{"id":31879,"date":"2024-07-21T15:02:02","date_gmt":"2024-07-21T18:02:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=31879"},"modified":"2024-07-21T15:02:02","modified_gmt":"2024-07-21T18:02:02","slug":"o-assassinato-como-instrumento-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31879","title":{"rendered":"O assassinato como instrumento pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"31880\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31879\/sem-titulo-9\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Sem-titulo-1.jpeg?fit=360%2C240&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"360,240\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Sem t\u00edtulo\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Sem-titulo-1.jpeg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Sem-titulo-1.jpeg?fit=360%2C240&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-31880\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Sem-titulo-1.jpeg?resize=360%2C240&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Sem-titulo-1.jpeg?w=360&amp;ssl=1 360w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Sem-titulo-1.jpeg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p>ABRILABRIL<\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias vividas em 15 de julho na Pensilv\u00e2nia nos remetem, inevitavelmente, para outros acontecimentos do g\u00eanero praticados pela \u00absagrada democracia americana\u00bb e pela sua irm\u00e3 g\u00eamea, a intoc\u00e1vel \u00abdemocracia liberal\u00bb, deposit\u00e1ria dos \u00abnossos valores\u00bb.<\/p>\n<p>Uma primeira advert\u00eancia: como vivemos num clima de opini\u00e3o \u00fanica, em que as discord\u00e2ncias com as decis\u00f5es pol\u00edticas e o diktat que vigora nas rela\u00e7\u00f5es internacionais nos colocam automaticamente no campo do inimigo, esclare\u00e7o que as linhas seguintes n\u00e3o correspondem a uma qualquer rec\u00f4ndita simpatia por Trump na confus\u00e3o em que se transformaram as elei\u00e7\u00f5es presidenciais estadunidenses.<\/p>\n<p>Donald Trump \u00e9 um cr\u00e1pula pol\u00edtico, um indiv\u00edduo irrespons\u00e1vel muito h\u00e1bil em manipular o ultramontanismo e a indig\u00eancia da chamada \u00abAm\u00e9rica profunda\u00bb para tirar partido da decad\u00eancia e da pr\u00f3pria amea\u00e7a existencial a que as recentes administra\u00e7\u00f5es presidenciais, com destaque para as do Partido Democr\u00e1tico, conduziram o imp\u00e9rio e o mito da \u00absagrada democracia americana\u00bb.<\/p>\n<p>Donald Trump \u00e9 um outsider do sistema; \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o da autoria de mecanismos perversos de autodefesa do regime ao explorarem os desastres constantes da gest\u00e3o dos EUA nas quest\u00f5es internacionais e, sobretudo, o desleixo para com os assuntos internos. A sociedade dos Estados Unidos est\u00e1 em fal\u00eancia pol\u00edtica, econ\u00f4mica, social e no dom\u00ednio das infraestruturas, situa\u00e7\u00e3o que torna f\u00e1cil a manipula\u00e7\u00e3o do descontentamento e da inseguran\u00e7a por um populista a quem n\u00e3o faltam as capacidades mobilizadoras e comunicacionais, sobretudo quando dirigidas aos extratos populacionais, talvez majorit\u00e1rios, que ro\u00e7am a fronteira do analfabetismo funcional e que tamb\u00e9m n\u00e3o tem car\u00eancias de dinheiro para despejar, sem retorno garantido, em duas dispendios\u00edssimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais consecutivas.