{"id":31469,"date":"2024-03-15T23:30:04","date_gmt":"2024-03-16T02:30:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=31469"},"modified":"2024-03-15T23:30:04","modified_gmt":"2024-03-16T02:30:04","slug":"comicio-da-central-60-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31469","title":{"rendered":"Com\u00edcio da Central, 60 anos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"31470\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31469\/comicio_da_central_do_brasil\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/comicio_da_central_do_brasil.jpg?fit=727%2C427&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"727,427\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"comicio_da_central_do_brasil\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/comicio_da_central_do_brasil.jpg?fit=727%2C427&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-31470\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/comicio_da_central_do_brasil.jpg?resize=727%2C427&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"727\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/comicio_da_central_do_brasil.jpg?w=727&amp;ssl=1 727w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/comicio_da_central_do_brasil.jpg?resize=300%2C176&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 727px) 100vw, 727px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Foto: Arquivo Nacional \/ Correio da Manh\u00e3<\/p>\n<p>\u00c9 preciso estar atento e forte<br \/>\nEsquecer o golpe e a ditadura como \u201ccoisas do passado\u201d, interditar \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de governo promoverem eventos que recuperem a cat\u00e1strofe que o per\u00edodo significou, \u00e9 uma ofensa aos que resistiram e uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 classe trabalhadora. \u00c9 assumir, voluntariamente, o risco de favorecer a reescrita da hist\u00f3ria, como a produ\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica neofascista vem fazendo nos \u00faltimos anos, exaltando a \u201cobra\u201d da ditadura.<\/p>\n<p>Por Leonardo Silva Andrada<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Em 13 de mar\u00e7o de 1964, uma multid\u00e3o se aglomerou em frente \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Central do Brasil. Ap\u00f3s tr\u00eas horas de discursos em defesa do povo e da na\u00e7\u00e3o, contra o latif\u00fandio e o imperialismo, subiu ao palco o Presidente da Rep\u00fablica. O governo Jo\u00e3o Goulart, desde que se livrara das amarras do parlamentarismo imposto pelo setor reacion\u00e1rio concentrado na UDN, acenava para sua base de apoio entre os trabalhadores, mas conduzia uma pol\u00edtica econ\u00f4mica que em larga medida atendia aos interesses do capital. Enfrentava, com isso, press\u00f5es de ambos os lados, com os trabalhadores organizados e pressionando por uma pol\u00edtica decididamente favor\u00e1vel a suas demandas, enquanto fra\u00e7\u00f5es burguesas, fazendeiros e representantes do capital externo se articulavam em conspira\u00e7\u00f5es com setores das For\u00e7as Armadas. Por muito que j\u00e1 se aguardasse um golpe que vinha sendo nutrido h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, tanto governo quanto seus apoiadores acreditavam contar com um dispositivo militar, um acalantado setor nacionalista entre as Armas, que permaneceria leal a Jango e defenderia os interesses nacionais contra o golpe reacion\u00e1rio, de car\u00e1ter antipopular e antinacional.