{"id":32115,"date":"2024-09-24T21:19:41","date_gmt":"2024-09-25T00:19:41","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32115"},"modified":"2024-09-24T21:19:41","modified_gmt":"2024-09-25T00:19:41","slug":"a-oligarquia-financeira-comanda-a-politica-economica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32115","title":{"rendered":"A oligarquia financeira comanda a pol\u00edtica econ\u00f4mica brasileira"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32116\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32115\/330383934_3533137763674121_4213878488670659160_n\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/330383934_3533137763674121_4213878488670659160_n.jpg?fit=2048%2C1559&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"2048,1559\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"330383934_3533137763674121_4213878488670659160_n\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/330383934_3533137763674121_4213878488670659160_n.jpg?fit=747%2C569&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-32116\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/330383934_3533137763674121_4213878488670659160_n.jpg?resize=747%2C569&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"569\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/330383934_3533137763674121_4213878488670659160_n.jpg?resize=900%2C685&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/330383934_3533137763674121_4213878488670659160_n.jpg?resize=300%2C228&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/330383934_3533137763674121_4213878488670659160_n.jpg?resize=768%2C585&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/330383934_3533137763674121_4213878488670659160_n.jpg?resize=1536%2C1169&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/330383934_3533137763674121_4213878488670659160_n.jpg?w=2048&amp;ssl=1 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Charge: Mauro Iasi<\/p>\n<p>Edmilson Costa*<\/p>\n<p>Em qualquer pa\u00eds do mundo o crescimento da economia, o aumento do emprego e da renda e as baixas taxas de infla\u00e7\u00e3o seriam considerados dados muitos positivos, mas no Brasil, onde a oligarquia financeira domina a pol\u00edtica econ\u00f4mica, essas vari\u00e1veis s\u00e3o motivo de grande preocupa\u00e7\u00e3o, ou melhor, s\u00e3o encaradas como indicadores negativos. Como assinalamos em artigo anterior, todo o carnaval que a m\u00eddia corporativa e os \u201cespecialistas\u201d vinham fazendo em torno da necessidade de um aumento dos juros se tornou realidade: o Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) do Banco Central resolveu, por unanimidade, aumentar a taxa b\u00e1sica de juros, a Selic, para 10,75%, a segunda maior taxa de juros do mundo.<\/p>\n<p>O comunicado do Copom ainda insinua um novo ciclo de aumento dos juros, justificando que o ambiente externo est\u00e1 desafiador e que os indicadores da atividade econ\u00f4mica e do mercado de trabalho apresentaram performance maior que a esperada. O Copom ressalta ainda que o cen\u00e1rio est\u00e1 marcado por resili\u00eancia da atividade econ\u00f4mica, hiato do produto positivo e eleva\u00e7\u00e3o das proje\u00e7\u00f5es da infla\u00e7\u00e3o, o que demandaria uma pol\u00edtica monet\u00e1ria mais restritiva. Finalmente, o Copom adianta que o ritmo dos ajustes nas taxas de juros no futuro ser\u00e1 definido pelo firme compromisso de converg\u00eancia da infla\u00e7\u00e3o \u00e0 meta. Em outras palavras, os abutres financeiros n\u00e3o est\u00e3o contentes apenas com esse aumento e j\u00e1 preparam novos e maiores eleva\u00e7\u00f5es dos juros no futuro.