{"id":3156,"date":"2012-07-11T17:13:11","date_gmt":"2012-07-11T17:13:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3156"},"modified":"2012-07-11T17:13:11","modified_gmt":"2012-07-11T17:13:11","slug":"a-luta-de-classes-na-europa-e-as-raizes-da-crise-economica-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3156","title":{"rendered":"A luta de classes na Europa e as ra\u00edzes da crise econ\u00f4mica mundial"},"content":{"rendered":"\n<p>A situa\u00e7\u00e3o europeia n\u00e3o pode ser compreendida sem considerar a situa\u00e7\u00e3o da economia mundial em sua totalidade. Hoje, ap\u00f3s a reintegra\u00e7\u00e3o da China e a plena incorpora\u00e7\u00e3o da \u00cdndia na economia capitalista mundial, a densidade das rela\u00e7\u00f5es de interconex\u00e3o e a velocidade de intera\u00e7\u00f5es no mercado alcan\u00e7aram um n\u00edvel jamais visto anteriormente. O que prevalece hoje na arena mundial \u00e9 o que Marx chama de \u201canarquia da produ\u00e7\u00e3o\u201d. Alguns Estados, os que ainda t\u00eam meios para isso, s\u00e3o cada vez mais os agentes ativos dessa competi\u00e7\u00e3o. E \u00fanico Estado que conserva esses meios na Europa continental \u00e9 a Alemanha. O artigo \u00e9 de Fran\u00e7ois Chesnais.<\/p>\n<p>9.7.2012<\/p>\n<p>Carta Maior<\/p>\n<p>A crise financeira europeia \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o, na esfera das finan\u00e7as, da situa\u00e7\u00e3o de semiparalisia na qual se encontra a economia mundial. Neste momento \u00e9 sua manifesta\u00e7\u00e3o mais vis\u00edvel, mas de modo nenhum a \u00fanica. As pol\u00edticas de austeridade aplicadas simultaneamente na maior parte\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20557&amp;boletim_id=1277&amp;componente_id=20853\" target=\"_blank\" title=\"Powered by Text-Enhance\" rel=\"nofollow\">dos<\/a> pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia contribuem para a espiral recessiva mundial, mas n\u00e3o s\u00e3o sua \u00fanica causa.<\/p>\n<p>Foram eloquentes as manchetes da nota de perspectiva de setembro de 2011 da OCDE: \u201cA atividade mundial est\u00e1 perto da estagna\u00e7\u00e3o\u201d; \u201cO com\u00e9rcio mundial se contraiu, os desequil\u00edbrios mundiais persistem\u201d; \u201cNo mercado de trabalho, as melhoras s\u00e3o cada vez menos percept\u00edveis\u201d; \u201cA confian\u00e7a diminuiu\u201d, etc. Ap\u00f3s as proje\u00e7\u00f5es de Eurostat, em meados de novembro, apontando uma contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da UE, da qual nem a Alemanha escaparia, a nota da OCDE de 28 de novembro assinala uma \u201cconsider\u00e1vel deteriora\u00e7\u00e3o\u201d com um crescimento de 1,6% para o conjunto da OCDE e de 3,4% para o conjunto da economia mundial.<\/p>\n<p>Compreensivelmente, a aten\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e dos jovens da Europa est\u00e1 centrada nas consequ\u00eancias do \u201cfim de caminho\u201d e do \u201csalve-se quem puder\u201d das burguesias europeias. A crise pol\u00edtica da UE e da zona euro, assim como as intermin\u00e1veis vacila\u00e7\u00f5es do BCE acerca do financiamento direto dos pa\u00edses em maiores dificuldades, s\u00e3o suas manifesta\u00e7\u00f5es mais vis\u00edveis. A tend\u00eancia \u00e9 endurecer as pol\u00edticas de austeridade e montar uma opera\u00e7\u00e3o de \u201cresgate total\u201d da qual n\u00e3o escape nenhum pa\u00eds. No entanto, a situa\u00e7\u00e3o europeia n\u00e3o pode ser compreendida independentemente da considera\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o da economia mundial em sua totalidade.