{"id":32201,"date":"2024-11-01T20:09:23","date_gmt":"2024-11-01T23:09:23","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32201"},"modified":"2024-11-01T20:09:23","modified_gmt":"2024-11-01T23:09:23","slug":"outubro-de-1917-e-a-luta-contra-o-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32201","title":{"rendered":"Outubro de 1917 e a luta contra o racismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sp-ao.shortpixel.ai\/client\/to_webp,q_glossy,ret_img,w_809\/https:\/\/www.liberationschool.org\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Jones.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A REVOLU\u00c7\u00c3O DE OUTUBRO DE 1917 E A CONTRIBUI\u00c7\u00c3O DOS COMUNISTAS \u00c0S LUTAS CONTRA O RACISMO<\/p>\n<p>Muniz Ferreira, membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n<p>Marx e Engels, durante seu per\u00edodo como correspondentes europeus para o jornal norte-americano The New York Daily Tribune, adotaram uma postura clara e favor\u00e1vel \u00e0s lutas anticoloniais e antiescravistas. Seus escritos buscavam influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica nos Estados Unidos e na Inglaterra, bem como as lideran\u00e7as do movimento oper\u00e1rio, destacando a viol\u00eancia e a opress\u00e3o inerentes \u00e0 escravid\u00e3o e ao colonialismo.<\/p>\n<p>Marx e Engels criticaram a narrativa brit\u00e2nica de que suas interven\u00e7\u00f5es coloniais eram civilizadoras. Eles descreveram os colonialistas como &#8220;traficantes de civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; que, sob o pretexto de levar a civiliza\u00e7\u00e3o, na verdade, buscavam realizar interesses mesquinhos de explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o. A resist\u00eancia violenta dos colonizados era, portanto, justificada como uma rea\u00e7\u00e3o natural \u00e0 viol\u00eancia colonialista. (FERREIRA, 2002)<\/p>\n<p>Marx e Engels tamb\u00e9m adotaram uma postura firme contra a escravid\u00e3o. Durante a Guerra Civil Norte-Americana (1861-1865), eles apoiaram as for\u00e7as antiescravistas e abolicionistas. Utilizando a imprensa brit\u00e2nica, desmontaram argumentos que retratavam o conflito como uma disputa meramente tarif\u00e1ria, esclarecendo que o verdadeiro motivo era a defesa da escravid\u00e3o. Eles alertaram os trabalhadores ingleses de que uma vit\u00f3ria dos escravistas norte-americanos poderia resultar em ataques aos direitos dos trabalhadores na Europa, enquanto a emancipa\u00e7\u00e3o dos escravizados nos EUA fortaleceria a luta prolet\u00e1ria europeia.<\/p>\n<p>Marx, como membro do Conselho Geral da Primeira Internacional (1864-1876), trabalhou para apoiar a causa antiescravista nos Estados Unidos. Publicou artigos e escreveu cartas ao presidente Abraham Lincoln, parabenizando-o pela emancipa\u00e7\u00e3o dos escravizados, e ao sucessor de Lincoln, Andrew Johnson, incentivando a continua\u00e7\u00e3o da luta contra a escravid\u00e3o e suas sobreviv\u00eancias na sociedade estadunidense. (ENGELS, 2020)<\/p>\n<p>Marx tamb\u00e9m criticou o com\u00e9rcio de escravizados, especialmente o patrocinado pela Fran\u00e7a de Napole\u00e3o III, que permitia a continuidade deste tr\u00e1fico para as col\u00f4nias americanas. Ele denunciou essas pr\u00e1ticas e exortou a opini\u00e3o p\u00fablica inglesa e as autoridades a continuar patrulhando e combatendo o tr\u00e1fico negreiro. (MARX , 1858)<\/p>\n<p>Durante a maior parte de suas vidas e obras, Marx e Engels se posicionaram resolutamente contra as manifesta\u00e7\u00f5es mais agudas do racismo na \u00e9poca, a saber, a escravid\u00e3o e o colonialismo. Eles apoiaram as lutas de emancipa\u00e7\u00e3o dos povos colonizados e escravizados, reconhecendo a import\u00e2ncia dessas lutas no contexto da luta global contra as classes dominantes e o capitalismo no plano internacional.