<\/p>\n<p>O candidato republicano, odiado pelas elites tradicionais do partido por sentirem amea\u00e7adas as antigas e proveitosas mordomias garantidas pela porta girat\u00f3ria entre os cargos p\u00fablicos e os conselhos de administra\u00e7\u00e3o privados, depende muito menos dos doadores do que o seu rival Joseph Biden. Eles s\u00e3o igualmente corruptos, mas enquanto Biden passou a longa carreira nos gabinetes da pol\u00edtica, mais motivado por um narcisismo associado \u00e0 imagem representativa, expansionista, colonial e militar do Estado do que pela atividade econ\u00f4mica pessoal direta \u2013 miss\u00e3o que delegou \u00e0 fam\u00edlia \u2013, Trump tratou muito bem da vida em gigantescos neg\u00f3cios imobili\u00e1rios, atividades especulativas garantidas pelo sistema e na rapina das estruturas estatais, por defini\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o dos oligarcas. Podre de rico, pode esbanjar rios de dinheiro para cultivar o narcisismo e satisfazer clientelas que se t\u00eam sentido menos aben\u00e7oadas pela pol\u00edtica dita \u00abprogressista\u00bb e de \u00abesquerda\u00bb de que se ufana o Partido Democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Ao fim e ao cabo, as elites globalistas do imp\u00e9rio, usufruindo das convenientes e velhas pr\u00e1ticas garantidas por um complexo militar-industrial a salvo de sobressaltos que perturbem a rotina de disp\u00f4r do mundo a seu bel prazer, est\u00e1 alarmada perante um competidor aparentemente \u00abdiferente\u00bb, suscept\u00edvel de as tirar do sossego.<\/p>\n<p>Trump n\u00e3o \u00e9 um fundamentalista globalista, embora seja um liberal-fascista \u00e0 sua maneira, alinhado sem reservas com o sistema pol\u00edtico, econ\u00f4mico, social e militar coberto pela inquestion\u00e1vel \u00abdemocracia americana\u00bb padronizada na \u00abdemocracia liberal\u00bb, \u00fanica e indiscut\u00edvel no chamado Ocidente coletivo.<\/p>\n<p>Donald Trump vive da mentira, de trapa\u00e7as e conspira\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 anti-guerra embora n\u00e3o tenha come\u00e7ado alguma. Mas tentou. Provocou o Ir\u00e3 assassinando o general Suleimani, uma das figuras mais proeminentes do regime de Teer\u00e3 e que, na ocasi\u00e3o, desenvolvia dilig\u00eancias de paz na \u00c1sia Ocidental. Bombardeou a S\u00edria com saraivadas de m\u00edsseis, ocupou o Leste do pa\u00eds com tropas estadunidenses, alimentando ainda mais o estado de guerra e de golpe contra Damasco; ao mesmo tempo, montou um sistema de roubo de petr\u00f3leo para benef\u00edcio das transnacionais dos combust\u00edveis. Forneceu armas ao regime nazi-banderista da Ucr\u00e2nia at\u00e9 2020, dando seguimento ao golpe da Pra\u00e7a Maidan montado pelo Partido Democr\u00e1tico e preparando o pa\u00eds para a guerra em curso. \u00c9 apoiante fervoroso do regime genocida de Israel e concretizou duas viola\u00e7\u00f5es grosseiras do direito internacional at\u00e9 ent\u00e3o evitadas pelos pr\u00f3prios Estados Unidos: a anexa\u00e7\u00e3o pelo Estado sionista do territ\u00f3rio s\u00edrio dos Montes Gol\u00e3 e tamb\u00e9m reconheceu a \u00abunifica\u00e7\u00e3o\u00bb sionista de Jerusal\u00e9m Leste atrav\u00e9s da transfer\u00eancia da Embaixada dos EUA de Telavive para a chamada \u00abcidade santa\u00bb.<\/p>\n<p>Trump \u00e9, em suma, outra faceta do sistema para que o sistema se mantenha, embora servindo clientelas que possam sentir-se marginalizadas dentro do Estado profundo, mas garantindo que nada ser\u00e1 posto em causa no regime. E, tal como provou no primeiro mandato, n\u00e3o travar\u00e1 a decad\u00eancia do imp\u00e9rio, embora tente aliviar problemas econ\u00f4micos internos decorrentes da pol\u00edtica colonial, expansionista e de guerra exigindo aos pa\u00edses europeus da OTAN um financiamento ainda mais oneroso das incomport\u00e1veis despesas da Alian\u00e7a.