{"id":3202,"date":"2012-07-20T17:37:29","date_gmt":"2012-07-20T17:37:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3202"},"modified":"2012-07-20T17:37:29","modified_gmt":"2012-07-20T17:37:29","slug":"para-atacar-venezuela-jornaloes-usam-ong-estadunidense-como-fonte-unica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3202","title":{"rendered":"Para atacar Venezuela, jornal\u00f5es usam ONG estadunidense como fonte \u00fanica"},"content":{"rendered":"\n<p>Os jornal\u00f5es brasileiros cobrem de forma absolutamente seletiva os acontecimentos internacionais. E n\u00e3o \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o baseada em crit\u00e9rios jornal\u00edsticos, mas em crit\u00e9rios pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos. A Venezuela \u00e9 sempre retratada como um pa\u00eds violento, corrupto e sem democracia, o mesmo se podendo falar sobre o Equador e a Bol\u00edvia, pa\u00edses tamb\u00e9m governados por presidentes progressistas. Sobre a Argentina, Cristina Kirchner \u00e9 retratada como maluca, dependente politicamente do legado de Nestor, e pouco afeita \u00e0 liberdade de express\u00e3o. Sobre Cuba pouco se fala, e quando o pa\u00eds \u00e9 referido \u00e9 atrav\u00e9s das mesmas fontes de sempre, de independ\u00eancia duvidosa e vinculadas aos opositores que adorariam que o pa\u00eds voltasse a ser espa\u00e7o de lazer dos rica\u00e7os estadunidenses. Quando a Col\u00f4mbia, por exemplo, est\u00e1 em voga, o tema \u00e9 sempre o narcotr\u00e1fico e a viol\u00eancia dos grupos armados, evitando-se refer\u00eancia ao terrorismo de Estado patrocinado pelos \u00faltimos governos ligados a Washington.<\/p>\n<p>Foi pauta nesta ter\u00e7a-feira um relat\u00f3rio da ONG Human Rights Watch (HRW) a respeito da Venezuela. Como em relat\u00f3rios anteriores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele pa\u00eds, o HRW afirma uma suposta falta de respeito \u00e0 democracia e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es por parte do Executivo, e critica a\u00e7\u00f5es que, segundo o relat\u00f3rio, restringiram a liberdade de express\u00e3o no pa\u00eds \u2013 citam, novamente, a quest\u00e3o da RCTV, emissora de TV que foi pe\u00e7a fundamental do golpe de Estado sofrido por Ch\u00e1vez em 2002 e que n\u00e3o teve sua concess\u00e3o renovada.<\/p>\n<p>O Globo, Folha de S. Paulo e Estad\u00e3o estamparam nas capas de seus sites as seguintes manchetes, respectivamente: \u201cONG denuncia abusos de poder cometidos no governo de Ch\u00e1vez\u201d, \u201cCh\u00e1vez censura ju\u00edzes e imprensa para conter oposi\u00e7\u00e3o, diz ONG\u201d e \u201cSitua\u00e7\u00e3o de direitos humanos na Venezuela est\u00e1 mais prec\u00e1ria, diz ONG\u201d. E \u201cdiz ONG\u201d poderia ser o t\u00edtulo \u00fanico, j\u00e1 que nenhuma outra fonte \u00e9 consultada. S\u00e3o 6547 caracteres de texto na mat\u00e9ria de O Globo, 5477 na Folha e 6202 no texto do Estad\u00e3o, totalizando 18226 caracteres. E em tudo isso, n\u00e3o h\u00e1 sequer uma entrevista, uma fonte que n\u00e3o seja a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o que produziu o relat\u00f3rio. Mais: as mat\u00e9rias de Estad\u00e3o e Folha foram enviadas por correspondentes em Washington. A de O Globo \u00e9 mat\u00e9ria sem assinatura. Ningu\u00e9m ali esteve na Venezuela.<\/p>\n<p>\u00c9 o ruim e velho jornalismo declarat\u00f3rio, que Perseu Abramo incluiu em um de seus genialmente formulados \u201cpadr\u00f5es de manipula\u00e7\u00e3o da grande m\u00eddia\u201d, o \u201cpadr\u00e3o de invers\u00e3o\u201d, com a substitui\u00e7\u00e3o do fato pela vers\u00e3o \u2013 no caso, a vers\u00e3o da HRW \u00e9 a \u00fanica que importa, o fato em si \u00e9 absolutamente ignorado pela abismal dist\u00e2ncia f\u00edsica e mesmo dial\u00f3gica entre os jornais (e seus \u201crep\u00f3rteres\u201d, com muitas aspas) e a realidade venezuelana.