{"id":3191,"date":"2012-07-20T01:53:30","date_gmt":"2012-07-20T01:53:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3191"},"modified":"2012-07-20T01:53:30","modified_gmt":"2012-07-20T01:53:30","slug":"plutonomia-e-precarios-o-declive-da-economia-estadunidense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3191","title":{"rendered":"Plutonom\u00eda e prec\u00e1rios: O declive da economia estadunidense"},"content":{"rendered":"\n<p>Estamos a viver uma aut\u00eantica regress\u00e3o para tempos muito negros. Se se pensa que isto est\u00e1 a passar-se no pa\u00eds mais poderoso e rico da hist\u00f3ria, a cat\u00e1strofe parece inevit\u00e1vel. H\u00e1 que fazer alguma coisa, e faz\u00ea-lo rapidamente, com dedica\u00e7\u00e3o e de forma sustent\u00e1vel. N\u00e3o ser\u00e1 simples. Haver\u00e1, seguramente, obst\u00e1culos, dificuldades e fracassos. Mais: se o esp\u00edrito surgido o ano passado, aqui e noutros rinc\u00f5es do mundo, n\u00e3o cresce e n\u00e3o consegue converter-se numa for\u00e7a de peso no mundo social e pol\u00edtico, as possibilidades de um futuro digno n\u00e3o ser\u00e3o muito grandes.<\/p>\n<p>O movimento \u00abOcupemos\u00bb teve um desenvolvimento estimulante. At\u00e9 onde a minha mem\u00f3ria alcan\u00e7a, n\u00e3o houve nunca nada parecido. Consegue refor\u00e7ar as suas liga\u00e7\u00f5es e as associa\u00e7\u00f5es que se criaram nestes meses poder\u00e3o protagonizar, ao longo do obscuro per\u00edodo que se avizinha \u2013 n\u00e3o haver\u00e1 uma vit\u00f3ria r\u00e1pida \u2013, um momento decisivo na hist\u00f3ria dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A singularidade deste movimento n\u00e3o deveria surpreender. Ao cabo e ao resto, vivemos uma \u00e9poca in\u00e9dita, que arranca em 1970 e que marcou um aut\u00eantico ponto de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria dos Estados Unidos. Durante s\u00e9culos, desde o seu come\u00e7o como pa\u00eds, os EUA foram sempre uma sociedade em desenvolvimento. Se o foram sempre na direc\u00e7\u00e3o certa \u00e9 outra hist\u00f3ria. Mas em termos gerais, o progresso pressup\u00f4s riqueza, industrializa\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e esperan\u00e7a. Existia uma expectativa mais ou menos larga de que continuaria sempre assim. E continuou, inclusive nos tempos mais negros.<\/p>\n<p>Tenho idade suficiente para recordar a Grande Depress\u00e3o. Em meados dos anos 30 a situa\u00e7\u00e3o era objectivamente mais dura que a actual. O \u00e2nimo, no entanto, era outro. Havia a sensa\u00e7\u00e3o generalizada de que sair\u00edamos em frente. Mesmo as pessoas sem emprego, entre os quais se contavam alguns parentes meus, pensavam que as coisas melhorariam. Existia um movimento sindical militante, especialmente no \u00e2mbito do Congresso de Organiza\u00e7\u00f5es Industriais. E come\u00e7aram a acontecer greves com ocupa\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas que aterrorizavam o mundo empresarial \u2013 basta consultar a imprensa da \u00e9poca. Uma ocupa\u00e7\u00e3o, de facto, \u00e9 o passo pr\u00e9vio \u00e0 autogest\u00e3o das empresas. Um tema, diga-se de passagem, que est\u00e1 bastante presente na agenda actual. Apesar dos tempos serem duros havia uma sensa\u00e7\u00e3o, como dizia acima, de que se acabaria por \u00absair da crise\u00bb. Hoje as coisas s\u00e3o diferentes. Entre boa parte da popula\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos reina uma forte falta de esperan\u00e7a que por vezes se converte em desespero. Esta realidade \u00e9 muito nova na hist\u00f3ria norte-americana. E tem, desde logo, uma base objectiva.