{"id":3279,"date":"2012-08-03T23:01:10","date_gmt":"2012-08-03T23:01:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3279"},"modified":"2012-08-03T23:01:10","modified_gmt":"2012-08-03T23:01:10","slug":"qhouve-exterminio-sistematico-de-aldeias-indigenas-na-ditaduraq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3279","title":{"rendered":"&#8220;Houve exterm\u00ednio sistem\u00e1tico de aldeias ind\u00edgenas na ditadura&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Perseguido pela ditadura, Jos\u00e9 Humberto Costa do Nascimento, o Tiur\u00e9 Potiguara, abandonou seu trabalho na Funai, viveu escondido na floresta amaz\u00f4nica e, ap\u00f3s conseguir deixar o Brasil, foi reconhecido como refugiado pelo governo do Canad\u00e1. Agora, de volta ao pa\u00eds, ele aguarda a Comiss\u00e3o de Anistia julgar seu pedido de reconhecimento como v\u00edtima do regime e quer a ajudar a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade a resgatar a hist\u00f3ria do que classifica como \u201cgenoc\u00eddio ind\u00edgena praticado pela ditadura\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Najla Passos<\/p>\n<p>2.8.2012<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20650&amp;boletim_id=1309&amp;componente_id=21449\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20650<\/a><\/p>\n<p><strong>Bras\u00edlia<\/strong> &#8211; Em entrevista exclusiva \u00e0 Carta Maior, Tiur\u00e9 descreve o que testemunhou das atrocidades cometidas pela ditadura contra os \u00edndios, critica a participa\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os Vilas Boas no processo, cobra autonomia para as na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e reivindica que o pa\u00eds d\u00ea o passo hist\u00f3rico necess\u00e1rio para o reconhecimento dos povos origin\u00e1rios que, segundo ele, embora n\u00e3o conste nos registros oficiais, s\u00e3o t\u00e3o v\u00edtimas dos militares quando estudantes, oper\u00e1rios, militantes e camponeses.<\/p>\n<p>\u201cPode parecer ir\u00f4nico falar isso, mas a repress\u00e3o, as torturas, as atrocidades cometidas no meio urbano parecem maior, parecem que doeram mais do que as que foram cometidas contra os \u00edndios. Hoje se fala em 400 desparecidos nas cidades, mas n\u00f3s podemos falar em cinco mil desaparecidos ind\u00edgenas, porque houve exterm\u00ednio sistem\u00e1tico de aldeias. Era uma pol\u00edtica de estado\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong><em>Qual a sua etnia, a sua regi\u00e3o de origem?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Eu sou da etnia potiguara, do litoral da Para\u00edba. Antes, n\u00f3s ocup\u00e1vamos um territ\u00f3rio que ia da Para\u00edba ao Maranh\u00e3o. Hoje em dia, estamos reduzidos somente ao norte do estado, na costa.<\/p>\n<p><strong><em>E como foi seu envolvimento com a ditadura militar?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1970, eu era funcion\u00e1rio da Funai e, l\u00e1 dentro, eu pude ver a pol\u00edtica oficial da ditadura com rela\u00e7\u00e3o aos \u00edndios. Impossibilitado de conviver com aquilo, abandonei o \u00f3rg\u00e3o e, convidado pelo l\u00edder de uma aldeia parkatej\u00ea, fui embora para a Amaz\u00f4nia, ajud\u00e1-los a se organizar para combater os militares. A aldeia ficava no sul do Par\u00e1, numa regi\u00e3o j\u00e1 marcada pelo combate \u00e0 Guerrilha do Araguaia. Era uma regi\u00e3o de forte presen\u00e7a dos militares.<\/p>\n<p><strong><em>E a ditadura tinha, de fato, essa pol\u00edtica de dizimar aldeias, cometer abusos e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos contra os ind\u00edgenas?