<\/p>\n<p>Somente um ambiente contaminado ideologicamente pelo neoliberalismo e um governo conivente podem justificar uma pol\u00edtica desastrosa como esta. At\u00e9 mesmo fra\u00e7\u00f5es da burguesia resolveram mostrar descontentamento com a eleva\u00e7\u00e3o dos juros. A CNI disse que, enquanto as economias desenvolvidas come\u00e7am a reduzir os juros, a medida tomada pelo Copom vai impor restri\u00e7\u00f5es \u00e0 atividade econ\u00f4mica, com reflexos negativos no emprego e na renda. A Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Rio de Janeiro ressalta que o elevado patamar dos juros compromete setores estrat\u00e9gicos, em especial a ind\u00fastria, e mina as possibilidades de investimento no m\u00e9dio e longo prazos. At\u00e9 mesmo a Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Supermercados afirmou que os juros altos agravam os desafios do crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode esquecer que a ret\u00f3rica do governo contra as taxas de juros n\u00e3o passa de jogo de cena, uma vez que \u00e9 o Conselho Monet\u00e1rio Nacional quem define a pol\u00edtica geral de juros no pa\u00eds e, nessa institui\u00e7\u00e3o, composta pelo Minist\u00e9rio da Fazenda, Minist\u00e9rio do Planejamento e Banco Central, o governo tem maioria e poderia, se quisesse, definir outra estrat\u00e9gia para as metas de infla\u00e7\u00e3o e emprego. Afinal, as pr\u00f3prias normas do Banco Central definem claramente que o objetivo do Bacen \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 zelar pela estabilidade econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m fomentar o n\u00edvel de emprego e da atividade econ\u00f4mica. Mas o governo finge que tudo \u00e9 de responsabilidade do Banco Central. Ali\u00e1s, a decis\u00e3o do Copom foi tomada por unanimidade, ressaltando-se que Gabriel Gal\u00edpolo, o pr\u00f3ximo presidente do Bacen a ser nomeado por Lula, tamb\u00e9m votou a favor do aumento dos juros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nada justifica a austeridade econ\u00f4mica<\/p>\n<p>Mesmo com um cen\u00e1rio de crescimento econ\u00f4mico e defla\u00e7\u00e3o do \u00faltimo m\u00eas, o Banco Central, ao adotar uma pol\u00edtica monet\u00e1ria extremamente r\u00edgida, est\u00e1 na verdade sufocando o investimento produtivo e conspirando contra o dinamismo econ\u00f4mico do pa\u00eds. Ao manter a ortodoxia econ\u00f4mica, o Banco Central est\u00e1 favorecendo os setores especulativos em detrimento da economia real. Em outras palavras, a pol\u00edtica do Banco Central beneficia especialmente os rentistas, que lucram com as altas taxas de juros, enquanto os trabalhadores e as trabalhadoras, os pequenos neg\u00f3cios, que dependem do cr\u00e9dito, sofrem com o encarecimento dos empr\u00e9stimos e o acesso restrito ao financiamento.<\/p>\n<p>Ao priorizar a pol\u00edtica de metas de infla\u00e7\u00e3o como \u00fanico term\u00f4metro da estabilidade econ\u00f4mica, o Bacen negligencia a possibilidade de uma pol\u00edtica monet\u00e1ria mais flex\u00edvel para estimular a atividade econ\u00f4mica, exatamente nesse momento de retomada do crescimento econ\u00f4mico e do emprego. O foco excessivo no combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o e a resist\u00eancia em promover um corte significativo na taxa de juros evidencia uma desconex\u00e3o com a realidade econ\u00f4mica e social do pa\u00eds. Esses tecnocratas, com sua obsess\u00e3o pela estabilidade a qualquer pre\u00e7o, ignoram que um processo de crescimento, ancorado por um aumento do emprego e da renda, pode ser um fator mais eficaz no combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do que essa pol\u00edtica monet\u00e1ria restritiva que limita a capacidade de expans\u00e3o da economia.<\/p>\n<p>Essa conversa fiada de que um crescimento robusto da economia e um aumento do emprego levariam a um processo inflacion\u00e1rio n\u00e3o tem base na realidade brasileira e muito menos na conjuntura internacional. O Brasil cresceu a taxas m\u00e9dias anuais de cerca de 7%, de 1947 a 1980, performance que colocou o Brasil entre as 10 maiores economias do mundo, mesmo levando em conta a perversa distribui\u00e7\u00e3o de renda do pa\u00eds no per\u00edodo. A China tamb\u00e9m cresceu, mais recentemente, a taxas superiores a 10% durante 40 anos e se transformou na segunda maior economia do mundo. E a \u00cdndia vem crescendo a taxas superiores a 7% ao ano e est\u00e1 em vias de se transformar na terceira economia mundial.