{"id":3223,"date":"2012-07-24T21:55:17","date_gmt":"2012-07-24T21:55:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3223"},"modified":"2012-07-24T21:55:17","modified_gmt":"2012-07-24T21:55:17","slug":"o-general-frances-que-veio-ensinar-a-torturar-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3223","title":{"rendered":"O general franc\u00eas que veio ensinar a torturar no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>O general franc\u00eas Paul Aussaresses, promotor do uso da tortura na guerra colonial da Arg\u00e9lia, foi adido militar no Brasil entre 1973-1975 e instrutor no Centro de Instru\u00e7\u00e3o de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus, criado por oficiais brasileiros formados na n\u00e3o menos famosa Escola das Am\u00e9ricas. Amigo do ditador Jo\u00e3o Figueiredo e do delegado S\u00e9rgio Fleury, Aussaresses j\u00e1 admitiu em livros e entrevistas a morte de um mulher sob tortura em Manaus, que teria vindo ao Brasil para espionar Figueiredo, e que a ditadura brasileira participou ativamente do golpe contra Allende. O artigo \u00e9 de Eduardo Febbro.<\/p>\n<p>Eduardo Febbro \u2013 Paris<\/p>\n<p>22.7.2012<\/p>\n<p>Paris &#8211; \u201cA tortura \u00e9 eficaz, a maioria das pessoas n\u00e3o aguenta e fala. Depois, da maioria dos casos, n\u00f3s os mat\u00e1vamos. Por acaso isso me colocou problemas de consci\u00eancia? N\u00e3o, a verdade \u00e9 que n\u00e3o\u201d. O autor dessa \u201cconfiss\u00e3o\u201d \u00e9 uma pe\u00e7a-chave da estrat\u00e9gia repressiva de pris\u00f5es, torturas e desaparecimentos aplicada no sul da Am\u00e9rica Latina a partir dos anos 70. Trata-se do general franc\u00eas Paul Aussaresses, ex-adido militar franc\u00eas no Brasil (1973-1975), chefe do batalh\u00e3o de paraquedistas, ex-combatente na Indochina, ex-membro da contra espionagem francesa, her\u00f3i da Segunda Guerra Mundial, fundador do bra\u00e7o armado dos servi\u00e7os especiais, promotor do uso da tortura durante a guerra colonial na Arg\u00e9lia e, sobretudo, instrutor das for\u00e7as especiais norte-americanas em Fort Bragg, o famoso centro de treinamento da guerra contra insurgente, e no Centro de Instru\u00e7\u00e3o de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus, criado por oficiais brasileiros formados na n\u00e3o menos famosa Escola das Am\u00e9ricas, onde se formaram todos os militares latino-americanos que cobriram de sangue os anos 60, 70 e 80.<\/p>\n<p>Paul Aussaresses \u00e9 uma das espinhas dorsais da exporta\u00e7\u00e3o da tortura e dos desaparecimentos, dois modelos herdados da guerra da Indochina a da Arg\u00e9lia e difundidos depois em todo o continente americano por um compacto grupo de oficiais francesas do qual Aussaresses foi um dos mais ativos representantes. Paul Aussaresses abriu muitos de seus segredos em v\u00e1rias ocasi\u00f5es: em 2000, em uma explosiva entrevista publicada pelo Le Monde, onde reconheceu o uso da tortura; em tr\u00eas livros, \u201cN\u00e3o disse tudo, \u00faltimas revela\u00e7\u00f5es a servi\u00e7o da Fran\u00e7a\u201d (2008), \u201cServi\u00e7os especiais, Arg\u00e9lia 1955-1957, meu testemunho sobre a tortura\u201d (2001), \u201cPor Fran\u00e7a, servi\u00e7os especiais 1942-1954\u201d (2001); e ainda em um document\u00e1rio filmado em 2003 por Marie-Monique Robin, \u201cEsquadr\u00f5es da Morte, a escola francesa\u201d (ver v\u00eddeo acima).<\/p>\n<p>O fio condutor desta internacional da tortura da qual Aussaresses \u00e9 um dos bra\u00e7os come\u00e7a na Indochina, segue na Arg\u00e9lia e termina com o Plano Condor, cuja gesta\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de uma longa s\u00e9rie de reuni\u00f5es entre os militares da Am\u00e9rica do Sul e os instrutores franceses, se gestou entre 1960 e 1974. Sua primeira estrutura se chamou Agremil. O general franc\u00eas expandiu pelo mundo os ensinamentos de um dos papas da guerra moderna: o tenente coronel Roger Trinquier, o maior te\u00f3rico da repress\u00e3o em zonas urbanas: torturas, incurs\u00f5es noturnas, desaparecimentos, busca da informa\u00e7\u00e3o por todos os meios, opera\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia, divis\u00e3o das cidades em zonas operacionais.