{"id":32375,"date":"2024-12-26T12:25:11","date_gmt":"2024-12-26T15:25:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32375"},"modified":"2024-12-26T12:25:11","modified_gmt":"2024-12-26T15:25:11","slug":"ataque-especulativo-e-a-chantagem-dos-rentistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32375","title":{"rendered":"Ataque especulativo e a chantagem dos rentistas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/AP1GczPHcQ-m-fCjVEaAeWOrh_465kmzSnK80BUPjXEKvr1By18s1RRIad0R34cQmgq6Z0i4n37dodlOqE1MD9Vf_AM6jpJIPxJbV8_ZBg_NP2HnJx3C-lvdJ2fyhvgDxWlbzpfhJpd4xCGQsTXRcyG09arz=w700-h525-s-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Edmilson Costa*<\/p>\n<p>Na semana passada a oligarquia financeira, especialmente os rentistas em geral, realizaram um violento ataque especulativo contra o real, cujo resultado foi a eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do d\u00f3lar para R$ 6,30, num movimento artificial com o objetivo de chantagear o Congresso e o governo por mais austeridade fiscal e aumento dos juros. Esse ataque ocorreu justamente no momento em que o Congresso discutia o pacote econ\u00f4mico elaborado pelo ministro Fernando Haddad e visava fazer com que os congressistas fizessem mudan\u00e7as no documento com vistas a cortar mais gastos, atingindo justamente os setores mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, de forma a que a rapinagem financeira pudesse desviar ainda mais recursos do fundo p\u00fablico para os rentistas.<\/p>\n<p>O Banco Central, dirigido pelo bolsonarista raiz Campos Neto poderia ter realizado interven\u00e7\u00e3o no mercado mediante opera\u00e7\u00f5es de swaps cambiais[1] ou venda de d\u00f3lar para deter o ataque especulativo no nascedouro (o Brasil tem reserva de U$ 360 bilh\u00f5es, suficientes para deter qualquer movimento especulativo), mas o BC apenas lavou as m\u00e3os e s\u00f3 come\u00e7ou a realizar os leil\u00f5es cambiais quanto o estrago j\u00e1 estava feito. O mais grave nesse processo \u00e9 o fato de que o novo presidente do Banco Central Gabriel Gal\u00edpolo e o presidente Lula resolveram chancelar a chantagem do mercado. Gal\u00edpolo encontrou uma desculpa rasa, ao negar que n\u00e3o houve um ataque especulativo contra o real porque o mercado n\u00e3o age de maneira coordenada, e Lula convocou uma entrevista para dizer que n\u00e3o vai interferir na pol\u00edtica do Banco Central na nova administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que se torna estranho \u00e9 o fato de Gal\u00edpolo, um homem do mercado financeiro, que conhece bem as tramas dessa gente, ter tirado da cartola um argumento que n\u00e3o se sustenta. Ora, em um movimento especulativo n\u00e3o existe uma a\u00e7\u00e3o coordenada de 100% dos atores, isto \u00e9 apenas uma tautologia. Mas no mercado financeiro, dominado pelos dez maiores conglomerados, basta a a\u00e7\u00e3o do n\u00facleo duro para que os outros atores sigam o exemplo. E foi exatamente o que aconteceu. Os capas pretas da rapinagem financeira se movimentaram e o resto acompanhou. Simples assim: o argumento de Gal\u00edpolo apenas livra a cara dos rentistas. E o presidente Lula, ao dizer que n\u00e3o vai pressionar o Bacen, mesmo sabendo que est\u00e3o programados mais dois cavalares aumentos de juros, deu carta branca de antem\u00e3o \u00e0 especula\u00e7\u00e3o financeira. As consequ\u00eancias disso veremos em breve.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 um ataque especulativo? \u00c9 um evento em que os agentes do mercado (grandes fundos de investimentos, investidores institucionais ou especuladores em geral) decidem realizar opera\u00e7\u00f5es coordenadas para desvalorizar a moeda nacional em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 moeda estrangeira. Estes agentes vendem no mercado de c\u00e2mbio grandes quantidades de reais para adquirir moeda internacional, no caso brasileiro, o d\u00f3lar. Esse movimento aumenta a oferta de reais no mercado, pressionando sua desvaloriza\u00e7\u00e3o. Esta a\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ocorrer mediante a realiza\u00e7\u00e3o de contratos futuros, por meio dos quais os agentes apostam na desvaloriza\u00e7\u00e3o do real, pressionando a moeda nacional e, consequentemente, levando \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar.<\/p>\n<p>Os ataques especulativos ocorrem quando os agentes especuladores percebem fragilidades no governo e na economia ou apostam que o Planalto n\u00e3o ser\u00e1 capaz de defender a moeda. Nessa conjuntura, criam um clima artificial de p\u00e2nico, ampliado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o alinhados ao mercado, sempre que medidas governamentais n\u00e3o lhe agradem plenamente, como o recente pacote fiscal. Esse clima de p\u00e2nico pode gerar um efeito manada envolvendo tamb\u00e9m as empresas, que buscam se proteger da desvaloriza\u00e7\u00e3o, o que amplia ainda mais a press\u00e3o sobre a moeda nacional. Mas o importante a ressaltar \u00e9 que, com o ataque especulativo, a rapinagem financeira ganha muito dinheiro num prazo curto e ainda pressiona pelo aumento dos juros, com o que ir\u00e1 ganhar novamente mais dinheiro, num ciclo vicioso de permanente assalto ao fundo p\u00fablico.<\/p>\n<p>Consequ\u00eancias da desvaloriza\u00e7\u00e3o do real<\/p>\n<p>Antes da implanta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica neoliberal no in\u00edcio dos anos 90 com o governo Collor, poder\u00edamos considerar o Brasil como uma economia com efetiva prote\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria nacional, mediante a Lei do Similar. A Lei do Similar taxava muito fortemente a importa\u00e7\u00e3o de produtos estrangeiros desde que existisse similar fabricado no Brasil. Mas a radical abertura comercial da economia no governo Collor exp\u00f4s a ind\u00fastria nacional \u00e0 concorr\u00eancia estrangeira, o que levou \u00e0 desarticula\u00e7\u00e3o e \u00e0 quebra de v\u00e1rios ramos industriais. O governo FHC aprofundou esse processo e isso significou um maior coeficiente de importa\u00e7\u00e3o de produtos em geral, insumos industriais, componentes, o que tornou vulner\u00e1vel a balan\u00e7a comercial em fun\u00e7\u00e3o da importa\u00e7\u00e3o desses produtos e quebrou v\u00e1rios setores da ind\u00fastria brasileira.<\/p>\n<p>Quais os problemas da desvaloriza\u00e7\u00e3o do real (e do aumento do d\u00f3lar)? Esse processo encarece a importa\u00e7\u00e3o de insumos, combust\u00edvel, componentes e produtos em geral, o que vai pressionar os pre\u00e7os internos, uma vez que os empres\u00e1rios repassam os custos para os consumidores, resultando num aumento da infla\u00e7\u00e3o. A desvaloriza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m impacta no aumento dos custos de m\u00e1quinas, equipamentos, insumos industriais e tecnologias necess\u00e1rias ao crescimento econ\u00f4mico, tendo em vista que o departamento de produ\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas nacional n\u00e3o \u00e9 capaz de suprir a demanda por equipamentos mais sofisticados necess\u00e1rios \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o do parque produtivo. Ou seja, a desvaloriza\u00e7\u00e3o do real torna tamb\u00e9m mais cara a moderniza\u00e7\u00e3o do parque industrial, desestimulando os investimentos produtivos.<\/p>\n<p>O aumento da infla\u00e7\u00e3o decorrente da desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial afeta diretamente o custo de vida da popula\u00e7\u00e3o e corr\u00f3i o poder de compra das fam\u00edlias, especialmente dos mais pobres, que gastam a maior parte de sua renda com o consumo e s\u00e3o os mais prejudicados com o aumento dos pre\u00e7os. Esta \u00e9 uma din\u00e2mica perversa: enquanto os abutres financeiros ganham rios de dinheiro com a especula\u00e7\u00e3o e a desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial, o que aprofunda a concentra\u00e7\u00e3o de renda, os trabalhadores s\u00e3o os principais perdedores, porque s\u00e3o obrigados a reduzir seu consumo e padr\u00e3o de vida, ampliando a desigualdade social.