{"id":32409,"date":"2025-01-06T18:49:31","date_gmt":"2025-01-06T21:49:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32409"},"modified":"2025-01-06T18:49:31","modified_gmt":"2025-01-06T21:49:31","slug":"o-internacionalismo-deve-construir-o-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32409","title":{"rendered":"O internacionalismo deve construir o caminho"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32410\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32409\/internacionalismo-1\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/internacionalismo-1.webp?fit=716%2C895&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"716,895\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"internacionalismo-1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/internacionalismo-1.webp?fit=716%2C895&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-32410\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/internacionalismo-1.webp?resize=716%2C895&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"716\" height=\"895\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/internacionalismo-1.webp?w=716&amp;ssl=1 716w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/internacionalismo-1.webp?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 716px) 100vw, 716px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Eduardo Matos, secret\u00e1rio de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UJC<\/p>\n<p>Camaradas, quero trazer uma reflex\u00e3o para todos aqueles que sonham com uma sociedade livre de classes, com o fim da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem e com a emancipa\u00e7\u00e3o humana. A luta de classes trouxe conquistas inquestion\u00e1veis para os trabalhadores ao redor do mundo, e os comunistas souberam observar a realidade e se apropriar de ferramentas te\u00f3ricas para analis\u00e1-la e transform\u00e1-la. Hoje, artigos e pesquisas fundamentam decis\u00f5es importantes das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, existem grupos de estudo e debate, agitamos essas propostas e, assim, a luta avan\u00e7a, as vit\u00f3rias chegam.<\/p>\n<p>Uma pergunta que vos fa\u00e7o: o internacionalismo \u00e9 apenas a organiza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da disciplina e da consci\u00eancia para a solidariedade com outros povos? Sabemos que n\u00e3o. Por\u00e9m, a organiza\u00e7\u00e3o das sociedades internacionalmente h\u00e1 tempos n\u00e3o est\u00e1 na agenda das organiza\u00e7\u00f5es. Quero convidar voc\u00ea que l\u00ea a pensar sobre isso e lembrar que o texto, dentro de uma organiza\u00e7\u00e3o comunista, n\u00e3o \u00e9 norma. Espero que, t\u00e3o somente, eu possa abrir um debate, instigar o interesse e a criatividade de cada um. Os acertos vir\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o debatemos suficientemente o internacionalismo<\/strong><br \/>\nO internacionalismo \u00e9 uma das bases fundamentais do movimento comunista. O entendimento de que existe a divis\u00e3o internacional do trabalho, as mazelas do colonialismo, do imperialismo e o car\u00e1ter internacional da luta de classes n\u00e3o \u00e9 novidade. Denunciamos as amofina\u00e7\u00f5es enfrentadas pelos povos do mundo, somos solid\u00e1rios \u00e0s causas justas e defendemos a autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos. Entretanto, diferentemente de outras disciplinas que s\u00e3o estudadas com maior rigor pelos comunistas, como a economia, a pedagogia e a sociologia, as rela\u00e7\u00f5es internacionais permanecem isoladas em bolhas acad\u00eamicas. Isso constitui um entrave para o avan\u00e7o de formula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas centrais ao futuro do movimento comunista internacional e \u00e0 vit\u00f3ria que estamos construindo para uma humanidade liberta.<\/p>\n<p>A disciplina de rela\u00e7\u00f5es internacionais abrange os estudos voltados \u00e0 compreens\u00e3o da ordem pol\u00edtica que rege o mundo, \u00e0 explica\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos pol\u00edticos e sociol\u00f3gicos que afetam a vida humana e \u00e0 an\u00e1lise do poder e do futuro das civiliza\u00e7\u00f5es, tendo como base primordial a investiga\u00e7\u00e3o do sistema formado pelos Estados nacionais. Trata-se de uma disciplina relativamente nova, consolidada no per\u00edodo p\u00f3s-Primeira Guerra Mundial, cujos debates foram duramente influenciados pela disputa hegem\u00f4nica entre os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Al\u00e9m disso, muitos de seus aspectos estruturantes ainda est\u00e3o sendo amadurecidos pela pr\u00f3pria academia.<\/p>\n<p>Mesmo entendendo que as ferramentas te\u00f3ricas das rela\u00e7\u00f5es internacionais est\u00e3o em constante disputa, \u00e9 fundamental integr\u00e1-las \u00e0s an\u00e1lises conjunturais que realizamos sob essa \u00f3tica, para evitar erros comuns entre aqueles que n\u00e3o tiveram exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 disciplina. Tais erros nos afastam da ci\u00eancia e nos aproximam das apar\u00eancias. Frequentemente, incorre-se em an\u00e1lises internacionais marcadas por determinismos que apequenam a centralidade pol\u00edtica dos fen\u00f4menos no sistema internacional. Entre eles, destacam-se o determinismo geogr\u00e1fico, que banaliza a geopol\u00edtica; o determinismo econ\u00f4mico, que resulta na constru\u00e7\u00e3o de discursos que fortalecem a ordem estabelecida, liberal e capitalista; a concentra\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia pol\u00edtica na institucionalidade; ou, por outro lado, o abandono completo da institucionalidade em nossas t\u00e1ticas. Essas posturas levam ao esvaziamento do \u00e2mbito internacional como espa\u00e7o de disputa para o nosso campo pol\u00edtico. \u00c9 urgente superar a estereotipa\u00e7\u00e3o da disciplina de rela\u00e7\u00f5es internacionais e reconhecer sua pot\u00eancia enquanto ferramenta transformadora da realidade.