{"id":31850,"date":"2024-07-09T14:01:07","date_gmt":"2024-07-09T17:01:07","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=31850"},"modified":"2024-07-09T14:01:07","modified_gmt":"2024-07-09T17:01:07","slug":"quatro-crises-e-um-programa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31850","title":{"rendered":"Quatro crises e um programa"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"31851\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31850\/image-2-17\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/image-2.png?fit=969%2C631&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"969,631\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/image-2.png?fit=747%2C486&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-31851\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/image-2.png?resize=747%2C486&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"486\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/image-2.png?resize=900%2C586&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/image-2.png?resize=300%2C195&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/image-2.png?resize=768%2C500&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/image-2.png?w=969&amp;ssl=1 969w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por <a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/category\/colunas\/mauro-iasi\/\">Mauro Luis Iasi<\/a><\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>\u201cA teoria sem a pr\u00e1tica de nada serve,<br \/>\na pr\u00e1tica sem teoria \u00e9 cega.\u201d<br \/>\nL\u00eanin<\/p>\n<p><strong>Cada ponto do programa deve ser entendido como o impulso \u00e0s lutas concretas dos diferentes segmentos que se chocam com o capital em uma de suas facetas, um impulso que aponte para o futuro contra as amarras aparentemente insuper\u00e1veis do presente.<\/strong><\/p>\n<p>Antes de refletir sobre a natureza do programa revolucion\u00e1rio para o Brasil, devemos relembrar alguns pressupostos.<\/p>\n<p><strong>Tanto a estrat\u00e9gia quanto a t\u00e1tica derivam de uma leitura da realidade.<\/strong> No entanto, tal leitura se d\u00e1 em dimens\u00f5es qualitativamente diferentes. Enquanto a estrat\u00e9gia pressup\u00f5e o conhecimento hist\u00f3rico da forma\u00e7\u00e3o social em que atuamos, a t\u00e1tica \u00e9 a necess\u00e1ria media\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia no tempo presente.<\/p>\n<p><strong>A estrat\u00e9gia deve se fundamentar no preciso estudo da forma\u00e7\u00e3o social, seu desenvolvimento hist\u00f3rico, a natureza particular do desenvolvimento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, no nosso caso de um capitalismo dependente e subordinado ao imperialismo, do Estado burgu\u00eas e da luta de classes.<\/strong> Mas, e isso \u00e9 fundamental, a estrat\u00e9gia n\u00e3o tem os olhos voltados para o passado, ela mira em um determinado ponto no devir. N\u00e3o se trata do objetivo final, mas do caminho tra\u00e7ado de como chegar a este objetivo, portanto, a estrat\u00e9gia implica na objetividade da an\u00e1lise e nas inten\u00e7\u00f5es dos sujeitos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p><strong>A t\u00e1tica, mais precisamente o conjunto das t\u00e1ticas, n\u00e3o pode operar em um ponto futuro, ela \u00e9 a media\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia no terreno concreto da hist\u00f3ria, naquilo que chamamos de trama conjuntural, numa determinada correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, num certo momento da luta de classes.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Da\u00ed podem derivar dois erros fundamentais que acabam criando enormes problemas para nosso programa e nossa a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/strong> De um lado, traduzir mecanicamente uma estrat\u00e9gia para as a\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas, o que leva ao discurso doutrin\u00e1rio e messi\u00e2nico. De outro, ficar preso aos limites do presente e perder de vista a dimens\u00e3o estrat\u00e9gica, o que leva \u00e0 toda sorte de reformismos e, no limite, \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o de classes. No primeiro caso temos o esquerdismo, no segundo a acomoda\u00e7\u00e3o aos limites da sociedade capitalista e a perda da perspectiva revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do programa se insere neste delicado dilema. Ele n\u00e3o pode ser a mera afirma\u00e7\u00e3o de nossos objetivos estrat\u00e9gicos, nem pode ser um conjunto de respostas pontuais para os diferentes problemas da classe trabalhadora diante de uma determinada conjuntura. <strong>O programa \u00e9 a express\u00e3o concreta da estrat\u00e9gia mediada pelas t\u00e1ticas, isto \u00e9, ao mesmo tempo que dialoga com as necessidades reais da classe trabalhadora, o faz apontando para as determina\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas das contradi\u00e7\u00f5es vividas por nossa classe e para nossas inten\u00e7\u00f5es futuras.<\/strong><\/p>\n<p>De maneira sucinta e meramente introdut\u00f3ria, pensemos nosso pa\u00eds e seus dilemas no sentido que aqui apontamos. <strong>Enquanto militante comprometido com a estrat\u00e9gia de meu partido, penso que no Brasil confluem quatro crises particulares que em seu conjunto expressam as contradi\u00e7\u00f5es principais a serem enfrentadas em nosso esfor\u00e7o coletivo de chegar ao programa da revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A primeira crise \u00e9 aquela que se encontra na base do modo de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida, em mudan\u00e7as significativas no padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o, nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho e contratualidade, na rela\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e consumo.<\/strong> Na base desta crise est\u00e1 a chamada reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva e uma nova morfologia da classe trabalhadora, mas suas encontramos suas determina\u00e7\u00f5es mais profundas na altera\u00e7\u00e3o qualitativa da composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital, investindo cada vez mais proporcionalmente em capital constante do que em capital vari\u00e1vel (M\u00e9sz\u00e1ros, 2002; Antunes, 1999).<\/p>\n<p>Esta crise se expressa n\u00e3o apenas no desemprego de forma mais vis\u00edvel, mas tamb\u00e9m nas condi\u00e7\u00f5es contratuais, na intensifica\u00e7\u00e3o brutal do trabalho e consequente adoecimento dos trabalhadores, como tamb\u00e9m na subjetividade da classe fragmentada e serializada, submetida \u00e0 reifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o, na impossibilidade da reprodu\u00e7\u00e3o da vida que n\u00e3o seja subordinada ao capital.<\/p>\n<p><strong>A segunda crise \u00e9 aquela derivada do crescimento do capitalismo no campo e na forma\u00e7\u00e3o de uma nova estrutura agr\u00e1ria.<\/strong> Aquilo que eufemisticamente se chama de \u201cagroneg\u00f3cio\u201d, nada mais \u00e9 que o capitalismo no campo em sua fase monopolista, altamente concentrado, expropriador e predat\u00f3rio. A ele se soma a extra\u00e7\u00e3o acelerada de mat\u00e9rias primas e recursos necess\u00e1rios ao ritmo da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias.<\/p>\n<p>Quando vemos as duas crises em conjunto podemos constatar que elas resultam na intensifica\u00e7\u00e3o das expropria\u00e7\u00f5es, nos termos que s\u00e3o apresentados por Boschetti, Fontes, Bering e outros (2018), produzindo uma intensifica\u00e7\u00e3o extrema da forma\u00e7\u00e3o de uma superpopula\u00e7\u00e3o relativa. A expropria\u00e7\u00e3o no campo tinha um significado no longevo modelo econ\u00f4mico brasileiro, o de formar o ex\u00e9rcito industrial de reserva, condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para a explora\u00e7\u00e3o pelos monop\u00f3lios transnacionais. Nas condi\u00e7\u00f5es atuais, do novo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o no campo e nas cidades, o que era um fator de desenvolvimento, torna-se um entrave.<\/p>\n<p>Esta contradi\u00e7\u00e3o vista em conjunto nos leva \u00e0s <strong>duas outras crises: a ecol\u00f3gica e a urbana.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tanto o padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o urbano industrial, como o crescimento do monop\u00f3lio capitalista no campo implicam em um ritmo acelerado de mercadorias e a compress\u00e3o do tempo de produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e consumo. O resultado imediato de tal fato \u00e9 a r\u00e1pida deteriora\u00e7\u00e3o ambiental,<\/strong> uma vez que o sistema produtivo retira recursos da natureza em um ritmo muito maior do que esta \u00e9 capaz de se recuperar, produzindo mudan\u00e7as catastr\u00f3ficas nos biomas, no clima e na vida humana.