<\/p>\n<p>Em seus anos de adido militar no Brasil, Paul Aussaresses foi, segundo suas pr\u00f3prias palavras, um \u201cbom amigo\u201d de Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, ex-ditador e ex-chefe dos servi\u00e7os secretos, o SNI, e tamb\u00e9m de S\u00e9rgio Fleury, chefe dos \u201cesquadr\u00f5es da morte\u201d.<\/p>\n<p>Em seu per\u00edodo como instrutor no CIGS, em Manaus, ensinou aos oficiais brasileiros e latino-americanos que faziam forma\u00e7\u00e3o ali tudo o que havia feito na Arg\u00e9lia. Segundo o general franc\u00eas o embaixador franc\u00eas daquela \u00e9poca, Michel Legendre, estava perfeitamente a par do que ele fazia em Manaus.<\/p>\n<p>Segundo precisou Aussaresses, no CIGS se formaram \u201coficiais brasileiros, chilenos, argentinos e venezuelanos porque era um centro \u00fanico na Am\u00e9rica Latina\u201d. Como prova disso, no document\u00e1rio de Marie-Monique Robin \u201cEsquadr\u00f5es da Morte, a Escola Francesa\u201d, o chileno Manuel Contreras, chefe da DINA, reconheceu ter enviado a cada dois meses contingentes inteiros de agentes da DINA para o centro de treinamento brasileiro em Manaus. Paul Aussaresses tamb\u00e9m trabalhou na Escola de Intelig\u00eancia de Bras\u00edlia, onde formou muitos oficiais.<\/p>\n<p>Entrevistado pela Folha de S\u00e3o Paulo em 2008, o general se mostrou mais loquaz do que quando o juiz franc\u00eas Roger Leloir o interrogou a prop\u00f3sito de seu conhecimento do Plano Condor e das atividades dos conselheiros militares franceses na Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil. Na entrevista \u00e0 Folha de S\u00e3o Paulo, Aussaresses reconhece que o Brasil participou ativamente do golpe militar contra o presidente chileno Salvador Allende mediante o envio de armas e avi\u00f5es. Tamb\u00e9m evoca o que j\u00e1 havia contado em seu \u00faltimo livro, \u201cN\u00e3o disse tudo, \u00faltimas revela\u00e7\u00f5es ao servi\u00e7o da Fran\u00e7a\u201d, a saber, a morte sob tortura, em Manaus, de uma mulher que, segundo Jo\u00e3o Figueiredo, havia vindo ao Brasil para espion\u00e1-lo. O general franc\u00eas assegura que a morte daquela mulher foi \u201cum ato de defesa\u201d.<\/p>\n<p>Para Aussaresses, \u201ca tortura se justifica se pode evitar a morte de inocentes\u201d. Aussaresses n\u00e3o foi o \u00fanico militar de alta patente que confessou o recurso sistem\u00e1tico da tortura durante a guerra colonial da Arg\u00e9lia e, particularmente, no que ficou conhecido como \u201cA Batalha de Argel\u201d. Esses epis\u00f3dios de tortura foram amplamente narrados pelo jornalista e pol\u00edtico franco-argelino Henri Alleg em v\u00e1rios livros, entre eles \u201cGuerre d\u2019Alg\u00e9rie: M\u00e9moires parall\u00e8les\u201d. O que Alleg conta ocorreu quando o general Jacques Massu foi enviado para a Arg\u00e9lia e come\u00e7ou a aplicar a estrat\u00e9gia do terror. Massu foi o segundo oficial a confessar o que mais tarde se expandiria pelo sul da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Katarina Peixoto<\/p>\n<p>A batalha de Argel na Am\u00e9rica do Sul<\/p>\n<p>Os choques el\u00e9tricos, os m\u00e9todos de interrogat\u00f3rios, os sequestros em plena noite, a tortura sistem\u00e1tica, a guerra psicol\u00f3gica, os desaparecimentos e os voos da morte s\u00e3o t\u00e9cnicas que foram transmitidas pelos oficiais franceses aos militares sulamericanos. O c\u00e9rebro destas doutrinas foi o coronel Roger Trinquier (foto). Professor na Escola das Am\u00e9ricas dos EUA, Trinquier \u00e9 o maior ide\u00f3logo franc\u00eas da guerra suja cujo lema principal, a partir dos anos 50, foi que \u201ca tortura \u00e9 um elemento importante na guerra moderna contrarrevolucion\u00e1ria\u201d. O artigo \u00e9 de Eduardo Febbro, direto de Paris.