<\/p>\n<p>Neste sentido, \u00e9 importante diferenciar as rela\u00e7\u00f5es internacionais da geopol\u00edtica. Esta \u00faltima parte do princ\u00edpio de que aspectos geogr\u00e1ficos dificultam ou facilitam a intera\u00e7\u00e3o humana e o desenvolvimento em determinado territ\u00f3rio, especialmente ao observar a disponibilidade de recursos para o desenvolvimento econ\u00f4mico. Embora se mostre uma ferramenta interessante para a an\u00e1lise pol\u00edtica, a geopol\u00edtica revela-se pouco adequada para explicar fen\u00f4menos sociopol\u00edticos, pois baseia-se em um determinismo geogr\u00e1fico que supostamente guiaria as a\u00e7\u00f5es dos Estados ao longo da hist\u00f3ria. Cabe destacar tamb\u00e9m que o surgimento da geopol\u00edtica ocorreu entre o final do s\u00e9culo XIX e o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, nas grandes pot\u00eancias imperialistas europeias, sendo historicamente empregada como justificativa para o expansionismo e a conquista de poder por pa\u00edses como Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. Em uma an\u00e1lise marxista, \u00e9 essencial considerar as \u201clacunas\u201d deixadas pela geopol\u00edtica, levando em conta a relev\u00e2ncia da pol\u00edtica. Isso porque o pr\u00f3prio Estado, suas caracter\u00edsticas e as rela\u00e7\u00f5es entre institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sociais \u2013 ou seja, conven\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em constante disputa.<\/p>\n<p>A geopol\u00edtica \u00e9 uma ferramenta importante na an\u00e1lise conjuntural, mas n\u00e3o deve ser o fator determinante. N\u00e3o \u00e9 adequado utilizarmos categorias, ferramentas te\u00f3ricas e narrativas que reforcem a divis\u00e3o de classes, o esvaziamento da ag\u00eancia pol\u00edtica da classe trabalhadora e a manuten\u00e7\u00e3o do sistema internacional atual, que \u00e9 capitalista, liberal e conformado pela hegemonia de pot\u00eancias burguesas, colonizadoras e genocidas.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que as rela\u00e7\u00f5es internacionais, enquanto disciplina, est\u00e3o hoje distantes dos principais debates que alcan\u00e7am a classe trabalhadora. Isso ocorre n\u00e3o apenas pela imaturidade da disciplina em seu desenvolvimento hist\u00f3rico, mas tamb\u00e9m pelo interesse daqueles que det\u00eam a hegemonia do sistema. Dessa forma, a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica n\u00e3o se traduz em capacidade organizativa, disputa pol\u00edtica ou apropria\u00e7\u00e3o do conhecimento em prol do avan\u00e7o das nossas lutas \u2013 uma situa\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m ocorre em outras \u00e1reas estrat\u00e9gicas, como a Economia. Isso abre espa\u00e7o para que a propaganda seja frequentemente a \u00fanica forma utilizada para a explica\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos internacionais. Nesse contexto, \u00e9 comum a simplifica\u00e7\u00e3o de categorias e o uso inadequado de termos, geralmente desconectados da realidade hist\u00f3rica, com o objetivo de cooptar a consci\u00eancia da nossa classe de maneira acr\u00edtica.<\/p>\n<p>O Sistema Internacional \u00e9 de interesse dos trabalhadores. Ele \u00e9 um espa\u00e7o de disputa pol\u00edtica, questionamento e enfrentamento da ordem estabelecida. Seu funcionamento, sua normatividade e as ci\u00eancias que sustentam sua opera\u00e7\u00e3o reverberam diretamente na vida cotidiana de cada um de n\u00f3s. O entendimento da divis\u00e3o internacional do trabalho, da hegemonia dos pa\u00edses do capitalismo central, da tipifica\u00e7\u00e3o de movimentos sociais como criminosos, do revisionismo hist\u00f3rico e de outros fen\u00f4menos \u00e9 central para o sucesso da organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e para a possibilidade do estabelecimento do socialismo. Atuar nesse espa\u00e7o com qualidade deve ser uma prioridade, e preparar a forma\u00e7\u00e3o para essa qualifica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma necessidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es internacionais carregam consigo o estere\u00f3tipo de uma disciplina indisput\u00e1vel, que, justamente, apenas refor\u00e7aria o sistema internacional da ordem estabelecida. Essa vis\u00e3o precisa ser superada. A compreens\u00e3o do sistema internacional, sua cr\u00edtica qualificada e a proje\u00e7\u00e3o de uma nova perspectiva e de um novo projeto para ele s\u00e3o necessidades latentes, pois o sistema internacional hegem\u00f4nico \u00e9 o grande respons\u00e1vel pelos embargos, sabotagens e boicotes \u00e0s experi\u00eancias nacionais mais pr\u00f3ximas do socialismo ou socialistas. O esvaziamento do campo socialista em \u00e2mbito internacional trouxe grandes derrotas para a nossa classe. A n\u00e3o mobiliza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora nesse n\u00edvel prejudica o avan\u00e7o do socialismo nos pa\u00edses. A mudan\u00e7a da ordem estabelecida no sistema internacional \u00e9 hist\u00f3rica, poss\u00edvel e est\u00e1 acontecendo diante dos nossos olhos neste momento. \u00c9 necess\u00e1rio ocupar esses espa\u00e7os para formular e lutar pelos novos termos que regular\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es internacionais da pr\u00f3xima era, ou pax.