<\/p>\n<p>Da mesma forma, as expropria\u00e7\u00f5es, seja pela altera\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital, seja pela crescente expuls\u00e3o dos trabalhadores do campo, em um contexto de subordina\u00e7\u00e3o real do trabalho ao capital, promovem uma hipertrofia do espa\u00e7o urbano com todos os problemas que da\u00ed derivam. Se Lefebvre est\u00e1 certo, e creio que est\u00e1, em chamar a cidade de \u201ccidade do capital\u201d, a cidade de hoje \u00e9 a cidade da crise do capital plenamente desenvolvido.<strong> \u00c9 no espa\u00e7o urbano que as tr\u00eas primeiras crises encontram sua s\u00edntese e revelam seu car\u00e1ter destruidor. A cidade \u00e9 a express\u00e3o concreta da crise causada pelo monop\u00f3lio capitalista na agricultura, da crise de superacumula\u00e7\u00e3o e superprodu\u00e7\u00e3o do capital industrial e da crise ambiental,<\/strong> com agravantes na realidade urbana uma vez que a cidade da crise do capital afeta diretamente a reprodu\u00e7\u00e3o da vida, a moradia, a sa\u00fade, o saneamento, a alimenta\u00e7\u00e3o, o lazer, a cultura, as rela\u00e7\u00f5es afetivas e todas as \u00e1reas.<\/p>\n<p>A crise em seu conjunto, como crise do capital em seu m\u00e1ximo ponto de desenvolvimento, deve ser compreendida ainda pelo car\u00e1ter cada vez mais parasit\u00e1rio do capital, da predomin\u00e2ncia do capital fict\u00edcio e do capital portador de juros e daquilo que M\u00e9sz\u00e1ros (2002) denomina de \u201cativa\u00e7\u00e3o dos seus limites \u00faltimos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Como podemos ver, as quatro crises est\u00e3o interconectadas profundamente.<\/strong> Mas, ao que est\u00e3o interconectadas? <strong>A crise da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, a crise agr\u00e1ria, a crise ambiental e a crise urbana s\u00e3o a manifesta\u00e7\u00e3o da crise do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e, por consequ\u00eancia, do capitalismo dependente e subordinado ao imperialismo.<\/strong> Mas, uma vez feita esta constata\u00e7\u00e3o, qual seria a conclus\u00e3o necess\u00e1ria?<\/p>\n<p>Vejamos o problema mais de perto. Caio Prado Jr. (1978) afirmava que um programa n\u00e3o pode ser meramente a express\u00e3o do desejo, ou da constata\u00e7\u00e3o de uma injusti\u00e7a e, portanto, da busca moral. Para o marxista brasileiro do PCB, o programa s\u00f3 pode derivar das contradi\u00e7\u00f5es objetivas presentes em determinada forma\u00e7\u00e3o social e, mais do que isto, \u201csua potencialidade em proje\u00e7\u00e3o para o futuro\u201d (1978, p.20). Isto significa que cada elemento do programa \u00e9 uma resposta a uma determinada contradi\u00e7\u00e3o objetiva que real ou potencialmente encontra express\u00e3o na a\u00e7\u00e3o de sujeitos sociais, caso contr\u00e1rio \u00e9 um mero desejo metaf\u00edsico.<\/p>\n<p>Desta forma, todos os problemas que se apresentam em nossa forma\u00e7\u00e3o social, na conjuntura presente, seja a viol\u00eancia no campo, a fome, a viol\u00eancia nas cidades e suas formas mais perversas como o racismo, a homofobia e a viol\u00eancia contra a mulher, a crise nas pol\u00edticas p\u00fablicas, na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, o descaso total com a cultura, a intensifica\u00e7\u00e3o brutal do trabalho e a crescente perda de direitos, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, o ultraje hist\u00f3rico contra os povos origin\u00e1rios, a destrui\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a dos jovens, o crescimento assustador do irracionalismo religioso e\/ou fascista, tudo enfim, est\u00e1 articulado de uma maneira ou de outra \u00e0s quatro crises aqui apontadas.<\/p>\n<p>Voltando a Caio Prado Jr., uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria e seu programa, devem se fundamentar nas \u201cquest\u00f5es pendentes e as solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis\u201d, tendo como crit\u00e9rio o fato que certas a\u00e7\u00f5es agem no sentido de refor\u00e7ar a conserva\u00e7\u00e3o do quadro em que estas quest\u00f5es est\u00e3o presentes, ou, ao contr\u00e1rio, possam significar a \u201cacelera\u00e7\u00e3o do processo hist\u00f3rico, sua marcha para frente\u201d. Dito de outra forma, <strong>o programa \u00e9 a maneira pela qual o objetivo estrat\u00e9gico de uma vanguarda pode converter-se em motor de luta concreta de toda uma classe.