{"id":3232,"date":"2012-07-26T01:19:42","date_gmt":"2012-07-26T01:19:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3232"},"modified":"2012-07-26T01:19:42","modified_gmt":"2012-07-26T01:19:42","slug":"periferia-em-estado-de-sitio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3232","title":{"rendered":"Periferia em estado de s\u00edtio?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Militantes do MTST denunciam onda de criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza na periferia de S\u00e3o Paulo.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mtst.org\/index.php\/noticias\/661-periferia-em-estado-de-sitio.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.mtst.org\/index.php\/noticias\/661-periferia-em-estado-de-sitio.html<\/a><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, a Pol\u00edcia Militar tem sitiado v\u00e1rios bairros perif\u00e9ricos da Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo. Numa suposta rea\u00e7\u00e3o a ataques do crime organizado, policiais tomam comunidades, fecham ruas e abordam de forma indiscriminada e frequentemente agressiva os moradores. Como costuma ocorrer em casos como este, a \u201crea\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 inteiramente desproporcional \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de desorientada.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio de junho, quando a ROTA protagonizou uma brutal chacina na Zona Leste, executando 6 pessoas que estariam em uma \u201creuni\u00e3o do PCC\u201d, o clima de terror alastrou-se pelas periferias. Segundo a pr\u00f3pria PM, cerca de 100 mil pessoas foram abordadas entre os dias 24 e 30 de junho. Neste mesmo per\u00edodo, cerca de 400 pessoas foram presas. Mas estes n\u00fameros s\u00e3o apenas a face p\u00fablica da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Momentos como este, em que a pol\u00edcia \u2013 estimulada pela maior parte da imprensa e pelo sentimento fascista de um setor da classe m\u00e9dia \u2013 coloca-se como v\u00edtima, que precisa reagir em nome da lei e do Estado de Direito, s\u00e3o extremamente perigosos. Abre-se ent\u00e3o a temporada de ca\u00e7a aos \u201ccriminosos\u201d, identificados sem muita restri\u00e7\u00e3o aos pobres, moradores da periferia, negros e, preferencialmente, jovens. Julgamentos sum\u00e1rios, exterm\u00ednios e acertos de contas s\u00e3o feitos em nome da lei e da ordem.<\/p>\n<p>H\u00e1 seis anos o mesmo estado de S\u00e3o Paulo vivenciou uma situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga. O resultado foi a maior chacina, ainda que descentralizada, de que se tem not\u00edcia nas \u00faltimas d\u00e9cadas no Brasil. Entre os dias 12 e 20 de maio de 2006, 493 pessoas, em sua maioria jovens da periferia, foram mortos pela PM. \u00c0 \u00e9poca, associaram-se tais mortes a uma rea\u00e7\u00e3o da PM aos ataques e os mortos a criminosos do PCC. Os relatos daquele maio sangrento foram recuperados e podem ser acessados por todos atrav\u00e9s do Movimento das M\u00e3es de Maio, organiza\u00e7\u00e3o de mulheres que perderam seus filhos na suposta rea\u00e7\u00e3o ao crime organizado.<\/p>\n<p>Esta Cruzada contra o \u201ccrime\u201d de 2006, naturalmente n\u00e3o reduziu os \u00edndices de criminalidade no estado. N\u00e3o era esse seu objetivo. \u00c9 mais do que sabido que o combate ao crime organizado passa, antes de tudo, por enfrentar suas profundas ramifica\u00e7\u00f5es dentro do pr\u00f3prio Estado e, em particular, da pol\u00edcia. O que a chacina de 2006 representou foi uma oportunidade privilegiada de criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza, de exterm\u00ednio s\u00e1dico e de mostrar aos trabalhadores mais pobres qual deve ser o seu lugar nesta sociedade.<\/p>\n<p>As \u00faltimas semanas nos fizeram reviver este pesadelo. Toques de recolher, pris\u00f5es e mortes obscuras est\u00e3o novamente sendo naturalizados pelo governo e imprensa sob o argumento do combate ao crime. N\u00e3o nos parece natural que a PM imponha toques de recolher no Cap\u00e3o Redondo, Jardim S\u00e3o Luiz e Graja\u00fa ou em regi\u00f5es de Guarulhos, como ocorreu dias atr\u00e1s.