{"id":31543,"date":"2024-04-08T21:53:45","date_gmt":"2024-04-09T00:53:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=31543"},"modified":"2024-04-08T21:53:45","modified_gmt":"2024-04-09T00:53:45","slug":"sionismo-como-pensa-e-age-a-raca-pura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31543","title":{"rendered":"Sionismo: como pensa e age a \u00abra\u00e7a pura\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"31544\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31543\/unnamed2-3\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/unnamed2-1.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"705,470\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed(2)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/unnamed2-1.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-31544\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/unnamed2-1.jpg?resize=705%2C470&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"705\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/unnamed2-1.jpg?w=705&amp;ssl=1 705w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/unnamed2-1.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 705px) 100vw, 705px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Cr\u00e9ditos da imagem\/ Revista Ex\u00edlio<\/p>\n<p>\u00abOs goyim (n\u00e3o-judeus) nasceram para nos servir, apenas para servir o povo de Israel; sem isso n\u00e3o teriam lugar no mundo.\u00bb<\/p>\n<p>(Ovadia Yosef, fundador e chefe do partido governamental israelense Shas)<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"https:\/\/www.abrilabril.pt\/internacional\/o-sionismo-explicado-pelos-sionistas-como-pensa-e-age-raca-pura\">Jos\u00e9 Goul\u00e3o &#8211; AbrilAbril<\/a><\/p>\n<p>O sionismo \u00e9 uma doutrina doentia, aberrante, oportunista e violenta que n\u00e3o pode, nem deve, ser confundida com o juda\u00edsmo e a cultura hebraica, muito menos com os povos semitas.<\/p>\n<p>Os \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanos\u2026 Sempre os \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanos culpados por tudo de mau que acontece aos judeus, a come\u00e7ar por quererem manter-se numa terra que n\u00e3o lhes pertence, uma vez que, voltando a citar o ex-primeiro-ministro israelense Naftali Bennet em 2022: \u00abenquanto voc\u00eas ainda trepavam nas \u00e1rvores, n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos um Estado\u00bb. Esta \u00e9 uma das ess\u00eancias do sionismo e do seu racismo fundamentalista. N\u00e3o \u00e9 que existam formas benignas de racismo, mas, tal como o regime de apartheid \u2013 cujo ide\u00f3logo, Cecil Rhodes, foi t\u00e3o enaltecido pelo fundador do sionismo \u2013, a teoria e pr\u00e1tica em que se assentam o Estado de Israel s\u00e3o um caso extremo e psicopata de racismo cultivado num ambiente doentio em que se cruzam aberra\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas, a crueldade m\u00edstica e s\u00e1dica emanando do Antigo Testamento, os mitos do \u00abpovo escolhido\u00bb e da \u00abterra prometida\u00bb encarados como preceitos divinos a se respeitar, acima de quaisquer leis terrenas e das decis\u00f5es tomadas pelos humanos n\u00e3o-judeus, que afinal existem \u00abapenas para nos servir\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c0 resultante desta mistela de elucubra\u00e7\u00f5es tonificadas por uma fic\u00e7\u00e3o delirante na qual o ser humano que n\u00e3o seja \u00abjudeu\u00bb \u00e9 a menor das preocupa\u00e7\u00f5es do deus do sionismo, chama o Ocidente colectivo \u00aba \u00fanica democracia do M\u00e9dio Oriente\u00bb.