<\/p>\n<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial tamb\u00e9m aumenta o custo da d\u00edvida p\u00fablica denominada em moeda estrangeira, agravando o d\u00e9ficit fiscal, limitando a capacidade de o Estado realizar pol\u00edticas sociais e desenvolver infraestrutura, abrindo espa\u00e7o para que a oligarquia financeira reivindique novos ajustes fiscais para garantir o equil\u00edbrio da d\u00edvida. Al\u00e9m disso, o clima vol\u00e1til pode estimular a fuga de capitais, o que, por sua vez, pode agravar ainda mais a deprecia\u00e7\u00e3o cambial. Em outros termos, a sa\u00edda de capitais enfraquece a moeda nacional e gera mais instabilidade econ\u00f4mica. Algu\u00e9m pode argumentar que a desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial vai beneficiar os exportadores porque torna os produtos nacionais mais competitivos no exterior. Esta \u00e9 uma falsa vis\u00e3o, uma vez que a maior parte dos setores exportadores dependem de insumos importados.<\/p>\n<p>O aumento dos juros e o desastre econ\u00f4mico<\/p>\n<p>A pol\u00edtica neoliberal \u00e9 um coquetel de din\u00e2micas perversas: para conter a infla\u00e7\u00e3o o Banco Central tem como \u00fanico rem\u00e9dio o aumento das taxas de juros. Como vimos em v\u00e1rios artigos anteriores, os juros mais altos n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o resolvem o aumento da infla\u00e7\u00e3o como aprofundam todos os problemas da economia, num ciclo vicioso que envolve queda na atividade econ\u00f4mica e mesmo recess\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o do emprego e da renda dos trabalhadores e diminui\u00e7\u00e3o do consumo das fam\u00edlias. Consequentemente, os empres\u00e1rios deixar\u00e3o de investir porque n\u00e3o h\u00e1 demanda suficiente, o governo recolher\u00e1 menos impostos porque as vendas diminuem, e o resultado desse processo \u00e9 o desastre econ\u00f4mico e a instabilidade social.<\/p>\n<p>Enquanto os especuladores fazem a festa com a desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial e os pre\u00e7os tendem a aumentar internamente, o aumento das taxas de juros completa o quadro sombrio para a economia brasileira. Como o pr\u00f3prio Banco Central alertou em seu comunicado, os juros no Brasil n\u00e3o apenas se colocam entre os mais altos do mudo (Tabela 1), como ainda dever\u00e3o subir mais dois pontos percentuais nas pr\u00f3ximas reuni\u00f5es do Copom, o que dever\u00e1 levar o pa\u00eds \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou ao baix\u00edssimo crescimento, mantendo a mesma a l\u00f3gica desses 34 anos de pol\u00edtica neoliberal no Brasil, fato que ampliou a concentra\u00e7\u00e3o da renda, as desigualdades sociais, a precariza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, a pobreza e a mis\u00e9ria entre a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Tabela 1\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Taxas de juro real de pa\u00edses selecionados com base nas expectativas<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>de infla\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3ximos 12 meses at\u00e9 o II trimestre-2025[2]<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Turquia<\/strong><\/td>\n<td><strong>24<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>R\u00fassia<\/strong><\/td>\n<td><strong>12,3<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Brasil<\/strong><\/td>\n<td><strong>7,3<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>M\u00e9xico<\/strong><\/td>\n<td><strong>7,2<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>\u00c1frica do Sul<\/strong><\/td>\n<td><strong>3,6<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Estados Unidos<\/strong><\/td>\n<td><strong>2,7<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Canad\u00e1<\/strong><\/td>\n<td><strong>2,7<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>\u00cdndia <\/strong><\/td>\n<td><strong>2,1<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>It\u00e1lia<\/strong><\/td>\n<td><strong>1,8<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Alemanha <\/strong><\/td>\n<td><strong>1,7<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Fran\u00e7a<\/strong><\/td>\n<td><strong>1,5<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Fonte: Valor Data<\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>A gan\u00e2ncia da oligarquia financeira e dos rentistas em geral n\u00e3o tem limites e o governo n\u00e3o dever\u00e1 fazer nenhum movimento no sentido de deter o aumento dos juros programados para as pr\u00f3ximas reuni\u00f5es do