<\/p>\n<p><strong>O que est\u00e1 em disputa nos debates das rela\u00e7\u00f5es internacionais?<\/strong><br \/>\nDentro das rela\u00e7\u00f5es internacionais, assim como em todas as ci\u00eancias, existem diferentes linhas de pensamento, que analisam a realidade a partir de propostas e perspectivas contradit\u00f3rias. H\u00e1 linhas de pensamento, tamb\u00e9m chamadas escolas, que apresentam maior compatibilidade com a nossa linha pol\u00edtica. Elas s\u00e3o os \u00f3culos que usamos para enxergar o mundo, e precisamos enxergar o que est\u00e1 distante e marginalizado. Precisamos corrigir o astigmatismo para solucionar a miopia.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante, portanto, que nossos posicionamentos, escritos e pol\u00edticas sejam pensados de forma a n\u00e3o propagarem ferramentas te\u00f3ricas e categorias contradit\u00f3rias, que estabele\u00e7am obst\u00e1culos ao avan\u00e7o da luta de classes. Em uma analogia com a Economia, \u00e9 fundamental que n\u00e3o nos posicionemos nem tomemos decis\u00f5es que corroborem a propaganda da privatiza\u00e7\u00e3o, da financeiriza\u00e7\u00e3o da economia, como a responsabilidade fiscal, entre outros.<\/p>\n<p>Devemos pautar nossa linha em rela\u00e7\u00f5es internacionais com consist\u00eancia e maturidade te\u00f3rica, a fim de direcionar a a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de forma mais estrat\u00e9gica, consciente e acertada, alcan\u00e7\u00e1vel pela milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Existem diversas escolas de pensamento nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, como o Realismo, o Liberalismo, a Teoria Cr\u00edtica e o Marxismo. H\u00e1 tamb\u00e9m outras escolas, como o p\u00f3s-modernismo, o construtivismo, o feminismo, a Escola Inglesa e a chamada pol\u00edtica verde. No entanto, para uma contextualiza\u00e7\u00e3o mais geral, o confronto entre essas quatro primeiras \u00e9 suficiente em um primeiro momento.<\/p>\n<p>O Realismo em rela\u00e7\u00f5es internacionais \u00e9 uma escola de pensamento amplamente difundida, pois, dentro do desenvolvimento hist\u00f3rico da disciplina, \u00e9 a mais antiga e estudada, sendo a escola hegem\u00f4nica das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Os elementos comuns aos realistas s\u00e3o: a centralidade do Estado, que sempre busca manter sua sobreviv\u00eancia; a fun\u00e7\u00e3o do poder, que garante a manuten\u00e7\u00e3o dessa sobreviv\u00eancia; a autoajuda, que assegura a sobreviv\u00eancia de maneira independente, ainda que por meio de alian\u00e7as; e a anarquia internacional, caracter\u00edstica do sistema internacional que \u00e9 incapaz de regular as rela\u00e7\u00f5es entre os Estados. O Realismo considera a \u201cnatureza humana\u201d como elemento importante para sua formula\u00e7\u00e3o. Nesse caso, o ser humano \u00e9 visto como naturalmente ego\u00edsta e autocentrado, em uma vis\u00e3o diretamente inspirada na obra de Thomas Hobbes (\u201cO homem \u00e9 o lobo do homem\u201d). A Realpolitik alem\u00e3 \u00e9 um cl\u00e1ssico exemplo de an\u00e1lise realista. Muitas vezes, os Estados s\u00e3o obrigados a cooperar e a formar alian\u00e7as para sobreviver, sobretudo em fun\u00e7\u00e3o de um equil\u00edbrio de poder, ou seja, buscando manter uma distribui\u00e7\u00e3o equilibrada de poder no plano internacional. Assim, se um Estado se torna muito poderoso, os outros podem formar um bloco para neutralizar seu poder e reduzir os riscos que ele representa \u00e0 seguran\u00e7a de cada na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Realismo apresenta como principal problema a impossibilidade de mudan\u00e7a. H\u00e1 apenas a mudan\u00e7a dos \u201cEstados mais fortes\u201d, que regular\u00e3o o Sistema Internacional por meio de seu poder e for\u00e7a. No entanto, sendo o sistema fechado e an\u00e1rquico, essa realidade n\u00e3o se modifica, independentemente das transforma\u00e7\u00f5es sociais que ocorram. Nesse sentido, o Realismo n\u00e3o problematiza o sistema socioecon\u00f4mico, tratando-o como uma quest\u00e3o secund\u00e1ria. Os realistas s\u00e3o anti-marxistas, pois afirmam que a ascens\u00e3o de governos socialistas pelo mundo n\u00e3o impediria a competi\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses, considerando essa vis\u00e3o idealista. Essa concep\u00e7\u00e3o realista deriva da ideia de que as caracter\u00edsticas do sistema internacional refletem a natureza humana. Em contraposi\u00e7\u00e3o, o marxismo rejeita concep\u00e7\u00f5es que postulam a natureza como um aglomerado inerte, distinguindo-se por uma an\u00e1lise orientada pela dimens\u00e3o hist\u00f3rica e pelo papel da pr\u00e1xis humana. Al\u00e9m disso, o Realismo se distancia do entendimento do internacionalismo prolet\u00e1rio, que \u00e9 um pilar hist\u00f3rico do Movimento Comunista Internacional. Este defende que uma sociedade solid\u00e1ria de classe n\u00e3o apenas \u00e9 poss\u00edvel, mas tamb\u00e9m necess\u00e1ria, a partir da eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia da nossa classe.