{"id":32331,"date":"2024-12-10T17:39:27","date_gmt":"2024-12-10T20:39:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32331"},"modified":"2024-12-10T17:39:27","modified_gmt":"2024-12-10T20:39:27","slug":"a-economia-politica-do-brasil-e-seu-mestre-soberano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32331","title":{"rendered":"A economia pol\u00edtica do Brasil e seu mestre soberano"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32332\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32331\/unnamed-47\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/unnamed.jpg?fit=591%2C591&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"591,591\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/unnamed.jpg?fit=591%2C591&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-32332\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/unnamed.jpg?resize=591%2C591&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"591\" height=\"591\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/unnamed.jpg?w=591&amp;ssl=1 591w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/unnamed.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/unnamed.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 591px) 100vw, 591px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>LEDA PAULANI para a Jacobin<\/p>\n<p>O historiador marxista Caio Prado J\u00fanior faleceu neste dia em 1990. Sua obra nos ajuda a entender a articula\u00e7\u00e3o entre depend\u00eancia externa e explora\u00e7\u00e3o interna e desvendar como a atual estrutura de classes brasileira herdou o passado colonial ap\u00f3s a independ\u00eancia e a aboli\u00e7\u00e3o \u2013 resultando de um lado uma minoria propriet\u00e1ria e de outro uma grande massa trabalhadora.<\/p>\n<p>Extra\u00eddo do livro Hist\u00f3ria e desenvolvimento: a contribui\u00e7\u00e3o da historiografia para a teoria e pr\u00e1tica do desenvolvimento brasileiro, de Caio Prado J\u00fanior (Boitempo 2021).<\/p>\n<p>Para Caio a conclus\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: sem o socorro da hist\u00f3ria, os processos de desenvolvimento n\u00e3o s\u00e3o compreens\u00edveis nem se podem discutir seriamente as perspectivas de um pa\u00eds como o Brasil sem que a investiga\u00e7\u00e3o sobre seu passado tenha papel determinante<\/p>\n<p>Na monumental biografia pol\u00edtica de Caio Prado J\u00fanior publicada pela editora Boitempo em 2016, Luiz Bernardo Peric\u00e1s, seu autor, relata um epis\u00f3dio que faz parte do processo em que a ditadura militar, sob a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cincita\u00e7\u00e3o subversiva\u201d, condenou e prendeu, aos 63 anos de idade, o grande intelectual. Em determinado momento da instru\u00e7\u00e3o, o oficial que entrevistava Caio lhe perguntou: \u201cO senhor \u00e9 o homem que inventou esse tal de marxismo no Brasil, n\u00e3o \u00e9?\u201d.<\/p>\n<p>A fei\u00e7\u00e3o aned\u00f3tica do caso n\u00e3o deve, \u00e9 claro, apagar a viol\u00eancia pol\u00edtica que corria naquele in\u00edcio dos anos 1970, menos ainda fazer esquecer qu\u00e3o pouco divertido deve ter sido, para nosso autor, \u00e0quela altura da vida, encarar mais essa pris\u00e3o. Se o trago aqui, neste texto, \u00e9 porque penso que, em sua inacredit\u00e1vel obtusidade, o inquisidor de coturno esbarrou sem querer com a verdade de seu objeto. Se evidentemente Caio n\u00e3o \u201cinventou\u201d o marxismo no Brasil, ele, no entanto, a partir do paradigma descoberto por Karl Marx, inaugurou por aqui a constru\u00e7\u00e3o daquilo que poder\u00edamos chamar de a economia pol\u00edtica do Brasil, dando assim in\u00edcio \u00e0 mais fecunda das tradi\u00e7\u00f5es intelectuais que buscam encontrar respostas aos recorrentes descaminhos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O livro Hist\u00f3ria e desenvolvimento, rec\u00e9m republicado pela Boitempo, escrito originalmente em 1968 como tese de livre doc\u00eancia para a c\u00e1tedra de hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da Universidade de S\u00e3o Paulo (FFCL-USP), \u00e9 um dos tijolos dessa base estrutural que Caio constr\u00f3i, e cuja pedra de lan\u00e7amento fora a publica\u00e7\u00e3o, quase quatro d\u00e9cadas antes, em 1930, de Evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil. Mas, enquanto intelectual (n\u00e3o vamos falar aqui diretamente do militante pol\u00edtico), Caio \u00e9 conhecido, discutido, criticado e louvado como historiador. Com que direito venho eu agora dizer que seu m\u00e9tier \u00e9 a economia pol\u00edtica? Ser\u00e1 que puxo a brasa pra minha sardinha?<\/p>\n<p>A bem da honestidade, devo dizer que pode haver a\u00ed um fundo de verdade. Quando fui convidada pelo professor Peric\u00e1s a escrever este texto, minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi de recusa: n\u00e3o sou historiadora (quem me dera!), tampouco grande conhecedora da obra do pr\u00f3prio Caio. Aceitei o desafio, contudo, porque abria-se a oportunidade de voltar ao grande autor, a quem fora apresentada, nos distantes anos da gradua\u00e7\u00e3o em economia na FEA-USP, por meio das p\u00e1ginas de Forma\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo e Hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Brasil. Isso posto, organizar o andamento dos argumentos de modo a poder comentar o livro do ponto de vista da economia pol\u00edtica, claramente mais confort\u00e1vel para mim, seria uma boa estrat\u00e9gia \u2013 e n\u00e3o de todo esp\u00faria, a julgar pelos ecos, ainda em mim presentes, da long\u00ednqua leitura das citadas obras. Quando me pus, por\u00e9m, a ler Hist\u00f3ria e desenvolvimento (que n\u00e3o conhecia), fiquei ainda mais feliz por ter aquiescido ao arriscado convite: \u00e9 de economia pol\u00edtica que se trata, e de economia pol\u00edtica do Brasil, o continente de reflex\u00e3o e teoria que Caio Prado inaugurou por aqui.