{"id":32316,"date":"2024-12-06T21:27:51","date_gmt":"2024-12-07T00:27:51","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32316"},"modified":"2024-12-08T12:50:44","modified_gmt":"2024-12-08T15:50:44","slug":"um-pacote-perverso-contra-os-trabalhadores-e-o-povo-pobre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32316","title":{"rendered":"Um pacote perverso contra os trabalhadores e o povo pobre"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32317\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32316\/snapinsta-app_468882578_18059667889867964_9141822189318036350_n_1080\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Snapinsta.app_468882578_18059667889867964_9141822189318036350_n_1080.jpg?fit=1080%2C606&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1080,606\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Snapinsta.app_468882578_18059667889867964_9141822189318036350_n_1080\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Snapinsta.app_468882578_18059667889867964_9141822189318036350_n_1080.jpg?fit=747%2C419&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-32317\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Snapinsta.app_468882578_18059667889867964_9141822189318036350_n_1080.jpg?resize=747%2C419&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Snapinsta.app_468882578_18059667889867964_9141822189318036350_n_1080.jpg?resize=900%2C505&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Snapinsta.app_468882578_18059667889867964_9141822189318036350_n_1080.jpg?resize=300%2C168&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Snapinsta.app_468882578_18059667889867964_9141822189318036350_n_1080.jpg?resize=768%2C431&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Snapinsta.app_468882578_18059667889867964_9141822189318036350_n_1080.jpg?w=1080&amp;ssl=1 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Charge: Mauro Iasi<\/p>\n<p>Edmilson Costa* &#8211; doutor em economia e secret\u00e1rio-geral do PCB<\/p>\n<p>O governo anunciou recentemente um pacote econ\u00f4mico com o objetivo de ajustar as contas p\u00fablicas ao arcabou\u00e7o fiscal aprovado anteriormente, dentro do figurino do trip\u00e9 macroecon\u00f4mico neoliberal \u2013 austeridade fiscal, metas de infla\u00e7\u00e3o e c\u00e2mbio flutuante. Trata-se de um conjunto de propostas de enorme perversidade contra os trabalhadores e a povo pobre, que resultar\u00e1 mais uma vez numa enorme transfer\u00eancia de renda para a oligarquia financeira.<\/p>\n<p>Os cortes or\u00e7ament\u00e1rios ter\u00e3o impactos expressivos no consumo das fam\u00edlias, uma vez que retira dinheiro dos mais pobres, aqueles que consomem tudo que ganham, tudo isso para pagar os juros da d\u00edvida interna. Ou seja, todos os trabalhadores e as trabalhadoras que ganham sal\u00e1rio m\u00ednimo, aposentados e aposentadas, pensionistas ou beneficiados\/as pelos programas sociais do governo ser\u00e3o os setores que v\u00e3o arcar com a maior parte das medidas anunciadas pelo governo.<\/p>\n<p>Dessa forma, o governo cedeu \u00e0s press\u00f5es dos rentistas que vinham reivindicando faz algum tempo um ajuste nas contas p\u00fablicas para evitar a chamada crise fiscal. Vale ressaltar que foi o pr\u00f3prio governo quem se autoimolou no altar do neoliberalismo ao aprovar um arcabou\u00e7o fiscal que lhe deixa de m\u00e3os atadas para realizar uma pol\u00edtica de industrializa\u00e7\u00e3o e crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A subservi\u00eancia governamental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s classes dominantes e, especialmente, aos especuladores e rentistas, \u00e9 t\u00e3o grande que, ap\u00f3s o governo anunciar o pacote, o ministro Fernando Hadadd foi imediatamente prestar contas aos banqueiros, num animado convescote na Federa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Bancos. Demonstrando ainda mais sua subservi\u00eancia ao rentismo, o ministro teve a coragem de anunciar que o pacote n\u00e3o era uma bala de prata e que daqui a tr\u00eas meses, por exemplo, pode rever as contas e incluir mais setores no ajuste, como o da previd\u00eancia e outros.