{"id":32899,"date":"2025-06-09T09:43:02","date_gmt":"2025-06-09T12:43:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=32899"},"modified":"2025-06-09T09:43:02","modified_gmt":"2025-06-09T12:43:02","slug":"contra-a-criminalizacao-da-arte-urbana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32899","title":{"rendered":"Contra a criminaliza\u00e7\u00e3o da arte urbana"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"32900\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32899\/unnamed-2-10\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/unnamed-2.jpg?fit=2048%2C2048&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"2048,2048\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed (2)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/unnamed-2.jpg?fit=747%2C747&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-medium wp-image-32900\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/unnamed-2.jpg?resize=300%2C300&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/unnamed-2.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/unnamed-2.jpg?resize=900%2C900&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/unnamed-2.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/unnamed-2.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/unnamed-2.jpg?resize=1536%2C1536&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/unnamed-2.jpg?w=2048&amp;ssl=1 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Laylon Morais e Gustavo (CNMO e PCB Curitiba); Marco Peri (Associa\u00e7\u00e3o Rea\u00e7\u00e3o Perif\u00e9rica e Os Mais Idoso); Gil Vandal (Nois por Nois); Mangaba (Conex\u00e3o Ocaida<\/p>\n<p>\u201cO graffiti na parede j\u00e1 defende algum direito\u201d, j\u00e1 dizia Heli\u00e3o com Sabotage \u2014 uma verdade que muitos se recusam a enxergar. E talvez poucos expressem esse desprezo t\u00e3o abertamente quanto Luciano Hang, o bilion\u00e1rio das lojas Havan. Na cruzada que vem travando contra o graffiti, primeiro em Brusque (SC) e agora tamb\u00e9m em Arauc\u00e1ria (PR), Hang exp\u00f5e em alto e bom som aquilo que muitos dos poderosos ainda cochicham: o medo da cidade viva, da arte que vem de baixo, da periferia que pinta seus pr\u00f3prios muros e n\u00e3o pede permiss\u00e3o para existir.<\/p>\n<p>Sem compreender toda a hist\u00f3ria e cultura que o graffiti carrega \u2014 enquanto um dos quatro elementos fundadores do movimento Hip-Hop \u2014 figuras p\u00fablicas e parlamentares buscam criminalizar mais uma vez a cultura perif\u00e9rica. E o fazem de forma grosseira. Luciano Hang, por exemplo, publicou v\u00eddeos atacando obras feitas com autoriza\u00e7\u00e3o \u2014 como o trabalho de Gil Vandal, Nois por Nois e do \u201cOs Mais Idosos\u201c, coletivo que traz no nome a refer\u00eancia aos pioneiros do graffiti em Arauc\u00e1ria e que ainda est\u00e3o na ativa, pintando e passando a cultura adiante \u2014 para sustentar seu projeto de criminaliza\u00e7\u00e3o da arte urbana. N\u00e3o por ignor\u00e2ncia apenas, mas por conveni\u00eancia. Afinal, como exigir que Hang e seus aliados, como o vereador Leandro (SOLIDARIEDADE) e seus assessores, saibam diferenciar graffiti de pixa\u00e7\u00e3o se o objetivo nunca foi compreender, mas sim reprimir?<\/p>\n<p>Esse tipo de repress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 novidade. Desde muito antes de Hang, a elite brasileira j\u00e1 tentava apagar aquilo que n\u00e3o controla. Jo\u00e3o D\u00f3ria, ainda prefeito de S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m promoveu o silenciamento est\u00e9tico da cidade ao apagar murais hist\u00f3ricos com sua famigerada \u201ctinta cinza da ordem\u201d. Hang apenas repete esse script \u2014 em vers\u00e3o mais caricata e histri\u00f4nica \u2014 pressionando vereadores, convocando reuni\u00f5es pol\u00edticas dentro de sua empresa e apresentando PowerPoints absurdos que associam graffiti a Che Guevara, beijos entre homens e pessoas negras, como se isso fosse o pren\u00fancio do apocalipse. Chega a afirmar, sem pudor, que uma lei de regulamenta\u00e7\u00e3o do graffiti abriria \u201cas portas do inferno\u201d.<\/p>\n<p>Mas o que realmente apavora Luciano Hang \u00e9 aquilo que ele n\u00e3o pode embrulhar e vender: o artista que grita com cor o que os jornais silenciam, o trabalhador que deixa sua marca na fachada do pr\u00e9dio que ergueu com o pr\u00f3prio suor, a juventude preta, perif\u00e9rica, dissidente, que n\u00e3o cabe na est\u00e9tica padronizada da vitrine de shopping.<\/p>\n<p>A pixa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma facada no concreto cinza da cidade, um grito de quem foi empurrado para as margens mas se recusa a ficar invis\u00edvel. Enquanto a elite enche os muros de an\u00fancios e pr\u00e9dios vazios, a pixa\u00e7\u00e3o corta o cen\u00e1rio como um lembrete: \u201ca cidade tamb\u00e9m \u00e9 nossa\u201d. N\u00e3o \u00e9 sobre \u201cembelezar\u201d, \u00e9 sobre ocupar \u2013 porque quando o acesso \u00e0 cultura e ao centro \u00e9 negado, a quebrada responde riscando o cart\u00e3o postal da hipocrisia. E a\u00ed vem a contradi\u00e7\u00e3o escancarada: a mesma m\u00e3o branca que paga milhares de reais por uma foto de pixa\u00e7\u00e3o (como a obra do artista negro Jo\u00e3o Fran\u00e7a do Coletivo MIA, vendida sem autoriza\u00e7\u00e3o e nem remunera\u00e7\u00e3o na 15\u00b0 SP-Arte) \u00e9 a que assina projetos de lei pra prender o pixador.