<\/p>\n<p><strong>A classe trabalhadora<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos 30 do s\u00e9culo passado os trabalhadores desempregados podiam pensar em recuperar os seus postos de trabalho. Actualmente, com um n\u00edvel de desemprego semelhante ao existente durante a Grande Depress\u00e3o, \u00e9 improv\u00e1vel, se a tend\u00eancia persistir, que um trabalhador manufactureiro recupere o seu posto de trabalho. A mudan\u00e7a teve lugar por volta de 1970 e obedece a muitas raz\u00f5es. Um factor chave, bem analisado pelo historiador econ\u00f3mico Robert Brenner, foi a queda da taxa de lucro no sector manucfatureiro. Mas houve outros. Por exemplo a revers\u00e3o de v\u00e1rios s\u00e9culos de industrializa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento. Naturalmente, a produ\u00e7\u00e3o de manufacturas continuou do outro lado do oceano, mas em preju\u00edzo, e n\u00e3o em benef\u00edcio, dos trabalhadores. Juntamente com estas mudan\u00e7as deu-se uma significativa desloca\u00e7\u00e3o da economia de produ\u00e7\u00e3o \u2013 de coisas que as pessoas necessitavam ou podiam usar \u2013 para a manipula\u00e7\u00e3o financeira. Foi pois, na verdade, quando a financeiriza\u00e7\u00e3o da economia se come\u00e7ou a estender.<\/p>\n<p><strong>Os bancos<\/strong><\/p>\n<p>Antes de 1970 os bancos eram bancos. Faziam o que se espera que um banco fa\u00e7a numa economia capitalista: pegar em fundos de uma conta banc\u00e1ria, por exemplo, e dar-lhes uma finalidade potencialmente \u00fatil como ajudar uma fam\u00edlia a comprar a sua casa ou a mandar um filho \u00e0 escola. Isto mudou de forma dram\u00e1tica nos anos setenta. At\u00e9 ent\u00e3o, e desde a Grande Depress\u00e3o, n\u00e3o tinha havido crises financeiras. Os anos cinquenta e sessenta foram um per\u00edodo de grande crescimento, o mais alto da hist\u00f3ria dos Estados Unidos e possivelmente da hist\u00f3ria econ\u00f3mica. E foi igualit\u00e1rio. \u00c0 parte mais baixa da sociedade tamb\u00e9m a coisa lhe correu bem. Muitas pessoas tiveram acesso a formas de vida mais razo\u00e1veis \u2013 de \u00abclasse m\u00e9dia\u00bb, como se dizia aqui, de \u00abclasse trabalhadora\u00bb, noutros pa\u00edses. Os anos sessenta aceleraram o processo. Depois de uma d\u00e9cada um pouco sombria, o activismo daqueles anos civilizou o pa\u00eds, muitas vezes de forma duradoura. Com a chegada dos anos setenta deram-se uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as abruptas e profundas: a desindustrializa\u00e7\u00e3o, a deslocaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e um maior protagonismo das institui\u00e7\u00f5es financeiras, que cresceram enormemente. Entre os anos cinquenta e sessenta verificou-se um forte desenvolvimento do que d\u00e9cadas depois se conheceria como a economia de alta tecnologia: computadores, internet e revolu\u00e7\u00e3o das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, que se desenvolveram substancialmente no sector estatal. Estas mudan\u00e7as geraram um c\u00edrculo vicioso. Conduziram a uma crescente concentra\u00e7\u00e3o da riqueza nas m\u00e3os do sector financeiro, mas n\u00e3o beneficiaram a economia (antes a prejudicaram, tal como \u00e0 sociedade).<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edtica e dinheiro<\/strong><\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o da riqueza trouxe consigo uma maior concentra\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico. E a concentra\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico deu lugar a uma legisla\u00e7\u00e3o que intensificaria e aceleraria o ciclo. Esta legisla\u00e7\u00e3o, no essencial da responsabilidade dos dois partidos, comportou a introdu\u00e7\u00e3o de novas pol\u00edticas fiscais, e medidas desreguladoras do governo das empresas. Juntamente com este processo, deu-se um importante aumento do custo das elei\u00e7\u00f5es, o que ainda tornou os partidos pol\u00edticos mais dependentes dos bolsos do sector empresarial.