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o de Israel como um \u00abpolo da civiliza\u00e7\u00e3o no meio da barb\u00e1rie\u00bb, ou seja, o argumento que est\u00e1 na base do papel colonial e imperial geoestrat\u00e9gico que o regime de Tel Aviv continua a desempenhar, com a crueldade inerente, vem dos prim\u00f3rdios do sionismo; isto \u00e9, a componente m\u00edstica e a nova cruzada na Palestina tiveram tamb\u00e9m no bojo os interesses econ\u00f4micos, financeiros e o controle de rotas comerciais e mat\u00e9rias-primas dos poderes mundiais dominantes, na \u00e9poca o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico. N\u00e3o \u00e9 por acaso que este assumiu o mandato internacional da Palestina, preparando o terreno para que o papel de colonizador transitasse para o sionismo.<\/p>\n<p>Theodor Herzl especificou, no seu trabalho fundador, que um Estado judaico constru\u00eddo pelo sionismo ser\u00e1 \u00abum muro de defesa da Europa na \u00c1sia, um posto avan\u00e7ado da civiliza\u00e7\u00e3o contra a barb\u00e1rie (\u2026) pelo que a Europa dever\u00e1 garantir a nossa seguran\u00e7a\u00bb. Herzl tinha, por certo, veia de \u00abprofeta\u00bb, embora sem o m\u00e9rito dos antigos porque o desfecho era previs\u00edvel perante um quadro de rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as t\u00e3o definido como o da \u00e9poca, tal como o atual \u2013 embora este seja bem mais periclitante. Ali\u00e1s, Joseph Biden parece ter herdado uma costela de Herzl: nos anos oitenta, quando ainda n\u00e3o era guiado pelos auriculares e pelo teleponto, dizia que \u00abo Estado de Israel se n\u00e3o existisse teria de ser inventado\u00bb.<br \/>\nO sionismo explicado pelos sionistas. Doutrina racista e de limpeza \u00e9tnica<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que o atual presidente dos Estados Unidos se define como \u00abum crist\u00e3o sionista\u00bb. O sionismo assegura os interesses terrenos dominantes; a religi\u00e3o, que afinal pode n\u00e3o ser apenas a judaica, garante a mistifica\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria e das realidades pr\u00f3prias do colonialismo, quando n\u00e3o do fascismo, independentemente das \u00e9pocas. Um singelo exemplo dom\u00e9stico: D.\u00aa Lucinda Ribeiro Alves, uma fundadora do Chega, diz-se uma \u00abevang\u00e9lica crist\u00e3 sionista\u00bb, al\u00e9m de seguidora de Bolsonaro.<\/p>\n<p>O sionismo \u00e9 uma doutrina doentia, aberrante, oportunista e violenta que n\u00e3o pode, nem deve, ser confundida com o juda\u00edsmo e a cultura hebraica, muito menos com os povos semitas. O sionismo, seguindo a teoria e a pr\u00e1tica dos seus mentores, \u00e9 uma ideologia antissemita. David Ben Gurion, considerado o fundador do Estado de Israel, que se considerava laico e trabalhista, n\u00e3o deixou d\u00favidas quanto a isso ao afirmar que \u00abas considera\u00e7\u00f5es sionistas prevalecem sobre os sentimentos judaicos e quando o digo n\u00e3o fa\u00e7o mais do que ter em conta os preceitos sionistas\u00bb.<\/p>\n<p>Os conceitos de \u00abra\u00e7a pura\u00bb e \u00abpovo escolhido\u00bb elevam, por\u00e9m, o Estado de Israel para um patamar transcendente; s\u00e3o conceitos assustadores em todos os n\u00edveis e sob quaisquer perspectivas porque sustentam uma entidade supostamente dotada de imunidade, impunidade e de uma miss\u00e3o escatol\u00f3gica associada ao fim do mundo, o Armagedon, a luta final entre o bem e o mal biblicamente programada para o lugar de Meggido, por sinal no interior do territ\u00f3rio israelense. N\u00e3o se creia que estamos apenas perante del\u00edrios m\u00edsticos. Ariel Sharon, criminoso de guerra com o sangue dos m\u00e1rtires de Sabra e Chatila nas m\u00e3os e ex-primeiro ministro de Israel, garantiu numa entrevista ao jornal brit\u00e2nico Guardian que, em caso de confronta\u00e7\u00e3o limite no planeta, \u00abtemos capacidade para destruir o mundo e garanto que isso acontecer\u00e1 antes de Israel se afundar\u00bb.