{"id":31654,"date":"2024-05-06T22:32:22","date_gmt":"2024-05-07T01:32:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=31654"},"modified":"2024-05-06T22:32:22","modified_gmt":"2024-05-07T01:32:22","slug":"em-louvor-da-guerra-o-25-de-abril-ontem-e-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31654","title":{"rendered":"Em louvor da guerra: o 25 de Abril ontem e hoje"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"31655\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31654\/unnamed-31\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/unnamed.png?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"705,470\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/unnamed.png?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-31655\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/unnamed.png?resize=705%2C470&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"705\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/unnamed.png?w=705&amp;ssl=1 705w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/unnamed.png?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 705px) 100vw, 705px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Cr\u00e9ditos \/ Museu Nacional Resist\u00eancia e Liberdade<\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o &#8211; Abril Abril<\/p>\n<p>Hoje j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 cravo capaz de disfar\u00e7ar as multid\u00f5es de \u00abfilhos da m\u00e3e\u00bb que por a\u00ed andam, farsantes que dissolvem o 25 de Abril no 25 de Novembro; para eles bastava que o salazarismo\/marcelismo imitasse a s\u00e1bia transi\u00e7\u00e3o conseguida pelo franquismo aqui mesmo ao lado.<\/p>\n<p>Ao olhar desapaixonadamente para a rela\u00e7\u00e3o entre a Revolu\u00e7\u00e3o de 25 de Abril de 1974 e o cen\u00e1rio pol\u00edtico, social, econ\u00f4mico e militar hoje existente em Portugal n\u00e3o ser\u00e1 abusivo concluir que o maior engano dos militares revolucion\u00e1rios, ou talvez o seu mais desmedido atrevimento, foi o de terem marcado t\u00e3o fortemente o movimento transformador com a inten\u00e7\u00e3o de instaurar pol\u00edticas de paz e de independ\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>Por alguma raz\u00e3o, a nova classe pol\u00edtica emergente a partir de Novembro de 1975 os quis mandar rapidamente para os quart\u00e9is. Paz e soberania nacional n\u00e3o estavam, como hoje se percebe, nos programas dos pol\u00edticos com ambi\u00e7\u00f5es de poder que ent\u00e3o j\u00e1 se perfilavam para tomar conta do 25 de Abril e forj\u00e1-lo \u00e0 sua maneira, de acordo com as instru\u00e7\u00f5es dos patrocinadores externos. N\u00e3o contavam, \u00e9 certo, com o fulgor e a rapidez com que o povo se uniu ao MFA, fazendo seu o programa dos corajosos militares e defendendo-o nas ruas, nos locais de trabalho e nas organiza\u00e7\u00f5es populares nascentes, come\u00e7ando assim a modelar verdadeiramente um novo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os ambiciosos pol\u00edticos que pouco ou nada fizeram para abalar os alicerces do fascismo, e que ainda hoje t\u00eam pudor em qualificar assim o regime beato-salazarista, foram inegavelmente apanhados de surpresa pela s\u00fabita din\u00e2mica militar e popular. O car\u00e1ter verdadeiramente revolucion\u00e1rio e de ruptura que come\u00e7ou a ser afirmado no pr\u00f3prio dia 25 de Abril se deparou com os que ainda em pleno per\u00edodo da \u00abprimavera marcelista\u00bb, nas margens do regime ou em ex\u00edlios bastante c\u00f4modos e tranquilos, tomaram posi\u00e7\u00f5es para tirar proveito de uma desejada \u00abevolu\u00e7\u00e3o na continuidade\u00bb.