<\/p>\n<p>Poder-se-ia argumentar que, feitas as contas, a associa\u00e7\u00e3o entre economia e hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 nova e que, sendo nosso autor declaradamente marxista, tampouco deveria ter eu me surpreendido que o livro abordasse de maneira t\u00e3o direta tal tem\u00e1tica. Afinal, n\u00e3o existe materialismo hist\u00f3rico sem economia pol\u00edtica nem esta sem aquele. No paradigma marxiano, a chave de tudo, a categoria b\u00e1sica que permite iluminar longos per\u00edodos e firmes estruturas, bem como movimentos conjunturais e rupturas, \u00e9 o conceito do modo de produ\u00e7\u00e3o, o qual abriga em sua base, como se sabe, o substrato material, econ\u00f4mico, da sociedade (as for\u00e7as produtivas e a forma como socialmente se organizam). O argumento \u00e9 v\u00e1lido, mas, ainda assim, insuficiente para negar o fato de serem distintos tais tipos de trabalho e reflex\u00e3o intelectual, por mais que a afilia\u00e7\u00e3o ao marxismo nos fa\u00e7a renegar a cultura de especialistas \u2013 a se alastrar como praga de cont\u00e1gio crescente e sempre renovado.<\/p>\n<p>Que a quest\u00e3o \u00e9 ardilosa revela-se pelas afirma\u00e7\u00f5es, em princ\u00edpio opostas, de dois de nossos mais importantes pensadores, ambos, de certa forma, herdeiros do espa\u00e7o aberto por Caio Prado para pensar o pa\u00eds. Para Florestan Fernandes, que escreveu o pref\u00e1cio desta obra, em 1988, para a terceira edi\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria e desenvolvimento publicada pela editora Brasiliense e que \u00e9 reproduzida no presente volume, \u201cCaio Prado J\u00fanior dedicou-se \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o e \u00e0 explica\u00e7\u00e3o da economia brasileira ao longo de v\u00e1rios anos\u201d. J\u00e1 para Fernando Novais, no ensaio que escreve \u00e0 guisa de introdu\u00e7\u00e3o do Forma\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo para a edi\u00e7\u00e3o da Nova Aguilar (2000), \u201cCaio foi desde o in\u00edcio historiador\u201d. Verdade que Florestan, poucas p\u00e1ginas \u00e0 frente, fala de nosso autor como \u201cum grande historiador\u201d, enquanto Novais diz, na sequ\u00eancia, que a obra de Caio vai se desdobrando na an\u00e1lise econ\u00f4mica (e tamb\u00e9m na reflex\u00e3o filos\u00f3fica e no ensa\u00edsmo pol\u00edtico). A troca de posi\u00e7\u00f5es, longe de contradi\u00e7\u00e3o, claro, alarga o campo de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No ensaio j\u00e1 citado, Novais afirma que, em Evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil e Hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Brasil, a exposi\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica oblitera o procedimento anal\u00edtico, que, no entanto, em Forma\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo, se revela inteiramente. Ao come\u00e7ar o livro apresentando a discuss\u00e3o sobre o sentido da coloniza\u00e7\u00e3o, Caio teria tornado manifesto o movimento que sai da apar\u00eancia emp\u00edrica para as categorias b\u00e1sicas de an\u00e1lise, o qual permite, na sequ\u00eancia, que os v\u00e1rios setores da realidade sejam iluminados enquanto manifesta\u00e7\u00f5es desse sentido, explicando-o e sendo por ele explicados.<\/p>\n<p>Na linguagem de Marx, dir\u00edamos que Caio, em sua investiga\u00e7\u00e3o, parte da representa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica da col\u00f4nia portuguesa na Am\u00e9rica no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, por um processo de an\u00e1lise chega \u00e0s suas determina\u00e7\u00f5es mais simples e, guarnecido por elas, faz a viagem de volta, tornando intelig\u00edvel aquela realidade concreta em suas m\u00faltiplas e contradit\u00f3rias determina\u00e7\u00f5es. O mais importante a\u00ed \u00e9 que a detalhada narrativa por ele constru\u00edda sobre os v\u00e1rios segmentos e inst\u00e2ncias sociais do Brasil col\u00f4nia naquele momento de sua hist\u00f3ria n\u00e3o produz apenas explica\u00e7\u00f5es sobre a natureza de cada elemento, mas vai corporificando e dando efetividade \u00e0quele sentido.<\/p>\n<p>N\u00e3o ter\u00e1 sido, pois, de pouca monta a proeza de Caio. Ao transportar para a exposi\u00e7\u00e3o o caminho de sua investiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 o texto ganha formid\u00e1vel poder argumentativo, como configura o que Novais vai chamar de \u201cum tratamento dial\u00e9tico quase na forma pura\u201d. E esse m\u00e9todo, que se torna assim praticamente expl\u00edcito, deixando de portar aquela express\u00e3o rarefeita caracter\u00edstica das considera\u00e7\u00f5es metate\u00f3ricas, n\u00e3o \u00e9 nada mais nem nada menos que aquilo que o pr\u00f3prio Marx chamou, num texto inacabado, de o m\u00e9todo da economia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Fiz todo esse pre\u00e2mbulo para dizer que, se Caio \u00e9 o historiador que \u00e9 e tem o not\u00e1vel trabalho de historiador que tem, isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque ele traz na base de sua an\u00e1lise a economia pol\u00edtica. Como seu objeto era a identidade nacional do Brasil e as possibilidades de sua transforma\u00e7\u00e3o, ele fez debutar no pa\u00eds o territ\u00f3rio inexplorado da economia pol\u00edtica do Brasil. E nosso autor fez isso desde 1930, ano do surgimento de Evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil, a primeira pe\u00e7a desse caminho de investiga\u00e7\u00e3o do qual o livro Hist\u00f3ria e desenvolvimento, escrito quase quatro d\u00e9cadas depois, tamb\u00e9m faz parte. E continuou nessa trilha fecunda mesmo depois de se filiar ao Partido Comunista, que tinha sobre o pa\u00eds teses que se chocavam abertamente com as descobertas que ele ia fazendo.