{"id":32324,"date":"2024-12-08T12:53:55","date_gmt":"2024-12-08T15:53:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32324"},"modified":"2024-12-08T12:53:55","modified_gmt":"2024-12-08T15:53:55","slug":"karl-marx-jornalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32324","title":{"rendered":"Karl Marx jornalista"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32325\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32324\/image-2-18\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-2.png?fit=811%2C569&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"811,569\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image (2)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-2.png?fit=747%2C524&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-32325\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-2.png?resize=747%2C524&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"524\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-2.png?w=811&amp;ssl=1 811w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-2.png?resize=300%2C210&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-2.png?resize=768%2C539&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image-2.png?resize=120%2C85&amp;ssl=1 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por D\u00caNIS DE MORAES*<\/p>\n<p>Publicado originalmente em A Terra \u00e9 Redonda, 13\/08\/2020<\/p>\n<p>Uma tribuna na batalha das ideias: imprensa, cr\u00edtica pol\u00edtica e revolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria jornal\u00edstica de Karl Marx reflete o compromisso de um intelectual revolucion\u00e1rio que buscou construir, mesmo em conjunturas complexas e desfavor\u00e1veis (como nas vezes em que, perseguido por governos autorit\u00e1rios e na condi\u00e7\u00e3o de ap\u00e1trida, foi obrigado a trabalhar nos estreitos limites do ex\u00edlio), uma imprensa refrat\u00e1ria \u00e0 mercantiliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e orientada a ser um instrumento de esclarecimento, forma\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra a domina\u00e7\u00e3o capitalista, ao mesmo tempo alinhada a causas democr\u00e1ticas, populares e socialistas.<\/p>\n<p>Marx inscreveu-se numa tend\u00eancia que se delineou no \u00e2mbito europeu desde meados do s\u00e9culo XIX at\u00e9 as d\u00e9cadas inaugurais do s\u00e9culo XX: intelectuais de esquerda atuavam na cena p\u00fablica como jornalistas e ativistas, valendo-se de jornais e revistas para a dissemina\u00e7\u00e3o de suas ideias e propostas. Entre in\u00fameros exemplos, podemos citar os de Karl Marx, Friedrich Engels, Vladimir I. Lenin, Antonio Gramsci, Karl Kautsky, Rosa Luxemburgo, Leon Trotski, Nikolai Bukharin, M\u00e1ximo Gorki, Jean Jaur\u00e8s, Gueorgui Plekhanov, Clara Zetkin e Alexandra Kollontai. V\u00e1rios deles n\u00e3o apenas exerceram o jornalismo, como tamb\u00e9m teorizaram sobre a imprensa como \u00e2mbito prop\u00edcio a atividades de informa\u00e7\u00e3o, conscientiza\u00e7\u00e3o, agita\u00e7\u00e3o, propaganda e difus\u00e3o contra-hegem\u00f4nica. Em especial, Marx, Lenin e Gramsci, com estilos pr\u00f3prios e em circunst\u00e2ncias espec\u00edficas, se enquadraram nesse perfil, procurando combinar a pr\u00e1tica profissional, a milit\u00e2ncia e as reflex\u00f5es sobre as pr\u00e1ticas, os m\u00e9todos e o alcance social do jornalismo.<\/p>\n<p>A obra jornal\u00edstica de Marx \u00e9 fortemente imbricada com a sua produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Para ele, no exerc\u00edcio do jornalismo \u00e9 vi\u00e1vel aproximar as convic\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas da interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica concreta. Mario Espinoza Pino (2014, p. 118) sustenta s\u00f3 ser poss\u00edvel entender a constru\u00e7\u00e3o e a evolu\u00e7\u00e3o do pensamento do fil\u00f3sofo alem\u00e3o se levarmos em conta sua trajet\u00f3ria como jornalista, pois era por meio da profiss\u00e3o que ele recolhia dados, se interrogava sobre o que estava por tr\u00e1s dos acontecimentos e expunha seus pontos de vista. \u201c\u00c9 o espa\u00e7o onde se forjam suas ideias, onde emergem suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de maneira mais viva\u201d, ressalta Pino, acrescentando que a riqueza dos artigos est\u00e1 na capacidade de Marx de retratar \u201ctodos e cada um dos aspectos do s\u00e9culo XIX\u201d (ibid., p. 30).<\/p>\n<p>O jornalismo emergiu como sa\u00edda profissional depois de Marx ter finalizado a tese de doutorado na Universidade de Jena, em 15 de abril de 1841, e ver naufragar seis meses depois o sonho da vida acad\u00eamica com a demiss\u00e3o, por motivos pol\u00edticos, de Bruno Bauer na Universidade de Bonn. Bauer era um dos l\u00edderes dos jovens fil\u00f3sofos hegelianos de esquerda que formavam o Doktorclub (Clube dos Doutores) e se reuniam num caf\u00e9 da Rua dos Franceses, onde conhecera e se tornara amigo de Marx, no per\u00edodo em que este estudava na mesma universidade. O grupo hegeliano foi atingido pela vaga reacion\u00e1ria ap\u00f3s a ascens\u00e3o de Frederico Guilherme IV ao trono da Pr\u00fassia, em 1840. Para complicar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o de Marx, os fundos de sua fam\u00edlia estavam se esgotando depois da morte do pai, Heinrich, em 1838.<\/p>\n<p>Naquele contexto, o jornalismo estava longe de oferecer carreira est\u00e1vel e promissora. Era uma atividade mal remunerada e um ref\u00fagio para iniciantes com alguma inclina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ou jovens intelectuais inquietos que, n\u00e3o conseguindo ou n\u00e3o tendo chance de definir-se por outra profiss\u00e3o, acabavam gravitando nas reda\u00e7\u00f5es para ganhar o que fosse poss\u00edvel, ou simplesmente para publicar seus escritos. As dificuldades financeiras n\u00e3o davam muita escolha ao jovem Marx, que, at\u00e9 ent\u00e3o, s\u00f3 publicara poemas numa revista simpatizante do Romantismo.<\/p>\n<p>Marx escreveu inicialmente na revista Anais Alem\u00e3es de Ci\u00eancia e Arte (Deutsche Jahrb\u00fccher f\u00fcr Wissenschaft and Kunst), dirigida por Arnold Ruge e Theodor Echtermeyer. Seu primeiro artigo foi contra a censura, sublinhando a sua incompatibilidade com uma imprensa digna e livre. N\u00e3o chegou a ser publicado por veto dos censores do regime. Em maio de 1842, aos 24 anos, passou a colaborar com a Gazeta Renana (Rheinische Zeitung), fundada no dia 1\u00b0 de janeiro de 1842, em Col\u00f4nia, por seu amigo Moses Hess. A Ren\u00e2nia era a regi\u00e3o mais desenvolvida da Pr\u00fassia, onde cresciam as reivindica\u00e7\u00f5es por reformas, e Col\u00f4nia, o centro da atividade econ\u00f4mica e de efervesc\u00eancia cultural. A chamado de Hess, Marx participou de discuss\u00f5es sobre o projeto do jornal.