<\/p>\n<p>Contavam que o poder lhes chegasse \u00e0s m\u00e3os durante essa fase, logo que fosse poss\u00edvel isolar os \u00abultras\u00bb e \u00abduros\u00bb da ortodoxia salazarista, no quadro de uma democracia parcialmente pluripartid\u00e1ria e parlamentar aben\u00e7oada pelos Estados Unidos e a OTAN, na qual os \u00abdonos disto tudo\u00bb n\u00e3o sofressem quaisquer danos e inc\u00f4modos gra\u00e7as a uma transi\u00e7\u00e3o suave e cordata feita sem acordar o povo. Nessa restaurada democracia de uma \u00abnova rep\u00fablica\u00bb n\u00e3o deveriam caber o Partido Comunista Portugu\u00eas e outras correntes antifascistas que pudessem representar uma oposi\u00e7\u00e3o real suscept\u00edvel de inquietar o atlantismo e, sobretudo, perturbassem os interesse do imp\u00e9rio e a \u00abciviliza\u00e7\u00e3o ocidental\u00bb.<\/p>\n<p>As normas oficiais e, sobretudo, clandestinas da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica nessa mat\u00e9ria eram (e s\u00e3o) taxativas e custaram at\u00e9 a vida ao primeiro-ministro italiano Aldo Moro, apesar de ser democrata-crist\u00e3o: na Europa Ocidental nenhum partido comunista poderia aproximar-se da \u00f3rbita de qualquer governo; se os comunistas continuassem ilegais, melhor seria. A persegui\u00e7\u00e3o permanente e incans\u00e1vel da classe pol\u00edtica em fun\u00e7\u00f5es e do respectivo aparelho de propaganda contra o PCP durante as \u00faltimas cinco d\u00e9cadas, recorrendo a m\u00e9todos sujos e inegavelmente inspirados no \u00abantigo regime\u00bb para o fazer desaparecer do Parlamento, \u00e9 a variante dessa estrat\u00e9gia seguida desde que o partido foi legalizado.<\/p>\n<p>Do romantismo ao golpe<br \/>\nA Hist\u00f3ria ensina-nos que os movimentos efetivamente revolucion\u00e1rios e transformadores est\u00e3o muitas vezes \u00e0 merc\u00ea da ingenuidade, do idealismo e de algum romantismo dos seus principais atores, confiantes na justi\u00e7a e na raz\u00e3o das suas causas perante as correntes contrarrevolucion\u00e1rias; estas, passada a fase inicial de choque, n\u00e3o tardam em reorganizar-se na base da experi\u00eancia, do golpismo, do medo, boato, intimida\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, mentira e da aus\u00eancia total de princ\u00edpios. Sem esquecer a sua capacidade de se mimetizar para se inserir nos c\u00edrculos revolucion\u00e1rios com o objetivo de os dividir e minar.<\/p>\n<p>Tudo isso aconteceu em Portugal, ao longo de quase 600 dias. A alian\u00e7a entre os militares de Abril e o povo que espontaneamente aderiu ao seu movimento n\u00e3o soube defender-se para avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de uma democracia em que o poder participativo dos cidad\u00e3os n\u00e3o se dissolvesse nas manobras pol\u00edticas dos que, sequestrando os verdadeiros ideais de Abril, conseguiram simultaneamente dividir os militares, difamar, intimidar, manipular e neutralizar a din\u00e2mica popular. As circunst\u00e2ncias que diferenciaram a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o de uma palaciana transi\u00e7\u00e3o de regime foram-se diluindo, com grande envolvimento, inger\u00eancia e conspira\u00e7\u00e3o dos \u00abnossos amigos e aliados\u00bb \u2013 conseguindo at\u00e9 arrastar grandes massas para o campo da contrarrevolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eis que chegou ent\u00e3o o com\u00edcio de Julho de 1975, antec\u00e2mara do golpe de Novembro daquele ano, iniciativa montada pelo embaixador estadunidense Frank Carlucci juntamente com M\u00e1rio Soares e na prepara\u00e7\u00e3o da qual participaram ativamente a entranhada rede de manipula\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica e os partidos de direita, arrebanhando militantes e caceteiros para a Alameda Afonso Henriques, em Lisboa.