{"id":31540,"date":"2024-04-08T21:45:48","date_gmt":"2024-04-09T00:45:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=31540"},"modified":"2024-04-08T21:45:48","modified_gmt":"2024-04-09T00:45:48","slug":"o-sionismo-explicado-pelos-sionistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31540","title":{"rendered":"O sionismo explicado pelos sionistas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"31541\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31540\/unnamed1-7\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/unnamed1-1.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"705,470\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed(1)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/unnamed1-1.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-31541\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/unnamed1-1.jpg?resize=705%2C470&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"705\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/unnamed1-1.jpg?w=705&amp;ssl=1 705w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/unnamed1-1.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 705px) 100vw, 705px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Cr\u00e9ditos de imagem: Interfer\u00eancia<\/p>\n<p>\u00abA transfer\u00eancia obrigat\u00f3ria (dos palestinos) permitir-nos-\u00e1 tomar posse de uma imensa regi\u00e3o; e n\u00e3o vejo na transfer\u00eancia obrigat\u00f3ria nada de imoral\u00bb<\/p>\n<p>(David Ben-Gurion, fundador e primeiro chefe de governo do Estado de Israel)<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00abA terra dos \u00e1rabes pertence aos judeus\u00bb<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.abrilabril.pt\/autor\/jose-goulao\">Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/a><\/p>\n<p>ABRILABRIL<\/p>\n<p>O sionismo assumiu abusivamente o monop\u00f3lio do \u00absemitismo\u00bb, de maneira que qualquer cr\u00edtica ou acusa\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria e \u00e0s pr\u00e1ticas do regime de Israel e da doutrina em que se baseia seja considerada uma manifesta\u00e7\u00e3o de antissemitismo.<\/p>\n<p>O sionismo, como doutrina teocr\u00e1tica fundamentalista, \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel de met\u00e1foras inspiradas nas velhas Escrituras em vers\u00f5es com estilo e l\u00e9xico renovados para se adaptarem aos tempos de hoje e penetrarem mais profundamente como ferramentas de propaganda.<\/p>\n<p>A regra n\u00e3o \u00e9 geral porque \u00e0s vezes os antiqu\u00edssimos dizeres b\u00edblicos servem para incitar de maneira figurada \u2013 portanto sempre pass\u00edvel de ser desmentida \u2013 a realiza\u00e7\u00e3o de atos sanguin\u00e1rios que, mesmo sob a existente camp\u00e2nula de impunidade, poderiam at\u00e9 chocar almas sempre dispostas a justificar os mais injustific\u00e1veis comportamentos israelenses.<\/p>\n<p>Dias depois de 7 de Outubro de 2023, quando Israel se lan\u00e7ou em nova fase do genoc\u00eddio em Gaza, Benjamin Netanyahu recorreu ao Deuteron\u00f4mio, livro sagrado comum \u00e0 Tora hebraica e ao Antigo Testamento b\u00edblico, para invocar os vers\u00edculos 15:3 do profeta Samuel: \u00abIsto \u00e9 o que o Senhor Todo-Poderoso diz: vai e fere Amaleque e destr\u00f3i completamente tudo o que eles t\u00eam, n\u00e3o os poupes, mata homens e mulheres, crian\u00e7as e beb\u00eas, bois e ovelhas, camelos e jumentos\u00bb.<\/p>\n<p>Amaleque era, h\u00e1 tr\u00eas mil anos, segundo os livros sagrados, um \u00abreino rival\u00bb do \u00abreino de Israel\u00bb. Netanyahu foi perempt\u00f3rio ao garantir que a escolha da cita\u00e7\u00e3o e o momento para a recordar nada tinham que ver com a opera\u00e7\u00e3o militar em Gaza e os incitamentos ao genoc\u00eddio. Apeteceu-lhe recit\u00e1-la \u2013 n\u00e3o existe outra explica\u00e7\u00e3o. Em seu redor, por\u00e9m, n\u00e3o faltaram as recomenda\u00e7\u00f5es agressivas de ministros, deputados e dignit\u00e1rios religiosos, sublinhando que toda a popula\u00e7\u00e3o de Gaza \u2013 homens, mulheres e crian\u00e7as \u2013 s\u00e3o \u00abalvos leg\u00edtimos\u00bb das tropas israelenses.