{"id":31697,"date":"2024-05-24T21:36:37","date_gmt":"2024-05-25T00:36:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=31697"},"modified":"2024-05-24T21:36:37","modified_gmt":"2024-05-25T00:36:37","slug":"cuba-nunca-ficou-de-bracos-cruzados-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31697","title":{"rendered":"Cuba nunca ficou de bra\u00e7os cruzados &#8211; 1"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"31698\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31697\/unnamed-34\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/unnamed-1.jpg?fit=700%2C481&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"700,481\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/unnamed-1.jpg?fit=700%2C481&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-31698\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/unnamed-1.jpg?resize=700%2C481&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"481\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/unnamed-1.jpg?w=700&amp;ssl=1 700w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/unnamed-1.jpg?resize=300%2C206&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Photo: Estudios Revoluci\u00f3n<\/p>\n<p>Entrevista concedida por Miguel Mario D\u00edaz-Canel Berm\u00fadez, primeiro-secret\u00e1rio do Comit\u00ea Central do Partido Comunista de Cuba e presidente da Rep\u00fablica, a Ignacio Ramonet, professor e jornalista franc\u00eas, no Pal\u00e1cio da Revolu\u00e7\u00e3o, em 11 de maio de 2024, \u00abAno 66 da Revolu\u00e7\u00e3o\u00bb<\/p>\n<p>Autor: Granma | internet@granma.cu<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Presidente, antes de mais nada, gostaria de agradecer-lhe muito pela gentileza de nos conceder esta entrevista.<br \/>\nEsta ser\u00e1 uma entrevista com cerca de dez perguntas que vamos dividir em tr\u00eas blocos: um bloco dedicado \u00e0 pol\u00edtica interna, \u00e0 situa\u00e7\u00e3o interna de Cuba; um segundo bloco sobre a economia, essencialmente a economia de Cuba, obviamente; e um terceiro bloco sobre a pol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p>A primeira pergunta sobre pol\u00edtica interna \u00e9 a seguinte: Para muitas fam\u00edlias em Cuba, nos \u00faltimos dois ou tr\u00eas anos, a vida cotidiana tornou-se particularmente dif\u00edcil: h\u00e1 escassez de alimentos, h\u00e1 infla\u00e7\u00e3o, h\u00e1 escassez de servi\u00e7os p\u00fablicos. O bloqueio econ\u00f4mico, comercial e financeiro imposto ilegalmente pelos Estados Unidos j\u00e1 existia, e o que eu gostaria de lhe perguntar \u00e9 o que aconteceu nos \u00faltimos tempos para que as coisas tenham se deteriorado de tal maneira.<\/p>\n<p>Miguel M. D\u00edaz-Canel: Bem, Ramonet, em primeiro lugar, agrade\u00e7o-lhe por nos dar a oportunidade de conversar com voc\u00ea, \u00e9 sempre muito interessante poder compartilhar pontos de vista com voc\u00ea e tamb\u00e9m ouvir seus coment\u00e1rios sobre essas quest\u00f5es. E voc\u00ea me fez uma pergunta muito interessante, porque muitas pessoas perguntam por que, se h\u00e1 um bloqueio h\u00e1 tanto tempo, o que distingue o bloqueio atual? Acho que temos de partir do fato de que, em primeiro lugar, hoje o bloqueio tem uma caracter\u00edstica qualitativamente diferente; hoje estamos falando de um bloqueio refor\u00e7ado e, al\u00e9m disso, esse refor\u00e7o \u00e9 apoiado por outro componente, que \u00e9 a inclus\u00e3o de Cuba em uma lista esp\u00faria que o governo dos Estados Unidos determina a seu bel-prazer de pa\u00edses que supostamente apoiam o terrorismo. Acima de tudo, vou fazer uma compara\u00e7\u00e3o que considero a melhor maneira de ilustrar o que mudou de um momento para o outro, se compararmos como era a vida dos cubanos at\u00e9 2019 ou at\u00e9 o segundo semestre de 2019, e como tem sido a vida depois do segundo semestre de 2019, que \u00e9 o que tamb\u00e9m enquadra ou diferencia esses dois momentos.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, somos um pa\u00eds que sofre h\u00e1 mais de sessenta anos as limita\u00e7\u00f5es e adversidades que nos imp\u00f5e o bloqueio, um bloqueio ilegal, injusto, anacr\u00f4nico como pol\u00edtica e, sobretudo, sobrecarregado pela perspectiva arrogante do governo dos Estados Unidos. Cuba nunca ficou de bra\u00e7os cruzados e desenvolvemos uma capacidade de resist\u00eancia. Eu diria at\u00e9, depois das experi\u00eancias que tivemos na COVID-19, que \u00e9 uma resist\u00eancia criativa, porque o pa\u00eds n\u00e3o s\u00f3 foi capaz de resistir ao ataque do bloqueio, mas nessas condi\u00e7\u00f5es o pa\u00eds avan\u00e7ou, contribuiu, cresceu como na\u00e7\u00e3o e, al\u00e9m disso, se desenvolveu; em outras palavras, n\u00e3o est\u00e1 apenas resistindo sozinho e n\u00e3o fazendo mais nada. Sob todos esses conceitos e todas as estrat\u00e9gias que a Revolu\u00e7\u00e3o teve, conseguimos manter um certo n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica, de exporta\u00e7\u00f5es, de apoio a programas sociais com alto impacto em nossa popula\u00e7\u00e3o, e vivemos, embora nossos sonhos tenham sido interrompidos ou todas as nossas aspira\u00e7\u00f5es tenham sido retardadas, precisamente por causa dos efeitos do bloqueio, que eu lhes digo categoricamente que \u00e9 a causa que mais retarda nosso desenvolvimento econ\u00f4mico. E eu sempre digo: se conseguimos fazer tantas coisas enquanto est\u00e1vamos bloqueados, o que n\u00e3o ter\u00edamos conseguido fazer sem estarmos bloqueados; mas essas s\u00e3o hip\u00f3teses que precisam ser transformadas em teses com estudos, com verifica\u00e7\u00f5es, com an\u00e1lise de dados, o que n\u00e3o \u00e9 o caso do que nos interessa agora.