<\/p>\n<p>O com\u00edcio foi oficialmente \u00abdo PS\u00bb, organizado no terreno pelo atual secret\u00e1rio-geral da ONU, Ant\u00f3nio Guterres (boas a\u00e7\u00f5es merecem melhores recompensas). M\u00e1rio Soares, com a verve mais agressiva que nunca, e tamb\u00e9m a mais fiel \u00e0 sua ess\u00eancia pol\u00edtica e pessoal, chamou de \u00abparan\u00f3icos\u00bb o primeiro-ministro Vasco Gon\u00e7alves e o secret\u00e1rio-geral do PCP, \u00c1lvaro Cunhal, recorrendo ele pr\u00f3prio \u00e0 paran\u00f3ia mais corrente em Portugal fazendo crer que o pa\u00eds estava sob \u00aba amea\u00e7a de uma ditadura comunista\u00bb. Tese com arcabou\u00e7os de farsa cujo \u00eaxito dos efeitos t\u00f3xicos gerados ter\u00e1 sido decisivo na promo\u00e7\u00e3o de Carlucci a diretor da CIA e que, ao ser inventada como pretexto para o golpe de 25 de Novembro de 1975, falsificou definitivamente a Hist\u00f3ria \u00aboficial\u00bb de Portugal. A receita mistificadora est\u00e1 sendo intensamente reavivada em Portugal, prometendo fazer dos 50 anos do 25 de Novembro uma contundente ofensiva sem limites contra o essencial da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril e as for\u00e7as consequentemente antifascistas, sobretudo o Partido Comunista Portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Na Alameda gritou-se orquestradamente \u00abse este n\u00e3o \u00e9 o povo, onde \u00e9 que est\u00e1 o povo?\u00bb, substituindo o povo de Abril pelo povo de Novembro \u2013 que a partir da\u00ed desapareceu completamente do cen\u00e1rio de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e deixou de ter qualquer papel nas decis\u00f5es com real influ\u00eancia na vida dos cidad\u00e3os. Ou seja, o tal povo de Novembro, concebido em formato de figura\u00e7\u00e3o de uma superprodu\u00e7\u00e3o hollywoodesca, serviu de instrumento para nos amarrar a uma classe pol\u00edtica estrangeirada e ap\u00e1trida que, na verdade, odeia os militares de Abril e serve de tapete \u00e0s ditaduras da OTAN e da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>O tempo e essa classe pol\u00edtica que a partir de 25 de Novembro de 1975 tomou conta dos destinos da na\u00e7\u00e3o \u2013 anulando-a \u2013 t\u00eam contribu\u00eddo, cada um \u00e0 sua maneira, para corrigir e apagar os supostos anacronismos e os alegados \u00abdesatinos\u00bb do movimento revolucion\u00e1rio, esmagando a ilus\u00e3o da \u00abpopula\u00e7a\u00bb quando esta, senhora das ruas e verdadeiramente representada nos \u00f3rg\u00e3os de poder, chegou a pensar que podia e devia ter voz ativa nas decis\u00f5es pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os contornos dessa classe pol\u00edtica com identidade e vida pr\u00f3prias apareceram publicamente pela primeira vez no com\u00edcio da Alameda, ainda assim demasiado tarde para alguns que tentaram entroniz\u00e1-la logo em Setembro de 1974 e em Mar\u00e7o de 1975; essa elite que, sem qualquer verdadeiro controle democr\u00e1tico, assumiu a \u00abvoca\u00e7\u00e3o para governar\u00bb, teve at\u00e9 agora cinco d\u00e9cadas para formatar o pa\u00eds segundo as normas inquestion\u00e1veis da democracia liberal e ocidental ditadas pelos interesses imperiais e coloniais.<\/p>\n<p>Come\u00e7a a \u00abcorre\u00e7\u00e3o\u00bb<br \/>\nAs privatiza\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o tardaram a iniciar-se depois de instaurada a \u00abnormalidade democr\u00e1tica\u00bb novembrista, permitiram que os donos da economia e das finan\u00e7as recebessem de volta, a pre\u00e7os praticados em qualquer feira da ladroagem, os bens que as nacionaliza\u00e7\u00f5es lhes levaram em tempos de \u00abinsanidade\u00bb popular: enquanto os latifundi\u00e1rios, os respectivos herdeiros e outras castas que n\u00e3o resistiram aos apelos do ruralismo, do turismo e da ecologia fashion tomaram conta dos montes e das plan\u00edcies do Ribatejo e do Ribatejo, desintoxicando-as de quaisquer vest\u00edgios nocivos da Reforma Agr\u00e1ria. At\u00e9 que agora ali chegou o Chega para assegurar que esta mudan\u00e7a cicl\u00f3pica \u2013 para citar Marcello, padrinho de Marcelo xen\u00f3fobo \u2013 se processe como deve ser, \u00e0 moda de antigamente, realidade de que os alentejanos e ribatejanos de todas as gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o tardar\u00e3o a perceber.