{"id":32881,"date":"2025-06-02T21:53:39","date_gmt":"2025-06-03T00:53:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32881"},"modified":"2025-06-02T21:53:39","modified_gmt":"2025-06-03T00:53:39","slug":"redes-sociais-disciplina-e-manipulacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32881","title":{"rendered":"Redes sociais, disciplina e manipula\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32882\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32881\/attachment\/1000243643\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1000243643.jpg?fit=1024%2C682&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1024,682\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"1000243643\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1000243643.jpg?fit=747%2C497&amp;ssl=1\" class=\"alignnone wp-image-32882 size-large\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1000243643.jpg?resize=747%2C497&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"497\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1000243643.jpg?resize=900%2C599&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1000243643.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1000243643.jpg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1000243643.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Imagem: Marco Wolff (pixabay)<br \/>\nPor Mauro Luis Iasi<br \/>\nBlog da Boitempo<br \/>\n\u201cEu para mim \u00e9 pouco\u201d<br \/>\n\u2014 Maiak\u00f3vski<\/p>\n<p>\u201cSe considerarmos essa publicidade num pa\u00eds capitalista altamente desenvolvido em sua totalidade social, ela pressup\u00f5e (\u2026), como Hitler j\u00e1 havia constatado, uma influenciabilidade quase ilimitada dos homens, da cren\u00e7a de que qualquer coisa lhes poder\u00e1 ser sugerida, desde que se descubra o m\u00e9todo correto de faz\u00ea-lo.\u201d<br \/>\n\u2014 Luk\u00e1cs em Para uma ontologia do ser social, volume II<\/p>\n<p>Em um debate recente com meu amigo Valter Pomar, promovido pelo SINASEFE de Sergipe, o dirigente petista colocou uma quest\u00e3o que me parece da maior relev\u00e2ncia e nos instiga \u00e0 reflex\u00e3o. Pomar afirmou que a extrema direita, atrav\u00e9s das redes sociais, logrou produzir uma disciplina em sua base de massa \u2014 entendida como a capacidade de uma a\u00e7\u00e3o eficaz e homog\u00eanea \u2014, ao mesmo tempo em que falta a disciplina na perspectiva de esquerda. Ressaltou, contudo, que esta n\u00e3o poderia ser alcan\u00e7ada pela esqueda pelos mesmos meios, mas atrav\u00e9s de formas coletivas de organiza\u00e7\u00e3o e luta.<\/p>\n<p>Pode parecer um paradoxo a busca da disciplina, uma vez que no campo da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da extrema direita ela parece se apresentar como insepar\u00e1vel da manipula\u00e7\u00e3o e do irracionalismo, ao passo que esperamos uma a\u00e7\u00e3o consciente e emancipat\u00f3ria. Acredito, no entanto, que aqui se apresenta um tema que pode lan\u00e7ar luz, ao mesmo tempo, sobre os m\u00e9todos e car\u00e1ter da manipula\u00e7\u00e3o da extrema direita e suas significativas diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1xis transformadora.<\/p>\n<p>Max Weber concebia o significado da disciplina como parte integrante da racionalidade instrumental, de forma que ela seria a \u201cexecu\u00e7\u00e3o da ordem recebida, coerentemente racionalizada, metodicamente treinada e exata, na qual toda cr\u00edtica pessoal \u00e9 incondicionalmente eliminada e o agente se torna um mecanismo preparado exclusivamente para execu\u00e7\u00e3o da ordem\u201d (Weber, 1979, p. 291). Como o soci\u00f3logo compreensivo compreende a a\u00e7\u00e3o social tendo o indiv\u00edduo como sujeito orientado por valores, a ordem capitalista moderna, fundada na forma burocr\u00e1tica e na disciplina, produziria uma inevit\u00e1vel redu\u00e7\u00e3o do carisma pessoal com a crescente necessidade de racionaliza\u00e7\u00e3o das necessidades econ\u00f4micas e pol\u00edticas, e lamenta o fato de que tal processo universal \u201crestringe cada vez mais a import\u00e2ncia do carisma e da conduta diferenciada individualmente\u201d (idem, p. 302).