{"id":3265,"date":"2012-08-02T00:36:50","date_gmt":"2012-08-02T00:36:50","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3265"},"modified":"2012-08-02T00:36:50","modified_gmt":"2012-08-02T00:36:50","slug":"a-esperanca-nao-morre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3265","title":{"rendered":"A ESPERAN\u00c7A N\u00c3O MORRE"},"content":{"rendered":"\n<p>Adolfo Casais Monteiro escreveu no final dos anos 50 que \u00abera dif\u00edcil ser portugu\u00eas\u00bb. Expressou uma realidade.<\/p>\n<p>Humberto Delgado estava refugiado na Embaixada do Brasil e naquela \u00e9poca a imagem do fascismo era medonha nos meios intelectuais brasileiros.<\/p>\n<p>Conheci no ex\u00edlio essa situa\u00e7\u00e3o. Os amigos perguntavam como podia o povo portugu\u00eas suportar h\u00e1 d\u00e9cadas uma ditadura t\u00e3o obscurantista como a de Salazar. As nossas explica\u00e7\u00f5es para a sobreviv\u00eancia do regime n\u00e3o convenciam.<\/p>\n<p>Transcorrido meio s\u00e9culo, a situa\u00e7\u00e3o em Portugal faz -me recordar o desabafo de Casais Monteiro num contexto hist\u00f3rico muito diferente.<\/p>\n<p>A crise do capitalismo irrompeu nos EUA e alastrou pelo mundo. Mas em Portugal os seus efeitos inserem-se num quadro que pelas suas facetas humilhantes \u00e9 dif\u00edcil compreender e explicar.<\/p>\n<p>Cada manh\u00e3, quando abro o computador e tomo conhecimento das ultimas noticias e \u00e0 noite, ao acompanhar os notici\u00e1rios da televis\u00e3o e ouvir resumos de declara\u00e7\u00f5es de ministros e deputados dos partidos da burguesia e de falas do primeiro ministro, sou tocado pela estranha sensa\u00e7\u00e3o de assistir a uma farsa intemporal num pa\u00eds inimagin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Temo que n\u00e3o exista precedente para uma situa\u00e7\u00e3o como a de Portugal neste ano sombrio de 2012.<\/p>\n<p>Sei que os trabalhadores irlandeses, gregos e espanh\u00f3is, entre outros, sofrem duramente as consequ\u00eancias de politicas impostas pelo grande capital internacional em nome de uma \u00abausteridade\u00bb que empobrece mais os de baixo enquanto enriquece os de cima.<\/p>\n<p>O que diferencia ent\u00e3o o caso portugu\u00eas dos demais?<\/p>\n<p>Aqui a linguagem, o comportamento, o arrogante exibicionismo dos respons\u00e1veis pelo tr\u00e1gico agravamento da crise s\u00e3o irrepet\u00edveis, ao exigirem \u00absacrif\u00edcios\u00bb aos explorados e oferecerem prebendas aos exploradores. Tudo em nome do interesse nacional, da salva\u00e7\u00e3o da P\u00e1tria.O discurso lembra o do fascismo.<\/p>\n<p>Mas creio que nem\u00a0 no auge do fascismo Salazar tenha reunido em qualquer dos seus governos um feixe de ministros e secret\u00e1rios de estado compar\u00e1vel ao gabinete formado por Passos Coelho. Com a peculiaridade de o Partido Socialista, c\u00famplice do bin\u00f3mio que desgoverna o Pais, participar conscientemente da trag\u00e9dia social e econ\u00f3mica em desenvolvimento.<\/p>\n<p>Polit\u00f3logos, professores de discurso pomposo (alguns formados em universidades de fantasia), jornalistas de pretensa sabedoria analisam em m\u00faltiplas e insuport\u00e1veis mesas redondas a crise e, com rar\u00edssimasexcep\u00e7\u00f5es, alinhem com o governo ou n\u00e3o, destilam anticomunismo, identificam no presidente Obama um grande humanista e justificam as guerras imperialistas.<\/p>\n<p>A politica de \u00abausteridade\u00bb, a submiss\u00e3o servil ao diktat da troika, o roubo de sal\u00e1rios, a supress\u00e3o dos subs\u00eddios de natal e de f\u00e9rias, o aumento de impostos sobre o trabalho, os despedimentos sum\u00e1riosconfiguram j\u00e1 o funcionamento de mecanismos de uma ditadura de facto da burguesia, mas o coro dos ep\u00edgonos fala com orgulho farisaico da \u00abnossa democracia\u00bb.