{"id":32848,"date":"2025-05-19T20:42:06","date_gmt":"2025-05-19T23:42:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32848"},"modified":"2025-05-19T20:42:06","modified_gmt":"2025-05-19T23:42:06","slug":"pcb-e-o-trabalho-clandestino-nas-fabricas-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32848","title":{"rendered":"PCB e o trabalho clandestino nas f\u00e1bricas (1)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32849\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32848\/2020-09-23-lucio-bellentani-volkswagen\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/2020-09-23-lucio-bellentani-volkswagen.webp?fit=888%2C593&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"888,593\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"2020-09-23-lucio-bellentani-volkswagen\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/2020-09-23-lucio-bellentani-volkswagen.webp?fit=747%2C499&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-32849\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/2020-09-23-lucio-bellentani-volkswagen.webp?resize=747%2C499&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"499\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/2020-09-23-lucio-bellentani-volkswagen.webp?w=888&amp;ssl=1 888w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/2020-09-23-lucio-bellentani-volkswagen.webp?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/2020-09-23-lucio-bellentani-volkswagen.webp?resize=768%2C513&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Imagem: Lucio Bellentani fichado pelo DOPS em 1972 (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>Edmilson Costa &#8211; \u00e9 doutor em economia pela Unicamp e Secret\u00e1rio Geral do PCB.<\/p>\n<p>Esse trabalho de pesquisa est\u00e1 dividido em duas partes: na primeira, abordamos o esfor\u00e7o te\u00f3rico dos dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) com o objetivo de elaborar uma linha pol\u00edtica para a constru\u00e7\u00e3o do Partido nas grandes empresas (tarefa hist\u00f3rica perseguida pelo PCB ao longo de d\u00e9cadas), justamente no momento em que se desenvolvia a ind\u00fastria automobil\u00edstica e metal\u00fargica no ABC paulista. Na segunda parte, analisaremos em detalhes como o Partido conseguiu, pacientemente, realizar um trabalho de base cujo resultado foi a estrutura\u00e7\u00e3o de dezenas de c\u00e9lulas clandestinas nas principais empresas da regi\u00e3o, trabalho que come\u00e7ou a ser destru\u00eddo pela repress\u00e3o a partir de 1972, com a pris\u00e3o dos principais dirigentes da Comiss\u00e3o de F\u00e1brica da Volks, a maior da regi\u00e3o, e se completou com a grande repress\u00e3o contra o PCB nos anos 1974-1976.<\/p>\n<p>Durante a pesquisa consultamos todos os n\u00fameros do jornal clandestino do PCB, Voz Oper\u00e1ria, que circulou mensalmente em plena ditadura entre os anos de 1965 at\u00e9 janeiro de 1976, e tamb\u00e9m recolhemos o depoimento do principal dirigente e organizador dos Comit\u00eas de F\u00e1bricas no principal polo industrial do pa\u00eds naquele per\u00edodo: o camarada ferramenteiro Lucio Bellentani. Em janeiro de 1976, com a ajuda de um traidor, a pol\u00edcia pol\u00edtica invadiu o complexo gr\u00e1fico do Partido no Rio de Janeiro, prendeu os trabalhadores que l\u00e1 estavam, bem como os dirigentes partid\u00e1rios ligados \u00e0 Voz Oper\u00e1ria, muitos dos quais continuam com os corpos desaparecidos at\u00e9 hoje. Com a queda, o jornal s\u00f3 voltou a ser publicado novamente um ano depois no exterior.<\/p>\n<p>A avaliarmos os n\u00fameros do jornal Voz Oper\u00e1ria, poderemos ver claramente que, mesmo nos momentos mais dram\u00e1ticos da ditadura, o PCB sempre esteve na resist\u00eancia, tanto lutando para organizar pacientemente os trabalhadores e as trabalhadoras no interior das f\u00e1bricas, quanto nos sindicatos, bem como procurando, atrav\u00e9s do jornal, divulgar as lutas contra a ditadura, denunciar as torturas e buscar influir na grande pol\u00edtica e na resist\u00eancia ao regime. Os comunistas pagaram um elevado pre\u00e7o pela ousadia de enfrentar a ditadura, mas quem pesquisar esse per\u00edodo poder\u00e1 constatar o arriscado trabalho de militantes e dirigentes que deram o melhor de suas energias, inclusive a pr\u00f3pria vida, para a organiza\u00e7\u00e3o do proletariado, pelas liberdades democr\u00e1ticas e emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na perspectiva da sociedade socialista.<\/p>\n<p>As pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, quando tomarem conhecimento do que foi realizado clandestinamente naquele per\u00edodo, dever\u00e3o se mirar no exemplo desses abnegados militantes da revolu\u00e7\u00e3o e honrar o legado hist\u00f3rico do PCB. Se este trabalho contribuir para tornar p\u00fablico esse per\u00edodo que a hist\u00f3ria n\u00e3o contou, ficarei grato.<\/p>\n<p><strong>Autocr\u00edtica e apontamentos para a organiza\u00e7\u00e3o nas empresas<\/strong><\/p>\n<p>O golpe militar significou a maior derrota do movimento oper\u00e1rio no Brasil e de sua principal vanguarda, o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Um rev\u00e9s t\u00e3o profundo que somente em 1965 o Comit\u00ea Central teve condi\u00e7\u00f5es de se reunir, avaliar autocriticamente o significado do golpe e iniciar um processo de resist\u00eancia ao novo regime. Na Declara\u00e7\u00e3o de Maio de 1965, o Partido avaliou as debilidades que o levaram \u00e0 derrota, realizou uma autocr\u00edtica por ter se colocado a reboque de um setor da burguesia nacional, e esbo\u00e7ou as primeiras orienta\u00e7\u00f5es para o movimento oper\u00e1rio e popular nas novas condi\u00e7\u00f5es. Nesse documento, destacou que a pol\u00edtica econ\u00f4mica-financeira da ditadura estava sendo ditada pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), denunciou que o novo regime destruiu as liberdades p\u00fablicas, colocou na ilegalidade as organiza\u00e7\u00f5es sindicais nacionais, como o CGT e as Ligas Camponesas, prendeu centenas de dirigentes sindicais, destituiu in\u00fameras dire\u00e7\u00f5es sindicais, imp\u00f4s interventores nas organiza\u00e7\u00f5es mais destacadas, acabou com o direito de greve e instituiu uma legisla\u00e7\u00e3o salarial predat\u00f3ria ao longo de 21 anos.