<\/p>\n<p>Essas medidas foram enviadas para o Congresso que, com certeza, vai reform\u00e1-las para tornar as normas mais duras, afinal, de um congresso conservador como este, n\u00e3o se pode esperar nada melhor. Alguns deputados, inclusive, j\u00e1 est\u00e3o colhendo assinaturas para um ajuste ainda mais prejudicial \u00e0 classe trabalhadora e tem deputado querendo at\u00e9 acabar com os feriados nacionais. Esse \u00e9 o n\u00edvel do congresso que temos hoje.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os banqueiros e especuladores incrementam a chantagem contra o governo com o aumento do d\u00f3lar, queda nas bolsas, com o objetivo de abrir espa\u00e7o para novos aumentos na taxa de juros, sob o pretexto de que o ajuste do governo n\u00e3o ser\u00e1 suficiente para ajustar as contas p\u00fablicas. Repete-se assim um roteiro j\u00e1 conhecido: quanto mais o governo cede, mais a oligarquia financeira ousa nas suas maquina\u00e7\u00f5es e mais a extrema-direita tende a se fortalecer com as frustra\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vejamos as principais medidas anunciadas pelo governo e suas maiores implica\u00e7\u00f5es para trabalhadores e trabalhadoras, pensionistas e a popula\u00e7\u00e3o em geral. Antes de elencarmos as principais variantes do pacote fiscal, \u00e9 importante atentarmos para o pr\u00f3prio comunicado do Minist\u00e9rio da Fazenda, no qual especifica seus objetivos. De acordo com a nota \u00e0 imprensa, o governo pretende economizar, entre 2025 e 2026, R$ 71,9 bilh\u00f5es e, entre 2025 e 2030, R$ 327 bilh\u00f5es, o que significa um ajuste fiscal rigoroso que visa economizar recursos para pagar o servi\u00e7o da d\u00edvida interna e alimentar os rentistas \u00e0s custas dos\/as trabalhadores\/as, pensionistas e da popula\u00e7\u00e3o pobre.<\/p>\n<p>O conjunto das medidas enviadas ao Congresso tem o objetivo estrat\u00e9gico de alinhar o crescimento das despesas governamentais ao arcabou\u00e7o fiscal. A pr\u00f3pria tabela divulgada pelo Minist\u00e9rio da Fazenda fixa as diretrizes e a economia que o governo ter\u00e1 com o pacote:<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32322\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32316\/image-1-35\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-1-1.png?fit=839%2C509&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"839,509\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image (1)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-1-1.png?fit=747%2C453&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-32322\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-1-1.png?resize=747%2C453&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"453\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-1-1.png?w=839&amp;ssl=1 839w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-1-1.png?resize=300%2C182&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-1-1.png?resize=768%2C466&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><\/p>\n<p>A tesoura da \u00e1rea econ\u00f4mica<\/p>\n<p>Uma das principais medidas se refere \u00e0 mudan\u00e7a no formato da corre\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, que era reajustado pelo aumento da infla\u00e7\u00e3o do ano anterior mais um crescimento real do sal\u00e1rio igual ao aumento do PIB de dois anos anteriores. Com as novas regras, o sal\u00e1rio m\u00ednimo ser\u00e1 reajustado pela infla\u00e7\u00e3o passada, mas seu crescimento n\u00e3o poder\u00e1 ultrapassar as bandas do ajuste fiscal, ou seja, entre 0,6% e 2,5%, independentemente se o percentual de aumento do produto for superior a esse patamar.<\/p>\n<p>Conforme se pode observar na tabela, o governo economizar\u00e1 em 2025 R$ 2,5 bilh\u00f5es; em 2026, R$ 9,7 bilh\u00f5es; em 2027, R$ 14,5 bilh\u00f5es; em 2028, R$ 20,6 bilh\u00f5es; em 2029, R$ 27,8 bilh\u00f5es; e em 2020, R$ 35 bilh\u00f5es. Levando em conta que o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 refer\u00eancia para reajuste de aposentados e beneficiados pelos programas sociais, o pacote significa um corte cavalar nos ganhos de todos aqueles e aquelas que sofrer\u00e3o os efeitos desse auster\u00edc\u00eddio fiscal. De acordo com o Dieese, o sal\u00e1rio m\u00ednimo serve de refer\u00eancia para 59,3 milh\u00f5es de pessoas no Brasil.