{"id":32851,"date":"2025-05-19T21:05:56","date_gmt":"2025-05-20T00:05:56","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32851"},"modified":"2025-05-19T21:05:56","modified_gmt":"2025-05-20T00:05:56","slug":"luta-antimanicomial-e-questao-racial-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32851","title":{"rendered":"Luta antimanicomial e quest\u00e3o racial no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32852\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32851\/unnamed-52\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed.png?fit=1920%2C1920&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1920,1920\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed.png?fit=747%2C747&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-32852\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed.png?resize=747%2C747&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"747\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed.png?resize=900%2C900&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed.png?resize=1536%2C1536&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed.png?w=1920&amp;ssl=1 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Helo\u00edsa Gusm\u00e3o \u2013 Militante do CNMO Curitiba<\/p>\n<p><strong>Cuidado, resist\u00eancia e ancestralidade<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, a luta antimanicomial n\u00e3o se resume \u00e0 cr\u00edtica aos hospitais psiqui\u00e1tricos. Ela \u00e9, antes de tudo, uma trincheira contra a heran\u00e7a colonial que associa corpos negros \u00e0 loucura, ao descontrole e \u00e0 exclus\u00e3o. Por tr\u00e1s da ideia de \u201ccura\u201d psiqui\u00e1trica, muitas vezes esconde-se um dispositivo de controle social que, historicamente, confinou pessoas negras, pobres e perif\u00e9ricas em institui\u00e7\u00f5es destinadas n\u00e3o ao cuidado, mas ao silenciamento.<\/p>\n<p>Para compreender a profundidade dessa intersec\u00e7\u00e3o entre racismo e sa\u00fade mental, \u00e9 essencial ouvir vozes como as de Neusa Santos Souza, L\u00e9lia Gonzalez e Isildinha Baptista. Essas pensadoras negras revelam que o racismo n\u00e3o apenas estrutura a sociedade brasileira em suas bases econ\u00f4micas e pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m permeia as pr\u00e1ticas de cuidado e os saberes m\u00e9dicos. Assim como Angela Davis denuncia que pris\u00f5es e manic\u00f4mios operam como tecnologias de domina\u00e7\u00e3o racial, essas autoras brasileiras mostram que a psiquiatria, em sua hist\u00f3ria nacional, frequentemente foi c\u00famplice da exclus\u00e3o de corpos considerados \u201cindesej\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Em Tornar-se negro (1983), Neusa Santos Souza descreve os efeitos subjetivos da viol\u00eancia racial sobre a sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o negra. Ela cunha a ideia de uma \u201cdepress\u00e3o vital\u201d que n\u00e3o pode ser explicada apenas por categorias cl\u00ednicas, pois est\u00e1 profundamente enraizada na experi\u00eancia hist\u00f3rica de rejei\u00e7\u00e3o e subalterniza\u00e7\u00e3o. Para Neusa, a psiquiatria tradicional, ao ignorar o contexto social, transforma a resist\u00eancia em patologia \u2014 um equ\u00edvoco que, em termos pr\u00e1ticos, resulta em medicaliza\u00e7\u00e3o e interna\u00e7\u00f5es de sujeitos cujo sofrimento \u00e9 socialmente produzido. O Hospital Col\u00f4nia de Barbacena, onde milhares de pessoas foram institucionalizadas sob justificativas fr\u00e1geis e racistas, simboliza esse modelo perverso em que a pobreza e a negritude eram tratadas como doen\u00e7as.<\/p>\n<p>L\u00e9lia Gonzalez, por sua vez, amplia a cr\u00edtica ao denunciar a \u201cpsiquiatriza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o racial\u201d. Em seus escritos, ela aponta como a medicina do s\u00e9culo XIX racializou corpos negros e associou a negritude \u00e0 irracionalidade, \u00e0 inferioridade moral e ao desvio comportamental. Essa l\u00f3gica, travestida de neutralidade cient\u00edfica, se manteve viva por meio do mito da democracia racial, que nega o racismo enquanto naturaliza a marginaliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra. Ainda hoje, jovens negros das periferias s\u00e3o frequentemente vistos como amea\u00e7as \u00e0 ordem e, por isso, s\u00e3o medicalizados ou internados compulsoriamente sob o pretexto de dist\u00farbios psiqui\u00e1tricos \u2014 quando, na verdade, apenas expressam modos de existir que rompem com os padr\u00f5es brancos e elitistas.