<\/p>\n<p>O desenvolvimento destes caminhos para a plena entrada em vigor da democracia liberal, movimento que alguns mal intencionados qualificam como \u00abcontrarrevolu\u00e7\u00e3o\u00bb, teve n\u00e3o s\u00f3 o apoio mas tamb\u00e9m a ajuda e quantas vezes o protagonismo das inst\u00e2ncias internacionais \u00abnossas amigas e aliadas\u00bb, solidariedade que, naturalmente, se aplica apenas \u00e0 classe pol\u00edtica porque esta conhece, define e fomenta com rigor absoluto o que o povo deseja, o que merece, quais as suas necessidades e como deve comportar-se. Por isso ouvimos tantas vezes os governantes, pol\u00edticos, banqueiros, grandes patr\u00f5es, analistas, jornalistas de refer\u00eancia sentenciar que \u00abos portugueses sabem\u00bb, os \u00abportugueses querem\u00bb, \u00abos portugueses nunca permitiriam\u00bb e outras certezas e representatividade s\u00f3 ao alcance das elites, genericamente conhecidas como \u00abo arco da governan\u00e7a\u00bb. Estatuto que, a bem dizer, dispensaria as elei\u00e7\u00f5es porque, mais coisa menos coisa, sabemos os resultados que ir\u00e3o dar, com maior ou menor \u00abestabilidade pol\u00edtica\u00bb, problemazinho que, caso surja, se resolve ao sabor de manobras para as quais a classe pol\u00edtica j\u00e1 nasceu ensinada.<\/p>\n<p>Cravo vermelho ao peito\u2026<br \/>\nAs inst\u00e2ncias internacionais foram generosas para com este recanto lusitano desde os primeiros minutos revolucion\u00e1rios. A sua presen\u00e7a, f\u00edsica ou apenas como espectro, fez-se sentir em cada momento das transforma\u00e7\u00f5es, com especial esmero por parte da OTAN e da Embaixada dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, a funcionar como centro operacional de conspira\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quais a Hist\u00f3ria real \u2013 n\u00e3o a oficial \u2013 j\u00e1 tem hoje poucas d\u00favidas, incluindo quanto aos protagonistas nacionais e internacionais, encabe\u00e7ados pelo diligente embaixador Carlucci, o qual celebrou nos seus aposentos com o seu mais chegado colaborador, M\u00e1rio Soares, os passos bem sucedidos da contrarrevolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 o esp\u00edrito benfazejo do atlantismo e de Carlucci &amp; CIA permitiram travar os \u00abdesmandos\u00bb do 25 de Abril, obra de um povo indom\u00e1vel que acreditava nas possibilidades de construir um futuro melhor depois dos anos de chumbo salazaristas.<\/p>\n<p>As invoca\u00e7\u00f5es do 25 de Abril que hoje se observam em salamaleques pol\u00edticos, coment\u00e1rios fascistizados, narrativas e relatos carregados de ignor\u00e2ncia, quando n\u00e3o insidiosos de veneno, dispendiosas campanhas de cartazes outdoors e outras tropelias afins parecem verdadeiros milagres, mas n\u00e3o passam de lament\u00e1veis exerc\u00edcios de hipocrisia, de pretextos para atacar, com esp\u00edrito novembrista, as for\u00e7as e personalidades mais consequentes da Revolu\u00e7\u00e3o. Celebra-se a Revolu\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, defende-se o fascismo econ\u00f4mico neoliberal; sa\u00fada-se o programa do MFA e festeja-se o desaparecimento de Portugal na voragem federalista europeia; lembram-nos o fim da guerra colonial, mas n\u00e3o escondem o contentamento pelas oferendas de trilh\u00f5es de d\u00f3lares e euros ao nazismo ucraniano, que patrocinam e armam, e pelo envio de tropas portuguesas para outras novas guerras coloniais.