{"id":3155,"date":"2012-07-11T17:09:56","date_gmt":"2012-07-11T20:09:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3155"},"modified":"2017-08-25T00:14:04","modified_gmt":"2017-08-25T03:14:04","slug":"foro-de-sao-paulo-um-balanco-de-caracas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3155","title":{"rendered":"Foro de S\u00e3o Paulo: um balan\u00e7o de Caracas"},"content":{"rendered":"\n<p>Na sexta-feira \u00e0 noite conclu\u00edram-se em Caracas as delibera\u00e7\u00f5es do Foro de S\u00e3o Paulo. N\u00e3o haveria exagero se diss\u00e9ssemos que foi a reuni\u00e3o mais concorrida e variada do foro desde a sua cria\u00e7\u00e3o, na cidade de S\u00e3o Paulo, em 1990. In\u00fameros partidos e movimentos sociais da Am\u00e9rica Latina e do Caribe se reuniram nessa cidade, junto com um significativo contingente de organiza\u00e7\u00f5es irm\u00e3s da Europa, \u00c1frica e \u00c1sia. O balan\u00e7o final do conclave \u00e9, em certo sentido, positivo, embora, em alguns aspectos, que veremos a seguir, haja muitas coisas para melhorar.<\/p>\n<p>Os desafios de Ch\u00e1vez<\/p>\n<p>Positivo porque, no multitudin\u00e1rio evento, reuniu-se uma grande quantidade de partidos e de movimentos que tiveram a possibilidade de trocar opini\u00f5es, comparar experi\u00eancias e realizar uma rica e necess\u00e1ria aprendizagem rec\u00edproca. Positivo tamb\u00e9m porque, perante o conhecido ecletismo ideol\u00f3gico do foro \u2013 do qual participam partidos que s\u00f3 um alarde da imagina\u00e7\u00e3o poderiam se categorizar como de esquerda \u2013, o discurso de encerramento pronunciado pelo Comandante Ch\u00e1vez fixou uma nova agenda que os partidos e organiza\u00e7\u00f5es do FSP deveriam considerar muito cuidadosamente em seus pr\u00f3ximos encontros.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, perguntando-se, como fez Ch\u00e1vez, citando uma passagem da obra de Marx, pelo car\u00e1ter e a natureza da transi\u00e7\u00e3o que dever\u00e1 substituir o capitalismo por um novo tipo hist\u00f3rico de sociedade. Porque, para al\u00e9m da cr\u00edtica necess\u00e1ria ao neoliberalismo e sua ainda hoje pesada heran\u00e7a, o problema \u00e9 o capitalismo, o que deve ser vencido e subvertido \u00e9 o capitalismo. Ou ser\u00e1 que as lutas protagonizadas pelos nossos povos, com os seus tremendos sacrif\u00edcios e seus milhares de vidas oferecidas para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade, foram apenas para passar do liberalismo ao neokeynesianismo, ou ao desenvolvimentismo, ou \u00e0 miragem de um &#8220;capitalismo verde&#8221;? Com sua sagaz interroga\u00e7\u00e3o, Ch\u00e1vez assinalava uma das principais debilidades te\u00f3ricas da Declara\u00e7\u00e3o de Caracas aprovada pelo FSP.<\/p>\n<p>Segundo, porque, continuando com esse mesmo racioc\u00ednio, ele advertia que o socialismo n\u00e3o cair\u00e1 do c\u00e9u como produto de um determinismo econ\u00f4mico, como sugeria Edouard Bernstein no fim do s\u00e9culo XIX, mas sim pela interven\u00e7\u00e3o do plural e heterog\u00eaneo sujeito revolucion\u00e1rio. \u00c9 claro que, para responder \u00e0s necessidades da pr\u00e1xis, esse sujeito deve se conscientizar, se educar e se organizar. E ele arrematava a sua incisiva reflex\u00e3o com uma pergunta: o que far\u00e3o as for\u00e7as sociais que vieram a Caracas, no dia seguinte, quando voltarem a seus pa\u00edses? Como organizar\u00e3o as suas lutas, qual \u00e9 o plano de batalha, quem assumir\u00e1 quais responsabilidades na sua execu\u00e7\u00e3o? Perguntas n\u00e3o s\u00f3 pertinentes, mas tamb\u00e9m urgentes, porque as burguesias, as oligarquias e o imperialismo n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam seus f\u00f3runs \u2013 o de Davos continua sendo o mais importante \u2013, mas tamb\u00e9m disp\u00f5em de inst\u00e2ncias que organizam suas for\u00e7as e planejam e coordenam as suas pr\u00f3prias batalhas, que s\u00e3o travadas no campo mundial e n\u00e3o t\u00e3o somente nos espa\u00e7os nacionais.