<\/p>\n<p>Portanto, o argumento de que o crescimento da economia e do emprego levam a um processo inflacion\u00e1rio \u00e9 apenas um dogma que n\u00e3o tem base na realidade e que s\u00f3 se sustenta em fun\u00e7\u00e3o da intensa propaganda ideol\u00f3gica neoliberal divulgada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o corporativos, cuja difus\u00e3o di\u00e1ria inverte a pr\u00f3pria realidade para favorecer os setores mais parasit\u00e1rios da economia. Em outros termos, o Brasil est\u00e1 proibido de crescer porque a oligarquia financeira sequestrou a pol\u00edtica econ\u00f4mica governamental e colocou a economia para servir prioritariamente aos interesses dos detentores dos t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica. Para se ter uma ideia clara do que isso significa, basta dizer que esse aumento de 0,25% nos juros vai representar um pagamento adicional de juros da ordem de R$ 17 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>As fantasias ortodoxas n\u00e3o se sustentam<\/p>\n<p>Para justificar o conjunto de pol\u00edticas neocl\u00e1ssicas, ou neoliberais, como s\u00e3o popularmente conhecidas, os tecnocratas dessa escola de pensamento criaram um conjunto de \u201cmarcas fantasia\u201d que, ao longo dos \u00faltimos 40 anos, em fun\u00e7\u00e3o da grande difus\u00e3o na m\u00eddia corporativa, foram sendo naturalizadas como verdades absolutas. Essas teorias neoliberais j\u00e1 foram desmoralizadas desde 2008, com a crise mundial do capitalismo, mas at\u00e9 agora continuam sendo implementadas na maioria dos pa\u00edses, especialmente na periferia capitalista. Como as fra\u00e7\u00f5es mais parasit\u00e1rias do grande capital n\u00e3o conseguiram elaborar nenhuma outra teoria para p\u00f4r no lugar do neoliberalismo, nem conseguiram resolver a crise do capital, continuam insistindo nessa pol\u00edtica desastrosa para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Como fui professor de macroeconomia durante v\u00e1rios anos, consegui absorver um expressivo conhecimento acerca dos meandros da teoria neocl\u00e1ssica. Vejamos criticamente seus principais pontos.<\/p>\n<p>Antes da emerg\u00eancia das pol\u00edticas neoliberais, os bancos centrais tinham como norte a pol\u00edtica de crescimento econ\u00f4mico e o aumento do emprego, com o Estado exercendo um papel determinante na economia mediante o gasto p\u00fablico. No entanto, a partir da ascens\u00e3o de Reagan e Thatcher, realizou-se uma mudan\u00e7a radical nessa pol\u00edtica em praticamente todos os pa\u00edses ligados \u00e0 economia l\u00edder, onde a \u00eanfase passou a ser a retirada do Estado da economia, o mercado como regulador autom\u00e1tico das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, flexibiliza\u00e7\u00e3o dos mercados, o controle da infla\u00e7\u00e3o e a austeridade econ\u00f4mica. A esse conjunto de princ\u00edpios denominou-se Novo Consenso Macroecon\u00f4mico, a partir do qual a oligarquia financeira passou a dominar a pol\u00edtica econ\u00f4mica dos principais pa\u00edses capitalistas.<\/p>\n<p>Entre as marcas fantasia dessa nova conjuntura est\u00e1 o regime de metas de infla\u00e7\u00e3o, conceito a partir do qual a pol\u00edtica monet\u00e1ria se tornou uma ferramenta especial para controlar a infla\u00e7\u00e3o, tendo os bancos centrais como atores fundamentais nessa tarefa. O objetivo \u00e9 manter a estabilidade dos pre\u00e7os, com as taxas de juros sendo ajustadas para alcan\u00e7ar a meta inflacion\u00e1ria. Os tecnocratas argumentam que, para atingir a meta, \u00e9 fundamental um Banco Central independente do governo, de forma a que as autoridades monet\u00e1rias possam ter a liberdade de controlar a infla\u00e7\u00e3o