{"id":321,"date":"2021-08-03T22:05:13","date_gmt":"2021-08-04T01:05:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=321"},"modified":"2021-08-03T22:59:17","modified_gmt":"2021-08-04T01:59:17","slug":"casa-branca-sonha-que-cuba-volte-a-ser-um-apendice-dos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/321","title":{"rendered":"&#8220;Casa Branca sonha que Cuba volte a ser um ap\u00eandice dos EUA&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/pera.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->(Foto: Franck Vervial)<\/p>\n<p>Luiz Bernardo Peric\u00e1s: \u201cCasa Branca sonha que Cuba volte a ser um ap\u00eandice dos EUA\u201d<\/p>\n<p>Por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>Em entrevista, Luiz Bernardo Peric\u00e1s fala sobre os protestos, o impacto do bloqueio norte-americano e a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de Cuba.<\/p>\n<p>Nos dias 11 e 12 de julho, em meio a um aumento de casos de Covid-19 e num contexto de decl\u00ednio econ\u00f4mico, manifestantes sa\u00edram \u00e0s ruas de algumas cidades de Cuba para protestar, com queixas que iam das crises de abastecimento e energia que a ilha vem vivendo a contesta\u00e7\u00f5es do sistema pol\u00edtico-econ\u00f4mico do pa\u00eds, sob motes contrarrevolucion\u00e1rios como \u201cPatria y Vida\u201d. Houve atos de desordem p\u00fablica, como ataques contra ve\u00edculos privados, institui\u00e7\u00f5es estatais e casas, e saques de mercados e lojas. O n\u00famero de detidos \u00e9 incerto \u2013 o governo cubano n\u00e3o divulgou dados, mas contesta a lista de organiza\u00e7\u00f5es anticastristas que d\u00e3o conta de 500 detidos \u2013 e houve ao menos um morto, Diubis Laurencio Tejeda, de 36 anos, durante um conflito com a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es foram rapidamente respondidas pelo presidente Miguel Di\u00e1z-Canel, que convocou o povo cubano a tomar as ruas em contraprotestos. Nos grandes ve\u00edculos de imprensa, no entanto, enquanto as primeiras foram tomadas com grande entusiasmo, com a expectativa de que fossem um crep\u00fasculo da derrubada do socialismo, os atos em apoio ao governo e \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o foram ignorados.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, apesar de Cuba ter se tornado manchete e tema de disputas nas redes sociais \u2013 e de sua embaixada na Fran\u00e7a ter sofrido um atentado a coquet\u00e9is molotov \u2013 a situa\u00e7\u00e3o parece ter se acalmado na ilha. Novas manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o sucederam, mas o governo de Joe Biden, al\u00e9m de descumprir a promessa de reverter as medidas do governo Trump de amplia\u00e7\u00e3o do bloqueio contra Cuba, anunciou uma s\u00e9rie de novas san\u00e7\u00f5es contra a Pol\u00edcia Nacional Revolucion\u00e1ria, as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias Cubanas e a Brigada Especial do Minist\u00e9rio do Interior de Cuba pela \u201crepress\u00e3o dos protestos pac\u00edficos iniciados em 11 de julho\u201d, de acordo com a nota do Secret\u00e1rio de Estado norte-americano, Antony Blinken.<\/p>\n<p>Para discutir os protestos, o impacto do bloqueio norte-americano contra a ilha e a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de Cuba, a Revista Opera conversou com o historiador, escritor, tradutor e professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) Luiz Bernardo Peric\u00e1s, autor de \u201cChe Guevara e o debate econ\u00f4mico em Cuba\u201d (Boitempo), que atualmente trabalha em um livro sobre a guerrilha de Che na Bol\u00edvia, a ser publicado no ano que vem.<\/p>\n<p>Revista Opera: Recentemente, no dia 11 de julho, estouraram manifesta\u00e7\u00f5es em algumas cidades de Cuba, a princ\u00edpio em San Antonio de los Ba\u00f1os. O sr. escreveu um artigo para o Blog da Boitempo com uma perspectiva um pouco mais cr\u00edtica aos protestos do que a que a que a gente est\u00e1 vendo, por exemplo, em muito da intelectualidade de esquerda do Primeiro Mundo, digamos assim. Gostaria de come\u00e7ar falando um pouco sobre sua avalia\u00e7\u00e3o sobre os protestos.