<\/p>\n<p>Numa conjuntura dessa ordem o Comit\u00ea Central avaliou que o objetivo imediato era isolar e derrotar a ditadura e conquistar um governo amplamente representativo das for\u00e7as antiditatoriais, ao mesmo tempo em que conclamava as massas a desrespeitar a legisla\u00e7\u00e3o ditatorial, especialmente no que se refere aos direitos de reuni\u00e3o, manifesta\u00e7\u00e3o e de greve, lutar pela liberdade e autonomia dos sindicatos e participar de forma ativa e unit\u00e1ria das elei\u00e7\u00f5es sindicais. O documento ressalta ainda a import\u00e2ncia de se organizar os trabalhadores do campo contra o latif\u00fandio e pela reforma agr\u00e1ria, com \u00eanfase na aplica\u00e7\u00e3o do Estatuto do Trabalhador Rural, garantia da posse da terra, regulamenta\u00e7\u00e3o e baixas taxas de arrendamento. \u201c\u00c9 intensificando nossa atividade entre as massas, nas f\u00e1bricas, nas fazendas, escolas e concentra\u00e7\u00f5es populares que poderemos forjar a ampla frente \u00fanica contra a ditadura &#8230; Devemos dedicar os maiores esfor\u00e7os \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de base e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novas, principalmente nas empresas, fazendas e escolas, e seu fortalecimento pol\u00edtico, pol\u00edtico e ideol\u00f3gico, capacitando-as a cumprirem suas pesadas tarefas\u201d.<\/p>\n<p>Em 1966, j\u00e1 refeito do trauma do golpe militar, o Partido elaborou uma reflex\u00e3o mais aprofundada sobre a conjuntura e os erros que levaram \u00e0 derrota do movimento popular e, especialmente, do pr\u00f3prio Partido Comunista Brasileiro (PCB), na \u00e9poca a maior organiza\u00e7\u00e3o da esquerda no pa\u00eds, bem como iniciou a constru\u00e7\u00e3o de uma nova estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o do PCB entre os trabalhadores e as trabalhadoras, tendo como centro as grandes empresas. O documento de maio de 1966, assinado por Carlos Oliveira, nome de guerra de um membro do Comit\u00ea Central, al\u00e9m da autocr\u00edtica mais completa sobre as causas da derrota em 1964, enfatiza a necessidade de uma nova estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o do Partido no meio do proletariado. Oliveira argumenta que, antes do golpe, apesar das recomenda\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, os respons\u00e1veis pelo trabalho junto \u00e0 classe oper\u00e1ria davam mais aten\u00e7\u00e3o ao trabalho de c\u00fapula do que \u00e0 constru\u00e7\u00e3o nas bases e nos locais de trabalho.<\/p>\n<p>Em uma dura autocr\u00edtica, o documento assinala: \u201cA atividade nas bases, isto \u00e9, nos locais de trabalho, nas empresas, foi subestimada e quase n\u00e3o era realizada. E quando o era representava apenas um elemento auxiliar da atividade das c\u00fapulas sindicais. Com o golpe, as lideran\u00e7as sindicais foram amea\u00e7adas, demitidas, presas, etc., e os sindicatos invadidos, depredados e entregues a interventores da escolha e confian\u00e7a da ditadura\u201d. Continuando a autocr\u00edtica, o documento indica que as articula\u00e7\u00f5es daquela \u00e9poca n\u00e3o era mesmo um movimento oper\u00e1rio, mas um movimento reformista, economicista, cupulista, sem v\u00ednculo efetivo com as bases: \u201cA atividade do Partido junto aos trabalhadores tinha um car\u00e1ter predominantemente sindicalista, reformista, n\u00e3o revolucion\u00e1rio. Na pr\u00e1tica, ou no fundamental, \u00e9ramos simples for\u00e7a auxiliar das c\u00fapulas sindicais e dos sindicatos\u201d.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o destaca ainda que, mesmo com experi\u00eancia dolorosa do passado, muitos ainda resistem \u00e0 autocr\u00edtica porque falta a compreens\u00e3o de que n\u00e3o se deve confundir movimento oper\u00e1rio com atividade sindical ou movimento sindical, afinal o trabalho sindical do Partido \u00e9 apenas um elemento da atividade junto aos trabalhadores. Por isso, o documento ressalta que \u00e9 necess\u00e1rio mudar essa vis\u00e3o distorcida e levar a atividade do Partido para dentro das empresas, que \u00e9 o centro da resist\u00eancia oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para o articulista da Voz Oper\u00e1ria, isso n\u00e3o significava de forma alguma deixar de lado ou abandonar o trabalho junto aos sindicatos e \u00e0s lideran\u00e7as das c\u00fapulas oper\u00e1rias, especialmente levando em conta a conjuntura do pa\u00eds. No entanto, argumentava que o trabalho junto aos sindicatos deveria ser melhorado, aperfei\u00e7oado e intensificado, mas seria um erro confundir a atividade puramente sindical com o movimento oper\u00e1rio. Ressalta ainda o artigo que, nas condi\u00e7\u00f5es em que o pa\u00eds se encontra, qualquer movimento reivindicat\u00f3rio de car\u00e1ter econ\u00f4mico choca-se com a pol\u00edtica da ditadura, muito embora isso ainda n\u00e3o signifique que a classe oper\u00e1ria consiga espontaneamente adquirir consci\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o entre suas condi\u00e7\u00f5es de vida e a ditadura. Por