<\/p>\n<p>Ajustes de contas<br \/>\nDonald Trump \u00e9 t\u00e3o fiel ao autoritarismo neoliberal e imperial como Biden, Obama, Bush pai e filho, Clinton, Reagan\u2026 Mas surge do exterior da classe pol\u00edtica tradicional, onde pontificam os pr\u00edncipes pol\u00edticos democr\u00e1ticos e republicanos, convergentes nas decis\u00f5es estrat\u00e9gicas suscept\u00edveis de manter o sistema nos eixos globalistas. O candidato arrasta consigo d\u00favidas, incertezas e inquieta\u00e7\u00f5es, parte delas relacionadas com as suas irreprim\u00edveis tend\u00eancias mit\u00f4manas e para a mentira. Os trapaceiros pol\u00edticos conhecem-se entre si e sabem como o exerc\u00edcio permanente da mentira pode ser escorregadio e incontrol\u00e1vel; por isso desconfiam de qualquer discurso ou atitude dos advers\u00e1rios. Verdadeiros imp\u00e9rios dentro do imp\u00e9rio, como a ind\u00fastria do armamento e da morte \u2013 que talvez nunca tenha vivido tempos de tanta abund\u00e2ncia \u2013 as corpora\u00e7\u00f5es militares, da espionagem e da seguran\u00e7a n\u00e3o est\u00e3o preparadas, ao cabo de tanta tranquilidade operacional e do funcionamento de t\u00e3o bem oleados esquemas conspirativos e de intriga, mesmo conhecendo as consequ\u00eancias da primeira experi\u00eancia \u2013 ou talvez por isso \u2013 para lidar com algu\u00e9m de uma imprevisibilidade e de uma heterodoxia intr\u00ednsecas.<\/p>\n<p>As ondas de choque que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 provocando, por\u00e9m, t\u00eam uma amplitude muito maior do que seria previs\u00edvel. Isso tornou-se evidente pela dimens\u00e3o dos ajustes de contas, de tal maneira desestabilizadores que conduziram \u00e0 situa\u00e7\u00e3o extrema do recurso ao m\u00e9todo de elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica de rivais pol\u00edticos. Hoje est\u00e1 provado: as elites de poder na Am\u00e9rica do Norte e na Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o se escusam a matar, ou no m\u00ednimo a tentar matar.<\/p>\n<p>A exemplo do que ainda se passa com o assassinato de Kennedy, cometido h\u00e1 62 anos, transcorrer\u00e3o talvez outras seis d\u00e9cadas at\u00e9 que saibamos o que aconteceu no passado 15 de julho na Pensilv\u00e2nia, quando um \u00ablobo solit\u00e1rio\u00bb, sempre um \u00ablobo solit\u00e1rio\u00bb, tentou matar Trump nas barbas dos valentes SWAT e uma mir\u00edade de bem artilhados snipers dos servi\u00e7os secretos.<\/p>\n<p>Desta vez n\u00e3o foi \u00abbolsonarada\u00bb, como aconteceu numa campanha eleitoral brasileira. Os tiros foram para matar e, diz-se, o candidato foi salvo pelo desvio da bala no teleponto. A mesma sorte n\u00e3o tiveram uma espectadora abatida e dois feridos graves, que n\u00e3o mereceram uma palavra de respeito e solidariedade nos discursos oficiais, incluindo o de Biden, ou nos comunicados de institui\u00e7\u00f5es policiais e de espionagem.<\/p>\n<p>O \u00ablobo solit\u00e1rio\u00bb, um jovem de 20 anos cuja curta vida nada explica sobre as suas reais inten\u00e7\u00f5es, e por coincid\u00eancia um \u00abrepublicano\u00bb, n\u00e3o ficou vivo para esmiu\u00e7ar os motivos do seu ato, gra\u00e7as \u00e0 a\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o j\u00e1 eficaz, dos snipers de servi\u00e7o. Tal como aconteceu a Lee Oswald, o presum\u00edvel assassino de Kennedy, logo a seguir abatido por um indiv\u00edduo chamado Jack Ruby, o qual, por sua vez, n\u00e3o sobreviveu a meia d\u00fazia de horas na pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Os propriet\u00e1rios da \u00absagrada democracia americana\u00bb n\u00e3o tiveram, naturalmente, nada a ver com a fracassada elimina\u00e7\u00e3o de um estorvo chamado Donald Trump. Manifestaram indigna\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m solidariedade para com o candidato, como faria qualquer crocodilo comovido, e proclamaram solenemente uma grande verdade comprovada todos os dias: a viol\u00eancia n\u00e3o faz parte do modo de vida nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Diferente, e de sentido contr\u00e1rio, foi o tom de discursos e coment\u00e1rios proferidos antes do atentado por altos respons\u00e1veis do Estado e do Partido Democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Quando das comemora\u00e7\u00f5es sect\u00e1rias do 80.