<\/p>\n<p>Luiz Bernardo Peric\u00e1s: Tenho lido v\u00e1rias mat\u00e9rias (tanto da grande imprensa como da m\u00eddia alternativa) sobre esses acontecimentos. E de fato, como voc\u00ea est\u00e1 dizendo, alguns comentaristas de \u201cesquerda\u201d expressaram opini\u00f5es bem cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o ao governo cubano, muitas vezes fazendo coro com as vers\u00f5es que est\u00e3o circulando em revistas e jornais de direita. E isso, a meu ver, \u00e9 algo bastante problem\u00e1tico, especialmente no atual momento, em que Cuba precisa de todo o apoio das for\u00e7as progressistas de nosso continente.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, \u00e9 preciso recordar que o mundo inteiro vive uma pandemia sem precedentes, que est\u00e1 afetando a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de todas as na\u00e7\u00f5es (\u00e9 s\u00f3 verificar o caso do Brasil, por exemplo, com altas taxas de desemprego, o aprofundamento da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e um processo crescente de uberiza\u00e7\u00e3o, sem contar com o grande n\u00famero de infectados e de \u00f3bitos pela Covid-19).<\/p>\n<p>As quest\u00f5es que envolvem especificamente a \u201cmayor de las Antillas\u201d na atualidade s\u00e3o m\u00faltiplas. Em 2020 o PIB cubano encolheu cerca de 11%. Al\u00e9m disso, boa parte do que o pa\u00eds consome \u00e9 importada. H\u00e1 escassez de rem\u00e9dios; o n\u00famero de voos internacionais diminuiu bastante; e o turismo (que \u00e9 um setor muito importante) foi extremamente afetado neste per\u00edodo. Por outro lado, a remessa de d\u00f3lares do exterior (principalmente de cubanos e de cubano-americanos que vivem nos Estados Unidos) teve uma redu\u00e7\u00e3o significativa. Para completar, a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar foi afetada recentemente por uma seca severa. Vale lembrar que o pa\u00eds, historicamente, sofre com a passagem recorrente de furac\u00f5es e tempestades tropicais e com a incid\u00eancia de pragas agr\u00edcolas e de estiagens, que constantemente assolam o campo; ou seja, tudo isso pode ser inclu\u00eddo neste espectro de dificuldades (al\u00e9m, \u00e9 claro, do pr\u00f3prio bloqueio comercial norte-americano, que se agravou substancialmente durante o governo Trump).<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es, \u00e9 necess\u00e1rio observar primeiro como os meios de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam descrito aqueles acontecimentos. Nunca \u00e9 demais ressaltar a maneira tendenciosa e imprecisa com que a m\u00eddia internacional abordou esses epis\u00f3dios. Diferentes \u00f3rg\u00e3os de imprensa, por exemplo, apresentaram n\u00fameros muito d\u00edspares em rela\u00e7\u00e3o ao tamanho das passeatas. As cifras foram bem divergentes: alguns sites diziam que havia em m\u00e9dia entre 200 e 500 indiv\u00edduos nas ruas; para determinados jornais, por sua vez, seriam entre dois mil e tr\u00eas mil; e ainda outros peri\u00f3dicos que insistiam que aqueles atos contavam com mais de cinco mil pessoas. A quantidade de locais que foram palco desses \u201cprotestos\u201d tamb\u00e9m varia muito de acordo com a fonte: li artigos que afirmaram que as passeatas ocorreram em doze cidades; outras reportagens, contudo, indicaram 40, 60 e at\u00e9 mesmo 80 munic\u00edpios do pa\u00eds. Ou seja, h\u00e1 muita desinforma\u00e7\u00e3o. Por isso, temos que come\u00e7ar a prestar muita aten\u00e7\u00e3o no que est\u00e1 por tr\u00e1s dessas narrativas, procurar saber quem comanda as empresas de comunica\u00e7\u00e3o, que interesses est\u00e3o envolvidos, quais s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es pol\u00edticas de algumas das lideran\u00e7as das mobiliza\u00e7\u00f5es, quem financia e apoia esses grupos \u201cdissidentes\u201d dentro e fora de Cuba, etc.