<\/p>\n<p>O Liberalismo \u00e9 a escola em maior ascens\u00e3o e disputa a hegemonia com o Realismo. Normalmente considerados \u201cidealistas\u201d pelos expoentes das escolas realistas, os liberais t\u00eam uma vis\u00e3o predominantemente positiva da natureza humana e veem o Estado como um mal necess\u00e1rio. Para os liberais, as rela\u00e7\u00f5es internacionais podem envolver coopera\u00e7\u00e3o e paz, possibilitando o crescimento do livre com\u00e9rcio e a expans\u00e3o dos direitos universais. Os liberais enfatizam as rela\u00e7\u00f5es internacionais como um palco em que atuam m\u00faltiplos atores, como os Estados, as organiza\u00e7\u00f5es internacionais, as empresas transnacionais e os indiv\u00edduos. Por esse motivo, tamb\u00e9m s\u00e3o chamados de pluralistas e institucionalistas. Eles acreditam que as rela\u00e7\u00f5es internacionais podem assumir um aspecto mais otimista e livre de guerras, motivado principalmente pelo livre com\u00e9rcio. A interdepend\u00eancia \u00e9 um conceito amplamente utilizado pelos liberais para sustentar suas teses.<\/p>\n<p>O principal problema do Liberalismo em rela\u00e7\u00f5es internacionais \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o do sistema capitalista como um objetivo necess\u00e1rio. Os liberais prop\u00f5em uma reforma do sistema internacional baseada no fomento e no estabelecimento de coopera\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio e acordos, utilizando como m\u00e9todo as premissas do liberalismo capitalista. Tanto o Liberalismo quanto o Realismo trabalham com e para a manuten\u00e7\u00e3o da ordem estabelecida.<\/p>\n<p>A Teoria Cr\u00edtica em rela\u00e7\u00f5es internacionais surgiu na d\u00e9cada de 1980 como uma cr\u00edtica ao debate entre neorrealistas e neoliberais e \u00e0 centralidade do Estado como principal ator do Sistema Internacional, reacendendo, mais uma vez, o debate metodol\u00f3gico nas rela\u00e7\u00f5es internacionais. Essa teoria se fundamenta em autores marxistas e neomarxistas, resgatando deles conceitos e metodologias para propor uma nova perspectiva sobre o Sistema Internacional, n\u00e3o apenas para sua leitura e entendimento, mas tamb\u00e9m para sua transforma\u00e7\u00e3o. A Teoria Cr\u00edtica compreende que o mundo est\u00e1 em constante metamorfose e que as conjunturas s\u00e3o transit\u00f3rias. Resgata, do marxismo, o materialismo hist\u00f3rico e o entendimento de que as estruturas s\u00e3o produtos hist\u00f3ricos e, portanto, pass\u00edveis de mudan\u00e7a. Os te\u00f3ricos cr\u00edticos prop\u00f5em um caminho normativo alternativo para o Sistema Internacional, que favore\u00e7a a sociedade e ponha fim \u00e0s injusti\u00e7as sociais, mesmo que isso implique romper com a ordem estabelecida.<\/p>\n<p>A Teoria Cr\u00edtica sustenta a centralidade da sociedade como motor do Sistema Internacional, a partir de sua emancipa\u00e7\u00e3o. Essa emancipa\u00e7\u00e3o significa a liberta\u00e7\u00e3o da sociedade de estruturas desnecess\u00e1rias de controle e domina\u00e7\u00e3o, promovendo, assim, sua autodetermina\u00e7\u00e3o e autonomia. Essa transforma\u00e7\u00e3o ocorreria por meio de um esfor\u00e7o que colocaria a oposi\u00e7\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o igualmente cr\u00edtica, trazendo \u00e0 luz os problemas e contradi\u00e7\u00f5es do sistema. Dessa forma, busca-se fazer com que, a partir de suas pr\u00f3prias percep\u00e7\u00f5es, os atores sociais se unam \u00e0 luta contra-hegem\u00f4nica para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem. Esse \u00e9 um trabalho de forma\u00e7\u00e3o de base, que deve pregar um cosmopolitismo universalista, mas limitado pelo respeito \u00e0 pluralidade humana e que n\u00e3o deve aderir a estruturas padronizadas para sua execu\u00e7\u00e3o. O objetivo \u00e9 a g\u00eanese de novos instrumentos de governan\u00e7a e a intensifica\u00e7\u00e3o da democracia, ao repensar as comunidades a partir das lutas sociais e de suas causas. \u00c9 importante destacar que a Escola Cr\u00edtica em rela\u00e7\u00f5es internacionais \u00e9 muito ampla, abarcando autores que se contradizem e divergem em diversos aspectos. Tamb\u00e9m inclui leituras espec\u00edficas sobre temas particulares, que nem sempre se apresentam como uma teoria geral para as rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Das escolas te\u00f3ricas de rela\u00e7\u00f5es internacionais, uma das menos consolidada e recente \u00e9 o Marxismo. Embora Marx n\u00e3o tenha uma obra acabada sobre o Estado, s\u00e3o ineg\u00e1veis as contribui\u00e7\u00f5es dele e de outros Marxistas para an\u00e1lises do Estado enquanto institui\u00e7\u00e3o de controle social e manuten\u00e7\u00e3o do poder burgu\u00eas. O fato de Marx pensar que o socialismo seria um fen\u00f4meno global e n\u00e3o europeu merece coment\u00e1rios adicionais. Enquanto a guerra, o imperialismo e o com\u00e9rcio simplesmente destru\u00edram o isolamento das sociedades humanas anteriores, o capitalismo direcionou todas as se\u00e7\u00f5es da ra\u00e7a humana para um \u00fanico fluxo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Poucos estudiosos de rela\u00e7\u00f5es internacionais reconheceram a import\u00e2ncia dessa preocupa\u00e7\u00e3o com a unifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica da esp\u00e9cie humana, com a amplia\u00e7\u00e3o das fronteiras da coopera\u00e7\u00e3o social e com as for\u00e7as que bloquearam avan\u00e7os na solidariedade humana. Poucos estudiosos tradicionais comentaram sobre seu fasc\u00ednio pela rela\u00e7\u00e3o entre internacionaliza\u00e7\u00e3o e internacionalismo, mas esses s\u00e3o temas cruciais em seus escritos que cont\u00eam muito do que deve interessar ao estudante de rela\u00e7\u00f5es internacionais contempor\u00e2neas. Os marxistas enxergam que as burguesias nacionais controlam os diferentes sistemas de governo para preservar e perseguir os seus interesses, e que h\u00e1 um crescente aumento da classe trabalhadora e sua precariza\u00e7\u00e3o, num entendimento que h\u00e1 um car\u00e1ter cosmopolita da nossa classe. A rela\u00e7\u00e3o das burguesias nacionais era objeto de estudo frequente. A radicalidade da classe trabalhadora j\u00e1 se mostrou capaz de propor mudan\u00e7as estruturais no sistema, e que atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria poder\u00e1 mudar o fluxo hist\u00f3rico que o capitalismo imp\u00f4s sobre as sociedades.