<\/p>\n<p>Para o soci\u00f3logo alem\u00e3o o sentido desta a\u00e7\u00e3o social t\u00edpica se expressaria na \u201cnecessidade das camadas sociais, privilegiadas atrav\u00e9s das ordens pol\u00edtica, social e econ\u00f4micas existentes, terem \u2018legitimadas\u2019 as suas posi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas\u201d, e completa afirmando que essas camadas sociais privilegiadas assim esperam ver \u201cessas posi\u00e7\u00f5es transformadas de rela\u00e7\u00f5es de poder apenas de fato em um cosmo de direitos adquiridos, e saber que, assim, est\u00e3o santificadas\u201d (ibidem). Aqui, como em outros casos, Weber compreende bem o fen\u00f4meno, mas n\u00e3o encontra sa\u00edda fora da resigna\u00e7\u00e3o. Para ele, a alternativa socialista expressava o aprofundamento da ordem burocr\u00e1tica e da disciplina e, portanto, da restri\u00e7\u00e3o m\u00e1xima \u201cconduta diferenciada individualmente\u201d.<\/p>\n<p>O que perambula pela cabe\u00e7a de Weber como uma contradi\u00e7\u00e3o insol\u00favel na verdade \u00e9 o desconforto das ideias que se tornam n\u00e3o correspondentes com o desenvolvimento hist\u00f3rico do modo de produ\u00e7\u00e3o que lhe serve de base. A sociedade da livre concorr\u00eancia, do livre mercado e da iniciativa pessoal se tornava fria e perempt\u00f3riamente a sociedade dos monop\u00f3lios. No entanto, se o soci\u00f3logo se permitisse seguir sua compreens\u00e3o em uma dire\u00e7\u00e3o diversa, descobriria que seu ador\u00e1vel indiv\u00edduo, como capsula individualista \u2014 ou, na express\u00e3o de Norbert Elias (1994), o homo clausus \u2014, est\u00e1 longe de perder a centralidade ideol\u00f3gica na ordem burguesa plenamente desenvolvida.<\/p>\n<p>Nossa premissa \u00e9 que a ordem disciplinar burocr\u00e1tica, que emerge da organiza\u00e7\u00e3o industrial capitalista, n\u00e3o \u00e9 antag\u00f4nica ao individualismo, pelo contr\u00e1rio, o refor\u00e7a e encontra nele uma de suas bases essenciais que, como veremos, \u00e9 a materialidade da valor que aparece na ideologia.<\/p>\n<p>Aquilo que escapa a Weber n\u00e3o passa desapercebido por Luk\u00e1cs (2013) quando reflete sobre a natureza do estranhamento no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista plenamente desenvolvido. Nosso mestre h\u00fangaro parte de uma premissa que encontra em Marx, segundo a qual devemos evitar considerar a sociedade como uma abstra\u00e7\u00e3o diante dos indiv\u00edduos que a comp\u00f5em, uma vez que o indiv\u00edduo \u00e9 o ser social, concluindo que:<\/p>\n<p>\u201ca vida individual e a vida gen\u00e9rica do homem n\u00e3o s\u00e3o diferentes, por muito que \u2013 e isto \u00e9 necess\u00e1rio \u2013 o modo de exist\u00eancia da vida individual seja um modo mais espec\u00edfico ou mais geral da vida gen\u00e9rica, ou por mais que a vida gen\u00e9rica constitua uma vida individual mais espec\u00edfica ou mais geral\u201d (Marx, 1993, p. 195-196).<\/p>\n<p>Ocorre que a forma mais espec\u00edfica (ou particular) do ser social sob o capitalismo tende a fragmentar sua dimens\u00e3o gen\u00e9rica; no racioc\u00ednio de Marx, o ser social aparece como indiv\u00edduos isolados na sociedade civil, gen\u00e9ricos somente na aliena\u00e7\u00e3o do Estado e do Direito.