<\/p>\n<p>\u00c9 neste sentido que Caio \u00e9 o mestre soberano da economia pol\u00edtica do Brasil, por ter inaugurado o caminho e nele permanecido firmemente. N\u00e3o por acaso, portanto, Forma\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo tornou-se um cl\u00e1ssico, ainda que n\u00e3o de imediato. Segundo Paulo Arantes, sua an\u00e1lise mostrando os v\u00ednculos entre sistema colonial e capitalismo comercial, golpeando por isso a convic\u00e7\u00e3o dual barateada que ent\u00e3o se alastrava na forma de uma cren\u00e7a na justaposi\u00e7\u00e3o de \u201cdois Brasis\u201d, permaneceu no limbo por pelo menos duas d\u00e9cadas, at\u00e9 ser reativada pela escola uspiana de ci\u00eancias sociais. Hoje, por\u00e9m, \u00e9 dif\u00edcil pensar em v\u00e1rias das mais importantes reflex\u00f5es sobre nosso pa\u00eds, principalmente no que concerne \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre a base material e as demais inst\u00e2ncias da produ\u00e7\u00e3o social da vida, sem que se fa\u00e7a refer\u00eancia a seu trabalho. Menciono aqui uns poucos, mas relevantes, exemplos de autores e escolas tribut\u00e1rios do esfor\u00e7o pioneiro do mestre, o que nos levar\u00e1 de volta a Hist\u00f3ria e desenvolvimento.<\/p>\n<p>Come\u00e7o pelo mesmo Fernando Novais, de quem j\u00e1 me socorri aqui. N\u00e3o \u00e9 preciso mencionar a riqueza e as prof\u00edcuas consequ\u00eancias de seus esquemas em torno do antigo sistema colonial para o entendimento do que viemos a ser. Esses esquemas agregam \u00e0 expans\u00e3o comercial mar\u00edtima europeia, que est\u00e1 no cerne do processo de investiga\u00e7\u00e3o de Caio Prado, o contexto maior do andamento da acumula\u00e7\u00e3o primitiva no centro do sistema, sob a r\u00e9gua e o compasso do capital comercial. Note-se tamb\u00e9m que o corte que produz a an\u00e1lise sincr\u00f4nica de ambos os autores se d\u00e1 no mesmo ponto: a crise do antigo sistema colonial que Novais examina, vale dizer, o curto per\u00edodo de tr\u00eas d\u00e9cadas que vai do fim do s\u00e9culo XVIII ao in\u00edcio do XIX, \u00e9 o mesmo \u201cponto morto\u201d a que havia chegado o regime colonial de que nos fala Caio Prado na primeira p\u00e1gina de Forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o historiador Milton Ohata, a \u00faltima interpreta\u00e7\u00e3o abrangente de nossa historiografia antes de O trato dos viventes, de Luiz Felipe de Alencastro, foi justamente Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial, de Fernando Novais, obra que, em sua vis\u00e3o, \u201caprimora as an\u00e1lises de Caio Prado em Forma\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo\u201d. E, sobre o primeiro trabalho, ele diz que Alencastro \u201ccom uma erudi\u00e7\u00e3o de atordoar [\u2026] periodiza, multiplica e d\u00e1 corpo aos enunciados te\u00f3ricos de mestre Novais\u201d. Um silogismo b\u00e1sico \u00e9 suficiente neste ponto para que se perceba por que Caio Prado \u00e9 o mestre soberano.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que as coisas aqui n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples, e o pr\u00f3prio Ohata afirma logo de in\u00edcio que, ao mesmo tempo que O trato dos viventes d\u00e1 continuidade ao trabalho de Novais, ele tamb\u00e9m o modifica. De fato, a argumenta\u00e7\u00e3o de Alencastro \u00e9 poderosa no sentido de mostrar a autonomia que ganham os interesses luso-bras\u00edlicos frente \u00e0queles da metr\u00f3pole, de modo que o tr\u00e1fico negreiro (que j\u00e1 estava no escopo do com\u00e9rcio portugu\u00eas desde meados do s\u00e9culo XIV), ao funcionar como a cola do sistema, acaba por reduzir a import\u00e2ncia que at\u00e9 ent\u00e3o se costumava atribuir ao pacto colonial. Todavia, para o que quero mostrar aqui, esse embate n\u00e3o se coloca como empecilho, antes o contr\u00e1rio: revela qu\u00e3o prof\u00edcuo foi o pioneirismo de Caio Prado.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e1 sido casual uma observa\u00e7\u00e3o de um dos autores mais celebrados da teoria da depend\u00eancia sobre Caio e sua obra. Em ensaio sobre ele, Fernando Henrique Cardoso afirma que, em Forma\u00e7\u00e3o, o grande historiador foca a luz no fundamental, isto \u00e9, a articula\u00e7\u00e3o entre depend\u00eancia externa e explora\u00e7\u00e3o interna, din\u00e2mica que constitui, como se sabe, uma das chaves do famoso livro que o ex-presidente escreveu com Faletto.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 demais lembrar ainda uma entrevista de Chico de Oliveira, na qual afirma ele que as pistas do dualismo j\u00e1 est\u00e3o em Caio; mais ainda, que, em A revolu\u00e7\u00e3o brasileira, escrito em 1966, e que Chico v\u00ea como uma esp\u00e9cie de coroamento de toda uma interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil que ele vinha construindo, a percep\u00e7\u00e3o-chave \u00e9 que, em nosso pa\u00eds, o capitalismo, ao n\u00e3o integrar, desintegra, de modo que nosso desenvolvimento n\u00e3o pode seguir o padr\u00e3o cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>Quando a economia e a hist\u00f3ria se misturam<\/p>\n<p>Depois de transitarmos pela hist\u00f3ria de Novais e Alencastro e pela economia pol\u00edtica da teoria da depend\u00eancia e de Chico de Oliveira, percebendo a\u00ed, sem grande dificuldade, os vest\u00edgios da explora\u00e7\u00e3o inovadora