{"id":31576,"date":"2024-04-14T21:49:04","date_gmt":"2024-04-15T00:49:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=31576"},"modified":"2024-04-16T20:32:28","modified_gmt":"2024-04-16T23:32:28","slug":"que-falta-faz-eduardo-galeano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31576","title":{"rendered":"Que falta faz Eduardo Galeano"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"31577\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31576\/eduardo-galeano\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Eduardo-Galeano.jpg?fit=1200%2C737&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1200,737\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Eduardo-Galeano\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Eduardo-Galeano.jpg?fit=747%2C459&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-31577\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Eduardo-Galeano.jpg?resize=747%2C459&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"459\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Eduardo-Galeano.jpg?resize=900%2C553&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Eduardo-Galeano.jpg?resize=300%2C184&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Eduardo-Galeano.jpg?resize=768%2C472&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Eduardo-Galeano.jpg?w=1200&amp;ssl=1 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Jeferson Garcia, membro da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional do Coletivo negro Minervino de Oliveira, militante do PCB-Maring\u00e1, poeta e um dos organizadores do Clube de Literatura Latino-americano Soledad Barrett, na Ocupa\u00e7\u00e3o Dom H\u00e9lder C\u00e2mara em Pai\u00e7andu\/PR<\/p>\n<p>Eduardo, como autor, tem caracter\u00edsticas muito fortes. \u00c9, era, \u00e9, dono de uma capacidade infinita de humanidade e de poesia em tudo que escreveu. E tamb\u00e9m uma infinita capacidade de revelar fatos. De descobrir, nas miudezas do cotidiano, a grandeza da vida<\/p>\n<p>Eric Nepomuceno<\/p>\n<p>Dar de comer aos carros \u00e9, para esse mundo miser\u00e1vel, mais importante do que dar de comer \u00e0s pessoas, denunciava o uruguaio que nos deixava em 13 de abril de 2015. Neste dia, toda a Am\u00e9rica latina chora e expressa a frase, que certa vez, saiu da boca de Chico Buarque: \u201cQue falta faz Eduardo Galeano\u201d. Quem n\u00e3o o apreciou, precisa agora conhec\u00ea-lo. Quem n\u00e3o lembrava de seu nome, precisa agora record\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Eduardo Germ\u00e1n Maria Hughes Galeano, nascido em setembro de 1940, em Montevid\u00e9u no Uruguai, \u00e9 um autor de grande influ\u00eancia sobre a intelectualidade latino-americana e, tamb\u00e9m, influenciado por ela. Tendo grande parte de sua obra publicada no Brasil, fato que se iniciou com a publica\u00e7\u00e3o de Vagamundo em 1976, o autor de Ser como eles (2023) \u00e9 tamb\u00e9m resultado de outras influ\u00eancias, como o da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana de 1959 no continente e das lutas sociais no terceiro mundo. Sua obra ficou conhecida aos 31 anos, em 1971, quando publicou seu cl\u00e1ssico As veias Abertas da Am\u00e9rica Latina: \u201cEm as Veias, o passado sempre aparece convocado pelo presente, como mem\u00f3ria viva de nosso tempo. Este livro \u00e9 uma busca de chaves da hist\u00f3ria passada que contribuem para explicar o tempo presente, que tamb\u00e9m faz hist\u00f3ria, a partir do princ\u00edpio de que a primeira condi\u00e7\u00e3o para mudar a realidade \u00e9 conhec\u00ea-la\u201d.<\/p>\n<p>Nesse escrito, repleto de revela\u00e7\u00f5es acerca da explora\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia do capitalismo, Galeano dizia que a hist\u00f3ria do subdesenvolvimento da Am\u00e9rica Latina integrava a hist\u00f3ria do desenvolvimento do capitalismo mundial. Nosso problema nunca foi a aus\u00eancia de um capitalismo, mas a sua exist\u00eancia. Nesta obra \u00e9 poss\u00edvel perceber que \u201cdenunciar essa brutalidade social foi uma esp\u00e9cie de obsess\u00e3o\u201d, o fio que teceu toda sua obra \u2013 seu leitmotiv, o motivo condutor, que consiste em um tema ou ideia que aparece constantemente no decorrer de uma obra \u2013 como demonstra seu principal tradutor brasileiro e, tamb\u00e9m, amigo, Eric Nepomuceno.