<\/p>\n<p>Por essa aproxima\u00e7\u00e3o, a massifica\u00e7\u00e3o ou as formas homog\u00eaneas resultantes da ordem burguesa intensificam o indiv\u00edduo particular e obscurecem o ser gen\u00e9rico, impedindo a verdadeira individua\u00e7\u00e3o e fortalecendo o individualismo (Vaisman, 2013, p. 151). Tal processo implica em que, \u201cna vida privada dos homens, a particularidade deve dominar de modo absoluto o ser do homem, mediada pela manipula\u00e7\u00e3o consumada de todas as manifesta\u00e7\u00f5es vitais\u201d (Luk\u00e1cs, 2013, p. 793).<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre a extrema direita e a propaganda como instrumento pol\u00edtico de massifica\u00e7\u00e3o \u00e9 antiga, como se revela na ep\u00edgrafe que apresenta nosso texto. Luk\u00e1cs denominar\u00e1 esse processo pelo princ\u00edpio da \u201cinfluenciabilidade extrema\u201d (idem, p. 797), ou seja, a convic\u00e7\u00e3o de que qualquer valor pode ser sugerido uma vez que se encontre o m\u00e9todo correto para tanto. No entanto, a efic\u00e1cia de tal m\u00e9todo est\u00e1 ligada \u00e0 paricularidade do ser social que oculta sua genericidade. Diz Luk\u00e1cs: \u201cAquilo que o homem considera, neste n\u00edvel, como sua personalidade, via de regra, \u00e9 apenas a sua singularidade que assumiu fei\u00e7\u00e3o social.\u201d<\/p>\n<p>Quando se trata da extrema direita, este mecanismo universal da ordem capitalista \u2014 a manipula\u00e7\u00e3o \u2014 assume uma fei\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Uma vez que devemos compreender o nazifascismo do ponto de vista socio-hist\u00f3rico, continua Luk\u00e1cs:<\/p>\n<p>\u201c(\u2026) \u00e9 importante ter sempre em mente que as formas conservadoras e, sobretudo, as formas pronunciadamente reacion\u00e1rias de entrega do indiv\u00edduo ao que ele percebe como \u2018sua causa\u2019, de acordo com a sua tend\u00eancia principal, seguram e fixam os homens no n\u00edvel de sua particularidade e n\u00e3o desencadeiam um movimento nele visando \u00e0 supera\u00e7\u00e3o dela (\u2026) ele liberara em seus asceclas e subordinados todos os maus instintos da particularidade, tamb\u00e9m, e sobretudo aqueles que, no cotidiano normal, costumam ser reprimidos pelo homem particular mediano\u201d (idem, p. 790-791).<\/p>\n<p>Podemos concluir que a massifica\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da extrema direita, potencializada pelos meios digitais orientados por algor\u00edtimos, produz uma eficaz disciplina que refor\u00e7a a fragmenta\u00e7\u00e3o individualizante e alienada. \u00c9 necess\u00e1rio relembrar que tal efic\u00e1cia se encontra no fato de que n\u00e3o se trata de meras ideias e valores, mas que s\u00e3o express\u00e3o da sociabilidade capitalista fundada na ordem das mercadorias, da explora\u00e7\u00e3o capitalista e, portanto, do fetichismo e da reifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A base objetiva dos valores ideol\u00f3gicos presentes na a\u00e7\u00e3o da extrema direita neofascista explica, inclusive, a rea\u00e7\u00e3o da direita tradicional que a ela se op\u00f5e como uma rea\u00e7\u00e3o \u201cde formas exteriormente democr\u00e1ticas\u201d. A rejei\u00e7\u00e3o aparentemente democr\u00e1tica ao fascismo se apoia na subst\u00e2ncia comum dos valores da ordem do capital, portando, no indiv\u00edduo e na no\u00e7\u00e3o abstrata de liberdade como fundamento da democracia moderna. Tal postura permite que o alvo da rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 extrema direita dirija-se primordialmente contra o socialismo, centrado em um ataque contra a ideologia em geral, suposta racionalidade objetiva do indiv\u00edduo, de forma que \u201c\u00e0 manipula\u00e7\u00e3o brutal \u00e9 contraposta uma mais refinada\u201d (idem, p. 793).