de Caio, culminamos, na observa\u00e7\u00e3o de Chico, no fato de o grande historiador concluir, no livro de 1966, que o desenvolvimento brasileiro n\u00e3o poderia ser can\u00f4nico. Este Hist\u00f3ria e desenvolvimento, escrito dois anos depois, tem nessa percep\u00e7\u00e3o sua tese central. N\u00e3o \u00e9 por isso \u201capenas\u201d um livro de hist\u00f3ria, ainda que se valha dela e tenha sido escrito para concurso de c\u00e1tedra na \u00e1rea. Da\u00ed tamb\u00e9m por que me senti menos desconfort\u00e1vel em arriscar esse texto assim que comecei a l\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Na apresenta\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o em livro, publicada em 1972 (como dito, o texto era originalmente tese universit\u00e1ria), Caio diz, logo no in\u00edcio, que seu assunto \u00e9 a maneira de conceber a economia como disciplina cient\u00edfica e seu objetivo central \u00e9 reivindicar para a hist\u00f3ria o papel que de direito lhe cabe como fonte informativa e explicativa do processo de desenvolvimento do pa\u00eds. Da\u00ed o subt\u00edtulo: A contribui\u00e7\u00e3o da historiografia para a teoria e pr\u00e1tica do desenvolvimento brasileiro.<\/p>\n<p>Cabe lembrar que, naqueles meados dos anos 1960, estavam no auge da moda as teorias etapistas, que tinham no economista americano Walt Whitman Rostow seu maior expoente. Na base do \u201ceu sou voc\u00ea amanh\u00e3\u201d, os pa\u00edses centrais diziam aos subdesenvolvidos que alcan\u00e7ar o status maior era s\u00f3 quest\u00e3o de tempo. O livro de Rostow, The Stages of Economic Growth, \u00e9 de 1960, tendo aparecido, portanto, depois do surgimento das teses cepalinas, de Forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil de Furtado e de tantos livros de Caio Prado que iam todos mais ou menos na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, a saber: a de entender o subdesenvolvimento como um tipo de desenvolvimento capitalista, de modo que a supera\u00e7\u00e3o do atraso n\u00e3o poderia ser esperada como des\u00edgnio inescap\u00e1vel das for\u00e7as naturais do mercado.<\/p>\n<p>A briga de Caio neste livro n\u00e3o \u00e9 outra. Para ele, o desenvolvimento e o crescimento econ\u00f4micos constituem temas essencialmente hist\u00f3ricos, que teriam sido a\u00e7ambarcados de modo indevido pela economia. E isso seria ainda mais verdadeiro para pa\u00edses de passado colonial como o Brasil. Assim, na primeira parte do livro, dividido que \u00e9 em dez partes, Caio vai basicamente defender essa tese. Ele mostra de que modo a teoria ortodoxa do desenvolvimento se relaciona com a teoria dos ciclos e como passam, ent\u00e3o, a dominar as teses inversionistas, sem uma explica\u00e7\u00e3o clara sobre como se d\u00e1 o surgimento dos investimentos que podem gerar o suposto c\u00edrculo virtuoso. Apesar de n\u00e3o fazer uma an\u00e1lise detalhada das proposi\u00e7\u00f5es de Rostow, Caio \u00e9 brilhante em desmontar o argumento etapista, evidenciando de forma cristalina que aquela \u201cteoria\u201d n\u00e3o \u00e9 teoria, porque efetivamente nada explica. Aponta, assim, o car\u00e1ter fortemente ideol\u00f3gico do prestigiado texto, que, na realidade, pouco passa de panfleto\u2026 e que vinha a calhar ent\u00e3o para o capitalismo, num mundo ainda impactado pela revolu\u00e7\u00e3o cubana de 1959. N\u00e3o por acaso, o subt\u00edtulo de The Stages of Economic Growth \u00e9 A Non-Communist Manifesto \u2013 e, al\u00e9m de economista, Rostow foi tamb\u00e9m secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a de Lyndon Johnson.<\/p>\n<p>Para Caio a conclus\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: sem o socorro da hist\u00f3ria, os processos de desenvolvimento n\u00e3o s\u00e3o compreens\u00edveis nem se podem discutir seriamente as perspectivas de um pa\u00eds como o Brasil sem que a investiga\u00e7\u00e3o sobre seu passado tenha papel determinante. Na segunda parte do livro, nosso autor desenha o esquema dentro do qual, a seu ver, se esbo\u00e7a a hist\u00f3ria brasileira. Resumidamente, ele retoma as teses centrais de Forma\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo e do sentido da coloniza\u00e7\u00e3o. O foco est\u00e1 nas contradi\u00e7\u00f5es crescentemente geradas por uma na\u00e7\u00e3o que, em meio \u00e0 rudimentar empresa comercial inaugurada pelos portugueses, vai se delineando e extravasando os estreitos quadros institucionais do sistema colonial.<\/p>\n<p>Na terceira parte, Caio vai mostrar como surge das conting\u00eancias do objetivo comercial a ideia de povoar o territ\u00f3rio e, na quarta parte, de que forma a propriedade a\u00e7ucareira dar\u00e1 o tom da coloniza\u00e7\u00e3o: grandes propriedades, de cultura \u00fanica, com objetivo mercantil, baseadas em imensos contingentes de trabalho escravo (ind\u00edgena ou negro), sob a dire\u00e7\u00e3o imediata do propriet\u00e1rio ou de seu feitor. Para ele, \u201c\u00e9 nesse quadro que se dispor\u00e1 o conjunto da economia colonial; e sobre essa base se organizar\u00e1 a sociedade brasileira\u201d.