<\/p>\n<p>Essa linha teve continuidade com Mem\u00f3ria do fogo: \u201cnesta terra do mundo est\u00e3o minhas alegrias mais altas e minhas tristezas mais profundas. Eu quis ajud\u00e1-la a desvendar [&#8230;]\u201d e nesse processo, o escritor tinha certeza da identidade que possu\u00eda com aquilo que buscava entender: dizendo a Am\u00e9rica, eu me dizia. Procurando a Am\u00e9rica, me encontrava\u201d. Ele escrevia, certamente, para aqueles com quem ele, de alguma forma, se sentia identificado: \u201cos que comem mal, os que dormem mal, os rebeldes e humilhados desta terra, e a maioria deles n\u00e3o sabem ler\u201d. Hoje, todos esses sentem a sua falta.<\/p>\n<p>Intelectual autodidata, Galeano n\u00e3o obteve um t\u00edtulo profissional formal, mas v\u00e1rios doutorados honoris causa. Caso parecido ao de outros grandes intelectuais, como Cl\u00f3vis Moura. A primeira grande divulga\u00e7\u00e3o de sua obra ocorreu \u201cgra\u00e7as\u201d \u00e0s ditaduras argentina e uruguaia, que proibiram os seus livros nesses pa\u00edses e acabaram chamando ainda mais a aten\u00e7\u00e3o para ele: \u201cas ditaduras militares que o elogiaram proibindo-o\u201d, disse. Sua obra ganhou conhecimento ainda maior quando Hugo Ch\u00e1vez (1954-2013), ent\u00e3o presidente da Venezuela, presenteou Barack Obama, ent\u00e3o presidente dos EUA, com um exemplar de seu As veias Abertas da Am\u00e9rica Latina, na C\u00fapula das Am\u00e9ricas, em Trinidad e Tobago, em 2009. O livro que j\u00e1 era um dos mais vendidos e traduzidos do mundo, um verdadeiro ode de amor aos povos, ganhou ainda mais patamares. Obra que traz, centralmente, a den\u00fancia sobre o imperialismo, que tenta sugar todos os recursos naturais do planeta, era entregue ao comandante do maior pa\u00eds imperialista do s\u00e9culo, tendo como dedicat\u00f3ria, as palavras que Ch\u00e1vez escreveu: \u201cpara Obama, com afeto\u201d.<\/p>\n<p>Exilado por duas vezes, na primeira atravessou o rio da Prata em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Argentina em 1973. Na segunda, foi para a Catalunha em 1976. Galeano fugiu da Argentina ap\u00f3s seu nome aparecer na lista do \u201cesquadr\u00e3o da morte\u201d de Jorge Videla. De l\u00e1 foi para Callela, uma pequena cidade pr\u00f3xima de Barcelona. Sua obra, mesmo longe de sua terra natal, sempre esteve enraizada nos dilemas do povo latino-americano \u2013 ligada \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria e identidade, nos problemas do continente \u2013 e teve, para isso, subs\u00eddio na vertente marxista da Teoria da depend\u00eancia, tendo como uma de suas principais inspira\u00e7\u00f5es a obra de Andr\u00e9 Gunder Frank (1929-2005). Tal formula\u00e7\u00e3o foi decisiva para fundamentar os debates sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento, al\u00e9m da categoria central da depend\u00eancia, sobre os ciclos de explora\u00e7\u00e3o que se repetiam e ainda o fazem.<\/p>\n<p>Autor porta voz de uma gera\u00e7\u00e3o, identificou-se com outras obras e autores, como Cem anos de Solid\u00e3o, de Gabriel Garcia M\u00e1rquez (1927-2014) e trabalhou por anos com M\u00e1rio Benedetti (1920-2009) e Mario Vargas Llosa (hoje com 87 anos), no seman\u00e1rio Marcha, dirigida por Carlos Quijano (1900-1984) e que era reduto de intelectuais latino-americanos, para qual tamb\u00e9m escrevia Mario Benedetti.