<\/p>\n<p>Revela-se assim o equ\u00edvoco de parte dos companheiros que acreditam poder disputar com a extrema direita no terreno que lhe \u00e9 pr\u00f3prio e beneficiar-se do resultado disciplinar da mesma forma que os fascistas. A indaga\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9: qual a natureza da disciplina que precisamos, e quais as formas de alcan\u00e7\u00e1-la? Seria a disciplina por n\u00f3s desejada substancialmente diversa daquela que serve \u00e0 extrema direta e \u00e0 direita?<\/p>\n<p>Concordando com Valter Pomar que a disciplina no campo revolucion\u00e1rio \u00e9 de outra natureza e, portanto, os meios para alcan\u00e7\u00e1-la s\u00e3o qualitativamente distintos, passemos a analisar o tema nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de tudo, devemos enfrentar a cr\u00edtica vinda de certos setores que afirmam que toda e qualquer disciplina, assim como formas organizativas (como sindicatos, partidos, movimentos sociais etc.) seriam invariavelmente contr\u00e1rias \u00e0 a\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria dos trabalhadores, tal como defendem os adeptos da a\u00e7\u00e3o direta. Para n\u00f3s n\u00e3o se trata de uma mera quest\u00e3o de ortodoxia ou tradi\u00e7\u00e3o, mas de responder se o enfrentamento contra as classes dominantes e seus instrumentos centralizados pode ou n\u00e3o se dar sem a constitui\u00e7\u00e3o de uma unidade de classe.<\/p>\n<p>Comecemos por lembrar Ant\u00f4nio Gramsci e seu racioc\u00ednio sobre a import\u00e2ncia da organiza\u00e7\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria. Em um artigo ap\u00f3crifo de 1919, escrito em colabora\u00e7\u00e3o com Palmiro Togliatti e publicado no L\u2019Ordine Nuovo, Gramsci dir\u00e1 que:<\/p>\n<p>\u201cO Estado socialista existe j\u00e1 potencialmente nas institui\u00e7\u00f5es da vida social, caracter\u00edsticas da classe trabalhadora explorada. Coligar entre os trabalhadores estas institui\u00e7\u00f5es, coorden\u00e1-las e subordin\u00e1-las a uma hierarquia de compet\u00eancia e de poderes, centraliz\u00e1-las fortemente, embora respeitando as necess\u00e1rias autonomias e articula\u00e7\u00f5es, significa criar desde j\u00e1 uma verdadeira e pr\u00f3pria democracia oper\u00e1ria em contraposi\u00e7\u00e3o eficiente e ativa com o Estado burgu\u00eas, preparada desde j\u00e1 para substituir o Estado burgu\u00eas em todas as suas fun\u00e7\u00f5es essenciais de gest\u00e3o e de dom\u00ednio do patrim\u00f4nio nacional\u201d (GRAMSCI, 1976, p. 337-338).<\/p>\n<p>Portanto, a combina\u00e7\u00e3o exata entre o respeito \u00e0 autonomia necess\u00e1ria e a centraliza\u00e7\u00e3o que constitui a for\u00e7a coletiva e organizada da classe contra seus inimigos.<\/p>\n<p>Para Gramsci pertencemos sempre a determinados grupos, aqueles com os quais partilhamos uma concep\u00e7\u00e3o de mundo, um modo de pensar e de agir, concluindo que somos sempre \u201cconformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens coletivos\u201d (Gramsci, 1999, p. 94). Entretanto \u2014 e aqui emerge a diferen\u00e7a essencial que queremos apontar \u2014, a quest\u00e3o para o comunista sardo \u00e9 perguntar-se a que tipo hist\u00f3rico de conformismo, a quais homens-massa pertencemos.<\/p>\n<p>No senso comum nossa concep\u00e7\u00e3o de mundo se apresenta de forma bizarra, isto \u00e9, ocasional e desagregada, uma vez que \u00e9 composta de partes aleat\u00f3rias das diferentes conex\u00f5es que o indiv\u00edduo estabelece em sua vida e em seus la\u00e7os particulares com a realidade. Uma vis\u00e3o cr\u00edtica do mundo pressup\u00f5e identificar esses elementos \u201ccomo produto do processo hist\u00f3rico at\u00e9 hoje desenvolvido, que deixou em ti uma uma infinidade de tra\u00e7os acolhidos sem an\u00e1lise critica\u201d (ibidem), at\u00e9 chegar a uma vis\u00e3o de mundo unit\u00e1ria e coerente.