<\/p>\n<p>Em 2019, este pa\u00eds recebeu receitas de exporta\u00e7\u00f5es de nossas produ\u00e7\u00f5es export\u00e1veis e competitivas no mercado internacional, porque havia vitalidade na atividade econ\u00f4mica do pa\u00eds; o pa\u00eds recebeu uma quantidade significativa de remessas; recebeu receitas significativas do turismo \u2014 lembrem-se de que tivemos quase quatro milh\u00f5es e meio de turistas em um ano \u2014 e tivemos cr\u00e9ditos de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es financeiras, cr\u00e9ditos governamentais de pa\u00edses com os quais temos rela\u00e7\u00f5es muito boas e tamb\u00e9m cr\u00e9ditos de programas, de ag\u00eancias, que nos permitiram desenvolver e apoiar projetos. Por outro lado, t\u00ednhamos um suprimento est\u00e1vel de combust\u00edvel com base em acordos com pa\u00edses amigos, com pa\u00edses irm\u00e3os, o que significava que, nos termos desses acordos, n\u00e3o precis\u00e1vamos gastar praticamente nada da receita em moeda estrangeira que receb\u00edamos em combust\u00edvel, porque tudo isso era compensado pelos servi\u00e7os que prest\u00e1vamos a esses pa\u00edses irm\u00e3os. Portanto, sob todas essas condi\u00e7\u00f5es, t\u00ednhamos uma receita em moeda estrangeira que nos permitia importar mat\u00e9rias-primas para desenvolver nossos principais processos produtivos, na medida em que pod\u00edamos ter essas coisas com as limita\u00e7\u00f5es do bloqueio; pod\u00edamos comprar alimentos para satisfazer a cesta b\u00e1sica, pod\u00edamos at\u00e9 mesmo comprar alimentos e outros bens que coloc\u00e1vamos nas lojas \u2014 naquela \u00e9poca eram as lojas que operavam na moeda CUC, e no mercado interno em moeda nacional \u2014, portanto, nosso mercado interno tinha um certo n\u00edvel de abastecimento.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos moeda estrangeira dispon\u00edvel, com a qual poder\u00edamos alcan\u00e7ar um mercado de c\u00e2mbio legal, controlado pelo Estado, onde poder\u00edamos comprar e vender moeda estrangeira com seu equivalente em moeda nacional. T\u00ednhamos um n\u00edvel aceit\u00e1vel de capacidade para pagar nossas obriga\u00e7\u00f5es de d\u00edvida com pa\u00edses ou empresas que tinham investido em Cuba, inclusive investimentos estrangeiros. E tamb\u00e9m t\u00ednhamos uma capacidade de dinheiro para a compra de pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o, um dos insumos mais importantes para nossa economia. Portanto, havia oferta no mercado interno e uma rela\u00e7\u00e3o oferta\/demanda adequada que permitia que os n\u00edveis de infla\u00e7\u00e3o fossem baixos.<br \/>\nTudo isso levou a um ciclo de feedback: Os processos produtivos, a boa atividade produtiva, geraram mais recursos export\u00e1veis, mais renda; o turismo se desenvolveu, gerou mais renda, e tudo isso foi sendo agitado e chegamos a uma certa situa\u00e7\u00e3o, eu diria, de estabilidade, sem ainda alcan\u00e7ar a prosperidade a que aspiramos, e estamos em um processo de aperfei\u00e7oamento do nosso sistema econ\u00f4mico-social e, por outro lado, tamb\u00e9m com todo um conjunto de propostas, vis\u00f5es, postulados e diretrizes em rela\u00e7\u00e3o ao Plano Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social at\u00e9 2030, e vivemos dessa forma.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Isso foi at\u00e9 2019.<\/p>\n<p>Miguel M. D\u00edaz-Canel: At\u00e9 o segundo semestre de 2019. No segundo semestre de 2019, o governo Trump est\u00e1 aplicando mais de 240 medidas que refor\u00e7am o bloqueio, e \u00e9 a\u00ed que entra o primeiro conceito: Eles refor\u00e7am o bloqueio, e at\u00e9 mesmo o T\u00edtulo III da Lei Helms-Burton \u00e9 aplicado pela primeira vez, o que nunca tinha sido aplicado antes e que tem um tremendo impacto, acima de tudo, de press\u00e3o sobre os investidores estrangeiros, sobre aqueles que j\u00e1 investiram, sobre aqueles que estavam pensando em investir, e d\u00e1 apoio \u00e0queles que fizeram parte dos confiscos que o Governo Revolucion\u00e1rio justamente realizou nos primeiros anos da Revolu\u00e7\u00e3o. Com essas medidas de endurecimento, todas as nossas fontes de renda em moeda estrangeira foram repentinamente cortadas; o turismo diminuiu consideravelmente, porque o governo dos EUA negou ao povo norte-americano o direito de viajar para Cuba; os navios de cruzeiro, que eram uma parte importante do fluxo de turistas para Cuba, foram fechados; uma enorme persegui\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e financeira foi organizada. Mais de 92 bancos ou institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais foram sancionados ou pressionados pelo governo dos Estados Unidos e, portanto, interromperam suas rela\u00e7\u00f5es de interc\u00e2mbio financeiro com Cuba.