<\/p>\n<p>Em seu discurso, o presidente abandonou o vacilo que caracterizava seu mandato e assumiu abertamente a posi\u00e7\u00e3o nacional-reformista, sintetizada em um programa de reformas que deveria estabelecer os alicerces da verdadeira independ\u00eancia nacional, acompanhada de melhoria no padr\u00e3o de vida das classes trabalhadoras. As Reformas de Base envolviam, entre as a\u00e7\u00f5es de maior destaque, realizar uma reforma agr\u00e1ria, enfrentando o ancestral problema do exclusivo agr\u00e1rio, obst\u00e1culo material a uma plena moderniza\u00e7\u00e3o, concomitante \u00e0 promulga\u00e7\u00e3o de um Estatuto do Trabalhador Rural, que deveria estender aos trabalhadores do campo os direitos que a CLT restringiu aos urbanos; a reforma urbana, em combate \u00e0 especula\u00e7\u00e3o para garantir moradia a todos; uma pequena reforma banc\u00e1ria, que sem tocar na fortuna dos financistas, pretendia favorecer a oferta de cr\u00e9dito para impulsionar as iniciativas desenvolvimentistas; na educa\u00e7\u00e3o, um programa nacional de alfabetiza\u00e7\u00e3o que aproveitaria a experi\u00eancia bem sucedida de Paulo Freire com cortadores de cana em Pernambuco, uma reforma universit\u00e1ria para superar o peso das tradi\u00e7\u00f5es que engessavam a vida acad\u00eamica, e a valoriza\u00e7\u00e3o do magist\u00e9rio; uma reforma fiscal que promovesse justi\u00e7a na arrecada\u00e7\u00e3o e regulamentasse adequadamente o envio de lucros das multinacionais para suas matrizes; e uma reforma eleitoral que devolveria a legalidade ao PCB, atuando na ilegalidade desde a cassa\u00e7\u00e3o de seu registro, em 1947.<\/p>\n<p>Ainda que tenha sido apenas um gesto pol\u00edtico, sinalizando a disposi\u00e7\u00e3o de se empenhar na consolida\u00e7\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o burguesa que os supostos interessados nunca tenham se disposto a conduzir, esta era uma rota de desenvolvimento capitalista que extrapolava em muito os apertados marcos da via colonial que sempre caracterizou nossa moderniza\u00e7\u00e3o conservadora. Nosso processo hist\u00f3rico de objetiva\u00e7\u00e3o do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o campeou pela concilia\u00e7\u00e3o entre os dominantes, como estrat\u00e9gia segura para a permanente exclus\u00e3o popular da vida p\u00fablica, garantindo a preserva\u00e7\u00e3o de uma explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em patamares que permitem margens de acumula\u00e7\u00e3o portentosas, mesmo com o ped\u00e1gio devido ao imp\u00e9rio. Nossos compatriotas burgueses, incapazes de construir sua pr\u00f3pria hegemonia, encontraram a solu\u00e7\u00e3o para encaminhar seus interesses na composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com o latif\u00fandio descendente do sistema de capitanias heredit\u00e1rias. Conciliar imp\u00f5e custos, e o pre\u00e7o cobrado \u00e0 burguesia \u00e9 a inviabilidade de completar o seu processo de transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, o que resulta em uma forma\u00e7\u00e3o social capitalista que permanentemente renova as condi\u00e7\u00f5es de preserva\u00e7\u00e3o do atraso.<\/p>\n<p>O hist\u00f3rico Com\u00edcio da Central foi o sinal para acelerar um processo que vinha amadurecendo desde agosto de 1954, quando as \u201cfor\u00e7as e os interesses contra o povo\u201d, que pretendiam dar um golpe em Get\u00falio Vargas, provocaram o suic\u00eddio que causaria a como\u00e7\u00e3o popular e liberaram a for\u00e7a que evitaria esse desfecho por toda a d\u00e9cada seguinte. Foi reeditado em novembro de 1955, quando os mesmos atores, amargurados com a derrota eleitoral da UDN, amea\u00e7aram impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Nessa quadra hist\u00f3rica, cumpriu papel de relevo a resist\u00eancia do setor militar liderado pelo Marechal Lott, que ao mesmo tempo em que evitou o golpe, iluminou a cis\u00e3o entre fac\u00e7\u00f5es militares, que culminaria com a derrota dos nacionalistas, progressivamente expurgados das tr\u00eas for\u00e7as ap\u00f3s o golpe. Os conspiradores n\u00e3o reconheciam a derrota, e novamente se levantaram em agosto de 1961, quando J\u00e2nio Quadros renuncia, e os renitentes liderados por Carlos Lacerda tentam