<\/p>\n<p>Como vemos, enquanto a manipula\u00e7\u00e3o se apoia na fragmenta\u00e7\u00e3o do ser social e na consci\u00eancia pr\u00f3pria da particularidade imediata deste ser, a consci\u00eancia cr\u00edtica pressup\u00f5e a an\u00e1lise criteriosa de nossa concep\u00e7\u00e3o de mundo imediata como produto hist\u00f3rico, portanto, como ser gen\u00e9rico. Como afirma Luk\u00e1cs (2013, p. 794), a forma\u00e7\u00e3o humana sob a ordem econ\u00f4mica e ideol\u00f3gica organizacional reduz todos os indiv\u00edduos \u201csingulares ao limite da particularidade que lhes parece irrevog\u00e1vel\u201d. Os seres humanos, todavia, podem ter a possibilidade de uma \u201cindividualidade real\u201d, uma vez que busquem a supera\u00e7\u00e3o do estranhamento (idem, p. 795).<\/p>\n<p>Ao nosso ver, essa possibilidade reside no fato de que mesmo um ser humano reduzido a condi\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo serializado (Sartre, 1979) e submetido ao estranhamento ainda \u00e9 um ser social. A fragmenta\u00e7\u00e3o deste ser social em indiv\u00edduos isolados \u00e9 uma necessidade das rela\u00e7\u00f5es que constituem a ordem da mercadoria e do capital, isto \u00e9, propriet\u00e1rios privados de distintas mercadorias, como afirma Marx:<\/p>\n<p>\u201cO car\u00e1ter privado da produ\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo produtor de valores de troca se apresenta inclusive como produto hist\u00f3rico; seu isolamento, sua convers\u00e3o em produtor aut\u00f4nomo no \u00e2mbito da produ\u00e7\u00e3o, est\u00e3o condicionados por uma divis\u00e3o do trabalho que, por sua vez, se funda em uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, por obra das quais o indiv\u00edduo est\u00e1 condicionado, desde todos os pontos de vista, na sua vincula\u00e7\u00e3o com os outros e seu pr\u00f3prio modo de exist\u00eancia\u201d (MARX, 1998, p. 168).<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o evidente que aqui se expressa \u00e9 que o ser social serializado como indiv\u00edduo aut\u00f4nomo se apresenta como homem-massa da ordem econ\u00f4mica que o serializou. Da mesma forma a ordem econ\u00f4mica, social, pol\u00edtica e ideol\u00f3gica fundada no capital se apresenta como express\u00e3o de um modo de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida. Uma vez baseado na propriedade privada, na divis\u00e3o do trabalho que exige o indiv\u00edduo aut\u00f4nomo e no estranhamento, esse modo de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode existir pelo trabalho combinado de toda a sociedade em seu conjunto. Portanto, a consci\u00eancia do ser social como ser social n\u00e3o deriva de um convencimento fundado em ideias e valores coletivos contra o individualismo, mas na exist\u00eancia objetiva do ser social, ainda que subssumido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da aliena\u00e7\u00e3o e da serialidade.<\/p>\n<p>Dito de forma direta: o ser social que se apresenta fragmentado e submetido ao individualismo (base da ideologia da direita e da extrema direita) n\u00e3o deixa de ser uma ser social que pode, em certas condi\u00e7\u00f5es, ser base para a consci\u00eancia cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Mas como isso seria poss\u00edvel e qual o papel da disciplina nesse processo? Devemos come\u00e7ar por refor\u00e7ar o fato que n\u00e3o se trata de uma mera batalha de ideias \u2014 n\u00e3o se muda o mundo mudando a fraseologia do mundo, diziam Marx e Engels. A mudan\u00e7a social e a vit\u00f3ria de nossa causa, assim como a \u201ccria\u00e7\u00e3o em massa de uma consci\u00eancia comunista\u201d, s\u00f3 pode se dar por um movimento pr\u00e1tico. Na mesma dire\u00e7\u00e3o, Luk\u00e1cs (2013, p. 754) afirmar\u00e1 que \u201cna luta contra o estranhamento, a pr\u00e1xis social tem prioridade absoluta\u201d.