<\/p>\n<p>A CNUCED come\u00e7a seu informe assinalando que \u201co grau de integra\u00e7\u00e3o e interdepend\u00eancia econ\u00f4micas no mundo atual n\u00e3o tem precedentes\u201d (CNUCED, 2011). Este reconhecimento \u00e9 um ineg\u00e1vel progresso intelectual no qual muitos analistas e, inclusive, militantes de esquerda, deveriam se inspirar. O campo da crise \u00e9 o do \u201csistema de mudan\u00e7a internacional mais desenvolvido\u201d, do qual j\u00e1 falava Marx em seus primeiros escritos econ\u00f4micos (Marx, 1971: 161). Hoje, ap\u00f3s a reintegra\u00e7\u00e3o da China e a plena incorpora\u00e7\u00e3o da \u00cdndia na economia capitalista mundial, a densidade das rela\u00e7\u00f5es de interconex\u00e3o e a velocidade de intera\u00e7\u00f5es no mercado mundial alcan\u00e7aram um n\u00edvel jamais visto anteriormente. Este \u00e9 o marco no qual devem ser abordadas as quest\u00f5es essenciais: a superacumula\u00e7\u00e3o e a superprodu\u00e7\u00e3o, os<a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20557&amp;boletim_id=1277&amp;componente_id=20853\" target=\"_blank\" title=\"Powered by Text-Enhance\" rel=\"nofollow\">super<\/a> poderes das institui\u00e7\u00f5es financeiras e a competi\u00e7\u00e3o intercapitalista.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 nenhum \u201cfim da crise\u201d \u00e0 vista<\/strong><\/p>\n<p>Na usual linguagem econ\u00f4mica de inspira\u00e7\u00e3o keynesiana, o termo \u201csa\u00edda da crise\u201d indica o momento no qual o investimento e o emprego se recuperam. Em termos marxistas, \u00e9 o momento no qual a produ\u00e7\u00e3o de valor e de mais valia (tomando e fazendo trabalhar os assalariados e vendendo as mercadorias a fim de realizar sua apropria\u00e7\u00e3o pelo capital) est\u00e1 baseada na acumula\u00e7\u00e3o de novos equipamentos e na cria\u00e7\u00e3o de novas capacidades de produ\u00e7\u00e3o. S\u00e3o muito raras as economias que, como \u00e9 o caso da China, apesar de estarem inseridas em rela\u00e7\u00f5es de interdepend\u00eancia, seguem desfrutando de certa autonomia, de modo tal que a sa\u00edda da crise pode ser concebida em n\u00edvel na economia do Estado-Na\u00e7\u00e3o. Todas as demais est\u00e3o inseridas em rela\u00e7\u00f5es de interdepend\u00eancia que determinam que o fechamento do ciclo do capital (Dinheiro-Mercadoria-Produto-Mercadoria-Dinheiro) da maior parte das empresas (de todas as grandes, em todo caso) se realize no estrangeiro. E os maiores grupos deslocalizam diretamente todo o ciclo de uma parte de suas filiais.<\/p>\n<p>A isso se deve o alcance do atoleiro registrado desde o \u00faltimo G20. A mais de quatro anos do come\u00e7o da crise (agosto 2007) e tr\u00eas desde as convuls\u00f5es provocadas pela quebra do banco Lehmann (setembro<a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20557&amp;boletim_id=1277&amp;componente_id=20853\" target=\"_blank\" title=\"Powered by Text-Enhance\" rel=\"nofollow\">2008<\/a>), o conjunto da situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 marcado pela incapacidade, ao menos momentaneamente, do \u201ccapital\u201d \u2013 os governos, os bancos centrais, o FMI e os grupos privados de centraliza\u00e7\u00e3o e poder do capital coletivamente considerados \u2013 para encontrar meios que permitam criar uma din\u00e2mica como a indicada em n\u00edvel da economia mundial ou, pelo menos, em muitos grandes setores da mesma. A crise da zona euro e seus impactos sobre um sistema financeiro opaco e vulner\u00e1vel s\u00e3o uma express\u00e3o disso.