<\/strong><\/p>\n<p>Nesta dire\u00e7\u00e3o, <strong>devemos come\u00e7ar por constatar que as crises descritas e suas determina\u00e7\u00f5es, assim como as diversas quest\u00f5es que delas derivam, s\u00e3o express\u00e3o do capitalismo plenamente desenvolvido nas condi\u00e7\u00f5es da subordina\u00e7\u00e3o imperialista e dependente.<\/strong> Neste sentido, o que hoje se apresenta como especula\u00e7\u00f5es abstratas e metaf\u00edsicas, nos termos de Caio Prado Jr., s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es que visam o desenvolvimento do capitalismo como solu\u00e7\u00e3o para as quest\u00f5es apresentadas. Desenvolver o capitalismo agravar\u00e1 a crise do trabalho, a crise agr\u00e1ria, a crise urbana e a crise ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Neste sentido \u00e9 que definimos a estrat\u00e9gia e a natureza de nosso programa como socialistas, n\u00e3o apenas como uma meta aberta ao devir, mas por que se ele quiser responder \u00e0s quest\u00f5es objetivamente colocadas tanto uma como o outro devem ser, necessariamente, anticapitalistas. Diante disto, as media\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas e a objetiva\u00e7\u00e3o do programa se tornam, ou deveriam se tornar, o centro de nossa preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos problemas, talvez o central, \u00e9 que a conjuntura atual fez romper a conex\u00e3o entre a constata\u00e7\u00e3o anticapitalista e a meta estrat\u00e9gica socialista, o que em outros momentos da hist\u00f3ria estava mais evidente. Isto se deve, em grande medida, por causa das experi\u00eancias em transi\u00e7\u00e3o socialista e seus revezes, a ofensiva ideol\u00f3gica das classes dominantes e a desconstru\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora diante de suas derrotas.<\/p>\n<p>Isto posto, <strong>o plano t\u00e1tico deve ter por centro o \u00e1rduo trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o da classe como sujeito, entendida na sua pluralidade e diversidade.<\/strong> Uma vez que o capital se apresenta como for\u00e7a negativa universal, est\u00e1 dada a possibilidade da humanidade, tendo por n\u00facleo os trabalhadores, unificar todos os segmentos que vivem a crise do capital nas mais diferentes formas particulares. Mas, para isso, \u00e9 necess\u00e1rio que se apresentem respostas \u00e0s quest\u00f5es objetivas colocadas pelas crises e \u00e9 neste aspecto que o car\u00e1ter anticapitalista deve se apresentar no corpo das demandas concretas daqueles que comp\u00f5em nosso sujeito em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos neste espa\u00e7o listar exaustivamente cada uma destas quest\u00f5es, uma vez que estamos convictos que programas revolucion\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o feitos nas redes sociais. O car\u00e1ter geral deve denotar nossa dire\u00e7\u00e3o de desmercantilizar a vida em todas as esferas essenciais, indicando os pontos concretos nos quais o capital subordina a vida e as necessidades humanas ao processo de valoriza\u00e7\u00e3o e amea\u00e7a a exist\u00eancia da humanidade. <strong>Cada ponto do programa deve ser entendido como o impulso \u00e0s lutas concretas dos diferentes segmentos que se chocam com o capital em uma de suas facetas, um impulso que aponte para o futuro contra as amarras aparentemente insuper\u00e1veis do presente.<\/strong><\/p>\n<p>Em uma entrevista recente, Jos\u00e9 Dirceu, afirmou que governar o Brasil j\u00e1 \u00e9 revolucion\u00e1rio. Com a devida considera\u00e7\u00e3o que o personagem merece, devo apresentar minha discord\u00e2ncia. <strong>Governar o Brasil \u00e9 muito dif\u00edcil e, sem d\u00favida, manter-se no governo exige muita habilidade, mas o car\u00e1ter revolucion\u00e1rio ou n\u00e3o de um governo ou de qualquer a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deve ser julgado pelo fato de refor\u00e7ar o existente ou ser um impulso \u00e0s lutas que s\u00e3o germes das transforma\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias.<\/strong> O governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes, seu programa e, fundamentalmente, sua estrat\u00e9gia, respondem \u00e0s quest\u00f5es colocadas pelas crises indicadas com a\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas que tem por eixo central gerar as condi\u00e7\u00f5es para que a acumula\u00e7\u00e3o capitalista possa seguir, gerando crescimento de arrecada\u00e7\u00e3o que uma vez descontados os recursos que mant\u00eam esta acumula\u00e7\u00e3o possam, paulatinamente, amenizar as manifesta\u00e7\u00f5es mais agudas da mis\u00e9ria e atenuar, como se fosse poss\u00edvel, os efeitos delet\u00e9rios do capitalismo sobre a sociedade e o meio ambiente.<\/p>\n<p>No lado oposto do acomodacionismo conciliador, vemos num amplo leque da esquerda, dentro e fora do PT, a mera apresenta\u00e7\u00e3o da meta socialista em contraste com a acomoda\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem do capital, num esfor\u00e7o eticamente louv\u00e1vel e politicamente pouco eficaz. Para piorar, no momento em que s\u00e3o obrigadas a dar respostas t\u00e1ticas concretas, acabam escorregando para o desvio oposto limitando suas propostas e respostas aos limites do imediatamente poss\u00edvel. Por isso \u00e9 que todo esquerdista tende a ser um reformista frustrado e sua cr\u00edtica \u00e9 mais uma autocr\u00edtica daquilo que, na pr\u00e1tica, ele n\u00e3o consegue ir al\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Nosso desafio \u00e9 compreender que as dimens\u00f5es diferentes exigem tanto a firmeza estrat\u00e9gica quanto a flexibilidade t\u00e1tica, como defendia L\u00eanin (t\u00e3o citado e t\u00e3o mal compreendido).<\/strong> Fica, ent\u00e3o, aqui a met\u00e1fora que S\u00edlvio Rodriguez nos apresenta em sua m\u00fasica F\u00e1bula de los tres hermanos. Na can\u00e7\u00e3o, meu mestre cubano, nos conta que o primeiro irm\u00e3o, mais velho, com medo de errar andava sempre olhando para o ch\u00e3o e as pedras do caminho, por isso ficou \u201cescravo da cautela\u201d e n\u00e3o pode ir longe com sua vis\u00e3o curta. O segundo irm\u00e3o, tentando evitar o erro do mais velho, mirou longe no horizonte e, inevitavelmente, trope\u00e7ou nas pedras e buracos do caminho, ficando revoltado por n\u00e3o conseguir chegar onde via. O terceiro, o menor deles, tentou manter um olho no horizonte e o outro na caminhada, mas por tentar ver tudo acabou n\u00e3o sabendo o que via e ficou vesgo. E acabaram-se os irm\u00e3os. Silvio insiste durante toda a can\u00e7\u00e3o: \u201cdime lo que piensas tu\u201d?<\/p>\n<p>Eu penso que sozinho\u2026 ningu\u00e9m consegue.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<br \/>\nANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a nega\u00e7\u00e3o e a firma\u00e7\u00e3o do trabalho. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 1999.<br \/>\nBOSCHETTI, I. (org.) Expropria\u00e7\u00e3o e direitos no capitalismo. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2018.<br \/>\nDEO, A. DEL ROIO, M., MAZZEO, A. C. (orgs) L\u00eanin, teoria e pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria. Mar\u00edlia (SP): Oficina Universit\u00e1ria, Unesp, 2015.<br \/>\nLENIN, V. I. O que fazer? Problemas candentes de nosso tempo. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2020.<br \/>\nLENIN, V. I. Esquerdismo, doen\u00e7a infantil do comunismo. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2014.<br \/>\nM\u00c9SZ\u00c1ROS, I. Para al\u00e9m do capital. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2002.<br \/>\nPRADO JR, C. A revolu\u00e7\u00e3o brasileira. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1978.<br \/>\nRODRIGUEZ, S. F\u00e1bula de los tres hermanos. In: Rabo de nube, Habana\/Cuba, 1980.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31850\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10],"tags":[222],"class_list":["post-31850","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8hI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31850","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31850"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31850\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31852,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31850\/revisions\/31852"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}