<\/p>\n<p>As abordagens marxistas das rela\u00e7\u00f5es internacionais refletiram sobre os processos que levaram \u00e0 unifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social da humanidade, enfatizando o papel desempenhado pelo capitalismo moderno na acelera\u00e7\u00e3o desse desenvolvimento. Substituir a aliena\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o e o estranhamento por uma forma de coopera\u00e7\u00e3o universal que promovesse a liberdade para todos era a aspira\u00e7\u00e3o \u00e9tica central dessas an\u00e1lises. O proletariado internacional era considerado o sujeito hist\u00f3rico capaz de realizar esses objetivos. No entanto, o crescimento do nacionalismo e o perigo iminente de guerra na Europa levaram Marx e Engels a reconsiderar a natureza do caminho para a emancipa\u00e7\u00e3o universal. Desde o in\u00edcio at\u00e9 as an\u00e1lises mais recentes sobre a desigualdade global, os marxistas t\u00eam enfrentado a quest\u00e3o de saber se a globaliza\u00e7\u00e3o capitalista est\u00e1 destinada a preparar o caminho para o internacionalismo ou se as poderosas formas de lealdade nacional continuar\u00e3o a impedir esse processo.<\/p>\n<p>Alguns autores interpretam o car\u00e1ter da luta de classes e da produ\u00e7\u00e3o como elementos fundamentais das rela\u00e7\u00f5es internacionais, destacando, por exemplo, a no\u00e7\u00e3o de luta de classes vertical e horizontal, proposta por Vendulka Kubalkova. Esse debate relaciona a distribui\u00e7\u00e3o internacional do trabalho com o papel hier\u00e1rquico das pr\u00f3prias burguesias, cujo papel \u00e9 determinado e limitado pelos pa\u00edses do capitalismo central. Essa rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica reflete diretamente na luta de classes vertical, dentro dos respectivos pa\u00edses, evidenciando como as din\u00e2micas internacionais influenciam as contradi\u00e7\u00f5es de classe no \u00e2mbito nacional.<\/p>\n<p>O Marxismo e a Teoria Cr\u00edtica, em suas principais contribui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se apresentam como contradit\u00f3rios. No entanto, a Teoria Cr\u00edtica se distancia da centralidade da produ\u00e7\u00e3o como elemento determinante nas rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p><strong>A import\u00e2ncia da apropria\u00e7\u00e3o deste debate<\/strong><br \/>\nPara al\u00e9m das motiva\u00e7\u00f5es que abrangem lutas que afetam toda a classe trabalhadora, a juventude tamb\u00e9m carrega a tarefa de estabelecer sua voz em arenas internacionais. Historicamente, a juventude ocupa um papel coadjuvante em grandes organiza\u00e7\u00f5es internacionais, tendo suas pautas frequentemente minimizadas. \u00c9 fato que a juventude \u00e9 um segmento social precarizado pelo capitalismo, com sua ag\u00eancia pol\u00edtica constantemente sabotada, como se o jovem fosse um ser incompleto, sub-humano, incapaz de formular pol\u00edticas para si enquanto segmento social e de contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas mais amplas. A revers\u00e3o desse quadro exige a ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os pol\u00edticos e a mobiliza\u00e7\u00e3o da juventude, o que, por si s\u00f3, j\u00e1 representa uma pauta espec\u00edfica, estrat\u00e9gica e essencial para qualquer organiza\u00e7\u00e3o de juventude. A escolha das t\u00e1ticas para essa inser\u00e7\u00e3o \u2013 seja por meio institucional ou atrav\u00e9s de outras a\u00e7\u00f5es, como greves, atos, f\u00f3runs e confer\u00eancias \u2013 n\u00e3o diminui a especificidade dessa tarefa, tampouco a necessidade de compreender dinamicamente os espa\u00e7os institucionais estabelecidos e como melhor impact\u00e1-los.<\/p>\n<p>Existem tr\u00eas categorias de for\u00e7as que atuam na estrutura, segundo o autor Robert W. Cox. A primeira \u00e9 a das ideias, que representam a capacidade persuasiva e a habilidade de moldar comportamentos. A segunda \u00e9 a capacidade material, que diz respeito \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de tecnologias e meios para o exerc\u00edcio pr\u00e1tico do poder. A terceira, e \u00faltima, \u00e9 a categoria das institui\u00e7\u00f5es, que servem como meio de perpetuar a ordem por meio da normatividade. Essas tr\u00eas esferas est\u00e3o em constante rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica. Nossa organiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 inserida em espa\u00e7os de formula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica internacional. Resta-nos qualificar ainda mais o trabalho realizado e promover a\u00e7\u00f5es formativas e mobiliza\u00e7\u00e3o interna, para que toda a milit\u00e2ncia se aproprie desse conhecimento e consiga desenvolver atividades que capilarizem as discuss\u00f5es em todo o territ\u00f3rio de atua\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o tempo, o movimento de autoconstru\u00e7\u00e3o e vanguarda transcorrer\u00e1 com maior fluidez e organicidade, \u00e0 medida que os debates nas bases amadure\u00e7am e as estruturas coesas se consolidem para operacionalizar a proje\u00e7\u00e3o da linha pol\u00edtica da organiza\u00e7\u00e3o em n\u00edvel internacional.