<\/p>\n<p>No dia-a-dia do sionismo abundam, por\u00e9m, met\u00e1foras de formula\u00e7\u00e3o bem mais grosseira, bo\u00e7ais, cru\u00e9is e racistas at\u00e9, isentas das piruetas de linguagem usadas para exp\u00f4r os requintes de maldade cultivados no Antigo Testamento. As mais frequentes, e que traduzem na perfei\u00e7\u00e3o o culto supremacista dos seguidores desta doutrina, s\u00e3o as met\u00e1foras zool\u00f3gicas, repisando o tema da identifica\u00e7\u00e3o dos palestinos com animais.<\/p>\n<p>Ehud Barak foi o \u00faltimo primeiro-ministro do hist\u00f3rico Partido Trabalhista, que entrou em fase de dissolu\u00e7\u00e3o com o assassinato de Isaac Rabin em 1995, resultante, sem d\u00favida, de uma conspira\u00e7\u00e3o urdida pela direita usando os colonos e fundamentalistas desequilibrados como executantes. Seguindo o caminho tradicional para identificar quem lucrou com o crime, na primeira linha de suspeitos est\u00e3o Ariel Sharon e Benjamin Netanyahu, que repartiram o lugar de primeiro-ministro quase por inteiro nos \u00faltimos 30 anos, precisamente desde a liquida\u00e7\u00e3o de Rabin.<\/p>\n<p>Barak ocupou o cargo esporadicamente no in\u00edcio do s\u00e9culo e mant\u00e9m-se plenamente na ativa, embora sem pouso pol\u00edtico certo. Segundo ele, de extra\u00e7\u00e3o trabalhista e alegadamente secular como Ben-Gurion, Golda Meir e Isaac Rabin, \u00abos palestinos s\u00e3o como os crocodilos, quanto mais carne se lhes d\u00e1 mais querem\u00bb. Tornou p\u00fablica esta teoria, inspirada, por certo, nos documentos sobre a vida animal de Sir David Attenborough, a prop\u00f3sito das \u00abnegocia\u00e7\u00f5es\u00bb com a parte palestina iniciadas no \u00e2mbito dos Acordos de Oslo de 1993 e depois sabotadas pelo regime sionista e pelos \u00abmediadores\u00bb estadunidenses.<\/p>\n<p>O j\u00e1 citado Ovadia Yosef, grande rabino sefardita e chefe at\u00e9 2014 do partido fundamentalista Shas, refletiu publicamente sobre a exist\u00eancia de \u00e1rabes na \u00abTerra de Israel\u00bb testemunhando que \u00abpululam como formigas na Cidade Velha de Jerusal\u00e9m: que v\u00e3o para o diabo, o Messias ir\u00e1 expedi-los para o inferno\u00bb.<\/p>\n<p>Nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, Mosha Smilanski foi um escritor sionista e, simultaneamente, um latifundi\u00e1rio que lan\u00e7ou a \u00abAssocia\u00e7\u00e3o de Agricultores\u00bb na Palestina sob Mandato Brit\u00e2nico. Da sua atividade concluiu que \u00abestamos confrontados com um povo semi-selvagem com conceitos extremamente primitivos (\u2026) e um \u00f3dio secreto aos judeus. Esta ra\u00e7a semita (os \u00e1rabes) \u00e9 antissemita\u00bb.<\/p>\n<p>Zev Boim, deputado israelense eleito pelo partido \u00abcentrista\u00bb Kadima, que h\u00e1 poucos anos entrou em alian\u00e7as com o Likud de Netanyahu, \u00e9 autor de uma defini\u00e7\u00e3o brilhante sobre as caracter\u00edsticas raciais dos \u00e1rabes e dos mu\u00e7ulmanos em geral. Eis as suas reflex\u00f5es: \u00abQue h\u00e1 no Isl\u00e3 em geral e nos palestinos em particular? \u00c9 uma esp\u00e9cie de car\u00eancia cultural? Um defeito gen\u00e9tico? Neste desejo permanente de matar h\u00e1 qualquer coisa que desafia as explica\u00e7\u00f5es\u2026\u00bb<\/p>\n<p>O latifundi\u00e1rio Smilanski, por\u00e9m, reconhecera que os \u00e1rabes s\u00e3o \u00abuma ra\u00e7a semita\u00bb, realidade que hoje \u00e9 silenciada por raz\u00f5es \u00f3bvias da propaganda sionista, seguida sem reservas pelas \u00e1reas pol\u00edticas e midi\u00e1ticas que a disseminam.