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista (Comintern, IC ou III Internacional) em 1919 marcou um ponto de inflex\u00e3o, com o epicentro do socialismo internacional se deslocando para a R\u00fassia dos sovietes. Sob a lideran\u00e7a de L\u00eanin e dos bolcheviques, a Internacional Comunista adotou uma postura clara e firme contra o colonialismo e o racismo, defendendo o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos colonizados e apoiando ativamente suas lutas de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Internacional Comunista, desde seus prim\u00f3rdios, criou uma comiss\u00e3o para estudar o problema dos povos coloniais e formular uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria para eles. Participaram dessa comiss\u00e3o figuras importantes como o indiano M. N. Roy, que tamb\u00e9m esteve envolvido com o Partido Comunista Mexicano, e o japon\u00eas Sen Katayama. Pela primeira vez, negros norte-americanos, como Harry Haywood e C. L. R. James, que era das Antilhas Inglesas, mas vivia nos Estados Unidos, tamb\u00e9m trabalharam nesses projetos de resolu\u00e7\u00e3o sobre a revolu\u00e7\u00e3o nas regi\u00f5es submetidas \u00e0 domina\u00e7\u00e3o colonial.<\/p>\n<p>As visitas e observa\u00e7\u00f5es de figuras proeminentes como W.E.B. Du Bois, Langston Hughes, Paul Robeson e George Padmore durante e ap\u00f3s a d\u00e9cada de 1920 \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica s\u00e3o testemunhos significativos da percep\u00e7\u00e3o internacional do impacto do socialismo na luta contra o racismo e a opress\u00e3o nacional. Esses relatos refletem como a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era vista como um exemplo positivo de transforma\u00e7\u00e3o social e racial, contrastando fortemente com a realidade da segrega\u00e7\u00e3o racial e da discrimina\u00e7\u00e3o em outras partes do mundo, particularmente nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>W.E.B. Du Bois, foi um destacado acad\u00eamico e ativista afro-americano que visitou a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1926 e ficou profundamente impressionado com o que viu. Ele observou a aus\u00eancia de racismo institucional e a promo\u00e7\u00e3o da igualdade racial e escreveu sobre sua experi\u00eancia de forma entusi\u00e1stica. A famosa cita\u00e7\u00e3o de Du Bois, \u201cSe o que vi com meus olhos e ouvi com meus ouvidos \u00e9 bolchevismo, sou bolchevique\u201d, sublinha o impacto positivo que a sociedade sovi\u00e9tica teve sobre ele, especialmente em compara\u00e7\u00e3o com a segrega\u00e7\u00e3o racial em vigor nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O poeta e escritor afro-americano Langston Hughes tamb\u00e9m viajou para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica nos anos 1930. Ele relatou suas observa\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios escritos. Hughes ficou particularmente impressionado com as oportunidades educacionais e profissionais dispon\u00edveis para pessoas de todas as ra\u00e7as na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, algo que contrastava fortemente com sua experi\u00eancia nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Paul Robeson, um renomado ator, cantor e ativista afro-americano, foi outro visitante frequente da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Ele elogiou o pa\u00eds por suas pol\u00edticas raciais progressistas e pela acolhida calorosa que recebeu como artista negro. Robeson viu na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica um exemplo de como uma sociedade poderia superar o racismo e promover a igualdade racial. Sua experi\u00eancia na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica refor\u00e7ou seu compromisso com o socialismo e sua luta contra o racismo nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cShana A. Russel (2024), em seu artigo: \u201cQueria ver por mim mesma a primeira terra do socialismo\u201d: mulheres negras estadunidenses e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa\u201d registra o impacto sentido pelas primeiras mulheres negras, trabalhadoras dom\u00e9sticas, quando de suas visitas \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ainda na d\u00e9cada de 1920. \u201cNas duas d\u00e9cadas ap\u00f3s 1917, dezenas de mulheres negras fizeram a peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 URSS e retornaram aos Estados Unidos com uma nova vis\u00e3o de liberdade para si pr\u00f3prias como trabalhadoras, como mulheres e como afro-americanas\u201d.