{"id":3193,"date":"2012-07-20T02:03:25","date_gmt":"2012-07-20T02:03:25","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3193"},"modified":"2012-07-20T02:03:25","modified_gmt":"2012-07-20T02:03:25","slug":"as-rupturas-revolucionarias-nao-sao-predatadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3193","title":{"rendered":"As rupturas revolucion\u00e1rias n\u00e3o s\u00e3o pr\u00e9datadas"},"content":{"rendered":"\n<p>Em Portugal, a actual pol\u00edtica de trai\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 condenada pela esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 finalmente o povo a p\u00f4r-lhe fim.<\/p>\n<p>As rupturas revolucion\u00e1rias, com raras excep\u00e7\u00f5es, produzem-se sem data no calend\u00e1rio. Por outras palavras, n\u00e3o s\u00e3o facilmente previs\u00edveis e ocorrem em lugares onde n\u00e3o eram esperadas.<\/p>\n<p>Cito entre outras, a mexicana, a boliviana, a vietnamita, a cubana, a argelina, a chilena, a portuguesa de Abril de 74. Na pr\u00f3pria R\u00fassia, a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro 17, na sequ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro, contrariou teses de Marx ao assumir-se como socialista num pa\u00eds capitalista atrasado.<\/p>\n<p>Diferem muito as motiva\u00e7\u00f5es complexas que est\u00e3o na origem dessas e outras revolu\u00e7\u00f5es, assim como o rumo e o desfecho de cada uma. Um denominador comum \u2013 resultem elas de levantamentos populares ou do funcionamento de mecanismos institucionais \u2013 \u00e9 a recusa dos oprimidos a continuar a submeter-se passivamente a pol\u00edticas da classe dominante que n\u00e3o disp\u00f5e mais de for\u00e7a suficiente para as impor. A an\u00e1lise de Lenine sobre o tema permanece v\u00e1lida.<\/p>\n<p>Nas rupturas violentas em que o povo actua como sujeito directo, o momento em que as massas se mobilizam contra o Estado opressor e o destroem \u00e9 insepar\u00e1vel de situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que variam de caso para caso.<\/p>\n<p>Na grande Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789 uma gera\u00e7\u00e3o de brilhantes pensadores tinha demonstrado h\u00e1 muito que a monarquia de direito divino, com os seus resqu\u00edcios feudais, era um regime monstruoso, uma aberra\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a setecentista. Mas foi preciso que o pre\u00e7o do p\u00e3o aumentasse ap\u00f3s uma sucess\u00e3o de colheitas desastrosas para que, no auge de uma crise econ\u00f3mica profunda, se produzisse o levantamento popular numa ruptura que assumiu rapidamente os contornos de desafio revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nas guerras coloniais, o desespero de povos submetidos pelas pot\u00eancias europeias a sistemas de explora\u00e7\u00e3o com caracter\u00edsticas quase escravocratas funcionou como estopim das lutas de liberta\u00e7\u00e3o. Jean Paul Sartre lembrou que o colonialismo degrada tanto o homem que a pr\u00f3pria vida, bem supremo, perde significado e a insurrei\u00e7\u00e3o armada surge como a op\u00e7\u00e3o imposta pela defesa da dignidade.<\/p>\n<p>O imposs\u00edvel aparente pode tornar-se ent\u00e3o realidade, como aconteceu no Vietnam e na Arg\u00e9lia, quando dois pequenos e pobres povos derrotaram grandes pot\u00eancias imperiais.<\/p>\n<p><strong>TEMPO DE VIRAGEM<\/strong><\/p>\n<p>A humanidade enfrenta uma crise de civiliza\u00e7\u00e3o sem precedentes. Difere de outras porque \u00e9 global.<\/p>\n<p>O imperialismo, transformando-se, sem renunciar \u00e1 sua ess\u00eancia desumana e predat\u00f3ria, pretende, sobretudo atrav\u00e9s do seu polo hegem\u00f3nico, os Estados Unidos, manter os povos submetidos ao seu projecto de domina\u00e7\u00e3o universal.<\/p>\n<p>Incapazes de superar a crise estrutural do capitalismo, os EUA, com o apoio dos grandes da Uni\u00e3o Europeia, desencadearam contra pa\u00edses da \u00c1sia e da \u00c1frica guerras genocidas para saquear os seus recursos naturais.<\/p>\n<p>Atolado nessas agress\u00f5es, o imperialismo pretende justific\u00e1-las utilizando uma engrenagem medi\u00e1tica planet\u00e1ria que forja uma realidade virtual. Transmuta o crime em virtude e mascara guerras destruidoras de \u00abinterven\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias\u00bb em defesa da liberdade e da democracia.