<\/p>\n<p>Mas essa incapacidade n\u00e3o implica passividade pol\u00edtica. O que ocorre simplesmente \u00e9 que a a\u00e7\u00e3o da burguesia est\u00e1 cada vez mais movida exclusivamente pela vontade de preservar a domina\u00e7\u00e3o de classe em toda sua crueza. E faz isso de maneira imediata e direta sobre os trabalhadores da Europa. Os centros de decis\u00e3o capitalista buscam ativamente solu\u00e7\u00f5es capazes de proteger os bancos e evitar o imenso choque financeiro que significaria a morat\u00f3ria de It\u00e1lia ou Espanha, fazendo cair mais do que nunca o peso da crise sobre as classes populares. Um testemunho disso foi o desembarque (com poucos dias de intervalo) na c\u00fapula dos governos grego e italiano, de agentes do capital financeiro que foram designados diretamente por este, \u201cignorando os procedimentos democr\u00e1ticos\u201d. Outro testemunho \u00e9 a dan\u00e7a de rumores sobre projetos de \u201cgovernan\u00e7a\u201d autorit\u00e1ria que est\u00e3o sendo discutidos na zona euro. Isso tem implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ainda mais graves para os trabalhadores, porque vem acompanhado pelo refor\u00e7o do car\u00e1ter pr\u00f3-c\u00edclico das pol\u00edticas de austeridade e privatiza\u00e7\u00e3o que contribui para a nova recess\u00e3o em marcha.<\/p>\n<p>Os incessantes chamados que, do outro lado do Atl\u00e2ntico Norte, fazem Barack Obama e o Secret\u00e1rio do Tesouro, Tim Geithner, para que os dirigentes europeus apresentem uma r\u00e1pida resposta \u00e0 crise do euro traduzem o fato de que o \u201cmotor americano\u201d, como dizem os jornalistas, est\u00e1 \u201cavariado\u201d. Desde 1998 (rebote da crise asi\u00e1tica), o funcionamento macroecon\u00f4mico estadunidense foi constru\u00eddo quase inteiramente na base do endividamento das fam\u00edlias, das pequenas e m\u00e9dias empresas e das comunidades locais.<\/p>\n<p>Este \u201cregime de crescimento\u201d est\u00e1 muito arraigado: refor\u00e7ou com tanta for\u00e7a o jogo dos mecanismos de distribui\u00e7\u00e3o desigual de renda que os dirigentes n\u00e3o t\u00eam outra perspectiva a qual se agarrar que o momento \u2013 distante \u2013 em que as pessoas possam (ou estejam, na verdade, obrigadas a) endividar-se novamente. As diferen\u00e7as \u201cirreconcili\u00e1veis\u201d entre democratas e republicanos est\u00e3o ligadas a duas quest\u00f5es interconectadas: qual seria a melhor maneira de desendividar o Estado Federal desde essa perspectiva e se pode, ou mesmo deve, endividar-se ainda mais para alcan\u00e7ar esse objetivo.<\/p>\n<p>A incapacidade de conceber qualquer outro \u201cregime de crescimento\u201d reflete a quase intoc\u00e1vel for\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica da oligarquia pol\u00edtico-financeira que constitui esse 1%. O movimento Ocupa Wall Street \u00e9 um primeiro sinal do enfraquecimento desta domina\u00e7\u00e3o, mas at\u00e9 que n\u00e3o ocorra um terremoto mundial que inclua os Estados Unidos, a pol\u00edtica econ\u00f4mica norteamericana seguir\u00e1 reduzida \u00e0s inje\u00e7\u00f5es de dinheiro do Banco Central (FED), ou seja, a fazer funcionar a m\u00e1quina de fabricar c\u00e9dulas, sem que ningu\u00e9m saiba at\u00e9 quando isso pode durar.<\/p>\n<p>A China e a \u00cdndia podem ajudar, como fizeram em 2009, a limitar a contra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do com\u00e9rcio. Em particular a China seguir\u00e1 \u2013 mas com mais dificuldade que antes \u2013 ajudando a enfrentar a contra\u00e7\u00e3o mundial. Com a plena integra\u00e7\u00e3o da \u00cdndia e da China na economia se produziu um salto qualitativo na dimens\u00e3o do ex\u00e9rcito industrial de reserva a disposi\u00e7\u00e3o do capitalismo mundial em seu conjunto. Adicionalmente, deve-se recordar que na China se encontram alguns dos mais importantes focos de