<\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise sobre a evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do jovem Marx, Michael L\u00f6wy (2012, p. 53-55) observa que a Gazeta Renana acabou sendo um \u201ccasamento de curta dura\u00e7\u00e3o\u201d entre a burguesia liberal, que se fortalecia com a expans\u00e3o da ind\u00fastria, queria ascender ao poder pol\u00edtico e reclamava um Estado unit\u00e1rio e capaz de favorecer seus interesses econ\u00f4micos, e o hegelianismo de esquerda. Os terrenos comuns eram a oposi\u00e7\u00e3o ao Estado prussiano burocr\u00e1tico-feudal, o fim dos privil\u00e9gios do absolutismo mon\u00e1rquico e a vig\u00eancia de um regime constitucional que assegurasse as liberdades de imprensa, de reuni\u00e3o e de com\u00e9rcio, bem como a separa\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e Estado. Ap\u00f3s a expuls\u00e3o da Universidade de Bonn, os hegelianos de esquerda perderam seus espa\u00e7os de express\u00e3o (revistas filos\u00f3ficas, c\u00e1tedras) e aliaram-se na oposi\u00e7\u00e3o, taticamente, aos liberais burgueses, estes decepcionados com o car\u00e1ter intervencionista da monarquia, que os impedia de participar das esferas do poder, embora economicamente estivessem se convertendo na classe mais proeminente. Conforme L\u00f6wy, ao fechar as portas da universidade para os hegelianos, o governo \u201cfor\u00e7ou a filosofia a \u2018instalar-se nos jornais\u2019, a \u2018tornar-se profana\u2019 e a ocupar-se de problemas pol\u00edticos e sociais concretos\u201d. O fato determinante para Marx se lan\u00e7ar no jornalismo e na vida pol\u00edtica foi o fim da ilus\u00e3o quanto \u00e0 carreira universit\u00e1ria estimulada por Bauer.<\/p>\n<p>A imprensa tornou-se, para intelectuais progressistas, uma das raras tribunas de debate filos\u00f3fico, pol\u00edtico e liter\u00e1rio. Para isso contribuiu o surgimento de peri\u00f3dicos que, na contram\u00e3o da imprensa servil ao imp\u00e9rio, abordavam os problemas sociais, de algum modo apoiando articula\u00e7\u00f5es contra o absolutismo mon\u00e1rquico, bem como as press\u00f5es por uma Constitui\u00e7\u00e3o liberal com regime parlamentarista e liberdade de imprensa e de reuni\u00e3o. O projeto da Gazeta Renana encaixou-se nesse cen\u00e1rio, e Marx a ele se juntou, talvez sem supor que seria etapa relevantes no amadurecimento de seu pensamento pol\u00edtico e no confronto com a realidade.<\/p>\n<p>Ao escrever, em 1859, o pref\u00e1cio de uma de suas obras cl\u00e1ssicas, Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, Marx (2008a, p. 46) qualificou a experi\u00eancia na Gazeta Renana como motivadora para os seus estudos econ\u00f4micos: \u201cMinha \u00e1rea de estudos era a jurisprud\u00eancia, \u00e0 qual, todavia, eu n\u00e3o me dediquei sen\u00e3o de um modo acess\u00f3rio, como uma disciplina subordinada relativamente \u00e0 Filosofia e \u00e0 Hist\u00f3ria. Em 1842-1843, na qualidade de redator da Rheinische Zeitung (Gazeta Renana), encontrei-me, pela primeira vez, na embara\u00e7osa obriga\u00e7\u00e3o de opinar sobre os chamados interesses materiais. Os debates do Landtag [Parlamento regional] renano sobre os delitos florestais e o parcelamento da propriedade fundi\u00e1ria, a pol\u00eamica oficial que o sr. Von Schaper, ent\u00e3o governador da prov\u00edncia renana, travou com a Gazeta Renana sobre as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia dos camponeses do Mosela, as discuss\u00f5es, por \u00faltimo, sobre o livre-c\u00e2mbio e o protecionismo, proporcionaram-me os primeiros motivos para que eu come\u00e7asse a me ocupar das quest\u00f5es econ\u00f4micas\u201d.<\/p>\n<p>Nos textos inaugurais na Gazeta Renana, Marx denunciou o car\u00e1ter reacion\u00e1rio das novas instru\u00e7\u00f5es baixadas em dezembro de 1841 pelo governo imperial a pretexto de atenuar a censura e permitir maior liberdade de express\u00e3o. Ao abordar as desigualdades sociais, assumiu a defesa dos camponeses pobres do sul do Reno contra a explora\u00e7\u00e3o pelos grandes propriet\u00e1rios de terras. N\u00e3o era ainda comunista, pois, como se sabe, s\u00f3 se iria aderir na segunda metade de 1843, \u201cap\u00f3s um acerto de contas mais complexo e prolongado com o liberalismo e a filosofia hegeliana\u201d (Hobsbawm, 1979, p. 33).<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os artigos iam sendo publicados, ficou claro, de acordo com seu bi\u00f3grafo Francis Wheen (2007), que Marx reunia qualidades indispens\u00e1veis a todo grande jornalista: \u201ca determina\u00e7\u00e3o de falar a verdade ao poder e uma intrepidez absoluta, mesmo quando escrevia sobre pessoas de cuja amizade ou apoio ele podia precisar\u201d. Conv\u00e9m precisar, em linha com Francisco Fern\u00e1ndez Buey (2009, p. 63), que o estilo jornal\u00edstico de Marx n\u00e3o se confundia com cr\u00f4nicas tradicionais ou mat\u00e9rias investigativas; aproximava-se de uma variante ensa\u00edstica cujo \u201cponto de partida \u00e9 a cr\u00f4nica sociopol\u00edtica imediatamente desdobrada em reflex\u00e3o politico-filos\u00f3fica: nele, a afirma\u00e7\u00e3o de pontos de vista se sobrep\u00f5es constantemente \u00e0 an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o ou de determinados acontecimentos politico-culturais\u201d.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o breve salto cronol\u00f3gico para atestar a exatid\u00e3o de Buey ao destacar que as an\u00e1lises engajadas do jornalista Marx ultrapavam a dimens\u00e3o corriqueira dos fatos. Refiro-me ao magistral artigo \u201cA burguesia e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o\u201d (Nova Gazeta Renana, n. 165, 10\/12\/1848). Ele estabelece um jogo de paralelos e distin\u00e7\u00f5es entre as revolu\u00e7\u00f5es inglesa (1648), francesa (1789) e alem\u00e3 (1848) para caracterizar como a trai\u00e7oeira burguesia de seu pa\u00eds e de sua \u00e9poca (e, com impressionante atualidade, do nosso tempo sombrio e desenganado) se esgueirava como uma serpente ardilosa por entre as tramas pol\u00edticas, para, na hora crucial, dar o bote e fazer prevalecer seus interesses e ambi\u00e7\u00f5es: \u201cA burguesia alem\u00e3 tinha se desenvolvido com tanta indol\u00eancia, covardia e lentid\u00e3o que, no momento em que se ergueu amea\u00e7adora em face do feudalismo e do absolutismo, percebeu diante dela o proletariado amea\u00e7ador, bem como todas as fra\u00e7\u00f5es da burguesia cujas ideias e interesses s\u00e3o aparentados aos do proletariado. (\u2026) Ela havia deca\u00eddo ao n\u00edvel de uma esp\u00e9cie de casta, tanto hostil \u00e0 Coroa como ao povo (\u2026); estava disposta desde o in\u00edcio a trair o povo e o compromisso com o representante coroada da velha sociedade; representando n\u00e3o os interesses de uma sociedade nova contra uma sociedade velha, mas interesses renovados no interior de uma sociedade envelhecida (\u2026); na ponta n\u00e3o porque representava a iniciativa de uma nova \u00e9poca social, mas o rancor de uma \u00e9poca social velha (\u2026); sem f\u00e9 em si mesma, sem f\u00e9 no povo, rosnando para os de cima, tremendo diante dos de baixo, ego\u00edsta em rela\u00e7\u00e3o aos dois lados e consciente de seu ego\u00edsmo, revolucion\u00e1ria contra os conservadores, conservadora contra os revolucion\u00e1rios, desconfiada de suas pr\u00f3prias palavras de ordem, frases em lugar de ideias, intimidada pela tempestade mundial, mas dela desfrutando \u2013 sem energia em nenhum sentido, plagi\u00e1ria em todos os sentidos, vulgar porque n\u00e3o era original e original na vulgaridade \u2013 e traficando com seus pr\u00f3prios desejos, sem iniciativa, sem f\u00e9 em si mesma, sem f\u00e9 no povo, sem miss\u00e3o hist\u00f3rico-mundial \u2013 um anci\u00e3o maldito que se via condenado a dirigir e a desviar, em seu pr\u00f3prio interesse decr\u00e9pito, as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es de juventude de um povo robusto \u2013 sem olhos! sem ouvidos! sem dentes! sem nada! (\u2026).