e assegurar a estabilidade econ\u00f4mica sem press\u00f5es pol\u00edticas. Na verdade, o banco central independente n\u00e3o \u00e9 nada mais nada menos que um artif\u00edcio para que a pol\u00edtica econ\u00f4mica seja capturada pelos interesses do mercado financeiro, sem a interfer\u00eancia daqueles que foram eleitos para dirigir o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Outro dos eixos fundamentais dessa pol\u00edtica \u00e9 a disciplina fiscal, pela qual se advoga um rigoroso controle do gasto p\u00fablico para evitar os chamados desequil\u00edbrios fiscais. Para tanto, os neoliberais inventaram outra marca-fantasia chamada de super\u00e1vit prim\u00e1rio, que \u00e9 um conceito no qual as receitas do governo devem estar positivas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s despesas, excluindo-se dessa conta os gastos com os juros da d\u00edvida p\u00fablica. Quanto maior for o super\u00e1vit, mais os governos ter\u00e3o recursos para honrar o servi\u00e7o dessa d\u00edvida. A isso os tecnocratas denominam de responsabilidade fiscal, ou seja, os governos que mant\u00eam um super\u00e1vit consistente s\u00e3o vistos pela oligarquia financeira como comprometidos com a estabilidade econ\u00f4mica e as finan\u00e7as p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Para alcan\u00e7ar um super\u00e1vit prim\u00e1rio, os governos precisam aumentar a arrecada\u00e7\u00e3o e reduzir os gastos p\u00fablicos, geralmente nas \u00e1reas sociais como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e investimentos p\u00fablicos. Quando os governos redirecionam recursos p\u00fablicos para os credores da d\u00edvida, est\u00e3o na pr\u00e1tica desestimulando o investimento produtivo e o crescimento econ\u00f4mico, que poderiam gerar empregos e renda, e favorecendo o rentismo. Essas pol\u00edticas subordinam o Estado aos interesses do mercado financeiro, reduzindo assim o espa\u00e7o para pol\u00edticas fiscais mais expansivas, especialmente nos momentos de crise e recess\u00e3o, quando o Estado deveria aumentar o gasto p\u00fablico para estimular a economia.<\/p>\n<p>Entre as pol\u00edticas do chamado novo consenso macroecon\u00f4mico est\u00e1 ainda a flexibiliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, que significa desregulamentar as leis trabalhistas para precarizar as rela\u00e7\u00f5es capital-trabalho, ou seja, a desregulamenta\u00e7\u00e3o abre espa\u00e7o para que o setor privado tenha maior liberdade para contratar e demitir, rebaixar os sal\u00e1rios e informalizar a m\u00e3o-de-obra, cujo resultado \u00e9 um aumento das taxas de lucro dos empres\u00e1rios. A esse processo se junta ainda uma ofensiva contra o movimento sindical, mediante a contrarreforma trabalhista e sindical, a coopta\u00e7\u00e3o dos dirigentes, al\u00e9m de uma campanha de desmoraliza\u00e7\u00e3o dessas entidades junto aos trabalhadores e \u00e0s trabalhadoras, de forma a que seja reduzida a filia\u00e7\u00e3o e o peso dos sindicatos nas negocia\u00e7\u00f5es salariais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o chamado consenso defende ainda a abertura do com\u00e9rcio internacional a partir do qual os fluxos comerciais poder\u00e3o circular livremente, sem as travas regulamentares dos Estados Nacionais. Justifica-se essa medida argumentando-se que a liberaliza\u00e7\u00e3o comercial promove o desenvolvimento econ\u00f4mico e aumenta a efici\u00eancia das economias atrav\u00e9s da competi\u00e7\u00e3o e do acesso aos mercados mais amplos, gerando ganhos para os consumidores. Na pr\u00e1tica, o que se pode observar com essa abertura \u00e9 o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio internacional pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es mundiais, um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses perif\u00e9ricos, em fun\u00e7\u00e3o da quebra das empresas nacionais que n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de concorrer com as grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais.<\/p>\n<p>Quando essas marcas-fantasia est\u00e3o desgastadas, eles inventam outras que beiram ao misticismo para continuar justificando as pol\u00edticas de austeridade, como o chamado hiato do produto, que foi uma das justificativas do Banco Central para aumentar a taxa de juro para 10,75%. Para os tecnocratas, o produto potencial de um pa\u00eds \u00e9 definido como o n\u00edvel m\u00e1ximo de produ\u00e7\u00e3o que uma economia pode atingir sem gerar press\u00f5es inflacion\u00e1rias, e o hiato do produto \u00e9 determinado pela diferen\u00e7a entre o PIB efetivo e o produto potencial da economia. Quando o PIB est\u00e1 abaixo do potencial, ocorre um hiato negativo, o que significa que a economia est\u00e1 operando abaixo de sua capacidade. Quando o PIB efetivo excede o potencial, haveria um hiato positivo, uma vez que o n\u00edvel da demanda agregada est\u00e1 pressionando as cadeias produtivas, o que acarretaria press\u00f5es inflacion\u00e1rias na economia.<\/p>\n<p>Essa mistifica\u00e7\u00e3o neoliberal est\u00e1 cheia de fal\u00e1cias e subjetividade como \u00e9 pr\u00f3prio da economia neocl\u00e1ssica, porque nem mesmo esses tecnocratas t\u00eam acordo entre si sobre a mensura\u00e7\u00e3o do hiato do produto. O c\u00e1lculo que eles fazem do produto potencial envolve um conjunto de suposi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas sobre a capacidade produtiva da economia, que muitas vezes leva a estimativas divergentes. Por exemplo, em momentos de transforma\u00e7\u00e3o estrutural da economia, como a introdu\u00e7\u00e3o das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o ou mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a capacidade produtiva muda de forma significativa, tornando as estimativas tradicionais desatualizadas. Al\u00e9m disso, muitas vezes as press\u00f5es inflacion\u00e1rias s\u00e3o oriundas de fatores ex\u00f3genos, como aumento de pre\u00e7os das commodities e crises de ofertas e n\u00e3o necessariamente com a economia operando acima da capacidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, definir a pol\u00edtica monet\u00e1ria por esse conceito pode levar a pol\u00edticas pr\u00f3-c\u00edclicas, que terminam inviabilizando o dinamismo da economia. Por exemplo, em momentos de crise, quando haveria um hiato negativo, o temor de press\u00f5es inflacion\u00e1rias limita a pol\u00edtica expansiva do Banco Central, mesmo que o impacto inflacion\u00e1rio seja improv\u00e1vel nesta conjuntura. Em contrapartida, em momentos de crescimento econ\u00f4mico mais acelerado, com hiato positivo, o Banco<br \/>\nCentral, tamb\u00e9m por temor da infla\u00e7\u00e3o, termina por adotar pol\u00edticas contracionistas sufocando o potencial de crescimento. Nos dois casos o resultado seria um constrangimento do processo de crescimento da economia, com consequ\u00eancias negativas no aumento da demanda agregada, do emprego e da renda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma confraria de rentistas e autoridades monet\u00e1rias<\/p>\n<p>Todas essas invencionices te\u00f3ricas servem apenas para favorecer o grande capital, especialmente as fra\u00e7\u00f5es mais parasit\u00e1rias da burguesia porque na pr\u00e1tica h\u00e1 um conluio perverso entre as autoridades monet\u00e1rias e o capital financeiro conforme se pode observar em nosso pa\u00eds. O malabarismo te\u00f3rico \u00e9 apenas uma cortina de fuma\u00e7a para justificar as pol\u00edticas antipopulares e enganar a popula\u00e7\u00e3o sobre os problemas econ\u00f4micos. Isso \u00e9 t\u00e3o verdade que h\u00e1 uma porta girat\u00f3ria entre a grande maioria dos integrantes da diretoria do Bacen e o mercado financeiro: quando estes terminam a gest\u00e3o no Banco Central s\u00e3o logo contratados pelas institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias e gestoras financeiras, al\u00e9m de grandes empresas, agentes aos quais serviram indiretamente enquanto estavam na dire\u00e7\u00e3o da principal institui\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria brasileira. Trata-se de uma parceria vergonhosa, mas encarada com naturalidade pelo chamado mercado.