<\/p>\n<p>O Marcha foi fundado em 1939 e editado at\u00e9 1974 e Galeano atuou nele de 1959 at\u00e9 1963, tematizando diversos assuntos importantes da realidade latino-americana, em uma perspectiva progressista, tecendo cr\u00f4nicas e textos unindo historiografia, literatura e jornalismo, ressuscitando as ra\u00edzes de nossa mis\u00e9ria e de toda explora\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina \u2013 o imperialismo, o latif\u00fandio e a fome. Galeano trazia poeticamente a imagem do abismo aberto nesta terra, entre o bem-estar de poucos e a mis\u00e9ria de muitos. Traduzia as leis do capitalismo em leis da palavra crua, dura e incomoda. Seus versos eram instrumentos de corte, contra os arames farpados que mascaram a nossa realidade, nas produ\u00e7\u00f5es do grande capital monopolista do campo, que cultivam o sil\u00eancio. Por isso ele escrevia, para revelar a verdadeira face da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Um par\u00eantese necess\u00e1rio: a Am\u00e9rica Latina aqui, em sua obra, \u00e9 mais um conceito hist\u00f3rico, uma identidade, uma bandeira e menos um espa\u00e7o geogr\u00e1fico. S\u00e3o em torno de 21 pa\u00edses que integram uma regi\u00e3o, certamente, mas que principalmente, tiveram o latim como l\u00edngua origin\u00e1ria, pela coloniza\u00e7\u00e3o espanhola, mas tamb\u00e9m portuguesa. Essa \u201cregi\u00e3o\u201d \u00e9 definida, principalmente, pelos aspectos culturais e pela perspectiva de resist\u00eancia ao imperialismo e de busca por autonomia cultural, pol\u00edtica e econ\u00f4mica perante os Estados Unidos e Europa. Por rostos suados como o de Mercedes Sosa e Victor Jara, pelos versos tristes de Neruda, pelas dores no peito ferido de uma bixa terceiro mundista como Pedro Lemebel. A luta pol\u00edtica dos povos em resist\u00eancia \u00e9 um dos elementos definidores dessa categoria, como revela a luta da Unidade Popular no Chile de Allende e a Whypala, bandeira dos povos andinos, constantemente ensanguentada nas barricadas. Junta-se a esses elementos, o movimento diasp\u00f3rico africano, decisivo para se pensar o continente. As revoltas e rebeli\u00f5es que nascem no ventre negro de um quilombo e que sempre estiveram presentes na defesa da palavra de Galeano. Am\u00e9rica Latina \u00e9, assim, tamb\u00e9m, uma identidade de projeto hist\u00f3rico, pol\u00edtico e cultural. Todo esse ch\u00e3o hist\u00f3rico sofre as media\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o caracter\u00edsticas e que lhe marcam a ferro, centralmente, pelo catolicismo, colonialismo, racismo, ditaduras c\u00edvico-militares, revolu\u00e7\u00f5es sociais e lutas pol\u00edticas anticoloniais. Todos esses elementos foram, portanto, p\u00f3lvora para a arma do escritor uruguaio. Mas n\u00e3o s\u00f3: foi tamb\u00e9m uma voz de solidariedade aos povos do terceiro mundo e de todos os oprimidos, como o povo Palestino.<\/p>\n<p>Galeano foi, tamb\u00e9m, diretor de outro importante jornal independente, o \u00c9poca, entre (1964-1966), ao lado de nomes repetidos como M\u00e1rio Benedetti e Juan Carlos Onetti. Foi diretor de publica\u00e7\u00f5es da Universidade do Uruguai (1964-1973) e em 1985 voltou ao seu pa\u00eds, onde foi cofundador do seman\u00e1rio Brecha. Gostava de usar uma categoria chamada \u201csentipensante\u201d, para descrever a escrita que faz refletir, faz pensar por meio das emo\u00e7\u00f5es, dos sentimentos, provocando rea\u00e7\u00f5es de raiva ou \u00f3dio pelos exploradores. Entretanto, apesar de mostrar que as veias foram abertas pela viol\u00eancia, sua obra traz, sempre, uma descri\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, sem perder o caminho da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, em sua obra aparecem os desaparecidos, combate-se a amn\u00e9sia, aparecem her\u00f3is ind\u00edgenas, figuras hist\u00f3ricas, generais, artistas, revolucion\u00e1rios, oper\u00e1rios, conquistadores e conquistados, mitos, resist\u00eancias individuais e coletivas. Conheceu e conviveu com guerrilheiros maias, mineiros bolivianos e garimpeiros venezuelanos. O autor navegou pelas lendas, m\u00fasicas e povos at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidos, nessa viagem feita com pouco mais de 33 livros, justamente por entender que essa terra subjugada pelo colonialismo e imperialismo estava, tamb\u00e9m, condenada \u00e0 amn\u00e9sia. Nesse sentido, usou de uma vasta pesquisa que percorreu toda sua obra, demonstrando que a riqueza \u00e9 a causa da mis\u00e9ria latino-americana, o que faz o autor de Mem\u00f3ria do fogo conversar diretamente com o cap\u00edtulo da Acumula\u00e7\u00e3o Primitiva do Capital, de Karl Marx (2013).