Copom. Isso significa que a taxa Selic dever\u00e1 alcan\u00e7ar 14,25%, uma insanidade em termos de pol\u00edtica econ\u00f4mica. O que poder\u00e1 acontecer com a economia no pr\u00f3ximo ano se as taxas aumentarem nesse patamar? A economia entrar\u00e1 num processo de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica pelos seguintes motivos: a) o governo dificilmente intervir\u00e1 para restabelecer a demanda agregada porque est\u00e1 preso \u00e0 l\u00f3gica neoliberal; b) os empres\u00e1rios, por sua vez, dificilmente investir\u00e3o porque se tornar\u00e1 mais vantajoso aplicar em t\u00edtulos p\u00fablicos, sem nenhum risco, do que arriscar seu capital na produ\u00e7\u00e3o, num ambiente de desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Os grandes empres\u00e1rios, mesmo deixando de investir na produ\u00e7\u00e3o, ter\u00e3o seu capital preservado com grande margem de lucro, pois a d\u00edvida interna funciona como um colch\u00e3o de seguran\u00e7a para o conjunto das classes dominantes. Mas as pequenas e m\u00e9dias empresas enfrentar\u00e3o grandes obst\u00e1culos para desenvolver seus neg\u00f3cios. Como esses empres\u00e1rios t\u00eam acesso limitado \u00e0s fontes de financiamento, como o mercado de capitais, ter\u00e3o de pagar juros mais altos e enfrentar\u00e3o maiores restri\u00e7\u00f5es para acessar os empr\u00e9stimos. Nesta conjuntura, aqueles que n\u00e3o tiverem condi\u00e7\u00f5es de repassar para os pre\u00e7os os custos de financiamento, especialmente os menores, ter\u00e3o enormes dificuldades para se manter no mercado e milhares poder\u00e3o ir \u00e0 fal\u00eancia, com impactos negativos no emprego e na renda.<\/p>\n<p>Os consumidores tamb\u00e9m ser\u00e3o afetados severamente pelo aumento dos juros, tendo em vista que os bancos no Brasil cobram um dos maiores spreads do mundo. A taxa Selic \u00e9 apenas uma refer\u00eancia, pois no cart\u00e3o de cr\u00e9dito os juros chegam a cerca de 200% ao ano e quase dobram nas compras a prazo. Dessa maneira, os custos do cr\u00e9dito direto ao consumidor, dos financiamentos imobili\u00e1rios, dos financiamentos de ve\u00edculos, entre outros, afastar\u00e3o muitos consumidores do mercado. Deve-se levar em conta ainda que as fam\u00edlias j\u00e1 endividadas poder\u00e3o ver suas parcelas de financiamento subirem se contrataram as compras a juros flutuantes, o que vai agravar o problema da inadimpl\u00eancia, j\u00e1 bastante expressivo no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Neste ambiente, com a redu\u00e7\u00e3o dos investimentos e do consumo das fam\u00edlias, a economia despenca para a estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou mesmo para a recess\u00e3o e o desemprego. Para a oligarquia financeira, isso n\u00e3o \u00e9 problema. Ali\u00e1s, a conjuntura atual \u00e9 at\u00e9 mesmo favor\u00e1vel aos interesses dos rentistas porque h\u00e1 um desest\u00edmulo \u00e0 a\u00e7\u00e3o do movimento sindical e \u00e0 luta dos trabalhadores e das trabalhadoras, mais preocupados em preservar seus empregos do que arrisc\u00e1-los na luta por melhores sal\u00e1rios. Isto significa que a rapinagem financeira pode realizar as pol\u00edticas de austeridade sem resist\u00eancia social. Para esses parasitas s\u00f3 interessa os lucros a qualquer custo \u2013 e que se dane a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tabela abaixo (Tabela 2) revela o impressionante volume de recursos que o governo transfere anualmente para a oligarquia financeira. Por esses dados, em termos de percentuais do PIB em rela\u00e7\u00e3o ao que o governo gasta com juros, poderemos observar a sangria cavalar de dinheiro do fundo p\u00fablico para os setores que dele est\u00e3o se apropriando. O mais perverso \u00e9 o fato de que a oligarquia realiza todo tipo de press\u00e3o para que o governo implemente o corte de gastos contra trabalhadores e trabalhadoras, pensionistas e a popula\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel, mas n\u00e3o quer debater a quest\u00e3o do pagamento dos juros. Isto tornou-se um tema tabu, praticamente naturalizaram a rapinagem. Os notici\u00e1rios s\u00f3 entrevistam os economistas do mercado, todos eles alinhados com a pol\u00edtica