superacumula\u00e7\u00e3o e de superprodu\u00e7\u00e3o. Fala-se muito do efeito tesoura entre a grande baixa do PIB dos pa\u00edses capitalistas industriais \u201cvelhos\u201d e a ascens\u00e3o dos \u201cgrandes emergentes\u201d, e a crise tamb\u00e9m acelerou a finaliza\u00e7\u00e3o do per\u00edodo de hegemonia mundial dos Estados Unidos (hegemonia econ\u00f4mica, financeira e monet\u00e1ria, desde os anos 1930, hegemonia militar n\u00e3o compartilhada a partir de 1992). No entanto, a China n\u00e3o est\u00e1 de nenhum modo em condi\u00e7\u00f5es de tomar o lugar dos Estados Unidos como pot\u00eancia hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p><strong>A novidade da grande quest\u00e3o pol\u00edtica do per\u00edodo<\/strong><\/p>\n<p>Este artigo trata de repassar a origem e a natureza das crises capitalistas que se tornaram particularmente not\u00f3rias com a crise atual e situar esta na \u201chist\u00f3ria de longo prazo\u201d. A crise em curso estourou ao t\u00e9rmino de uma fase muito longa (mais de cinquenta anos) de acumula\u00e7\u00e3o quase ininterrupta: a \u00fanica fase desta dura\u00e7\u00e3o em toda a hist\u00f3ria do capitalismo. Precisamente, a crise pode durar muitos anos, at\u00e9 uma d\u00e9cada, porque tem como substrato uma superacumula\u00e7\u00e3o de capacidades de produ\u00e7\u00e3o especialmente elevada e, como aberra\u00e7\u00e3o, uma acumula\u00e7\u00e3o de capital fict\u00edcio em um valor tamb\u00e9m sem precedente.<\/p>\n<p>Por outro lado, a situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil dos trabalhadores em qualquer parte do mundo \u2013 por diferenciada que ela seja de continente para continente e, inclusive de pa\u00eds para pa\u00eds, devido a suas trajet\u00f3rias hist\u00f3ricas anteriores \u2013 resulta da posi\u00e7\u00e3o de for\u00e7a obtida pelo capital gra\u00e7as \u00e0 mundializa\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito industrial de reserva com a extens\u00e3o da libera\u00e7\u00e3o dos interc\u00e2mbios e do investimento direto na China.<\/p>\n<p>Se em um horizonte temporal previs\u00edvel n\u00e3o h\u00e1 \u201csa\u00edda da crise\u201d para o capital, de maneira complementar e antag\u00f4nica, o futuro dos trabalhadores e dos jovens depende, em grande medida, sen\u00e3o inteiramente, da capacidade para abrir espa\u00e7os e criar \u201ctempos de respira\u00e7\u00e3o\u201d pol\u00edticos pr\u00f3prios, a partir de din\u00e2micas que hoje s\u00f3 eles podem mobilizar. Estamos em uma situa\u00e7\u00e3o mundial na qual o decisivo passou a ser a capacidade destes movimentos \u2013 nascidos sem aviso \u2013 se organizarem de tal modo que conservem uma din\u00e2mica de \u201cautoalimenta\u00e7\u00e3o\u201d, inclusive em situa\u00e7\u00f5es nas quais n\u00e3o existam, no curto prazo, desenlaces pol\u00edticos claros ou definidos.<\/p>\n<p>Na Tun\u00edsia, Gr\u00e9cia ou Egito, mas tamb\u00e9m nos Estados Unidos, os movimentos OWS (Ocupa Wall Street), em especial no contexto nacional da principal pot\u00eancia capitalista do mundo e de um espa\u00e7o geogr\u00e1fico continental, o melhor que os militantes podem fazer \u00e9 ajudar a que os atores dos movimentos com essa potencialidade afrontem os diversos e numerosos obst\u00e1culos contra os quais se chocam e defendam a ideia de que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, as quest\u00f5es sociais decisivas s\u00e3o \u201cquem controla a produ\u00e7\u00e3o social, com que objetivo, segundo que prioridades e como pode ser constru\u00eddo politicamente esse controle social\u201d. Possivelmente seja este o sentido dos processos e consignas \u201cde transi\u00e7\u00e3o\u201d hoje em dia. Alguns poder\u00e3o dizer que sempre foi assim. Mas, dito nos termos acima, para grande quantidade de militantes constitui uma formula\u00e7\u00e3o em grande medida \u2013 se n\u00e3o completamente \u2013 nova.