\u201d (Marx, 2010b, p. 324-325).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s cinco meses como colaborador, Marx foi designado redator-chefe da Gazeta Renana em 15 de outubro de 1842. Imprimiu um estilo editorial mais incisivo, desde a cobertura di\u00e1ria da Dieta Renana e do governo em Berlim \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o meticulosa dos acontecimentos, com an\u00e1lises aprofundadas e um tom cr\u00edtico que \u00e0s vezes surpreendia pela aud\u00e1cia nas ironias. N\u00e3o demorou a afastar-se do grupo hegeliano de esquerda, avaliando que a sua radicalidade filos\u00f3fica dificultava uma estrat\u00e9gia mais ampla de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade alem\u00e3.<\/p>\n<p>Entre os cr\u00edticos de Marx, h\u00e1 os que veem certas ambiguidades nas avalia\u00e7\u00f5es do redator-chefe. A dissocia\u00e7\u00e3o com os hegelianos teria ocorrido por descontentamento da dire\u00e7\u00e3o da Gazeta Renana com as cr\u00edticas do grupo ao liberalismo renano. Questiona-se o fato de, sendo defensor da liberdade de imprensa, o redator-chefe ter deixado de publicar artigos de alguns colaboradores de esquerda, por consider\u00e1-los extremados. Mas, em sua biografia de Marx, Leandro Konder (1999, p. 26) indica elementos que, provavelmente, o nortearam na tomada de decis\u00f5es: \u201cAnimados com as posi\u00e7\u00f5es liberais e progressistas da Gazeta Renana, alguns jovens de Berlim mandavam para o jornal artigos pontilhados de vibrantes tiradas comunistas. Marx, por\u00e9m, considerava os artigos superficiais e demag\u00f3gicos. Um dia, chamou o l\u00edder dos mo\u00e7os berlinenses \u2013 um certo Meyen \u2013 e disse-lhe, com franqueza, que considerava \u201cinadequado, e at\u00e9 mesmo imoral, impingir de passagem, como contrabando, em cr\u00edticas de teatro etc., os dogmas comunistas e socialistas, isto \u00e9, ideologias novas\u201d. Disse-lhe mais, que, a seu ver, \u201cera preciso tratar do comunismo de outro modo, de maneira mais fundamentada\u201d. Meyen n\u00e3o gostou e os mo\u00e7os socialistas de Berlim romperam rela\u00e7\u00f5es com o jovem diretor da Gazeta Renana. Marx, no entanto, ficou com aquela ideia na cabe\u00e7a: havia de examinar mais a fundo a doutrina do comunismo.\u201d<\/p>\n<p>O conturbado cen\u00e1rio pol\u00edtico incumbiu-se de encurtar a perman\u00eancia de Marx \u00e0 frente da Gazeta Renana. Se por um lado conquistara proje\u00e7\u00e3o nos c\u00edrculos intelectuais por seu trabalho (inclusive conhecera pessoalmente, em visita \u00e0 reda\u00e7\u00e3o, Friedrich Engels, seu brilhante parceiro intelectual, amigo fiel e articulista do jornal), por outro os conflitos internos se tornaram constantes. E isso apesar de a tiragem ter saltado de 400 para 3.500 exemplares. O vi\u00e9s cr\u00edtico introduzido por Marx superava em ousadia os demais jornais liberais e se constitu\u00eda num divisor de \u00e1guas no choque com o absolutismo mon\u00e1rquico.<\/p>\n<p>Por\u00e9m ele enfrentava animosidades em tr\u00eas frentes. A imprensa conservadora o combatia sistematicamente. Os acionistas capitalistas o acusavam de radicalizar a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem vigente e p\u00f4r em risco a sobreviv\u00eancia do jornal. J\u00e1 para as autoridades prussianas, Marx era um \u201cagitador subversivo\u201d que precisava ser barrado e silenciado. A dire\u00e7\u00e3o da Gazeta Renana exigiu que se evitasse conflito com o poder pol\u00edtico local, que acabara de pedir ao governo central em Berlim que o indiciasse por \u201ccr\u00edtica impudente e desrespeitosa\u201d. Marx se recusou a fazer concess\u00f5es. A resposta veio no decreto governamental que p\u00f4s o jornal sob censura, a partir de 19 de janeiro de 1843. Resistiu no cargo de outubro de 1842 a fevereiro de 1843.<\/p>\n<p>Para agravar, o czar Nicolau II, dizendo-se ofendido por \u201cdiatribes\u201d e \u201cdifama\u00e7\u00f5es\u201d contra o Imp\u00e9rio russo, solicitou ao rei da Pr\u00fassia puni\u00e7\u00e3o \u00e0 Gazeta Renana. Os processos judiciais, inclusive contra Marx, levaram \u00e0 cassa\u00e7\u00e3o do registro do jornal pelo Minist\u00e9rio do Interior, em 1\u00bade abril de 1843. Em carta a Arnold Ruge, Marx (1987, p. 69) disse que n\u00e3o chegou a se surpreender com o desfecho, pois, desde a vig\u00eancia das novas instru\u00e7\u00f5es para a censura, havia uma amea\u00e7a permanente \u00e0s publica\u00e7\u00f5es que se atrevessem a desafiar o poder imperial. E desabafou sobre a sua demiss\u00e3o: \u201cA atmosfera aqui se tornou irrespir\u00e1vel para mim. Mesmo a servi\u00e7o da liberdade, \u00e9 duro cumprir uma tarefa servil, e ter que lutar com alfinetadas ao inv\u00e9s de desfechar golpes de martelo. Eu j\u00e1 estava farto de tanta hipocrisia, de tanta tolice, de tanto autoritarismo brutal, de tanto ajoelhar-se, adaptar-se e curvar-se, de tanto ter que cuidar da escolha de palavras. \u00c9 como se o governo me houvesse devolvido a liberdade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMinar todas as bases do sistema pol\u00edtico existente\u201d<\/p>\n<p>A experi\u00eancia na Gazeta Renana resultou significativa para Marx em v\u00e1rios planos. Jos\u00e9 Paulo Netto (2012, p. 10) sublinha que ele \u201cfoi obrigado a enfrentar a realidade imediata da vida pol\u00edtica e constatou que a sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica era insuficiente para dar conta dos conflitos que moviam a sociedade \u2013 constata\u00e7\u00e3o que o estimulou a realizar estudos hist\u00f3ricos e pol\u00edticos\u201d. Marx tamb\u00e9m comprovou as limita\u00e7\u00f5es do liberalismo alem\u00e3o em defesa de seus pr\u00f3prios princ\u00edpios (tanto que os l\u00edderes liberais de Col\u00f4nia reagiram timidamente \u00e0 censura imposta ao jornal), o que contribuiu para sedimentar as suas convic\u00e7\u00f5es e, depois, se afastar dos fil\u00f3sofos do Doktorclub, centrados, a seu ver, num idealismo abstrato que j\u00e1 n\u00e3o correspondia \u00e0 sua an\u00e1lise das quest\u00f5es concretas. A \u201cdescoberta da pol\u00edtica\u201d como dimens\u00e3o necess\u00e1ria da vida social foi assim uma das consequ\u00eancias da passagem pela Gazeta Renana.