isso, os comunistas devem levar essa compreens\u00e3o \u00e0 classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>A justificativa do autor tem um fundo ideol\u00f3gico muito importante e parece que artigo buscava intervir na disputa interna ou demover resist\u00eancias \u00e0 nova orienta\u00e7\u00e3o que ainda existia naquele per\u00edodo, possivelmente em fun\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito do processo anterior. \u201cVoltando a nossa atividade para a empresa, centro de gravidade do movimento oper\u00e1rio, n\u00e3o o fazemos como sindicalistas, mas como revolucion\u00e1rios. N\u00e3o o fazemos apenas para mobilizar os trabalhadores em fun\u00e7\u00e3o dos sindicatos e das lutas por aumentos salariais e outras reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Mais do que isso, o fazemos tendo em vista esclarecer, educar e organizar a classe oper\u00e1ria como for\u00e7a de vanguarda na luta pela renova\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira. Limitar-se a uma atividade puramente ou eminentemente sindical, descer ao n\u00edvel de compreens\u00e3o das massas trabalhadoras e l\u00e1 permanecer, circunscrever a nossa atividade a organizar a luta por reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, \u00e9 cair no reformismo sem consequ\u00eancia (inconsequente, EC). Como partido revolucion\u00e1rio, nossa atividade n\u00e3o deve e n\u00e3o pode ficar presa aos estreitos limites do sindicalismo. Deve e precisa ir al\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>Para Oliveira, essa compreens\u00e3o \u00e9 fundamental porque a classe oper\u00e1ria deve ser a for\u00e7a aglutinadora da luta de todas as for\u00e7as sociais contra a ditadura: \u201cA grande contribui\u00e7\u00e3o que a classe oper\u00e1ria pode e deve dar hoje para a derrota da ditadura e sua substitui\u00e7\u00e3o por um governo representativo das for\u00e7as democr\u00e1ticas e antiditatoriais \u00e9 unir-se e organizar-se em seus locais de trabalho e partir para as manifesta\u00e7\u00f5es de massa cada vez mais vigorosas contra a ditadura, em defesa das liberdades democr\u00e1ticas, assumindo assim a vanguarda da luta de todo o povo pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Em novembro de 1966, a Voz Oper\u00e1ria voltava novamente ao assunto da atividade de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores nas empresas, ao relembrar que a ditadura estava buscando transformar os sindicatos em entidades apenas assistencialistas e que era necess\u00e1rio aliar e combinar a atividade sindical com o trabalho de constru\u00e7\u00e3o no interior das f\u00e1bricas: \u201cA atividade dos comunistas deve dirigir-se no sentido de organizar e desenvolver a unidade de a\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria na luta pelos seus interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos imediatos e contra a ditadura. Corrigindo erros do passado, quando o peso de nossas atividades recaia no trabalho de c\u00fapula, devemos orientar fundamentalmente nosso trabalho para as empresas &#8230; Ao mesmo tempo, os comunistas devem intensificar suas atividades nas entidades sindicais, fazendo uma justa combina\u00e7\u00e3o entre o trabalho legal e o ilegal, compreendendo que, por mais dif\u00edcil que seja a atividade nos sindicatos, jamais poderemos aceitar a tese de abandon\u00e1-los, a pretexto de que nas atuais condi\u00e7\u00f5es (os sindicatos) j\u00e1 n\u00e3o desempenham nenhum papel\u201d.<\/p>\n<p>Construir o PCB nas empresas parecia ser quase uma obsess\u00e3o dos dirigentes do Partido naquela \u00e9poca, possivelmente porque tinham compreendido a profundidade da derrota, e estavam seguros de que era fundamental mudar o rumo da pol\u00edtica de organiza\u00e7\u00e3o do Partido entre o proletariado, muito embora ainda n\u00e3o existisse um plano concreto para viabilizar essa nova orienta\u00e7\u00e3o. Pelos depoimentos que recolhemos nessa pesquisa, o PCB conseguiu preservar c\u00e9lulas org\u00e2nicas em v\u00e1rias empresas, apesar da brutal persegui\u00e7\u00e3o do regime. Lucio Bellentani, que posteriormente seria a principal lideran\u00e7a desse processo de constru\u00e7\u00e3o do Partido nas grandes empresas, afirma que entrou na Volks em 20 de setembro de 1964 como ferramenteiro e l\u00e1 j\u00e1 encontrou militantes do PCB, quando ent\u00e3o decidiram construir uma organiza\u00e7\u00e3o de base na empresa, o que se consolidou em 1965.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o esse trabalho seguiu de maneira articulada e clandestina, chegando a constituir c\u00e9lulas de base em praticamente todas as se\u00e7\u00f5es de trabalho da empresa. Provavelmente, o PCB tinha c\u00e9lulas oper\u00e1rias em outras regi\u00f5es, mas decidimos concentrar nossa pesquisa na regi\u00e3o do ABC, tanto por esta ter se tornado o polo mais industrializado do pa\u00eds como tamb\u00e9m porque foi no ABC que o Partido concentrou seu trabalho piloto, visando desenvolv\u00ea-lo posteriormente para outras cidades.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do VI Congresso, realizado em dezembro de 1967, a Voz Oper\u00e1ria voltou novamente a abordar a necessidade de constru\u00e7\u00e3o do PCB nas grandes empresas em um documento de novembro de 1967, intitulado \u201cPor que e como devemos construir o Partido no seio do proletariado\u201d, onde j\u00e1 abordava de maneira mais sistem\u00e1tica, com elementos t\u00e1ticos, ideol\u00f3gicos e estrat\u00e9gicos, as proposi\u00e7\u00f5es seriam melhor elaboradas no VI Congresso. \u201cO Partido s\u00f3 pode desempenhar um papel de vanguarda, isto \u00e9, de orientador e dirigente revolucion\u00e1rio das massas, se tiver as suas principais bases estruturadas e em a\u00e7\u00e3o no seio do proletariado, em suas grandes concentra\u00e7\u00f5es empresariais. Esta constitui uma das raz\u00f5es porque devemos construir o Partido no seio da classe oper\u00e1ria &#8230; Liderando parcelas da classe oper\u00e1ria em qualquer local de trabalho ou de viv\u00eancia das massas, o Partido tem condi\u00e7\u00f5es adequadas para a fun\u00e7\u00e3o de dirigente das grandes massas\u201d.