<\/p>\n<p>Eduardo Febbro \u2013 Paris<\/p>\n<p>21.7.2012<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20599&amp;boletim_id=1293&amp;componente_id=21124\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20599&amp;boletim_id=1293&amp;componente_id=21124<\/a><\/p>\n<p>Paris &#8211; \u201cUma vez na habita\u00e7\u00e3o e com a ajuda dos oficiais, agarramos Bem M\u2019Hidi e o penduramos de tal maneira que pudesse parecer um suic\u00eddio\u201d. A prosa do veterano general Paul Aussaresses n\u00e3o brilha pela originalidade, mas sim por sua precis\u00e3o quando descreve as m\u00faltiplas a\u00e7\u00f5es ilegais que ele e seus homens protagonizaram na Arg\u00e9lia. A cena exposta aqui detalha o assassinato de um dos respons\u00e1veis do FLN argelino e n\u00e3o \u00e9 mais que uma gota d\u2019\u00e1gua na extensa descri\u00e7\u00e3o dos assassinatos premeditados organizados por oficiais do ex\u00e9rcito franc\u00eas: torturas, execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias, assassinatos disfar\u00e7ados de suic\u00eddios, matan\u00e7a de civis e utiliza\u00e7\u00e3o de helic\u00f3pteros para jugar pessoas detidas com vida na Ba\u00eda de Argel s\u00e3o moeda corrente ao longo de seu livro \u201cServi\u00e7os Especiais, Arg\u00e9lia 1955-1957\u201d.<\/p>\n<p>O militar franc\u00eas foi julgado por apologia da tortura. Sua hist\u00f3ria, sua passagem pelo Centro de Instru\u00e7\u00e3o de Guerra na Selva (CIGS) de Manaus como instrutor se nutrem de um passado, de duas guerras, Indochina e Arg\u00e9lia, e de quatro personagens centrais que, a partir de meados dos anos 50, alimentaram com suas teorias contrarrevolucion\u00e1rias os militares da Am\u00e9rica do Sul. O \u201censino\u201d come\u00e7ou na Argentina a partir dos anos 50. O primeiro contato entre os ex\u00e9rcitos da Fran\u00e7a e da Argentina ocorreu no ano seguinte \u00e0 queda do general Per\u00f3n, em 1957. O coronel argentino Carlos Rosas, rec\u00e9m-egresso da Escola de Guerra de Paris, posteriormente subdiretor da Escola de Guerra de Buenos Aires, criou um ciclo de estudos sobre \u201ca guerra revolucion\u00e1rio comunista\u201d. Foi neste marco que chegaram a Argentina os tenentes coron\u00e9is Fran\u00e7ois-Patrice Badie e Patrice de Naurois.<\/p>\n<p>Uma nota do futuro chefe da Pol\u00edcia Federal argentina sob a ditadura de Videla, o general Ram\u00f3n Camps, ilustra a import\u00e2ncia dos dois visitantes: \u201cseus cursos \u2013 escreve Camps \u2013 estavam diretamente inspirados na experi\u00eancia francesa na Indochina e aplicada neste momento na Arg\u00e9lia\u201d.<\/p>\n<p>Em setembro de 1958, o ministro franc\u00eas da Defesa, Pierre Guillaumat, autorizou que 60 soldados argentinos que haviam seguido esses cursos especiais fossem a Arg\u00e9lia, em plena guerra, em \u201cviagem de estudos\u201d. Outros 60 soldados viajaram no mesmo ano com destino a Paris e, em 1960, a coopera\u00e7\u00e3o entre ex\u00e9rcitos deu lugar \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma miss\u00e3o militar francesa permanente na Argentina. Composta por tr\u00eas oficiais superiores, sua miss\u00e3o consistia em \u201caumentar a efic\u00e1cia t\u00e9cnica e a prepara\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito argentino\u201d.<\/p>\n<p>Nesse mesmo ano, Pierre Messmer, ministro da Defesa, enviou a Buenos Aires o chefe do Estado Maior do Ex\u00e9rcito, general Andr\u00e9 Demetz, e o coronel Henri Grand d\u2019Esson. D\u2019Esson \u00e9 um personagem chave: foi que ele que realizou na Escola de Guerra de Buenos Aires a c\u00e9lebre confer\u00eancia na qual descreve cada um dos aspectos da guerra subversiva e, sobretudo, o papel central do ex\u00e9rcito no controle \u201csocial da popula\u00e7\u00e3o e na destrui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as revolucion\u00e1rias\u201d. Esse texto de 22 p\u00e1ginas foi publicado sob o t\u00edtulo \u201cGuerra Subversiva\u201d na Revista da Escola Superior de Guerra, n\u00ba 338, Julho-Setembro de 1960. Todas essas ideias, viagens e experi\u00eancias trocadas desembocar\u00e3o numa esp\u00e9cie de coopera\u00e7\u00e3o continental baseada na dupla experi\u00eancia dos franceses e dos argentinos.