<\/p>\n<p>Outra das medidas do pacote tem o objetivo de reduzir o n\u00famero de trabalhadores e trabalhadoras que t\u00eam direito a receber o abono salarial. Atualmente todos e todas que recebem at\u00e9 R$ 2.824,00 t\u00eam direito a esse abono. Pelas novas regras, o governo vai fixar o valor para acessar o abono em R$ 2.640,00, montante que ser\u00e1 corrigido apenas pela infla\u00e7\u00e3o at\u00e9 decrescer para 1,5 sal\u00e1rios m\u00ednimos. Dessa forma, o governo espera uma economia de cerca R$ 18 bilh\u00f5es at\u00e9 2030.<\/p>\n<p>As medidas tamb\u00e9m v\u00e3o atingir o Bolsa Fam\u00edlia, particularmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s regras para cadastramento das chamadas fam\u00edlias unipessoais (que t\u00eam apenas uma pessoa). A partir de agora haver\u00e1 restri\u00e7\u00e3o para munic\u00edpios com mais de 16% de inscritos, al\u00e9m do fato de que essas inscri\u00e7\u00f5es ser\u00e3o feitas obrigatoriamente nos domic\u00edlios. A partir de agora todos aqueles e aquelas que s\u00e3o benefici\u00e1rios\/as do Bolsa Fam\u00edlia ter\u00e3o que se registrar mediante biometria obrigat\u00f3ria, tanto na inscri\u00e7\u00e3o quanto na atualiza\u00e7\u00e3o cadastral. Al\u00e9m disso, as concession\u00e1rias de servi\u00e7os p\u00fablicos ficar\u00e3o obrigadas a disponibilizar informa\u00e7\u00f5es para viabilizar o cruzamento de informa\u00e7\u00f5es sobre os benefici\u00e1rios. Com isso, o governo espera economizar em 2025, R$ 2 bilh\u00f5es, em 2026, R$ 3 bilh\u00f5es, montante que se estender\u00e1 nesse mesmo patamar at\u00e9 2030.<\/p>\n<p>O BPC (Benef\u00edcio da Presta\u00e7\u00e3o Continuada), um programa que beneficia as pessoas idosas que n\u00e3o t\u00eam direito \u00e0 Previd\u00eancia, al\u00e9m das pessoas com defici\u00eancia que n\u00e3o est\u00e3o trabalhando e n\u00e3o possuem renda fixa ou que tenham renda inferior a um quarto de sal\u00e1rio m\u00ednimo t\u00eam direito a receber um sal\u00e1rio m\u00ednimo mensal. Com as novas regras, o governo veda a dedu\u00e7\u00e3o de renda para enquadramento e agora a renda do c\u00f4njuge e companheiro\/a n\u00e3o coabitante, irm\u00e3os\/\u00e3s, filhos\/as e enteados\/as ser\u00e1 contabilizada conjuntamente, o que afastar\u00e1 milhares dos crit\u00e9rios do BPC. As pessoas ter\u00e3o que fazer ainda prova de vida anual e biometria obrigat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O objetivo \u00e9 cortar um ter\u00e7o dos\/as beneficiados\/as, como diz o pr\u00f3prio ministro: &#8220;N\u00e3o se sabe o que essas pessoas t\u00eam para ter acesso ao BPC&#8221;. Com essas medidas o governo espera economizar R$ 12 bilh\u00f5es. Vale ressaltar que essa regra vale para os setores mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o vale para setores privilegiados. Por exemplo, um casal de ju\u00edzes ganha dois polpudos sal\u00e1rios, enquanto um casal de miser\u00e1veis n\u00e3o vai poder mais receber o BPC.<\/p>\n<p>Outras medidas impactam no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, uma vez que os recursos que estariam reservados para o ensino integral agora ser\u00e3o remanejados para outras \u00e1reas da educa\u00e7\u00e3o, e Estados e Munic\u00edpios passar\u00e3o a se responsabilizar por esse gasto. Ou seja, o ensino integral ser\u00e1 inteiramente custeado com as verbas do Fundeb. Como se sabe, muitos munic\u00edpios com menos capacidade de arrecada\u00e7\u00e3o t\u00eam dificuldades at\u00e9 para pagar o piso salarial da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e agora, com a responsabilidade pelo ensino integral, dever\u00e3o enfrentar muitas dificuldades e at\u00e9 mesmo n\u00e3o proporcionar aos\/\u00e0s estudantes o ensino integral.<\/p>\n<p>As medidas tamb\u00e9m atingem a previd\u00eancia dos militares e os altos sal\u00e1rios. Extinguem a transfer\u00eancia da cota de pens\u00e3o e o fim da chamada morte ficta, que \u00e9 quando a fam\u00edlia continua recebendo o benef\u00edcio mesmo quanto um militar \u00e9 expulso das For\u00e7as Armadas. Estabelece ainda uma progressividade de idade m\u00ednima para aposentadoria em 55 anos. Tamb\u00e9m o governo definiu um teto para todos os sal\u00e1rios da administra\u00e7\u00e3o nas esferas federal, estadual e municipal, cujo valor n\u00e3o deve ultrapassar R$ 44 mil mensais. Os militares est\u00e3o protestando, mas de barriga cheia, pois fazem parte de uma das categorias que n\u00e3o foram atingidas pela reforma da previd\u00eancia e podem se aposentar com um pouco mais de 50 anos.