<\/p>\n<p>Sua obra, principalmente o Veias Abertas, n\u00e3o foi \u201caceita[1]\u201d pela universidade, como apresenta Muniz Ferreira no debate de 50 anos da publica\u00e7\u00e3o de Veias Abertas, o que diz mais sobre ela do que acerca do livro. No Brasil, pouco se tem usado da obra de Galeano para compreender a realidade e o pa\u00eds enquanto uma pa\u00eds dessa p\u00e1tria grande. Todavia, pois mais t\u00edmida que seja, \u00e9 poss\u00edvel visualizar que sua obra tem sido apontada em sites de not\u00edcias, de comunica\u00e7\u00e3o, em datas comemorativas ou para realizar discuss\u00f5es sobre a identidade latino-americana. Exemplo disso s\u00e3o os textos 50 anos de Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina: um livro para entender a vida e o mundo, de Mello (2021) no site Brasil de fato e de in\u00fameros outros que seguem esse padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Eduardo Galeano, apesar de toda diferencia\u00e7\u00e3o de sua obra, \u00e9 um autor que subiu nos ombros de toda uma tradi\u00e7\u00e3o que veio antes dele e que tentou pensar a Am\u00e9rica Latina e a identidade desse povo, principalmente da tradi\u00e7\u00e3o marxista, que se funda aqui por volta de 1920, nas tentativas de interpreta\u00e7\u00e3o marxista das realidades nacionais latino-americanas, como fez o peruano Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui (1894-1930). Este autor estudou a particularidade hist\u00f3rica do Peru, enfrentando com originalidade a problem\u00e1tica da propriedade da terra, que reca\u00ed sobre quatro quintos da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena de seus pa\u00eds. Al\u00e9m do Amauta peruano, C\u00e9sar Vallejo (1898-1932), os cubanos Nicol\u00e1s Guill\u00e9n (1902-1989) e Juan Marinello (1898-1977) foram importantes int\u00e9rpretes de nossa realidade que influenciaram o pensador uruguaio. Mais de perto, como afirma seu bi\u00f3grafo F\u00e1bian Kovacic, foram decisivas as influ\u00eancias de Juan Carlos Onetti (1909-1994), Paco Esp\u00ednola (1901-1973), Carlos Quijano (1900-1984), como toda gera\u00e7\u00e3o de escritores uruguaios de 1945 (gera\u00e7\u00e3o de 45), que pensavam e formulavam sobre a Guerra Civil espanhola e a luta contra o fascismo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m deles, em sua obra, \u00e9 poss\u00edvel encontrar a refer\u00eancia a autores como Ernest Mandel (1923-1995), Darcy Ribeiro (1922-1997), Eric Williams (1911-1981), Celso Furtado (1920-2004), Caio Prado J\u00fanior (1907-1990), Josu\u00e9 de Castro (1908-1973), Karl Marx (1818-1885), Jorge Amado (1912-2001), Fidel Castro (1926-2016), Edson Carneiro (1912-1972), D\u00e9cio Freitas (1922-2004), Mari\u00e1tegui (1894-1930), Paul Baran (1909-1964), Paul Sweezy (1910-2004), Augustin Cueva (1937-1992), Ot\u00e1vio Ianni (1926-2004), dentre muitos outros nomes. A listagem desses personagens \u00e9 fundamental para entender as bases na qual a obra do escritor uruguaio se sustentava. Por exemplo, a primeira metade dos anos 1960 \u00e9 o per\u00edodo dos textos mais importantes de Ernesto Che Guevara (1928-1967), que impactaram a Am\u00e9rica Latina e Eduardo Galeano. Todavia, os estudos que mais o influenciaram, certamente, vieram da vertente marxista da teoria da depend\u00eancia, com Ruy Mauro Marini (1932-1997), V\u00e2nia Bambirra (hoje com 83 anos) e Teot\u00f4nio dos Santos (1936-2018) \u2013 mas centralmente a obra do j\u00e1 citado Andr\u00e9 Gunder Frank.<\/p>\n<p>Entretanto, apesar de toda tradi\u00e7\u00e3o em que se sustenta, em sua obra, a escrita possui uma singularidade \u00edmpar. O autor cometia, sem remorsos, a viola\u00e7\u00e3o de fronteiras que separam, tradicionalmente, os g\u00eaneros liter\u00e1rios. Se nos anos iniciais de sua escrita ainda havia a separa\u00e7\u00e3o entre fic\u00e7\u00e3o \u2013 como em Vagamundo \u2013 e n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o \u2013 como em As veias abertas \u2013 a partir dos anos oitenta, com Mem\u00f3ria do fogo, Galeano rompeu os limites entre estes dois mundos. Para contar as pequenas hist\u00f3rias, dos pequenos momentos, usava de narra\u00e7\u00e3o, ensaio, poema e cr\u00f4nica, que se misturam em sua escrita, trazendo \u00e0 tona a mem\u00f3ria e a realidade, pelas m\u00e3os de um verdadeiro ca\u00e7ador de hist\u00f3rias, um bailarino sobre a corda bamba das palavras, como certa vez disse Alan Ryan, jornalista do The Washington Post.