neoliberal, que refor\u00e7am o mantra de que a quest\u00e3o da d\u00edvida e dos juros \u00e9 intoc\u00e1vel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/AP1GczOAwCCChHg9a838BGGD5vd2NDSHbz0Wuf2LsYkYT6XhwpN2-7pusNLGv4uauqdcUvPOcfIXx4uFV1TOR1ocF7-5rW4Z1lJWakHZjxDT_iLbBQH5NL7k4Qt30hTMk3ETAfs7JqNq_5N7X5p5b0ysPahd7A=w631-h409-s-no\" alt=\"imagem\" \/>Mas o fato concreto \u00e9 que, para sanear a economia, o ajuste deve ser feito exatamente na quest\u00e3o da d\u00edvida e dos juros. O pacote fiscal de um governo comprometido com os interesses populares deve ser feito para taxar os lucros, dividendos dos milion\u00e1rios e as heran\u00e7as, suspender a isen\u00e7\u00e3o fiscal das empresas que n\u00e3o geram empregos e coibir a sonega\u00e7\u00e3o fiscal, porque s\u00e3o exatamente estes setores que devem pagar a conta da crise. Como vimos em artigo anterior, entre 2021 e outubro de 2024 o pa\u00eds gastou com juros cerca de 2,8 trilh\u00f5es, uma quantia astron\u00f4mica que daria para resolver grande parte dos problemas sociais brasileiros. Esta \u00e9 a verdadeira sangria que deve ser detida e n\u00e3o o sal\u00e1rio m\u00ednimo e os programas sociais dos mais pobres.<\/p>\n<p>Somente a luta popular pode mudar esse quadro<\/p>\n<p>O mais dram\u00e1tico de todo esse processo \u00e9 constatar que o governo Lula, al\u00e9m de prejudicar os setores mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o, abandonou a disputa ideol\u00f3gica com a extrema-direita e terceirizou para o Supremo Tribunal Federal a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas com os golpistas. Tamb\u00e9m abandonou a disputa nas ruas, abrindo espa\u00e7o para que os fascistas voltem a ocup\u00e1-las com suas pautas conservadoras e o discurso antissistema, principalmente numa conjuntura em que o futuro presidente dos Estados Unidos \u00e9 um aliado dos grupos de extrema-direita. Sob o pretexto de que \u00e9 necess\u00e1rio garantir a governabilidade, o governo se finge de morto e prefere os acordos de gabinete com o Centr\u00e3o, as oligarquias regionais e a burguesia. Para a classe trabalhadora e a popula\u00e7\u00e3o pobre restam apenas as migalhas das compensa\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Aquela promessa de campanha de que era necess\u00e1rio colocar os ricos no imposto de renda e os pobres no or\u00e7amento se transformou em mais uma promessa t\u00edpica da velha pol\u00edtica, porque ap\u00f3s a edi\u00e7\u00e3o do arcabou\u00e7o fiscal e do recente pacote econ\u00f4mico contra os pobres n\u00e3o se pode esperar nenhuma medida capaz de mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as ou avan\u00e7ar no sentido de reconstruir o pa\u00eds na perspectiva dos interesses populares. Para as for\u00e7as revolucion\u00e1rias, esta \u00e9 uma conjuntura dif\u00edcil, mas estamos na luta exatamente para resolver problemas dif\u00edceis. Portanto, devemos contar apenas com a nossa capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o, para que nossas propostas se transformem em for\u00e7a pol\u00edtica de massas, n\u00e3o apenas porque s\u00e3o justas, mas especialmente porque s\u00e3o necess\u00e1rias para mudar o rumo da realidade, atuando para fortalecer as lutas populares, no caminho da constru\u00e7\u00e3o do poder popular e do socialismo.<\/p>\n<p>Edmilson Costa \u00e9 doutor em economia pela Unicamp e secret\u00e1rio-geral do PCB<\/p>\n<p>[1] Swap cambial \u00e9 um instrumento financeiro frequentemente utilizado pelo Banco Central para gerenciar riscos da varia\u00e7\u00e3o cambial quando ocorre varia\u00e7\u00f5es bruscas no c\u00e2mbio.<\/p>\n<p>[2] A taxa de juro real \u00e9 encontrada mediante a rela\u00e7\u00e3o entre taxa de juro nominal e a infla\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32375\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[222],"class_list":["post-32375","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8qb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32375"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32375\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32376,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32375\/revisions\/32376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}