<\/p>\n<p>Nas duas partes seguintes, quinta e sexta, o autor vai tratar daquilo que \u00e9 \u201cum assunto da maior import\u00e2ncia\u201d, a saber, a quest\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra no que h\u00e1 a\u00ed de mais b\u00e1sico: a alimenta\u00e7\u00e3o. Demonstra que, como a agricultura era inteiramente voltada ao com\u00e9rcio externo, coisa pr\u00f3pria do mundo moderno j\u00e1 embalado pelo capital, as atividades destinadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do sustento da base da popula\u00e7\u00e3o eram sempre relegadas a um papel secund\u00e1rio. Lembra, nesse sentido, que um dos principais motivos da insatisfa\u00e7\u00e3o dos senhores de engenho pernambucanos contra o dom\u00ednio holand\u00eas \u00e9 precisamente a aten\u00e7\u00e3o dada pelas ent\u00e3o autoridades ao plantio obrigat\u00f3rio da mandioca. Deriva da\u00ed sua conclus\u00e3o de que a estrutura organizada para a produ\u00e7\u00e3o externa \u00e9 incapaz de proporcionar um mercado interno apreci\u00e1vel, pois o bom mercado das classes privilegiadas (propriet\u00e1rios, dirigentes) \u00e9 pequeno e atendido por importa\u00e7\u00f5es, ao passo que o grande mercado da massa da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 inefetivo em termos de demanda, j\u00e1 que a maior parte da m\u00e3o de obra \u00e9 escrava.<\/p>\n<p>Na s\u00e9tima parte, Caio traz \u00e0 cena aquele ponto morto da hist\u00f3ria, no qual \u201co regime colonial j\u00e1 realizara o que tinha para realizar\u201d, para usar suas palavras em Forma\u00e7\u00e3o. Mostra, ent\u00e3o, as consequ\u00eancias perif\u00e9ricas do que vai em marcha no centro do sistema. A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e a nova ordem internacional que ela produz sacodem a col\u00f4nia e come\u00e7am a produzir fendas no regime. Ficam para tr\u00e1s o isolamento do Brasil e o dom\u00ednio pol\u00edtico-administrativo portugu\u00eas, dando lugar \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um Estado nacional. Para nosso autor, pressupostamente, na\u00e7\u00e3o significa, no plano econ\u00f4mico, \u201cuma organiza\u00e7\u00e3o voltada essencialmente para o atendimento das necessidades pr\u00f3prias da coletividade que a comp\u00f5e\u201d, de modo que essas transforma\u00e7\u00f5es abrem novas perspectivas para o Brasil.<\/p>\n<p>Todavia, e \u00e9 com tal observa\u00e7\u00e3o que se inicia a oitava parte, os novos horizontes n\u00e3o decorrem de uma modifica\u00e7\u00e3o substantiva que teriam trazido a separa\u00e7\u00e3o da metr\u00f3pole e a extin\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio comercial. O ambiente externo \u00e9 que se modificara de tal forma que n\u00e3o deixaria inc\u00f3lume a economia colonial. No bojo dessas profundas transforma\u00e7\u00f5es, a fun\u00e7\u00e3o exportadora dessa economia, permanecendo, permite, por for\u00e7a da c\u00e9lere amplia\u00e7\u00e3o do mercado internacional para g\u00eaneros prim\u00e1rios, que a economia brasileira logre \u201cultrapassar suas mesquinhas perspectivas anteriores\u201d, conhecendo relativo progresso ao longo do s\u00e9culo XIX e do in\u00edcio do XX, inclusive possibilitando a transforma\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio em Rep\u00fablica. E, para ele, \u00e9 o caf\u00e9 que vai constituir de modo preeminente \u201ca inst\u00e2ncia m\u00e1xima em que se verificam as novas dimens\u00f5es adquiridas pela fun\u00e7\u00e3o exportadora\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o resisto a fazer aqui, antes de concluirmos a an\u00e1lise do livro, um pequeno par\u00eantese, suscitado por essa observa\u00e7\u00e3o e pela vis\u00e3o de Caio quanto \u00e0 import\u00e2ncia do famoso produto como instrumento potencial de transforma\u00e7\u00e3o de nossa realidade. O fa\u00e7o tamb\u00e9m porque presto com isso um tributo \u00e0quela fecunda tradi\u00e7\u00e3o intelectual que, a meu ver, ele estreou. Penso que n\u00e3o desarticula nem enviesa seu argumento dizer que, para ele, o caf\u00e9 aparece como a s\u00edntese das m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es do pa\u00eds em meados do s\u00e9culo XIX, exprimindo, portanto, aquela unidade do diverso que a realidade concreta revela quando filtrada pelas categorias.<\/p>\n<p>Assim, o caf\u00e9 foi o produto mais bem-acabado de nosso passado colonial agr\u00e1rio, mas tamb\u00e9m seu potencial coveiro, pois se apresentou como passaporte para uma (promissora?) etapa futura, em que a heran\u00e7a daqueles tempos acanhados viria a ser superada. Em Sentimento da dial\u00e9tica, Paulo Arantes diz que \u201ca dial\u00e9tica est\u00e1 igualmente presente nos dois lados, o mesmo princ\u00edpio p\u00f5e em movimento a forma est\u00e9tica e a forma social\u201d. Refere-se a\u00ed, de um lado, \u00e0 pr\u00e1tica social do favor numa col\u00f4nia que se tornou \u201cmoderna\u201d, porque independente, mas carregando consigo regime imperial e escravid\u00e3o, e, de outro, \u00e0 volubilidade do narrador machadiano, que Roberto Schwarz descobre como sendo a forma est\u00e9tica desenvolvida pelo grande escritor a partir desse solo social. Arrisco aqui um palpite de que poder\u00edamos incluir o caf\u00e9 como a forma econ\u00f4mica congruente com aquela realidade e sua contraparte est\u00e9tica. Mais do que um simples produto, e inegavelmente por conta de seu sucesso capitalista, o caf\u00e9 seria a tradu\u00e7\u00e3o, no plano stricto sensu material, daquele antagonismo em que \u201cos incompat\u00edveis saem de m\u00e3os dadas\u201d de que nos fala o mesmo Roberto em As ideias fora do lugar. Caminhando da superestrutura em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua base, ter\u00edamos forma est\u00e9tica (o permanente capricho do narrador de Machado), forma social (a pr\u00e1tica cotidiana do favor) e forma econ\u00f4mica (a bem-sucedida mercadoria caf\u00e9).