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Isso hoje t\u00e1 comprovado. Havia um coronel chamado Amauri, chefe da Funai em Bel\u00e9m, que usava de todos os m\u00e9todos para explora\u00e7\u00e3o, por exemplo, do ouro e da castanha do Par\u00e1, obrigando os \u00edndios a trabalharem em sistema de escravid\u00e3o. Ele usava a repress\u00e3o, a viol\u00eancia, atirava&#8230; o grupo parkatej\u00ea j\u00e1 era considerado exterminado. De 1964 at\u00e9 1975, a etnia perdeu mais de mil pessoas. Um processo de dizima\u00e7\u00e3o mesmo, porque j\u00e1 estava em andamento a t\u00e1tica da ditadura de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, com os grandes projetos, como a transamaz\u00f4nica. E todo esse projeto eu vi dentro da Funai, quando ainda trabalhava l\u00e1. E era um projeto j\u00e1 ditado pelos americanos. Eu tive acesso a diversos documentos. Eu n\u00e3o sabia ler em ingl\u00eas, mas compreendida os relat\u00f3rios do adido militar americano no Brasil. Ent\u00e3o, j\u00e1 existia um entendimento para desocupa\u00e7\u00e3o desta \u00e1rea para explora\u00e7\u00e3o dos grandes projetos, como Caraj\u00e1s, Tucuru\u00ed, as grandes linhas de transmiss\u00f5es, a ferrovia, Serra Pelada&#8230; e os \u00edndios atrapalhavam, porque estavam em cima dessa regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>E voc\u00ea participou ativamente da resist\u00eancia ind\u00edgena?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sim, e em consequ\u00eancia disso, tive que ficar dois anos escondido na mata, porque o Exercito estava atr\u00e1s de mim, a Pol\u00edcia Federal tinha ordem para me prender. Como eu n\u00e3o pertencia \u00e0 aldeia, eles achavam que era eu que estava acirrando os \u00edndios. Fui considerado subversivo, agitador, n\u00e3o podia sair. Eles iam at\u00e9 de helic\u00f3ptero atr\u00e1s de mim. A persegui\u00e7\u00e3o fui muito grande, n\u00e3o s\u00f3 para mim, mas para outras lideran\u00e7as tamb\u00e9m. E houve mortes, sequestros, torturas que, por ocorrerem na floresta, por n\u00e3o se darem no ambiente urbano, era muito mais impune, muito mais abafada. Tanto \u00e9 que at\u00e9 hoje se procuram os guerrilheiros do Araguaia.<\/p>\n<p>Na floresta, os militares usaram de todas as atrocidades poss\u00edveis, porque acharam que iam ficar totalmente cobertos, que n\u00e3o haveria testemunhas e que esta hist\u00f3ria nunca viria \u00e0 tona, como est\u00e1 acontecendo hoje. E obrigavam os \u00edndios, por exemplo, a ajud\u00e1-los a eliminar os guerrilheiros. Colocavam os \u00edndios na frente, como bate-paus, para identificar os acampamentos. Como foi o caso dos suru\u00eds.<\/p>\n<p><strong><em>E esses \u00edndios ainda est\u00e3o vivos, podem ajudar a recontar a hist\u00f3ria, a localizar ossadas?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Eu mesmo passei por um cemit\u00e9rio de guerrilheiros quando estava na companhia dos suru\u00eds. N\u00f3s est\u00e1vamos fazendo um levantamento da \u00e1rea suru\u00ed para saber se havia possibilidade de extrair castanha. J\u00e1 hav\u00edamos feito isso com os parkatej\u00eas, que s\u00e3o vizinhos, e eles tamb\u00e9m queriam uma fonte de renda pr\u00f3pria, para n\u00e3o ter mais que depender da Funai. E eu fui designado para ir ajud\u00e1-los. A gente andava muito pela mata e, em uma dessas caminhadas, o grupo que estava comigo falou: \u201cTiur\u00e9, aqui est\u00e3o enterrados os camar\u00e1\u201d. Camar\u00e1 s\u00e3o os brancos que estavam na \u00e1rea, os guerrilheiros do Araguaia. Devem ter alguns desses \u00edndios vivos at\u00e9 hoje. Eles eram mais velhos do que eu. E se eu estou com 63 anos, ent\u00e3o devem ter 70 ou 80 anos. E no lugar dava pra ver realmente que n\u00e3o tinha mata, que existiam algumas covas rasas, bem na beira de um rio. \u00c9 claro que, depois, os \u00edndios viram tamb\u00e9m militares voltarem l\u00e1 para as tais \u201copera\u00e7\u00f5es limpeza\u201d, a retirada dos ossos. Mas os militares n\u00e3o eram assim t\u00e3o minuciosos. Ainda podem haver alguns vest\u00edgios da presen\u00e7a de guerrilheiros por l\u00e1. Neste cemit\u00e9rio espec\u00edfico, eu soube que haviam sido enterrados tr\u00eas guerrilheiros.