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos ter a ingenuidade de acreditar que todos esses atos \u201csurgiram\u201d espontaneamente, ao mesmo tempo. Isso para n\u00e3o falar em \u201cprotestos\u201d ocorrendo paralelamente em algumas localidades da Fl\u00f3rida! Quando o governo norte-americano imediatamente se pronunciou em apoio aos manifestantes, tudo pareceu se encaixar. N\u00e3o estou dizendo que n\u00e3o haja insatisfa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Apenas que aquelas passeatas espec\u00edficas n\u00e3o representaram a maioria da popula\u00e7\u00e3o cubana (mesmo que, no meio delas, por certo, se encontrassem cidad\u00e3os comuns, sem liga\u00e7\u00e3o com coletivos oposicionistas).<\/p>\n<p>Por sinal, quando o governo convocou seus apoiadores para que fossem \u00e0s ruas, houve uma resposta muito forte \u2013 e essas mobiliza\u00e7\u00f5es pr\u00f3-revolu\u00e7\u00e3o (que em n\u00fameros absolutos receberam mais participantes) praticamente foram ignoradas pela imprensa de outros pa\u00edses. V\u00e1rias destas iniciativas, que lotaram pra\u00e7as e avenidas, simplesmente n\u00e3o foram noticiadas. E D\u00edaz-Canel, pessoalmente, liderou as caminhadas, sendo aclamado pelos transeuntes.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, portanto, ter muito cuidado com o que est\u00e1 sendo difundido. Est\u00e1 ocorrendo uma guerra h\u00edbrida, n\u00e3o convencional, contra Cuba. O desejo constante do Departamento de Estado, da CIA e da Casa Branca \u00e9 o de preservar e ampliar os interesses dos EUA em todas as partes do planeta, atrav\u00e9s de propaganda, financiamento de opositores, a\u00e7\u00f5es militares e atentados. O objetivo, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 sempre o regime change (mudan\u00e7a de regime). A manipula\u00e7\u00e3o dos fatos, com a utiliza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o para, de alguma forma, confundir e desinformar o p\u00fablico, \u00e9 um padr\u00e3o recorrente. Por isso, n\u00e3o custa lembrar das chamadas \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d ou dos epis\u00f3dios na Bol\u00edvia e na Venezuela, contra Evo e Maduro. No continente americano, especificamente, a OEA, as grandes redes de comunica\u00e7\u00e3o da m\u00eddia corporativa e o empresariado local est\u00e3o sempre dispostos a refor\u00e7ar o discurso contra os governos populares e a incentivar golpes promovidos pelas elites da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Revista Opera: No in\u00edcio deste ano Cuba passou a levar adiante a chamada \u201cTarefa Ordenamento\u201d, com um novo plano econ\u00f4mico que, entre outras coisas \u2013 talvez o principal ponto, podemos dizer \u2013 traz a unifica\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e cambial, com a extin\u00e7\u00e3o do peso convert\u00edvel, o CUC. Como voc\u00ea v\u00ea essa unifica\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 que ponto cr\u00ea que poderia melhorar as condi\u00e7\u00f5es da ilha \u2013 e tamb\u00e9m em que medida o sr. acha que isso se relaciona com as manifesta\u00e7\u00f5es na ilha ou com o aumento da insatisfa\u00e7\u00e3o, com o impacto econ\u00f4mico que Cuba tem sofrido desde o aumento das san\u00e7\u00f5es pelo Trump \u2013 agora com novas san\u00e7\u00f5es de Biden \u2013 e o pr\u00f3prio efeito econ\u00f4mico da pandemia?<\/p>\n<p>Luiz Bernardo Peric\u00e1s: Desde o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o em 1959 at\u00e9 os dias de hoje, o governo cubano constantemente tentou construir um sistema que pudesse melhorar a vida da popula\u00e7\u00e3o, e que ao mesmo tempo fosse adaptado n\u00e3o s\u00f3 \u00e0s caracter\u00edsticas locais, mas \u00e0quelas de cada \u00e9poca espec\u00edfica, com todas as dificuldades inerentes ao processo e nem sempre obtendo o \u00eaxito desejado. De qualquer forma, mudan\u00e7as de rumo nos direcionamentos econ\u00f4micos, assim como tentativas de ampliar a efici\u00eancia em termos administrativos, s\u00e3o vetores que podem ser identificados desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960. \u00c9 s\u00f3 lembrar do famoso debate