\u00ba anivers\u00e1rio do Desembarque na Normandia, enquanto Biden discursava na Fran\u00e7a, os seus servi\u00e7os de campanha lan\u00e7aram um v\u00eddeo no qual o presidente-candidato proclama que \u00abn\u00e3o h\u00e1 nada mais sagrado que a nossa democracia, mas Donald Trump est\u00e1 pronto para queimar tudo\u00bb.<\/p>\n<p>Meio ano antes, o mesmo Biden proclamara que \u00abTrump e os seus republicanos MAGA est\u00e3o determinados a destruir a democracia na Am\u00e9rica; n\u00e3o podemos deix\u00e1-lo vencer\u00bb. Ser\u00e1 que encontramos aqui um reconhecimento impl\u00edcito de que as elei\u00e7\u00f5es de 2020 foram efetivamente uma burla, \u00abn\u00e3o o deixando\u00bb vencer?<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do atentado na Pensilv\u00e2nia, num deslocamento ao Michigan, o presidente come\u00e7ou por chamar \u00abcriminoso condenado\u00bb ao seu rival para acrescentar que \u00abo mais importante, e quero dizer isto do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 que Trump \u00e9 uma amea\u00e7a a esta na\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>A verborreia justiceira de Biden parece ser diretamente proporcional \u00e0 sua decad\u00eancia cognitiva, mas o conte\u00fado das aprecia\u00e7\u00f5es sobre o rival parecem n\u00e3o estar afetadas por outro tipo de maleita que n\u00e3o seja a dem\u00eancia pol\u00edtica. Sobre a corrente MAGA (Make America Great Again \u2013 Tornemos a Am\u00e9rica Grande de Novo) de apoio a Trump, Biden considera-a \u00abum movimento extremista que n\u00e3o partilha as cren\u00e7as b\u00e1sicas da nossa democracia\u00bb.<\/p>\n<p>O apogeu da obsess\u00e3o do presidente em exerc\u00edcio contra o rival aconteceu precisamente uma semana antes do atentado, em 8 de julho: \u00ab\u00c9 tempo de colocar Trump como alvo. N\u00e3o podemos passar dia ap\u00f3s dia sem explicar o que est\u00e1 fazendo e temos de ir atr\u00e1s dele\u00bb. Ser\u00e1 que estas palavras foram levadas \u00e0 letra por Thomas Matthew Crooks, o jovem que enquadrou Trump como alvo e disparou?<\/p>\n<p>Nancy Pelosi, a ex-presidente democr\u00e1tica do Congresso, n\u00e3o poupou igualmente nas amea\u00e7as. Ao vivo na MSNBC, tamb\u00e9m uma semana antes do atentado, apelou: \u00abele tem de ser parado; ele n\u00e3o pode ser presidente\u00bb.<\/p>\n<p>A teia da comunica\u00e7\u00e3o corporativa e globalista cumpriu a sua parte no epis\u00f3dio, neste caso tentando desviar as responsabilidades do poder instalado no assassinato fracassado, minimizando e desvalorizando o atentado.<\/p>\n<p>Ragan O\u2019Handley, um \u00abinfluencer\u00bb muito eficaz nas redes sociais e propriet\u00e1rio de uma grande empresa de m\u00eddia digital, tamb\u00e9m conhecido por DC Drain, garantiu que os jornalistas e as equipes de produ\u00e7\u00e3o dos principais meios de comunica\u00e7\u00e3o receberam orienta\u00e7\u00f5es precisas sobre como abordar o atentado: \u00ablimitar-se aos fatos, sem editorializar nem tirar conclus\u00f5es\u00bb; \u00abn\u00e3o lhe chamar tentativa de assassinato\u00bb nem afirmar que \u00abos tiros foram dirigidos contra Trump\u00bb; n\u00e3o pronunciar frases do g\u00e9nero \u00abviveram-se momentos assustadores no com\u00edcio de Trump\u00bb; \u00abn\u00e3o devem ser chamados comentadores\u00bb; e, quanto aos \u00e2ncoras ou pivots televisivos, \u00abdevem ser naturais na linguagem corporal sem parecer s\u00e9rios, solenes ou dram\u00e1ticos\u00bb e n\u00e3o usar palavras como \u00abcaos\u00bb em rela\u00e7\u00e3o ao com\u00edcio.