<\/p>\n<p>Assim, em julho de 1961, o general Spirito, chefe do Estado Maior argentino, prop\u00f4s a seus colegas da Confer\u00eancia dos Ex\u00e9rcitos da Am\u00e9rica a cria\u00e7\u00e3o de um Curso Interamericano de luta antimarxista que seria ministrado por um ex-aluno argentino da Escola de Guerra de Paris, o coronel L\u00f3pez Aufranc. Um total de 39 oficiais, representando 13 pa\u00edses, incluindo os EUA, assistiram a esses cursos. Em uma mensagem enviada \u00e0 chancelaria francesa, o embaixador franc\u00eas na Argentina explica: \u201ccabe assinalar a presen\u00e7a de militares norteamericanos em um curso onde se deu um espa\u00e7o importante ao estudo da luta anti-marxista em um esp\u00edrito e segundo os m\u00e9todos baseados na experi\u00eancia do ex\u00e9rcito franc\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Da\u00ed ao Plano Condor h\u00e1 uma rota sem obst\u00e1culos na qual se mesclam Videla, presente \u00e0s aulas onde estavam os instrutores franceses, e o plano Conintes (Como\u00e7\u00e3o interna do Estado). Entre 1963 e 1973 houve uma interrup\u00e7\u00e3o na colabora\u00e7\u00e3o francesa mas esta foi retomada a pedido dos argentinos.<\/p>\n<p>Nos anos 70 abre-se um novo cap\u00edtulo. A Fran\u00e7a mandou a Buenos Aires o coronel Pierre Servant, ex-comandante da Indochina e da Arg\u00e9lia, especializado em \u201cinterrogat\u00f3rios\u201d. Em abril de 1974, Servant se encontrou em Buenos Aires com um dos atores do golpe de 76, o tenente coronel Reynaldo Bignone. Servant, que negou quase todos os fatos quando a justi\u00e7a francesa o interrogou h\u00e1 alguns anos, trabalhou no Escrit\u00f3rio n\u00ba 3, situado no 12\u00ba andar do quartel general do Ex\u00e9rcito argentino e deu cursos nessa sede e nas prov\u00edncias. Sem liga\u00e7\u00f5es com a embaixada francesa, Servant estava vinculado ao Secretariado Nacional da Defesa Nacional (SGDN), organismo controlado ent\u00e3o pelo novo primeiro ministro e ex-presidente franc\u00eas Jacques Chirac.<\/p>\n<p>Bussi, Videla, Bignone, Vilas, Harguindeguy, todos estiveram em contato com Servant, beberam a cultura da tortura francesa e absorveram os livros te\u00f3ricos de Trinquier como se fossem \u00e1gua benta. Servant deixou a Argentina em outubro de 1976, Aussaresses foi para o Brasil em pleno golpe de Estado.<\/p>\n<p>O Plano Condor j\u00e1 estava em marcha. Uma nota de Henry Kissinger (ex-secret\u00e1rio de Estado dos EUA) distribu\u00edda nas embaixadas norte-americanas da Europa adverte que o grupo \u201cmurder\u201d (assim era denominado o Plano Condor) operaria na velho continente, especialmente em Paris. A sede argentina do dito plano, o Centro Piloto, estava localizada no n\u00ba 83, da Avenida Henry Martin.<\/p>\n<p>O c\u00e9rebro destas doutrinas \u00e9 o coronel Roger Trinquier. Professor em\u00e9rito na Escola das Am\u00e9ricas dos EUA, Trinquier \u00e9 o maior ide\u00f3logo franc\u00eas da guerra suja cujo serm\u00e3o principal foi assegurar a partir dos anos 50 que \u201ca tortura \u00e9 um elemento importante na guerra moderna contra revolucion\u00e1ria\u201d. A maior parte da estrutura \u201canti-revolucion\u00e1ria\u201d foi elaborada por Trinquier. Os historiadores da Guerra da Arg\u00e9lia e da Indochina, que estabeleceram os nexos entre as pr\u00e1ticas aplicadas durante esses conflitos e as que se viram depois na Argentina, Uruguai, Chile e Brasil tiram uma clara conclus\u00e3o: o aperfei\u00e7oamento do choque el\u00e9trico, a radiografia das agendas dos detidos, os sequestros em plena noite, a tortura sistem\u00e1tica, a guerra psicol\u00f3gica, os desaparecimentos, o uso de arquivos e os voos da morte s\u00e3o t\u00e9cnicas transmitidas pelos oficiais franceses.