<\/p>\n<p>Uma constante nesse perverso massacre medi\u00e1tico \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que a era das revolu\u00e7\u00f5es findou e o neoliberalismo, ultrapassadas crises conjunturais, emerge como a ideologia definitiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o convence os povos. O caos mundial gerado pelo sistema capitalista demonstra a cada novo dia que a luta de classes se intensifica em dezenas de pa\u00edses e que a humanidade se encontra no limiar de uma era de novas revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tome-se a Gr\u00e9cia como exemplo. N\u00e3o h\u00e1 campanha medi\u00e1tica, nem discurso de Obama ou Merkel, ou decis\u00e3o de banqueiros dos EUA e da UE que possa apagar a evid\u00eancia de que os trabalhadores da Gr\u00e9cia responsabilizam o imperialismo e o capitalismo pelos sofrimentos do seu povo.<\/p>\n<p><strong>PORTUGAL, DE ONTEM PARA HOJE<\/strong><\/p>\n<p>Em Portugal ocorreram no s\u00e9culo XX transforma\u00e7\u00f5es sociais profundas que os historiadores e os cientistas pol\u00edticos t\u00eam dificuldade em explicar.<\/p>\n<p>Durante quase meio s\u00e9culo o povo portugu\u00eas foi submetido a uma ditadura fascista. Uma \u00fanica for\u00e7a pol\u00edtica organizada, o Partido Comunista Portugu\u00eas, se bateu na clandestinidade contra esse regime, brutalmente repressivo, que manteve o pa\u00eds num atraso econ\u00f3mico e cultural inocult\u00e1vel. As for\u00e7as armadas, a igreja e a burguesia apoiaram Salazar. Houve resist\u00eancia, mas somente uma pequena minoria participou nas lutas sociais lideradas pela vanguarda comunista.<\/p>\n<p>Foi a guerra colonial que funcionou como espoleta do descontentamento popular, criando condi\u00e7\u00f5es para a ruptura de Abril de 1974.<\/p>\n<p>Ocorreu ent\u00e3o o inimagin\u00e1vel. O derrubamento do fascismo pelo Movimento das For\u00e7as Armadas desembocou num processo revolucion\u00e1rio. A alian\u00e7a do Povo com a vanguarda militar, o MFA, permitiu que em tempo brev\u00edssimo Portugal fosse cen\u00e1rio de uma grande revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em pouco mais de um ano, nos governos provis\u00f3rios do general Vasco Gon\u00e7alves, o povo, reassumindo-se como sujeito da Hist\u00f3ria, realizou conquistas revolucion\u00e1rias que a Europa Ocidental n\u00e3o conhecia desde a Comuna de Paris.<\/p>\n<p>A ruptura da alian\u00e7a do movimento popular com o MFA- atingido por graves divis\u00f5es internas \u2013 abriu as portas ao in\u00edcio da contra-revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O golpe do 25 de Novembro de 75 assinalou o fim do per\u00edodo revolucion\u00e1rio. Na nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, um MFA que renunciara ao seu Programa, consentiu que o Partido Socialista e o Partido Popular Democr\u00e1tico, hoje PSD, desencadeassem a contra revolu\u00e7\u00e3o legislativa, num refluxo hist\u00f3rico desconcertante.<\/p>\n<p>Mas a gradual supress\u00e3o das conquistas de Abril foi lenta, num processo sinuoso, iniciado por M\u00e1rio Soares.<\/p>\n<p>Os trabalhadores lutaram tenazmente em defesa das nacionaliza\u00e7\u00f5es. Foram necess\u00e1rios quase quinze anos para que o PS e o PSD, acumpliciados, reconstitu\u00edssem o latif\u00fandio, destruindo a Reforma Agr\u00e1ria que resistiu numa gesta heroica. O Partido Comunista Portugu\u00eas desempenhou um papel fundamental nessa resist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>LUTAS E ABSURDOS<\/strong><\/p>\n<p>Alternando no poder, o PS e o PSD executaram pol\u00edticas de direita de recorte neoliberal e no plano externo submeteram-se a todas as exig\u00eancias do imperialismo americano e europeu.<\/p>\n<p>O grande capital financeiro recuperou o poder pol\u00edtico e uma estrutura monopolista mais ampla e poderosa do que a do fascismo &#8211; em grande parte controlada pelo imperialismo &#8211; domina a economia nacional, asfixiando-a.