<\/p>\n<p>N\u00e3o que as condi\u00e7\u00f5es do desacerto permanente da vida da na\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o estivessem postas desde sua independ\u00eancia formal, ou seja, duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas antes da grande expans\u00e3o cafeeira; simplesmente que o caf\u00e9, capturado pelo arranque final do capitalismo que se desenrolava no centro, encarnou \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o o novo momento prenhe de possibilidades (e contradi\u00e7\u00f5es) e seguramente o tornou mais relevante. Que o caf\u00e9 constitui essa s\u00edntese contradit\u00f3ria do diverso, esta \u201ccircunst\u00e2ncia singular\u201d, para voltar aos termos de Caio, fica evidente pelo debate que atravessou os anos 1970 quanto \u00e0 natureza das rela\u00e7\u00f5es entre o caf\u00e9 e a ind\u00fastria, a saber, se o sucesso do primeiro teria criado as condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento industrial ou se, ao contr\u00e1rio, o teria obstado.<\/p>\n<p>O interessante \u00e9 que Caio, e voltamos assim ao livro, escrevendo no fim dos anos 1960, faz conviver, sem for\u00e7ar a m\u00e3o, as duas teses que iriam se enfrentar, admitindo, de um lado, que os momentos de crise do setor exportador eram favor\u00e1veis ao setor industrial porque dificultavam as importa\u00e7\u00f5es e estimulavam invers\u00f5es alternativas ao caf\u00e9 e, de outro, que a riqueza acumulada pela produ\u00e7\u00e3o cafeeira intensificava a vida econ\u00f4mica e fomentava a ind\u00fastria, de que a vitalidade da capital paulista seria evid\u00eancia palmar. Uma explica\u00e7\u00e3o para tamanha serenidade no trato da quest\u00e3o seria precisamente que nosso autor, dial\u00e9tico, intu\u00edra com tanta felicidade esse car\u00e1ter sint\u00e9tico carregado pelo caf\u00e9, que as contradi\u00e7\u00f5es que ele encarnava (e que s\u00f3 vieram a ser pela primeira vez devidamente diagnosticadas por S\u00e9rgio Silva em livro de 1976) passearam naturalmente por seu texto, sem reclamar justifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda com rela\u00e7\u00e3o ao caf\u00e9, lembro que Caio discute tamb\u00e9m a brutal import\u00e2ncia do capital estrangeiro na din\u00e2mica economia que se articulava em seu entorno, seja financiando a produ\u00e7\u00e3o e organizando a exporta\u00e7\u00e3o, seja investindo em estradas de ferro. Salvo exce\u00e7\u00f5es, o capital local ficara adstrito \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o das lavouras, mas \u00e9 sua indiscut\u00edvel presen\u00e7a a\u00ed que vai distinguir a economia perif\u00e9rica brasileira. Para ele, a forte participa\u00e7\u00e3o do empresariado local vai permitir uma associa\u00e7\u00e3o ou uma integra\u00e7\u00e3o de conjunto entre ambas as partes, que funcionam como um todo coerente. Caio se refere tamb\u00e9m \u00e0 import\u00e2ncia do caf\u00e9 nos dois \u201cfatos m\u00e1ximos da hist\u00f3ria brasileira do s\u00e9culo passado\u201d, que s\u00e3o a aboli\u00e7\u00e3o e a imigra\u00e7\u00e3o europeia. Segundo ele, esses dois elementos t\u00eam consequ\u00eancias econ\u00f4micas de extrema import\u00e2ncia pelo impulso que trazem \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do consumo e do mercado interno, possibilitando, em princ\u00edpio, uma substantiva transforma\u00e7\u00e3o de nossa economia, com gradativo recuo de seu antigo e tradicional exclusivismo exportador.<\/p>\n<p>Mas a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa, e nosso passado colonial vai pesar mais uma vez. Na nona e pen\u00faltima parte, Caio procede a uma alentada an\u00e1lise da evolu\u00e7\u00e3o da economia brasileira desde o fim do s\u00e9culo XIX, com foco no comportamento das contas externas. Passa pela crise dos anos 1930, pelos surtos de industrializa\u00e7\u00e3o provocados pelos per\u00edodos de estrangulamento externo e pelo sucessivo aumento do endividamento. Sobre a presen\u00e7a crescente do capital externo no n\u00facleo din\u00e2mico da ind\u00fastria brasileira, diz que \u201cisso decorre do fato de o Brasil entrar para a hist\u00f3ria contempor\u00e2nea [\u2026] na condi\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 era a sua, de uma \u00e1rea perif\u00e9rica e simples ap\u00eandice exterior e marginal dos centros nevr\u00e1lgicos [\u2026] da economia internacional\u201d. Pela exig\u00eancia de vultosas divisas para a realiza\u00e7\u00e3o dos lucros e pelo porte sempre apoucado de nosso mercado interno, os capitais externos, apesar do est\u00edmulo inicial que constituem, tendem a permanentemente reconduzir a economia \u00e0 fun\u00e7\u00e3o exportadora. Desse modo, para ele, \u201ca participa\u00e7\u00e3o do capitalismo internacional na economia brasileira constitui, assim, um embara\u00e7o, e embara\u00e7o crescente \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da mesma economia e \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o dela do seu passado colonial\u201d.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cima e \u00faltima parte do livro, o autor busca reafirmar sua tese sobre o car\u00e1ter hist\u00f3rico do tema do desenvolvimento. Come\u00e7a por observar que, em nossa economia, diferentemente do que se passa nos pa\u00edses desenvolvidos, os mercados interno e externo n\u00e3o representam meros segmentos que se recobrem, se sobrep\u00f5em e se situam no mesmo plano. Aqui, trata-se de uma dualidade, pois eles vivem \u00e0 parte um do outro, s\u00f3 se interconectando subsidiariamente, e, mais complicado, o primeiro, para onde se dirige o produto da ind\u00fastria, \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do segundo (baseado no setor prim\u00e1rio) e dele dependente. No seu modo de entender, \u00e9 o avan\u00e7o do primeiro, de par com o processo de industrializa\u00e7\u00e3o, que pode representar a abertura para um novo sistema econ\u00f4mico, para uma economia nacionalmente integrada e voltada ao atendimento das necessidades internas da coletividade que a constitui. Mas aqui o mercado interno \u00e9 dependente, n\u00e3o tem autonomia, vive em fun\u00e7\u00e3o do outro.