<\/p>\n<p>Para dourar a p\u00edlula amarga do ajuste fiscal, o governo anunciou a isen\u00e7\u00e3o do imposto de renda para as pessoas que ganham at\u00e9 R$ 5 mil, o que deveria beneficiar cerca de 30 milh\u00f5es de trabalhadores e trabalhadoras, mas que s\u00f3 valer\u00e1 a partir de 2026. Para o governo, trata-se de uma medida neutra, uma vez que os recursos que deixar\u00e3o de ser arrecadados ser\u00e3o compensados pela taxa\u00e7\u00e3o daqueles que ganham acima de R$ 50 mil. Mas o mercado financeiro e seus agentes na m\u00eddia imediatamente iniciaram um terrorismo midi\u00e1tico como se o mundo fosse acabar caso a medida seja adotada. Logo depois, o presidente da C\u00e2mara veio tamb\u00e9m a p\u00fablico dizer que a isen\u00e7\u00e3o para quem ganha at\u00e9 R$ 5 mil ser\u00e1 um assunto a ser debatido somente em 2025, o que significa dizer que o pacote de corte de gastos ser\u00e1 aprovado, mas a isen\u00e7\u00e3o para trabalhadores e trabalhadoras ficar\u00e1 para as calendas.<\/p>\n<p>Transfer\u00eancia de renda para o rentismo<\/p>\n<p>Essa conversa mole de que este \u00e9 um governo que tem responsabilidade fiscal \u00e9 apenas um pretexto para dar continuidade \u00e0 pol\u00edtica neoliberal sob a \u00f3tica do arcabou\u00e7o fiscal, uma vez que todos sabem que o principal problema fiscal do pa\u00eds \u00e9 a sangria de recursos do fundo p\u00fablico para o pagamento do servi\u00e7o da d\u00edvida interna e que, portanto, o ajuste fiscal deveria ser feito contra os banqueiros e especuladores. Para se ter uma ideia da absurda transfer\u00eancia de renda para o rentismo institucionalizado, basta dizer que a cada ponto percentual que o Banco Central aumenta na Selic o pa\u00eds \u00e9 obrigado a pagar mais R$ 70 bilh\u00f5es, praticamente o mesmo montante que o governo diz que vai economizar com o pacote nos pr\u00f3ximos dois anos. Este \u00e9 o verdadeiro problema da economia brasileira e, mesmo assim, os abutres financeiros continuam fazendo terrorismo diariamente com aumento do d\u00f3lar, queda nas bolsas, progn\u00f3stico de escalada inflacion\u00e1ria, tudo isso como pretexto para que o Banco Central aumente as taxas de juros.<\/p>\n<p>Comprovando a monstruosidade do pagamento de juros no Brasil, segundo o pr\u00f3prio Banco Central em nota \u00e0 imprensa, os juros em outubro de 2024 somaram 116,6 bilh\u00f5es, quase duas vezes mais que no mesmo m\u00eas de 2023, quando a soma de pagamento de juros foi de 61,9 bilh\u00f5es. Mais escandaloso ainda foi o pagamento acumulado de juros nos \u00faltimos 12 meses at\u00e9 outubro deste ano, que somou 869,3 bilh\u00f5es, correspondendo a 7,57% do PIB, montante bem maior que o verificado nos 12 meses at\u00e9 outubro de 2023 (6,71% do PIB), conforme a tabela. Ou seja, enquanto o governo retira recursos de trabalhadores e trabalhadoras, pensionistas e miser\u00e1veis, transfere essa soma astron\u00f4mica para os banqueiros e especuladores em geral. Esse \u00e9 o sentido do governo cujo partido se diz dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Juros nominais &#8211; Setor p\u00fablico consolidado<br \/>\nout\/23 61,9 bilh\u00f5es<br \/>\nout\/24 111,6 bilh\u00f5es<br \/>\nAcumulado nos \u00faltimos 12 meses<br \/>\nout. 2023 720,1 bilh\u00f5es<br \/>\nout\/24 869,3 bilh\u00f5es<br \/>\nFonte: Banco Central &#8211; Estat\u00edsticas Fiscais. Nov\/2024.<\/p>\n<p>O mais impressionante desse processo \u00e9 o fato de que a taxa de juros \u00e9 um instrumento rudimentar e inadequado para combater a infla\u00e7\u00e3o e serve apenas para favorecer a oligarquia financeira, que no Brasil capturou o Banco Central e o transformou num instrumento de transfer\u00eancia de renda cavalar do setor p\u00fablico para as classes dominantes, especialmente os rentistas. Ao contr\u00e1rio do mantra neoliberal de que o aumento da infla\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado de uma demanda maior que a oferta e que, ao se contrair os gastos das fam\u00edlias e do governo, mediante o aumento de juros, restabelece-se o equil\u00edbrio entre oferta e demanda e a infla\u00e7\u00e3o cai, a vida real \u00e9 mais complexa que essa teoria primitiva.