<\/p>\n<p><strong><em>Como os suru\u00eds lidavam com a viol\u00eancia praticada pelos militares? <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Isso acabava com eles. Os suru\u00eds tiveram muitas \u00edndias estupradas. Se voc\u00ea for hoje na aldeia, ainda h\u00e1 filhos de militares do Ex\u00e9rcito, de soldados e mesmo dos de patentes altas. Os militares fizeram campos de avia\u00e7\u00e3o na \u00e1rea. Os \u00edndios n\u00e3o podiam sair da aldeia. Toda a liberdade que eles tinham foi reduzida. E aqueles que n\u00e3o participavam das a\u00e7\u00f5es militares eram reprimidos e at\u00e9 mortos. Uns tinham que fugir dali. Ent\u00e3o, os suru\u00eds foram v\u00edtimas, foram amorda\u00e7ados dentro de seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio, e obrigados a ca\u00e7ar os guerrilheiros, com quem eles j\u00e1 haviam estabelecido contato e rela\u00e7\u00e3o de amizade. Porque, entre os guerrilheiros tinham dentistas, m\u00e9dicos que mantinham rela\u00e7\u00f5es amistosas com eles. Iam na aldeia, trocavam milho, enfim, tinham um bom relacionamento antes da repress\u00e3o chegar na floresta. Eles conheciam mesmo os guerrilheiros, e tinham conhecimento da regi\u00e3o como a palma da m\u00e3o. E, numa das a\u00e7\u00f5es, eles localizaram um acampamento, foram na frente, e o Ex\u00e9rcito chegou atr\u00e1s, pegou os guerrilheiros totalmente desprevenidos, sem condi\u00e7\u00f5es de rea\u00e7\u00e3o. Os militares executaram todos eles e ainda obrigaram os \u00edndios a participar do ritual de corte de cabe\u00e7as. Quando eu cheguei na aldeia, uns dois anos depois, esse ritual ainda afetava muito os suru\u00eds. Achavam que foi uma pr\u00e1tica t\u00e3o b\u00e1rbara contra outro ser humano que n\u00e3o conseguiam superar.<\/p>\n<p><strong><em>Voc\u00ea j\u00e1 pediu repara\u00e7\u00e3o ao estado brasileiro pelos crimes cometidos contra voc\u00ea? <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Eu j\u00e1 dei entrada no pedido de anistia pol\u00edtica. N\u00e3o pelo dinheiro, mas por acreditar que meu reconhecimento como anistiado vai abrir uma porta para que outros \u00edndios, como os suru\u00eds, tamb\u00e9m consigam. Eu tamb\u00e9m j\u00e1 me coloquei \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para voltar a \u00e1rea, recuperar a confian\u00e7a dos suru\u00eds e pedir que eles ajudem os brancos a localizar os corpos dos camar\u00e1s, para que as respectivas fam\u00edlias possam fazer os devidos rituais para os seus mortos. Para que possam vencer essa etapa da sua hist\u00f3ria. Estou aguardando o retorno das autoridades, mas at\u00e9 agora nada.<\/p>\n<p><strong><em>Voc\u00ea acha que existe algum tipo de resist\u00eancia em incluir os \u00edndios como v\u00edtimas da ditadura? Como se os \u00edndios fossem os exclu\u00eddos dos exclu\u00eddos? <\/em><\/strong><\/p>\n<p>A sociedade brasileira vem de uma heran\u00e7a colonizadora que j\u00e1 soma 500 anos de exclus\u00e3o ind\u00edgena. At\u00e9 hoje n\u00f3s n\u00e3o temos nossa hist\u00f3ria contada por n\u00f3s mesmos. H\u00e1 sempre uma hist\u00f3ria oficial que se sobrep\u00f5e. Ent\u00e3o, esse reencontro da sociedade branca com a sociedade ind\u00edgena, a tal reconcilia\u00e7\u00e3o de que tanto se fala hoje, passa por esse reconhecimento do outro, pela aceita\u00e7\u00e3o dos primeiros habitantes desta terra, da sua cultura, da sua heran\u00e7a cultural para o povo brasileiro. Infelizmente, ainda n\u00e3o temos esse respeito. A resist\u00eancia \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o dos \u00edndios como v\u00edtimas da ditadura \u00e9 muito grande. Pode parecer ir\u00f4nico falar isso, mas a repress\u00e3o, as torturas, as atrocidades cometidas no meio urbano parecem maior, parecem que doeram mais do que as que foram cometidas contra os \u00edndios. Hoje se fala em 400 desparecidos nas cidades, mas n\u00f3s podemos falar em cinco mil desaparecidos ind\u00edgenas, porque houve exterm\u00ednio sistem\u00e1tico de aldeias. Era pol\u00edtica de estado. Ent\u00e3o, n\u00f3s estamos tentando levantar essa documenta\u00e7\u00e3o para comprovar isso. Tem muita coisa que foi publicada no exterior, e tamb\u00e9m estamos buscando os documentos existentes no Brasil. E, principalmente, os relatos de pessoas que ainda est\u00e3o vivas. Que est\u00e3o velhos, mas est\u00e3o vivos.