<\/p>\n<p>Segundo Caio, tal situa\u00e7\u00e3o \u00e9 decorr\u00eancia de um passado que insiste em permanecer. A nacionalidade brasileira, em todos os seus elementos, a come\u00e7ar pela instala\u00e7\u00e3o e pela organiza\u00e7\u00e3o dos grupos humanos que para ela evoluiriam, assentou suas bases na exist\u00eancia de mercado externo para os g\u00eaneros que se poderiam produzir em seu territ\u00f3rio. Apesar de toda a complexidade que o cen\u00e1rio socioecon\u00f4mico ganhou ao longo dos s\u00e9culos, esse tra\u00e7o ancestral ainda estava presente e vis\u00edvel na citada dualidade e no car\u00e1ter subordinado das reais necessidades do pa\u00eds. Era, portanto, a persist\u00eancia do passado que punha obst\u00e1culos ao avan\u00e7o do Brasil, de modo que nosso caso evidenciava que a problem\u00e1tica do desenvolvimento n\u00e3o poderia ser adequadamente tratada ignorando-se a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O atoleiro da depend\u00eancia internacional<\/p>\n<p>O que dizer da an\u00e1lise de Caio, pensando no que se tornou o Brasil meio s\u00e9culo depois? Se \u00e9 verdade que h\u00e1 certo aspecto datado no livro, visto que era seu objeto o desenvolvimento brasileiro de ent\u00e3o (fim dos anos 1960), \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o reconhecer o car\u00e1ter premonit\u00f3rio de algumas de suas observa\u00e7\u00f5es. Por exemplo, logo na apresenta\u00e7\u00e3o, pondera ele que o recorrente apelo do pa\u00eds aos investimentos externos na ind\u00fastria \u201cimplica transferir para m\u00e3os estranhas e subordinar a seus interesses as melhores oportunidades de neg\u00f3cios e atividades econ\u00f4micas\u201d, o que traduz com grande fidelidade o que se passa hoje na estrutura da produ\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Mais relevante, por\u00e9m, vai ele apontar o c\u00edrculo vicioso que tal movimento reiterado produz e que s\u00f3 faz \u201cavan\u00e7ar [\u2026] o processo que torna a economia brasileira nada mais que simples ap\u00eandice da finan\u00e7a internacional\u201d. Quem conhece minimamente a evolu\u00e7\u00e3o da economia brasileira das \u00faltimas d\u00e9cadas sabe que nos afundamos cada vez mais nesse atoleiro. Fomos abalroados pela crise da d\u00edvida externa nos anos 1980, passamos ent\u00e3o por um complicado processo de alta infla\u00e7\u00e3o e morat\u00f3ria e decidimos, afinal, no in\u00edcio dos anos 1990, transformar nossa economia numa plataforma internacional de valoriza\u00e7\u00e3o financeira, abandonando qualquer veleidade em torno de uma ind\u00fastria nacional e, pior, de um projeto para o pa\u00eds. \u00c9 verdade que a ind\u00fastria dom\u00e9stica foi muito al\u00e9m do que previu Caio, e chegamos mesmo a transformar os produtos manufaturados em parcela substantiva de nossas exporta\u00e7\u00f5es, coisa que ele achava muito pouco prov\u00e1vel. Todavia, vista a situa\u00e7\u00e3o do ponto em que hoje nos encontramos, esse breve momento parece um solu\u00e7o na \u201clinha central da marcha de nossa hist\u00f3ria\u201d, para usar suas pr\u00f3prias palavras.<\/p>\n<p>Contudo, o que talvez seja mais interessante \u00e9 aquilo que, no meu modesto entender, est\u00e1 no cerne da tese de Caio acerca dos entraves ao desenvolvimento brasileiro e que se relaciona tamb\u00e9m com o \u201cassunto da maior import\u00e2ncia\u201d que ele discute na quinta e na sexta partes. Repetidas vezes no livro, Caio se refere \u00e0 estrutura de classes que a na\u00e7\u00e3o brasileira teria herdado daquele passado colonial e que persistiu hist\u00f3ria afora, a come\u00e7ar pela perman\u00eancia da nefasta escravid\u00e3o, mesmo ganhando independ\u00eancia a col\u00f4nia. Resumidamente, de um lado, uma minoria de propriet\u00e1rios, dirigentes e usufrutu\u00e1rios da produ\u00e7\u00e3o mercantil, que constitu\u00eda o nervo econ\u00f4mico do sistema, e, de outro, uma grande massa de trabalhadores, a fornecer o esfor\u00e7o necess\u00e1rio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. Ora, a massa trabalhadora, em sua enorme maioria, escrava, era simples instrumento de produ\u00e7\u00e3o, sendo relegada sempre a uma posi\u00e7\u00e3o degradada, com n\u00edveis de vida muito baixos e consumo insignificante.<\/p>\n<p>De acordo com nosso autor, ainda que a estrutura social tenha se tornado mais complexa, a sociedade brasileira conservava esses tra\u00e7os primevos, sobretudo a habitual inferioriza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica de suas classes trabalhadoras e populares. O que se deduz, portanto, \u00e9 que sem a transforma\u00e7\u00e3o dessa situa\u00e7\u00e3o o car\u00e1ter restrito do mercado interno n\u00e3o desapareceria, n\u00e3o viria o desenvolvimento e a economia brasileira permaneceria mero ap\u00eandice marginal e perif\u00e9rico do centro desenvolvido.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil olhar para o pa\u00eds hoje e n\u00e3o dar raz\u00e3o a ele, at\u00e9 porque, por for\u00e7a das vicissitudes do processo mundial de acumula\u00e7\u00e3o, foi se recompondo a base material original que redundou naquela estrutura, j\u00e1 que a \u201cfun\u00e7\u00e3o exportadora\u201d da economia brasileira (leia-se produtora de alimentos e mat\u00e9rias-primas), que teria ent\u00e3o, de acordo com Caio, entrado em decl\u00ednio, foi devidamente resgatada, dessa vez com traje inteiramente capitalista, pela soja e pelos produtos animais e minerais. Pensando bem, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 hoje talvez ainda pior, pois tais setores, j\u00e1 guarnecidos de novas camadas de progresso t\u00e9cnico, incorporam muito menos m\u00e3o de obra, de modo que boa parte da massa (potencialmente) trabalhadora, que nunca trouxe grandes preocupa\u00e7\u00f5es aos de cima quanto \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de sua exist\u00eancia, pode agora ser simplesmente ignorada. Se, em sua vers\u00e3o original, a estrutura da sociedade brasileira carecia de coes\u00e3o, agora esse atributo, crucial \u00e0 exist\u00eancia da na\u00e7\u00e3o como na\u00e7\u00e3o, parece ainda mais distante.