<\/p>\n<p>Sharon nunca foi conhecido por ter muita garganta e ser um fanfarr\u00e3o.<br \/>\n\u00abUm projeto nacionalista, mais nada\u00bb<\/p>\n<p>Sionismo e racismo s\u00e3o indissoci\u00e1veis. Assentam na fic\u00e7\u00e3o m\u00edstica e t\u00eam como objetivo terreno a expans\u00e3o do poder judaico de origem europeia, dotado de um estatuto civilizacional e humanista de que o Ocidente coletivo se declarou propriet\u00e1rio, atrav\u00e9s de vastas zonas de influ\u00eancias econ\u00f4micas, estrat\u00e9gicas e, sobretudo, militares do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Pode dizer-se que o Estado de Israel \u00e9 um pequeno territ\u00f3rio. Pode at\u00e9 acrescentar-se um desabafo da antiga primeira-ministra sionista Golda Meir: \u00abA \u00fanica coisa que tenho contra Mois\u00e9s \u00e9 ele ter andado 40 anos no deserto para nos conduzir ao \u00fanico lugar no Oriente M\u00e9dio que n\u00e3o tem petr\u00f3leo. Se Mois\u00e9s tivesse virado \u00e0 direita em vez de ter virado \u00e0 esquerda ter\u00edamos petr\u00f3leo e os \u00e1rabes areia\u00bb. O errado palpite geogr\u00e1fico de Mois\u00e9s, no entanto, \u00e9 uma coisa que se corrige. Segundo a mesma Golda Meir, \u00aba fronteira de Israel \u00e9 onde os judeus vivem, n\u00e3o onde existe uma linha no mapa\u00bb.<\/p>\n<p>Considera\u00e7\u00f5es afins j\u00e1 tinham sido proferidas por Ben Gurion vinte a trinta anos antes ao enunciar o dogma de que \u00aba pedra de toque do sionismo \u00e9 a verdadeira coloniza\u00e7\u00e3o conduzida por judeus em todas as regi\u00f5es da Terra de Israel\u00bb, um conceito que ent\u00e3o ainda deixou em aberto. Posteriormente o primeiro primeiro-ministro de Israel avan\u00e7ou na especifica\u00e7\u00e3o dessa ideia, embora sem desvendar ainda totalmente o jogo, ao declarar que \u00abo Estado ser\u00e1 apenas uma etapa na realiza\u00e7\u00e3o do sionismo e a sua tarefa \u00e9 preparar a expans\u00e3o; o Estado dever\u00e1 preservar a ordem n\u00e3o apenas pregando a moralidade, mas tamb\u00e9m com metralhadoras, se necess\u00e1rio\u00bb.<\/p>\n<p>Dito e feito. No \u00abprotocolo de governo\u00bb quando se tornou primeiro-ministro, em 1948, Ben Gurion estabeleceu que \u00abdevemos partir para a ofensiva com o objetivo de esmagar o L\u00edbano, a Transjord\u00e2nia (atualmente Jord\u00e2nia) e a S\u00edria\u00bb. Citado pelo Times of Israel, o lend\u00e1rio dirigente sionista e israelense desvendou a sua estrat\u00e9gia militar: \u00abquando bombardearmos Am\u00e3 eliminaremos tamb\u00e9m a Cisjord\u00e2nia e ent\u00e3o a S\u00edria cair\u00e1; sem qualquer esfor\u00e7o militar especial que ponha em perigo as outras frentes, apenas usando as tropas j\u00e1 designadas para essa tarefa, poderemos limpar a Galileia\u00bb, no norte do territ\u00f3rio atual de Israel at\u00e9 \u00e0 fronteira com o L\u00edbano, o que implicou na expuls\u00e3o de pelo menos 100 mil palestinos. Ben Gurion \u00ablimpou\u00bb a Galileia, \u00e9 certo, mas outras al\u00edneas do programa continuam por se cumprir \u2013 percebendo-se, no entanto, que n\u00e3o foram retiradas do pacote de ambi\u00e7\u00f5es sionistas.