<\/p>\n<p>A elite consome a est\u00e9tica da rebeldia como moda, mas persegue quem cria essa rebeldia na quebrada. Enquanto um pixador vira alvo da PM, a galeria gourmetiza a pixa\u00e7\u00e3o e lucra em cima \u2013 \u00e9 o apartheid cultural em a\u00e7\u00e3o: o negro pode at\u00e9 virar decora\u00e7\u00e3o de parede, mas n\u00e3o pode ter voz nem direito \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sobre tinta no muro \u2013 \u00e9 sobre quem tem o direito de ditar o que \u00e9 \u201carte\u201d ou \u201ccrime\u201d. A foto da pixa\u00e7\u00e3o vendida em uma galeria de arte enquanto o pr\u00f3prio artista segue na luta \u00e9 um dos exemplos que a burguesia adora a cultura negra desde que esteja emoldurada, descontextualizada e \u2013 principalmente \u2013 sem dividir os lucros. Querem a est\u00e9tica da periferia, mas n\u00e3o os corpos que a produzem.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o pixador que ousa marcar um pr\u00e9dio abandonado no centro vira caso de pol\u00edcia, porque a ordem \u00e9 clara: pobre pode at\u00e9 servir de inspira\u00e7\u00e3o pro caf\u00e9 com prosa de galeria, mas n\u00e3o pode se apropriar do espa\u00e7o que lhe foi negado. A pixa\u00e7\u00e3o \u00e9 luta de classes na parede e a elite s\u00f3 enxerga vandalismo porque n\u00e3o consegue ler a mensagem: \u201cenquanto a cidade for um apartheid, a tinta vai continuar escorrendo\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos falando apenas de tinta no muro, mas de uma disputa real por sentidos, territ\u00f3rios e poder. O graffiti \u00e9 um discurso visual que subverte a est\u00e9tica da ordem e a substitui por uma \u00e9tica da visibilidade, da inconformidade e da resist\u00eancia. Ele desafia a suposta neutralidade dos espa\u00e7os urbanos, denuncia desigualdades e transforma muros em trincheiras simb\u00f3licas. \u00c9, antes de tudo, uma forma de presen\u00e7a. Uma pr\u00e1tica que torna vis\u00edvel o que o projeto de cidade dominante deseja esconder.<\/p>\n<p>Diante disso, quando Luciano Hang tenta apagar murais consentidos ou legislar sobre o que \u00e9 arte e o que \u00e9 crime, ele n\u00e3o age apenas como empres\u00e1rio, mas como um censor moral, tentando impor sua vis\u00e3o de mundo sobre a pluralidade urbana. E o faz mesmo estando envolvido em acusa\u00e7\u00f5es de sonega\u00e7\u00e3o fiscal, fraude, abuso de poder econ\u00f4mico, ass\u00e9dio a trabalhadores e uso ilegal de recursos empresariais em campanhas eleitorais. O \u201cV\u00e9io da Havan\u201d, envolvido em tantas pr\u00e1ticas conden\u00e1veis, quer se tornar refer\u00eancia para criminalizar manifesta\u00e7\u00f5es culturais leg\u00edtimas? A incoer\u00eancia grita mais alto do que qualquer tinta.<\/p>\n<p>Essa repress\u00e3o \u00e0 arte perif\u00e9rica revela, com nitidez, o velho funcionamento do Estado burgu\u00eas: leis que se moldam conforme os interesses dos donos do poder. Pau que bate em grafiteiro n\u00e3o bate em sonegador. O enfrentamento a essa l\u00f3gica n\u00e3o pode ser passivo. Precisa ser coletivo, ofensivo, criativo e urgente. E \u00e9 por isso que a resposta da cultura precisa vir das ruas, das pra\u00e7as, dos becos, das quebradas \u2014 dos lugares onde mais se reprime e menos se investe.<\/p>\n<p>Convidamos voc\u00ea, leitor, a conhecer, apoiar e divulgar as oficinas de graffiti, de \u00e1udio e v\u00eddeo, de MCs, de artes marciais e de cultura Hip-Hop que florescem na periferia com o suor e a esperan\u00e7a de quem luta por outro futuro. J\u00e1 pensou que mundo diferente viver\u00edamos se, ao inv\u00e9s de repassar bilh\u00f5es em isen\u00e7\u00f5es fiscais para redes como a Havan, cada prefeitura investisse R$10 mil por oficina cultural e R$1.000 por jovem participante? Esse investimento, t\u00e3o simples quanto justo, teria o potencial de transformar a juventude marginalizada em protagonista cultural, social e pol\u00edtica da cidade.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o graffiti resiste. Porque ele pinta o que o poder quer apagar. Porque ele escreve o nome de quem nunca teve lugar no letreiro da cidade. E se apagarem de novo, como disse o grafiteiro, \u201ceu fa\u00e7o de novo\u201d. A cidade n\u00e3o \u00e9 showroom de bilion\u00e1rio \u2014 ela \u00e9 feita de corpo, cor, suor e voz. E enquanto houver um muro e uma lata de spray, haver\u00e1 quem pinte a cidade que a elite insiste em silenciar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/32899\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[124,13,50,382],"tags":[226],"class_list":["post-32899","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c137-coletivo-minervino-de-oliveira","category-s14-cultura","category-c61-cultura-revolucionaria","category-negro","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8yD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32899","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32899"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32899\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32901,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32899\/revisions\/32901"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32899"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32899"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32899"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}