<\/p>\n<p>\u00c9 a oportunidade do estado brasileiro dar um passo a frente no reconhecimento do outro, do \u00edndios brasileiro que foi afetado n\u00e3o s\u00f3 pela ditadura, mas \u00e9 at\u00e9 hoje. \u00c9 a quest\u00e3o da terra, do desenvolvimento impulsionado de cima para baixo. Seja a soja, o min\u00e9rio, a explora\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas. No Canad\u00e1, eu participei do movimento ind\u00edgena canadense e \u00e9 muito diferente daqui.<\/p>\n<p><strong><em>Voc\u00ea viveu no Canad\u00e1, quando?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Eu fui em 1985 porque, quando se fala em abertura pol\u00edtica, estamos falando de uma quest\u00e3o te\u00f3rica, porque a ditadura continuava, principalmente no meio do mato, no interior. Dura at\u00e9 hoje. O coronelismo ainda est\u00e1 l\u00e1. O poder pol\u00edtico, os currais eleitorais, est\u00e3o l\u00e1. Os assassinatos das lideran\u00e7as ind\u00edgenas e das lideran\u00e7as rurais, as queimas de arquivo, a impunidade, tudo isso continua. E se eu sa\u00ed do pa\u00eds em 1985, \u00e9 porque j\u00e1 n\u00e3o existia mais nenhuma possibilidade para mim. Se eu n\u00e3o sa\u00edsse, eu n\u00e3o estaria hoje aqui contando essa hist\u00f3ria. Foi a possibilidade de consci\u00eancia, porque muitos outros \u00edndios n\u00e3o tiveram condi\u00e7\u00f5es de sair. No Canad\u00e1, pedi reconhecimento como refugiado pol\u00edtico. Foi um processo longo, que levou cinco anos de investiga\u00e7\u00f5es. O governo canadense at\u00e9 veio ao Brasil investigar minha hist\u00f3ria. E eu consegui provar tudo o que dizia. Considero o meu reconhecimento como refugiado como uma condena\u00e7\u00e3o do Brasil. A primeira condena\u00e7\u00e3o por viola\u00e7\u00f5es aos direitos de um \u00edndio. O assunto teve grande repercuss\u00e3o na imprensa internacional.<\/p>\n<p><strong><em>E como \u00e9 no Canad\u00e1?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 claro que o Canad\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um para\u00edso para os \u00edndios, mas eles est\u00e3o bem mais avan\u00e7ados nessas quest\u00f5es de direitos humanos. Eles j\u00e1 participam dos royalties, por exemplo, das companhias que exploram petr\u00f3leo, que utilizam os recursos h\u00eddricos, atrav\u00e9s de hidrel\u00e9tricas. Eles participam dos lucros das empresas e os gerem de forma mais aut\u00f4noma.<\/p>\n<p><strong><em>Ent\u00e3o, voc\u00ea discorda dessa pol\u00edtica brasileira de tutela dos \u00edndios?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Claramente. Hoje se fala muito em autossufici\u00eancia, se fala em autossustentabilidade, mas n\u00e3o se dar autonomia financeira para os \u00edndios. O que se tem hoje s\u00e3o migalhas, repara\u00e7\u00f5es financeiras que s\u00f3 resolvem o problema tempor\u00e1rio. Essas indeniza\u00e7\u00f5es n\u00e3o significam nada. N\u00f3s queremos \u00e9 participar dos lucros dessas empresas. N\u00f3s queremos ter a nossa universidade. Eu estudei numa universidade ind\u00edgena canadense financiada com os recursos dos ind\u00edgenas, com professores ind\u00edgenas. N\u00f3s queremos universidades nas nossas \u00e1reas, queremos hospitais para atendimento 24 horas nos nossos territ\u00f3rios. N\u00f3s temos um problema grave em educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade que n\u00e3o se resolve com indeniza\u00e7\u00f5es pontuais. Na minha \u00e1rea potiguara, ainda h\u00e1 uma usina funcionando que foi instalada pela ditadura. A maior reserva de tit\u00e2nio do Brasil t\u00e1 l\u00e1 na nossa \u00e1rea. E uma mineradora explora. E tem uma aldeia h\u00e1 4 Km dessa explora\u00e7\u00e3o em que as pessoas est\u00e3o morrendo \u00e0 m\u00edngua. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel. Tem que haver uma mudan\u00e7a. Temos que discutir a participa\u00e7\u00e3o nos lucros dessas empresas.