<\/p>\n<p>Num conselho ao ent\u00e3o jovem oficial Ariel Sharon, dado na sequ\u00eancia do massacre na aldeia de Qibya em 1953 \u2013 chacina de 70 pessoas, dois ter\u00e7os das quais eram mulheres e crian\u00e7as, n\u00e3o faltaram mestres aos genocidas de agora em Gaza \u2013 Ben Gurion disse que \u00aba \u00fanica coisa que interessa \u00e9 podermos existir aqui na terra dos nossos antepassados; e que mostremos aos \u00e1rabes que h\u00e1 um alto pre\u00e7o a pagar pelo assassinato de judeus\u00bb. \u00abExistir\u00bb nesta terra, de acordo com o pensamento do primeiro chefe de um governo israelense, significa \u00abque devemos aceitar as fronteiras de hoje, mas os limites das aspira\u00e7\u00f5es sionistas s\u00e3o uma quest\u00e3o do povo judaico e nenhum fator externo ser\u00e1 capaz de limit\u00e1-lo\u00bb. Palavras que s\u00e3o todo um inequ\u00edvoco programa pol\u00edtico-militar genocida, ignorando deliberadamente o direito internacional.<\/p>\n<p>O rabino Yeuda Leib Maimon, da Ag\u00eancia Judaica, foi mais expl\u00edcito do ponto de vista geogr\u00e1fico ao depor perante as comiss\u00f5es de inqu\u00e9rito da ONU relacionadas com o processo de cria\u00e7\u00e3o de Israel, no fim dos anos quarenta do s\u00e9culo passado; tra\u00e7ou ent\u00e3o o mapa gen\u00e9rico do Grande Israel como objetivo nacionalista do projeto sionista: \u00abA terra prometida estende-se do Nilo ao Eufrates \u2013 integra parte da S\u00edria e do L\u00edbano\u00bb, e tamb\u00e9m do Egito e do Iraque, se olharmos o mapa mais atentamente.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de declara\u00e7\u00f5es como estas cai por terra o argumento tantas vezes invocado e segundo o qual a necessidade de um \u00ablar judaico\u00bb e a emigra\u00e7\u00e3o judaica para a Palestina surgiram como consequ\u00eancia da viol\u00eancia contra os judeus na Europa, designadamente os pogroms em massa e a carnificina realizada pelo nazismo de Hitler. Chaim Weizman, o primeiro presidente do Estado de Israel, foi um modelo de pragmatismo ao confirmar essa falsidade perante a Organiza\u00e7\u00e3o Sionista Mundial: \u00abO sionismo n\u00e3o \u00e9 resposta a uma opress\u00e3o, mas um projeto nacionalista, mais nada\u00bb.<\/p>\n<p>Houve confirma\u00e7\u00f5es deste racioc\u00ednio um pouco mais dram\u00e1ticas porque revelam at\u00e9 que ponto o projeto nacionalista deu prioridade aos interesses do sionismo, a coloniza\u00e7\u00e3o da Palestina pela elite asquenaze da Europa, e secundarizou o respeito pelas massas judaicas, olhadas como pe\u00f5es dentro de uma estrat\u00e9gia para alcan\u00e7ar o objetivo expansionista pretendido.<\/p>\n<p>Ben Gurion foi claro ao assumir que \u00abse tivesse sido poss\u00edvel salvar todas as crian\u00e7as judaicas na Alemanha e transferi-las para a Inglaterra ou salvar metade e transferi-las para Israel escolheria esta \u00faltima hip\u00f3tese\u00bb. A \u00abprefer\u00eancia\u00bb enunciada, embora apenas conjectural, diz-nos que o sionismo estaria disposto a sacrificar a vida de alguns milh\u00f5es de crian\u00e7as judaicas ao objetivo colonial.<\/p>\n<p>Para que n\u00e3o ficassem d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o ao significado destas palavras, Ben Gurion insistiu posteriormente: \u00abA cat\u00e1strofe dos judeus europeus n\u00e3o \u00e9 diretamente um assunto meu; a destrui\u00e7\u00e3o dos judeus europeus \u00e9 uma senten\u00e7a de morte do sionismo\u00bb; ou seja, menos judeus asquenaze poderiam instalar-se na Palestina, o que iria subverter o car\u00e1ter elitista e segregacionista do projeto nacionalista.