<\/p>\n<p>Na realidade, os partidos come\u00e7aram a degradar-se por diferentes vias. Se uma pessoa aspirava a um lugar no Congresso, como a presid\u00eancia de uma comiss\u00e3o, por exemplo, o normal era que o obtivesse a partir da sua experi\u00eancia e capacidade pessoal. Apenas num par de anos depois, tiveram que come\u00e7ar a contribuir para os fundos do partido para o conseguir, um tema que foi bem estudado por v\u00e1rias pessoas, entre as quais Tom Ferguson. Como dizia acima, isto aumentou a depend\u00eancia dos partidos do sector empresarial, sobretudo do sector financeiro.<\/p>\n<p>Este ciclo acabou com uma imensa concentra\u00e7\u00e3o da riqueza, basicamente nas m\u00e3os do 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o. Entretanto, abriu-se um per\u00edodo de estagna\u00e7\u00e3o e inclusive de decad\u00eancia da maioria das pessoas. Alguns continuaram a subir, mas atrav\u00e9s de meios artificiais como o alargamento da jornada de trabalho, o recurso ao cr\u00e9dito e ao sobre-endividamento ou a aposta em investimentos especulativos como as que levaram \u00e0 recente bolha imobili\u00e1ria. Rapidamente, a jornada de trabalho acabou por ser mais longa nos Estados Unidos que em pa\u00edses industrializados como o Jap\u00e3o e outros na Europa. O que se verificou, definitivamente, foi um per\u00edodo de estagna\u00e7\u00e3o e uma queda para a maioria, simultaneamente com uma forte concentra\u00e7\u00e3o da riqueza. O sistema pol\u00edtico come\u00e7ou assim a dissolver-se.<\/p>\n<p>Sempre existiu uma brecha a separar a pol\u00edtica institucional da vontade popular. Agora, no entanto, ela cresceu de forma astron\u00f3mica. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil verific\u00e1-lo. Basta ver o que est\u00e1 a acontecer com o grande tema que preocupa Washington: o\u00a0<em>deficit<\/em>. O grande p\u00fablico pensa, e com raz\u00e3o, que o\u00a0<em>deficit<\/em> n\u00e3o \u00e9 o problema principal. E na verdade n\u00e3o \u00e9. A quest\u00e3o importante \u00e9 a falta de emprego. No entanto h\u00e1 uma comiss\u00e3o para o deficit mas n\u00e3o h\u00e1 para a falta de emprego. No que respeita ao\u00a0<em>deficit<\/em> o grande p\u00fablico tem a sua posi\u00e7\u00e3o. As sondagens testemunham-no. De forma clara, as pessoas apoiam uma maior press\u00e3o fiscal sobre os ricos, a revers\u00e3o da tend\u00eancia regressiva destes anos e a preserva\u00e7\u00e3o de certas presta\u00e7\u00f5es sociais. As conclus\u00f5es da comiss\u00e3o sobre o\u00a0<em>deficit<\/em> seguramente dir\u00e3o o contr\u00e1rio. O movimento de ocupa\u00e7\u00e3o poder\u00e1 proporcionar uma base material para neutralizar este punhal apontado ao cora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Plutonomia e prec\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>Para o grosso da popula\u00e7\u00e3o \u2013 99% segundo o movimento Ocupemos \u2013 estes tempos tem sido particularmente duros, e a situa\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ainda piorar. De facto, poderemos assistir a um declive irrevers\u00edvel. Para 1% &#8211; e inclusive menos, 0,1% &#8211; tudo vai bem. Est\u00e3o mais ricos que nunca, mais poderosos que nunca e controlam o sistema pol\u00edtico, de costas voltadas para a maioria. Se ningu\u00e9m o impede por que n\u00e3o continuar assim?