<\/p>\n<p>Este texto narra experi\u00eancias transformadoras de v\u00e1rias mulheres afro-americanas que visitaram a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e como essas visitas influenciaram suas perspectivas e a\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luta contra o racismo, o sexismo e a explora\u00e7\u00e3o. Maude White foi a primeira mulher afro-americana a matricular-se na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente (KUTV), onde recebeu uma bolsa de estudos. Sua estadia de tr\u00eas anos na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica permitiu-lhe teorizar as conex\u00f5es entre movimentos de resist\u00eancia negra globalmente, percebendo a import\u00e2ncia das mulheres na vanguarda das mudan\u00e7as transformadoras.<\/p>\n<p>Louise Thompson Patterson visitou a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1932 e, ap\u00f3s testemunhar as condi\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas naquele pa\u00eds, retornou aos Estados Unidos como uma revolucion\u00e1ria comprometida. Ela acreditava que as trabalhadoras negras, especialmente as dom\u00e9sticas, estavam na linha de frente da vanguarda revolucion\u00e1ria negra. Seu ensaio &#8220;Rumo a um amanhecer mais brilhante&#8221;, publicado em 1936, destacou a explora\u00e7\u00e3o amarga das mulheres negras trabalhadoras e elogiou o plano do Congresso Nacional Negro1 para formar sindicatos de trabalhadores dom\u00e9sticos. Estes sindicatos surgiram em v\u00e1rias cidades estadunidenses, inspirando uma nova vis\u00e3o para as mulheres negras nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Claudia Jones, uma proeminente te\u00f3rica do CPUSA, realizou seu sonho de visitar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1962. Ela ficou impressionada com o compromisso sovi\u00e9tico contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial e com a igualdade de todas as pessoas. A visita de Jones refor\u00e7ou sua vis\u00e3o de que a luta contra a explora\u00e7\u00e3o dos negros, das mulheres e dos trabalhadores fazia parte de um movimento global.<\/p>\n<p>Essas visitas \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica forneceram \u00e0s mulheres afro-americanas uma nova perspectiva sobre como combater a marginaliza\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o, mostrando que um compromisso com a igualdade e contra o racismo e o sexismo era poss\u00edvel e necess\u00e1rio. A Revolu\u00e7\u00e3o liderada pelos bolcheviques e as medidas antirracistas e antissexistas adotadas nos prim\u00f3rdios da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, inspirou essas mulheres afro-americanas a se tornarem parte integrante de um movimento global para acabar com o racismo, o sexismo e o imperialismo, vislumbrando o fim de sua explora\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma nova lente. (RUSSEL, 2024).<\/p>\n<p>A Internacional Comunista e o apoio \u00e0s lutas das popula\u00e7\u00f5es negras<\/p>\n<p>Em 1919, a funda\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista, foi um passo crucial na promo\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o socialista al\u00e9m das fronteiras sovi\u00e9ticas. O Comintern tinha como objetivo fomentar as revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias nos pa\u00edses de capitalismo maduro e oferecer apoio \u00e0s lutas anticoloniais e antirracistas, com um foco especial na \u00c1frica e nas popula\u00e7\u00f5es de ascend\u00eancia africana.<\/p>\n<p>A Internacional Comunista reconheceu a import\u00e2ncia de mobilizar africanos e descendentes de africanos em todo o mundo para lutar pela sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o e autonomia. Ela foi pioneira ao abordar a &#8220;quest\u00e3o negra&#8221;, buscando estrat\u00e9gias para a emancipa\u00e7\u00e3o e a elimina\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o racial. Assim, a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e o subsequente estabelecimento da IC inspiraram e apoiaram movimentos de liberta\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias partes do mundo, fornecendo uma plataforma internacional para a luta contra o colonialismo e o racismo. A organiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se notabilizou por adotar uma postura firme contra essas opress\u00f5es e promovendo a inclus\u00e3o de comunistas de todas as nacionalidades em suas fileiras. Esse comprometimento se refletiu em sua abordagem da &#8220;Quest\u00e3o Negra&#8221;, que tratava dos desafios enfrentados pelos povos negros no contexto da explora\u00e7\u00e3o colonial e da discrimina\u00e7\u00e3o racial. (IV CONGRESSO DA INTERNACIONAL COMUNISTA, 2024).