<br \/>\nO sionismo explicado pelos sionistas. Doutrina racista e de limpeza \u00e9tnica<\/p>\n<p>O sionismo assumiu abusivamente o monop\u00f3lio do \u00absemitismo\u00bb, de maneira que qualquer cr\u00edtica ou acusa\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria e \u00e0s pr\u00e1ticas do regime de Israel e da doutrina em que se baseia seja considerada uma manifesta\u00e7\u00e3o de antissemitismo. Pelo que a condena\u00e7\u00e3o das chacinas em curso em Gaza ou mesmo as decis\u00f5es do Tribunal Internacional de Justi\u00e7a sobre a conduta de Israel nesse territ\u00f3rio sejam consideradas, e n\u00e3o apenas em Israel, express\u00f5es de antissemitismo. O regime de Macron na Fran\u00e7a tem desenvolvido dilig\u00eancias para que atos de \u00abantissemitismo\u00bb como estes sejam penalizados com penas de pris\u00e3o que podem chegar a cinco anos.<\/p>\n<p>Basta, para isso, que algu\u00e9m viole supostamente a defini\u00e7\u00e3o oficial de antissemitismo delegada pelo sionismo numa entidade sionista designada \u00abAlian\u00e7a Internacional de Recorda\u00e7\u00e3o do Holocausto\u00bb (AIRH): \u00abAntissemitismo s\u00e3o as alega\u00e7\u00f5es falsas, desumanizadoras, diab\u00f3licas ou estereotipadas sobre os judeus em si ou o poder dos judeus como grupo\u00bb; e tamb\u00e9m \u00abculpar os judeus por coisas que n\u00e3o corram bem\u00bb.<\/p>\n<p>A caracteriza\u00e7\u00e3o est\u00e1 viciada da primeira \u00e0 \u00faltima palavra. Considera todos os membros da comunidade judaica mundial como sionistas; confunde a etnia hebraica com a globalidade do \u00absemitismo\u00bb, o que \u00e9 deliberadamente falso porque ignora a generalidade dos povos semitas, designadamente os \u00e1rabes, escondendo que o pr\u00f3prio conceito oficial de sionismo assim definido \u00e9 antissemita. O que ali\u00e1s est\u00e1 expl\u00edcito nas palavras de Mosha Smilanski atr\u00e1s citadas: \u00e1rabes s\u00e3o \u00abuma ra\u00e7a semita antissemita\u00bb. Pela mesma ordem de ideias, a defini\u00e7\u00e3o da AIRH \u00e9 antissemita porque atribui o monop\u00f3lio do \u00absemitismo\u00bb ao \u00abpovo judeu\u00bb, neste caso \u00e0 sua minoria inserida no conceito de sionismo. Segrega, portanto, os povos \u00e1rabes e os pr\u00f3prios extratos de judeus que n\u00e3o se identificam com o sionismo.<\/p>\n<p>A viciada identifica\u00e7\u00e3o absoluta entre o sionismo e o semitismo, excluindo boa parte do juda\u00edsmo e a generalidade dos outros povos semitas, \u00e9 uma antiga estrat\u00e9gia de propaganda da doutrina do Estado de Israel para universalizar a acusa\u00e7\u00e3o de antissemita a quem n\u00e3o se identifica com as pr\u00e1ticas israelenses.<\/p>\n<p>Abba Eban, vice-primeiro ministro, ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros e representante de Israel nas Na\u00e7\u00f5es Unidas nos governos de Golda Meir, deixou bem clara essa estrat\u00e9gia: \u00abUma das tarefas principais de qualquer di\u00e1logo com o mundo \u00e9 provar que a distin\u00e7\u00e3o entre antissemitismo e antissionismo n\u00e3o existe\u00bb.<br \/>\nTeses de exterm\u00ednio<\/p>\n<p>A limpeza \u00e9tnica que as tropas de Israel est\u00e3o fazendo em Gaza n\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica criminosa original, tempor\u00e1ria e isolada. \u00c9 a estrat\u00e9gia de base da cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel e um conceito primordial da doutrina sionista, n\u00e3o formulado por estas palavras mas explicitado em m\u00faltiplas declara\u00e7\u00f5es, ao longo de d\u00e9cadas, proferidas por altos respons\u00e1veis do sionismo.