<\/p>\n<p>Peguemos no caso do Citigroup. Durante d\u00e9cadas foi um dos bancos de investimento mais corruptos. Apesar disso foi resgatado, uma e outra vez, com o dinheiro dos contribuintes. Primeiro Reagan e agora uma vez mais. N\u00e3o insistirei no tema da corrup\u00e7\u00e3o, mas ele \u00e9 bastante alucinante. Em 2005 o Citigroup imprimiu uns folhetos com o t\u00edtulo: \u00abPlutonomia: comprar luxo, explicar os desequil\u00edbrios globais\u00bb. Os folhetos incitavam os investidores a colocar o dinheiro num \u00ab\u00edndice de plutonomia\u00bb. \u00abO mundo \u2013 anunciavam \u2013 est\u00e1 a dividir-se em dois blocos: a plutonomia e o resto\u00bb.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de plutonomia apela aos ricos, aos que compram bens de luxo e tudo o que isto implica. Os folhetos sugeriam que a inclus\u00e3o no \u00ab\u00edndice de plutonomia\u00bb contribuiria para melhorar os rendimentos dos mercados financeiros. O resto podia ser inoportuno. N\u00e3o importava. Na realidade, n\u00e3o eram necess\u00e1rios. Estavam ali para sustentar um Estado poderoso, que resgataria os ricos no caso de se meterem em problemas. Agora, estes sectores costumam chamar-se \u00abprec\u00e1rios\u00bb &#8211; pessoas que vivem uma exist\u00eancia prec\u00e1ria na periferia da sociedade. S\u00f3 que cada vez \u00e9 menos perif\u00e9rica. Est\u00e1 a tornar-se uma parte substancial da sociedade norte-americana e do mundo. E os ricos n\u00e3o v\u00eaem mal nisso.<\/p>\n<p>Por exemplo, o ex-presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, chegou a ir ao Congresso durante um mandato de Clinton explicar as maravilhas do modelo econ\u00f3mico que tinha a honra de supervisionar. Foi pouco antes de rebentar o\u00a0<em>crack<\/em> em que ele teve clar\u00edssima responsabilidade. E ainda lhe chamavam S\u00e3o Alan e os economistas profissionais n\u00e3o duvidaram em descrev\u00ea-lo como um dos maiores. Para mim, grande parte do \u00eaxito econ\u00f3mico tinha que ver com a \u00abcrescente inseguran\u00e7a laboral\u00bb. Se os trabalhadores necessitam de seguran\u00e7a, se fazem parte dos prec\u00e1rios, se vivem vidas prec\u00e1rias, renunciar\u00e3o as suas necessidades. N\u00e3o tentar\u00e3o conseguir melhores sal\u00e1rios ou melhores presta\u00e7\u00f5es sociais. Tornar-se-\u00e3o sup\u00e9rfluos e ser\u00e1 f\u00e1cil livrarem-se deles. Isto \u00e9, tecnicamente falando, o que Greenspan chamava uma economia \u00absaud\u00e1vel\u00bb. E era elogiado e muito admirado por isso.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 assim: o mundo est\u00e1-se a dividir em plutonomia e prec\u00e1rios o 1 e os 99 por cento, na imagem propagada pelo movimento Ocupemos. N\u00e3o se trata de n\u00fameros exactos, mas a imagem \u00e9 correcta. Agora \u00e9 a plutonomia que tem a iniciativa e poder\u00e1 continuar assim. Se ocorrer a regress\u00e3o hist\u00f3rica que teve in\u00edcio nos anos setenta do s\u00e9culo passado poder\u00e1 tornar-se irrevers\u00edvel. Tudo indica que vamos nessa direc\u00e7\u00e3o. O movimento Ocupemos \u00e9 a primeira e a maior reac\u00e7\u00e3o popular a esta ofensiva. Poder\u00e1 neutraliz\u00e1-la. Mas para isso \u00e9 mester assumir que a luta ser\u00e1 longa e dif\u00edcil. N\u00e3o se obter\u00e3o vit\u00f3rias da noite para o dia. \u00c9 preciso criar estruturas novas, sustent\u00e1veis, que ajudem a atravessar estes tempos dif\u00edceis e a obter triunfos maiores. H\u00e1 um sem n\u00famero de coisas que, de facto poder\u00e3o fazer-se.