<\/p>\n<p>Para executar essa tarefa, os dirigentes do PCB recomendavam um trabalho de longo prazo, articulado entre as v\u00e1rias inst\u00e2ncias de dire\u00e7\u00e3o, com deslocamento de quadros, estrutura clandestina de organiza\u00e7\u00e3o, jun\u00e7\u00e3o do trabalho legal e ilegal, com paci\u00eancia e sem precipita\u00e7\u00f5es para n\u00e3o alertar o inimigo sobre o trabalho que seria desenvolvido. Ap\u00f3s indicar que um elemento central para o \u00eaxito desse trabalho \u00e9 uma justa linha pol\u00edtica na qual se conceba a revolu\u00e7\u00e3o como um fen\u00f4meno de massas e n\u00e3o como ocorre com a pol\u00edtica foquista, mediante \u00e0 qual se privilegia a a\u00e7\u00e3o de pequenos grupos, isolados das massas, que se imaginam her\u00f3is da classe oper\u00e1ria, o documento esclarece:<\/p>\n<p>\u201cO trabalho revolucion\u00e1rio para se erigir o Partido no seio do proletariado urbano e rural tem que ser feito o mais sigilosamente poss\u00edvel, pois \u00e9 a raiz da revolu\u00e7\u00e3o que crava no pr\u00f3prio sustent\u00e1culo do inimigo de classe, as empresas capitalistas. Este (trabalho, EC) tanto pode ser feito de dentro como de fora para dentro, mobilizando quadros, organiza\u00e7\u00f5es e \u00f3rg\u00e3os dirigentes e todo o seu aparelho de propaganda, de material e de a\u00e7\u00e3o para este objetivo\u201d. Para os dirigentes daquela \u00e9poca a tarefa deveria ser conduzida a partir da realidade concreta dos trabalhadores e n\u00e3o da pressa pequeno-burguesa, que costuma queimar etapas e levar a divis\u00e3o \u00e0 classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>O trabalho de constru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria no interior da cidadela do inimigo deve ser encaminhada com uma linha pol\u00edtica clara, planifica\u00e7\u00e3o, controle, distribui\u00e7\u00e3o de tarefas e engajamento do partido nessa tarefa: \u201cUm outro instrumento para a constru\u00e7\u00e3o do Partido entre o proletariado \u00e9 a clareza de objetivos nesse sentido, no \u00e2mbito nacional, estadual, municipal, distrital e local. A din\u00e2mica da luta de classes exige um plano e controle sistem\u00e1tico de sua execu\u00e7\u00e3o, considerando os inimigos que o proletariado enfrenta e que desejam sua divis\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o &#8230; Sem um plano multifac\u00e9tico e um controle sistem\u00e1tico, \u00e9 muito dif\u00edcil, e talvez imposs\u00edvel, construir o Partido nas empresas. Essa tarefa do mais alto sentido revolucion\u00e1rio n\u00e3o pode ser considerada como sendo de algumas pessoas, de uma frente do Partido ou de um organismo. \u00c9 um objetivo essencial, permanente e integral, portanto, de todo o Partido, de todos os organismos e \u00f3rg\u00e3os dirigentes do Partido. Somente um trabalho coordenado global dos militantes pode levar a um bom \u00eaxito esse empreendimento.\u201d<\/p>\n<p><strong>O VI Congresso e a tarefa hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n<p>O VI Congresso do PCB marcou uma virada hist\u00f3rica tanto na linha pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura, quanto na \u00e1rea sindical e, especialmente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do Partido nas grandes empresas. Naquele congresso elaborou-se uma resolu\u00e7\u00e3o que caracteriza de maneira mais precisa a realidade brasileira quanto \u00e0s quest\u00f5es socioecon\u00f4micas, particularmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 composi\u00e7\u00e3o industrial e agr\u00edcola do pa\u00eds. Ressaltou-se que a economia passou a ter seu centro din\u00e2mico no mercado interno, que o Estado passou a ter um papel importante no desenvolvimento econ\u00f4mico, que a a\u00e7\u00e3o do imperialismo provocava a drenagem de parcelas significativas da riqueza nacional para os pa\u00edses centrais e que a ditadura refor\u00e7ava a depend\u00eancia brasileira frente ao capital internacional. Enfatizava ainda que o latif\u00fandio era um entrave para a expans\u00e3o das for\u00e7as produtivas, mas n\u00e3o obscurecia o peso da penetra\u00e7\u00e3o do capitalismo no campo. No que se refere aos trabalhadores, a resolu\u00e7\u00e3o constata a emerg\u00eancia e concentra\u00e7\u00e3o do proletariado nas ind\u00fastrias de ponta, como automobil\u00edstica, qu\u00edmica, mec\u00e2nica pesada, constru\u00e7\u00e3o naval, eletr\u00f4nica e de material el\u00e9trico, o aumento expressivo do n\u00famero de assalariados rurais, trabalhadores da \u00e1rea do com\u00e9rcio e dos servi\u00e7os e um aumento exponencial dos habitantes das cidades.