{"id":32163,"date":"2024-10-19T12:09:44","date_gmt":"2024-10-19T15:09:44","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32163"},"modified":"2024-10-23T19:58:24","modified_gmt":"2024-10-23T22:58:24","slug":"a-esquerda-tem-o-que-dizer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32163","title":{"rendered":"A esquerda tem o que dizer"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32164\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32163\/cry-6706856_1280\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cry-6706856_1280.jpg?fit=1280%2C853&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1280,853\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cry-6706856_1280\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cry-6706856_1280.jpg?fit=747%2C498&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-32164\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cry-6706856_1280.jpg?resize=747%2C498&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"498\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cry-6706856_1280.jpg?resize=900%2C600&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cry-6706856_1280.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cry-6706856_1280.jpg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cry-6706856_1280.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Imagem: Gerd Altmann (Pixabay).<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>\u201cTemos que reconhecer a intelig\u00eancia da rea\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque conseguiu fazer (das) posi\u00e7\u00f5es defensivas m\u00ednimas<br \/>\no objetivo fundamental de seu inimigo de classe.\u201d<br \/>\nChe Guevara<\/p>\n<p>Diante da afirma\u00e7\u00e3o taxativa que tem se apresentado no debate pol\u00edtico ap\u00f3s o primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es municipais, segundo a qual \u201ca esquerda nada tem a dizer para a periferia e os mais pobres\u201d, venho aqui, modestamente, alinhavar algumas coisas que acredito que consistem naquilo que temos a dizer aos trabalhadores (e que a esquerda tem dito j\u00e1 h\u00e1 bastante tempo).<\/p>\n<p>1. Caros pobres, a pobreza n\u00e3o \u00e9 uma sina, azar ou maldi\u00e7\u00e3o, tampouco resulta da falta de esfor\u00e7o ou m\u00e9rito, mas o resultado inevit\u00e1vel de uma forma particular de organizar a produ\u00e7\u00e3o social da vida: o capitalismo, modo de produ\u00e7\u00e3o que, quanto mais produz riqueza, gera inevitavelmente mais pobreza e mis\u00e9ria no polo oposto da sociedade.<\/p>\n<p>2. O fato de a maioria dos pobres e da classe trabalhadora em geral n\u00e3o ter a menor ideia do que \u00e9 o capitalismo n\u00e3o impede que este modo de produ\u00e7\u00e3o determine suas vidas, inclusive, n\u00e3o saber como funciona nossa sociedade \u00e9 um elemento importante para manter esta ordem injusta e desumana.<\/p>\n<p>3. A exist\u00eancia de periferias nas grandes cidades n\u00e3o se d\u00e1 por falta de planejamento ou gest\u00f5es qualificadas, mas \u00e9 o resultado direto da forma de cidade adequada ao capitalismo, isto \u00e9, uma cidade que se fundamenta em um sistema que concentra poder, riqueza e propriedades, concentra tamb\u00e9m espa\u00e7os e territ\u00f3rios adequados a cada fun\u00e7\u00e3o industrial, comercial, financeira, moradia e outras. Cada uma das fun\u00e7\u00f5es do capital precisa de seus trabalhadores (produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o, consumo, reprodu\u00e7\u00e3o, etc.), e estes trabalhadores t\u00eam que ser expropriados de todos os meios que permitiram a eles garantir sua exist\u00eancia, tendo que se vender no mercado de trabalho. Para garantir os sal\u00e1rios baixos, o capital expropria mais do que aqueles que vai usar diretamente, formando uma superpopula\u00e7\u00e3o relativa. Uma vez organizada a expropria\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o necess\u00e1rio para o capital, este excedente de popula\u00e7\u00e3o \u00e9 empurrado ao redor das cidades, geralmente, sem estrutura de moradia, saneamento, servi\u00e7os p\u00fablicos, transporte etc., formando as periferias.<\/p>\n<p>4. Para o capital tudo tem que ser mercadoria, para que sua produ\u00e7\u00e3o e venda gerem lucro para os capitalistas. Desta maneira, tudo que satisfaz uma necessidade humana pode ser vendido na forma de mercadoria para gerar lucro, n\u00e3o apenas os objetos, alimentos, roupas, mas tamb\u00e9m servi\u00e7os como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, transporte, tratamento de \u00e1gua, energia el\u00e9trica e tudo mais. N\u00f3s, pobres, temos que trabalhar para ganhar dinheiro e comprar as mercadorias necess\u00e1rias para garantir nossa vida e de nossas fam\u00edlias. Os ricos que vendem as mercadorias ganham muito dinheiro, garantem uma qualidade de vida muitas vezes melhor e acumulam seus lucros formando fortunas.<\/p>\n<p>5. Como tudo foi transformado em mercadoria, a cidade tamb\u00e9m \u00e9 mercantilizada. Os servi\u00e7os \u2013 o transporte, a sa\u00fade, o tratamento de \u00e1gua, a distribui\u00e7\u00e3o de energia \u2013 s\u00e3o prestados por empresas, e o pr\u00f3prio espa\u00e7o urbano vira objeto de mercantiliza\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo aquele espa\u00e7o para onde fomos expulsos, em algum momento, pode ser visto como possibilidade de lucro para o crescimento da cidade, expulsando-nos novamente.<\/p>\n<p>6. Bairros nobres, bairros de classe m\u00e9dia, bairros pobres, periferias e favelas dividem o espa\u00e7o urbano entre as classes que comp\u00f5em esta sociedade. A cidade \u00e9 o desenho urbano da divis\u00e3o social do trabalho. O que precisamos saber \u00e9 que esta sociedade \u00e9 uma sociedade de classes.