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas n\u00e3o tem conhecimento, mas \u00e9 importante avaliarmos como se formam as decis\u00f5es no Banco Central. As reuni\u00f5es do Copom s\u00e3o realizadas a cada 45 dias, ao final das quais se anuncia o novo patamar da taxa b\u00e1sica de juros, a Selic. Entre uma decis\u00e3o e outra, o Bacen realiza uma pesquisa semanal junto aos integrantes do mercado financeiro, que \u00e9 publicada no boletim Focus. Essa pesquisa afere a opini\u00e3o de executivos desse mercado, consultorias financeiras, gestoras de neg\u00f3cios sobre v\u00e1rios temas da economia, como infla\u00e7\u00e3o e suas expectativas, cen\u00e1rio macroecon\u00f4mico internacional e dom\u00e9stico, a quest\u00e3o fiscal, balan\u00e7a comercial, al\u00e9m de perguntar a esses agentes econ\u00f4micos o que pensam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 taxa de juros futura. A partir dessas opini\u00f5es, que a imprensa denomina como o mercado, al\u00e9m de modelos econom\u00e9tricos pouco aderentes \u00e0 realidade realizados pelos t\u00e9cnicos do Bacen, s\u00e3o tomadas as decis\u00f5es do Banco Central. Na pr\u00e1tica, as opini\u00f5es do mercado funcionam como uma profecia autorrealiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>Trata-se da lenda da raposa tomando conta do galinheiro, pois os tecnocratas do Banco Central ouvem apenas aqueles que est\u00e3o interessados na consolida\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica neoliberal e na continuidade dos privil\u00e9gios do rentismo. Para se ter uma avalia\u00e7\u00e3o mais real sobre as perspectivas da economia seria necess\u00e1rio o Banco Central ouvir tamb\u00e9m os setores produtivos da economia, os representantes do trabalho ou especialistas das universidades que n\u00e3o rezam pela cartilha neoliberal. Por que s\u00f3 ouvir um lado da quest\u00e3o? Eles n\u00e3o ouvem opini\u00e3o diferente exatamente porque temem que essas opini\u00f5es possam divergir do status quo neoliberal, chegar a um p\u00fablico maior e colocar em xeque os dogmas neocl\u00e1ssicos. Ou seja, essa \u00e9 uma pesquisa que j\u00e1 nasce distorcida porque ouve apenas aqueles interessados na manuten\u00e7\u00e3o do receitu\u00e1rio neoliberal e, dessa forma, consolida as pol\u00edticas desastrosas para a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que as pol\u00edticas de austeridade s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pelo longo ciclo de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil, onde o investimento, o crescimento econ\u00f4mico, o aumento do emprego e da renda apresentam uma performance med\u00edocre, muito diferente do per\u00edodo em que a economia cresceu a taxas elevadas. Essa longa estagna\u00e7\u00e3o ocorre porque as taxas de juro t\u00eam implica\u00e7\u00f5es profundas para a economia, com efeitos colaterais perversos para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Uma das implica\u00e7\u00f5es mais imediatas de uma taxa de juros elevada \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o no investimento privado. Numa conjuntura de juros altos, os empres\u00e1rios preferem aplicar seus recursos no mercado financeiro do que na produ\u00e7\u00e3o, especialmente no Brasil, onde essas aplica\u00e7\u00f5es n\u00e3o correm nenhum risco. As taxas de juros elevadas aumentam tamb\u00e9m o custo do cr\u00e9dito, tanto para as empresas quanto para os consumidores, o que termina desestimulando a din\u00e2mica econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Como o investimento produtivo \u00e9 a vari\u00e1vel que determina o curso da economia, uma queda no investimento privado e tamb\u00e9m