<\/p>\n<p>As remessas, que eram uma importante fonte de renda para o pa\u00eds, foram cortadas e, por outro lado, eles tamb\u00e9m pressionaram e aplicaram muitas san\u00e7\u00f5es contra pa\u00edses amigos e irm\u00e3os que nos forneciam combust\u00edvel regularmente. Portanto, come\u00e7amos a ter um d\u00e9ficit de combust\u00edvel; come\u00e7amos a ter um d\u00e9ficit na disponibilidade de moeda estrangeira. Com esses dois elementos, por um lado, o sistema el\u00e9trico nacional est\u00e1 desestabilizado, porque conseguimos garantir a opera\u00e7\u00e3o das usinas termoel\u00e9tricas com o petr\u00f3leo bruto nacional; mas as usinas termoel\u00e9tricas n\u00e3o cobrem toda a demanda de eletricidade do pa\u00eds, especialmente nos hor\u00e1rios de pico, e temos de colocar em funcionamento outras usinas de gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda que operam principalmente com diesel e \u00f3leo combust\u00edvel; sem esses combust\u00edveis, ficamos com um d\u00e9ficit.<\/p>\n<p>Por outro lado, com a menor disponibilidade de divisas, n\u00e3o conseguimos comprar a tempo os insumos e pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios para a manuten\u00e7\u00e3o de todo o sistema el\u00e9trico nacional, que, ali\u00e1s, \u00e9 um sistema com certo n\u00edvel de obsolesc\u00eancia; isso aumenta as quebras, faz com que a manuten\u00e7\u00e3o seja mais demorada e tudo isso conspira contra a estabilidade do sistema el\u00e9trico nacional e, nessas condi\u00e7\u00f5es, come\u00e7amos a sofrer com os inc\u00f4modos apag\u00f5es. Para reduzir esses apag\u00f5es, tivemos at\u00e9 que fechar ou limitar o n\u00edvel de atividade produtiva, um grupo de atividades econ\u00f4micas. E como parte dessas mesmas limita\u00e7\u00f5es de moeda estrangeira, estamos come\u00e7ando a ter falta de certos insumos e mat\u00e9rias-primas para processos de produ\u00e7\u00e3o importantes. E a pouca moeda estrangeira que temos, temos de gastar na compra de combust\u00edvel, o que n\u00e3o precis\u00e1vamos gastar antes porque t\u00ednhamos outros mecanismos para resolver esse problema. Os pre\u00e7os est\u00e3o subindo no mercado internacional, porque isso tamb\u00e9m faz parte da crise multidimensional que o mundo est\u00e1 sofrendo.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: A COVID-19 tamb\u00e9m come\u00e7a.<\/p>\n<p>Miguel M. D\u00edaz-Canel: H\u00e1 a COVID-19, na qual estamos entrando em 2020, depois disso. H\u00e1 as quest\u00f5es do aumento dos pre\u00e7os no mercado internacional como parte da crise multidimensional; h\u00e1 os efeitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, e temos sido afetados por secas intensas, por chuvas intensas durante todo esse tempo e tamb\u00e9m por furac\u00f5es de certas intensidades que causaram muitos danos \u00e0 economia. Tudo isso criou um ambiente de escassez de medicamentos, alimentos e combust\u00edvel.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Dificuldades de transporte.<\/p>\n<p>Miguel M. D\u00edaz-Canel: No transporte. E isso tamb\u00e9m est\u00e1 afetando nossos programas sociais e o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o, e est\u00e1 criando uma realidade muito complexa.<br \/>\nNo primeiro m\u00eas de 2020, apenas oito ou dez dias antes de Trump deixar a Casa Branca, ele nos incluiu na lista de pa\u00edses que patrocinam o terrorismo.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Inclus\u00e3o na lista de pa\u00edses que favorecem o terrorismo.<br \/>\nMiguel M. D\u00edaz-Canel: E ent\u00e3o, de repente, todas as ag\u00eancias banc\u00e1rias e todas as institui\u00e7\u00f5es financeiras pararam de nos conceder empr\u00e9stimos. Portanto, hoje somos um pa\u00eds que vive da conta corrente, ou seja, o que voc\u00ea ganhou nesta semana e como voc\u00ea o distribui entre um n\u00famero enorme de prioridades que o pa\u00eds tem e que n\u00e3o podem ser cobertas com a renda de uma \u00fanica semana. Portanto, a disponibilidade de moeda estrangeira para todas essas coisas que tinham aumentado est\u00e1 come\u00e7ando a ser afetada, n\u00e3o temos mais a mesma capacidade de cobrir e honrar nossos compromissos de pagar dividendos a entidades estrangeiras, de pagar d\u00edvidas a pa\u00edses ou empresas com as quais temos d\u00edvidas, em tempo h\u00e1bil.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Ou o Clube de Paris.<\/p>\n<p>Miguel M. D\u00edaz-Canel: N\u00e3o podemos desenvolver a atividade econ\u00f4mica com toda a intensidade e capacidade que temos e que precisamos para oferecer bens e servi\u00e7os; isso cria um tremendo desequil\u00edbrio entre a oferta e a demanda e, como resultado, os pre\u00e7os sobem e a infla\u00e7\u00e3o aparece em grande escala. Por outro lado, n\u00e3o temos a disponibilidade de moeda estrangeira para operar um mercado de c\u00e2mbio estatal legal de forma eficiente e, portanto, cria-se um mercado ilegal.