<\/p>\n<p>O Comintern, especialmente sob a lideran\u00e7a sovi\u00e9tica, pressionava os partidos comunistas de diferentes pa\u00edses a adotarem pol\u00edticas que considerava fundamentais para a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria internacional. No caso dos Estados Unidos, exigiu que os comunistas norte-americanos confrontassem seus pr\u00f3prios preconceitos raciais e se dedicassem ativamente \u00e0s quest\u00f5es e queixas da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico da \u00c1frica do Sul, o Comintern insistiu que o Partido Comunista do pa\u00eds deveria ser liderado por africanos e representar as massas populares. Esta posi\u00e7\u00e3o confrontava a vis\u00e3o de muitos l\u00edderes do partido, que eram em sua maioria brancos e n\u00e3o apoiavam totalmente a ideia de um partido predominantemente africano. O Partido Comunista da \u00c1frica do Sul (CPSA), criado em 1922, tornou-se membro da Internacional Comunista. Este movimento marcou uma fase importante nas rela\u00e7\u00f5es entre os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o na \u00c1frica e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, influenciando profundamente a luta contra o colonialismo e o apartheid.<\/p>\n<p>Albert Nzula foi uma figura central nesse interc\u00e2mbio, sendo o primeiro secret\u00e1rio negro do CPSA e o primeiro sul-africano negro a viajar para a URSS. Em Moscou, onde viveu at\u00e9 sua morte em 1934, Nzula trabalhou para a Profintern2, a organiza\u00e7\u00e3o sindical internacional dirigida pelos comunistas. Durante sua estadia, ele co-escreveu um livro sobre os trabalhadores africanos na \u00c1frica do Sul com Ivan Potekin e Alexander Zuusmanovich. Este trabalho foi crucial para destacar as condi\u00e7\u00f5es dos trabalhadores africanos e refor\u00e7ar os la\u00e7os entre o movimento comunista internacional e os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Josiah Gumede, fundador e mais tarde presidente do Congresso Nacional Africano3 (ANC), visitou a URSS em 1927, ap\u00f3s participar do congresso inaugural da Liga Contra o Imperialismo em Bruxelas. Acompanhado por JA la Guma, membro da CPSA, Gumede viajou para a Alemanha antes de seguir para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Ele participou das comemora\u00e7\u00f5es do 10\u00ba anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e do Congresso dos Amigos da URSS. Durante sua visita, Gumede foi convidado pela Sociedade de Uni\u00e3o de La\u00e7os Culturais com pa\u00edses estrangeiros e viajou por v\u00e1rias partes da URSS, incluindo a Ge\u00f3rgia sovi\u00e9tica. AF Plate, int\u00e9rprete de Gumede, relatou que Gumede mostrou grande interesse pela vida dos camponeses georgianos, comparando suas condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho com as da \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>Gumede ficou impressionado com a capacidade da Revolu\u00e7\u00e3o Sovi\u00e9tica em unir pessoas de diferentes nacionalidades em torno de ideais comuns, vendo nisso uma li\u00e7\u00e3o importante para a luta contra o racismo e o colonialismo na \u00c1frica do Sul. Esta experi\u00eancia influenciou profundamente Gumede, que, ao retornar, declarou ter visto &#8220;um mundo que est\u00e1 por vir&#8221; e comparou a URSS a uma &#8220;nova Jerusal\u00e9m&#8221;. Marcado por sua experi\u00eancia na URSS, Gumede come\u00e7ou a defender a cria\u00e7\u00e3o de uma frente unida entre comunistas e n\u00e3o comunistas. Sua vis\u00e3o de unidade e coopera\u00e7\u00e3o entre diferentes for\u00e7as na luta contra o apartheid e o colonialismo foi fundamental para sua elei\u00e7\u00e3o como presidente do ANC mais tarde naquele ano. Esta postura refletia uma compreens\u00e3o mais ampla da import\u00e2ncia da solidariedade internacional na luta por justi\u00e7a e igualdade, inspirada diretamente pelas realiza\u00e7\u00f5es que ele testemunhou na URSS.