<\/p>\n<p>N\u00e3o encontramos nada de inovador nas pr\u00e1ticas atuais de Israel em rela\u00e7\u00e3o ao passado do sionismo, mesmo quando recuamos at\u00e9 aos prim\u00f3rdios da doutrina. Nas palavras e nos atos dos te\u00f3ricos, te\u00f3logos, ide\u00f3logos, dirigentes e agentes que durante d\u00e9cadas desenvolveram e apuraram aquilo a que pode se chamar \u00aba ess\u00eancia do Estado de Israel\u00bb deparamo-nos permanentemente, sem quaisquer preocupa\u00e7\u00f5es autocr\u00edticas e respeito por opini\u00f5es alheias, com as pr\u00e1ticas de genoc\u00eddio, racismo, limpeza \u00e9tnica e desprezo pela vida humana como pilares de um expansionismo colonial a servi\u00e7o de poderes imperiais entendidos como express\u00e3o natural e necess\u00e1ria da cultura e civiliza\u00e7\u00e3o superiores do Ocidente.<br \/>\nO \u00abpovo de Deus\u00bb \u00e9 puro e intoc\u00e1vel<\/p>\n<p>\u00abQuando uma ra\u00e7a tem um car\u00e1ter t\u00e3o marcante, n\u00e3o deve fundir-se nas outras\u00bb, aconselhou, em 1900, o fundador da Organiza\u00e7\u00e3o Sionista Mundial, Max Nordau.<\/p>\n<p>Essa ra\u00e7a deve ser \u00abpura\u00bb, logo incompat\u00edvel com misturas. Quase 120 anos depois de Nordau, em 2019, o ex-chefe do Partido Trabalhista e ministro da Economia e Ind\u00fastria de Israel, Isaac Peretz, ficou alarmado durante uma visita aos Estados Unidos. De regresso a Israel declarou que \u00aba assimila\u00e7\u00e3o de judeus no mundo, sobretudo nos Estados Unidos, \u00e9 um segundo holocausto; com os casamentos mistos, o povo judeu perdeu seis milh\u00f5es de pessoas durante os \u00faltimos 70 anos\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c0 luz do sionismo deve-se entender o terror de Peretz perante tal hecatombe. Abraham Kook, que foi o grande rabino asquenaze da Palestina entre 1919 e 1935, explicou que \u00aba diferen\u00e7a entre uma alma de Israel (\u2026) e a alma de todos os n\u00e3o-judeus \u00e9 maior e mais profunda do que a diferen\u00e7a entre a alma de um homem e a de um animal\u00bb. Ou seja, existem \u00abas almas de Israel\u00bb e, a grande dist\u00e2ncia, praticamente no mesmo patamar mas bem l\u00e1 no fundo, est\u00e3o os homens e os animais. Em 1948 foi entregue a Avraham Kook o monop\u00f3lio dos assuntos civis no rec\u00e9m-nascido Estado \u00ablaico\u00bb de Israel.<\/p>\n<p>O rabino Ovadia Yosef, que chefiou at\u00e9 \u00e0 morte, em 2014, o partido governamental sefardita Shas, enriqueceu com numerosas express\u00f5es o car\u00e1ter racista do regime. Uma das mais citadas ensina-nos que \u00abOs goyim (termo que designa gentios ou n\u00e3o-judeus) nasceram para nos servir, apenas para servir o povo de Israel; sem isso n\u00e3o teriam lugar no mundo\u00bb.<\/p>\n<p>Este conceito foi muito recentemente inserido na Constitui\u00e7\u00e3o israelense. Como recordou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, \u00abIsrael n\u00e3o \u00e9 um Estado de todos os cidad\u00e3os, \u00e9 um Estado-na\u00e7\u00e3o do povo judeu e unicamente do povo judeu\u00bb.<\/p>\n<p>A inclus\u00e3o deste preceito na lei fundamental do Estado sionista \u00e9 consequ\u00eancia natural do pensamento de Vladimir Jabotinsky, considerado fundador do movimento \u00abrevisionista\u00bb do sionismo em 1925, corrente que deu origem ao espectro de direita e extrema-direita absolutamente dominante em Israel desde meados dos anos noventa do s\u00e9culo passado. Jabotinsky, que o pr\u00f3prio Ben Gurion definiu como \u00abfascista\u00bb, foi um ucraniano muito bem relacionado ideol\u00f3gica e operacionalmente com Mussolini, al\u00e9m de ter sido um inspirador do nacionalismo e do nazismo na Ucr\u00e2nia tanto entre 1918 e 1920, atrav\u00e9s da figura de Simon Petliura, um antissemita respons\u00e1vel pela morte de centenas judeus em pogroms por ele organizados, como proporcionando, durante os anos trinta, a ascens\u00e3o de Stepan Bandera e outros colaboracionistas nazistas que s\u00e3o hoje as figuras de refer\u00eancia do regime filonazi de Kiev.