<\/p>\n<p>Isto quer dizer que nossa a\u00e7\u00e3o come\u00e7a a partir da luta e da resist\u00eancia dos trabalhadores contra as diversas contradi\u00e7\u00f5es que se apresentam no cotidiano da ordem capitalista e burguesa. A concorr\u00eancia, diziam Marx e Engels (2007, p. 62), isola os indiv\u00edduos uns dos outros, apesar de agreg\u00e1-los. Esses indiv\u00edduos singulares formam uma classe \u201csomente na medida em que tem que promover uma luta contra outra classe; de resto, eles mesmos se posicionam uns contra os outros, como inimigos, na concorr\u00eancia\u201d (idem, p. 63).<\/p>\n<p>\u00c9 no contexto de lutas coletivas \u2014 inicialmente mais particulares e ent\u00e3o cada vez mais gerais no amadurecimento da luta de classes \u2014 que pode emergir o ser social subjugado pela reifica\u00e7\u00e3o e se constituir em sujeito hist\u00f3rico. Por isso a disciplina e organiza\u00e7\u00e3o que necessitamos n\u00e3o pode ser a mesma que massifica, mistifica e manipula, resultando em um aprofundamento da serialidade individualista.<\/p>\n<p>Disciplina continua sendo a busca da coordena\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, a uniformidade de um bloco coerente e coeso, mas ela n\u00e3o pode ser, como pensava Weber, uma a\u00e7\u00e3o na qual \u201ctoda cr\u00edtica pessoal \u00e9 incondicionalmente eliminada e o agente se torna um mecanismo preparado exclusivamente para execu\u00e7\u00e3o da ordem\u201d. A disciplina que organiza os indiv\u00edduos livres do individualismo, que fundam sua personalidade na cr\u00edtica consciente do mundo e em seu car\u00e1ter social e hist\u00f3rico, se constr\u00f3i na capacidade de promover novas rela\u00e7\u00f5es que sejam base para uma verdadeira consci\u00eancia de classe. As rela\u00e7\u00f5es em que se baseia a manipula\u00e7\u00e3o exigem que a rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos seja mediada pelas coisas, pelas mercadorias, pelo mercado, pelo Estado, pelas redes e plataformas, atrav\u00e9s das quais uma rela\u00e7\u00e3o entre seres humanos assume a fantasmag\u00f3rica forma de uma rela\u00e7\u00e3o entre coisas (Marx, 2013, p. 147).<\/p>\n<p>Uma organiza\u00e7\u00e3o e disciplina que lutem contra o estranhamento fetichista devem arrancar o v\u00e9u que encobre a rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos; devem ser, antes de tudo, uma rela\u00e7\u00e3o humana capaz de recuperar a subst\u00e2ncia do humano que se alienou nas coisas. No entanto, nossa luta e nossas organiza\u00e7\u00f5es ainda se d\u00e3o no terreno das rela\u00e7\u00f5es sociais existentes e, portanto, em grande medida s\u00e3o determinadas por essa objetividade, o que leva \u00e0s diferentes deforma\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas, hierarquiza\u00e7\u00f5es de poderes, esteriliza\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito criativo e cr\u00edtico pelo funcionalismo in\u00e9pito.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos construir nossa disciplina e nossos valores com base em rela\u00e7\u00f5es futuras a serem criadas com a mudan\u00e7a radical da sociedade. Os valores pr\u00f3prios da luta contra a ordem burguesa se fundam nas rela\u00e7\u00f5es que podemos estabelecer no curso da pr\u00f3pria luta, no terreno vivo de nossas organiza\u00e7\u00f5es, na medida em que consigamos imprimir nelas uma qualidade substantivamente nova e emancipat\u00f3ria, em luta contra a objetividade reificadora e fetichista em que inescapavelmente nos encontramos.