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet &#8211; Mercado paralelo, negro.<br \/>\nMiguel M. D\u00edaz-Canel: Paralelo, que tamb\u00e9m manipula a taxa de c\u00e2mbio e quase se torna um elemento que imp\u00f5e pre\u00e7os e tamb\u00e9m contribui para a quest\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o. Foi nessas condi\u00e7\u00f5es que surgiu a COVID-19, que a COVID-19 n\u00e3o afetou apenas Cuba, afetou o mundo inteiro. E a partir de nossa vis\u00e3o humanista da Revolu\u00e7\u00e3o, durante a COVID-19 nosso principal objetivo era salvar a vida das pessoas. Portanto, uma parte importante de todos os esfor\u00e7os e do pouco dinheiro que entrou no pa\u00eds foi destinada a salvar a vida da popula\u00e7\u00e3o: Primeiro, com base em protocolos para lidar com a doen\u00e7a, usando ou reposicionando medicamentos e produtos biotecnol\u00f3gicos que j\u00e1 tinham sido desenvolvidos pela ind\u00fastria biotecnol\u00f3gica cubana para outras doen\u00e7as e que tiveram um certo n\u00edvel de efeito nas condi\u00e7\u00f5es da COVID-19 e, depois, como \u00e9 sabido, com o enorme esfor\u00e7o, o esfor\u00e7o tit\u00e2nico e, eu diria, os resultados exemplares de nossos cientistas, que fazem parte de todo o conceito que o Comandante-em-hefe teve durante o Per\u00edodo Especial de desenvolver um polo cient\u00edfico produtivo, com um esquema de produ\u00e7\u00e3o fechado, incorporando a ci\u00eancia e a inova\u00e7\u00e3o como uma for\u00e7a produtiva, e incorporando os processos de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e marketing, que se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos tido esse desenvolvimento desde a d\u00e9cada de 1990 at\u00e9 agora, n\u00e3o ter\u00edamos sido capazes de enfrentar a COVID-19 da maneira que fizemos.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Ent\u00e3o vamos falar sobre a COVID-19 e voc\u00ea pode desenvolv\u00ea-la.<br \/>\nMiguel M. D\u00edaz-Canel: Sim, sim, falaremos sobre isso mais tarde. E, acima de tudo, os esfor\u00e7os do sistema de sa\u00fade cubano.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Com certeza.<br \/>\nMiguel M. D\u00edaz-Canel: Mas, sem d\u00favida, todos os outros fen\u00f4menos foram ampliados e continuaram nesses anos; porque tamb\u00e9m deve ser observado que uma das caracter\u00edsticas desse bloqueio intensificado \u00e9 que foi aplicado por um governo republicano, o governo Trump; mas um governo democrata manteve o mesmo, Biden. Foi um processo cumulativo e sistem\u00e1tico ao longo de quatro anos, uma situa\u00e7\u00e3o muito complexa para nossa popula\u00e7\u00e3o e, eu diria, carregada de uma tremenda perversidade, que mostrarei a voc\u00eas quando falarmos sobre a COVID-19.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Senhor Presidente, gostaria que fal\u00e1ssemos sobre algo que o senhor acabou de mencionar e que \u00e9 muito inc\u00f4modo para a popula\u00e7\u00e3o cubana, que s\u00e3o os apag\u00f5es. Acho que esse \u00e9 um dos problemas que mais incomodam muitos cidad\u00e3os. Como voc\u00ea pode avaliar a situa\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica do pa\u00eds? Voc\u00ea acabou de mencionar alguns elementos, mas que perspectiva de solu\u00e7\u00e3o voc\u00ea pode anunciar aos cidad\u00e3os de Cuba?<\/p>\n<p>Miguel M. D\u00edaz-Canel: Ramonet, hoje, neste momento em que estamos realizando esta reuni\u00e3o, estamos em uma situa\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica extremamente complexa.<br \/>\nHoje, temos um sistema el\u00e9trico inst\u00e1vel por v\u00e1rias raz\u00f5es que vou explicar agora e, no momento, nesta semana, sofremos graves apag\u00f5es em todo o pa\u00eds, n\u00e3o conseguimos desligar o sistema el\u00e9trico nacional 24 horas por dia por mais de cinco dias, o que significa que em todos os momentos tivemos algum n\u00edvel de apag\u00e3o, e isso, sucessivamente, sem d\u00favida, prejudica, complica a situa\u00e7\u00e3o, causa mal-estar, causa mal-entendidos e torna a vida dos cubanos mais dif\u00edcil. H\u00e1 v\u00e1rios aspectos aqui: primeiro, temos um sistema de eletroenergia que tem um componente de usinas termel\u00e9tricas, de gera\u00e7\u00e3o de energia t\u00e9rmica, que \u00e9 resolvido com a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo bruto nacional.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Nacional, que \u00e9 o petr\u00f3leo bruto pesado.