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio pessoal de Jabotinsky foi Benzion Netanyahu, pai do atual primeiro-ministro de Israel. Inspirando o conceito recentemente introduzido na Constitui\u00e7\u00e3o israelense, aquele que \u00e9 considerado \u00abo segundo sionista mais importante depois de Herzl\u00bb, Vladimir Jabotinsky, definiu que \u00abna\u00e7\u00e3o absoluta \u00e9 um espectro social original, um territ\u00f3rio cont\u00ednuo e claramente delimitado desde tempos imemoriais com uma l\u00edngua original, uma religi\u00e3o aut\u00f3ctone e sem qualquer minoria estrangeira\u00bb, formula\u00e7\u00e3o que recomenda inequivocamente a realiza\u00e7\u00e3o de limpezas \u00e9tnicas para purificar o Estado.<\/p>\n<p>Vladimir Jabotinsky defendeu a tese de que \u00abo Estado deve ser constitu\u00eddo pela for\u00e7a e de uma s\u00f3 vez\u00bb e, para isso, \u00abn\u00e3o h\u00e1 alternativa: os \u00e1rabes devem dar lugar aos judeus no Grande Israel\u00bb.<\/p>\n<p>Jabotinsky, \u00abpai\u00bb da direita israelense no poder e defensor confesso da limpeza \u00e9tnica, como acabamos de ver, conviveu ideologicamente com o nazifascista alem\u00e3o Leo Strauss que, uma vez nos Estados Unidos, se transformou na refer\u00eancia ideol\u00f3gica dos neoconservadores que atualmente controlam o aparelho pol\u00edtico do complexo militar-industrial-tecnol\u00f3gico. O secret\u00e1rio de Estado Anthony Blinken, o conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional de Biden, Jake Sullivan, e a secret\u00e1ria de Estado adjunta demission\u00e1ria, Victoria Nuland, todos eles ferozmente sionistas e envolvidos no golpe de Maidan em Kiev, rastilho da guerra na Ucr\u00e2nia, s\u00e3o disc\u00edpulos convictos do fascista Leo Strauss.<br \/>\nH\u00e1 os sionistas e os animais<\/p>\n<p>Se a doutrina sionista se caracteriza pela defini\u00e7\u00e3o de um juda\u00edsmo estratificado em camadas, por exemplo desde a \u00abra\u00e7a pura\u00bb asquenaze at\u00e9 aos falachas de origem et\u00edope, \u00aba excluir\u00bb, podemos deduzir, sem o risco de sermos imprecisos, que os povos \u00e1rabes, igualmente semitas, s\u00e3o mais do que \u00abimpuros\u00bb ou inoportunos ocupantes da \u00abTerra de Israel\u00bb: o sionismo considera-os como animais a abater \u2013 os acontecimentos atuais e as pr\u00e1ticas terroristas permanentes ao longo de tr\u00eas quartos de s\u00e9culo demonstram-no sem equ\u00edvocos desde que haja olhos para ver, isen\u00e7\u00e3o, esp\u00edrito humanista e respeito pelos direitos humanos, de todos os seres humanos.<\/p>\n<p>Ezra Yachin, um veterano terrorista com mais de noventa anos que foi membro do grupo exterminador Lehi, autor dos massacres em v\u00e1rias aldeias palestinas, o mais conhecido dos quais \u00e9 o de Deir Yassin, em 1948, foi escolhido para exortar os militares encarregados da chacina em curso em Gaza. E disse: \u00abEsses animais n\u00e3o podem continuar a viver; todos os judeus devem empunhar uma arma e mat\u00e1-los.