<\/p>\n<p>O VI Congresso definiu que o proletariado brasileiro \u00e9 a for\u00e7a motriz e principal da revolu\u00e7\u00e3o. O campesinato e a pequena burguesia urbana constituem com ele as for\u00e7as fundamentais. No entanto, como era a linha pol\u00edtica daquela \u00e9poca, afirmava que a burguesia nacional, tendo interesses objetivos na emancipa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, seria uma for\u00e7a capaz de opor-se ao imperialismo e de participar da revolu\u00e7\u00e3o em sua presente etapa. Mesmo assim insistiam que a classe oper\u00e1ria, unida \u00e0 pequena burguesia urbana e ao campesinato, deveriam lutar para conquistar a hegemonia no processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cA condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica fundamental para a transi\u00e7\u00e3o ao socialismo reside na hegemonia do proletariado &#8230; Esfor\u00e7ando-se para conduzir a luta contra o imperialismo e o latif\u00fandio, as mais amplas massas da popula\u00e7\u00e3o brasileira, inclusive a burguesia nacional, os comunistas exercer\u00e3o seus esfor\u00e7os principais na mobiliza\u00e7\u00e3o do proletariado e forma\u00e7\u00e3o de uma s\u00f3lida alian\u00e7a com as for\u00e7as fundamentais da revolu\u00e7\u00e3o \u2013 os camponeses e a pequena burguesia urbana \u2013 a fim de colocar o proletariado em condi\u00e7\u00f5es de conquistar o papel dirigente no bloco das for\u00e7as revolucion\u00e1rias.\u201d<br \/>\nDefinidas as tarefas fundamentais e tendo o proletariado como centro do processo revolucion\u00e1rio, muito embora mantivessem certas ilus\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia nacional, o VI Congresso elaborou os elementos estrat\u00e9gicos e t\u00e1ticos para aquilo que considerava seu desafio hist\u00f3rico: a inser\u00e7\u00e3o do proletariado nas grandes empresas.<\/p>\n<p>\u201cO desafio hist\u00f3rico que se coloca diante dos comunistas brasileiros \u00e9 o da constru\u00e7\u00e3o de um forte e numeroso partido na classe oper\u00e1ria. Somos a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, ao longo dos tempos, levantou com firmeza os interesses b\u00e1sicos dos trabalhadores. Somos o Partido que possui os mais experientes quadros oper\u00e1rios. Muitas das conquistas da classe oper\u00e1ria, direta ou indiretamente, foram alcan\u00e7adas em lutas que os trabalhadores empreenderam sob a dire\u00e7\u00e3o do Partido. Fortalecer o Partido na classe oper\u00e1ria significa, antes de tudo, do ponto de vista nacional, elaborar um plano a longo prazo para a constru\u00e7\u00e3o e o refor\u00e7amento das organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias nas grandes empresas. As dire\u00e7\u00f5es dever\u00e3o acompanhar atentamente a vida das organiza\u00e7\u00f5es de base nas empresas. O recrutamento de novos membros para o partido, particularmente nas empresas, deve ter curso no processo de luta de massas.\u201d<\/p>\n<p>O VI Congresso elaborou tamb\u00e9m as diretrizes para a atua\u00e7\u00e3o do Partido no movimento sindical e inser\u00e7\u00e3o nas organiza\u00e7\u00f5es legais dos trabalhadores. Como formula\u00e7\u00e3o t\u00e1tica para colocar e desenvolver a luta dos trabalhadores e das trabalhadoras, o Partido orientou no sentido de que a luta deveria partir das reivindica\u00e7\u00f5es mais concretas, como melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, aumento de sal\u00e1rios, liberdades democr\u00e1ticas, direito de reuni\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m das reivindica\u00e7\u00f5es trabalhistas cotidianas. Nessa perspectiva, para o Partido, cada vit\u00f3ria nas lutas cotidianas, por menor que fosse, acumularia for\u00e7as para outras lutas, os trabalhadores ganhariam mais experi\u00eancia e se tornariam mais preparados para lutas futuras.<\/p>\n<p>A partir desses pressupostos, o Congresso definiu orienta\u00e7\u00e3o para o trabalho nos sindicatos, por entender que essas organiza\u00e7\u00f5es sociais se constituem no principal meio de ativa\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio, o que significa dizer que os comunistas tamb\u00e9m deveriam realizar uma ampla pol\u00edtica de filia\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e das trabalhadoras em seus sindicatos. Nesse processo, deveriam aproveitar todas as formas de participa\u00e7\u00e3o legal, inclusive participando das CIPAS, delegacias sindicais, cooperativas, etc., para ampliar os la\u00e7os efetivos com os trabalhadores. Entre as orienta\u00e7\u00f5es do congresso tamb\u00e9m constava aten\u00e7\u00e3o especial aos comunistas que assumissem postos de dire\u00e7\u00e3o nos sindicatos e outras organiza\u00e7\u00f5es de massa, de forma a que essas lideran\u00e7as se tornassem os melhores dirigentes populares.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, a Voz Oper\u00e1ria de abril de 1968 traz uma importante orienta\u00e7\u00e3o sobre a dial\u00e9tica trabalho sindicato-organiza\u00e7\u00e3o nas empresas, ao enfatizar que essa atua\u00e7\u00e3o tem uma import\u00e2ncia fundamental porque s\u00e3o instrumentos de luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para os trabalhadores e suas decis\u00f5es facilitam o trabalho dos comunistas dentro das empresas. Portanto, diz o documento, a atua\u00e7\u00e3o no sindicato deve ser cotidiana e em estreita liga\u00e7\u00e3o com a organiza\u00e7\u00e3o nos locais de trabalho.