<\/p>\n<p>Hoje, o Pa\u00eds, submetido a um dos governos mais reaccion\u00e1rios da Comunidade Europeia, est\u00e1 arruinado e foi conduzido \u00e0 beira do abismo.<\/p>\n<p>Como foi poss\u00edvel? Formula-se a pergunta diariamente, mas encontrar uma resposta satisfat\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Ao governo de direita e pr\u00f3-imperialista de S\u00f3crates sucedeu outro ainda pior, mais agressivo e mais submisso \u00e0s exig\u00eancias de Bruxelas e Washington e do capital financeiro portugu\u00eas.<\/p>\n<p>As estrat\u00e9gias tortuosas do capital entregam por vezes as ins\u00edgnias do poder a pol\u00edticos, ostensivamente med\u00edocres. Os EUA tiveram um George Bush filho; Salazar imp\u00f4s Am\u00e9rico Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>Mas raramente, mesmo na era fascista, Portugal ter\u00e1 suportado um governo com tamanho ramalhete de gente perversa, ignorante ou privada de intelig\u00eancia m\u00ednima.<\/p>\n<p>O Primeiro-ministro reflecte a imagem do conjunto. Cultiva um discurso cantinflesco em que amontoa frases pomposas sem nexo. Mas diferentemente do mexicano Mario Moreno, sempre solid\u00e1rio com os oprimidos, Passos, nas suas arengas reaccion\u00e1rias, presta vassalagem aos opressores.<\/p>\n<p>E que dizer do seu ministro da Economia, personagem que faz lembrar comp\u00e8res de antigas revistas do Maria Vit\u00f3ria? E de um Relvas, criatura que parece arrancada de uma pe\u00e7a de teatro do Absurdo?<\/p>\n<p><strong>AT\u00c9 QUANDO?<\/strong><\/p>\n<p>A condena\u00e7\u00e3o dessa estrat\u00e9gia de trai\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 transparente; ficou expressa em gigantescas e frequentes manifesta\u00e7\u00f5es de protesto e em duas greves gerais.<\/p>\n<p>At\u00e9 quando isto viu durar? Qualquer previs\u00e3o seria irrespons\u00e1vel.<\/p>\n<p>A \u00fanica certeza \u00e9 a de que o fim do pesadelo exige uma ruptura. Mas as condi\u00e7\u00f5es subjectivas para que ela assuma um car\u00e1cter revolucion\u00e1rio n\u00e3o est\u00e3o ainda criadas.<\/p>\n<p>Que fazer ent\u00e3o, nesta dram\u00e1tica curva da hist\u00f3ria portuguesa?<\/p>\n<p>A maioria do povo, bombardeada por uma engrenagem medi\u00e1tica montada pelo grande capital, acredita ainda na possibilidade de uma sa\u00edda institucional para a crise, ou seja, admite que as for\u00e7as progressistas podem chegar ao governo atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es para retomar o projecto democr\u00e1tico de Abril.<\/p>\n<p>Estamos perante uma ilus\u00e3o. A ruptura, para ser real, n\u00e3o pode processar-se no \u00e2mbito do sistema; ter\u00e1 de visar a dif\u00edcil, mas necess\u00e1ria, destrui\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p>Ela depende da participa\u00e7\u00e3o torrencial das massas populares. Mas esta, pela din\u00e2mica do choque com o poder, assumir\u00e1 gradualmente um car\u00e1cter revolucion\u00e1rio anti-sist\u00e9mico, porque o objectivo ser\u00e1, ent\u00e3o, n\u00e3o um imposs\u00edvel regresso a Abril, mas a destrui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema, isto \u00e9, do capitalismo.<\/p>\n<p>Repito a afirma\u00e7\u00e3o inicial. As rupturas revolucion\u00e1rias n\u00e3o s\u00e3o pr\u00e9-datadas. Contrariam previs\u00f5es e tomam quase sempre um rumo inesperado.<\/p>\n<p>Em Portugal, a actual pol\u00edtica de trai\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 condenada pela esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 finalmente o povo a p\u00f4r-lhe fim.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, 13 de Julho de 2012<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2548\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2548<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: odiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3193\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[98],"tags":[],"class_list":["post-3193","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c111-portugal"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Pv","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3193"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3193\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}