<br \/>\nMiguel M. D\u00edaz-Canel: Que \u00e9 um petr\u00f3leo pesado, com muito enxofre; mas ele precisa de reparos, precisa de manuten\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, s\u00e3o necess\u00e1rios mais de US$ 300 milh\u00f5es por ano para manter esse sistema nacional de eletroenergia, e essa disponibilidade n\u00e3o existe. Isso significa que h\u00e1 quebras e problemas tecnol\u00f3gicos com mais frequ\u00eancia do que seria normal em um sistema como esse. Temos outro grupo de fontes de gera\u00e7\u00e3o de eletricidade, que s\u00e3o os motores de gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda, especialmente para uso em hor\u00e1rios de pico, que exigem diesel e \u00f3leo combust\u00edvel, e nem sempre tivemos os n\u00edveis de diesel e \u00f3leo combust\u00edvel de que precisamos. Como parte de toda essa situa\u00e7\u00e3o de bloqueio, n\u00f3s, por exemplo, passamos de outubro at\u00e9 o m\u00eas passado sem diesel ou \u00f3leo combust\u00edvel entrando no pa\u00eds, e est\u00e1vamos consumindo as reservas do pa\u00eds \u2014 porque tamb\u00e9m temos um programa de economia \u2014 e isso tamb\u00e9m nos causou, devido \u00e0 falta de combust\u00edvel, graves apag\u00f5es, especialmente em mar\u00e7o. Ao mesmo tempo, esses grupos geradores tamb\u00e9m precisam de pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o afetadas. J\u00e1 temos um pequeno componente com fontes alternativas, especialmente com o uso de fontes de energia renov\u00e1veis. Portanto, nas condi\u00e7\u00f5es atuais, a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade pode falhar devido \u00e0 falta de combust\u00edvel, \u00e0 falta de manuten\u00e7\u00e3o ou a uma combina\u00e7\u00e3o dos dois fatores. Hoje, no momento, n\u00e3o \u00e9 tanto a falta de combust\u00edvel que est\u00e1 nos afetando, mas os problemas tecnol\u00f3gicos e, por outro lado, temos uma estrat\u00e9gia de manuten\u00e7\u00e3o que conseguimos organizar em meio a essas circunst\u00e2ncias, sobretudo com o objetivo de causar o menor impacto poss\u00edvel na popula\u00e7\u00e3o durante o ver\u00e3o. Portanto, nos \u00faltimos dias, tivemos a coincid\u00eancia de v\u00e1rias usinas que tinham trabalhos de manuten\u00e7\u00e3o planejados e que est\u00e3o sendo executados, mas, ao mesmo tempo, outras quebraram.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: E quanto \u00e0s energias renov\u00e1veis, presidente, o senhor est\u00e1 apostando nas energias renov\u00e1veis?<br \/>\nMiguel M. D\u00edaz-Canel: Ent\u00e3o, agora voc\u00ea estava falando comigo sobre solu\u00e7\u00f5es. Estamos apostando em fontes de energia renov\u00e1vel, tanto e\u00f3lica quanto fotovoltaica, biog\u00e1s, todo um grupo de conceitos; mas, acima de tudo, fotovoltaica, porque \u00e9 um investimento que leva menos tempo para ser implantado. Hoje temos um grupo de acordos assinados, com garantias, que nos permitir\u00e3o atingir mais de 2.000 megawatts em menos de dois anos. Isso nos colocaria em uma situa\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica diferente, pois nos levaria a atingir o objetivo que queremos de ter mais de 20% de energia renov\u00e1vel at\u00e9 2030. Vamos chegar a 25%, talvez um pouco mais, dependendo de como essas quest\u00f5es funcionarem.<br \/>\nPortanto, isso vai nos dar um primeiro impacto para que, no pico do dia, os grupos de gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda n\u00e3o estejam funcionando e possamos cobrir tudo com essa nova energia. Ah, porque um dos elementos que eu esqueci de explicar aos senhores \u00e9 que, \u00e0 medida que as usinas termel\u00e9tricas saem de opera\u00e7\u00e3o, os grupos de distribui\u00e7\u00e3o de energia que est\u00e3o planejados, especialmente para o hor\u00e1rio de pico, t\u00eam de trabalhar no hor\u00e1rio fora de pico, ent\u00e3o eles se desgastam mais do que o planejado e nem sempre conseguem compensar esse d\u00e9ficit. Temos um programa completo, que o ministro de Energia e Minas explicou h\u00e1 algumas semanas para toda a nossa popula\u00e7\u00e3o. Agora estamos come\u00e7ando a criar e instalar fazendas sucessivamente, e nossa gera\u00e7\u00e3o de eletricidade crescer\u00e1 dessa forma, o que significa que haver\u00e1 uma mudan\u00e7a substancial neste ano e uma consolida\u00e7\u00e3o no pr\u00f3ximo ano. Parte dessas fazendas de energia fotovoltaica acumular\u00e1 energia e poder\u00e1 ser usada no per\u00edodo noturno. Al\u00e9m de nos dar essa possibilidade, isso tamb\u00e9m reduzir\u00e1 o consumo de combust\u00edvel usado para esse fim.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Que \u00e9 usado para produzir.<br \/>\nMiguel M. D\u00edaz-Canel: Portanto, h\u00e1 duas sa\u00eddas: poderemos usar mais combust\u00edvel para a economia, sobretudo para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, para a agricultura, para processos produtivos que hoje s\u00e3o muito limitados porque a maior parte do combust\u00edvel que temos, por ser deficit\u00e1rio, \u00e9 usada para a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade; e, por outro lado, nossos custos de compra de combust\u00edvel tamb\u00e9m diminuir\u00e3o.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet &#8211; Sobre a compra de hidrocarbonetos.