{"id":32092,"date":"2024-09-20T20:38:38","date_gmt":"2024-09-20T23:38:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32092"},"modified":"2024-09-20T20:38:38","modified_gmt":"2024-09-20T23:38:38","slug":"politica-baixaria-e-cadeiradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32092","title":{"rendered":"Pol\u00edtica, baixaria e cadeiradas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32093\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32092\/photo_6013711503489873125_x\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/photo_6013711503489873125_x.jpg?fit=640%2C639&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"640,639\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"photo_6013711503489873125_x\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/photo_6013711503489873125_x.jpg?fit=640%2C639&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-32093\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/photo_6013711503489873125_x.jpg?resize=640%2C639&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"639\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/photo_6013711503489873125_x.jpg?w=640&amp;ssl=1 640w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/photo_6013711503489873125_x.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/photo_6013711503489873125_x.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi para o Blog da Boitempo &#8211; professor aposentado da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, professor convidado do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social da PUC de S\u00e3o Paulo, educador popular e militante do PCB.<\/p>\n<p>Nesta briga, eu tor\u00e7o para a cadeira. O pa\u00eds arde em chamas, mas as barricadas est\u00e3o vazias. As ruas est\u00e3o tomadas por carros e engarrafamentos, as bandeiras est\u00e3o guardadas e as bocas caladas. A pol\u00edtica morreu e o que vemos s\u00e3o os festejos comemorativos daqueles que a mataram.<\/p>\n<p>\u201cUm idiota nunca aproveita a oportunidade.<br \/>\nNa verdade, muitas vezes, o idiota \u00e9 a oportunidade que os outros aproveitam.\u201d<br \/>\nMill\u00f4r Fernandes<\/p>\n<p>Existia, at\u00e9 pouco tempo, um mito segundo o qual a sociedade iria se aperfei\u00e7oando gra\u00e7as \u00e0 sociedade de mercado e ao Estado democr\u00e1tico. Fukuyama, de forma mais caricatural, mas outros pensadores sofisticados como Hannah Arendt, Habermas ou Bobbio, tamb\u00e9m cultivaram esse mito.<\/p>\n<p>No entanto, a democracia avan\u00e7ada tem produzido rufi\u00f5es e malandros muito mais que estadistas. Podemos aqui, sem a pretens\u00e3o de uma lista exaustiva, lembrar de Berlusconi, Trump, Bolsonaro e o pateta do Milei, s\u00f3 para citar alguns. \u00c9 sempre uma sa\u00edda f\u00e1cil atribuir a tais personagens um car\u00e1ter excepcional, algu\u00e9m que n\u00e3o seria da chamada \u201cclasse pol\u00edtica\u201d como se essa anomalia sociol\u00f3gica n\u00e3o fosse composta, em sua maioria, por um tanto de desclassificados, demagogos e despreparados para qualquer forma de exerc\u00edcio de poder salvo em seu pr\u00f3prio interesse e daqueles que os financiam e comandam.<\/p>\n<p>O que os patetas mais expl\u00edcitos revelam em seu exagero, como na caricatura, nada mais \u00e9 que tra\u00e7os daquilo em que se transformou a figura do pol\u00edtico. Alguns disfar\u00e7am na linguagem rebuscada, no terno impec\u00e1vel, no maneirismo treinado, a malandragem inata e os interesses escusos. Neste sentido, o buf\u00e3o parece ao senso comum mais aut\u00eantico.