<\/p>\n<p>As vicissitudes enfrentadas por Marx acabaram equiparando sua carreira jornal\u00edstica a uma esp\u00e9cie de gangorra: ora experimentava o entusiasmo de intervir na realidade com artigos sem meias-tintas; ora se deparava com rusgas internas, censura e persegui\u00e7\u00f5es que o desalojavam das reda\u00e7\u00f5es e o obrigavam a encontrar sa\u00eddas de sobreviv\u00eancia, com a retomada do trabalho no exterior.<\/p>\n<p>O primeiro de seus ex\u00edlios aconteceu ap\u00f3s a suspens\u00e3o da Gazeta Renana. Em outubro de 1843, convencido de que n\u00e3o teria futuro na Pr\u00fassia, mudou-se para Paris, onde tomou contato com o movimento oper\u00e1rio franc\u00eas, acompanhou o debate ideol\u00f3gico das tend\u00eancias socialistas revolucion\u00e1rias e alargou conhecimentos sobre economia e filosofia pol\u00edticas. Leu pensadores pol\u00edticos como Rousseau e Montesquieu e estudos sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Come\u00e7ou a evoluir do idealismo hegeliano para o materialismo dial\u00e9tico. Os Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos, escritos entre abril e agosto de 1844, s\u00e3o um reflexo desse c\u00e2mbio de \u00f3tica. Ele explicita uma vigorosa cr\u00edtica \u00e9tico-pol\u00edtica ao capitalismo, denunciando a aliena\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e pregando uma \u201ca\u00e7\u00e3o comunista efetiva\u201d contra o jugo da propriedade privada (Marx, 2010a).<\/p>\n<p>Na capital francesa, a convite de Arnold Ruge, Marx tornou-se redator-chefe da rec\u00e9m-criada revista Anais Franco-Alem\u00e3es (Deutsche-Franz\u00f6sische Jahrb\u00fccher), projeto surgido numa troca de cartas entre Marx, Engels, Ludwig Feuerbach, Mikhail Bakunin e Ruge. A revista, que congregava outros exilados, queria contribuir para a renova\u00e7\u00e3o do pensamento filos\u00f3fico em intera\u00e7\u00e3o com o mundo social, atrav\u00e9s de uma s\u00edntese da filosofia cl\u00e1ssica e do materialismo franc\u00eas, capaz de intensificar a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (Frederico, 2009, p. 93-95).<\/p>\n<p>Apesar de uma \u00fanica edi\u00e7\u00e3o dupla ter circulado em princ\u00edpios de 1844, foi nos Anais Franco-Alem\u00e3es que ele publicou, pela primeira vez, a introdu\u00e7\u00e3o de Cr\u00edtica da filosofia do direito de Hegel (1843) e A quest\u00e3o judaica(1844). Esses textos assinalam a sua passagem do radicalismo democr\u00e1tico a uma etapa revolucion\u00e1ria, fundamentada no materialismo hist\u00f3rico. Com o fim da revista ainda em 1844, parte da reda\u00e7\u00e3o se juntou a outro jornal formado por exilados, Avante (Vorw\u00e4rts), francamente contr\u00e1rio \u00e0 monarquia prussiana, e que reunia entre seus colaboradores intelectuais como Engels, Bakunin, Heinrich Heine, Georg Herwegh, Georg Weerth, Georg Weber e Heinrich B\u00fcrgers. O grupo promovia confer\u00eancias semanais para discuss\u00f5es editoriais e an\u00e1lises de conjuntura. Um dos tr\u00eas artigos de Marx publicados no Avante!, com duras cr\u00edticas a desmandos do imperador Frederico Guilherme IV, contribuiu para a sua expuls\u00e3o do pa\u00eds. Pressionado pelo governo prussiano, o rei da Fran\u00e7a, Lu\u00eds Felipe, ordenou a sua deporta\u00e7\u00e3o, consumada em 3 de fevereiro de 1845.<\/p>\n<p>Marx exilou-se em Bruxelas, onde desenvolveu um dos per\u00edodos mais produtivos de sua vida. L\u00e1 escreveu Teses sobre Feuerbach (1845), A ideologia alem\u00e3 (junto com Engels, 1845-46), A mis\u00e9ria da filosofia (1847) e o seminal Manifesto do Partido Comunista (1848), al\u00e9m de ter proferido confer\u00eancias sobre temas econ\u00f4micos. Ao mesmo tempo que escrevia para peri\u00f3dicos socialistas radicais, Marx aprofundava os estudos filos\u00f3ficos e econ\u00f4micos e a pesquisa hist\u00f3rica que o levariam a superar, depois, o idealismo alem\u00e3o, o hegelianismo, a antropologia feuerbachiana e a economia pol\u00edtica burguesa, evoluindo para os fundamentos do socialismo cient\u00edfico, em oposi\u00e7\u00e3o ao socialismo ut\u00f3pico de outras vertentes europeias.<\/p>\n<p>Preso no final de fevereiro de 1848 sob a falsa acusa\u00e7\u00e3o de ter recebido recursos para comprar armas destinadas \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o, Marx foi expulso da B\u00e9lgica com a fam\u00edlia. Com ajuda financeira de amigos franceses, viajou para Paris, onde se encontrou com Engels. Durante um m\u00eas puderam sentir e participar da rebeli\u00e3o que tomara conta da cidade desde a madrugada de 24 de fevereiro, e cuja chama de contesta\u00e7\u00e3o se propagaria pela Europa at\u00e9 o segundo semestre de 1849. Os movimentos de massa alcan\u00e7aram Inglaterra, Esc\u00f3cia, Fran\u00e7a, Alemanha, It\u00e1lia e Hungria, cada qual tentando responder a problemas de cada pa\u00eds e tendo a uni-las a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem vigente.<\/p>\n<p>Dispostos a impulsionar o movimento revolucion\u00e1rio alem\u00e3o, Marx e Engels voltaram a Col\u00f4nia em meados de abril, ao lado de exilados que integravam a Liga Comunista, fundada pelos dois em 1847. O plano imediato era lan\u00e7ar um jornal que apoiasse as lutas sociais e divulgasse o que acontecia nos demais pa\u00edses. Marx acreditava que o peri\u00f3dico poderia chamar a aten\u00e7\u00e3o de segmentos da opini\u00e3o p\u00fablica para os descompassos existentes na Confedera\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 (onde persistiam condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas semifeudais e o absolutismo mon\u00e1rquico, com a burguesia fora do poder) em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses nos quais a democracia havia progredido.<\/p>\n<p>Marx e Engels contavam com simpatizantes vinculados a associa\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e grupos socialistas de Col\u00f4nia. A liberdade de imprensa na Pr\u00fassia tinha sido restaurada, embora vigorassem dispositivos legais que poderiam ser invocados a qualquer tempo para, supostamente,resguardar as autoridades constitu\u00eddas e a seguran\u00e7a do Estado, tendo como danoso efeito colateral o cerceamento de direitos civis e da liberdade de express\u00e3o. O programa do novo jornal pregava uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa que resultasse na cria\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica alem\u00e3, una e indivis\u00edvel, que n\u00e3o seria um fim em si mesma, e sim um meio e uma etapa preparat\u00f3ria para a revolu\u00e7\u00e3o comunista. O financiamento da publica\u00e7\u00e3o com a venda de a\u00e7\u00f5es foi parcialmente alcan\u00e7ado na ades\u00e3o de admiradores de Marx entre pequenos empres\u00e1rios e profissionais liberais, al\u00e9m de uma parcela do adiantamento da heran\u00e7a que recebera da m\u00e3e e uma quantia oriunda do patrim\u00f4nio pessoal de Engels.