<br \/>\nMiguel M. D\u00edaz-Canel: Mas, al\u00e9m disso, as usinas termoel\u00e9tricas funcionar\u00e3o em um regime mais confort\u00e1vel, de forma que consumiremos menos do pr\u00f3prio petr\u00f3leo nacional, que tamb\u00e9m \u00e9 export\u00e1vel; e uma das coisas que estamos fazendo, das medidas que tomamos, \u00e9 tomar uma s\u00e9rie de medidas para continuar aumentando a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo nacional, e com essa produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo nacional podemos exportar, e isso tamb\u00e9m nos ajuda a ter uma fonte de financiamento para todos esses investimentos que s\u00e3o caros, esses investimentos s\u00e3o muito caros, os investimentos em gera\u00e7\u00e3o de eletricidade. Esse \u00e9, eu diria, o caminho mais sustent\u00e1vel, porque, al\u00e9m disso, \u00e9 totalmente coerente com tudo o que propomos na pol\u00edtica ambiental, com todo o compromisso que temos em nossos programas e em nossos compromissos com as confer\u00eancias COP, para reduzir as emiss\u00f5es de CO2 no espa\u00e7o, ou seja, \u00e9 totalmente coerente e garante o desenvolvimento sustent\u00e1vel. Tamb\u00e9m estamos buscando investimentos estrangeiros que nos permitam fortalecer, atualizar e melhorar o processamento de algumas de nossas refinarias, o que tamb\u00e9m nos permitiria processar esse petr\u00f3leo bruto nacional.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Para refin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Miguel M. D\u00edaz-Canel: Para refin\u00e1-lo e obter outros produtos que tamb\u00e9m seriam export\u00e1veis ou que seriam \u00fateis para o consumo nacional, e ter\u00edamos de importar menos desses produtos para o consumo nacional. H\u00e1 tamb\u00e9m todo um programa de economia de energia que parte da cultura da popula\u00e7\u00e3o. Para reduzir o consumo, n\u00e3o desperdi\u00e7ar e, por outro lado, h\u00e1 todo um desenvolvimento de tecnologias fotovoltaicas, digamos, mais no \u00e2mbito dom\u00e9stico, de equipamentos que funcionam com fontes de energia fotovoltaica. H\u00e1 tamb\u00e9m a substitui\u00e7\u00e3o de lumin\u00e1rias por lumin\u00e1rias de LED, que consomem menos energia e tamb\u00e9m duram mais, e esse conjunto de a\u00e7\u00f5es combinadas nos levar\u00e1 a uma situa\u00e7\u00e3o melhor de energia el\u00e9trica. Isso est\u00e1 bem definido, bem programado. Infelizmente, temos que passar por momentos como esse para chegar l\u00e1, mas \u00e9 uma das formas de superarmos os efeitos do bloqueio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Sr. presidente, de qualquer forma, essa situa\u00e7\u00e3o que o senhor descreve e a anterior, com as dificuldades e priva\u00e7\u00f5es, provocou recentemente um fen\u00f4meno sociol\u00f3gico que era desconhecido em Cuba, que s\u00e3o os protestos sociais. Por um lado, muitas pessoas est\u00e3o emigrando porque n\u00e3o suportam as condi\u00e7\u00f5es atuais e, por outro lado, os protestos que, embora n\u00e3o tenham sido maci\u00e7os, foram surpreendentes porque isso \u00e9 incomum. Ent\u00e3o, gostaria que voc\u00ea nos explicasse, em primeiro lugar, como voc\u00ea analisa a natureza desses protestos e que li\u00e7\u00f5es o senhor est\u00e1 tirando dessa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Miguel M. D\u00edaz-Canel: Ramonet, em primeiro lugar, acho que nosso povo sofreu os efeitos do bloqueio e, como eu estava dizendo, o bloqueio teve um efeito acumulado por mais de sessenta anos. Minha gera\u00e7\u00e3o, que nasceu nos primeiros anos da Revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que viveu bloqueada pela escassez causada pelo bloqueio. Meus filhos nasceram sob o bloqueio e nossos netos nasceram e est\u00e3o vivendo sob as condi\u00e7\u00f5es do bloqueio. Portanto, isso teve um efeito direto sobre a popula\u00e7\u00e3o cubana. Precisamente, em termos conceituais, o que o governo dos EUA e a pol\u00edtica imperial defendem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana? H\u00e1 um ponto de refer\u00eancia chamado Memorando Mallory, baseado precisamente em um memorando escrito por um funcion\u00e1rio do Departamento de Estado na d\u00e9cada de 1960 em uma avalia\u00e7\u00e3o de Cuba, que dizia que, dado o n\u00edvel de apoio popular \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o, a maneira de derrubar a Revolu\u00e7\u00e3o era: asfixia econ\u00f4mica, tentando fazer todo o poss\u00edvel para garantir que o povo sofresse dificuldades e escassez e que isso levaria a uma ruptura com a Revolu\u00e7\u00e3o e, portanto, provocaria uma explos\u00e3o social que levaria \u00e0 queda da Revolu\u00e7\u00e3o. Essa tem sido a pol\u00edtica, esse tem sido o ponto de refer\u00eancia, o conceito fundamental, e \u00e9 isso que eles est\u00e3o fazendo com a intensifica\u00e7\u00e3o do bloqueio. Em 60 anos, eles n\u00e3o conseguiram nos quebrar, e optaram por um bloqueio mais r\u00edgido para nos quebrar. Eles tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00e3o nos quebrar! Ainda acredito na capacidade de resposta, no hero\u00edsmo desse povo e na resist\u00eancia criativa que mencionei a voc\u00eas.