<\/p>\n<p>O impacto do III Internacional n\u00e3o se restringiu aos Estados Unidos e \u00e0 \u00c1frica do Sul. Suas pol\u00edticas antirracistas influenciaram partidos comunistas em Cuba e em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Eventualmente, os comunistas negros se destacaram ao exigir a cria\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Sindical Internacional de Trabalhadores Negros (ITUCNW), uma organiza\u00e7\u00e3o dedicada a lidar com quest\u00f5es trabalhistas e raciais espec\u00edficas dos trabalhadores africanos e diasp\u00f3ricos.<\/p>\n<p>A Cria\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Sindical Internacional dos Trabalhadores Negros (ITUCNW)<\/p>\n<p>O Quarto Congresso da Internacional Comunista (Comintern) em 1922 marcou um momento significativo na ado\u00e7\u00e3o de uma perspectiva pan-africana, liderada por dois marxistas negros dos Estados Unidos, Claude McKay e Otto Huiswoud. Eles foram fundamentais na cria\u00e7\u00e3o da &#8220;Comiss\u00e3o dos Negros&#8221; e Huiswoud, em particular, provavelmente redigiu a importante &#8220;Tese sobre a Quest\u00e3o Negra&#8221; que foi adotada pelos delegados do congresso. Essa tese destacava a centralidade do colonialismo e do racismo para a sustenta\u00e7\u00e3o do capitalismo, sublinhando a necessidade de o movimento comunista construir v\u00ednculos com as lutas negras n\u00e3o apenas nos Estados Unidos, mas tamb\u00e9m no Caribe, Am\u00e9rica do Sul e \u00c1frica.<\/p>\n<p>A estrutura pan-africana defendida por McKay e Huiswoud foi em parte uma resposta \u00e0s influ\u00eancias de figuras como W.E.B. Du Bois e Marcus Garvey. No entanto, essa estrutura tamb\u00e9m estava alinhada com a posi\u00e7\u00e3o do Comintern de que o colonialismo e o racismo eram fen\u00f4menos interligados em uma escala global e, portanto, deviam ser combatidos dessa forma. Nesse contexto, os comunistas negros dos Estados Unidos desempenharam pap\u00e9is cruciais no desenvolvimento das estrat\u00e9gias do comunismo internacional. Lovett Fort-Whiteman, por exemplo, procurou estabelecer contatos com estudantes e trabalhadores africanos durante a d\u00e9cada de 1920, com a inten\u00e7\u00e3o de organizar uma confer\u00eancia pan-africana. Embora o Comintern tenha apoiado essa iniciativa, a tal confer\u00eancia n\u00e3o se concretizou na d\u00e9cada de 1920. (ADI, 2013).<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Sindical Internacional dos Trabalhadores Negros (ITUCNW) pelo Comintern em 1928 foi uma resposta direta \u00e0s cr\u00edticas levantadas pelos comunistas negros sobre a atua\u00e7\u00e3o dos partidos nacionais em rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores negros. A forma\u00e7\u00e3o do ITUCNW destacou a import\u00e2ncia crescente da classe trabalhadora negra nos Estados Unidos e na \u00c1frica do Sul, al\u00e9m de reconhecer o impacto das greves que se espalharam pelo Caribe e pela \u00c1frica Ocidental ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da International Trade Union Committee of Negro Workers (ITUCNW) e de publica\u00e7\u00f5es como &#8220;O Trabalhador Negro&#8221; (The Negro Worker) reside no fato de que elas foram ve\u00edculos fundamentais para a dissemina\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica revolucion\u00e1ria e das ideias da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e da III Internacional em todo o mundo. No final da d\u00e9cada de 1920 e ao longo da d\u00e9cada de 1930, essas ideias influenciaram de maneira significativa regi\u00f5es como a \u00c1frica, o Caribe e a Europa. ADI (2013). A cria\u00e7\u00e3o da ITUCNW refletiu a mobiliza\u00e7\u00e3o crescente da classe trabalhadora negra, especialmente em pa\u00edses como Estados Unidos e \u00c1frica do Sul, onde a opress\u00e3o racial e colonial era intensa. Mesmo com os sindicatos sendo proibidos em v\u00e1rias col\u00f4nias africanas, trabalhadores em pa\u00edses como Senegal, Gana, G\u00e2mbia, Serra Leoa, Nig\u00e9ria e \u00c1frica do Sul protagonizaram greves importantes, especialmente na ind\u00fastria de minera\u00e7\u00e3o e ferrovi\u00e1ria.