<\/p>\n<p>A genial cria\u00e7\u00e3o de Dias Gomes, o famoso Odorico Paragua\u00e7u, saiu das telas para assumir uma forma mais contempor\u00e2nea de picareta. Interessante que v\u00edamos o personagem da novela como uma reminisc\u00eancia de uma \u00e9poca passada de oligarcas e coron\u00e9is, mas o atual fanfarr\u00e3o assume a forma de youtubers, tiktokers, blogueiros e afins, jovens, irrespons\u00e1veis, bocudos, irreverentes, desafiadores, falsamente antissistema, que ganham o centro do picadeiro da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 compreens\u00edvel que uma gera\u00e7\u00e3o anterior de malandros, que constru\u00edram seus personagens na televis\u00e3o, como Datena e Luciano Huck, por exemplo, sintam um certo ci\u00fame dos moleques que ganham notoriedade nas redes sociais e se lan\u00e7am como aventureiros na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 divertido ver os porta-vozes da ordem tentando levar a s\u00e9rio a crise de legitimidade da pol\u00edtica, conclamando pela seriedade e responsabilidade, o zelo pelo interesse p\u00fablico, o respeito \u00e0s institui\u00e7\u00f5es sagradas, tentando vestir desesperadamente o rei nu e b\u00eabado que envergonha o distinto p\u00fablico. O car\u00e1ter burlesco e violento que vai assumindo a cena pol\u00edtica, a meu ver, n\u00e3o pode ser compreendido a golpes de discursos moralizantes, pois eles acabam assumindo a fei\u00e7\u00e3o que completa perfeitamente o circo, como o mestre de cerim\u00f4nia do picadeiro com seu fraque e cartola no meio a malabaristas de col\u00e3 e palha\u00e7os coloridos, ou um pastor pregando moralidade em um bordel.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter burlesco da pol\u00edtica \u00e9 a express\u00e3o da crise da democracia burguesa e suas formalidades institucionais. Faz muito tempo que ningu\u00e9m leva a s\u00e9rio tal atividade, principalmente aqueles que vivem dela, direta ou indiretamente, salvo alguns abnegados e seus princ\u00edpios, como Glauber Braga que n\u00e3o por acaso est\u00e1 sendo amea\u00e7ado de cassa\u00e7\u00e3o como se tentasse fazer um mon\u00f3logo shakespeariano no programa dos Trapalh\u00f5es. Faz muito tempo que ningu\u00e9m discute a s\u00e9rio o pa\u00eds, seus problemas e as ra\u00edzes profundas de nossas mazelas, muito menos propostas reais. H\u00e1 um verdadeiro div\u00f3rcio entre o que se diz nas elei\u00e7\u00f5es e as a\u00e7\u00f5es dos candidatos uma vez eleitos.<\/p>\n<p>Os chamados \u201cdebates\u201d converteram-se em arena de trivialidades, mentiras deslavadas, atua\u00e7\u00e3o e factoides para bombar nas redes e repercutir nos programas de televis\u00e3o. Os assim chamados \u201cprogramas de candidatos\u201d, tornaram-se uma formalidade que n\u00e3o precisa guardar nenhuma coer\u00eancia com partidos e suas convic\u00e7\u00f5es, muito menos com aquilo que de fato se pretende fazer.<\/p>\n<p>Decis\u00f5es s\u00e3o tomadas orientadas por institutos de pesquisa como qualquer mercadoria, agora potencializada pela m\u00e1gica dos algoritmos, na velha arte de falar o que acredita-se que as pessoas querem ouvir. \u00c9 s\u00f3 afirmar a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e da seguran\u00e7a, mostrar uma cara s\u00e9ria, andar de capacete numa obra, em mangas de camisa como se fosse um trabalhador incans\u00e1vel e acenar para as c\u00e2meras. Ocorre que, desta maneira, acabaram ficando todos iguais e a\u00ed entra o palha\u00e7o.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 tosco, fala mal, xinga, esbraveja improp\u00e9rios, provoca e amea\u00e7a. N\u00e3o apresenta proposta nenhuma e ridiculariza a si mesmo e o espa\u00e7o que tenta se apresentar s\u00e9rio. Desta forma, destaca-se porque \u00e9 diferente. S\u00e3o filhotes de En\u00e9ias, de Levy e seu aerotrem, Eymael e sua musiquinha, e l\u00e1 no fundo, herdeiros do Cacareco e do Macaco Ti\u00e3o.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 que, no contexto atual, \u00e0s vezes o palha\u00e7o malandro pode se eleger e a\u00ed temos a trag\u00e9dia de Bolsonaro ou Milei e as coisas ficam muito menos engra\u00e7adas, como o sargento Pincel comandando uma opera\u00e7\u00e3o de guerra de verdade. Mas qual seria a raz\u00e3o desta outsideriza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, no termo de nosso colega argentino Alberto Bonnet?