<\/p>\n<p>Marx concebia um jornal capaz de \u201cfundir ideias rigorosamente cient\u00edficas e uma doutrina concreta\u201d, credenciando-se a incidir na luta revolucion\u00e1ria com as \u201carmas da cr\u00edtica\u201d. O peri\u00f3dico n\u00e3o se propunha a fazer apologia de um partido. Sua tarefa era a de \u201cesclarecer, seja a situa\u00e7\u00e3o da qual aquele partido deve tomar consci\u00eancia, sejam seus princ\u00edpios, apontar suas fragilidades e equ\u00edvocos, bem como indicar caminhos\u201d. Entendimento semelhante se aplicava \u00e0s rela\u00e7\u00f5es com a popula\u00e7\u00e3o. Embora solid\u00e1rio \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es populares, o jornal n\u00e3o iria trat\u00e1-los como portadores de todas as virtudes. Ou seja, pontua L\u00edvia Cotrim (2010b, p. 39), \u201cn\u00e3o se disp\u00f5e a assumir suas ilus\u00f5es ou contemporizar com elas; ao contr\u00e1rio, explicita as debilidades, hesita\u00e7\u00f5es e erros do movimento revolucion\u00e1rio, evidenciando suas determina\u00e7\u00f5es sociais e as responsabilidades particulares\u201d.<\/p>\n<p>Em 1\u00ba de junho de 1848, tendo Marx como redator-chefe, foi lan\u00e7ado o primeiro n\u00famero da Nova Gazeta Renana (Neue Rheinische Zeitung), \u201c\u00f3rg\u00e3o da democracia\u201d. Mesmo distante geograficamente das ruas conflagradas de Paris, o jornal cobriu os acontecimentos em torno da insurrei\u00e7\u00e3o gra\u00e7as a \u201creportagens estonteantes de Engels, redigidas como se as balas estivessem zunindo ao passar por ele\u201d (Hunt, 2010, p. 184). Uma rede de correspondentes e resumos de jornais estrangeiros obtidos em permutas informais permitiram \u00e0 Nova Gazeta Renana publicar mais not\u00edcias sobre as revolu\u00e7\u00f5es europeias do que qualquer outro jornal da Alemanha. Os esfor\u00e7os surtiram efeito e a tiragem ultrapassou os cinco mil exemplares, com repercuss\u00e3o acima da m\u00e9dia em grupos e associa\u00e7\u00f5es ativistas de Col\u00f4nia. A despeito de algumas conquistas parciais e localizadas, a onda revolucion\u00e1ria resultou em reveses para as for\u00e7as democr\u00e1ticas diante da repress\u00e3o generalizada. For\u00e7osamente a cobertura da Nova Gazeta Renana teve que evidenciar mais recuos do que avan\u00e7os.<\/p>\n<p>Marx assinou artigos sobre as jornadas revolucion\u00e1rias em Paris, a partir de fevereiro de 1848. O fervor inicial levou-o a dizer que \u201ca vit\u00f3ria do povo \u00e9 mais indubit\u00e1vel do que nunca\u201d (n. 27, 27\/6\/48). Depois, com a derrota da rebeli\u00e3o em fins de junho, referiu-se \u00e0 superioridade \u201cda for\u00e7a bruta\u201d e \u00e0 trai\u00e7\u00e3o da burguesia que ficou \u201cdo lado do opressor\u201d (n. 29, 29\/6\/48). Por\u00e9m, fez a ressalva de que os ideais do proletariado e dos trabalhadores n\u00e3o foram abatidos ou vencidos, pois as lutas n\u00e3o cessariam: \u201cO profundo precip\u00edcio que se abriu diante de n\u00f3s pode enganar os democratas, pode nos fazer presumir que as lutas pela forma do Estado sejam vazias de conte\u00fado, ilus\u00f3rias, v\u00e3s? S\u00f3 esp\u00edritos fracos, covardes, podem levantar a quest\u00e3o. As colis\u00f5es que resultam das condi\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria sociedade burguesa devem ser enfrentadas, n\u00e3o poder ser fantasticamente eliminadas. A melhor forma de Estado \u00e9 aquela em que os antagonismos sociais n\u00e3o s\u00e3o esbatidos, n\u00e3o s\u00e3o agrilhoados pela for\u00e7a, ou seja, artificialmente, isto \u00e9, s\u00f3 aparentemente. A melhor forma de Estado \u00e9 aquela que os leva \u00e0 luta aberta, e s\u00f3 com ela \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o\u201d (Marx, 2010b, p. 129).<\/p>\n<p>N\u00e3o haveria outro caminho sen\u00e3o o de estruturar o movimento oper\u00e1rio at\u00e9 transform\u00e1-lo em movimento de classe organizado e suficientemente fortalecido para contrapor-se \u00e0 ordem burguesa e derrogar o capitalismo. Essas formula\u00e7\u00f5es de Marx e Engels, inspiradas no Manifesto do Partido Comunista, vinculam o comunismo ao quadro hist\u00f3rico real das lutas revolucion\u00e1rias do proletariado pela dissolu\u00e7\u00e3o da propriedade privada, base do poder da classe burguesa que a det\u00e9m (Netto, 2012, p. 463). \u00c0 imprensa de esquerda cabia ser o centro irradiador das orienta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas que visavam dar coes\u00e3o ao movimento.<\/p>\n<p>No decorrer de 1848, Marx j\u00e1 era reconhecido como revolucion\u00e1rio, n\u00e3o apenas pela milit\u00e2ncia e pelos escritos sobre emancipa\u00e7\u00e3o, a partir da percep\u00e7\u00e3o do protagonismo do proletariado como sujeito hist\u00f3rico, mas tamb\u00e9m por sua atua\u00e7\u00e3o \u00e0 frente da Nova Gazeta Renana. As dificuldades financeiras eram compensadas pela crescente influ\u00eancia do jornal junto a setores progressistas.<\/p>\n<p>Outro dos seus bi\u00f3grafos, Jonathan Sperber (2014, p. 255) observa que Marx \u201calmejava se tornar uma figura de destaque na cena pol\u00edtica nacional e o p\u00fablico leitor da Nova Gazeta Renana crescia progressivamente dentro do pa\u00eds, como pode ser observado pelas cartas que n\u00e3o paravam de chegar \u00e0 reda\u00e7\u00e3o (\u2026).\u201d E vai al\u00e9m: \u201cEmbora incapaz de definir diretamente o rumo dos eventos em n\u00edvel nacional, a din\u00e2mica da revolu\u00e7\u00e3o garantiu a Marx uma ampla oportunidade de concretizar seu profundo desejo de promover uma insurrei\u00e7\u00e3o (\u2026). Nesse lugar [Nova Gazeta Renana], ele se dedicou \u00e0 pol\u00edtica de ataque aos mesmos inimigos e \u00e0 busca pela maioria dos mesmos objetivos que nortearam sua carreira no per\u00edodo entre 1842 e 1843, com a diferen\u00e7a de que o fazia ent\u00e3o de forma mais aberta, veemente e radical\u201d.<\/p>\n<p>Em seus textos, Marx mesclava talento liter\u00e1rio com interpreta\u00e7\u00f5es contundentes, reflex\u00f5es filos\u00f3ficas e apartes ir\u00f4nicos ou zombeteiros. Como no artigo \u201cA revolu\u00e7\u00e3o de Col\u00f4nia\u201d (n. 115, 13\/10\/1848), em que atacou a pusilanimidade da imprensa do capital no endosso \u00e0 repress\u00e3o ao levante popular na cidade: \u201cA \u201crevolu\u00e7\u00e3o de Col\u00f4nia\u201d, de 25 de setembro, foi uma festa de carnaval, conta-nos a Gazeta de Col\u00f4nia, e a Gazeta de Col\u00f4nia tem raz\u00e3o. Em 26 de setembro, o \u201cComando Militar de Col\u00f4nia\u201d representou Cavaignac [general que, investido de poderes ditatoriais, liderou a violenta repress\u00e3o que sufocou a insurrei\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios parisienses, em junho de 1848]. E a Gazeta de Col\u00f4nia admira a sabedoria e a modera\u00e7\u00e3o do \u201cComando Militar de Col\u00f4nia. Mas, quem \u00e9 mais burlesco \u2013 os trabalhadores, que em 25 de setembro se exercitavam nas barricadas, ou Cavaignac, que em 26 de setembro, com a mais solene gravidade, declarou o estado de s\u00edtio, suspendeu os jornais, desarmou a Guarda Civil, proibiu as associa\u00e7\u00f5es? Pobre Gazeta de Col\u00f4nia! O Cavaignac da \u201crevolu\u00e7\u00e3o de Col\u00f4nia\u201d. Pobre Gazeta de Col\u00f4nia! Deve levar a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d na brincadeira, e deve levar a s\u00e9rio o \u201cCavaignac\u201d dessa revolu\u00e7\u00e3o jocosa. Tema penoso, ingrato, paradoxal!