<\/p>\n<p>O que se pode observar \u00e9 que um aumento das taxas de juros, em vez de combater a infla\u00e7\u00e3o, pode acontecer exatamente o contr\u00e1rio, conforme se o pode observar pelos seguintes argumentos:<\/p>\n<p>a) O processo inflacion\u00e1rio \u00e9 mais complexo do que simplesmente restringi-lo \u00e0s leis da oferta e da demanda. Numa economia mundialmente globalizada, o aumento dos pre\u00e7os pode ser decorrente tanto de fatores internos quanto externos.<\/p>\n<p>b) Do ponto de vista interno, o aumento dos pre\u00e7os dos insumos, por exemplo, como energia, em fun\u00e7\u00e3o de chuvas insuficientes, ou dos alimentos, em decorr\u00eancia de problemas clim\u00e1ticos, como secas ou enchentes, podem aumentar os pre\u00e7os em fun\u00e7\u00e3o de fatores que n\u00e3o est\u00e3o ligados \u00e0 demanda.<\/p>\n<p>c) Al\u00e9m disso, a desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial, numa economia que importa grande parte dos insumos, tamb\u00e9m gera aumento dos pre\u00e7os, tendo em vista que os empres\u00e1rios dos setores que importam repassar\u00e3o os custos para os consumidores.<\/p>\n<p>d) Outra vari\u00e1vel importante s\u00e3o os pre\u00e7os oligopolistas, pois os capitalistas, na busca pela maximiza\u00e7\u00e3o da taxa de lucro, elevam os pre\u00e7os de acordo com os seus interesses estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>Ao elevar a taxa de juros, as autoridades monet\u00e1rias encarecem o cr\u00e9dito, tanto para as empresas quanto para os\/as consumidores\/as, o que vai levar os empres\u00e1rios a repassar os custos adicionais para os pre\u00e7os, intensificando a infla\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de reduzi-la. Nessa conjuntura, consumidores e consumidoras tamb\u00e9m reduzir\u00e3o suas compras devido ao aumento dos pre\u00e7os. Portanto, o que se pode aferir desse processo \u00e9 um desest\u00edmulo ao investimento e ao consumo e uma redu\u00e7\u00e3o da demanda agregada que, consequentemente, resultar\u00e1 em uma desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, aumento do desemprego, redu\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva, gerando evidentemente um ciclo de baixo crescimento e instabilidade e agravando ainda mais os problemas estruturais da economia.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o aumento das taxas de juros n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o resolve os problemas estruturais da infla\u00e7\u00e3o, como se transforma numa ferramenta especial para favorecer os interesses da oligarquia, pois eleva os retornos sobre os ativos financeiros da d\u00edvida interna, incentiva a especula\u00e7\u00e3o financeira e torna os ricos cada vez mais ricos. Al\u00e9m disso, essa pol\u00edtica serve ainda para aprofundar as desigualdades e concentrar a riqueza e disciplinar os trabalhadores, pois uma conjuntura de desemprego enfraquece o movimento sindical e reduz o poder de barganha do proletariado.<\/p>\n<p>Sem ilus\u00f5es com o governo Lula<\/p>\n<p>Quem ainda tinha ilus\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao governo Lula recebeu um banho de \u00e1gua fria com esse pacote econ\u00f4mico. Deve-se levar em conta que as propostas de desvincular os pisos constitucionais da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o emplacaram desta vez, mas o objetivo da \u00e1rea econ\u00f4mica \u00e9 colocar tamb\u00e9m esses setores na l\u00f3gica do arcabou\u00e7o fiscal. O ministro da Fazenda j\u00e1 admitiu ser necess\u00e1rio debater essa quest\u00e3o, pois ele defende que, no ritmo atual, o espa\u00e7o para as despesas livres dos minist\u00e9rios poder\u00e1 terminar nos pr\u00f3ximos anos, significando, na pr\u00e1tica, que o governo vai fazer tudo para mexer nos gastos obrigat\u00f3rios. Ou seja, isso significa desvincular o sal\u00e1rio m\u00ednimo das aposentadorias, programas sociais, al\u00e9m dos pisos constitucionais a sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o. \u201cVamos ter que fazer um debate sobre isso\u201d, diz Hadadd.