econ\u00f4mico, em que o ent\u00e3o ministro de Ind\u00fastrias Che Guevara se destacou (mas no qual v\u00e1rios outros dirigentes e intelectuais tamb\u00e9m participaram). E das discuss\u00f5es mais amplas sobre o Sistema Or\u00e7ament\u00e1rio de Financiamento e o C\u00e1lculo Econ\u00f4mico (a autogest\u00e3o financeira); a convers\u00e3o da maquinaria da ilha para o sistema sovi\u00e9tico; a qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica dos trabalhadores cubanos; a preocupa\u00e7\u00e3o com os setores agr\u00edcola e industrial; a quest\u00e3o do emprego e dos sindicatos; as negocia\u00e7\u00f5es com diversos pa\u00edses para ampliar os acordos comerciais com a comunidade internacional; e a funda\u00e7\u00e3o do novo Partido Comunista Cubano (a partir de um processo de cria\u00e7\u00e3o e depura\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas como as ORI e depois, o PURS).<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1970 houve um amplo processo de reorganiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds em diversos aspectos: foi promulgada uma nova Constitui\u00e7\u00e3o; institu\u00edda a Assembleia Nacional do Poder Popular; o Conselho de Ministros foi reestruturado; e ocorreram eventos importantes, como o I Congresso do PCC, o III Congresso da UJC, o V Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Pequenos Agricultores (ANAP) e o I Congresso dos Comit\u00eas de Defesa da Revolu\u00e7\u00e3o (CDR). Foi estabelecido o chamado Sistema de Dire\u00e7\u00e3o e Planifica\u00e7\u00e3o da Economia (SDPE); houve uma remodela\u00e7\u00e3o da Junta Central de Planifica\u00e7\u00e3o (JUCEPLAN); e tamb\u00e9m o ingresso de Cuba no Conselho para Assist\u00eancia Econ\u00f4mica M\u00fatua (CAME ou COMECON). Tudo isso mostra que o pa\u00eds estava recorrentemente tentando se adaptar \u00e0s necessidades do momento hist\u00f3rico em que vivia.<\/p>\n<p>Em meados dos anos 1980, por sua vez, Cuba passou por dificuldades (se comparado ao per\u00edodo imediatamente anterior), com uma recess\u00e3o que come\u00e7ou em torno de 1986. Fidel, naquele momento, impulsionou o que chamava de \u201cprocesso de retifica\u00e7\u00e3o de erros e corre\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias negativas\u201d, ou seja, um redirecionamento dos rumos da economia, se distanciando em grande medida de mecanismos de mercado. Com a queda do muro de Berlim e em seguida, com o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, veio o chamado \u201cper\u00edodo especial\u201d e Cuba teve de enfrentar novas quest\u00f5es, desta vez, mais dif\u00edceis ainda.<\/p>\n<p>Hoje o pa\u00eds precisa lidar com dilemas que dizem respeito \u00e0s especificidades da conjuntura interna e mundial da atualidade. \u00c9 mais um epis\u00f3dio da vida pol\u00edtica e econ\u00f4mica cubana, que dever\u00e1 ser superado. O que o governo em Havana tenta fazer \u00e9 equilibrar todas as diferentes vari\u00e1veis. E tem realizado isso com cuidado, da maneira mais h\u00e1bil poss\u00edvel. Afinal, de um lado se tem todas as conquistas da revolu\u00e7\u00e3o, constru\u00eddas ao longo das d\u00e9cadas \u2013 e isso custa dinheiro; h\u00e1 investimentos significativos em setores sociais que devem permanecer \u2013 e de outro, a necessidade de cria\u00e7\u00e3o de mecanismos que garantam maior efici\u00eancia global.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da conviv\u00eancia de duas moedas em Cuba e todas as suas implica\u00e7\u00f5es, por exemplo, estava sendo discutida h\u00e1 muito tempo. A inten\u00e7\u00e3o de unifica\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, portanto, n\u00e3o \u00e9 algo novo. Ou seja, esse projeto n\u00e3o foi decidido de um momento para o outro: estava na pauta de intelectuais, economistas e membros do governo por v\u00e1rios anos. Nada disso foi feito de forma improvisada e apressada. Muito pelo contr\u00e1rio. O fato \u00e9 que os dirigentes est\u00e3o tentando buscar caminhos que tornem o processo de transi\u00e7\u00e3o o menos traum\u00e1tico