\u201d<\/p>\n<p>Sem falar numa caracter\u00edstica que teria plena resson\u00e2ncia ao longo de sua obra: o rigor com a escrita, que o levava a reescrever v\u00e1rias vezes os textos, at\u00e9 conseguir acalmar a impiedosa autocobran\u00e7a. Anos depois, Engels real\u00e7aria que as fa\u00e7anhas editoriais de Marx equivaleram ao seu momento mais auspicioso como jornalista: \u201cNenhum jornal alem\u00e3o, de antes ou depois, jamais teve o mesmo poder e influ\u00eancia, nem conseguiu eletrizar as massas prolet\u00e1rias t\u00e3o efetivamente quanto a Nova Gazeta Renana. E devemos isso sobretudo a Marx\u201d (Engels apud Hunt, 2010, p. 193).<\/p>\n<p>A Nova Gazeta Renana n\u00e3o circulou entre 27 de setembro e 11 de outubro de 1848, j\u00e1 na vig\u00eancia do estado de s\u00edtio decretado pelo governo prussiano. Desde julho, Marx e Engels vinham sendo indiciados em inqu\u00e9ritos judiciais, sob a alega\u00e7\u00e3o de instigarem \u00e0 revolta e \u00e0 subvers\u00e3o contra a ordem constitu\u00edda. O jornal voltou a sair em 12 de outubro e, da\u00ed em diante, amargou a pen\u00faria. Os poucos investidores desertaram ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de um texto sarc\u00e1stico de Engels sobre a Assembleia Nacional rec\u00e9m-eleita em Frankfurt, o que lhe valeu um mandado de pris\u00e3o, do qual escapou fugindo temporariamente para Berna, na Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p>Censura e liberdade de imprensa<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o complicou-se ainda mais com a nova lei de imprensa, que inclu\u00eda a censura no rol das medidas punitivas. Na edi\u00e7\u00e3o de 15 de mar\u00e7o de 1849, Marx denunciou que peri\u00f3dicos de v\u00e1rias prov\u00edncias do pa\u00eds, inclusive de Berlim, tinham sido ou estavam sendo censurados. Ele ressaltou a omiss\u00e3o e a coniv\u00eancia de empresas jornal\u00edsticas: \u201cA imprensa di\u00e1ria alem\u00e3 \u00e9 a mais irresoluta, sonolenta e covarde institui\u00e7\u00e3o existente sob o sol! As maiores inf\u00e2mias podem ocorrer debaixo de seu nariz, contra ela mesma, e ela cala, oculta tudo; se n\u00e3o descobr\u00edssemos por acaso, pela imprensa certamente nunca ficar\u00edamos sabendo que a gra\u00e7a divina trouxe \u00e0 luz em alguns lugares magn\u00edficas violetas de mar\u00e7o. (\u2026) A reintrodu\u00e7\u00e3o da censura e o aperfei\u00e7oamento da censura comum pela militar certamente s\u00e3o temas que interessam de perto \u00e0 imprensa. E a imprensa das cidades pr\u00f3ximas. A imprensa de Breslau, de Berlim, de Leipzig trata-os como se tudo isso fosse \u00f3bvio! Na verdade, a imprensa alem\u00e3 continua sendo a velha \u201cboa imprensa\u201d. (Marx, 2010b, p. 506-507)<\/p>\n<p>A en\u00e9rgica defesa da liberdade de imprensa marcou a trajet\u00f3ria jornal\u00edstica de Marx. Sem a garantir de informar com transpar\u00eancia e criticar com independ\u00eancia, ele insistia, a imprensa se torna ref\u00e9m de interesses comerciais e industriais que afetam sua credibilidade. Nesse sentido, afirmou que os pseudodefensores burgueses da liberdade de imprensa queriam apenas mesquinhos \u201ctr\u00eas oitavos de liberdade\u201d, de modo a proteger egoisticamente suas conveni\u00eancias.<\/p>\n<p>Por ter sofrido na pele as consequ\u00eancias do \u00f3dio ao pluralismo e do cerco \u00e0 liberdade de express\u00e3o, t\u00edpicos de governos autorit\u00e1rios, Marx repudiava veementemente a censura. Numa s\u00e9rie de seis artigos publicados em maio de 1842 na Gazeta Renana, enalteceu a liberdade de imprensa como um dos direitos universais da humanidade (Marx, 2000, p. 9-99). Para ele, a imprensa censurada produz um efeito desmoralizador: \u201cO v\u00edcio da hipocrisia \u00e9 insepar\u00e1vel dela e, al\u00e9m disso, \u00e9 desse v\u00edcio que surgem todos os seus outros defeitos, pois inclusive sua capacidade de virtude b\u00e1sica perde-se atrav\u00e9s do revoltante v\u00edcio da passividade, mesmo se visto esteticamente\u201d.<\/p>\n<p>Tais v\u00edcios, em seu entender, desviam e isolam o povo da vida pol\u00edtica e da consci\u00eancia cr\u00edtica. Em contraste, \u201ca imprensa livre \u00e9 o olhar onipotente do povo, a confian\u00e7a personalizada do povo nele mesmo, o v\u00ednculo articulado que une o indiv\u00edduo ao Estado e ao mundo, a cultura incorporada que transforma lutas materiais em lutas intelectuais, e idealiza suas formas brutas\u201d. Confrontou a ess\u00eancia \u00e9tica da imprensa livre com a intoler\u00e2ncia e o obscurantismo da censura, \u201cque \u00e9 um ataque constante contra os direitos das pessoas privadas e contra as ideias\u201d. E completou: \u201cO car\u00e1ter de uma imprensa censurada \u00e9 a falta de car\u00e1ter da n\u00e3o liberdade; \u00e9 um monstro civilizado, um aborto perfumado. Necessitamos maiores provas de que a liberdade de imprensa corresponde \u00e0 ess\u00eancia da imprensa e que a censura \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o dela? N\u00e3o \u00e9 evidente que restri\u00e7\u00f5es externas \u00e0 vida intelectual n\u00e3o fazem parte desse car\u00e1ter \u00edntimo, pois elas negam tal vida em vez de afirm\u00e1-la?\u201d (ibid., p. 70).<\/p>\n<p>Em 7 de fevereiro de 1849, defendendo-se perante o Tribunal de Col\u00f4nia no processo por insultos ao procurador-geral na Nova Gazeta Renana, Marx declarou a imprensa deve ficar contra o poder opressor e a favor dos que t\u00eam direitos vilipendiados: \u201cMas, de uma vez por todas, \u00e9 dever da imprensa tomar a palavra em favor dos oprimidos \u00e0 sua volta. E tamb\u00e9m, cavalheiros, a casa da servid\u00e3o tem seus pr\u00f3prios alicerces nas autoridades pol\u00edticas e sociais subordinadas, que confrontam diretamente a vida privada da pessoa, o indiv\u00edduo vivo. N\u00e3o basta combater as condi\u00e7\u00f5es gerais e as altas autoridades. A imprensa precisa decidir entrar na li\u00e7a contra este policial em particular, este procurador, este administrador municipal. Onde foi se espatifar a Revolu\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o? Ela reformou apenas a mais alta c\u00fapula pol\u00edtica, ela n\u00e3o tocou as bases desta c\u00fapula \u2013 a velha burocracia, o velho ex\u00e9rcito, os velhos tribunais, os velhos ju\u00edzes que nasceram, foram treinados e ficaram grisalhos no servi\u00e7o do absolutismo.