<\/p>\n<p>Muitos alegam que o governo n\u00e3o tem cumprido ainda as promessas de campanha, como colocar os ricos no imposto de renda e os pobres no or\u00e7amento porque que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as n\u00e3o permite. Isso \u00e9 uma desculpa esfarrapada porque a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 uma disputa pol\u00edtica e o elemento central para mudar essa conjuntura \u00e9 colocar as massas em movimento, mas esse governo parece que tem mais medo do povo nas ruas que o diabo da cruz. Prefere as negocia\u00e7\u00f5es rebaixadas, os acordos com o Centr\u00e3o, as d\u00e1divas para a burguesia e migalhas para os trabalhadores e as trabalhadoras.<\/p>\n<p>Na verdade, esse governo abriu m\u00e3o da politiza\u00e7\u00e3o da sociedade e da disputa ideol\u00f3gica com as for\u00e7as reacion\u00e1rias e preferiu estimular o apassivamento social, o bom mocismo e a pol\u00edtica de paz e amor. Da mesma forma, abandonou qualquer ideia de mobiliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, preferindo os acordos de c\u00fapula, a substitui\u00e7\u00e3o das lutas nas ruas e nos locais de trabalho pela institucionalidade. Mesmo depois das den\u00fancias sobre a tentativa de golpe, nada se fez no sentido de mobilizar a popula\u00e7\u00e3o contra os golpistas.<\/p>\n<p>Ao n\u00e3o cumprir as promessas de campanha e dar continuidade ao social liberalismo, com sucessivos pacotes antipopulares, o governo est\u00e1 seguindo a mesma trajet\u00f3ria da presidente Dilma. Deve-se lembrar que antes do levante popular de 2013 a economia ia aparentemente bem, o emprego e o sal\u00e1rio aumentavam, mas isso era insuficiente para aqueles milh\u00f5es que sa\u00edram \u00e0s ruas pedindo educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade de qualidade. At\u00e9 hoje nenhum dos problemas que gerou aquela revolta foi resolvido. N\u00e3o se pode esquecer ainda que Dilma tamb\u00e9m imaginou equivocadamente que se cedesse \u00e0 direita poderia acalm\u00e1-la e terminou sendo destitu\u00edda, levando a um per\u00edodo dram\u00e1tico na conjuntura brasileira, com os governos de Temer e, posteriormente, Bolsonaro.<\/p>\n<p>Portanto, mesmo levando em conta as dificuldades e diante dessa conjuntura complexa, as for\u00e7as revolucion\u00e1rias n\u00e3o devem ter nenhuma ilus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao governo Lula. Esse governo n\u00e3o dever\u00e1 realizar nenhuma reforma estrutural na economia nem estimular\u00e1 a participa\u00e7\u00e3o das massas para mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as porque amarrou o seu destino \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o de classe e est\u00e1 adotando pol\u00edticas ainda mais rebaixadas que no per\u00edodo anterior, restando \u00e0 popula\u00e7\u00e3o apenas as migalhas do banquete das classes dominantes.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura, devemos caminhar com as pr\u00f3prias pernas, procurando agregar todos aqueles que lutam por mudan\u00e7as de verdade, na certeza de que dever\u00e1 ocorrer um acirramento da luta de classes e n\u00e3o pode ser descartado nenhum cen\u00e1rio em nosso pa\u00eds. Em termos pr\u00e1ticos, a esquerda revolucion\u00e1ria deve atuar em duas frentes: de um lado combater firmemente o neofascismo, exigir a pris\u00e3o de Bolsonaro e seus c\u00famplices e, ao mesmo tempo, denunciar as pol\u00edticas antipopulares do governo Lula, ampliar o trabalho de base, continuar defendendo a necessidade de colocar as massas na rua para mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e preparar a contraofensiva da classe trabalhadora, com vistas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da Frente Anticapitalista e Anti-imperialista, na perspectiva do poder popular e do socialismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32316\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[385,66,10,383],"tags":[222],"class_list":["post-32316","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica-da-economia-politica","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8pe","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32316"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32316\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32323,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32316\/revisions\/32323"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}