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 estrat\u00e9gico, pois resgata o dever hist\u00f3rico do povo latino-americano de tomar as r\u00e9deas de seu pr\u00f3prio destino e de partilhar com os demais povos do mundo a responsabilidade pela constru\u00e7\u00e3o da sociedade comunista.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o com outras juventudes de diferentes pa\u00edses, visando elaborar propostas para quest\u00f5es como essas, \u00e9 fundamental para contemplar os diversos interesses e perspectivas sobre as problem\u00e1ticas. Assim, esses temas podem unir e mobilizar a juventude trabalhadora, em vez de acentuar diverg\u00eancias. Al\u00e9m de promover a solidariedade internacional, \u00e9 necess\u00e1rio aprofundar o envolvimento das juventudes nesses temas de interesse comum, sem abrir espa\u00e7o para o hegemonismo, o eurocentrismo ou o orientalismo.<\/p>\n<p>O socialismo \u00e9 capaz de e dever\u00e1 dar respostas \u00e0s opress\u00f5es e injusti\u00e7as no mundo<br \/>\nO Sistema Internacional \u00e9 falido porque suas arenas servem aos interesses do capital. Os governos dos Estados burgueses atuam como meros validadores dos capitalistas que os promovem, financiam e elegem. Isso se reflete na opera\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os que deveriam ter um car\u00e1ter mediador, atentos \u00e0s resolu\u00e7\u00f5es coletivas e \u00e0 defesa dos direitos humanos. A institucionalidade burguesa demonstrou ser incapaz de responder aos problemas globais. Assistimos, ao vivo, a genoc\u00eddios, permitimos injusti\u00e7as, boicotes e bloqueios, e sentimos na pele os efeitos da devasta\u00e7\u00e3o ambiental. O sistem\u00e1tico desrespeito ao direito internacional, ao direito da guerra e a tantos outros instrumentos normativos evidencia a fal\u00eancia desse sistema. Todo esse aparato foi cuidadosamente desenvolvido para n\u00e3o amea\u00e7ar a ordem estabelecida nem prejudicar os interesses burgueses. Isso ocorre porque as organiza\u00e7\u00f5es internacionais foram criadas por Estados burgueses com o objetivo de manter a exist\u00eancia desses pr\u00f3prios Estados. Os Estados burgueses monopolizam a ag\u00eancia pol\u00edtica em \u00e2mbito internacional, e, quando n\u00e3o o fazem diretamente, delegam esse papel \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es ou a organiza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o proponham rupturas estruturais.<\/p>\n<p>Camaradas, a revolu\u00e7\u00e3o que h\u00e1 de chegar para libertar os povos desta Terra n\u00e3o eliminar\u00e1, de imediato, as contradi\u00e7\u00f5es herdadas da sociedade capitalista. Essa realidade \u00e9 hist\u00f3rica e est\u00e1 documentada nos pa\u00edses que conquistaram suas revolu\u00e7\u00f5es. Olhar com aten\u00e7\u00e3o para o dia seguinte n\u00e3o \u00e9 utopia, nem devaneio, mas uma necessidade para evitar que as opress\u00f5es sist\u00eamicas resultem no fracasso da sociedade que estamos construindo. Devemos questionar e desafiar nosso entendimento de organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, assim como o eurocentrismo que permeia o pensamento e as categorias. A liberta\u00e7\u00e3o dos povos deve permitir que eles trilhem seus pr\u00f3prios caminhos. Isso, contudo, n\u00e3o eliminar\u00e1 a necessidade de normas, regras, acordos, conven\u00e7\u00f5es e outros instrumentos. \u00c9 claro para n\u00f3s que o direito \u00e9 uma ferramenta de controle de classe. Por\u00e9m, isso n\u00e3o significa que instrumentos de normatiza\u00e7\u00e3o ser\u00e3o dispens\u00e1veis no amanh\u00e3 socialista.<\/p>\n<p>O Estado burgu\u00eas deve cair. O Sistema Internacional, como o conhecemos, ir\u00e1 ruir. Contudo, esse ser\u00e1 um processo que ocorrer\u00e1 em tempos, custos e qualidades diferentes. Devemos estar preparados para lidar com o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, que poder\u00e1 durar d\u00e9cadas ou at\u00e9 s\u00e9culos. Observamos o surgimento de polos de influ\u00eancia e o aumento das tens\u00f5es nos s\u00e9culos XX e XXI, com destaque para as experi\u00eancias revolucion\u00e1rias da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da China. Assim, espa\u00e7os e inst\u00e2ncias contradit\u00f3rias para a manuten\u00e7\u00e3o da paz e a negocia\u00e7\u00e3o com pa\u00edses capitalistas continuar\u00e3o a existir. Planejar e se inserir nesses espa\u00e7os com estrat\u00e9gia \u00e9 fundamental. Formular e criar espa\u00e7os paralelos para o avan\u00e7o das pol\u00edticas socialistas \u00e9 igualmente essencial, pois estes substituir\u00e3o os espa\u00e7os burgueses.<\/p>\n<p>Em um mundo majoritariamente revolucion\u00e1rio, os pa\u00edses dever\u00e3o eliminar as assimetrias de capacidades e poder. Esse exerc\u00edcio ser\u00e1 progressivo e competir\u00e1 com a necessidade de enfrentar, com igual capacidade, os pa\u00edses capitalistas. Ser\u00e1 necess\u00e1rio reconhecer aspectos b\u00e1sicos de uma sociedade que est\u00e1 se libertando do capitalismo, integr\u00e1-los e proteger-nos mutuamente, ao mesmo tempo em que se desenvolve a capacidade de resposta adequada contra Estados que ameacem o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o. Espa\u00e7os colegiados de debate qualitativo e constru\u00e7\u00e3o coletiva dever\u00e3o existir para mediar essa rela\u00e7\u00e3o, colocando os interesses da classe trabalhadora em primeiro lugar.