<\/p>\n<p>Nossos inimigos n\u00e3o s\u00f3 deliberam, mas tamb\u00e9m agem organizadamente; n\u00e3o poder\u00e3o ser enfrentados com \u00eaxito somente com belas declara\u00e7\u00f5es. Esta, nos parece, \u00e9 uma das fundamentais quest\u00f5es pendentes n\u00e3o s\u00f3 do FSP, mas tamb\u00e9m da sua organiza\u00e7\u00e3o-irm\u00e3, o F\u00f3rum Social Mundial. Perante uma burguesia imperial e seus aliados locais fortemente organizados, n\u00e3o podemos opor t\u00e3o somente a abnega\u00e7\u00e3o militante e o grito que denuncia a desumanidade do capitalismo, desentendendo-nos alegremente acerca da problem\u00e1tica decisiva da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pontos pendentes<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o aprovada em Caracas condena as tentativas golpistas contra Evo Morales, Mel Zelaya, Rafael Correa e a mais recente contra Fernando Lugo. Ela se esquece de assinalar, infelizmente, o golpe perpetrado contra Jean-Bertrand Aristide, no Haiti, em 2004. Falha grave, porque n\u00e3o se pode dissociar esse esquecimento da infeliz presen\u00e7a de tropas de v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos \u2013 Brasil, Chile, Argentina, dentre outros \u2013 no Haiti, quando na realidade o que faz falta nesse sofrido pa\u00eds s\u00e3o m\u00e9dicos, enfermeiros, professores. Mas disso Cuba se encarrega; seu generoso internacionalismo \u00e9 um dos sinais mais honrosos da sua revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, teria sido conveniente que a declara\u00e7\u00e3o de um foro das esquerdas exigisse o fechamento das bases militares que, em n\u00famero de 46 \u2013 segundo a \u00faltima contagem do Mopassol (Movimento pela Paz, Soberania e Solidariedade entre os Povos) \u2013 se estendem por toda a Am\u00e9rica Latina e o Caribe. Embora Washington n\u00e3o modifique uma v\u00edrgula em sua postura beligerante, uma exig\u00eancia un\u00e2nime respaldada por mais de uma centena de partidos pol\u00edticos \u2013 incluindo v\u00e1rios de governo \u2013 teria contribu\u00eddo para ressaltar, perante os olhos da opini\u00e3o p\u00fablica latino-americana e norte-americana, as amea\u00e7as que envolve a presen\u00e7a dessas bases na Nossa Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Cabe dizer o mesmo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o que assegura que a nossa regi\u00e3o \u00e9 uma zona desnuclearizada. Isso era verdade at\u00e9 antes da assinatura do tratado Uribe-Obama: agora n\u00e3o sabemos, porque ningu\u00e9m, exceto a Casa Branca, sabe que tipo de armamentos \u2013 nucleares ou n\u00e3o \u2013 o Pent\u00e1gono introduziu na Col\u00f4mbia, uma vez que, em virtude de tal tratado, esta renunciou a seu direito de inspecionar os carregamentos que entram e saem do seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o fala das &#8220;limitadas conquistas dos Tratados de Livre Com\u00e9rcio Bilaterais&#8221;. Acreditamos que essa reda\u00e7\u00e3o \u00e9 infeliz, como comprova a experi\u00eancia mais madura nessa mat\u00e9ria: o caso mexicano. Antes da assinatura do TLC com os Estados Unidos e o Canad\u00e1, o M\u00e9xico era autossuficiente em mat\u00e9ria alimentar: hoje, depois de 18 anos de &#8220;livre com\u00e9rcio&#8221;, ele tem que importar 42% dos insumos necess\u00e1rios para a sua alimenta\u00e7\u00e3o. Antes, sua fatura por conceito de importa\u00e7\u00e3o de comest\u00edveis era de 1,8 bilh\u00f5es de d\u00f3lares; em 2012 ser\u00e1 de cerca de 24 bilh\u00f5es dessa mesma moeda. N\u00e3o parece muito uma &#8220;conquista&#8221;.