<\/p>\n<p>No Cap\u00e3o Redondo, depois da morte de um policial que estava de folga, pelo menos 8 pessoas foram executadas por um grupo encapuzado. Ap\u00f3s um destes exterm\u00ednios, o do copeiro Eleandro Cavalcante de Abreu, de 21 anos, um \u00f4nibus foi incendiado em protesto. Entre 17 e 28 de junho, j\u00e1 foram 21 assassinatos no bairro. Moradores do bairro Jd. S\u00e3o Bento Novo afirmam que a pol\u00edcia baleou tr\u00eas jovens que n\u00e3o tinham sequer passagem pela pol\u00edcia. No Jardim S\u00e3o Luiz, 6 jovens foram executados em situa\u00e7\u00e3o semelhante.<\/p>\n<p>O hospital do M\u2019Boi Mirim, na mesma regi\u00e3o, atendia cerca de 6 feridos por bala nos dias que seguiram os ataques. A m\u00e9dia desse tipo de atendimento era de 2 por semana, segundo funcion\u00e1rios do hospital.<\/p>\n<p>No Graja\u00fa, tamb\u00e9m na zona sul, ap\u00f3s ataque a uma base da PM, a quinta feira dia 27 foi de bastante temor para os moradores. Helic\u00f3pteros e ostensiva presen\u00e7a da For\u00e7a T\u00e1tica impunham toque de recolher como forma de retalia\u00e7\u00e3o. Moradores do bairro dos Pimentas, em Guarulhos, afirmam que al\u00e9m do toque de recolher, cerca de 13 pessoas foram executadas nos \u00faltimos dias. No \u00faltimo dia 2 de julho, a Rota executou dois jovens em Sapopemba, zona leste da capital. Apenas entre os dias 17 e 28 de junho, 127 pessoas foram assassinadas, o que \u00e9 53% mais do que o mesmo per\u00edodo do ano passado.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o apenas algumas das den\u00fancias que conseguimos levantar. O pr\u00f3prio jornal Folha de S. Paulo publicou, no dia 5 de junho, que os homic\u00eddios cometidos por policiais da ROTA aumentaram 45% nos cinco primeiros meses deste ano em rela\u00e7\u00e3o a 2001 e 104% em rela\u00e7\u00e3o a 2010. Ou seja, antes mesmo dos ataques a bases da PM, que teriam provocado a \u201crea\u00e7\u00e3o\u201d, a pol\u00edcia j\u00e1 estava num ataque crescente.<\/p>\n<p>Todos sabem que a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o que vive na periferia n\u00e3o faz parte do crime organizado. Muito diferente disso, somos trabalhadores formais, informais, desempregados e quase sempre super-explorados. Em troca, direitos b\u00e1sicos nos s\u00e3o negados cotidianamente. Nossa pobreza \u00e9 tratada como crime a ser punido e reprimido. A \u00fanica face do Estado de Direito que se apresenta nas periferias \u00e9 a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>O governador Geraldo Alckimin foi \u00e0 imprensa para dizer que quem enfrentar o Estado vai perder. Sua Secret\u00e1ria de justi\u00e7a, Sra. Elo\u00edsa Arruda, j\u00e1 havia dito na ocasi\u00e3o do massacre do Pinheirinho que, para ela, a legalidade est\u00e1 acima dos direitos humanos. A senha foi dada. Enquanto isso, a chacina continua a c\u00e9u aberto&#8230;<\/p>\n<p><em>*Membros da coordena\u00e7\u00e3o nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) e da Resist\u00eancia Urbana \u2013 Frente Nacional de Movimentos<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 3.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nGuilherme Boulos e Guilherme Sim\u00f5es*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3232\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[88],"tags":[],"class_list":["post-3232","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c101-criminalizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Q8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3232","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3232"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3232\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3232"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3232"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3232"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}