<\/p>\n<p>\u2013<\/p>\n<p>Mas ainda resta um ponto a ser destacado. Em nenhum momento qualquer dos tr\u00eas jornais coloca em quest\u00e3o os interesses envolvidos na divulga\u00e7\u00e3o de um relat\u00f3rio como esse \u2013 especialmente \u00e0s v\u00e9speras de uma elei\u00e7\u00e3o presidencial. A palavra da HRW \u00e9 tomada como o pr\u00f3prio fato, como j\u00e1 escrevemos acima, o que significa tamb\u00e9m que sua imparcialidade e neutralidade quer ser apresentada aos leitores como \u00f3bvia. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvia assim. N\u00e3o h\u00e1 imparcialidade ou neutralidade. Todas as organiza\u00e7\u00f5es, governamentais ou n\u00e3o, de quaisquer setores sociais, atuam com vistas a determinados interesses, nobres ou n\u00e3o, e de forma transparente ou n\u00e3o. Com a Human Rights Watch n\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Os ataques ao leg\u00edtimo governo venezuelano se sucedem, assim como se sucedem os ataques ao governo cubano, por exemplo, na mesma linha dos setores entreguistas olig\u00e1rquicos de toda a Am\u00e9rica Latina, ligados ideologicamente \u2013 ou mais \u2013 aos interesses estadunidenses na regi\u00e3o. A HRW \u00e9 sediada nos EUA, o que n\u00e3o anula sua legitimidade. Mas vejamos o que mais est\u00e1 envolvido, segundo trecho do excelente\u00a0<a href=\"http:\/\/links.org.au\/node\/1506\" target=\"_blank\">artigo<\/a> do site Links:<\/p>\n<p><em>A quem representa a Human Rights Watch?<\/em><\/p>\n<p><em>(tradu\u00e7\u00e3o: Bruna Andrade e Alexandre Haubrich)<\/em><\/p>\n<p><em>A resposta \u00e0 \u00faltima pergunta \u00e9 um pouco mais dif\u00edcil que no caso de outras organiza\u00e7\u00f5es como a National Endowment for Democracy (NED), estabelecida pelo governo dos Estados Unidos, ou mesmo o Rep\u00f3rteres Sem Fronteiras (RSF), com sede na Fran\u00e7a e financiada pelo Departamento de Estado dos EUA em algumas de suas campanhas contra Cuba. \u00c0 maneira dos \u201cjornalistas aliados\u201d que viajam com as tropas dos EUA em todo o mundo, a NED e o RSF podem ser considerados \u201cvigilantes aliados\u201d que contribuem para legitimar ou deslegitimar determinados governos em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica dos Estados Unidos da Am\u00e9rica.<\/em><\/p>\n<p><em>A Human Rights Watch, no entanto, n\u00e3o \u00e9 financiada pelo governo dos EUA, mas obt\u00e9m a maior parte de seus fundos de uma s\u00e9rie de funda\u00e7\u00f5es estadunidenses, por sua vez, financiadas por muitas das maiores corpora\u00e7\u00f5es deste pa\u00eds. Estas funda\u00e7\u00f5es, privadas e endinheiradas, costumam vincular suas contribui\u00e7\u00f5es a projetos espec\u00edficos. Assim, por exemplo, os relat\u00f3rios da HRW sobre o Oriente Pr\u00f3ximo, muitas vezes, se baseiam em informa\u00e7\u00f5es de funda\u00e7\u00f5es pr\u00f3-Israel e recebem financiamento das mesmas. Outros grupos, pedem um enfoque sobre os direitos das mulheres ou o HIV. Mais de 90% dos 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares do or\u00e7amento da HRW para 2009 foi conseguido dessa maneira. Em outras palavras, HRW oferece uma sele\u00e7\u00e3o de assuntos vendidos e realizados nos EUA que servem aos interesses dos ricos.<\/em><\/p>\n<p><em>A coordena\u00e7\u00e3o de todos estes interesses se ilustra, com toda claridade, por meio do novo presidente da HRW, James F. Hoge Jr., editor e jornalista, redator-chefe da publica\u00e7\u00e3o Foreign Affairs, de 1992 a 2009, e membro not\u00e1vel do patrocinador damesma, o Council on Foreign Relations (CFR), localizado em Nova York. O CFR, considerado como o mais influente think tank (Usina de ideias) da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos, inclui grande parte da elite empresarial norte-americana (entre outros, os bancos e os meios de comunica\u00e7\u00e3o), assim como l\u00edderes do passado e do presente dos grandes partidos. Ex-secret\u00e1rios de Estado como Henry Kissinger e Condoleezza Rice, e o atual secret\u00e1rio de Defesa, Robert Gates, s\u00e3o membros do CFR.