve o mesmo destino que as resolu\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre \u00abo problema israelense-palestino\u00bb, exemplo que frutifica a prop\u00f3sito de outros mecanismos internacionais tamb\u00e9m chancelados por respeit\u00e1veis dirigentes da \u00abnossa civiliza\u00e7\u00e3o\u00bb para logo depois passarem a ser letra morta, como, mais recentemente, os acordos de Minsk sobre a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>A cidade de Bel\u00e9m, como muitas outras na Palestina, ficou assim cercada pelo muro, com uma \u00fanica \u00abporta\u00bb para os residentes, rigorosamente controlada, 24 horas por dia, pelos lacaios do sionismo. Em boa verdade, os habitantes de Bel\u00e9m vivem como cativos na sua pr\u00f3pria cidade. Com maior ou menor intensidade, com meios repressivos e de controle mais ou menos exuberantes, a situa\u00e7\u00e3o concentracion\u00e1ria na Faixa de Gaza \u00e9 replicada atrav\u00e9s da generalidade dos territ\u00f3rios palestinos.<\/p>\n<p>Em visita ulterior a Bel\u00e9m pude observar o funcionamento das estruturas que controlam os movimentos dos residentes atrav\u00e9s da \u00fanica porta da cidade, especialmente as gaiolas onde grande parte dos que desejam sair e entrar s\u00e3o obrigados a desfazer-se das roupas e submetidos a inspec\u00e7\u00f5es humilhantes, pr\u00f3prias, naturalmente, de um regime que considera os palestinos como \u00abanimais\u00bb, todos eles culpados de \u00abterrorismo\u00bb e, principalmente, de usurparem, h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, a terra que Yaveh reservou para o seu \u00abpovo eleito\u00bb. E depois desse ritual repugnante, qualquer habitante de Bel\u00e9m que pretenda chegar ao seu local de trabalho precar\u00edssimo, por exemplo em Jerusal\u00e9m, demora uma eternidade para percorrer a dezena e meia de quil\u00f4metros porque os controles de identifica\u00e7\u00e3o se sucedem e se prolongam pelo tempo que os agentes de ocupa\u00e7\u00e3o entenderem. E tudo se repete no regresso de cada um a sua casa, altas horas da noite, para recome\u00e7ar muito cedo na madrugada.<\/p>\n<p>Longa \u00e9 a dist\u00e2ncia<br \/>\nA enorme dist\u00e2ncia entre a realidade de Bel\u00e9m, \u00abber\u00e7o do cristianismo\u00bb de acordo com as doutrinas can\u00f4nicas, e o mundo da chamada \u00abciviliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e ocidental\u00bb, \u00e9 muito, mas mesmo muito mais do que geogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o palestina tornou-se um verdadeiro divisor de comportamentos, exposto agora com maior crueza pela chacina e a limpeza \u00e9tnica que decorrem em Gaza. O mundo ocidental crist\u00e3o est\u00e1 celebrando o Natal como se Gaza n\u00e3o existisse. N\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de as fam\u00edlias se mortificarem, ou deixarem de assinalar a data como desejarem, mas recomendar-se-ia, pelo menos nas mensagens de \u00e2mbito social, informativo e institucional, religioso ou n\u00e3o, um pouco de decoro, algum respeito pelas origens e significado das celebra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o Natal espiritual, pacificador, sens\u00edvel e humanista h\u00e1 muito deixou de existir, se \u00e9 que alguma vez existiu, sacrificado pela gan\u00e2ncia da mercantiliza\u00e7\u00e3o sem freios, pela ostenta\u00e7\u00e3o de posses, pelos discursos pol\u00edticos vazios, repetitivos, hip\u00f3critas, bem como as idiotices do Papai Noel da Coca-Cola e outras divaga\u00e7\u00f5es sem nexo, mas todas elas orientadas para amealhar nesta \u00e9poca o dinheiro que a sucess\u00e3o de crises n\u00e3o permite entulhar nas contas das empresas durante o resto do ano. Chamam-lhe a festa da fam\u00edlia, mas sabemos muito bem que vivemos numa sociedade onde a fam\u00edlia \u00e9 pretexto e invoca\u00e7\u00e3o para todas as preocupa\u00e7\u00f5es e salamaleques oportunistas, enquanto a maioria delas pena cada vez mais sob as dificuldades do dia-a-dia e as agress\u00f5es sucessivas que os poderes, inchados de \u00abesp\u00edrito crist\u00e3o\u00bb ou aparentado, contra elas cometem.