<\/p>\n<p>Agora, nestes tempos em particular, com a intensifica\u00e7\u00e3o do bloqueio, em algumas ocasi\u00f5es tivemos a coincid\u00eancia de v\u00e1rios fatores sobre essa popula\u00e7\u00e3o: apag\u00f5es prolongados, problemas de transporte, escassez de vida, problemas para garantir a cesta b\u00e1sica, problemas com alimentos, problemas com medicamentos. Quando h\u00e1 apag\u00f5es, o abastecimento de \u00e1gua \u00e9 afetado, porque as fontes de abastecimento de \u00e1gua tamb\u00e9m funcionam com eletricidade; que, por sinal, agora fizemos um investimento muito importante para transformar os sistemas de bombeamento em sistemas fotovoltaicos tamb\u00e9m, e isso faz parte das coisas que estamos fazendo para superar essa situa\u00e7\u00e3o. Em determinado momento, tamb\u00e9m houve manifesta\u00e7\u00f5es em alguns lugares e com certa participa\u00e7\u00e3o, eu diria, em maior n\u00famero, mais em massa nos eventos de 11 de julho; menos em massa nos eventos de 17 de mar\u00e7o, embora a m\u00eddia as tenha apresentado como muito massivas, como parte do outro componente dessa pol\u00edtica agressiva em rela\u00e7\u00e3o a Cuba de press\u00e3o m\u00e1xima, que, por um lado, \u00e9 a asfixia econ\u00f4mica com a intensifica\u00e7\u00e3o do bloqueio e, por outro lado, \u00e9 a intoxica\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, em que eles tentam desacreditar a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, e em que h\u00e1 uma Cuba virtual e uma Cuba real. Portanto, em v\u00e1rios lugares, houve protestos populares. Quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas dessas demandas? A maioria desses protestos ocorreu em uma situa\u00e7\u00e3o de protesto pac\u00edfico, em que a maioria das pessoas que foram protestar pediram uma explica\u00e7\u00e3o. Veja bem, n\u00e3o s\u00e3o exig\u00eancias de ruptura com a Revolu\u00e7\u00e3o, as pessoas foram \u00e0s institui\u00e7\u00f5es governamentais ou \u00e0s institui\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: Isso ficou muito claro em Santiago.<\/p>\n<p>Miguel M. D\u00edaz-Canel: Em Santiago. Eles foram pedir explica\u00e7\u00f5es, pedir ratifica\u00e7\u00e3o se a situa\u00e7\u00e3o se deve a certas circunst\u00e2ncias, e quem foi que mostrou a cara? Quem foi que conversou com o povo, porque eles fazem parte do povo? Foram exatamente os l\u00edderes do artido, os l\u00edderes do Governo e as administra\u00e7\u00f5es nesses locais, e sem repress\u00e3o policial, sem repress\u00e3o de qualquer tipo. Tamb\u00e9m houve pequenos grupos nesses protestos que n\u00e3o se comportaram dessa maneira pac\u00edfica, e essa \u00e9 uma das coisas que a intoxica\u00e7\u00e3o da m\u00eddia promovida pelo imp\u00e9rio est\u00e1 tentando distorcer. Muitas dessas pessoas foram financiadas por projetos subversivos do governo dos EUA e recebem dinheiro sistematicamente para se aproveitar de situa\u00e7\u00f5es como essa e se manifestar contra a Revolu\u00e7\u00e3o. Elas tamb\u00e9m n\u00e3o recebem resposta repressiva por se manifestarem contra a Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet: A Constitui\u00e7\u00e3o cubana garante o direito de manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Miguel M. D\u00edaz-Canel: N\u00e3o tem uma resposta repressiva, pode ter uma resposta popular, porque a popula\u00e7\u00e3o&#8230;, at\u00e9 j\u00e1 aconteceu, h\u00e1 pessoas nesses protestos que dizem: \u00abEspere, temos de falar com o Governo e falar com o Partido\u00bb, e eles confrontaram e n\u00e3o permitiram que essas pessoas gritassem slogans contrarrevolucion\u00e1rios ou outros tipos de coisas; mas mesmo essa opini\u00e3o que algu\u00e9m que n\u00e3o est\u00e1 com a Revolu\u00e7\u00e3o possa ter n\u00e3o \u00e9 reprimida. O que acontece \u00e9 que, muitas vezes, por fazer parte da mesma plataforma de subvers\u00e3o, aqueles que protestam contra a Revolu\u00e7\u00e3o dessa forma, que s\u00e3o os menos numerosos, cometem atos de vandalismo nesses protestos e atacam a propriedade do Estado, a propriedade social, perturbam a ordem p\u00fablica, e isso traz uma resposta que n\u00e3o \u00e9 ideol\u00f3gica, \u00e9 uma resposta judicial, uma resposta legal, como em qualquer outro pa\u00eds, porque eles est\u00e3o perturbando a ordem p\u00fablica, est\u00e3o perturbando a paz dos cidad\u00e3os, est\u00e3o cometendo delitos ou atos de vandalismo.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que isso n\u00e3o \u00e9 apresentado dessa forma pela m\u00eddia internacional, \u00e9 apresentado de uma forma diferente, porque h\u00e1 um roteiro, um roteiro de guerra n\u00e3o convencional que prop\u00f5e: primeiro, um surto social, demandas ou protestos; segundo, a encena\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o policial; terceiro, a encena\u00e7\u00e3o de prisioneiros pol\u00edticos, ou seja, repress\u00e3o com prisioneiros pol\u00edticos entre aspas; depois, demonstrar que, por causa dessas coisas, h\u00e1 um estado falido e, em seguida, a suposta ajuda humanit\u00e1ria e a mudan\u00e7a de regime. Esse \u00e9 o roteiro e o script da guerra n\u00e3o convencional que est\u00e1 sendo aplicado hoje contra Cuba, contra a Nicar\u00e1gua, contra a Venezuela. Portanto, h\u00e1 uma distor\u00e7\u00e3o aqui e, eu diria, esses tipos de protestos que ocorreram em Cuba, como o senhor diz, que \u00e9 um desenvolvimento relativamente novo o mundo mudou e nossa sociedade mudou, e as condi\u00e7\u00f5es causadas pela intensifica\u00e7\u00e3o do bloqueio tamb\u00e9m mudaram nossas vidas \u2014 s\u00e3o atendidos, s\u00e3o explicados, n\u00e3o causam uma ruptura entre o povo e a Revolu\u00e7\u00e3o, porque, al\u00e9m disso, tamb\u00e9m temos um sistema de trabalho em que estamos visitando lugares, estamos constantemente conversando com a popula\u00e7\u00e3o, damos informa\u00e7\u00f5es sobre esses problemas.