poss\u00edvel. Em outras palavras, a implementa\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as que possam fazer com que o pa\u00eds comece a se adaptar a um novo formato econ\u00f4mico-financeiro sem que se elimine o que j\u00e1 est\u00e1 constru\u00eddo, preservando o socialismo. H\u00e1 quem defenda a abertura total e a ado\u00e7\u00e3o plena de uma economia de mercado, com o retorno do capitalismo, juntamente com a imposi\u00e7\u00e3o de um modelo pol\u00edtico pluripartid\u00e1rio que permitisse que agremia\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter contrarrevolucion\u00e1rio (que receberiam, por certo, muitos aportes materiais dos norte-americanos) pudessem participar de elei\u00e7\u00f5es (que, por sinal, teriam de estar em conformidade com um formato ditado por organismos internacionais). Essa \u00e9 a postura de muitos dos grupos financiados por Washington. E, como se sabe, o sonho da Casa Branca \u00e9 que Cuba volte a ser um ap\u00eandice dos EUA (algo que, creio eu, os cubanos nunca permitir\u00e3o).<\/p>\n<p>\u00c9 bom ressaltar que essas mudan\u00e7as, as mais recentes, est\u00e3o sendo discutidas pelo menos desde 2011. E com intensos di\u00e1logos entre acad\u00eamicos e intelectuais sobre uma s\u00e9rie de temas: o papel dos cuentapropistas, as cooperativas, a moeda, a quest\u00e3o ambiental. Isso para n\u00e3o falar da promulga\u00e7\u00e3o de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o, a partir de um amplo debate democr\u00e1tico em toda a ilha.<\/p>\n<p>Obviamente, diferentes fatores geraram uma situa\u00e7\u00e3o que pode provocar alguma instabilidade: houve a elimina\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios de certos itens, o aumento de tarifas, a amplia\u00e7\u00e3o do mercado paralelo, a eleva\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o e o estrangulamento do pequeno e m\u00e9dio setor privado (especialmente aquele ligado ao turismo, que sofreu com a perda de empregos diretos e indiretos). E tudo isso, agregado ao fato de haver menos produtos nas prateleiras, com o embargo cada vez mais sufocando a economia e com a amplia\u00e7\u00e3o do n\u00famero de casos de cont\u00e1gio na pandemia do novo coronav\u00edrus em pontos localizados, especialmente Matanzas (uma situa\u00e7\u00e3o que, apesar de tudo, comparativamente, afeta muito menos Cuba do que a maioria das na\u00e7\u00f5es; ainda assim, o pa\u00eds est\u00e1 desenvolvendo cinco vacinas contra a doen\u00e7a, a Soberana 1, Soberana 2, Soberana Plus, Mambisa e Abdala; esta \u00faltima, com uma efic\u00e1cia de 92,28%). Mais de nove milh\u00f5es de doses j\u00e1 foram aplicadas, com 22,5% da popula\u00e7\u00e3o imunizada com as doses completas. A inten\u00e7\u00e3o das autoridades sanit\u00e1rias \u00e9 de que at\u00e9 setembro 70% dos habitantes estejam totalmente vacinados. Vale recordar que equipes m\u00e9dicas foram enviadas para as regi\u00f5es mais assoladas pelo recente surto de Covid-19, na tentativa de conter as novas variantes entre a popula\u00e7\u00e3o. Estas s\u00e3o todas quest\u00f5es que os cubanos est\u00e3o, sem d\u00favida, se esfor\u00e7ando para equilibrar. Mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>N\u00e3o custa lembrar que h\u00e1 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o geracional. Os jovens conhecidos como millennials e aqueles da chamada \u201cGera\u00e7\u00e3o Z\u201d n\u00e3o passaram por tudo aquilo que seus pais e av\u00f3s viveram e n\u00e3o t\u00eam ideia do que era Cuba antes da revolu\u00e7\u00e3o. Muitos deles s\u00e3o facilmente influenciados pelas m\u00eddias digitais que, por sinal, n\u00e3o s\u00e3o espa\u00e7os prop\u00edcios a reflex\u00f5es profundas e sofisticadas. Muito pelo contr\u00e1rio. Nas plataformas virtuais os assuntos s\u00e3o discutidos de forma superficial dentro de \u201cbolhas\u201d, nas quais grupos que pensam da mesma forma reverberam e refor\u00e7am as ideias que defendem e que s\u00e3o facilmente manipuladas pelas megacorpora\u00e7\u00f5es da web, por ONGs e mesmo por Estados estrangeiros, que querem implementar alguma agenda pol\u00edtica espec\u00edfica. Assim, esses jovens, sem a refer\u00eancia hist\u00f3rica das gera\u00e7\u00f5es mais antigas, e ao mesmo tempo, com acesso \u00e0s redes sociais (em torno de 4,4 milh\u00f5es de cubanos est\u00e3o conectados a elas pelos celulares), v\u00e3o se envolvendo cada vez mais em um ambiente prop\u00edcio a polariza\u00e7\u00f5es, ou seja, a esse tipo de comportamento que vimos recentemente.