<\/p>\n<p>A credibilidade de DC Drain, conhecido apoiante de Trump, \u00e9 reduzida e as suas fontes est\u00e3o provavelmente inquinadas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mesmo que as orienta\u00e7\u00f5es n\u00e3o tenham existido, os amestrados jornais e televis\u00f5es do sistema comportaram-se como se os operacionais as tivessem recebido.<\/p>\n<p>David Jackson noticiou no USA Today que \u00abTrump foi removido do palco depois de ru\u00eddos muito sonoros terem assustado o ex-presidente e a multid\u00e3o\u00bb. Segundo a NBC News, \u00abos servi\u00e7os secretos retiraram apressadamente Trump do palco depois de terem sido ouvidos ru\u00eddos no seu com\u00edcio na Pensilv\u00e2nia\u00bb. A ag\u00eancia global Associated Press informou o mundo de que \u00abTrump foi escoltado para fora do palco durante um com\u00edcio depois de se terem ouvido ru\u00eddos muito sonoros no meio da multid\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>A televis\u00e3o MSNBC testemunhou que \u00abTrump foi levado do palco depois de ru\u00eddos muito sonoros num com\u00edcio\u00bb; e a voz do dono, a CNN Internacional, a propriet\u00e1ria da verdade definitiva e inquestion\u00e1vel, esmerou-se: \u00abOs Servi\u00e7os Secretos apressaram-se a retirar Trump do palco depois de ele ter ca\u00eddo durante um com\u00edcio\u00bb.<\/p>\n<p>Em nome dos Servi\u00e7os Secretos, o chefe de comunica\u00e7\u00e3o, Anthony Guglielmi, n\u00e3o destoou: \u00abDurante um com\u00edcio da campanha do ex-presidente Trump, um atirador suspeito disparou v\u00e1rios tiros para o palco a partir de uma posi\u00e7\u00e3o elevada no exterior do com\u00edcio. Um espectador foi morto e dois espectadores ficaram gravemente feridos. O incidente est\u00e1 agora sob investiga\u00e7\u00e3o e o Servi\u00e7o Secreto notificou formalmente o FBI\u00bb.<\/p>\n<p>Apoiado em t\u00e3o completa e variada dose de informa\u00e7\u00e3o, o antigo presidente Obama lamentou o sucedido, \u00abembora n\u00e3o saibamos exatamente o que se passou\u00bb; e o presidente Biden comentou enigmaticamente que \u00aba quest\u00e3o \u00e9 sabermos exatamente por que eles est\u00e3o fazendo isto\u00bb.<\/p>\n<p>Metodologia<br \/>\nPercebemos j\u00e1 que a \u00absagrada democracia americana\u00bb sente repulsa pelo que \u00e9 diferente, dissonante, incapaz de lidar com a d\u00favida, a incerteza, o imprevisto, caracter\u00edsticas que moldam a figura de Trump como pol\u00edtico oriundo de uma variante do sistema a priori n\u00e3o completamente superposta ao pr\u00f3prio sistema.<\/p>\n<p>Aprendemos igualmente que essa repulsa \u00e9 capaz de criar condi\u00e7\u00f5es que conduzam \u00e0 simples elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica do advers\u00e1rio; uma esp\u00e9cie de adapta\u00e7\u00e3o das considera\u00e7\u00f5es de Clausewitz explicando-nos, em vers\u00e3o atualizada, que o assassinato \u00e9 uma extens\u00e3o da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias vividas em 15 de julho na Pensilv\u00e2nia nos remetem, inevitavelmente, para outros acontecimentos do g\u00eanero praticados pela \u00absagrada democracia americana\u00bb e pela sua irm\u00e3 g\u00eamea, a intoc\u00e1vel \u00abdemocracia liberal\u00bb, deposit\u00e1ria dos \u00abnossos valores\u00bb, da \u00abnossa civiliza\u00e7\u00e3o\u00bb, do \u00abnosso modo de vida\u00bb, enfim, da superioridade humanista e mission\u00e1ria do \u00abnosso Ocidente\u00bb e da \u00abnossa\u00bb extremosa ordem internacional baseada em regras.