<\/p>\n<p>Essa realidade \u00e9 aprofundada por Isildinha Baptista, que investiga como o racismo institucional molda os servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade mental. Apesar dos avan\u00e7os legais da Reforma Psiqui\u00e1trica e da cria\u00e7\u00e3o da Rede de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial, a estrutura do cuidado continua a reproduzir desigualdades hist\u00f3ricas. Nas periferias, os CAPS (Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial) operam com recursos escassos, equipes sobrecarregadas e pouca forma\u00e7\u00e3o para lidar com as singularidades culturais e sociais de seus usu\u00e1rios. A maioria dessas pessoas \u00e9 negra, e os sofrimentos que as atravessam t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com a precariedade, a viol\u00eancia policial e o apagamento sistem\u00e1tico de suas hist\u00f3rias e subjetividades.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, torna-se evidente que a luta antimanicomial precisa ser tamb\u00e9m abolicionista, antirracista e anticapacitista. Como j\u00e1 advertia Neusa Santos Souza, a sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o ser\u00e1 alcan\u00e7ada por meio de rem\u00e9dios ou diagn\u00f3sticos descontextualizados, mas sim pela transforma\u00e7\u00e3o das estruturas que geram sofrimento. Desmantelar o manic\u00f4mio n\u00e3o \u00e9 apenas fechar um pr\u00e9dio: \u00e9 questionar toda uma l\u00f3gica que autoriza o Estado a decidir quem pode viver com dignidade e quem deve ser silenciado.<\/p>\n<p>L\u00e9lia Gonzalez oferece, nesse sentido, caminhos de reconstru\u00e7\u00e3o. Ela prop\u00f5e uma vis\u00e3o de cuidado enraizada na cosmovis\u00e3o afrodiasp\u00f3rica, onde comunidade, territ\u00f3rio e ancestralidade ocupam o centro do processo terap\u00eautico. Pr\u00e1ticas como rodas de jongo, oficinas de capoeira, grupos de autocuidado entre mulheres negras ou espa\u00e7os de escuta conduzidos por lideran\u00e7as comunit\u00e1rias exemplificam uma outra forma de cuidado: aquela que reconhece a cultura negra como pot\u00eancia, e n\u00e3o como desvio.<\/p>\n<p>Cuidar, neste contexto, \u00e9 um gesto radical de humanidade. \u00c9 reconhecer que a loucura, no Brasil, tem cor e endere\u00e7o. Que o sofrimento ps\u00edquico n\u00e3o nasce no indiv\u00edduo, mas nas viol\u00eancias hist\u00f3ricas que atravessam corpos racializados. \u00c9 recusar, como diziam nossas ancestrais, a cura que adoece. A luta antimanicomial, quando silencia sobre o racismo, incorre no erro de reproduzir a exclus\u00e3o que afirma combater. Para ser justa, ela precisa incorporar a mem\u00f3ria das benzedeiras, das rezadeiras e dos quilombos \u2014 formas de saber que historicamente cuidaram onde o Estado apenas puniu.<\/p>\n<p>Como escreveu L\u00e9lia Gonzalez, \u201co que est\u00e1 em jogo \u00e9 a nossa humanidade\u201d. E \u00e9 em nome dessa humanidade que afirmamos: a luta antimanicomial ser\u00e1 antirracista \u2014 ou n\u00e3o ser\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32851\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[124,4,66,382,10,238,197],"tags":[225],"class_list":["post-32851","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c137-coletivo-minervino-de-oliveira","category-s6-movimentos","category-c79-nacional","category-negro","category-s19-opiniao","category-reforma-psiquiatrica","category-saude","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8xR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32851"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32851\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32853,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32851\/revisions\/32853"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}