<\/p>\n<p>O Estado burgu\u00eas dever\u00e1 cair, e isso significa desmontar as ideias que o sustentam. A soberania estatal, as fronteiras e todo o direito internacional devem ser desafiados. A autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos implicar\u00e1 reconhecer e legitimar formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social distantes do que hoje entendemos como Estado e na\u00e7\u00e3o. Solu\u00e7\u00f5es disruptivas e o di\u00e1logo parit\u00e1rio dever\u00e3o ser os caminhos para solucionar conflitos de conviv\u00eancia e territorialidade.<\/p>\n<p>N\u00f3s, comunistas que vivemos neste territ\u00f3rio que se desenvolveu como Brasil, devemos ter consci\u00eancia de que o nosso socialismo dever\u00e1 respeitar e negociar com as sociedades ind\u00edgenas. Isso n\u00e3o significa apagar a hist\u00f3ria do que foi feito neste territ\u00f3rio, mas compreender que existem povos reprimidos que n\u00e3o se veem como parte desse construto e que desejar\u00e3o sua emancipa\u00e7\u00e3o. Essa emancipa\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o assumir uma forma sequer pr\u00f3xima do que entendemos como Estado, com cidad\u00e3os, territ\u00f3rio, ex\u00e9rcito e governo.<\/p>\n<p>Existe uma rela\u00e7\u00e3o distinta entre os pr\u00f3prios povos ind\u00edgenas e entre eles e a popula\u00e7\u00e3o descendente dos colonizadores, em grande parte conformada com a forma-Estado assumida pelo Brasil. Avan\u00e7ar em uma proposta sem a participa\u00e7\u00e3o dessas sociedades ind\u00edgenas seria uma contradi\u00e7\u00e3o com o ideal que acredito ser o correto. Se quisermos ser revolucion\u00e1rios, devemos estar preparados para o diferente: conviver, entender e respeitar as formula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ind\u00edgenas e aut\u00f3ctones, pensando em rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e humanas que lhes deem o mesmo prest\u00edgio que hoje se atribui \u00e0s formula\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio combater o orientalismo. Estamos condicionados a imaginar o mundo como um mapa com linhas, bandeiras e hinos. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para paz ou sobreviv\u00eancia nesse mundo; ele precisa ser superado. Este mundo uniformiza, coloniza e condiciona \u2013 \u00e9 tudo o que queremos abolir. Ao destruir as grades e libertar o pensamento humano das celas, abrimos caminho para a plenitude do avan\u00e7o e das respostas, que poder\u00e3o surgir de qualquer lugar e inspirar transforma\u00e7\u00e3o. Trata-se de enxergar a humanidade em sua sufici\u00eancia, elevar o respeito e abandonar a pretens\u00e3o de salvar aqueles que n\u00e3o pedem para ser salvos. Ouvir, respeitar e agir diante do grito dos que se indignam ser\u00e1 o fundamento de um novo projeto revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>A ideia de que o desenvolvimento, tal como o conhecemos, \u00e9 necess\u00e1rio para o avan\u00e7o social est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas. Por isso, ainda intimida muitos a ideia de que precisamos interromper o n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o e consumo em nome das condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia no planeta. O Estado aprisiona a riqueza e condiciona regras que retroalimentam sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e necessidade. Se conseguirmos garantir sistemas de coopera\u00e7\u00e3o e interatividade entre os povos do mundo, mesmo em organiza\u00e7\u00f5es sociais que se assemelhem a Estados, veremos a l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria se enfraquecer e cair. Os pa\u00edses que ainda n\u00e3o se industrializaram poder\u00e3o faz\u00ea-lo, enquanto os j\u00e1 industrializados poder\u00e3o restringir sua produ\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades internas. Poder\u00e1 haver interc\u00e2mbio e com\u00e9rcio voltados para a otimiza\u00e7\u00e3o das produ\u00e7\u00f5es. Normas internacionais (faz sentido o termo \u201cinternacional\u201d neste contexto?) poder\u00e3o ser estabelecidas para ajudar e garantir o objetivo de elevar a qualidade de vida. Onde for estrat\u00e9gico manter florestas, elas dever\u00e3o ser preservadas, entendendo que isso n\u00e3o limita o acesso \u00e0 qualidade de vida das popula\u00e7\u00f5es locais. Afinal, com a abund\u00e2ncia de terras improdutivas dispon\u00edveis, n\u00e3o h\u00e1 justificativa para desmatamento.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, enxergamos um mundo organizado por normas e instrumentos que podem progressivamente assemelhar-se, ou n\u00e3o, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es que temos hoje. H\u00e1, entretanto, um elemento determinante para a vit\u00f3ria dos socialistas: a paz. A paz n\u00e3o pode ser um valor difuso ou apenas um componente ideol\u00f3gico. A paz deve ser uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. No per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, ela exigir\u00e1 condi\u00e7\u00f5es iguais de enfrentamento contra aqueles que ameacem o avan\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o. A paz, a longo prazo, poder\u00e1 significar a diminui\u00e7\u00e3o da necessidade das armas e a possibilidade de direcionar esfor\u00e7os tecnol\u00f3gicos e recursos materiais para o avan\u00e7o social. A paz gira em torno do comum acordo, da sufici\u00eancia dos povos, da independ\u00eancia na media\u00e7\u00e3o, da justeza, do reconhecimento e da compensa\u00e7\u00e3o. Os acordos entre as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-sociais que governam as sociedades dever\u00e3o considerar as disparidades hist\u00f3ricas, os objetivos coletivos e a experi\u00eancia de qualidade de vida das partes envolvidas. Esses acordos dever\u00e3o ser pass\u00edveis de revis\u00e3o peri\u00f3dica, dependendo do tema.