{"id":3268,"date":"2012-08-02T20:08:59","date_gmt":"2012-08-02T20:08:59","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3268"},"modified":"2012-08-02T20:08:59","modified_gmt":"2012-08-02T20:08:59","slug":"ruy-mauro-marini-e-a-dialetica-da-dependencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3268","title":{"rendered":"Ruy Mauro Marini e A Dial\u00e9tica da Dependencia"},"content":{"rendered":"\n<p>Um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros, consagrado no M\u00e9xico, onde se exilou, e em toda a Am\u00e9rica Latina, levou tr\u00eas d\u00e9cadas para ser editado em seu pais.<\/p>\n<p>Dois anos depois de sua morte, esse acontecimento editorial vale como um resgate. Os anos 70 ficaram gravados na historia da Am\u00e9rica Latina como &#8220;os anos de chumbo&#8221;. Entretanto \u00e9 importante assinalar que aquela foi uma d\u00e9cada de ex\u00edlio quando a cidade de M\u00e9xico se tornou o cen\u00e1rio de converg\u00eancia de numerosos acad\u00eamicos e cientistas sociais latino-americanos.<\/p>\n<p>Dentre eles destacava-se Ruy Mauro Marini, &#8220;o mais latino-americano&#8221; dos intelectuais acad\u00eamicos, por sua importante obra, embora desconhecida do leitor brasileiro. Depois de quase trinta anos de sua primeira edi\u00e7\u00e3o em espanhol, essa obra \u00e9 editada em sua l\u00edngua materna.<\/p>\n<p>Como se explica esse atraso?<\/p>\n<p>Varias gera\u00e7\u00f5es de cientistas sociais n\u00e3o tiveram o privilegio de conhecer seus textos, paradoxalmente publicados e difundidos na Am\u00e9rica Latina, mas ignorados no Brasil. \u00c9 com esta perplexidade que come\u00e7o esta resenha.<\/p>\n<p>Marini, falecido h\u00e1 dois anos, iniciou sua vida acad\u00eamica na Universidade de Bras\u00edlia (UnB).<\/p>\n<p>Depois do golpe militar de 1964, exilou-se no Chile, onde foi professor da Universidade de Chile at\u00e9 a queda do governo de Allende em 1973. Posteriormente radicou-se no M\u00e9xico. L\u00e1, lecionou na Universidade Nacional Aut\u00f4noma de M\u00e9xico (UNAM) &#8211; o grande cen\u00e1rio de sua consagra\u00e7\u00e3o intelectual &#8211; onde produziu a maior parte de sua obra. Tive a honra de ser seu aluno na UNAM.<\/p>\n<p>Em seu livro, Marini procura distinguir as principais caracter\u00edsticas que vem assumindo a superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho na Am\u00e9rica Latina, a partir dos anos 70, quando se afirma a crise da industrializa\u00e7\u00e3o voltada para o mercado interno e se inicia na regi\u00e3o um giro no sentido de sua inser\u00e7\u00e3o numa economia mundial globalizada sob o dom\u00ednio de pol\u00edticas neoliberais. O conceito de superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho foi estabelecido por Marini no final da d\u00e9cada de 60, enfatizado sua rela\u00e7\u00e3o com a g\u00eanese da acumula\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>O autor afirma, em sua obra, que o regime capitalista de produ\u00e7\u00e3o desenvolve duas grandes formas de explora\u00e7\u00e3o: o aumento da for\u00e7a produtiva do trabalho e a maior explora\u00e7\u00e3o do trabalhador. O aumento da for\u00e7a produtiva do trabalho se caracterizaria pela produ\u00e7\u00e3o de mais quantidade no mesmo tempo e com o mesmo gasto de for\u00e7a de trabalho; e a maior explora\u00e7\u00e3o do trabalhador se caracterizaria por tr\u00eas processos, que poderiam atuar conjugadamente ou de forma isolada, representados pelo aumento da jornada de trabalho, pela maior intensidade de trabalho sem a eleva\u00e7\u00e3o do equivalente em sal\u00e1rio e pela redu\u00e7\u00e3o do fundo de consumo do trabalhador.