<\/p>\n<p>Em um artigo de 4 de janeiro de 1981, publicado pelo di\u00e1rio argentino La Prensa, o general Ram\u00f3n Camps assegurou que essas miss\u00f5es e cursos come\u00e7aram \u201csob a dire\u00e7\u00e3o dos tenentes coron\u00e9is Patrice de Naurois e Fran\u00e7ois-Pierre Badie\u201d. Aquelas sess\u00f5es serviram para transmitir as experi\u00eancias dos oficiais franceses nas guerras da Indochina e da Arg\u00e9lia. Os documentos existentes provam que esses ensinamentos se baseavam essencialmente nos trabalhos escritos por outro militar franc\u00eas que confessou a pr\u00e1tica da tortura na Arg\u00e9lia, o general Massu. O essencial, por\u00e9m, foi \u201censinado\u201d pelo general Salan e, sobretudo, pelo tenente coronel Roger Trinquier.<\/p>\n<p>Uma nota do general Massu, com data de 19 de mar\u00e7o de 1957, argumenta em defesa de um dos princ\u00edpios aplicados depois pelas ditaduras militares da Am\u00e9rica do Sul: \u201cn\u00e3o se pode lutar contra a guerra revolucion\u00e1ria e subversiva protagonizada pelo comunismo internacional e seus intermedi\u00e1rios com os procedimentos cl\u00e1ssicos de combate. \u00c9 preciso utilizar m\u00e9todos e a\u00e7\u00f5es clandestinas e contrarrevolucion\u00e1rias. \u00c9 preciso que esses m\u00e9todos sejam admitidos com a alma e nossas consci\u00eancias como necess\u00e1rios e moralmente v\u00e1lidos\u201d. Essa \u00e9 a parte mais \u201cfilos\u00f3fica\u201d do \u201ccombate\u201d contrarrevolucion\u00e1rio. A defini\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica corresponde a Trinquier, redator de n\u00fameros manuais militares difundidos na Argentina.<\/p>\n<p>O tenente coronel Trinquier \u00e9 o \u201corganizador do conceito de guerra moderna\u201d. Essa guerra se articula em torno de tr\u00eas eixos: a clandestinidade, a press\u00e3o psicol\u00f3gica e a moralidade estrita. Se se observam os dispositivos t\u00e9cnicos aplicados na Arg\u00e9lia, em seguida pode-se \u201cler sua tradu\u00e7\u00e3o\u201d na Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Brasil. Trinquier inventou um sistema de busca da informa\u00e7\u00e3o conhecido na Fran\u00e7a como Destacamentos Operacionais de Prote\u00e7\u00e3o (DOP). Esse mesmo sistema foi adotado na Argentina mediante as for\u00e7as tarefa. O leitor n\u00e3o pode sen\u00e3o assombrar-se com as semelhan\u00e7as entre os DOP e as for\u00e7as tarefa. Os DOP tinham a tarefa de interrogar os detidos argelinos e utilizavam a tortura. Eles arrancavam informa\u00e7\u00e3o sobre a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-administrativa dos rebeldes e realizavam a pris\u00e3o e a elimina\u00e7\u00e3o dos suspeitos em lugares ocultos. Essas m\u00e3os das sombras que foram as for\u00e7as tarefa se inspiraram t\u00e9cnica e operacionalmente em todo o aparato repressivo dos DOP franceses.<\/p>\n<p>Na Arg\u00e9lia, Trinquier elaborou a \u201cdoutrina da clandestinidade\u201d que mais tarde causaria estragos durante os golpes de Estado na Am\u00e9rica do Sul: repress\u00e3o baseada no ocultamento dos centros de deten\u00e7\u00e3o, desaparecimento de pessoas e elimina\u00e7\u00e3o dos corpos. O recurso a pessoal militar trajado como civis em comandos que percorriam \u00e0 noite os centros urbanos em busca de v\u00edtimas ou de suspeitos para torturar \u00e9 uma t\u00e9cnica implementada em Argel pelo general Aussaresses e Massu que foi importada para a Argentina por meio das miss\u00f5es de Patrice de Naurois e Fran\u00e7ois-Pierre Badie, Trinquier teorizou por escrito sobre as bases da guerra suja e seus \u201cmanuais\u201d se tornaram palavra sagrada nas academias nacionais.