<\/p>\n<p><strong>Por um movimento de ocupa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 o mencionei antes. Nos anos trinta do s\u00e9culo passado as greves com ocupa\u00e7\u00e3o dos locais de trabalho eram uma das ac\u00e7\u00f5es mais efectivas do movimento oper\u00e1rio. A raz\u00e3o era simples: tratava-se do passo pr\u00e9vio \u00e0 tomada das f\u00e1bricas. Nos anos setenta, quando o novo clima de contra-reforma come\u00e7ava a instalar-se, ainda se passavam coisas importantes. Em 1977, por exemplo, a empresa\u00a0<em>US Steel<\/em> decidiu fechar uma das suas sucursais em Youngstown, Ohio. Em vez de simplesmente se irem embora, os trabalhadores e a comunidade propuseram unir-se e comprar a empresa aos propriet\u00e1rios para depois a converter numa empresa autogerida. N\u00e3o ganharam. Mas a terem conseguido o apoio popular suficiente, provavelmente t\u00ea-lo-iam conseguido. Gar Alperovitz e Staufhton Lynd, os advogados dos trabalhadores, analisaram detalhadamente esta quest\u00e3o. Tratou-se, em suma, de uma vit\u00f3ria parcial. Perderam mas geraram outras iniciativas. Isto explica que hoje, ao longo de Ohio e de muitos outros locais, tenham surgido centenas, talvez milhares de empresas de propriedade comunit\u00e1ria, nem sempre pequenas, que poder\u00e3o converter-se em empresas autogeridas. E esta sim \u00e9 uma boa base para uma revolu\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n<p>Uma coisa semelhante se passou na periferia de Boston h\u00e1 aproximadamente um ano. Uma multinacional decidiu encerrar uma instala\u00e7\u00e3o rent\u00e1vel que produzia mercadorias de alta tecnologia. Evidentemente, para eles n\u00e3o era suficientemente rent\u00e1vel. Os trabalhadores e os sindicatos propuseram-se compr\u00e1-la e geri-la eles pr\u00f3prios. A multinacional recusou, provavelmente por consci\u00eancia de classe. Creio que n\u00e3o acham gra\u00e7a nenhuma a que estas coisas aconte\u00e7am. Se tivesse havido apoio popular suficiente, semelhante ao actual movimento de ocupa\u00e7\u00e3o das ruas, possivelmente teriam tido \u00eaxito.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico processo deste tipo que est\u00e1 a acontecer. De facto, deram-se alguns com uma entidade maior. N\u00e3o h\u00e1 muito tempo, o presidente Barack Obama tomou o controlo estatal da ind\u00fastria autom\u00f3vel, propriedade que basicamente estava nas m\u00e3os de uma mir\u00edade de accionistas. Tinha v\u00e1rias possibilidades. Mas escolheu esta: recuper\u00e1-la com o objectivo de a devolver aos seus donos, ou a um tipo de propriedade id\u00eantico que mantivesse o seu status tradicional. Outra possibilidade era entreg\u00e1-la aos trabalhadores, estabelecendo as bases de um sistema industrial autogerido que produzisse bens necess\u00e1rios para as pessoas. S\u00e3o muitas, de facto, os bens que precisamos. Todos sabem ou deveriam saber que os Estados Unidos t\u00eam um enorme atraso em mat\u00e9ria de transportes de alta velocidade. \u00c9 uma quest\u00e3o s\u00e9ria, que n\u00e3o s\u00f3 afecta a maneira como n\u00f3s vivemos, mas tamb\u00e9m a economia. Tenho uma est\u00f3ria pessoal a prop\u00f3sito disso. H\u00e1 uns meses, tive que proferir uma s\u00e9rie de palestras em Fran\u00e7a. Tinha de tomar um comboio de Avignon, no sul, at\u00e9 ao aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. A dist\u00e2ncia \u00e9 a mesma entre Washington DC e Boston. Demorei duas horas. N\u00e3o sei se j\u00e1 tomaram o comboio que liga Washington a Boston. Anda \u00e0 mesma velocidade de h\u00e1 sessenta anos, quando a minha mulher e eu o tom\u00e1mos pela primeira vez. \u00c9 um esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada que impe\u00e7a de se fazer nos Estados Unidos o que se faz na Europa. Existe capacidade e for\u00e7a de trabalho qualificada. Faria falta um pouco mais de apoio popular, mas o impacte na economia seria not\u00e1vel. O assunto, no entanto, \u00e9 ainda mais surrealista. Na altura em que se descartou esta op\u00e7\u00e3o, a administra\u00e7\u00e3o Obama enviou o seu secret\u00e1rio dos transportes a Espanha para conseguir ver a possibilidade de comprar comboios de alta velocidade. Isto poderia ter-se feito