<\/p>\n<p>7. As classes n\u00e3o se dividem apenas pela riqueza e a propriedade, mas tamb\u00e9m entram em luta pelo fundo p\u00fablico, isto \u00e9, a parte da riqueza taxada por impostos. As classes dominantes, propriet\u00e1rias das empresas que mercantilizam nossas vidas, gra\u00e7as ao seu grande poder econ\u00f4mico, influenciam as elei\u00e7\u00f5es, formam bancadas legislativas e elegem governantes que ir\u00e3o garantir que o fundo p\u00fablico seja utilizado prioritariamente para satisfazer seus interesses. Os trabalhadores e pobres, divididos e desorganizados, acabam ficando com a menor parte do fundo p\u00fablico, com medidas, na maioria, paliativas e que n\u00e3o d\u00e3o conta de nossas necessidades.<\/p>\n<p>8. Para que isto funcione, a massa de trabalhadores e pobres n\u00e3o pode se organizar e votar de acordo com seus interesses de classe; por isso, existem poderosas m\u00e1quinas eleitorais, controle de regi\u00f5es e formas de manipula\u00e7\u00e3o que garantem que a maioria da popula\u00e7\u00e3o vote em uma minoria de privilegiados. \u00c9 mais f\u00e1cil comprar um pastor do que convencer cada ovelha.<\/p>\n<p>9. A pol\u00edtica \u00e9, fundamentalmente, uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. A classe dominante \u00e9 poderosa economicamente, controla meios de comunica\u00e7\u00e3o, espa\u00e7os pol\u00edticos e meios repressivos. A maior for\u00e7a dos trabalhadores vem de seu n\u00famero e de sua posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, j\u00e1 que somos n\u00f3s que de fato fazemos tudo funcionar. Nossa fraqueza \u00e9 a divis\u00e3o e a aceita\u00e7\u00e3o de ideias e valores de nossos inimigos como se fossem nossos. No fundo, n\u00e3o queremos lutar contra eles, mas sermos iguais a eles. Mas n\u00e3o h\u00e1 vaga nas classes dominantes, eles n\u00e3o gostam da gente e n\u00e3o nos querem ao seu lado, s\u00f3 querem usar alguns para manipular a maioria, como capachos e capit\u00e3es do mato. Querem nos ver divididos, desorganizados e alienados, para votarmos como gado naqueles que nos exploram e dominam.<\/p>\n<p>10. Trabalhadores e a maioria da popula\u00e7\u00e3o, com toda a diversidade que isto implica, organizados e conscientes de como funciona esta sociedade e das classes que dela se beneficiam nos explorando e dominando, podem mudar a sociedade para que ela atenda aos interesses e necessidades da maioria, mudando as formas de produ\u00e7\u00e3o da vida, de propriedade e de distribui\u00e7\u00e3o da riqueza socialmente produzida. No entanto, para isto, \u00e9 necess\u00e1rio que compreendamos que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mudar a sociedade sem derrotar aqueles que fazem de nossas vidas miser\u00e1veis a riqueza que neles se concentra.<\/p>\n<p>11. Por isso, \u00e9 fundamental que os trabalhadores, os pobres, os que foram expulsos para as periferias, os que sofrem com o machismo, a homofobia, o racismo, o \u00f3dio aos pobres, entendam que n\u00e3o se pode conciliar com aqueles que lucram \u00e0s custas de nossa mis\u00e9ria. Entendam que os ricos far\u00e3o tudo por n\u00f3s, menos sair de nossas costas e parar de nos explorar para concentrar a riqueza social que produzimos e eles acumulam privadamente.<\/p>\n<p>12. Se esta \u00e9 a cidade do capital, da explora\u00e7\u00e3o, da mercadoria, como a forma adequada desta sociedade, ela pode ser a cidade dos que trabalham, moram, vivem, criam seus filhos e partilham igualmente a riqueza que todos n\u00f3s produzimos, priorizando a vida, o meio ambiente e a coletividade.<\/p>\n<p>13. Por fim, entender que a concilia\u00e7\u00e3o de classes faz mal para a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o, o transporte, a moradia, a seguran\u00e7a, o saneamento, a arte e a cultura, o lazer, o esporte, a sexualidade, o tratamento do lixo, o patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, as vias p\u00fablicas, faz mal para a cidade\u2026 para o Estado\u2026 para o pa\u00eds e para o futuro que podia ser nosso.<\/p>\n<p>Neste ponto, algu\u00e9m poderia argumentar que a esquerda n\u00e3o diz isto tudo. A\u00ed que alguns analistas distra\u00eddos se enganam. A esquerda nunca parou de afirmar tudo isto e defender mudan\u00e7as profundas. Quem anda esquecido destes pontos se empenhou tanto em se disfar\u00e7ar de centro e esconder seus princ\u00edpios de esquerda que agora n\u00e3o os encontra mais.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse e volto a dizer: \u201cn\u00f3s podemos fazer desta desgra\u00e7a um pa\u00eds, mas para isto temos que derrotar aqueles que ganham muito dinheiro, transformando este pa\u00eds em uma desgra\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>\u201cComo n\u00e3o considerar um embusteiro<br \/>\nAquele que ensina aos famintos<br \/>\nOutra coisa que n\u00e3o acabar com a fome?\u201d<\/p>\n<p>Bertolt Brecht<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor aposentado da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, professor convidado do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social da PUC de S\u00e3o Paulo, educador popular e militante do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32163\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10],"tags":[226],"class_list":["post-32163","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8mL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32163"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32163\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32165,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32163\/revisions\/32165"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}