<\/p>\n<p>Alguns figurantes e membros da classe pol\u00edtica, hipocritamente tomados pelo esp\u00edrito destes tempos, chegam a elogiar o fato de os militares de Abril terem defendido o empenho de Portugal no combate ao colonialismo e ao imperialismo; e s\u00e3o exatamente os mesmos que silenciam sobre o genoc\u00eddio colonial sionista na Palestina, concordam com o roubo das riquezas do Sahara Ocidental pelos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, com responsabilidade igualmente portuguesa. Os admiradores do fascismo econ\u00f4mico de Pinochet, de Thatcher, Reagan e outros comparsas n\u00e3o hesitam at\u00e9 em identificar-se com os ideais do 25 de Abril.<\/p>\n<p>Muitos dos que, quando chega esta altura do ano, n\u00e3o deixam de erguer os cravos vermelhos, evocam um 25 de Abril que nunca conheceram nem querem conhecer, e at\u00e9 emitem uma ou outra tirada antifascista, s\u00e3o os mesmos que n\u00e3o est\u00e3o preocupados com o fato de Portugal ter o maior fosso de desigualdades na Uni\u00e3o Europeia, estar desaparecido como pa\u00eds, transformado num protetorado da eurocracia, da OTAN, de troikas, do FMI e do Banco Central Europeu, asfixiado por uma moeda alheia, condenado a n\u00e3o passar de uma reserva tur\u00edstica; al\u00e9m de se ter transformado numa entidade orgulhosamente belicista. A \u00abdemocracia participativa\u00bb, um objetivo central dos militares de Abril que os deputados constituintes ainda inscreveram na Constitui\u00e7\u00e3o, s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 um natimorto porque nunca chegou a nascer. O 25 de Novembro agiu prontamente e, em vez de a conceber, preferiu dar \u00e0 luz o monstro da classe pol\u00edtica. Nada com que devamos nos surpreender nestes tempos em que a propaganda, a mistifica\u00e7\u00e3o e a mentira s\u00e3o, afinal, quem mais ordena.<\/p>\n<p>H\u00e1 coisas que nunca mudam enquanto tudo parece mudar. Hoje, como h\u00e1 50 anos, continua de uma atualidade gritante aquela oportun\u00edssima can\u00e7\u00e3o em que Jos\u00e9 Barata Moura nos diz que \u00abCravo vermelho ao peito\/A todos fica bem\/Sobretudo d\u00e1 jeito\/A certos filhos da m\u00e3e\u00bb. Em 1974, os \u00abfilhos da m\u00e3e\u00bb eram os salazaristas \u00f3rf\u00e3os do velho regime, que se escondiam atr\u00e1s do cravo enquanto mergulhavam de cabe\u00e7a no PPD e no CDS, onde alguns ainda est\u00e3o, outros deixaram semente e ainda outros assumiram mesmo a identidade salazarista fundando a Iniciativa Liberal, o Chega e mais algumas coisas do g\u00eanero.<\/p>\n<p>Hoje j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 cravo capaz de disfar\u00e7ar as multid\u00f5es de \u00abfilhos da m\u00e3e\u00bb que por a\u00ed andam, farsantes que dissolvem o 25 de Abril no 25 de Novembro; para eles nem teria sido necess\u00e1ria uma revolu\u00e7\u00e3o para derrubar o fascismo, bastava que o salazarismo\/marcelismo imitasse a s\u00e1bia transi\u00e7\u00e3o conseguida pelo franquismo aqui mesmo ao lado.<\/p>\n<p>A paz, esse anacronismo<br \/>\nPaz e independ\u00eancia nacional: dois dos princ\u00edpios fundadores e identificadores da Revolu\u00e7\u00e3o de 25 de Abril de que povo se apropriou rapidamente e com todas as suas for\u00e7as. A paz matou a guerra colonial, devolveu os militares ao pa\u00eds acabando com a chacina a que o povo portugu\u00eas e os povos das ent\u00e3o col\u00f4nias estavam submetidos pelo fascismo.<\/p>\n<p>Sem a Revolu\u00e7\u00e3o, e com a tal transi\u00e7\u00e3o \u00abordeira\u00bb, que ainda assomou atrav\u00e9s da Junta de Salva\u00e7\u00e3o Nacional mas que o povo logo marginalizou e rejeitou, a \u00absolu\u00e7\u00e3o\u00bb colonial teria sido bem diferente, tendo em conta as estrat\u00e9gias de Ant\u00f3nio de Sp\u00ednola que estavam a fazer o seu caminho. Estas ideias n\u00e3o passavam de um colonialismo com outra designa\u00e7\u00e3o, mais grave at\u00e9 do que as modalidades neocoloniais postas em pr\u00e1tica na sequ\u00eancia da independ\u00eancia de numerosos pa\u00edses africanos; o que certamente implicaria a continua\u00e7\u00e3o da guerra. A paz foi uma conquista inesquec\u00edvel de Abril, mas afinal perec\u00edvel nas m\u00e3os da classe pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A promessa de independ\u00eancia nacional foi outro enorme motivo de esperan\u00e7a trazido pela sua Revolu\u00e7\u00e3o. Os conceitos de paz e de independ\u00eancia nacional sobreviveram ao 25 de Novembro ainda a tempo de serem inscritos na Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, que entrou em vigor em 2 de Abril de 1976. Tal como o conceito de democracia representativa.