<\/p>\n<p>O conceito de superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho come\u00e7a a se esbo\u00e7ar em\u00a0<em><strong>Subdesarrollo y revoluci\u00f3n<\/strong><\/em> (1968), adquire uma forma mais sistem\u00e1tica em\u00a0<em><strong>Dial\u00e9ctica de la dependencia<\/strong><\/em>(1973) e continua a se desenvolver em\u00a0<em><strong>Pl\u00fasvalia extraordin\u00e1ria y acumulaci\u00f3n de capita<\/strong><\/em>l (1979),\u00a0<em><strong>Las razones del neodesarrollismo<\/strong><\/em> (1978), y\u00a0<em><strong>El ciclo del capital en la econom\u00eda dependiente <\/strong><\/em>(1979).<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 importante ressaltar que a corrente dependentista deu margem a varias vertentes do pensamento, n\u00e3o se tornando dessa forma, homog\u00eanea em seus postulados b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Se existe por um lado a perspectiva de integra\u00e7\u00e3o subordinada de Fernando Henrique Cardoso, por outro h\u00e1 a perspectiva da dial\u00e9tica da depend\u00eancia e da superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, de Marini.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, houve um certo consenso entre autores de diversas correntes te\u00f3ricas y acad\u00eamicas em torno \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de que se &#8220;esgotou&#8221; a &#8220;teoria da depend\u00eancia&#8221;; sobretudo aquela desenvolvida pelas reflex\u00f5es criticas durante os anos sessenta y setenta.<\/p>\n<p>Neste sentido destaca-se a corrente da &#8220;nova depend\u00eancia&#8221; &#8211; representada por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto -, que teve muita difus\u00e3o no Brasil nos \u00faltimos anos, tentando invalidar os representantes da corrente critica da depend\u00eancia, entre eles, Ruy Mauro Marini.<\/p>\n<p><strong>Nesse contexto \u00e9 poss\u00edvel entender a publica\u00e7\u00e3o de um artigo assinado por Fernando Henrique Cardoso e Jos\u00e9 Serra, em 1978, atacando Ruy Mauro Marini, que teve, sobretudo no Brasil, import\u00e2ncia na forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o sobre a sua obra. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Isto deve-se n\u00e3o apenas \u00e0 proje\u00e7\u00e3o desses autores no \u00e2mbito das ci\u00eancias sociais brasileiras, mas tamb\u00e9m ao fato de a cr\u00edtica \u00e0 obra de Marini haver sido divulgada no Brasil, a partir da Revista do Cebrap, sem que ele tivesse tido direito a resposta, como ocorreu no M\u00e9xico, mais precisamente na Revista Mexicana de Sociologia. <\/strong><\/p>\n<p>Marini se refere a esse triste epis\u00f3dio como uma forma encontrada por Cardoso e Serra para deturpar suas reflex\u00f5es e deformar, quase sempre, suas analises e, assim, poder critic\u00e1-las, manipulando os dados que utiliza: o leitor o entender\u00e1 melhor se levar em conta que o artigo \u00e9 dirigido fundamentalmente \u00e0 jovem gera\u00e7\u00e3o brasileira, que conhece pouco ou quase nada da obra de Marini.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que levou Fernando Henrique Cardoso e Jos\u00e9 Serra a adapta-lo, livremente, aos fins que se propuseram. Seguramente, teriam procedido de outra maneira se fossem dirigidos a um publico mais familiarizados com os textos de Marini.<\/p>\n<p>(*) Doutor em Sociologia pela USP.<\/p>\n<p>Professor do Doutorado em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Universidade de Buenos Aires<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: unam.mx\n\n\n\n\n\n\n\n\nAlberto No\u00e9 (*)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3268\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-3268","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-QI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3268","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3268"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3268\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3268"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3268"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3268"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}