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o se fala dos protestos nos Estados Unidos, que geralmente terminam com brutalidade policial, especialmente contra negros ou pessoas humildes? Por que n\u00e3o se fala da brutalidade policial durante os protestos que ocorreram nos \u00faltimos dias nos Estados Unidos, nas universidades, que foram pac\u00edficos, totalmente pac\u00edficos, a favor da causa palestina e contra o genoc\u00eddio cometido por Israel, apoiado pelos Estados Unidos, contra o povo palestino? E qual foi a resposta do governo dos Estados Unidos a esses eventos? Repress\u00e3o policial, maus-tratos aos estudantes, maus-tratos at\u00e9 mesmo aos professores, com botas no pesco\u00e7o das pessoas. Vimos cenas de um professor, uma pessoa idosa, subjugada, reduzida, humilhada no ch\u00e3o. Isso n\u00e3o acontece em Cuba, isso n\u00e3o acontece em Cuba!<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o houve cr\u00edticas aos protestos que ocorreram em outros pa\u00edses europeus, onde manifestantes tamb\u00e9m foram baleados ou onde, em menos de dois dias, houve mais de 3.000 presos e que foram protestos pac\u00edficos? Por que os protestos em Cuba s\u00e3o os que s\u00e3o amplificados e por que s\u00e3o os que assumem essas dimens\u00f5es? Por exemplo, digo-lhe, no dia 17 de mar\u00e7o, quando est\u00e1vamos em contato direto com os tr\u00eas lugares onde ocorreram os protestos sociais, por volta das sete horas da noite j\u00e1 estava tudo em ordem e, al\u00e9m disso, nesse dia no pa\u00eds havia v\u00e1rias atividades nas quais as pessoas estavam participando como parte de um domingo, e ainda \u00e0 uma hora da manh\u00e3 as plataformas de intoxica\u00e7\u00e3o da m\u00eddia diziam que havia um protesto em massa em toda Cuba: uma mentira total, uma cal\u00fania, uma constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu digo, Ramonet, o que se pode esperar de um governo da maior pot\u00eancia do mundo que, para atacar um pa\u00eds, cujo \u00fanico pecado pode ser o de querer a autodetermina\u00e7\u00e3o, a independ\u00eancia, a soberania e de querer construir um modelo diferente daquele que o governo dos Estados Unidos quer impor como parte de sua pol\u00edtica hegem\u00f4nica, que por isso essa pot\u00eancia recorre a um bloqueio brutal durante tantos anos e que, para derrubar a Revolu\u00e7\u00e3o, tem de recorrer a mentiras? Isso \u00e9 t\u00e3o perverso, essas constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o vulgares. Eu digo, se estamos t\u00e3o errados, se somos t\u00e3o ineficientes, se realmente somos t\u00e3o fracassados, n\u00e3o me apliquem nenhuma san\u00e7\u00e3o, deixem-me cair. Mas n\u00e3o, eu sei que o exemplo de Cuba, e digo isso sem nenhuma express\u00e3o de vangl\u00f3ria, longe disso, sem nenhum chauvinismo cubano&#8230;, n\u00f3s sabemos o que representamos como exemplo para a Am\u00e9rica Latina, para o Caribe e para o mundo, porque constantemente se v\u00ea quantas pessoas no mundo fizeram da solidariedade com Cuba o centro de suas vidas, e isso n\u00e3o \u00e9 por escolha, \u00e9 porque h\u00e1 um exemplo, porque h\u00e1 confian\u00e7a, porque h\u00e1 uma luz guia, com a qual assumimos um tremendo compromisso, porque n\u00e3o podemos decepcion\u00e1-la. Essa \u00e9 a \u00fanica coisa que explica por que um governo t\u00e3o poderoso tem de recorrer a essas pr\u00e1ticas para tentar subjugar um pa\u00eds pequeno.<\/p>\n<p>Continua em pr\u00f3xima publica\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31697\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8,14,48,242,9,146,47,77],"tags":[227],"class_list":["post-31697","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-s16-caribe","category-c58-cuba","category-eipco","category-s10-internacional","category-internacionalismo","category-c57-revolucao-cubana","category-c90-solidariedade-a-cuba","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8ff","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31697","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31697"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31697\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31699,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31697\/revisions\/31699"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31697"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31697"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31697"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}