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, foi transformada num instrumento vol\u00e1til, um obst\u00e1culo para espezinhar sempre que convenha \u00e0 classe pol\u00edtica, sobretudo em mat\u00e9rias como a submiss\u00e3o aos interesses e ordens das oligarquias econ\u00f4micas e financeiras, \u00e0 ditadura do mercado e perante as exig\u00eancias ditatoriais da OTAN e da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>A Lei Fundamental determina o empenho de Portugal no combate pela aboli\u00e7\u00e3o do colonialismo, do imperialismo \u00abe de quaisquer outras formas de agress\u00e3o, dom\u00ednio e explora\u00e7\u00e3o\u00bb; na dissolu\u00e7\u00e3o dos blocos militares; na cria\u00e7\u00e3o de uma \u00abordem internacional capaz de assegurar a paz e a justi\u00e7a entre os povos\u00bb.<\/p>\n<p>Comparemos agora a Constitui\u00e7\u00e3o com o comportamento da classe pol\u00edtica e dos \u00f3rg\u00e3os de poder. Verificamos que foram devidamente corrigidos e \u00abreformulados\u00bb pela pr\u00e1tica pol\u00edtica os objetivos, os anseios que possam ter sido considerados como frutos de enganos, exageros, romantismo e irrealismo dos Capit\u00e3es de Abril e dos pr\u00f3prios deputados constituintes. O pa\u00eds entrou \u00abna ordem\u00bb como se n\u00e3o tivesse havido Revolu\u00e7\u00e3o, como se n\u00e3o existisse Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Pa\u00eds? Qual pa\u00eds? Em vez da independ\u00eancia nacional, certamente um conceito anacr\u00f4nico, Portugal dissolveu-se na Uni\u00e3o Europeia, n\u00e3o tem moeda, n\u00e3o est\u00e1 autorizado a elaborar livremente o Or\u00e7amento de Estado e a gerir a d\u00edvida soberana; \u00e9 uma base, uma caserna e um destacamento da OTAN; destruiu o aparelho produtivo; vendeu a pre\u00e7o de banana os mais poderosos instrumentos da sua economia e das suas finan\u00e7as; entregou a explora\u00e7\u00e3o dos bens e infraestruturas a gigantescas oligarquias transnacionais; a sobreviv\u00eancia dos meros resqu\u00edcios de na\u00e7\u00e3o depende do seu funcionamento como reserva tur\u00edstica; um pa\u00eds com quase 900 anos de hist\u00f3ria n\u00e3o passa de uma pe\u00e7a do colonialismo e do imperialismo globalistas.<\/p>\n<p>A defesa de uma pol\u00edtica de paz foi, afinal, um engano dos militares de Abril, o erro mais grave em termos de perspectiva hist\u00f3rica num pa\u00eds fundador da OTAN, uma op\u00e7\u00e3o ditada apenas pelo imediatismo de acabar com uma guerra invenc\u00edvel. A classe pol\u00edtica quer nos fazer acreditar nisso em cada dia da sua atividade.<\/p>\n<p>O que essa casta nos assegura, em suma, \u00e9 que nenhum pa\u00eds pode prescindir da guerra. A guerra \u00e9 fundamental para alimentar o patriotismo mesmo que j\u00e1 n\u00e3o exista p\u00e1tria. A guerra \u00e9 uma f\u00e1brica de her\u00f3is, de feitos hist\u00f3ricos, \u00e9 o principal alimento da hist\u00f3ria de uma na\u00e7\u00e3o que se leve a s\u00e9rio (ainda que n\u00e3o passe de um holograma). O culto da guerra prestigia-nos entre os \u00abnossos aliados\u00bb, torna-nos presun\u00e7osamente grandes em influ\u00eancia mesmo que pequenos em \u00e1rea, moderniza-nos o equipamento militar, permite-nos ser generosos em dinheiro e armas para com \u00abamigos\u00bb em dificuldades, mesmo que sejam nazifascistas, como a Ucr\u00e2nia e Israel. Em boa verdade, at\u00e9 os