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, n\u00e3o se entende como as autoridades do FSP negaram o direito \u00e0 palavra \u2013 n\u00e3o s\u00f3 o ingresso da Marcha Patri\u00f3tica como organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica filiada ao foro, apesar de todos os avais apresentadas por partidos pol\u00edticos dentro e fora da Col\u00f4mbia \u2013 \u00e0 senadora Piedad C\u00f3rdoba, uma das principais figuras da pol\u00edtica latino-americana e considerada em todo o mundo como uma merecid\u00edssima candidata ao Pr\u00eamio Nobel da Paz pelos seus denodados esfor\u00e7os para facilitar a liberta\u00e7\u00e3o dos ref\u00e9ns em poder da guerrilha e para alcan\u00e7ar uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao tr\u00e1gico conflito colombiana.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de informar sobre a dolorosa situa\u00e7\u00e3o imperante em seu pa\u00eds, C\u00f3rdoba tinha que denunciar a amea\u00e7a de morte, lan\u00e7ada por escrito, h\u00e1 apenas dois dias, contra 13 militantes de diversas organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos. Arg\u00facias legalistas, inadmiss\u00edveis em uma entidade que diz ser de esquerda, nos privaram de escutar o seu testemunho, o que n\u00e3o passou inadvertido ao presidente Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p>E o mesmo se fez com os hondurenhos do Liberdade e Refunda\u00e7\u00e3o (Libre), partido que representa melhor do que qualquer outro a resist\u00eancia ao governo de Porfirio Lobo, cujo triste recorde em mat\u00e9ria de assassinato de jornalistas (24 desde que ocorreu o golpe), mais os in\u00fameros crimes e pris\u00f5es de agricultores e militantes mereceriam do FSP um gesto, mesmo que elementar, de solidariedade, sendo que um dos seus l\u00edderes, Rafael Alegr\u00eda, se encontrava entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Como conclus\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ser\u00e1 preciso lutar para que exclus\u00f5es como essas n\u00e3o voltem a se repetir no futuro. Como se pode inferir a partir dessas linhas, \u00e9 preciso abandonar o triunfalismo que, \u00e0s vezes, saturou as delibera\u00e7\u00f5es do foro e avan\u00e7ar na constitui\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de discuss\u00e3o fraterna, mas profunda, sem concess\u00f5es, e a salvo de qualquer classe de travas burocr\u00e1ticas e formalistas que a asfixiem. Discuss\u00e3o ainda mais importante na medida que se sup\u00f5e que a miss\u00e3o do FSP \u00e9 mudar o mundo, e n\u00e3o somente interpret\u00e1-lo (ou lament\u00e1-lo). E mudar o mundo na dire\u00e7\u00e3o do socialismo requer uma clareza te\u00f3rica, porque &#8220;n\u00e3o h\u00e1 pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria sem teoria revolucion\u00e1ria&#8221;. E os tempos que correm exigem aos gritos uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m lembrar, aos esp\u00edritos muito comedidos e moderados que circularam pelo FSP, o que dizia Walter Benjamin: a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um trem fora de controle, mas sim a aplica\u00e7\u00e3o dos freios de emerg\u00eancia. O trem descontrolado, que se encaminha para o abismo, \u00e9 o capitalismo. E, se n\u00e3o o frearmos a tempo, a humanidade inteira vai sofrer as irrepar\u00e1veis consequ\u00eancias desse desastre. N\u00e3o h\u00e1 nada pior do que um maquinista temeroso e vacilante na hora de aplicar os freios de emerg\u00eancia. Em uma hora em que se requer, como dizia Dant\u00f3n, &#8220;aud\u00e1cia, aud\u00e1cia e mais aud\u00e1cia&#8221;, a modera\u00e7\u00e3o, longe de ser uma virtude, se converte em um pecado mortal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 1.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Atilio A. 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