<\/p>\n<p>A engrenagem que ostenta as ins\u00edgnias do Poder \u00e9 servida por uma equipa de pesadelo.<\/p>\n<p>O Primeiro-ministro merecia figurar no Guiness. Impressiona pela vastid\u00e3o da ignor\u00e2ncia, pelo v\u00e1cuo intelectual.<\/p>\n<p>Estranhamente, fala como se fosse detentor do saber universal. Quase diariamente enaltece os benef\u00edcios da sua politica neoliberal ortodoxa, afirmando que o povo a compreende, mas \u00e9 recebido com vaias em todas as cidades e vilas onde aparece.<\/p>\n<p>Conheci-o em 1991. Eu era ent\u00e3o secret\u00e1rio da Comiss\u00e3o de Neg\u00f3cios Estrangeiros da Assembleia da Republica, ele um jovem deputado que liderava a Juventude do PSD.<\/p>\n<p>Recordo que quando pedia a palavra bolsava tanta asneira que, por decoro, lhe pedia que abreviasse as suas arengas.<\/p>\n<p>O ministro Relvas ganhou notoriedade por talentos que lembram os de vil\u00f5es de trag\u00e9dias shakespearianas. O ministro da Economia escreveu livros \u00ab criacionistas\u00bb que principiam agora a correr de m\u00e3o em m\u00e3ocomo obras de contornos extraterrestres. S\u00e3o apenas tr\u00eas figuras de um painel governativo impar na Europa comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O Presidente da Republica, um reaccionario quimicamente puro, apoia o descalabro.<\/p>\n<p>\u00c9 essa gente que, desfraldando o estandarte da democracia, garante que \u00abos portugueses\u00bb apoiam a ditadura de classe que os afunda na mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Desaprovo as analogias em politica. Mas este governo, pelo absurdo, pela crueldade social, pelo exibicionismo rid\u00edculo, pela submiss\u00e3o ao capital faz-me lembrar atitudes do subsaariano Imperador Bokassa daRepublica Centro Africana.<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o transparente o rep\u00fadio popular pela estrat\u00e9gia de Passos e seus rapazes que at\u00e9 Pacheco Pereira &#8211; o mais inteligente e culto dos ex dirigentes da direita &#8211; sentiu a necessidade de escrever um artigo (Publico, 28 de Julho de 2012) desancando o sistema . Nele pergunta: \u00abComo devemos cruzar-nos com os credores? De alpergatas, trabalhando 10 horas por um sal\u00e1rio de mis\u00e9ria? \u00bb. Ele pr\u00f3prio responde que em breve o povo acordar\u00e1, \u00abporque estas coisas, uma vez maduras, n\u00e3o escolhem nem dia, nem hora\u00bb.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria de Portugal lembra que a esperan\u00e7a n\u00e3o morre no povo. Quando a opress\u00e3o atinge um n\u00edvel insuport\u00e1vel, as massas levantam-se e assumem-se como sujeito da ruptura.<\/p>\n<p>Foi assim em 1383, na guerra da Restaura\u00e7\u00e3o em 1640, e no 25 de Abril de 1974.<\/p>\n<p>Os actuais inimigos do povo, Passos&amp;Companhia, instrumentos do capital e do imperialismo, v\u00e3o desaparecer na poeira da Hist\u00f3ria. A obra \u00e9 devastadora, os autores figurinhas liliputianas.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, 1 de Agosto de 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3265\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-3265","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c42-comunistas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-QF","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3265"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3265\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}