<\/p>\n<p>O cronograma das miss\u00f5es francesas \u00e0 Argentina permite situar com exatid\u00e3o que foi a ditadura de Ongan\u00eda a que come\u00e7ou a se alimentar com esses ensinamentos. Um testemunho direto do general Campos demonstra a \u201cirmandade\u201d t\u00e9cnica e moral que existia entre o corpo de oficiais argentinos e os \u201cmission\u00e1rios\u201d que vinham de Paris com a mala repleta de m\u00e9todos para matar. No mesmo artigo citado anteriormente (4 de janeiro de 1981), Camps declarou, como uma forma de homenagem: \u201cNa Argentina primeiro recebemos a influ\u00eancia francesa, depois a norte-americana. Aplicamos as duas respectivamente de maneira separada e depois conjunta tomando os conceitos de ambas at\u00e9 que a norte-americana predominou. Mas \u00e9 preciso dizer que a concep\u00e7\u00e3o francesa era mais exata que a norte-americana. Esta \u00faltima se limitava quase exclusivamente ao aspecto militar enquanto a francesa consistia em uma vis\u00e3o global\u201d.<\/p>\n<p>As metodologias se alimentam umas das outras. O general franc\u00eas Paul Aussaresses foi instrutor militar na base norte-americana de Fort Bragg, Carolina do Norte, a escola dos paraquedistas norte-americanos onde se treinavam as \u201cfor\u00e7as especiais\u201d antes de elas irem para o Vietn\u00e3. Um texto ilustrativo escrito pelo coronel franc\u00eas Henri Grand D\u2019Esnon e destinado exclusivamente \u00e0s for\u00e7as armadas argentinas permite compreender como se elaboraram as bases \u201cpr\u00e1ticas\u201d para que os generais argentinos inclu\u00edssem na vida civil. Gran D\u2019Eson afirma que \u201ca destrui\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-administrativa revolucion\u00e1ria corresponde \u00e0 pol\u00edcia, mas o ex\u00e9rcito deve apoiar essa a\u00e7\u00e3o toda vez que os m\u00e9todos da pol\u00edcia resultarem insuficientes, situa\u00e7\u00e3o que se produz frequentemente quando a subvers\u00e3o se generaliza\u201d (trecho de \u201cA Guerra Subversiva\u201d, artigo publicado na Revista da Escola Superior de Guerra, n\u00ba 338, Julho-Setembro de 1960).<\/p>\n<p>O general Aussaresses reconheceu que ensinou \u201ca tortura e as t\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio da Batalha de Argel\u201d aos militares brasileiros e tamb\u00e9m norte-americanos. Isso ocorreu na \u00e9poca em que ele era professor em Fort Bragg. Nesse quartel geral dos Estados Unidos, Aussaresses conheceu o coronel Carl Bernard, a quem mostrou um rascunho do livro do coronel Trinquier, \u201cA Guerra Moderna\u201d. Bernard e Aussaresses resumiram o livro e o enviaram a Robert Komer, um agente da CIA que ser\u00e1 nomeado conselheiro do presidente norte-americano Lyndon Johnson durante a Guerra do Vietn\u00e3. Segundo o coronel Bernard, Komer montou a opera\u00e7\u00e3o F\u00eanis a partir do resumo do Manuel de Trinquier. A Opera\u00e7\u00e3o F\u00eanix foi lan\u00e7ada no Vietn\u00e3 no final dos anos 60: seus m\u00e9todos s\u00e3o os mesmos que foram empregados depois na Argentina, Chile, Uruguai e Brasil.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Marco Aur\u00e9lio Weissheimer<\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZiWa9caAhdw?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n<p> <object width=\"480\" height=\"385\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ZiWa9caAhdw\" \/><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><\/object> <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20601&amp;boletim_id=1293&amp;componente_id=21123\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n  Cr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nCarta Maior\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3223\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-3223","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-PZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3223","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3223"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3223\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3223"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3223"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3223"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}