escavar uma possibilidade de manobra, impedindo a posse do vice, Jo\u00e3o Goulart. Uma vez mais, foi fundamental para impedir a vit\u00f3ria da conspira\u00e7\u00e3o, o acerto entre lideran\u00e7as populares e parcelas nacionalistas entre os militares. O trabalhista Leonel Brizola comandou a Rede da Legalidade, e contou com o apoio de sargentos e suboficiais, representantes castrenses do movimento popular que se adensava no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Menos de vinte dias transcorridos do ato na Central do Brasil, as fra\u00e7\u00f5es burguesas, o latif\u00fandio e seus funcion\u00e1rios no sistema pol\u00edtico, for\u00e7as bem modernas associadas ao imperialismo e que historicamente extraem sua vitalidade da manuten\u00e7\u00e3o do atraso, finalmente executaram um golpe de Estado bem-sucedido. Removeram a coaliz\u00e3o que pretendia executar as reformas, instituindo uma autocracia que promoveu as adapta\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 nova etapa do desenvolvimento capitalista dependente projetado para a economia brasileira. Ainda hoje, os efeitos desse processo s\u00e3o marcas profundas no sistema pol\u00edtico, na infraestrutura econ\u00f4mica e na composi\u00e7\u00e3o social do pa\u00eds. Entre as principais tarefas hist\u00f3ricas desempenhadas por esse regime baseado no arb\u00edtrio, constava a destrui\u00e7\u00e3o da base social de sustenta\u00e7\u00e3o do projeto nacional-reformista. O sindicalismo urbano e rural sofreu interven\u00e7\u00f5es \u00e0s centenas, suas principais lideran\u00e7as sofreram toda forma de persegui\u00e7\u00e3o. Logo no primeiro dia, a sede da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes foi invadida e incendiada, simbolizando de forma dram\u00e1tica a repress\u00e3o que sofreria o movimento estudantil. O Partido Comunista Brasileiro, que crescia e se tornava for\u00e7a hegem\u00f4nica no movimento sindical, mesmo nas dif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es de clandestinidade, teve muitos de seus militantes presos e fisicamente aniquilados. O breve sum\u00e1rio aponta alguns dos exemplos tr\u00e1gicos de for\u00e7as populares que foram perseguidas, censuradas, reprimidas, controladas e aniquiladas. A ditadura burgo-militar que se seguiu exterminou quadros valiosos da organiza\u00e7\u00e3o de trabalhadores, para garantir a passagem do projeto de moderniza\u00e7\u00e3o conservadora que promoveria a inser\u00e7\u00e3o subalterna no ciclo internacional do capital monopolista e financeiro.<\/p>\n<p>O intervencionismo controlador, doutrina sintetizada por G\u00f3is Monteiro ainda no primeiro Vargas, permanece uma presen\u00e7a amea\u00e7adora na mentalidade da caserna, mesmo que seus atuais operadores tenham se mostrado ineptos para envolver as fra\u00e7\u00f5es burguesas em seu projeto de poder. No dec\u00eanio entre o suic\u00eddio de Get\u00falio e a deposi\u00e7\u00e3o de Jango, os futuros pr\u00f3ceres da ditadura foram perspicazes o suficiente para compor a coaliz\u00e3o golpista na condi\u00e7\u00e3o de executores. A participa\u00e7\u00e3o de Golbery do Couto e Silva no IPES, junto a representantes das fra\u00e7\u00f5es de ponta da burguesia, do latif\u00fandio, de lideran\u00e7as da UDN e de seus estafetas nos aparelhos ideol\u00f3gicos, \u00e9 um emblema da composi\u00e7\u00e3o do condom\u00ednio golpista por ide\u00f3logos da Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional, dos desertores da concilia\u00e7\u00e3o de classes e de seus agitadores na alta cultura e nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa. A conjura\u00e7\u00e3o vitoriosa em 1964 contava, portanto, com quadros de relevo nos setores envolvidos. Seu suced\u00e2neo em 2022 foi composto por outra cepa de golpistas, animados muito mais pelo deslumbramento com a leitura distorcida da hist\u00f3ria do que por uma acurada an\u00e1lise