<\/p>\n<p>Depend\u00eancia, subdesenvolvimento, subordina\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica latina e do pensamento social, s\u00e3o temas basilares dos seus principais escritos, como As veias abertas da Am\u00e9rica Latina e Mem\u00f3ria do fogo. Em sua obra existe um conjunto de pressupostos, uma cr\u00edtica dura, que o autor, jornalista e escritor uruguaio faz \u00e0s formas com que o imperialismo construiu um determinado padr\u00e3o de conformismo na Am\u00e9rica Latina \u2013 modo de pensar e agir \u2013 transmitido pela cultura, educa\u00e7\u00e3o, tradi\u00e7\u00f5es, normas e h\u00e1bitos de conviv\u00eancia. Para Eduardo Galeano, a cultura (e forma\u00e7\u00e3o humana) exerceu (e ainda o faz) um importante papel como instrumento de domina\u00e7\u00e3o colonial-imperialista.<\/p>\n<p>Ele identificava a exist\u00eancia de uma agenda intelectual[2] forjada durante todo o s\u00e9culo XX para a constru\u00e7\u00e3o do consenso, numa tentativa de preparar uma interpreta\u00e7\u00e3o da realidade latino-americana. Isso ocorreu, principalmente no p\u00f3s-segunda guerra mundial e, tamb\u00e9m, no p\u00f3s-guerra fria, do qual o jornalista uruguaio se apresenta na contram\u00e3o dessa corrente, demonstrando os interesses por tr\u00e1s de organiza\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas, organiza\u00e7\u00f5es mundiais (como a CIA, Departamento de Estado dos EUA, ONU, Banco Mundial, UNESCO), intelectuais, m\u00eddia, televis\u00e3o, etc, que pagavam, inclusive, a conta de muito do que se propagandeou na literatura durante esse per\u00edodo[3]. Desse modo, a interpreta\u00e7\u00e3o da nossa realidade a partir de esquemas alheios, dizia Gabriel Garcia M\u00e1rquez, \u201cs\u00f3 contribui para tornar-nos cada vez mais desconhecidos, cada vez menos livres, cada vez mais solit\u00e1rios\u201d \u2013 e Galeano tinha acordo com M\u00e1rquez. Toda a forma\u00e7\u00e3o desse aparato cultural e ideol\u00f3gico \u00e9 fruto da necessidade de produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de reprodu\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do capital e das suas especificidades no continente e na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Walter Benjamin, em sua s\u00e9tima tese sobre o conceito de hist\u00f3ria, estava certo: \u201cassim como a cultura n\u00e3o \u00e9 isenta de barb\u00e1rie, n\u00e3o o \u00e9, tampouco, o processo de transmiss\u00e3o da cultura\u201d. H\u00e1, portanto, na obra do escritor uruguaio, uma teoria da explora\u00e7\u00e3o latino-americana que vai para al\u00e9m dos elementos \u2013 citados por Claudio Katz[4] (2022) \u2013 de expropria\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, das d\u00edvidas p\u00fablicas e da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, que s\u00e3o os que mais chamam a aten\u00e7\u00e3o em seus escritos \u2013 principalmente em As veias abertas da Am\u00e9rica Latina. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a sua obra instrumentaliza e ajuda a desvendar as formas pelas quais a domina\u00e7\u00e3o de classes \u00e9 produzida e disseminada na vida social latino-americana e, tamb\u00e9m, seu contrapelo, a resist\u00eancia no campo da cultura e o papel dos intelectuais contra hegem\u00f4nicos no combate \u00e0 ideologia dominante, \u00e0 racionalidade do capital e \u00e0 amn\u00e9sia provocada que apaga nossa hist\u00f3ria, passado, presente e futuro. A obra de Galeano, sem d\u00favidas, \u00e9 um guarda-chuvas em uma tempestade de esquecimento.