<\/p>\n<p><strong>A valoriza\u00e7\u00e3o \u201csem fim e sem limites\u201d do capital como motor da acumula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Antes de retomar a crise iniciada em 2007, \u00e9 preciso explicitar os meios da acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Detenhamo-nos por um instante na teoria da acumula\u00e7\u00e3o no longo prazo. O objetivo \u00e9 ajudar, partindo de uma compreens\u00e3o precisa dos est\u00edmulos do movimento de acumula\u00e7\u00e3o capitalista, para facilitar a explicita\u00e7\u00e3o da natureza das crises e situar cada grande crise na hist\u00f3ria social e pol\u00edtica mundial. Como escreveu Paul Mattick, ao comentar uma indica\u00e7\u00e3o de Engels, \u201cnenhuma crise real pode ser entendida se n\u00e3o for situada no contexto mais amplo de desenvolvimento social global\u201d (Mattick, 1977:39). A magnitude e os tra\u00e7os espec\u00edficos das grandes crises s\u00e3o a resultante dos meios aos quais o capital (em um sentido que inclui os governos dos pa\u00edses capitalistas mais importantes) recorreu no per\u00edodo precedente para \u201csuperar esses limites imanentes\u201d antes de ver \u201cque voltam a se levantar esses mesmos limites, ainda com maior for\u00e7a\u201d (Marx, 1973: III, 248).<\/p>\n<p>As crises estouram no momento em que o capital fica novamente \u201cenredado\u201d em suas contradi\u00e7\u00f5es, enfrentando as barreiras que ele mesmo cria. Quanto mais importantes tenham sido os meios utilizados para superar seus limites, mais prolongado ser\u00e1 o tempo em que esses meios de supera\u00e7\u00e3o atingir\u00e3o seu objetivo, e mais poder\u00e3o diferir sua revela\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, mais importante ser\u00e1 a crise e mais dif\u00edcil a busca de novos meios para \u201csuperar esses limites imanentes\u201d. Deste modo, a hist\u00f3ria invade a teoria da crise.<\/p>\n<p>Cada gera\u00e7\u00e3o l\u00ea e rel\u00ea Marx. E o faz tanto para seguir a evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica como tamb\u00e9m para dar conta da experi\u00eancia de dificuldades te\u00f3ricas com as quais trope\u00e7ou. Durante muitas d\u00e9cadas predominou a problem\u00e1tica do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas em suas distintas variantes, com as reminisc\u00eancias das teorias do progresso que a mesma ainda podia arrastar.<\/p>\n<p>Hoje, o Marx que, como militante-investigador, deve ser lido \u00e9 o que ajuda a compreender o que significa a tomada do poder pelas finan\u00e7as, o dinheiro em toda sua brutalidade, aquilo sobre o qual ele escreveu nos Manuscritos de 1857-58 dizendo que \u201co capital (&#8230;) enquanto representante da forma universal da riqueza \u2013 o dinheiro \u2013 constitui o impulso desenfreado e desmedido de passar por cima de suas pr\u00f3prias barreiras\u201d (Ibid.: 276). Ou tamb\u00e9m o que sustenta em\u00a0<em>O Capital<\/em>, a saber que \u201ca circula\u00e7\u00e3o do dinheiro como capital carrega em si mesmo seu fim, pois a valoriza\u00e7\u00e3o do valor s\u00f3 se d\u00e1 dentro deste processo constantemente renovado. O movimento do capital \u00e9, portanto, incessante\u201d (Ibid.: I, 108). Ao longo do s\u00e9culo XX, muito mais que no momento em que foi estudado por Marx, o capital evidenciou um profundo n\u00edvel de indiferen\u00e7a quando ao uso social das mercadorias produzidas ou a finalidade dos investimentos.