da conjuntura e da viabilidade de sua interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A chusma que pretendia tomar o poder de assalto ap\u00f3s a derrota eleitoral tinha por ep\u00edtome um capit\u00e3o maliciosamente conduzido \u00e0 reserva, ap\u00f3s tr\u00eas pris\u00f5es por indisciplina. Sua interrompida carreira militar, muito mal avaliada por seus superiores, serviria de inspira\u00e7\u00e3o para a n\u00e3o t\u00e3o breve atua\u00e7\u00e3o legislativa, igualmente tumultuosa e inexpressiva. Envolveu tamb\u00e9m parte da alta oficialidade que alcan\u00e7ou destaque no comando da repress\u00e3o \u00e0s classes baixas, no Brasil e no Haiti, marcada por desmandos, abusos e suspeitas de envolvimento com negociatas. Teve como refer\u00eancia intelectual um astr\u00f3logo cuja pretensa filosofia consistia na tradu\u00e7\u00e3o do virulento anticomunismo estadunidense, embalado em ofensas e palavr\u00f5es; seus disseminadores foram blogueiros e youtubers, cuja indig\u00eancia intelectual n\u00e3o permite opera\u00e7\u00e3o mais qualificada do que a tentativa mambembe de reprodu\u00e7\u00e3o dos xingamentos proferidos pelo professor, e a repeti\u00e7\u00e3o pueril de preconceitos contra minorias. Seus correspondentes na estrutura de classes s\u00e3o, fundamentalmente, elementos da m\u00e9dia burguesia comercial sem qualquer express\u00e3o de lideran\u00e7a no conjunto do setor, tendo conseguido alguma evid\u00eancia com a exposi\u00e7\u00e3o de suas posturas tacanhas nas redes sociais; uma lumpenburguesia relacionada ao extrativismo ilegal e contrabando; e como representantes de verdadeiro peso econ\u00f4mico, setores da agroexporta\u00e7\u00e3o de commodities alijados de suas entidades representativas.<\/p>\n<p>A frustra\u00e7\u00e3o de tr\u00eas ensaios golpistas, entre as elei\u00e7\u00f5es de 2022 e o 8 de janeiro de 2023, n\u00e3o significa a impossibilidade de seu sucesso \u2013 nossa hist\u00f3ria republicana recomenda cautela. Nada garante que os benefici\u00e1rios do circuito financeiro concluam, em algum momento, que a concilia\u00e7\u00e3o imp\u00f5e custos em excesso, e que a remo\u00e7\u00e3o de seus executores se apresente, uma vez mais, como o movimento t\u00e1tico mais ajustado \u00e0 recomposi\u00e7\u00e3o de suas margens de acumula\u00e7\u00e3o. Podem, inclusive, recorrer a essa mesma Armata Brancaleone para completar a tarefa. A consagrada an\u00e1lise do 18 de Brum\u00e1rio demonstrou como o apoio burgu\u00eas serve de contrapeso \u00e0 estupidez dos operadores do golpe e da ditadura. Mais importante que as capacidades intelectuais e pol\u00edtico-administrativas, \u00e9 o suporte conferido pela ades\u00e3o das fra\u00e7\u00f5es dominantes \u00e0 camarilha que controla o Estado, como a hist\u00f3ria do desmonte da ditadura burgo-militar igualmente sinaliza.<\/p>\n<p>\u00c9 pertinente sintetizar o exposto acima: a resist\u00eancia \u00e0s sucessivas tentativas golpistas, entre o supl\u00edcio autoimposto de Get\u00falio e a deposi\u00e7\u00e3o de Jango, resultou, em cada momento, da composi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre um movimento popular vigoroso e que se tornava cada vez mais consistente e aut\u00f4nomo, e um setor militar de orienta\u00e7\u00e3o nacionalista, com uma ala na base da tropa identificada com as demandas da classe trabalhadora. N\u00e3o h\u00e1 no horizonte qualquer ind\u00edcio de forma\u00e7\u00e3o de uma coaliz\u00e3o com esses tra\u00e7os. Desde os primeiros atos de trucul\u00eancia da ditadura de 1\u00ba de abril, os militares identificados com a luta nacional-reformista foram inclu\u00eddos entre os inimigos tratados com maior ferocidade. Foram expulsos, presos, torturados, principalmente os animadores do movimento de sargentos e suboficiais, mas tamb\u00e9m os \u00faltimos comandantes publicamente comprometidos com um projeto nacional