<\/p>\n<p>A enxurrada de mensagens publicit\u00e1rias, que competem entre si pela prega\u00e7\u00e3o do luxo, da apar\u00eancia e da abastan\u00e7a, descarregada, por exemplo, num intervalo de uma qualquer reportagem sobre a situa\u00e7\u00e3o em Gaza \u00e9 um fen\u00f4meno abjeto que diz muito \u2013 se nisso se quiser reflectir \u2013 sobre a degrada\u00e7\u00e3o do ambiente social, a venalidade moral e cultural dos poderes, a insensibilidade perante os dramas humanos que se passam sempre \u00abl\u00e1 longe\u00bb; enfim, a substitui\u00e7\u00e3o anest\u00e9sica da crua realidade por uma fic\u00e7\u00e3o opulenta com amplitude generalizada, mas que apenas pode materializar-se nas m\u00e3os e contas banc\u00e1rias de uns escassos milhares.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio sepulcral<br \/>\nBacalhau, peru, bolo rei, filhoses, doces conventuais ou mais prosaicos, jogos de computador e brinquedos caros, muitos deles simulando o uso de armas, n\u00e3o faltar\u00e3o em muitas casas do \u00abcristianismo ocidental\u00bb, embora a maioria delas, provavelmente, n\u00e3o possam acolher tantas e t\u00e3o mercantilizadas \u00abtradi\u00e7\u00f5es\u00bb. Esta associa\u00e7\u00e3o das armas \u00e0s brincadeiras das crian\u00e7as e ao esp\u00edrito natalino parece, ali\u00e1s, fruto do respeito por um cuidadoso princ\u00edpio: n\u00e3o afian\u00e7am os nossos human\u00edssimos governantes que para alcan\u00e7ar a paz \u00e9 preciso fazer a guerra? Ent\u00e3o \u00e9 aconselh\u00e1vel, sem sombra de d\u00favida, que a mentaliza\u00e7\u00e3o comece quase no ber\u00e7o.<\/p>\n<p>Em Bel\u00e9m, terra da origem do cristianismo, por\u00e9m, reinaram este ano o sil\u00eancio sepulcral, a dor de milhares de fam\u00edlias enlutadas, o risco permanente de ter de fugir e esconder-se das armas dos soldados, da ira raivosa e fundamentalista de um qualquer esquadr\u00e3o da morte composto por colonos.<\/p>\n<p>As cerim\u00f3nias s\u00e3o tristes, dominadas pela ang\u00fastia, sentimentos de perda e inseguran\u00e7a. Em vez da alegria do nascimento, um sil\u00eancio sepulcral. A P\u00e1scoa no lugar do Natal.<\/p>\n<p>Pouco ou nada disso ter\u00e1 repercuss\u00f5es no cristianismo bem instalado e farto da atualidade, mitificado em massivos e arregimentados festivais hip\u00f3critas onde muito se fala de paz, fraternidade e igualdade entre os povos enquanto, de um lado a outro, prosseguem cruzadas sangrentas, o racismo \u00e9 um h\u00e1bito de pr\u00e1tica di\u00e1ria e h\u00e1 povos com mais direitos, divinos ou terrestres, que outros e cuja afirma\u00e7\u00e3o se processa quase sempre na boca dos canh\u00f5es, quando n\u00e3o nas ogivas dos m\u00edsseis.<\/p>\n<p>Numa das minhas visitas \u00e0 Igreja da Natividade, em Bel\u00e9m, fui acompanhado por um sacerdote cat\u00f3lico, um palestino desta cidade que me mostrou os sinais de degrada\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio, por falta de obras e de meios para as realizar. N\u00e3o eram lamentos, esses est\u00e3o guardados para mais uma chacina numa qualquer aldeia das vizinhan\u00e7as, para novos e sucessivos funerais segundo rituais crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos; entre os palestinos perseguidos e sem p\u00e1tria essas diferen\u00e7as de \u00edndole religiosa nada s\u00e3o e nada representam. Palestinos crist\u00e3os, mu\u00e7ulmanos ou ateus s\u00e3o acima de tudo palestinos, seres humanos despojados dos mais elementares direitos.<\/p>\n<p>Perante as evid\u00eancias de ru\u00edna aqui e ali, em diferentes se\u00e7\u00f5es do modesto e t\u00e3o simb\u00f3lico templo, perguntei ao sacerdote se o clero dos lugares santos n\u00e3o poderia contar, por exemplo, com apoios financeiros \u2013 algumas esmolas, digamos \u2013 do Vaticano ou de F\u00e1tima, onde abundam a riqueza e a ostenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me respondeu diretamente; era \u00abapenas um simples padre\u00bb palestino que \u00abcuida das almas\u00bb dos que podem frequentar aqueles lugares e da subsist\u00eancia dos s\u00edmbolos do \u00abcristianismo primitivo\u00bb.