<\/p>\n<p>A disciplina de que necessitamos \u00e9 uma disciplina consciente, na qual o resultado coletivo seja s\u00edntese das personalidades e diferen\u00e7as em que se funda nosso ser coletivo, e n\u00e3o a padroniza\u00e7\u00e3o massificante, na qual o ser coletivo se aliena novamente em algo fora dele \u2014 seja este algo a institui\u00e7\u00e3o que n\u00f3s criamos na luta, no sindicato, no partido, no governo ou mesmo em experi\u00eancias revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos anacr\u00f4nicos e sabemos que a tecnologia que nos permite novas formas de comunica\u00e7\u00e3o pode ser muito \u00fatil, e devemos saber utiliz\u00e1-la. Mas, por mais sofisticada que seja, ela \u00e9 s\u00f3 um meio que n\u00e3o pode de forma alguma substituir nossas formas presenciais de organiza\u00e7\u00e3o e de luta atrav\u00e9s das quais constru\u00edmos o futuro com a mat\u00e9ria podre do presente em crise.<\/p>\n<p>Por isso, repetimos com Brecht nossa convic\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cDas novas antenas v\u00eam as velhas tolices.<br \/>\nA sabedoria \u00e9 transmitida de boca em boca\u201d<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>BRECHT, B. As Novas eras. In: Poemas (1913-1956). S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1987.<\/p>\n<p>ELIAS, N. A sociedade dos indiv\u00edduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.<\/p>\n<p>GRAMSCI, A. Cadernos do c\u00e1rcere, v. 1. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1999.<\/p>\n<p>GRAMSCI, A. Democracia oper\u00e1ria. In: Escritos Pol\u00edticos, v. 1. Lisboa: Seara Nova, 1976.<\/p>\n<p>LUK\u00c1CS, G. Para uma ontologia do ser social. Volume II. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>MARX, K. O Capital, livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>MARX, K. Grundisse. Volume III. Cidade do M\u00e9xico: Siglo Veinteuno, 1998.<\/p>\n<p>MARX, K. Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos. Lisboa: Ed. 70, 1993.<\/p>\n<p>MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alem\u00e3. Sao Paulo: Boitempo, 2007.<\/p>\n<p>MAIKOVISKY, V. A nuvem de cal\u00e7as. In: Antologia po\u00e9tica. S\u00e3o Paulo: Max Limonad, 1984.<\/p>\n<p>SARTRE, J. P. Cr\u00edtica de la raz\u00f3n dial\u00e9ctica. Volumes 1 e 2. Buenos Aires: Losada, 1979.<\/p>\n<p>VAISMAN, E. Marx y Luk\u00e1cs y el problema de la individualidad: algunas aproximaciones. In: INFRANCA, A.; DUAYER, M.; VEDDA, M. (orgs). Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs: a\u00f1os de peregrinaje filos\u00f3fico. Buenos Aires: Herramienta, 2013.<\/p>\n<p>WEBER, M. O significado da disciplina. In: Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"aBtt1h505R\"><p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2025\/05\/30\/redes-sociais-disciplina-e-manipulacao\/\">Redes sociais, disciplina e&nbsp;manipula\u00e7\u00e3o<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; visibility: hidden;\" title=\"&#8220;Redes sociais, disciplina e&nbsp;manipula\u00e7\u00e3o&#8221; &#8212; Blog da Boitempo\" src=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2025\/05\/30\/redes-sociais-disciplina-e-manipulacao\/embed\/#?secret=rt9jreZrY1#?secret=aBtt1h505R\" data-secret=\"aBtt1h505R\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32881\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[65,66,10],"tags":[234],"class_list":["post-32881","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8yl","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32881","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32881"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32881\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32883,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32881\/revisions\/32883"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}