<\/p>\n<p>Embora sediada na Europa, a ITUCNW foi liderada por v\u00e1rios comunistas negros dos EUA, como James Ford, George Padmore, Otto e Hermina Huiswoud. Eles organizaram a Primeira Confer\u00eancia Internacional de Trabalhadores Negros em Hamburgo em 1930, que contou com 17 delegados de diversas regi\u00f5es, incluindo \u00c1frica Ocidental, Caribe e Estados Unidos, apesar das dificuldades log\u00edsticas e das proibi\u00e7\u00f5es de viagem impostas a muitos participantes por suas atividades pol\u00edticas. Entre os presentes, destaca-se a presen\u00e7a de S.M. DeLeon da Jamaica, Vivian Henry de Trinidad, e Hubert Critchlow da Guiana Brit\u00e2nica. Isaac Theophilus Akunna Wallace-Johnson representou Serra Leoa sob o pseud\u00f4nimo &#8220;E. Richards&#8221;, e Albert Nzula foi o delegado da \u00c1frica do Sul. Outros representantes inclu\u00edam Johnstone Kenyatta (futuro Jomo Kenyatta) e sindicalistas da G\u00e2mbia e da Costa do Ouro\/Gana.<\/p>\n<p>A confer\u00eancia em Hamburgo adotou resolu\u00e7\u00f5es firmes contra o &#8220;reformismo negro&#8221;, criticando duramente a Internacional Socialista (II Internacional) e o Partido Trabalhista brit\u00e2nico por suas pol\u00edticas imperialistas. As resolu\u00e7\u00f5es exigiam independ\u00eancia plena para todos os territ\u00f3rios coloniais e autodetermina\u00e7\u00e3o para todas as na\u00e7\u00f5es oprimidas. Posteriormente, muitos delegados participaram do Congresso da Internacional Vermelha dos Sindicatos (RILU)4 em Moscou.<\/p>\n<p>A ITUCNW teve um papel crucial ao conectar trabalhadores e ativistas nas col\u00f4nias brit\u00e2nicas da \u00c1frica Ocidental e da \u00c1frica do Sul, al\u00e9m de facilitar a ida de estudantes africanos \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica para serem educados sob a ideologia socialista. Esse processo incluiu a mobiliza\u00e7\u00e3o de trabalhadores e l\u00edderes anticoloniais como Isaac Wallace-Johnson, Jomo Kenyatta e Albert Nzula, que foram influenciados diretamente pelas experi\u00eancias revolucion\u00e1rias sovi\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Publica\u00e7\u00f5es como &#8220;O Trabalhador Negro&#8221; foram essenciais para disseminar essas ideias, funcionando como plataformas de comunica\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que fortaleceram a consci\u00eancia de classe e a solidariedade internacional entre os trabalhadores negros e outros grupos oprimidos. Assim, a ITUCNW e seus jornais n\u00e3o apenas promoveram a \u201cideologia comunista\u201d, mas tamb\u00e9m ajudaram a construir redes de apoio e resist\u00eancia que foram cruciais para os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o na \u00c1frica e al\u00e9m.<\/p>\n<p>1 O Congresso Nacional Negro (National Negro Congress) (1936\u2013ca. 1946) foi uma organiza\u00e7\u00e3o americana formada em 1936 na Howard University como uma organiza\u00e7\u00e3o de base ampla com o objetivo de lutar pela liberta\u00e7\u00e3o negra; foi a sucessora da Liga de Luta pelos Direitos do Negro (League of Struggle for Negro Rights), ambas filiadas ao Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA).<\/p>\n<p>2 Profinter \u00e9 um acr\u00f4nimo da denomina\u00e7\u00e3o russa: Krasnyi internatsional profsoyuzov, em portugu\u00eas, Internacional Vermelha de Sindicatos. Sua tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas \u00e9 Red International of Labour Unions (RILU).<\/p>\n<p>3 Movimento pol\u00edtico criado em 1912 com o objetivo de defender os direitos da popula\u00e7\u00e3o negra na \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>4 Cf. nota 2.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Imagem: Claudia Jones discursa em evento do Partido Comunista dos EUA nos anos 1940. Foto: People&#8217;s World<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32201\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[226],"class_list":["post-32201","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8nn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32201"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32202,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32201\/revisions\/32202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}