<\/p>\n<p>No subsolo da igreja visita-se a Gruta da Natividade, o espa\u00e7o simples, modesto, bem cuidado onde a lenda, os mitos, a hist\u00f3ria, a imagina\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria do povo da regi\u00e3o situa o est\u00e1bulo onde ter\u00e1 nascido Jesus Cristo. Em boa verdade e, ao contr\u00e1rio da grandiosidade da bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, em Roma, e das megalomanias gananciosas de F\u00e1tima, \u00e9 poss\u00edvel a um n\u00e3o crente sentir naquele simples, silencioso e acanhado espa\u00e7o, despido de adere\u00e7os em ouro ou qualquer coisa que se pare\u00e7a, a carga emotiva, o apelo ao recolhimento e reflex\u00e3o, um desejo entranhado de paz associados aos primeiros passos do cristianismo explicados em narrativas milenares.<\/p>\n<p>O Natal que entre n\u00f3s se celebra nada tem disso; e defender a paz de forma consequente, isto \u00e9, ir al\u00e9m das palavras vazias e hip\u00f3critas, tornou-se praticamente proibido ou um comportamento sujeito a rajadas de acusa\u00e7\u00f5es e insultos.<\/p>\n<p>Evocar nas mensagens oficiais e nas pr\u00e9dicas religiosas crist\u00e3s desta \u00e9poca a trag\u00e9dia sangrenta de Gaza, na Terra Santa, desejar \u00aba esperan\u00e7a em que uma mulher gr\u00e1vida d\u00ea \u00e0 luz um filho vivo, num hospital, e n\u00e3o uma crian\u00e7a morta, diante de um posto de controlo militar\u00bb, como escreveu o poeta palestino Mahmmud Darwish, seria um pequeno mas muito simb\u00f3lico gesto para nos devolver, ainda que por uns instantes, ao ambiente s\u00e3o, sens\u00edvel, humanista e pacifista de Bel\u00e9m, na Palestina. Caso contr\u00e1rio, os dignit\u00e1rios crist\u00e3os que tomaram a decis\u00e3o de n\u00e3o festejar e n\u00e3o engalanar o Natal de Bel\u00e9m, em sinal de luto pelas v\u00edtimas da nakba, holocausto ou matan\u00e7a na Faixa de Gaza, n\u00e3o passar\u00e3o de uns despropositados estraga-natais. Mais desconcertante ainda, isso dir-nos-\u00e1 que \u00aba cristandade\u00bb e a sua autoinduzida voca\u00e7\u00e3o civilizacional se esqueceram, h\u00e1 muito, dos caminhos de Bel\u00e9m; terra que, interpretando os sinais dos tempos, est\u00e1 muito mais perto de ser arrasada do que louvada.<\/p>\n<p>Ignoro se a jornalista e escritora norte-americana Caitlin Johnstone \u00e9 cat\u00f3lica, protestante, evang\u00e9lica, judia, mu\u00e7ulmana, budista, agn\u00f3stica, ateia. O que interessa isso? Sei apenas que deixou uma mensagem para este Natal, geograficamente distante, mas sintonizada com o esp\u00edrito realista, despido de hipocrisias, que ser\u00e1 adotado em Bel\u00e9m. \u00abN\u00e3o vou desviar o olhar\u00bb de Gaza, promete. \u00abN\u00e3o vou desviar o olhar, porque mesmo na minha impot\u00eancia para ajudar ainda tenho o poder de testemunhar (\u2026) Por mais insultos e acusa\u00e7\u00f5es que me fa\u00e7am por n\u00e3o desviar o olhar, n\u00e3o vou desviar o olhar (\u2026) N\u00e3o importa quantas raz\u00f5es os propagandistas e manipuladores inventem para me obrigarem a olhar para outro lado, n\u00e3o vou desviar o olhar.\u00bb<\/p>\n<p>Se muitos milh\u00f5es de pessoas atrav\u00e9s do planeta guardarem uns momentos para fazer o mesmo e contribu\u00edrem para travar os tormentos na Faixa de Gaza e em toda a Palestina, ent\u00e3o este Natal ter\u00e1 valido a pena porque ajudou a cumprir desejos que, restaurando o esp\u00edrito de Bel\u00e9m, na Terra Santa, dizem estar-lhe associados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31207\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[65,10,78],"tags":[233],"class_list":["post-31207","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional","category-s19-opiniao","category-c91-solidariedade-a-palestina","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-87l","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31207","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31207"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31207\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31209,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31207\/revisions\/31209"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}