<\/p>\n<p>Ben-Gurion e o general Moshe Dayan, um militar pol\u00eamico que integrou o grupo terrorista Haganah e foi considerado um her\u00f3i nas campanhas da independ\u00eancia, da guerra contra o Egito em 1956 e da Guerra dos Seis Dias, em 1967, fizeram considera\u00e7\u00f5es confirmando a impossibilidade de Israel existir sem uma limpeza \u00e9tnica contra os \u00e1rabes da Palestina.<\/p>\n<p>Em 1969, numa confer\u00eancia perante estudantes universit\u00e1rios, Dayan afirmou que \u00abn\u00e3o existe um \u00fanico lugar constru\u00eddo neste pa\u00eds que n\u00e3o tenha tido uma popula\u00e7\u00e3o \u00e1rabe\u00bb. Moshe Dayan terminou a sua carreira pol\u00edtico-militar quando defendeu a retirada unilateral israelense dos territ\u00f3rios ocupados em 1967, contrariando a pol\u00edtica do primeiro-ministro, Menahem Begin, no sentido de consumar a anexa\u00e7\u00e3o da Cisjord\u00e2nia, de Gaza e dos Montes Gol\u00e3, territ\u00f3rio s\u00edrio.<\/p>\n<p>O general que considerava \u00abn\u00e3o haver nada mais excitante do que a guerra\u00bb, n\u00e3o perdeu, por outro lado, a perspectiva da viol\u00eancia necess\u00e1ria para concretizar os objetivos do sionismo.<\/p>\n<p>Numa homenagem f\u00fanebre a um militar israelense morto pela resist\u00eancia palestina em Gaza, em abril de 1956, Moshe Dayan afirmou: \u00abN\u00e3o culpemos os assassinos de hoje (\u2026) H\u00e1 oito anos que est\u00e3o nos seus campos de refugiados em Gaza enquanto, sob os seus olhos, temos vindo a transformar as terras e as aldeias onde eles e os seus pais habitavam em propriedade nossa\u00bb.<\/p>\n<p>Dayan conhecia bem e assumia a realidade. As suas palavras poderiam ser pronunciadas hoje substituindo \u00aboito anos\u00bb por \u00ab75 anos\u00bb \u2013 a limpeza \u00e9tnica continua. Como confirma Avi Dichter, ministro do Likud entre 2006 e 2009 e chefe do Shin Beth (pol\u00edcia secreta interna) em 2023, \u00abEstamos em vias de realizar uma nova Nakba em Gaza. Nakba Gaza 2023, isto acabar\u00e1 assim\u00bb.<\/p>\n<p>Nakba \u00e9 a expuls\u00e3o de 750 mil palestinos das suas terras, aldeias, cidades e casas em 1948-49, durante o per\u00edodo de cria\u00e7\u00e3o e instaura\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, a primeira grande limpeza \u00e9tnica organizada e desenvolvida pelo sionismo. O conceito \u00abNakba Gaza 2023\u00bb exposto por Dichter n\u00e3o deixa d\u00favidas de que estamos nestes dias perante uma opera\u00e7\u00e3o de limpeza \u00e9tnica, uma viola\u00e7\u00e3o crua do direito internacional e um crime grosseiro contra a humanidade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Ben-Gurion, tal como Moshe Dayan, mas cerca de 20 anos antes, admitiu que o processo de cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel exigia uma transforma\u00e7\u00e3o total na estrutura demogr\u00e1fica da Palestina: \u00abO pa\u00eds \u00e9 deles (os \u00e1rabes) porque eles o habitam enquanto n\u00f3s queremos vir para c\u00e1 nos estabelecer e, na vis\u00e3o deles, queremos lhes tirar-lhes o pa\u00eds enquanto vivemos ainda no exterior\u00bb, declarou o fundador do Estado de Israel perante o Comit\u00ea Pol\u00edtico do partido Mapai (trabalhista) em 7 de junho de 1938. Durou pouco a aparente conten\u00e7\u00e3o do discurso de Ben-Gurion. Ainda no mesmo ano proclamou que \u00aba transfer\u00eancia obrigat\u00f3ria permitir-nos-\u00e1 tomar posse de uma imensa regi\u00e3o; e n\u00e3o vejo na transfer\u00eancia obrigat\u00f3ria nada de imoral\u00bb.