<\/p>\n<p>H\u00e1 trinta anos, a \u201criqueza abstrata\u201d tomou cada vez mais a forma de massas de capital-dinheiro em busca de valoriza\u00e7\u00e3o colocadas nas m\u00e3os de institui\u00e7\u00f5es \u2013 grandes bancos, companhias de seguros, fundos de pens\u00e3o e Hedge Funds \u2013 cujo \u201ctrabalho\u201d \u00e9 o de valorizar seus bens de maneira puramente financeira, sem sair da esfera dos mercados de t\u00edtulos e de ativos fict\u00edcios \u201cderivados\u201d de t\u00edtulos, sem passar pela produ\u00e7\u00e3o. Enquanto as a\u00e7\u00f5es e os t\u00edtulos da d\u00edvida \u2013 p\u00fablica, das empresas ou das fam\u00edlias \u2013 s\u00f3 s\u00e3o \u201cvales\u201d, direitos de se apropriar de uma parte do valor e da mais valia, concentra\u00e7\u00f5es imensas de dinheiro se voltam ao \u201cciclo curto Dinheiro-Dinheiro\u201d que representa a suprema express\u00e3o do que Marx chamou de fetichismo do dinheiro. Expressa mediante formas cada vez mais abstratas, fict\u00edcias, \u201cnocionais\u201d (termo utilizado pelos economistas das finan\u00e7as) de dinheiro, a indiferen\u00e7a ante as consequ\u00eancias da valoriza\u00e7\u00e3o sem fim e sem limites do capital impregna a economia e a pol\u00edtica, inclusive em \u201ctempos de paz\u201d.<\/p>\n<p>Os tra\u00e7os principais do capital a juro, que foram destacados por Marx \u2013 manter-se \u201c\u00e0 margem do processo de produ\u00e7\u00e3o\u201d e apresentar \u201co juro como o verdadeiro fruto do capital, como o origin\u00e1rio, e com o lucro transfigurado agora como lucro de empres\u00e1rio, como simples acess\u00f3rio e aditamento adicionado no processo de reprodu\u00e7\u00e3o\u201d (Ibid.: III, 373) \u2013 hoje colocam os dirigentes capitalistas defrontados com a toda a sociedade, com o conjunto da sociedade. O que ocorre em n\u00edvel da distribui\u00e7\u00e3o (o 1% frente ao 99%, segundo diz a consigna dos militantes do OWS) \u00e9 s\u00f3 a express\u00e3o mais facilmente percept\u00edvel de processos muito mais profundos. Na c\u00fapula dos grandes grupos financeiros \u2013 tanto nos chamados \u201ccom predom\u00ednio industrial\u201d como nos demais \u2013 existe uma fus\u00e3o quase completa entre o \u201ccapital-propriedade\u201d e o \u201ccapital-fun\u00e7\u00e3o\u201d, que Marx identificou, opondo-os parcialmente. A \u201cera dos gerentes\u201d deu lugar a outra na qual h\u00e1 uma identidade de vis\u00e3o quase completa entre os acionistas e os dirigentes.<\/p>\n<p>Para um capital no qual as finan\u00e7as est\u00e3o no comando, a busca \u201cdesenfreada e desmedida\u201d da valoriza\u00e7\u00e3o deve ser conduzida muito mais impecavelmente se o sistema est\u00e1 em crise. Os \u201cvales\u201d sobre a produ\u00e7\u00e3o em forma de dividendos ou juros est\u00e3o amea\u00e7ados e alcan\u00e7am montantes que, desde os anos 1920, nunca tinham sido t\u00e3o elevados.\u00a0<strong>\u00c9 por isso que, seja se trate dos trabalhadores que o capital emprega apesar da situa\u00e7\u00e3o de superprodu\u00e7\u00e3o, ou dos recursos b\u00e1sicos que v\u00e3o ficando raros ou mesmo da posi\u00e7\u00e3o a se adotar frente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e suas previs\u00edveis consequ\u00eancias, o reflexo predominante no capital tomado de conjunto \u00e9 intensificar as explora\u00e7\u00e3o das \u201cduas fontes originais de toda riqueza\u201d: a terra e o homem (Ibid.: I, 424) e isso, ilimitadamente, at\u00e9 o esgotamento, sejam quais forem as consequ\u00eancias.