<\/p>\n<p>Mas o novo cap\u00edtulo do eterno retorno do mesmo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 obra das idiossincrasias nacionais. Resulta tamb\u00e9m de crises irresolvidas no centro do processo de acumula\u00e7\u00e3o. O car\u00e1ter exc\u00eantrico de uma produ\u00e7\u00e3o escravista destinada ao mercado explica-se, como ensinou Fernando Novais, pelo processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva em andamento na Europa, capitaneado pelo capital comercial. Na etapa primitiva, preveniu Marx, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a polida expropria\u00e7\u00e3o do valor excedente que vale. Tudo vale: roubo, extors\u00e3o, aprisionamento, com\u00e9rcio de peles negras. Ocorre que, de fato, como lembrou David Harvey, inspirado em Rosa Luxemburgo, esses mecanismos incivilizados de valoriza\u00e7\u00e3o nunca sa\u00edram completamente de cena e, em crises de sobre-acumula\u00e7\u00e3o como a enfrentada pelo capitalismo j\u00e1 h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, tendem a se multiplicar. As prescri\u00e7\u00f5es neoliberais n\u00e3o s\u00e3o nada mais que expedientes desse g\u00eanero, na s\u00f4frega busca de novos ativos nos quais desafogar o capital acumulado em excesso. Para o Brasil, onde o ciclo do desenvolvimento burgu\u00eas ficou a meio caminho, tudo se passa como se nunca tiv\u00e9ssemos conseguido sair do c\u00edrculo de ferro da acumula\u00e7\u00e3o primitiva, que agora d\u00e1 o tom tamb\u00e9m daquilo que se passa no cora\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p>Em 2005, escrevi com o professor Christy Pato um texto destinado a discutir a evolu\u00e7\u00e3o dos investimentos no Brasil. Ali, claramente inspirados em Caio Prado, arriscamos falar num \u201csentido da industrializa\u00e7\u00e3o\u201d. Argumentamos que a vinda do capital produtivo para a periferia dera uma sobrevida ao processo de acumula\u00e7\u00e3o que ia perdendo o f\u00f4lego no centro, enquanto se preparavam as condi\u00e7\u00f5es para a domin\u00e2ncia financeira que estava por vir. Hoje, uma grande crise internacional depois, o sistema combina corpora\u00e7\u00f5es mundiais gigantes, rentismo e montantes espetaculares de capital fict\u00edcio, enquanto, num misto de acumula\u00e7\u00e3o primitiva e reprodu\u00e7\u00e3o ampliada, algumas periferias se industrializam, ao passo que outras desenvolvem o movimento contr\u00e1rio. As idiossincrasias nacionais explicam por que ficamos no segundo grupo. Entre elas, com total proemin\u00eancia, a indiferen\u00e7a com que nossas elites puderam sempre, sobranceiras, levar adiante o capitalismo no Brasil, sem terem que carregar consigo, nesse movimento, a massa da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa entrevista no ano 2000, Roberto Schwarz lembra da inorganicidade nacional a que se referia Caio e observa que uma das chaves dela teria sido indicada por Alencastro, em O trato dos viventes: a combina\u00e7\u00e3o entre a Am\u00e9rica portuguesa e a \u00c1frica portuguesa gerara uma situa\u00e7\u00e3o em que a classe dominante brasileira n\u00e3o se responsabilizava pela reprodu\u00e7\u00e3o social da m\u00e3o de obra necess\u00e1ria \u00e0 atividade produtiva do pa\u00eds, conforto que se prolongou at\u00e9 as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, com a imigra\u00e7\u00e3o europeia. Em sequ\u00eancia, assinala que as fei\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras desse mecanismo fantasticamente antissocial, antes de terem se extinguido, j\u00e1 estariam ressurgindo com for\u00e7a. Assim, tudo se passa, nas palavras dele, \u201ccomo se a for\u00e7a civilizat\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o n\u00e3o tivesse sido sen\u00e3o um interregno na hist\u00f3ria do capital\u201d. Duas d\u00e9cadas e mais uma ilus\u00e3o depois, a senten\u00e7a parece mais verdadeira e aterradora que nunca. Como o demonstra este Hist\u00f3ria e desenvolvimento, Caio Prado foi certamente o primeiro pensador que, embasando a economia pol\u00edtica na hist\u00f3ria, ou a hist\u00f3ria na economia pol\u00edtica, logrou desvendar a for\u00e7a dos impulsos que a sustentam.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A economia pol\u00edtica do Brasil e seu mestre soberano \u2013 https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/11\/a-economia-politica-do-brasil-e-seu-mestre-soberano\/?utm_campaign=ADC+para+CONTATOS&amp;utm_content=A+economia+pol%C3%ADtica+do+Brasil+e+seu+mestre+soberano+%281%29&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=EmailMarketing&amp;utm_term=ADC+Fevereiro+2023+-+email+2<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32331\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[385],"tags":[223],"class_list":["post-32331","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica-da-economia-politica","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8pt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32331"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32331\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32333,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32331\/revisions\/32333"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}