<\/p>\n<p>Apesar das aparentes diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas, o trabalhista Ben-Gurion limitou-se, por\u00e9m, a ecoar recomenda\u00e7\u00f5es emanadas anteriormente pelo revisionista e ultradireitista Vladimir Jabotinsky, a quem o primeiro primeiro-ministro israelense chamava \u00abo fascista\u00bb: \u00abn\u00e3o h\u00e1 alternativa: os \u00e1rabes devem dar lugar aos judeus no Grande Israel\u00bb. J\u00e1 em 1920, antes de Jabotinsky lan\u00e7ar o movimento revisionista do sionismo para contrabalan\u00e7ar o \u00absocialismo\u00bb dominante nos primeiros anos da coloniza\u00e7\u00e3o, o jornalista sionista ingl\u00eas Israel Zangwill alertara que \u00abdevemos nos preparar para expulsar (os \u00e1rabes) pela for\u00e7a, tal como fizeram os nossos antepassados\u00bb \u2013 uma esp\u00e9cie de regresso ao mito fundador do Reino de Israel (alegadamente 930-720 A.C.), quando as 12 tribos de Mois\u00e9s expulsaram os cananeus. Muitos eruditos israelenses contestam a vers\u00e3o b\u00edblica destes acontecimentos e outros, embora aceitando a narrativa do Antigo Testamento em geral, consideram que foi muito ficcionada.<\/p>\n<p>Na altura da independ\u00eancia do Estado sionista, em 1948, Menahem Begin, chefe do grupo terrorista Irgun e futuro primeiro-ministro e Pr\u00eamio Nobel da Paz, e para quem \u00abos palestinos s\u00e3o animais que andam sobre duas patas\u00bb, assegurou que \u00aba partilha da Palestina\u00bb, decidida pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, \u00ab\u00e9 ilegal e jamais ser\u00e1 reconhecida\u00bb \u2013 como o Parlamento de Israel acaba de decidir ao se recusar a admitir a chamada \u00absolu\u00e7\u00e3o de dois Estados\u00bb. Begin estipulou ainda que \u00abo Grande Israel ser\u00e1 restaurado pelo povo de Israel por inteiro e para sempre\u00bb. Cerca de quarenta anos depois, em 1987, o deputado e chefe do partido governamental ultradireitista Moledet, Rehavam Zeevi, postulou que \u00abo sionismo \u00e9 por ess\u00eancia um sionismo de transfer\u00eancia\u00bb.<\/p>\n<p>Prestes a assumir o cargo de primeiro-ministro do novo Estado, Ben-Gurion rejeitou implicitamente a resolu\u00e7\u00e3o de partilha da Palestina em dois Estados, aprovada pela Assembleia-Geral da ONU, afirmando que \u00abo importante n\u00e3o \u00e9 o que os goyim (n\u00e3o-judeus) dizem, mas o que os judeus fazem\u00bb. O desafio do sionismo ao direito internacional percorre os quase 150 anos de exist\u00eancia da doutrina lan\u00e7ada por Theodor Herzl.<br \/>\nRefugiados \u00abeternos\u00bb e genoc\u00eddio<\/p>\n<p>A limpeza \u00e9tnica gera a trag\u00e9dia dos refugiados, milh\u00f5es de refugiados, neste caso abrangendo v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de fam\u00edlias e distribu\u00eddos por todo o mundo, com especial incid\u00eancia nos pa\u00edses vizinhos da Palestina.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda os refugiados palestinos \u00abinternos\u00bb, os que foram deslocados das suas aldeias e cidades, das suas casas, para campos de refugiados na Cisjord\u00e2nia e em Gaza. Est\u00e3o, por conseguinte, amea\u00e7ados de nova limpeza \u00e9tnica, como a que est\u00e1 acontecendo em Gaza e tamb\u00e9m na Cisjord\u00e2nia \u2013 mais lenta e repartida, desenvolvida essencialmente atrav\u00e9s do processo de coloniza\u00e7\u00e3o que os dirigentes de Israel consideram irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>A ONU e a legisla\u00e7\u00e3o internacional estabelecem que os refugiados palestinos t\u00eam \u00abo direito de retorno\u00bb, isto \u00e9, qualquer solu\u00e7\u00e3o regional que venha a ser encontrada implica no regresso dos palestinos \u00e0 Palestina. Os dirigentes sionistas n\u00e3o admitem, sequer, que se fale nisso e a sua posi\u00e7\u00e3o tem prevalecido, como ali\u00e1s acontece com todas as ilegalidades que o regime israelense cometeu e comete.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1923 o sionista mussoliniano Vladimir Jabotinsky escrevia o seguinte na sua obra N\u00f3s e os \u00c1rabes: \u00abNecessitamos de um muro de ferro que esteja em posi\u00e7\u00e3o de resistir \u00e0 press\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nativa (\u2026) uma vez que a reconcilia\u00e7\u00e3o com os \u00e1rabes est\u00e1 fora de quest\u00e3o, agora e no futuro\u00bb. E a coloniza\u00e7\u00e3o, acrescentou, \u00abtem de se fazer contra a vontade da popula\u00e7\u00e3o nativa\u00bb.