independente. Entre as interven\u00e7\u00f5es mais bem sucedidas da ditadura, est\u00e1 a purifica\u00e7\u00e3o das fileiras das For\u00e7as Armadas com o expurgo de todas as bases de conforma\u00e7\u00e3o de um \u201cdispositivo militar\u201d comprometido com seu povo. A propaganda ideol\u00f3gica com maior penetra\u00e7\u00e3o e capilaridade entre a tropa, atualmente, \u00e9 o neofascismo bolsonarista. Por seu turno, o movimento popular vem de d\u00e9cadas de a\u00e7\u00e3o defensiva, diante da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, o desemprego, a precariza\u00e7\u00e3o, a perda de direitos e a consequente subjetividade ultra individualista que emerge desse cen\u00e1rio. A experi\u00eancia concreta de viver nas duras condi\u00e7\u00f5es impostas pelo neoliberalismo imp\u00f5e obst\u00e1culos materiais ao desenvolvimento da solidariedade de classe que impulsiona a organiza\u00e7\u00e3o em sindicatos, movimentos e partidos, fragilizando os operadores pol\u00edticos que podem cumprir o papel de organizar a classe. Como consequ\u00eancia, \u00e9 incontorn\u00e1vel a constata\u00e7\u00e3o de que, se o movimento de massa teve um papel de relevo na derrota do neofascismo, o resultado foi poss\u00edvel gra\u00e7as a uma moment\u00e2nea crise de domina\u00e7\u00e3o no bloco burgu\u00eas, o que deve servir de alerta para os riscos envolvidos na sua eventual recomposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 abusivo insistir, n\u00e3o h\u00e1 no cen\u00e1rio presente qualquer ind\u00edcio de que os representantes da extrema direita estejam efetivamente derrotados, pelo contr\u00e1rio. Os recentes resultados eleitorais na Argentina e Portugal, e uma poss\u00edvel vit\u00f3ria Republicana nos EUA, conduzem a conclus\u00f5es opostas.<\/p>\n<p>Esquecer o golpe e a ditadura como \u201ccoisas do passado\u201d, interditar \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de governo promoverem eventos que recuperem a cat\u00e1strofe que o per\u00edodo significou, \u00e9 uma ofensa aos que resistiram e uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 classe trabalhadora. \u00c9 assumir, voluntariamente, o risco de favorecer a reescrita da hist\u00f3ria, como a produ\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica neofascista vem fazendo nos \u00faltimos anos, exaltando a \u201cobra\u201d da ditadura. Nas condi\u00e7\u00f5es de agita\u00e7\u00e3o e propaganda que os aplicativos de mensagem, redes sociais e demais recursos de internet proporcionam, n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil combater o revisionismo hist\u00f3rico e a profus\u00e3o de fake news. A extrema direita conta com recursos em abund\u00e2ncia, para ter \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o os melhores profissionais e ferramentas que as modernas tecnologias podem oferecer, e os lutadores do povo n\u00e3o podem ser abandonados por representantes que se dedicaram para eleger. \u00c9 preciso estar atento e forte. A mem\u00f3ria do que foi a ditadura serve como impulso para impedir que a brutalidade se repita e como apoio \u00e0 adequada puni\u00e7\u00e3o aos que tentaram reedit\u00e1-la.<\/p>\n<p>Leonardo Silva Andrada \u00e9 professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais do Instituto de Ci\u00eancias Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora. \u00c9 militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31469\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10],"tags":[224],"class_list":["post-31469","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8bz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31469"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31469\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31471,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31469\/revisions\/31471"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}