no gasto p\u00fablico (uma vez que o Estado est\u00e1 pressionado pela pol\u00edtica de austeridade fiscal) leva inevitavelmente a economia para um ciclo vicioso de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, redu\u00e7\u00e3o do emprego e da renda, aumento da pobreza e da mis\u00e9ria entre a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o, tendo em vista que a distribui\u00e7\u00e3o de renda no Brasil sempre foi, historicamente, perversamente desigual. Num ambiente de crescimento econ\u00f4mico, pelo menos uma parcela expressiva da for\u00e7a de trabalho seria incorporada ao mercado mediante o pagamento dos sal\u00e1rios, mas numa conjuntura de contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica os problemas sociais sempre se agravam.<\/p>\n<p>Na verdade, quanto maior o diferencial entre as taxas de juros e o n\u00edvel dos pre\u00e7os (a taxa de juro real), maiores s\u00e3o os recursos que est\u00e3o sendo transferidos para os rentistas, em fun\u00e7\u00e3o da remunera\u00e7\u00e3o de seus ativos financeiros. Como a d\u00edvida interna l\u00edquida, calculada por baixo, est\u00e1 por volta de R$ 7 trilh\u00f5es, apenas um aumento de 1% nas taxas de juros representaria um acr\u00e9scimo pr\u00f3ximo a 70 bilh\u00f5es no pagamento de juros. Como a infla\u00e7\u00e3o projetada \u00e9 de 4,25% e os juros atuais est\u00e3o em 10,75%, h\u00e1 uma taxa de juro real de 6,50%, o que significa uma transfer\u00eancia extraordin\u00e1ria de recursos do fundo p\u00fablico para os agentes financeiros, uma vez que cerca de 70% dessa d\u00edvida est\u00e1 nas m\u00e3os desse segmento econ\u00f4mico. Como o governo n\u00e3o possui recursos suficientes para pagar todo o servi\u00e7o da d\u00edvida (juros e amortiza\u00e7\u00f5es), a tend\u00eancia \u00e9 o cont\u00ednuo aumento da d\u00edvida e a sangria dos cofres p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Ao desestimular o investimento, o emprego e a renda e favorecer a especula\u00e7\u00e3o financeira, o Banco Central est\u00e1 conspirando contra o pa\u00eds porque est\u00e1 prolongando o ciclo de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e dificultando a recupera\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica, simplesmente para favorecer os rentistas. Por isso que a oligarquia financeira reivindica a todo custo a necessidade de um Banco Central independente, pois assim torna-se mais f\u00e1cil sua captura pelos agentes do mercado. O Brasil tem todas as condi\u00e7\u00f5es para crescer a taxas muito mais elevadas que as atuais se n\u00e3o fossem as travas colocadas pelo pr\u00f3prio governo, como o arcabou\u00e7o fiscal. A capacidade ociosa da ind\u00fastria est\u00e1 por volta de 24%, e o governo tem plenas condi\u00e7\u00f5es de ampliar o gasto p\u00fablico. Mas, como optou pela austeridade fiscal, a economia n\u00e3o poder\u00e1 apresentar todo o potencial existente. Somente uma nova pol\u00edtica econ\u00f4mica que rompa com os postulados neoliberais poder\u00e1 deter o processo de estagna\u00e7\u00e3o e construir um novo rumo para o Brasil, no caminho da supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e da constru\u00e7\u00e3o do socialismo, para de fato atender \u00e0s necessidades e aos interesses da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>*Edmilson Costa \u00e9 doutor em economia pela Unicamp e secret\u00e1rio-geral do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32115\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[65,10,383],"tags":[219],"class_list":["post-32115","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional","category-s19-opiniao","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8lZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32115"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32117,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32115\/revisions\/32117"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}