<\/p>\n<p>O muro recomendado h\u00e1 cem anos pelo \u00abmaior judeu depois de Herzl\u00bb, segundo Menahem Begin, n\u00e3o \u00e9 de ferro mas de bet\u00e3o (uma mistura de \u00e1gua, cimento e agregados), encimado por arame farpado a uma altura de tr\u00eas metros. Foi erguido para isolar as comunidades palestinas na Cisjord\u00e2nia, e deste territ\u00f3rio com Jerusal\u00e9m Leste, dividindo at\u00e9 fam\u00edlias e propriedades rurais, sem que a chamada comunidade internacional fizesse e fa\u00e7a um \u00fanico movimento para derrubar esse s\u00edmbolo arquitet\u00f4nico de apartheid que replica os m\u00e9todos do racismo sul-africano para cria\u00e7\u00e3o dos bantust\u00f5es. Entretanto, com imensa coer\u00eancia, a mesma comunidade internacional celebra anualmente a queda do muro em Berlim.<\/p>\n<p>\u00abDevemos estar seguros de que os palestinos n\u00e3o voltam\u00bb, proclamou David Ben-Gurion quando assumiu a cadeira de chefe do governo do novo Estado de Israel. Em visita \u00e0 cidade de Nazar\u00e9 logo que foi ocupada pelo terrorismo sionista, o primeiro-ministro enfureceu-se com a presen\u00e7a de \u00abtantos \u00e1rabes\u00bb. \u00abPor que n\u00e3o os expulsaram?\u00bb, perguntou.<\/p>\n<p>Moshe Sharett, ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros trabalhista na d\u00e9cada de cinquenta do s\u00e9culo passado, visto como \u00abum moderado\u00bb, abordou o tema considerando que \u00abos refugiados encontrar\u00e3o o seu lugar na di\u00e1spora; gra\u00e7as \u00e0 sele\u00e7\u00e3o natural, alguns resistir\u00e3o, outros n\u00e3o. A maioria se tornar\u00e1 um refugo do g\u00eanero humano e se fundir\u00e1 nas camadas mais pobres do mundo \u00e1rabe\u00bb. A \u00abmodera\u00e7\u00e3o\u00bb sionista \u00e9, percebe-se, bastante humanista.<\/p>\n<p>O direito internacional estabelece que os campos de refugiados palestinos sejam transit\u00f3rios, em fun\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de um \u00abdireito de retorno\u00bb. Todas as declara\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas de respons\u00e1veis sionistas representam um desafio permanente \u00e0s normas legais, tornando as expuls\u00f5es irrevers\u00edveis e os campos de refugiados definitivos. Mais uma vez, o poder sionista faz pender o fiel da balan\u00e7a para o lado da ilegalidade, uma situa\u00e7\u00e3o que se tornou t\u00e3o banal como o assassinato di\u00e1rio de dezenas ou centenas de palestinos ref\u00e9ns da tropa, da pol\u00edcia e dos colonos sionistas.<\/p>\n<p>Os campos de refugiados s\u00e3o alvos f\u00e1ceis para que as tropas e a pol\u00edcia israelenses fa\u00e7am os seus assaltos punitivos regulares, al\u00e9m das opera\u00e7\u00f5es de busca e pris\u00f5es arbitr\u00e1rias para tentar vergar o \u00e2nimo e a capacidade de resist\u00eancia das comunidades palestinas. O general Moshe Dayan j\u00e1 dizia h\u00e1 mais de 50 anos que \u00abat\u00e9 agora o m\u00e9todo de puni\u00e7\u00e3o coletiva tem-se mostrado muito eficaz\u00bb.<\/p>\n<p>Nem todos os dirigentes e porta-vozes israelenses acham suficientes as expuls\u00f5es inseridas no longo processo de limpeza \u00e9tnica da popula\u00e7\u00e3o palestina. O chefe de Estado sionista em fun\u00e7\u00f5es, Isaac Herzog, proclama que \u00abn\u00e3o \u00e9 verdade essa ret\u00f3rica de que os civis n\u00e3o est\u00e3o conscientes, n\u00e3o est\u00e3o implicados\u00bb em epis\u00f3dios de viol\u00eancia. Por isso recomenda: \u00abvamos lutar at\u00e9 partir-lhes a coluna vertebral\u00bb.