\u00bb<\/p>\n<p>Todos os entes que n\u00e3o s\u00e3o sionistas ou s\u00e3o animais ou andam l\u00e1 pr\u00f3ximos, \u00e9 um dogma da doutrina expansionista e genocida fundada por Herzl. Como vimos, os goyim, os n\u00e3o-judeus, t\u00eam uma \u00abalma\u00bb mais pr\u00f3xima dos animais do que de uma \u00abalma de Israel\u00bb. E existem \u00abpara servir os judeus\u00bb, especificam proeminentes figuras do regime israelita.<\/p>\n<p>O professor Arnon Soffer, fundador da Universidade Hebraica de Haifa, destacada figura da elite acad\u00eamica sionista e que foi conselheiro de Ariel Sharon na estrat\u00e9gia de confinar os mais de dois milh\u00f5es de cidad\u00e3os de Gaza num campo de concentra\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto, admitiu que as pessoas cercadas nesse territ\u00f3rio \u00abtornar-se-\u00e3o animais mais do que j\u00e1 s\u00e3o hoje\u00bb.<\/p>\n<p>O primeiro-ministro Netanyahu chamou-lhes \u00abbestas humanas\u00bb, enquanto o seu ministro da Defesa, Yoav Gallant, assegurava que em Gaza \u00abestamos lutando contra animais humanos e agindo em conformidade\u00bb.<\/p>\n<p>Estas concep\u00e7\u00f5es sobre a singularidade de um \u00abpovo escolhido\u00bb reinando sobre as restantes \u00abalmas\u00bb do mundo que n\u00e3o foram agraciadas pelo sopro divino percorrem a hist\u00f3ria do sionismo desde os prim\u00f3rdios e s\u00e3o assumidas por todas as camadas da elite asquenaze \u2013 e algumas ortodoxias sefarditas \u2013 sejam descendentes direitistas dos \u00abrevisionistas\u00bb de Jabotinsky, sejam socialistas ou trabalhistas, patr\u00f5es ou membros da central sindical Histadrut.<\/p>\n<p>David Hacoen, proeminente dirigente desta agremia\u00e7\u00e3o, estipulou ap\u00f3s a sua funda\u00e7\u00e3o, em finais dos anos vinte do s\u00e9culo passado, que \u00abnunca aceitarei \u00e1rabes no meu sindicato\u00bb porque \u00abo sionismo \u00e9 um sistema de desenvolvimento separado\u00bb. O regime segregacionista da \u00c1frica do Sul assumiu este conceito como a defini\u00e7\u00e3o de apartheid.<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o admito que o c\u00e3o no est\u00e1bulo tenha o direito final sobre o est\u00e1bulo mesmo que nele tenha dormido durante longo tempo\u00bb. A frase lapidar \u00e9 de David Ben Gurion, trabalhista, \u00ablaico\u00bb, fundador do Estado de Israel e seu primeiro primeiro-ministro.<\/p>\n<p>Esta figura de refer\u00eancia sionista e israelense \u00abn\u00e3o admitia\u00bb que \u00abos peles vermelhas tenham sofrido uma grande injusti\u00e7a na Am\u00e9rica, nem os negros na Austr\u00e1lia. \u00abN\u00e3o admito que tenha sido cometido um erro com esses povos\u00bb, insistiu, \u00abporque uma ra\u00e7a mais forte, uma ra\u00e7a de maior qualidade, mais sofisticada, tenha vindo tomar o seu lugar\u00bb.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o haja uma defini\u00e7\u00e3o \u00fanica do conceito de limpeza \u00e9tnica. Esta, por\u00e9m, deve ser das mais inspiradas e sinceras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31543\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[181,9,65,357,10,78],"tags":[233],"class_list":["post-31543","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-asia","category-s10-internacional","category-c78-internacional","category-iraque","category-s19-opiniao","category-c91-solidariedade-a-palestina","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8cL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31543","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31543"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31543\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31545,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31543\/revisions\/31545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}