\u201d Concluiu com uma frase que calou o sal\u00e3o de julgamentos do tribunal: \u201cO primeiro dever da imprensa\u00e9 minar agora todas as bases do sistema pol\u00edtico existente\u201d (Marx, 2000, p. 117-118).<\/p>\n<p>Diante da recusa dos jurados em conden\u00e1-lo, o governo agiu para silenciar de vez o jornal. Forjou um relat\u00f3rio acusando Marx de caluniar autoridades do Estado e estar envolvido nos preparativos de uma nova insurrei\u00e7\u00e3o. Ele rebateu a acusa\u00e7\u00e3o no discurso de defesa apresentado em 14 de fevereiro de 1949: \u201cBasta olhar de relance o artigo incriminado para se persuadir de que a Nova Gazeta Renana, muito longe de qualquer inten\u00e7\u00e3o de ofensa ou cal\u00fania, apenas cumpriu seu dever de denunciar quando atacou o atual Parquet e os gendarmes. O interrogat\u00f3rio das testemunhas lhes provou que, quanto aos gendarmes, apenas relatamos os fatos reais.\u201d (Marx, 2010b, p. 467). N\u00e3o adiantou. O pretexto invocado serviu para expuls\u00e1-lo do pa\u00eds e interditar a Nova Gazeta Renana. O jornal encerrou suas atividades com uma c\u00e9lebre edi\u00e7\u00e3o em 19 de maio de 1849. Como forma de protesto, Marx mandou imprimir todas as p\u00e1ginas em vermelho. Um sucesso. Reimpressa v\u00e1rias vezes, alcan\u00e7ou a expressiva vendagem de 20 mil exemplares.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1850, j\u00e1 exilado em Londres, Marx cumpriu outro per\u00edodo relevante de sua produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica. De 1851 a 1852, colaborou com o jornal norte-americano Die Revolution, publicando em fragmentos O 18 de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, no qual analisa a passagem da Revolu\u00e7\u00e3o de 1848, na Fran\u00e7a, para o golpe de Estado comandado tr\u00eas anos depois, em 2 de dezembro de 1851, por Lu\u00eds Napole\u00e3o, iniciando o segundo Imp\u00e9rio no pa\u00eds como Napole\u00e3o III.<\/p>\n<p>De 1852 a 1862, Marx trabalhou como correspondente europeu do New York Tribune, \u00e0 \u00e9poca um dos primeiros do planeta em tiragem e o mais popular dos Estados Unidos. Ele escreveu 362 artigos e cr\u00f4nicas, aos quais se somaram 125 colunas assinadas pelo fil\u00f3sofo Tr\u00e9veris (nome da cidade da Ren\u00e2nia na qual Marx nasceu em 5 de maio de 1818) e pelas quais era remunerado, embora fossem escritas, na verdade, por Friedrich Engels. Foi uma maneira adicional que Engels encontrou de ajudar o amigo em seus persistentes apuros financeiros, j\u00e1 que, periodicamente, lhe fazia remessas de dinheiro. A passagem de Marx pelo New York Tribunefoi marcante, a come\u00e7ar pelo fato de seu nome aparecer com frequ\u00eancia nas chamadas da primeira p\u00e1gina.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes os editores usavam textos de Marx como seus editoriais de abertura, que ditavam o tom do Tribune em qualquer dia da semana. Marx suscitou controv\u00e9rsias com alguns de seus relatos \u2013 especialmente quando atacava cinicamente her\u00f3is da independ\u00eancia como Kossuth ou Mazzini \u2013 e de vez em quando reclamava que seus artigos eram editados e sa\u00edam com um tom mais baixo.\u201d (Gabriel, 2013, p. 185)<\/p>\n<p>Entre os temas dos seus artigos, estavam o mercado mundial, crises econ\u00f4micas, disputas pol\u00edticas, guerra civil nos Estados Unidos e a situa\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras. De outubro de 1857 a maio de 1858, Marx alternou o trabalho como jornalista com a elabora\u00e7\u00e3o dos textos de cr\u00edtica \u00e0 economia pol\u00edtica que resultaram nos Grundrisse (1858), depois reelaborados at\u00e9 dar origem aos tr\u00eas tomos de O capital. Na aprecia\u00e7\u00e3o de Pino (2014, p. 118), \u201csem a amplia\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica de seus estudos, sem a enorme acumula\u00e7\u00e3o de material emp\u00edrico obtida durante este per\u00edodo gra\u00e7as ao trabalho como correspondente, Marx n\u00e3o teria conseguido levar sua teoria \u00e0 dimens\u00e3o global presente nos Grundrisse\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO c\u00e3o de guarda p\u00fablico\u201d<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, Marx ampliou o raio de alcance de suas posi\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s do jornalismo, assumindo uma postura cr\u00edtica radical e associando a filosofia pol\u00edtica \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe do proletariado. No discurso perante o Tribunal de Col\u00f4nia, Marx demarcou a miss\u00e3o da imprensa a servi\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o social: \u201c\u00c9 o c\u00e3o de guarda p\u00fablico, o denunciador incans\u00e1vel dos dirigentes, o olho onipresente, a boca onipresente do esp\u00edrito do povo que guarda com ci\u00fame a sua liberdade\u201d (Marx, 2000, p. 113-114).<\/p>\n<p>Na Avalia\u00e7\u00e3o de Marx, a maioria dos jornais tradicionais legitima os valores burgueses, j\u00e1 que a burguesia \u00e9 quem disp\u00f5e dos meios determinantes de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e cultural. Os jornalistas afinados ou subservientes \u00e0s elites e institui\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas desempenham, a seu ver, dois pap\u00e9is: integram a brigada de ide\u00f3logos da classe dominante e ep\u00edgonos dos interesses da burguesia e da tirania das finan\u00e7as que fundamenta a tr\u00e1gica acumula\u00e7\u00e3o de riqueza e renda. \u00c9 o \u201cjornalismo mercen\u00e1rio\u201d, como o definiu no artigo \u201cProvoca\u00e7\u00f5es governamentais\u201d na Nova Gazeta Renana (n. 245, 14\/3\/1849).<\/p>\n<p>Da\u00ed o convencimento das incompatibilidades entre liberdade de imprensa e a produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica para o mercado, que submete a livre express\u00e3o aos des\u00edgnios das empresas do setor, o que implica, via de regra, a sua degrada\u00e7\u00e3o pela interdi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e por frequentes distor\u00e7\u00f5es nos notici\u00e1rios. \u201cDe fato, o que resta da liberdade de imprensa quando n\u00e3o se pode expor ao desprezo p\u00fablico aquilo que merece o desprezo p\u00fablico?\u201d, indagou em artigo na Nova Gazeta Renana (n. 50, 20\/7\/1848).<\/p>\n<p>A partir das concep\u00e7\u00f5es de Marx, n\u00e3o restam entraves ao entendimento de que os meios vinculados a grupos econ\u00f4micos t\u00eam sempre car\u00e1ter de classe e tomam partido na luta pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, n\u00e3o apenas quando encampamos pressupostos do mercado e disseminam a l\u00f3gica do lucro e do consumo, como tamb\u00e9m quando sufocam o contradit\u00f3rio, neutralizam disson\u00e2ncias, debilitam resist\u00eancias e desqualificam vozes de contesta\u00e7\u00e3o ao sistema de poder e ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Ele pr\u00f3prio, depois de oito anos \u00e0 frente da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores desde 1864, se tornou alvo da f\u00faria da grande imprensa reacion\u00e1ria europeia, que o estigmava com o ep\u00edteto de \u201cdoutor do terror vermelho\u201d, por defender a Comuna de Paris em A guerra civil na Fran\u00e7a, de 1871.