<\/p>\n<p>\u201cO comunista na empresa deve ser um propagandista do sindicato, campe\u00e3o da sindicaliza\u00e7\u00e3o, estar em dia com o que se passa em sua entidade profissional e levar e levar os trabalhadores a lutar pela aplica\u00e7\u00e3o de suas decis\u00f5es. Nesse sentido, \u00e9 de vital import\u00e2ncia combater as tend\u00eancias que levam a n\u00e3o atuar nos sindicatos, sob o pretexto de que os mesmos s\u00e3o dirigidos por policiais ou que a ditadura n\u00e3o permite. Por mais dif\u00edcil que sejam as condi\u00e7\u00f5es, devemos atuar intensamente dentro dos sindicatos, levar a massa a participar de sua vida e, dentro deles, luta para modificar a composi\u00e7\u00e3o das diretorias que n\u00e3o correspondem aos interesses da classe oper\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Mas o documento alerta que esse trabalho deve se combinar com a luta e a organiza\u00e7\u00e3o no interior das empresas. \u201c\u00c9 atrav\u00e9s dos combates di\u00e1rios dentro da empresa que os trabalhadores v\u00e3o adquirindo experi\u00eancia e consci\u00eancia cada vez maior de que sua for\u00e7a reside na unidade e na organiza\u00e7\u00e3o, de que dessa unidade e organiza\u00e7\u00e3o depende a conquista de vit\u00f3rias que, por pequenas que sejam, v\u00e3o acelerando a derrota da ditadura &#8230; Sem d\u00favida o trabalho dentro das empresas \u00e9 uma tarefa penosa e dif\u00edcil nas circunst\u00e2ncias atuais. N\u00f3s comunistas, que lutamos pelo poder pol\u00edtico para a classe oper\u00e1ria, devemos saber encontrar em cada local de trabalho os meios e as formas de nos identificarmos com as massas, de nos fundirmos com elas, sentir seus problemas e com elas encontrar a melhor maneira de solucion\u00e1-los\u201d.<\/p>\n<p>Com a elabora\u00e7\u00e3o das diretrizes t\u00e1ticas e estrat\u00e9gicas, em junho de 1968 a Voz Oper\u00e1ria publica um longo documento de duas p\u00e1ginas e meia, assinado por Murilo W. Meirelles, nome de guerra de outro dirigente do PCB, no qual desenvolve mais amplamente as resolu\u00e7\u00f5es do Congresso e justifica teoricamente as raz\u00f5es e o significado do trabalho de inser\u00e7\u00e3o do Partido nas grandes empresas. Com o t\u00edtulo igual a um documento anterior, \u201cComo e porque construir o partido nas empresas\u201d, Meirelles refor\u00e7a o entendimento de que a constru\u00e7\u00e3o do Partido nas grandes empresas \u00e9 uma miss\u00e3o hist\u00f3rica porque nas condi\u00e7\u00f5es industriais e tecnol\u00f3gicas em que o Brasil atingiu, o proletariado se encontra concentrado exatamente nas empresas e, especialmente, nas grandes empresas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tratava-se de um proletariado muito jovem, onde mais de 50% t\u00eam at\u00e9 20 anos. Portanto, constitu\u00eda um celeiro de futuros quadros que, ao serem recrutados, poderiam se transformar em importante instrumento de renova\u00e7\u00e3o do Partido, podendo inclusive mudar o perfil do PCB. Meirelles avalia que a concentra\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria nas grandes empresas traz uma s\u00e9rie de vantagens em rela\u00e7\u00e3o a um ambiente em que a maior parte dos oper\u00e1rios trabalha em pequenas empresas, uma vez que, nos pequenos estabelecimentos, os patr\u00f5es podem exercer influ\u00eancia direta sobre os empregados, enquanto nas grandes empresas isso n\u00e3o acontece. \u201cNas grandes empresas, centenas ou milhares de oper\u00e1rios nem chegam a conhecer os exploradores e tendem \u00e0 maior solidariedade, unidade e combatividade\u201d.<\/p>\n<p>Meirelles tamb\u00e9m enfatiza outras caracter\u00edsticas fundamentais da organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria nas grandes empresas, ao constatar que a grande maioria do proletariado tem origem recente no campo e geralmente traz consigo elementos de atraso, como a ideologia pequeno-burguesa individualista e aspira\u00e7\u00f5es materiais m\u00ednimas. \u201cMas \u00e9 somente nas grandes empresas, onde s\u00e3o rapidamente absorvidos e integrados no coletivo oper\u00e1rio, que se nivelam aos demais &#8230; Cada oper\u00e1rio sozinho se sente esmagado pelo sistema vigente, mas s\u00f3 nas grandes empresas o proletariado encontra for\u00e7as para resistir e lutar e onde apalpa (sic) o valor de seu peso espec\u00edfico \u2013 milhares de um lado e o patr\u00e3o de outro. Na empresa e, em particular, na grande empresa, descobre o valor de sua for\u00e7a ao acionar ou paralisar as m\u00e1quinas, que s\u00e3o as vigas mestras que sustentam o sistema de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 o estrato oper\u00e1rio dos grandes estabelecimentos, por sua caracter\u00edstica de absoluta proletariza\u00e7\u00e3o, quem pode neutralizar a instabilidade e as inconsequ\u00eancias dos estratos provenientes dos setores improdutivos que integram o vasto mundo que hoje \u00e9 a estrutura da classe assalariada\u201d.<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica importante para a luta de classes, conforme assinala o artigo, \u00e9 o fato de que os oper\u00e1rios concentrados nas grandes empresas se habituam com frequ\u00eancia a se relacionar com grandes contingentes de massas e, ao se tornarem lideran\u00e7as, j\u00e1 adquiriram culturalmente as condi\u00e7\u00f5es para dirigi-las. Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria vida pr\u00e1tica do of\u00edcio nas grandes empresas, com sua hierarquia, integra\u00e7\u00e3o e disciplina, facilita sua integra\u00e7\u00e3o numa organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria comunista.<\/p>\n<p>\u201cO oper\u00e1rio do grande estabelecimento se habitua a movimentar e a lidar com grandes contingentes humanos, condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para se formar como quadro. Neste tipo de local de trabalho, como no complexo metal\u00fargico, mec\u00e2nico, el\u00e9trico, da petroqu\u00edmica, dos principais meios de transportes, etc., onde se espraia a mecaniza\u00e7\u00e3o e a automatiza\u00e7\u00e3o, o maior n\u00famero da m\u00e3o-de-obra qualificada, de n\u00edvel cultural mais elevado, com maior tend\u00eancia \u00e0 unidade, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o \u00e9, obviamente, prop\u00edcio a produzir l\u00edderes e quadros &#8230; Pelos organogramas das empresas, no sistema de sua organiza\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o, os empregados s\u00e3o integrados e funcionam em tal hierarquia e democracia (sic), assim como numa disciplina e num coletivo que facilita naturalmente sua estrutura org\u00e2nica e integra\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica nos princ\u00edpios partid\u00e1rios, na sua democracia e disciplina. Facilita a constru\u00e7\u00e3o e a consolida\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de base, bem como a forma\u00e7\u00e3o de suas dire\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Para aplicar de maneira correta as tarefas do desafio hist\u00f3rico formulado no VI Congresso, Meirelles elaborou um longo hist\u00f3rico de experi\u00eancias do Partido desde a d\u00e9cada de 40 do s\u00e9culo passado, procurando para cada momento ressaltar tanto a orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica quanto os erros e acertos na sua aplica\u00e7\u00e3o, de forma a que se recolhessem as experi\u00eancias positivas e n\u00e3o se repetissem novamente os equ\u00edvocos do passado. Meirelles destaca que, ap\u00f3s o golpe de 1964, algumas iniciativas de construir o Partido nas empresas foram feitas por organiza\u00e7\u00f5es estaduais e locais e o partido inclusive destacou quadros qualificados para essa tarefa. Muito embora muitas dessas iniciativas tenham tido \u00eaxito, n\u00e3o significou uma mudan\u00e7a de qualidade na a\u00e7\u00e3o do Partido para cumprir essa tarefa, como prop\u00f5e a resolu\u00e7\u00e3o do VI Congresso. Meirelles recomendava ainda que, na execu\u00e7\u00e3o dessa nova tarefa, o Partido deveria levar em conta os elementos espec\u00edficos entre empresas p\u00fablicas e privadas, nacionais e estrangeiras, bem como as caracter\u00edsticas dos diversos setores da economia, como o industrial, o agropecu\u00e1rio e o setor terci\u00e1rio, al\u00e9m das caracter\u00edsticas espec\u00edficas da pr\u00f3pria empresa em que se vai desenvolver o trabalho.<\/p>\n<p>Metodicamente, o documento elenca especificamente que, para n\u00e3o dispersar for\u00e7as, o Partido deveria estabelecer uma pol\u00edtica de concentra\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do balan\u00e7o das tarefas ao longo de todo o processo de implementa\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica. Para tanto, deveria estabelecer prioridades na distribui\u00e7\u00e3o de quadros experientes, inclusive recomendando que se empregassem em grandes estabelecimentos ou se transferissem de pequenas para grandes empresas. Essas tarefas deveriam envolver todos os organismos do Partido, bem como era necess\u00e1rio ainda um plano de agita\u00e7\u00e3o, propaganda e forma\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de or\u00e7amento visando atingir os objetivos. Reconhecendo as dificuldades e complexidade de realiza\u00e7\u00e3o de uma tarefa dessa ordem o documento ressalta algumas recomenda\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, com muita atualidade at\u00e9 nos dias de hoje:<\/p>\n<p>\u201cO inimigo \u00e9 vigilante e refor\u00e7a, \u00e0 base de sua experi\u00eancia, a vigil\u00e2ncia nos locais de trabalho e \u00e9 impiedoso. Realiza a repress\u00e3o, a infiltra\u00e7\u00e3o e a corrup\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 preciso aprender bem a li\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de necessidade de absoluto sigilo e vigil\u00e2ncia na organiza\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o dos militantes estruturados. Cada tarefa interna ou externa, como distribui\u00e7\u00e3o de material, figurar em comiss\u00f5es, no trabalho sindical ou outra qualquer, exige a distribui\u00e7\u00e3o adequada das responsabilidades, tendo sempre em vista a possibilidade de uma descoberta, uma den\u00fancia, uma demiss\u00e3o do emprego ou a repress\u00e3o. N\u00e3o se trata de recuar nas fun\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, mas de distribuir de tal maneira os ativistas para que, mesmo ocorrendo uma fatalidade, n\u00e3o venha a ser atingida toda a organiza\u00e7\u00e3o ou os quadros mais eficientes. Somente assim \u00e9 poss\u00edvel agir e continuar, continuar e consolidar para sobreviver em qualquer situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 nacional ou local. Lembremo-nos sempre: na empresa \u00e9 onde a luta de classes \u00e9 antag\u00f4nica \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o, onde ela \u00e9 firme e consequente at\u00e9 o fim\u201d.<\/p>\n<p>Todo o trabalho de organiza\u00e7\u00e3o no interior das empresas se tornou muito mais dif\u00edcil com a decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00ba 5, de 13 de dezembro de 1968, quando na pr\u00e1tica ocorreu um golpe dentro do golpe, e a ditadura desenvolveu um regime claramente fascista. Vale lembrar que, antes do AI-5, o ano de 1968 foi marcado por grandes mobiliza\u00e7\u00f5es dos estudantes, dos intelectuais, artistas, bem como duas grandes greves oper\u00e1rias que vieram questionar mais fortemente o regime. Passeatas foram realizadas no Brasil inteiro, especialmente ap\u00f3s o assassinato do estudante Edson Lu\u00eds de Lima Souto, no restaurante universit\u00e1rio do Calabou\u00e7o, um local onde os estudantes pobres faziam refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A principal dessas passeatas foi realizada em 26 de junho de 1968 no Rio de janeiro, quando reuniu cerca de 100 mil manifestantes e ficou historicamente conhecida como a passeata dos 100 mil, mas ocorreram manifesta\u00e7\u00f5es em todas as grandes cidades do pa\u00eds. Em 12 de outubro de 1968 ocorreu um duro rev\u00e9s para o movimento estudantil e a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), que vinha efetivamente comandando as manifesta\u00e7\u00f5es de massa no pa\u00eds. Todos os cerca de 700 delegados presentes ao XXX Congresso da UNE, que estava sendo realizado clandestinamente em um s\u00edtio na cidade paulista de Ibi\u00fana, foram presos numa opera\u00e7\u00e3o comandada pelo DOPS de S\u00e3o Paulo, com o apoio do Ex\u00e9rcito. Em outras palavras, todas as lideran\u00e7as estudantis foram apanhadas pelo regime, levando a uma progressiva desarticula\u00e7\u00e3o do movimento, especialmente ap\u00f3s o AI-5.