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o posso estender-me\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20557&amp;boletim_id=1277&amp;componente_id=20853\" target=\"_blank\" title=\"Powered by Text-Enhance\" rel=\"nofollow\">aqui<\/a> na an\u00e1lise das quest\u00f5es ecol\u00f3gicas e sua intera\u00e7\u00e3o com o movimento da acumula\u00e7\u00e3o e suas contradi\u00e7\u00f5es, mas cabe assinalar que, com a crise, estas intera\u00e7\u00f5es se tornam ainda mais estreitas, como mostra o \u00faltimo informe da Ag\u00eancia Internacional de Energia (Reverchon).<\/p>\n<p><strong>Centraliza\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o do capital e intensifica\u00e7\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o intercapitalista<\/strong><\/p>\n<p>A ideia associada \u00e0 express\u00e3o \u201cos senhores do mundo\u201d, a de uma sociedade planet\u00e1ria do tipo de Metr\u00f3polis, de Fritz Lang, acaba de ser refor\u00e7ada pela difus\u00e3o de um estudo estat\u00edstico muito importante sobre as interconex\u00f5es financeiras entre os maiores bancos e empresas transnacionais, publicado pelo Instituto Federal Su\u00ed\u00e7o de Tecnologia, de Zurich (Vitali et. al.). Seria preciso um artigo inteiro para examinar a metodologia dos dados de base e as conclus\u00f5es deste ambicioso estudo, cujos resultados t\u00eam importantes implica\u00e7\u00f5es, mas devem ser cruzados com outros fatos.<\/p>\n<p>Qual o sentido de classificar cinco grupos financeiros franceses (Axa no quarto lugar e Soci\u00e9t\u00e9 G\u00e9n\u00e9rale no posto vinte e quatro) entre os cinquenta primeiros grupos mundiais com base no n\u00famero de seus la\u00e7os (caracterizados como \u201cde controle\u201d) com outros bancos e empresas? Como reconciliar essa informa\u00e7\u00e3o com a exig\u00eancia de socorrer esses mesmos grupos? A densidade de interconex\u00f5es financeiras n\u00e3o traduz sobretudo o fluxo de opera\u00e7\u00f5es financeiras nas quais os grupos em quest\u00e3o s\u00e3o intermedi\u00e1rios? E os numerosos la\u00e7os n\u00e3o teriam o estatuto de n\u00f3s do sistema e n\u00e3o o de centralizadores do valor e da mais valia?<\/p>\n<p>Em todo caso, a publicidade dada ao estudo exige fazer dois tipos de observa\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que s\u00e3o, ao mesmo tempo, indispens\u00e1veis para compreender a situa\u00e7\u00e3o mundial. Os processos de liberaliza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o fortaleceram muit\u00edssimo os mecanismos de centraliza\u00e7\u00e3o e de concentra\u00e7\u00e3o do capital, tanto em n\u00edvel nacional, como de maneira transnacional. S\u00e3o processos que alcan\u00e7aram tanto o Sul como o Norte. Em determinados setores dos pa\u00edses chamados \u201cemergentes\u201d \u2013 a banca e os servi\u00e7os financeiros, a agroind\u00fastria, a minera\u00e7\u00e3o e os metais b\u00e1sicos \u2013 vimos a centraliza\u00e7\u00e3o e a concentra\u00e7\u00e3o do capital e sua expans\u00e3o para os pa\u00edses vizinhos.<\/p>\n<p>No Brasil e na Argentina, por exemplo, a forma\u00e7\u00e3o de poderosas \u201coligarquias\u201d modernas andou de m\u00e3os dadas com fortes processos end\u00f3genos de acumula\u00e7\u00e3o financeirizada e a valoriza\u00e7\u00e3o de \u201cvantagens comparativas\u201d conformes \u00e0s necessidades de mat\u00e9rias primas desta acumula\u00e7\u00e3o mundial na qual a China passou a ser o piv\u00f4.\u00a0<strong>Especialmente no Brasil se formaram oligop\u00f3lios que rivalizam com seus pares norteamericanos ou australianos na extra\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o de metais e na agroind\u00fastria.