<\/p>\n<p>Assim como os estados est\u00e3o brigando pelos royalties, n\u00f3s tamb\u00e9m, os primeiros povos, queremos royalties, porque estamos sendo explorados em nosso territ\u00f3rio. Na \u00e9poca da ditadura, o Ex\u00e9rcito entrou na nossa \u00e1rea [Potiguara] e garantiu terras para grandes latifundi\u00e1rios e grandes companhias internacionais. N\u00f3s perdemos um ter\u00e7o do nosso territ\u00f3rio durante a ditadura. Eles deram at\u00e9 um atestado de \u00f3bito para nosso povo, dizendo que n\u00e3o existiam mais potiguaras na \u00e1rea. E com esta certid\u00e3o negativa, conseguiram financiamento do Banco Mundial. A Funai \u00e9 respons\u00e1vel por tudo que aconteceu com o povo ind\u00edgena.<\/p>\n<p><strong><em>Na sua experi\u00eancia na Funai, voc\u00ea deve ter convivido com os irm\u00e3os Villas Boas. Qual foi o papel deles neste contexto todo?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Eu tenho uma cr\u00edtica muito grande aos Villas Boas. Eles s\u00e3o considerados os humanistas, n\u00e3o sei nem como ainda n\u00e3o foram laureados pelo Nobel, porque conseguiram uma publicidade incr\u00edvel. Mas eles participaram desse processo de aprisionamento das na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, como se quisessem criar um zool\u00f3gico. O Xingu \u00e9 isso. Na \u00e9poca da ditadura, os interesses de deslocar as aldeias para desenvolvimento da economia levou os militares a usar os Villas Boas para criar aquele Parque do Xingu, que n\u00e3o \u00e9 nada mais do que voc\u00ea colocar diferentes aldeias, muitas delas que viviam em guerra culturais seculares, todas juntas. L\u00ednguas diferentes, culturas diferentes, tudo no mesmo territ\u00f3rio. E os Villas Boas participaram disso e acabaram criando um cen\u00e1rio de propaganda do regime.<\/p>\n<p>O Xingu virou o cart\u00e3o postal da pol\u00edtica indigenista. Aquela coisa mais sup\u00e9rflua, mais teatral, para os militares promoverem festas e lotarem avi\u00f5es de gente par aos verem sendo fotografados com os \u00edndios. Para mim, os Villas Boas foram complacentes com a ditadura. Olha, eu entrei na Funai com a vis\u00e3o de que a pol\u00edtica dos militares para os \u00edndios era aquela do Marechal Rondon: \u201cmorrer se for preciso, mas matar nunca\u201d. Mas, na verdade, a cartilha deles era o contr\u00e1rio, era a cartilha americana: \u201c\u00edndio bom \u00e9 \u00edndio morto\u201d. Ent\u00e3o, temos que desmistificar essas hist\u00f3rias impostas pelo regime e contar a nossa hist\u00f3ria. \u00c9 isso o que esperamos da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, da Comiss\u00e3o da Anistia.<\/p>\n<p><strong><em>Hoje, voc\u00ea milita em alguma organiza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena? <\/em><\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Eu estou ligado a minha aldeia, uma aldeia pequena. N\u00e3o sou de partido nenhum, n\u00e3o perten\u00e7o a nenhuma ONG. A minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 criar uma resist\u00eancia ind\u00edgena nacional. \u00c9 com este intuito que voltei ao Brasil. O movimento ind\u00edgena, na minha \u00e9poca, tentava se organizar. Hoje, h\u00e1 muitas lideran\u00e7as cooptadas, com cargos no governo, na Funai, com acordos desvantajosos com a iniciativa privada. Por isso, minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 ajudar na conscientiza\u00e7\u00e3o pra gente fazer um levante revolucion\u00e1rio, para retomarmos nossas terras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: CM\n\n\n\n\n\n\n\n\nCarta Maior\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3279\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-3279","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-QT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3279","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3279"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3279\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}