<\/p>\n<p>Estou convencido de que vivemos na esfera pol\u00edtica algo que Marx e Engels descreveram em sua cr\u00edtica da ideologia, isto \u00e9, no momento de crise, quando as for\u00e7as produtivas avan\u00e7adas encontram sua contradi\u00e7\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, as ideias e valores que representavam esta ordem, atrav\u00e9s das quais os interesses particulares apresentavam-se como universais, perdem sua correspond\u00eancia e se tornam inaut\u00eanticas. Como precisam continuar a ser afirmadas e defendidas, eles assumem a forma de uma ilus\u00e3o consciente, uma hipocrisia proposital.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre com as formas pol\u00edticas que deveriam expressar a livre concorr\u00eancia, a sociedade de indiv\u00edduos livres e iguais perante a lei, a sociedade que permitiria o desenvolvimento das aptid\u00f5es de cada um, levando-o ao sucesso ou ao fracasso e, finalmente, ao mito supremo: um governo do povo, pelo povo e para o povo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que faltam propostas para enfrentar este problema, mas as verdadeiras alternativas foram barradas e expulsas do espa\u00e7o daquilo que se considera pol\u00edtica. As jornadas de julho de 2013 que, entre outras coisas, expressaram uma cr\u00edtica direta e pertinente contra a chamada democracia representativa, foi reprimida e totalmente desconsiderada, deixando o espa\u00e7o do ressentimento ser capturado pela extrema direita.<\/p>\n<p>No lugar da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, isto \u00e9, a a\u00e7\u00e3o das classes em defesa de seus interesses, entra um ex\u00e9rcito de assalariados prec\u00e1rios agitando bandeiras em sem\u00e1foros, adesivos nos vidros traseiros dos carros, jingles de gosto duvidoso e fotos retocadas. Esta opera\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s retirar qualquer subst\u00e2ncia daquilo que um dia foi uma pr\u00e1tica pol\u00edtica, apresenta o cad\u00e1ver mumificado e sem sangue, exigindo que o circo aventureiro seja o \u00fanico e exclusivo reino da pol\u00edtica. Movimentos sociais n\u00e3o podem ser pol\u00edticos, universidades e escolas tem que ser \u201csem partido\u201d, o Estado, veja s\u00f3, n\u00e3o pode agir politicamente e tomar um lado da luta de classes. Quando acabam as elei\u00e7\u00f5es, acaba a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>No tempo de likes, engajamento, monetariza\u00e7\u00e3o da bobagem, rebaixamento de conte\u00fado, fake news, preconceito e discurso de \u00f3dio, a personifica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica s\u00f3 podia ser de canalhas desqualificados, homof\u00f3bicos e machistas, palha\u00e7os malandros, aspirantes a fascistas e anticomunistas convictos. Os rufi\u00f5es, entretanto, prestam um servi\u00e7o rasgando o v\u00e9u de respeitabilidade com que a ordem podre do capital tenta encobrir o cad\u00e1ver de sua civiliza\u00e7\u00e3o moribunda.<\/p>\n<p>Em poucas palavras: nesta briga, eu tor\u00e7o para a cadeira. O pa\u00eds arde em chamas, mas as barricadas est\u00e3o vazias. As ruas est\u00e3o tomadas por carros e engarrafamentos, as bandeiras est\u00e3o guardadas e as bocas caladas. A pol\u00edtica morreu e o que vemos s\u00e3o os festejos comemorativos daqueles que a mataram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32092\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10],"tags":[233],"class_list":["post-32092","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8lC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32092","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32092"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32092\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32094,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32092\/revisions\/32094"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32092"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32092"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32092"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}