na cintura industrial do norte dos Estados Unidos, mas a empresa foi desmantelada. N\u00e3o s\u00e3o pois raz\u00f5es econ\u00f3micas as que impedem o desenvolvimento de um sistema ferrovi\u00e1rio robusto. S\u00e3o raz\u00f5es de classe que reflectem a debilidade da mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p><strong>Altera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e armas nucleares<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 aqui limitei-me a quest\u00f5es dom\u00e9sticas, mas h\u00e1 dois desenvolvimentos perigosos de \u00e2mbito internacional, uma esp\u00e9cie de sombra negra que paira sobre toda a an\u00e1lise. Pela primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade h\u00e1 amea\u00e7as reais \u00e0 sobreviv\u00eancia das esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Uma delas anda \u00e0 nossa volta desde 1945. \u00c9 uma esp\u00e9cie de milagre t\u00earmo-la fintado. \u00c9 a amea\u00e7a da guerra nuclear, das armas nucleares. Ainda que n\u00e3o se fale muito disso, esta amea\u00e7a n\u00e3o deixou de crescer com o actual governo e os seus aliados. E h\u00e1 que fazer alguma coisa antes que tenhamos problemas s\u00e9rios.<\/p>\n<p>A outra amea\u00e7a, naturalmente, \u00e9 a cat\u00e1strofe ambiental. Praticamente todos os pa\u00edses do mundo est\u00e3o a tentar fazer alguma coisa sobre isto, ainda que de forma muito vacilante. Os Estados Unidos tamb\u00e9m est\u00e3o a fazer, mas para acelerar a amea\u00e7a. S\u00e3o o \u00fanico dos grandes que n\u00e3o fez nada de constructivo para proteger o meio ambiente, nem sequer deram ainda o primeiro passo. Mais, de alguma forma est\u00e3o a fazer for\u00e7a ao contr\u00e1rio. Tudo isto est\u00e1 ligado \u00e0 exist\u00eancia de um gigantesco sistema de propaganda, que o mundo dos neg\u00f3cios desenvolve com orgulho e desfa\u00e7atez, com o objectivo de convencer as pessoas que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 uma patranha dos progressistas. \u00abPor que raz\u00e3o fazer caso destes cientistas?\u00bb<\/p>\n<p>Estamos a viver uma aut\u00eantica regress\u00e3o para tempos muito negros. E n\u00e3o o digo por gra\u00e7a. De facto, se se pensa que isto est\u00e1 a passar-se no pa\u00eds mais poderoso e rico da hist\u00f3ria, a cat\u00e1strofe parece inevit\u00e1vel. Numa gera\u00e7\u00e3o ou duas, qualquer outra coisa de que falemos n\u00e3o ter\u00e1 import\u00e2ncia. H\u00e1 que fazer alguma coisa, e faz\u00ea-lo rapidamente, com dedica\u00e7\u00e3o e de forma sustent\u00e1vel. N\u00e3o ser\u00e1 simples. Haver\u00e1, seguramente, obst\u00e1culos, dificuldades e fracassos. Mais: se o esp\u00edrito surgido o ano passado, aqui e noutros rinc\u00f5es do mundo, n\u00e3o cresce e n\u00e3o consegue converter-se numa for\u00e7a de peso no mundo social e pol\u00edtico, as possibilidades de um futuro digno n\u00e3o ser\u00e3o muito grandes.<\/p>\n<p><em>* Noam Chomsky \u00e9 professor de lingu\u00edstica do MIT (Massachusetts Institute of Technology).<\/em><\/p>\n<p>Este texto foi publicado em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sinpermiso.info\/\" target=\"_blank\">www.sinpermiso.info\/<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2547\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2547<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: odiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nNoam Chomsky*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3191\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3191","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Pt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3191"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3191\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}