<\/p>\n<p>Mas o principal talvez \u2013 e a\u00ed acho que vale a pena sempre colocar \u00eanfase \u2013 \u00e9 que o bloqueio imp\u00f5e dificuldades enormes a Cuba, um pa\u00eds que sofreu muito com o endurecimento do embargo ao longo do governo Trump (que realmente tornou a vida da popula\u00e7\u00e3o muito mais dif\u00edcil) e que percebe agora que a situa\u00e7\u00e3o aparentemente n\u00e3o vai mudar com a troca de presidente nos Estados Unidos. Muita gente acreditava que Joe Biden fosse reverter boa parte do que tinha sido feito pelo seu antecessor, imaginando que ele possivelmente seguiria um caminho mais pr\u00f3ximo do preconizado por Obama\u2026 A pol\u00edtica externa da nova administra\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a Cuba, contudo, est\u00e1 se mostrando extremamente dura e nefasta, como aquela desenvolvida em anos recentes.<\/p>\n<p>Revista Opera: Por fim, eu queria tratar um pouco sobre Miguel D\u00edaz-Canel. Ele foi eleito presidente em 2018, e este ano tornou-se primeiro-secret\u00e1rio do Partido Comunista. H\u00e1 uma grande expectativa por parte da imprensa ocidental em rela\u00e7\u00e3o a isso, um pouco sob aquela l\u00f3gica de que \u201cdepois de Fidel\u201d Cuba cairia; veio Ra\u00fal, e houve o mesmo enlevo; \u201cdepois de Ra\u00fal Cuba cair\u00e1\u201d. Sabemos que isso \u00e9 em grande parte um auto-engano, um sonho ilus\u00f3rio dessa imprensa, que confunde sonho e realidade; mas tamb\u00e9m que h\u00e1 um certo sentido em considerar que a venera\u00e7\u00e3o que Fidel ou Ra\u00fal tinham \u00e9 dif\u00edcil de ser alcan\u00e7ada. Como voc\u00ea avalia a figura de D\u00edaz-Canel, e sua rela\u00e7\u00e3o com o povo cubano em geral?<\/p>\n<p>Fidel Castro foi o maior estadista latino-americano do s\u00e9culo XX. E uma das maiores personalidades pol\u00edticas mundiais de seu tempo. O pr\u00f3prio Ra\u00fal, que tamb\u00e9m personificava a luta revolucion\u00e1ria, era uma figura emblem\u00e1tica, que tinha uma for\u00e7a simb\u00f3lica muito evidente quando estava no poder. D\u00edaz-Canel, por sua vez, representa a nova gera\u00e7\u00e3o (ele \u00e9 bem jovem, tem 61 anos de idade), possibilitando um olhar distinto para v\u00e1rias das quest\u00f5es prementes que devem ser abordadas cotidianamente em Cuba. Ao mesmo tempo, ele tamb\u00e9m simboliza a continuidade, j\u00e1 que est\u00e1 firmemente empenhado em levar adiante os ideais da revolu\u00e7\u00e3o. Ao longo da vida, foi professor universit\u00e1rio, ocupou o cargo de primeiro-secret\u00e1rio da UJC e esteve \u00e0 frente do Comit\u00ea Provincial do PCC de Villa Clara e de Holgu\u00edn. Al\u00e9m disso, foi ministro da Educa\u00e7\u00e3o Superior e vice-presidente do Conselho de Ministros e do Conselho de Estado. \u00c9 algu\u00e9m que tinha (e ainda tem) a confian\u00e7a irrestrita de Ra\u00fal Castro, do partido e da maior parte da popula\u00e7\u00e3o cubana. Ou seja, estamos falando de um homem muito preparado intelectualmente e comprometido com a revolu\u00e7\u00e3o, com as institui\u00e7\u00f5es e com a continuidade do sistema socialista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/321\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[48],"tags":[228],"class_list":["post-321","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c58-cuba","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5b","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/321","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=321"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/321\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}