<\/p>\n<p>H\u00e1, ent\u00e3o, uma teoria do aspecto educativo e cultural da domina\u00e7\u00e3o imperialista em sua obra. A explora\u00e7\u00e3o, nessa terra de veias abertas, teve como uma de suas tarefas a domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 pela espada ou pela p\u00f3lvora, mas tamb\u00e9m pela subordina\u00e7\u00e3o intelectual e da forma\u00e7\u00e3o cultural dos povos da p\u00e1tria grande pela difus\u00e3o da cultura dominante imperialista e colonialista. \u00c9 poss\u00edvel entender, a partir de Galeano, como os grupos dominantes na Am\u00e9rica Latina formam seus intelectuais, como educam para o consenso e para a subalternidade, bem como quais instrumentos e aparelhos de dissemina\u00e7\u00e3o usam para propagandear a cultura dominante, como revistas e jornais e todos os meios de \u201corganiza\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de certos tipos de cultura\u201d, nas palavras de Gramsci.<\/p>\n<p>Neste mesmo sentido, o papel de contracultura \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o fundamental, uma vez que os intelectuais contr\u00e1rios \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperialista t\u00eam sua fun\u00e7\u00e3o social, isto \u00e9: tamb\u00e9m possuem lugar na barricada[5]. Intelectuais, estes, cujo enraizamento no ch\u00e3o hist\u00f3rico pode ser elemento decisivo, pois pertencem \u00e0 realidade da qual falam e pretendem transformar.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio cronista uruguaio foi uma verdadeira testemunha de um tempo em desordem, com ditaduras civil-militares escrevendo com sangue a hist\u00f3ria de pa\u00edses como Bol\u00edvia (1964\u20131982), Brasil (1964-1985), Peru (1968-1980), Chile (1973\u20131990), Uruguai (1973-1985) e Argentina (1966-1973 e 1976-1983). Estados ditatoriais que se tornaram ainda mais organizadas a partir de 1975 pela Opera\u00e7\u00e3o Condor. Neste contexto, Galeano foi um importante organizador de cultura de resist\u00eancia na Am\u00e9rica Latina, principalmente nos anos setenta, como diretor editorial da emblem\u00e1tica revista (de cultura e literatura) \u201cCrisis[6]\u201d, que publicou 40 edi\u00e7\u00f5es[7], entre maio de 1973 e agosto de 1976, travando uma luta no campo da cultura, dando elementos para pensar a rela\u00e7\u00e3o entre intelectuais e a sociedade \u2013 sua fun\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Infelizmente, em 13 de abril de 2015 esse importante nome da Am\u00e9rica Latina descansou. Mas seu rosto ainda reflete a imagem das lutas populares, dos militantes, da cultura e da arte, o rosto cansado do povo latino-americano. Todos os povos da Am\u00e9rica latina hoje sentem a aus\u00eancia de Eduardo Galeano. Os que n\u00e3o sofrem, apenas, ainda n\u00e3o receberam a not\u00edcia.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pena que sua obra ainda seja um painel de uma hist\u00f3ria de massacre, que se renova a cada crise do capitalismo e nos mostra que o caminho \u00e9 esse, do qual damos passos discretos, que suas palavras constru\u00edram, como quem constr\u00f3i um mapa: \u201ch\u00e1 muita podrid\u00e3o para lan\u00e7ar ao mar no caminho da reconstru\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina. Os despojados, os humilhados, dos amaldi\u00e7oados, eles sim t\u00eam em suas m\u00e3os a tarefa. A causa nacional latino-americana \u00e9, antes de tudo, uma causa social: para que a Am\u00e9rica Latina possa nascer de novo, ser\u00e1 preciso derrubar seus donos, pa\u00eds por pa\u00eds. Abrem-se tempos de rebeli\u00e3o e de mudan\u00e7a. H\u00e1 quem acredite que o destino descansa nos joelhos dos deuses, mas a verdade \u00e9 que trabalha, como um desafio candente, sobre as consci\u00eancias dos homens\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31576\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[13,50],"tags":[223],"class_list":["post-31576","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s14-cultura","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8di","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31576","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31576"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31576\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31583,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31576\/revisions\/31583"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31576"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31576"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31576"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}