<\/p>\n<p>H\u00e1 varia\u00e7\u00f5es sobre o mesmo tema, numa desgarrada sinistra. Avigdor Lieberman, porteiro de discoteca na Mold\u00e1via que de maneira fulminante chegou a ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros e da Defesa de governos de Netanyahu, prop\u00f4s que \u00abos prisioneiros palestinos sejam transportados de \u00f4nibus para o Mar Morto e afogados\u00bb.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o em Gaza tem sido inspiradora da criatividade criminosa e genocida de figuras gra\u00fadas do sionismo. Eli Yishai, dirigente do partido sefardita Shas e ministro do Interior entre 2009 e 2013, manifestou a opini\u00e3o de que \u00abdevemos devolver Gaza \u00e0 Idade M\u00e9dia destruindo todas as infraestruturas, incluindo estradas e \u00e1gua\u00bb. A tropa est\u00e1 cumprindo as suas recomenda\u00e7\u00f5es. Moshe Feiglin, ultradireitista membro da ala \u00ablibert\u00e1ria\u00bb do Likud, o partido de Netanyahu, assegura que \u00aba limpeza \u00e9tnica de Gaza permitiria resolver o problema da habita\u00e7\u00e3o em Israel\u00bb.<\/p>\n<p>Danny Yalom, ex-vice-ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, glosa o tema na perspectiva de um outro problema de habita\u00e7\u00e3o, este decorrente da limpeza \u00e9tnica: o dos palestinos de Gaza. \u00abN\u00e3o lhes dizemos para irem para a praia e se afogarem\u00bb, esclareceu. \u00abDeus n\u00e3o permite isso; h\u00e1 uma imensa \u00e1rea, um espa\u00e7o quase infinito no deserto do Sinai, mesmo do outro lado de Gaza. N\u00f3s e a comunidade internacional proporcionaremos as infraestruturas, aldeias de tendas com alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e1gua\u00bb.<\/p>\n<p>Amichai Eliyahu, ministro do Patrim\u00f4nio de Benjamin Netanyahu, leva muito a s\u00e9rio as tarefas que o cargo lhe exige. \u00abO norte de Gaza est\u00e1 mais belo do que nunca\u00bb, aprecia. \u00abAgora \u00e9 fazer explodir tudo e terraplanar. Uma vez terminado daremos tudo aos soldados e aos colonos que viviam em Gush Khatib\u00bb, o conjunto de colonatos que existiu na apraz\u00edvel costa mediterr\u00e2nica de Gaza antes de 2006, ano em que o primeiro-ministro Ariel Sharon mandou retirar os sionistas do territ\u00f3rio para poder cerc\u00e1-lo.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda os proeminentes pol\u00edticos israelenses incapazes de esconderem as compuls\u00f5es genocidas. Rafael Eitan, ministro da Agricultura entre 1996 e 1999 e, antes disso, chefe das For\u00e7as Armadas que comandou operacionalmente a agress\u00e3o ao L\u00edbano e os massacres de Sabra e Chatila no Ver\u00e3o de 1982, considera que \u00abdevemos fazer tudo para tornar os palestinos miser\u00e1veis a ponto de irem embora; h\u00e1 que acabar com eles\u00bb.<\/p>\n<p>Mais direto, por\u00e9m, do que o rabino Israel Hess, da Universidade de Bar-Ilan, ningu\u00e9m conseguir\u00e1 ser: \u00abtemos toda a obriga\u00e7\u00e3o de fazer o genoc\u00eddio\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31540\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9,65,255,10,78],"tags":[227],"class_list":["post-31540","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","category-c78-internacional","category-israel","category-s19-opiniao","category-c91-solidariedade-a-palestina","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8cI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31540","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31540"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31540\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31542,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31540\/revisions\/31542"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31540"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31540"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31540"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}