<\/p>\n<p>Antes do AI-5 ocorreram tamb\u00e9m greves oper\u00e1rias contra o arrocho salarial, mas nenhuma teve a dimens\u00e3o das duas principais greves de 1968. A primeira das greves ocorreu na cidade industrial mineira de Contagem e come\u00e7ou em 16 de abril na Companhia Belgo Mineira, quando os oper\u00e1rios fizeram ref\u00e9ns os diretores da empresa e se declararam em greve. Depois o movimento se espalhou por outras 17 f\u00e1bricas, tendo como reivindica\u00e7\u00e3o um aumento salarial de 25%. Foi uma greve que nasceu a partir da base oper\u00e1ria. Como diz Voz Oper\u00e1ria: \u201cOs oper\u00e1rios permaneceram durante 24 horas parados dentro da empresa, organizados e unidos, serenos, confiantes na sua for\u00e7a, dialogando com os engenheiros e mesmo com soldados da PM que vieram sitiar a empresa. Os grevistas n\u00e3o se assustaram com o aparato policial. Decidiram dialogar, explicar a greve, argumentando com os soldados mais acess\u00edveis que os pr\u00f3prios soldados n\u00e3o podiam viver com os soldos miser\u00e1veis que o governo lhes pagava e que o arrocho salarial tamb\u00e9m os atingia&#8221;.<\/p>\n<p>A greve surpreendeu a ditadura e at\u00e9 o sindicato local: o pr\u00f3prio ministro do Trabalho, coronel Jarbas Passarinho, se deslocou at\u00e9 Minas Gerais para negociar uma solu\u00e7\u00e3o da greve, bem como o sindicato tamb\u00e9m come\u00e7ou a se envolver nas negocia\u00e7\u00f5es. Ao final de nove dias de greve, o governo concedeu um abono aos trabalhadores de Contagem, que posteriormente foi estendido a todos os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros. Foi uma grande vit\u00f3ria oper\u00e1ria porque come\u00e7ou a quebrar o arrocho salarial e o governo se comprometeu a n\u00e3o punir os grevistas. Nesse movimento teve um papel importante o camarada Neres, dirigente do PCB de Minas Gerais, posteriormente preso pela ditadura. Foi o \u00faltimo preso pol\u00edtico a sair da pris\u00e3o com a anistia.<\/p>\n<p>Mas a maior e mais organizada greve do per\u00edodo foi realizada pelos oper\u00e1rios da cidade industrial de Osasco. O sindicato dos metal\u00fargicos da regi\u00e3o fora ganho pela oposi\u00e7\u00e3o sindical, comandada por Jos\u00e9 Ibrahim, e desenvolveu um intenso trabalho de organiza\u00e7\u00e3o no interior das f\u00e1bricas \u2013 os chamados Grupos dos 10, que logo se espalharam pelas empresas da regi\u00e3o. A nova diretoria programou uma greve da categoria para novembro de 1968, mas como as bases j\u00e1 estavam fazendo greves espont\u00e2neas, ent\u00e3o a dire\u00e7\u00e3o resolveu antecipar o movimento grevista para junho. A greve foi t\u00e3o bem organizada que um panfleto elaborado dias antes descrevia exatamente como deveria se processar a greve. \u201c\u00c0s 8:45 horas as Ind\u00fastrias Granada e Barreto Kelly aderiram \u00e0 greve e todos os trabalhadores sa\u00edram juntos das f\u00e1bricas marchando para o sindicato &#8230; Duas horas depois a Lonaflex parou, declarando-se solid\u00e1ria ao movimento grevista\u201d. E tudo ocorreu exatamente como descrevia o panfleto.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o ao movimento foi violenta, num n\u00edvel maior do que os l\u00edderes metal\u00fargicos imaginavam. As for\u00e7as do Ex\u00e9rcito invadiram a cidade, com soldados da For\u00e7a P\u00fablica e do DOPS, com cavalaria, brucutus, controle da entrada e sa\u00eddas da cidade e cerco \u00e0s f\u00e1bricas, exigindo que os oper\u00e1rios abandonassem as empresas. Na Cobrasma, a maior de todas, os trabalhadores resistiram dentro da f\u00e1brica e a pol\u00edcia invadiu o estabelecimento. Ocorreu uma batalha campal no interior da f\u00e1brica ao longo da noite e pela manh\u00e3 a pol\u00edcia prendeu 300 trabalhadores. Enquanto isso, o governo decretou interven\u00e7\u00e3o no sindicato e nomeou um interventor, que tentou entrar no Sindicato com um pelot\u00e3o policial, mas os trabalhadores o impediram de entrar no pr\u00e9dio. Novamente a pol\u00edcia invadiu o sindicato e prendeu l\u00e1 dentro mais 80 trabalhadores. A partir da\u00ed o movimento arrefeceu e a greve foi derrotada, mas significou o momento mais elevado da luta de classes naquele ano de 1968.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32848\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[365,53,46,383,15,31],"tags":[222],"class_list":["post-32848","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-centenario-do-pcb","category-c64-ditadura","category-c56-memoria","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","category-s18-sindical","category-c31-unidade-classista","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8xO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32848","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32848"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32848\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32850,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32848\/revisions\/32850"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32848"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32848"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32848"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}