<\/em><\/p>\n<p><em>O conselho diretivo da HRW est\u00e1 igualmente dominado pela elite corporativa dos EUA, como a banc\u00e1ria e os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, e alguns acad\u00eamicos, ainda que n\u00e3o por funcion\u00e1rios do governo. O conselho diretivo inclui o ex ministro de Assuntos Exteriores mexicano Jorge Casta\u00f1eda (acad\u00eamico que uma vez foi marxista, reconvertido em pol\u00edtico de direita), enquanto o advogado de origem chilena Jos\u00e9 Miguel Vivanco \u00e9 diretor da Divis\u00e3o para as Am\u00e9ricas da HRW.<\/em><\/p>\n<p><em>Vivanco foi objeto de uma grande controv\u00e9rsia na Am\u00e9rica Latina por causa de seus ataques contra Venezuela e Cuba. Se HRW \u00e0s vezes parecia atuar com certa independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica exterior dos EUA, por exemplo quando apoiou a \u201cguerra contra o terrorismo\u201d mas criticou as opera\u00e7\u00f5es estadunidenses no Iraque, este n\u00e3o foi o caso na Am\u00e9rica Latina, onde o grupo seguiu ao p\u00e9 da letra a linha de Washington.<\/em><\/p>\n<p><em>De todos os relat\u00f3rios da Human Rights Watch sobre a Am\u00e9rica Latina nos \u00faltimos anos, os \u00fanicos governos a que se tem feito cr\u00edticas sistem\u00e1ticas s\u00e3o os da Venezuela e de Cuba. Outros relat\u00f3rios, sobre Brasil, Honduras e M\u00e9xico, tem tratado de quest\u00f5es muito mais concretas, como a viol\u00eancia da pol\u00edcia, os direitos dos transexuais ou a Justi\u00e7a Militar. Quando se trata da Col\u00f4mbia, HRW publicou relat\u00f3rios sobre o uso de minas terrestres e sobre as \u201cm\u00e1fias paramilitares\u201d. Este \u00faltimo relat\u00f3rio citado reconhece que a Col\u00f4mbia tem um n\u00edvel de viol\u00eancia alto como \u201cquase nenhum outro pa\u00eds no hemisf\u00e9rio ocidental\u201d. Na realidade, a Col\u00f4mbia est\u00e1 \u00e0 frente de qualquer outro pa\u00eds latino americano em n\u00famero de assassinatos de sindicalistas, jornalistas e advogados. Os militares colombianos e seus aliados das mil\u00edcias da extrema direita foram respons\u00e1veis pela maior parte destes massacres e mesmo assim HRW culpa a guerrilha de esquerda e as mil\u00edcias de direita igualmente, sem implicar o regime de \u00c1lvaro Uribe, o maior recebedor de ajuda estadunidense na Am\u00e9rica Latina.<\/em><\/p>\n<p>Siga\u00a0<a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/jornalismob\" target=\"_blank\">www.twitter.com\/jornalismob<\/a> e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/alexhaubrich\" target=\"_blank\">www.twitter.com\/alexhaubrich<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalismob.com\/2012\/07\/17\/para-atacar-venezuela-jornaloes-usam-ong-estadunidense-como-fonte-unica\/\" target=\"_blank\">http:\/\/jornalismob.com\/2012\/07\/17\/para-atacar-venezuela-jornaloes-usam-ong-estadunidense-como-fonte-unica\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: jornalismob\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3202\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[],"class_list":["post-3202","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-PE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3202","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3202"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3202\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}