<\/strong> Devido \u00e0 mundializa\u00e7\u00e3o, as interconex\u00f5es entre os bancos e entre bancos e empresas comprometidas com a produ\u00e7\u00e3o industrial e os servi\u00e7os, passaram a ser mais fortemente transnacionais do que em qualquer outro momento. O campo de a\u00e7\u00e3o do que Lenin chamava de \u201centrela\u00e7amento\u201d \u00e9 a economia mundial. N\u00e3o \u00e9 por isso que o capital \u00e9 monol\u00edtico. O entrela\u00e7amento n\u00e3o apaga a competi\u00e7\u00e3o entre os oligop\u00f3lios que, por ocasi\u00e3o da crise, recuperam tra\u00e7os nacionais e comportamentos pouco cooperativos.<\/p>\n<p>O que prevalece hoje na arena mundial \u00e9 o que Marx chama de \u201canarquia da produ\u00e7\u00e3o\u201d, cujo motor \u00e9 a competi\u00e7\u00e3o, mesmo que o monop\u00f3lio e o oligop\u00f3lio sejam a forma absolutamente dominante dos \u201cm\u00faltiplos capitais\u201d que conjuga o capital considerado como totalidade. Os Estados, ou mais exatamente, alguns Estados, os que ainda t\u00eam meios para isso, s\u00e3o cada vez mais os agentes ativos dessa competi\u00e7\u00e3o. O \u00fanico Estado que conserva esses meios na Europa continental \u00e9 a Alemanha. N\u00e3o ocorre o mesmo na Fran\u00e7a, onde a burguesia se tornou novamente financeira e rentista, deixando que ocorresse um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, encerrando-se na op\u00e7\u00e3o da energia nuclear e que v\u00ea agora seus \u201ccampe\u00f5es nacionais\u201d ca\u00edrem um ap\u00f3s o outro. Por isso, as d\u00favidas a respeito da presen\u00e7a dos bancos franceses entre os cinquenta \u201csenhores do mundo\u201d.<\/p>\n<p>A outra\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20557&amp;boletim_id=1277&amp;componente_id=20853\" target=\"_blank\" title=\"Powered by Text-Enhance\" rel=\"nofollow\">grande<\/a> observa\u00e7\u00e3o referente \u00e0 centraliza\u00e7\u00e3o-concentra\u00e7\u00e3o do capital nos devolve ao nosso fio condutor. A raz\u00e3o pela qual as leis coercitivas da competi\u00e7\u00e3o desfazem as tend\u00eancias que v\u00e3o no sentido do acordo entre os oligop\u00f3lios mundiais \u00e9 que o capital, por mais centralizado que seja, n\u00e3o tem o poder de se libertar de suas contradi\u00e7\u00f5es constitutivas, assim como n\u00e3o pode bloquear o momento no qual volta a se encontrar com seus \u201climites imanentes\u201d.<\/p>\n<p><em>(*) Fran\u00e7ois Chesnais \u00e9 professor em\u00e9rito na Universidade de Paris 13 \u2013 Villetaneuse. Destacado marxista, integra o conselho cient\u00edfico da Attac-Fran\u00e7a. \u00c9 autor de \u201cLa mondialisation du capital\u201d e coordenador de \u201cLa finance mondialis\u00e9e, racines sociales et politiques, configuration, cons\u00e9quences\u201d. Email:\u00a0<a href=\"mailto:chesnais@free.fr\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">chesnais@free.fr<\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Marco Aur\u00e9lio Weissheimer, a partir da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sinpermiso.info\/textos\/index.php?id=5118\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">vers\u00e3o em espanhol publicada em Sin Permiso<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20557&amp;boletim_id=1277&amp;componente_id=20853\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">http:\/\/www.cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: CM\n\n\n\n\n\n\n\n\nFran\u00e7ois Chesnais\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3156\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3156","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-OU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3156","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3156"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3156\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}