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria necess\u00e1rio recuar tanto no tempo, mas o enforcamento humilhante de Saddam Hussein e o selvagem estupro com baioneta do dirigente l\u00edbio Muammar Kadhafi s\u00e3o marcos hist\u00f3ricos de uma metodologia que n\u00e3o dispensa o exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>Os linchados, por\u00e9m, eram personagens de guerras, ainda que artificiais, seres de tez tisnada, desafiadores descarados da ordem ocidental e colonial. Saddam, um tarado das armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva que ainda um dia ir\u00e3o aparecer transportadas por El-rei D. Sebasti\u00e3o; Kadhafi, um bedu\u00edno, pol\u00edgamo, que queria acabar com as moedas coloniais na \u00c1frica, substituindo-as por outra favor\u00e1vel aos interesses dos povos do continente. Para garantir a superioridade e os interesses ocidentais, optou-se pela execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria. \u00abChegamos, vimos e ele morreu\u00bb: estas palavras \u00e9picas da secret\u00e1ria de Estado norte-americana, Hillary Clinton, proferidas na L\u00edbia, ressoam como um vers\u00edculo de refer\u00eancia da b\u00edblia comportamental do imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Transitemos para o velho e glorioso continente, a Europa, especificamente para o dia 15 de maio deste ano, dois meses antes da tentativa de liquida\u00e7\u00e3o de Donald Trump.<\/p>\n<p>Robert Fico, primeiro-ministro da Eslov\u00e1quia, pa\u00eds membro da Uni\u00e3o Europeia, foi baleado e ficou \u00e0s portas da morte depois de uma reuni\u00e3o do Conselho de Ministros. O intr\u00e9pido militante da \u00abnossa civiliza\u00e7\u00e3o\u00bb que cometeu o crime tamb\u00e9m atuou sozinho, mais um \u00ablobo solit\u00e1rio\u00bb agindo sob ordens de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A culpa, verdade seja dita, foi do primeiro-ministro eslovaco, que se exp\u00f4s por ter desafiado os Estados Unidos, a Uni\u00e3o Europeia, a OTAN e a ordem internacional baseada em regras, irremediavelmente apontado como \u00abamigo de Putin\u00bb ao defender a paz na Ucr\u00e2nia. A expuls\u00e3o do seu partido social-democrata da Internacional Socialista n\u00e3o passou de uma puni\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Fico foi sentenciado a uma pena exemplar e radical.<\/p>\n<p>Exemplar \u00e9 o termo certo. Poucos dias depois, o ent\u00e3o comiss\u00e1rio europeu do Alargamento, o h\u00fangaro Oliv\u00e9r V\u00e1rhelyi, contatou o primeiro-ministro da Ge\u00f3rgia, Irakli Kobakhidze, aconselhando-o a abdicar da chamada \u00ablei russa\u00bb, que obriga as organiza\u00e7\u00f5es nacionais com mais de 25% de participa\u00e7\u00e3o estrangeira a identificar as fontes de financiamento. Afinal a lei n\u00e3o \u00e9 russa, mas sim estadunidense e de pa\u00edses europeus porque replica legisla\u00e7\u00e3o dessas na\u00e7\u00f5es. Perante a recusa do chefe do governo georgiano, o comiss\u00e1rio V\u00e1rhelyi sentiu-se obrigado a comunicar a Kobakhidze que, se insistisse em manter a lei, poderia sofrer um percal\u00e7o como o que aconteceu a Robert Fico na Eslov\u00e1quia.<\/p>\n<p>Posto isto, \u00e9 leg\u00edtimo admitir que o recurso \u00e0 amea\u00e7a e \u00e0 tentativa de assass\u00ednio ou mesmo \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o (os ataques a Fico e a Trump foram para matar) est\u00e1 a tornar-se recorrente como m\u00e9todo para fazer cumprir os preceitos da democracia liberal e explicar o que poder\u00e1 acontecer a actores pol\u00edticos que incorram em comportamentos dissonantes, n\u00e3o-alinhados ou mesmo rebeldes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doutrina oficial.