<\/p>\n<p>Para criarmos um Sistema Internacional verdadeiramente revolucion\u00e1rio, \u00e9 fundamental que a sociedade civil organizada, por meio de suas organiza\u00e7\u00f5es, participe ativamente de espa\u00e7os de formula\u00e7\u00e3o e delibera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica internacional e que seus apontamentos sejam considerados, principalmente em t\u00f3picos que os afetem diretamente, a ponto de interferir nas decis\u00f5es. \u00c9 necess\u00e1rio aproximar os instrumentos de decis\u00e3o pol\u00edtica do povo. Isso criar\u00e1 um equil\u00edbrio entre o que dizem as lideran\u00e7as pol\u00edticas estabelecidas e as demandas de minorias e grupos sociais que se sintam oprimidos. Para isso, podemos fazer uso da tecnologia e de ferramentas como consultas p\u00fablicas, f\u00f3runs, congressos e plen\u00e1rias. Existem diversas formas de qualificar e quantificar o apoio a uma ideia, e essas formas devem ser empregadas para legitimar decis\u00f5es importantes.<\/p>\n<p><strong>A nossa tarefa hoje<\/strong><br \/>\nExistem dezenas de pesquisas e estudos em rela\u00e7\u00f5es internacionais de imensa contribui\u00e7\u00e3o para a disciplina, origin\u00e1rios de diversos pa\u00edses. \u00c9 imensur\u00e1vel a qualidade e a import\u00e2ncia da contribui\u00e7\u00e3o marxista j\u00e1 feita at\u00e9 o momento para as rela\u00e7\u00f5es internacionais, ainda que se reconhe\u00e7a a incipi\u00eancia de sua sistematiza\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o. \u00c9 intrigante que exista um vasto conhecimento vindo de pa\u00edses do Sul Global que ainda n\u00e3o alcan\u00e7amos. Devemos buscar formas de acessar essa produ\u00e7\u00e3o, fazer ecoar diferentes pensamentos e aprender com eles. Mais importante que o simples acesso e debate \u00e9 construir a realidade a partir desses ac\u00famulos. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio esperar. Podemos fazer da nossa milit\u00e2ncia um laborat\u00f3rio para o desenvolvimento de m\u00e9todos, processos e solu\u00e7\u00f5es que popularizem temas, aproximem as massas e possibilitem que nossa classe se torne participativa na formula\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o de pol\u00edticas de \u00e2mbito internacional, abrangendo os mais diversos temas.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o com outras organiza\u00e7\u00f5es de diferentes pa\u00edses, com o objetivo de construir propostas para as diversas quest\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es que surgirem desse debate, \u00e9 fundamental para contemplar diferentes interesses e perspectivas sobre as problem\u00e1ticas. Esses temas devem unir e mobilizar a milit\u00e2ncia trabalhadora, em vez de representarem diverg\u00eancias que a dividam e paralisem. Al\u00e9m da solidariedade internacional, \u00e9 essencial aprofundar o envolvimento das organiza\u00e7\u00f5es nesses temas de interesse comum, evitando qualquer espa\u00e7o para hegemonismo, eurocentrismo e orientalismo. Qu\u00e3o rica seria a experi\u00eancia de um congresso internacional dedicado a pensar e organizar o sistema internacional!<\/p>\n<p>Nossa tarefa, por fim, \u00e9 fomentar a apropria\u00e7\u00e3o dos estudos em rela\u00e7\u00f5es internacionais que possibilitem enxergar no outro um igual. A partir disso, devemos superar o v\u00edcio de protagonizar, dando lugar \u00e0 necessidade de construir coletivamente. Sem o estabelecimento de um novo sistema internacional, corremos o risco de auto-sabotagem e de frustrar processos de avan\u00e7o e conquistas para a classe trabalhadora. A prepara\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel, camaradas, pois a vit\u00f3ria est\u00e1 logo ali, na esquina.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/ujc.org.br\/o-internacionalismo-deve-construir-o-caminho-do-amanha\/\">https:\/\/ujc.org.br\/o-internacionalismo-deve-construir-o-caminho-do-amanha\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32409\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[65,6,10,27],"tags":[221],"class_list":["post-32409","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional","category-s5-juventude","category-s19-opiniao","category-c27-ujc","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8qJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32409","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32409"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32409\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32411,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32409\/revisions\/32411"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32409"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32409"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32409"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}