<\/p>\n<p>Em perspectiva, o sentido observado pelo Marx te\u00f3rico e vivenciado pelo Marx jornalista aponta na dire\u00e7\u00e3o de uma imprensa contra-hegem\u00f4nica, que cumpre fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na \u00e1rdua batalha das ideias e capaz de auxiliar os trabalhadores a apreenderem criticamente as conting\u00eancias e contradi\u00e7\u00f5es do real hist\u00f3rico, no esfor\u00e7o continuado de tentar organiz\u00e1-los para superar, no limite das possibilidades de enfrentamento, o fardo de um mundo reificado e hostil.<\/p>\n<p>O jornalismo torna-se, por conseguinte, uma arma essencial \u00e0 interven\u00e7\u00e3o na realidade e no curso dos embates sociopol\u00edticos. Na vis\u00e3o de Marx, cabe a jornalistas comprometidos com a luta anticapitalista noticiar os fatos com veracidade, contemplar reivindica\u00e7\u00f5es sociais e sintonizar-se com a linguagem e os processos da vida real (Marx e Engels, 2007, p. 93-94). Um jornalismo que identifique, contextualize e esclare\u00e7a as raz\u00f5es dos antagonismos e conflitos que atravessavam sociedades cindidas em classes submetidas a desigualdades e exclus\u00f5es as mais infames.Trata-se assim de veicular ideias, valores e conte\u00fados que possam servir de combust\u00edvel para acelerar mobiliza\u00e7\u00f5es por mudan\u00e7as estruturais na sociedade.<\/p>\n<p>*D\u00eanis de Moraes, jornalista e escritor, \u00e9 autor, entre outros livros, de Poder midi\u00e1tico e disputas ideol\u00f3gicas (Consequ\u00eancia, 2019);<\/p>\n<p>O presente artigo \u00e9 uma vers\u00e3o revista e alterada de texto inclu\u00eddo no livro Cr\u00edtica da m\u00eddia e hegemonia cultural (Mauad, 2016).<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>BUEY, Francisco Fern\u00e1ndez. Marx (sem ismos). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.<\/p>\n<p>COTRIM, L\u00edvia. \u201cA contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Alemanha. Marx e a Nova Gazeta Renana\u201d, Margem, S\u00e3o Paulo, n\u00b016, dezembro de 2002.<\/p>\n<p>______. \u201cA revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1848 nas p\u00e1ginas da Nova Gazeta Renana\u201d, Projeto Hist\u00f3ria, S\u00e3o Paulo, n\u00ba 47, agosto de 2013.<\/p>\n<p>______. \u201cApresenta\u00e7\u00e3o. A arma da cr\u00edtica: pol\u00edtica e emancipa\u00e7\u00e3o humana na Nova Gazeta Renana\u201d, em MARX, Karl. Nova Gazeta Renana: artigos de Karl Marx. S\u00e3o Paulo: Educ, 2010b.<\/p>\n<p>FREDERICO, Celso. O jovem Marx \u2013 1843-1844: as origens da ontologia do ser social. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2009.<\/p>\n<p>GABRIEL, Mary. Amor e capital: a saga familiar de Karl Marx e a hist\u00f3ria de uma revolu\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.<\/p>\n<p>GIL, Juan Carlos. \u201cMarx y la prensa: elementos para una cr\u00edtica de la comunicaci\u00f3n\u201d. Redes.com, n\u00ba 1, 2004.<\/p>\n<p>HOBSBAWM, Eric J. \u201cMarx, Engels e o socialismo pr\u00e9-marxiana\u201d, in HOBSBAWM, Eris J.(org.). Hist\u00f3ria do marxismo (vol. 1: O marxismo no tempo de Marx). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.<\/p>\n<p>HUNT, Tristram. Comunista de casaca: a vida revolucion\u00e1ria de Friedrich Engels. Rio de Janeiro: Record, 2010.<\/p>\n<p>JONES, Gareth Stedman. Karl Marx: grandeza e ilus\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2017.<\/p>\n<p>KONDER, Leandro. Marx \u2013 vida e obra. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1999.<\/p>\n<p>L\u00d6WY, Michael. A teoria da revolu\u00e7\u00e3o no jovem Marx. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2012.<\/p>\n<p>MARX, Karl. A liberdade de imprensa. Porto Alegre: LP&amp;M, 2000.<\/p>\n<p>______. Art\u00edculos period\u00edsticos. Org. de Mario Espinoza Pino. Barcelona: Alba, 2013.<\/p>\n<p>______.Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2008a.<\/p>\n<p>______.Dispatches for the New York Tribune: selected journalism of Karl Marx. Nova York: Penguin Classics, 2008b.<\/p>\n<p>______.Escritos de juventud. M\u00e9xico: Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 1987.<\/p>\n<p>______. Grundrisse: manuscritos econ\u00f4micos de 1857-1858 \u2013 esbo\u00e7os da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Boitempo\/Editora UFRJ, 2011.<\/p>\n<p>______. Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2010a.<\/p>\n<p>______. Nova Gazeta Renana: artigos de Karl Marx. S\u00e3o Paulo: Educ, 2010b.<\/p>\n<p>MARX, Karl e ENGELS. Friedrich. A ideologia alem\u00e3: cr\u00edtica da mais recente filosofia alem\u00e3 em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stiner, e do socialismo alem\u00e3o em seus diferentes profetas (1845-1846). S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2011.<\/p>\n<p>MARX, Karl e ENGELS. Friedrich. Cultura, arte e literatura: textos escolhidos. Org. de Jos\u00e9 Paulo Netto e Miguel Makoto Cavalcanti Yoshida. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2010.<\/p>\n<p>MORAES, D\u00eanis de. Cr\u00edtica da m\u00eddia e hegemonia cultural. Rio de Janeiro: Mauad, 2016.<\/p>\n<p>MUHLMANN, G\u00e9raldine. \u201cMarx, o jornalismo, o espa\u00e7o p\u00fablico\u201d, em NOVAES, Adauto (org.). O sil\u00eancio dos intelectuais. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2006.<\/p>\n<p>______.Une histoire politique du journalisme: XIXe-XXe si\u00e9cle. Paris: PUF, 2004.<\/p>\n<p>MUSTO, Marcello. O velho Marx: uma biografia de seus \u00faltimos anos (1881-1883). S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2018.<\/p>\n<p>NETTO, Jos\u00e9 Paulo (org.). O leitor de Marx. Rio de Janeiro: Record, 2012.<\/p>\n<p>PINO, Mario Espinoza. \u201cKarl Marx, un periodista en la era del capital. Apuntes para una investigaci\u00f3n\u201d, Isegor\u00eda \u2013 Revista de Filosof\u00eda Moral y Pol\u00edtica, n\u00ba 50, janeiro-junho de 2014.<\/p>\n<p>______. \u201cIntroducci\u00f3n. Karl Marx: un periodista en la historia\u201d, em MARX, Karl. Art\u00edculos period\u00edsticos. Barcelona: Alba, 2013.<\/p>\n<p>SPERBER, Jonathan. Karl Marx: uma vida do s\u00e9culo XIX. Barueri: Amarylis, 2014.<\/p>\n<p>WHEEN, Francis. \u201cInk in his blood\u201d, Times Literary Supplement, 23 de mar\u00e7o de 2007.<\/p>\n<p>______. Karl Marx. Rio de Janeiro: Record, 2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32324\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[233],"class_list":["post-32324","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8pm","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32324"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32324\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32326,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32324\/revisions\/32326"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}