<\/p>\n<p>Apenas com algumas horas de diferen\u00e7a do momento do atentado contra o candidato presidencial estadunidense ficou soube-se, atrav\u00e9s da explica\u00e7\u00e3o autorizada do criminoso de guerra nazi-banderista e chefe da pol\u00edcia secreta do regime ucraniano, Kyril Budanov, que est\u00e3o em curso opera\u00e7\u00f5es para assassinar o presidente da Federa\u00e7\u00e3o Russa, Vladimir Putin. Numa mat\u00e9ria em que o secretismo parece ser a alma do neg\u00f3cio, o an\u00fancio p\u00fablico dir-se-\u00e1 descabido, mas Budanov l\u00e1 saber\u00e1 da sua vida.<\/p>\n<p>Se formos objetivos e assumirmos a probabilidade, tendo em conta a sucess\u00e3o e o padr\u00e3o dos acontecimentos, de n\u00e3o estarmos perante simples coincid\u00eancias, o quadro come\u00e7a a ser preocupante, tanto mais que os m\u00e9todos dos nazis-banderistas ucranianos, t\u00e3o queridos da OTAN e da Uni\u00e3o Europeia, s\u00e3o intuitivos e f\u00e1ceis de seguir.<\/p>\n<p>O primeiro-ministro h\u00fangaro, Viktor Orb\u00e1n, e o candidato presidencial independente nos EUA Edward Kennedy Jr. que se previnam, vejam onde pisam, com quem andam e cuidem de espreitar frequentemente por cima do ombro. O primeiro atreve-se a trabalhar pela paz na Ucr\u00e2nia, tem uma pol\u00edtica externa compar\u00e1vel \u00e0 de Robert Fico, irrita Bruxelas e os primeiros-ministros que aceitam tudo quanto possa anular a soberania dos seus pa\u00edses. Por isso ordenaram, para come\u00e7ar, uma \u00absabotagem\u00bb das a\u00e7\u00f5es de Orb\u00e1n. Ora, o prolongamento da guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 uma estrat\u00e9gia fulcral da Uni\u00e3o Europeia e nada garante que o isolamento a que Orb\u00e1n ficou condenado satisfa\u00e7a plenamente os seus zelosos pares, podendo evoluir, no caso de um bra\u00e7o de ferro, para uma qualquer medida mais definitiva.<\/p>\n<p>Robert Kennedy Jr., filho e sobrinho de um ministro da Justi\u00e7a e de um presidente liquidados pelo regime estadunidense, teve a ousadia de assumir a dissid\u00eancia da linha oficial do Partido Democr\u00e1tico e de se apresentar na corrida \u00e0 presid\u00eancia. Est\u00e1 para os democr\u00e1ticos mais ou menos como Trump est\u00e1 para os republicanos, embora com escasso relevo. Criou anticorpos pol\u00edticos dentro do sistema porque tem no ativo as suas lutas pela preserva\u00e7\u00e3o do ambiente, contra a eugenia praticada em popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas das Am\u00e9ricas Central e do Sul; al\u00e9m disso, o regime n\u00e3o lhe perdoa que tenha denunciado a deriva totalit\u00e1ria durante a pandemia de Covid e as correspondentes falcatruas com as vacinas e a opera\u00e7\u00e3o massiva de vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria e os \u00abincidentes\u00bb j\u00e1 conhecidos para calar e neutralizar vozes discordantes da pol\u00edtica \u00fanica da democracia liberal merecem reflex\u00e3o. E parece mover-se por a\u00ed uma alcateia de lobos prontos a tornarem-se \u00absolit\u00e1rios\u00bb e a cumprir miss\u00f5es punitivas de que, por certo, ningu\u00e9m os encarrega.<\/p>\n<p>(ARTIGO DE OPINI\u00c3O)<\/p>\n<p>Mat\u00e9rias marcadas como DE OPINI\u00c3O n\u00e3o refletem necessariamente as posi\u00e7\u00f5es do PCB. Mas pela relev\u00e2ncia das informa\u00e7\u00f5es contidas justificam a publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/31879\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[164,165,65,10],"tags":[234],"class_list":["post-31879","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-do-norte","category-eua","category-c78-internacional","category-s19-opiniao","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8ib","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31879","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31879"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31879\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31881,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31879\/revisions\/31881"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}