administradores dos grandes fabricantes de armamentos t\u00eam de pagar as contas quando chega o fim do m\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 forma de atingir a paz sem fazer a guerra, diz-nos qualquer ministro de Lisboa a Kiev, de Camberra a Washington, de Seul a T\u00f3quio. A guerra permite-nos defender interesses econ\u00f4micos, mesmo que n\u00e3o sejam os nossos, em qualquer parte do mundo: novamente em \u00c1frica \u2013 um regresso bastante simb\u00f3lico \u2013 no Afeganist\u00e3o, na B\u00f3snia-Herzegovina, no Kosovo, no Iraque, ou mesmo enviando barcos da Pol\u00edcia Mar\u00edtima ca\u00e7ar, internar em campos de concentra\u00e7\u00e3o ou mesmo devolver \u00e0 proced\u00eancia e \u00e0 morte refugiados de guerras em que estamos merit\u00f3ria e orgulhosamente presentes. Sem guerra n\u00e3o poder\u00edamos cultivar o \u00abnosso jardim\u00bb e proteg\u00ea-lo da selva que o cerca e amea\u00e7a; n\u00e3o pod\u00edamos salvaguardar e expandir a nossa \u00abciviliza\u00e7\u00e3o ocidental\u00bb, a \u00fanica que pode e deve existir para assim afirmarmos os \u00abnossos valores\u00bb, a \u00abnossa superioridade moral\u00bb, a nossa \u00abcultura humanista\u00bb, que tem sido um exemplo para o mundo nos \u00faltimos cinco s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Benjamin Netanyahu, que todos consideramos um grande humanista e um ainda maior democrata, explicou-nos h\u00e1 dias que as suas pr\u00e1ticas genocidas e de limpeza \u00e9tnica t\u00eam como preocupa\u00e7\u00e3o fundamental a de \u00abdefender a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental\u00bb. \u00c9 dif\u00edcil encontrar uma circunst\u00e2ncia mais relevante para exemplificar \u00aba nossa superioridade moral\u00bb, as \u00abvirtudes humanas\u00bb que florescem no nosso \u00abjardim\u00bb.<\/p>\n<p>A guerra \u00e9 igualmente fundamental para expandir a \u00fanica democracia permitida, a nossa, atrav\u00e9s das regi\u00f5es submetidas a ditaduras, quantas vezes encobertas por regimes mistificadores facilmente identific\u00e1veis porque ali os resultados nas urnas nunca s\u00e3o aqueles que desejamos, os \u00fanicos aceit\u00e1veis para que os interesses dos \u00abnossos amigos e aliados\u00bb sejam respeitados. H\u00e1 quem chame colonialismo e imperialismo a estes procedimentos, acusa\u00e7\u00e3o que corresponde a conceitos velhos e anacr\u00f4nicos atrav\u00e9s dos quais se pretende manchar a expans\u00e3o da \u00abnossa superioridade moral\u00bb e que, infelizmente, contaminaram o pensamento dos Capit\u00e3es de Abril e a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Colocar a paz \u00e0 frente da guerra \u00e9 uma atitude subversiva, uma ideia de lun\u00e1ticos que devem se considerar perigosos para o sistema. Portugal est\u00e1 em guerra, cercado \u2013 os inimigos amea\u00e7am de todos os lados. Felizmente temos a Uni\u00e3o Europeia e a OTAN para nos valerem: se t\u00e3o desinteressadas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o nos tivessem acudido para emendar e apagar os efeitos dAs tolices pacifistas e progressistas de Abril, onde \u00e9 que n\u00f3s j\u00e1 estar\u00edamos?!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31654\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[18,1,65,9,10,98],"tags":[227],"class_list":["post-31654","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s22-europa","category-geral","category-c78-internacional","category-s10-internacional","category-s19-opiniao","category-c111-portugal","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8ey","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31654"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31654\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31656,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31654\/revisions\/31656"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}