{"id":3295,"date":"2012-08-07T13:32:16","date_gmt":"2012-08-07T13:32:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3295"},"modified":"2012-08-07T13:32:16","modified_gmt":"2012-08-07T13:32:16","slug":"a-estrategia-do-nenufar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3295","title":{"rendered":"A ESTRAT\u00c9GIA DO NEN\u00daFAR"},"content":{"rendered":"\n<p>A primeira coisa que vi no m\u00eas passado quando entrei no avi\u00e3o de carga C-17 cinza escuro da For\u00e7a A\u00e9rea foi um vazio, como se algo faltasse. Faltava um bra\u00e7o esquerdo, para ser exato, cortado na altura do ombro, temporalmente arrancado. Carne gordurosa, p\u00e1lida, manchada de um vermelho brilhante nas bordas. Parecia carne cortada em peda\u00e7os. O rosto e o que sobrava do resto do homem estavam ocultos por mantas, um edredom com a bandeira dos EUA e, em torno, v\u00e1rios tubos e cintas, pequenos alambrados, bolsas de soro e monitores m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Esse homem e outros dois soldados gravemente feridos \u2013 um com dois tocos onde antes haviam pernas, o outro lhe faltava uma perna \u2013 estavam entubados, inconscientes e encostados em macas afixadas nas paredes do avi\u00e3o que acabava de aterrissar na Base A\u00e9rea Ramstein, da Alemanha. Uma tatuagem no bra\u00e7o restante do soldado dizia: \u201cA morte \u00e9 melhor do que a desonra\u201d.<\/p>\n<p>Perguntei a um membro da equipe m\u00e9dica da For\u00e7a A\u00e9rea se sempre recebia v\u00edtimas semelhantes a essas. Muitas, como neste voo, provenientes do Afeganist\u00e3o, me disse. \u201cMuitas do Chifre da \u00c1frica\u201d, agregou. \u201cNa realidade os meios de informa\u00e7\u00e3o oficiais falam muito pouco disso\u201d.<\/p>\n<p>De onde na \u00c1frica?, perguntei. Disse que n\u00e3o sabia exatamente, mas principalmente do Chifre, frequentemente com feridas graves. \u201cMuitos de Yibuti\u201d, agregou, referindo-se a Camp Lemonnier, a principal base militar dos EUA na \u00c1frica, mas tamb\u00e9m de \u201coutros lugares\u201d da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde as mortes de Black Hawk derrubado [t\u00edtulo na Espanha; na Am\u00e9rica Latina hisp\u00e2nica, La ca\u00edda del halc\u00f3n negro] na Som\u00e1lia h\u00e1 quase 20 anos, temos ouvido pouco, se \u00e9 que falam algo sobre as v\u00edtimas militares dos Estados Unidos na \u00c1frica (fora uma estranha informa\u00e7\u00e3o na semana passada sobre tr\u00eas comandos de opera\u00e7\u00f5es especiais mortos, junto com tr\u00eas mulheres identificadas por fontes militares dos EUA como \u201cprostitutas marroquinas\u201d, em um misterioso acidente automobil\u00edstico em Mali). A crescente quantidade de pacientes que chegam a Ramstein desde a \u00c1frica decorre daoculta\u00e7\u00e3o de uma significativa transforma\u00e7\u00e3o na estrat\u00e9gia militar dos EUA para o s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que essas v\u00edtimas sejam as primeiras da quantidade crescente de soldados feridos provenientes de lugares muito distantes do Afeganist\u00e3o e Iraque. Refletem o crescente uso de bases relativamente pequenas, como Camp Lemonnier, que os planificadores militares veem como um modelo para futuras bases dos EUA \u201cespalhadas\u201d, como explica um acad\u00eamico, \u201cpor regi\u00f5es nas quais os EUA n\u00e3o t\u00eam mantido anteriormente uma presen\u00e7a militar\u201d.<\/p>\n<p>Est\u00e3o ficando para tr\u00e1s os dias quando Ramstein era a base simb\u00f3lica dos EUA, um colosso do tamanho de uma cidade repleta de milhares de estadunidenses, com supermercados, Pizza Huts, e outras comodidades. Por\u00e9m, n\u00e3o pensem nem por um segundo que o Pent\u00e1gono esteja fazendo as malas, reduzindo sua miss\u00e3o global e voltando para casa. De fato, com base nos eventos dos \u00faltimos anos, \u00e9 poss\u00edvel que seja exatamente o contr\u00e1rio. Enquanto diminui a cole\u00e7\u00e3o de bases gigantes da era da Guerra Fria, a infraestrutura de bases ultramarinas explodiu em tamanho e alcance.<\/p>\n<p>Sem que a maioria dos estadunidenses saiba, a cria\u00e7\u00e3o de bases em todo o planeta est\u00e1 aumentando, gra\u00e7as a uma nova gera\u00e7\u00e3o de bases que os militares chamam \u201cnen\u00fafares\u201d (como quando uma r\u00e3 salta a partir de uma flor aqu\u00e1tica at\u00e9 sua presa). S\u00e3o pequenas instala\u00e7\u00f5es secretas e inacess\u00edveis, com uma quantidade restrita de soldados, comodidades limitadas e armamento e provis\u00f5es previamente asseguradas.<\/p>\n<p>Em todo o mundo, de Yibuti \u00e0s selvas de Honduras, dos desertos da Maurit\u00e2nia \u00e0s pequenas Ilhas Cocos da Austr\u00e1lia, o Pent\u00e1gono tem buscado tantos nen\u00fafares quanto pode, em tantos pa\u00edses quantopode, o m\u00e1s r\u00e1pido poss\u00edvel. Ainda que custe fazer estat\u00edsticas em vista da natureza frequentemente secreta dessas bases, \u00e9 prov\u00e1vel que o Pent\u00e1gono tenha constru\u00eddo mais de 50 nen\u00fafares e outras pequenas bases desde o ano 2000, enquanto explora a constru\u00e7\u00e3o de dezenas mais.<\/p>\n<p>Como explica Mark Gillem, autor de America Town: Building the Outposts of Empire, o novo objetivo \u00e9 \u201cevitar\u201d as popula\u00e7\u00f5es locais, a publicidade e a poss\u00edvel oposi\u00e7\u00e3o. \u201cPara projetar seu poder\u201d, diz, os EUA querem \u201cpostos avan\u00e7ados isolados e independentes, estrategicamente\u201d localizados em todo o mundo. Segundo alguns dos mais fortes defensores da estrat\u00e9gia no Instituto da Empresa Estadunidense???, o objetivo deve ser \u201ccriar uma rede mundial de bases fronteiri\u00e7as\u201d, com os militares estadunidenses, \u201ca \u2018cavalaria global\u2019 do S\u00e9culo XXI\u201d.<\/p>\n<p>Semelhantes bases nen\u00fafares se converteram em uma parte cr\u00edtica de uma estrat\u00e9gia militar em desenvolvimento de Washington, que aponta para a manuten\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o global dos EUA, fazendo muito mais com menos em um mundo cada vez mais competitivo, cada vez mais multipolar. \u00c9 bastante not\u00e1vel, sem d\u00favidas, que essa pol\u00edtica de ajuste das bases globais n\u00e3o tenha recebido quase nenhuma aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica, nem uma supervis\u00e3o significativa do Congresso. Enquanto isso, como demonstra a chegada das primeiras v\u00edtimas da \u00c1frica, os militares dos EUA est\u00e3o se envolvendo em novas \u00e1reas do mundo e em novos conflitos, com consequ\u00eancias potencialmente desastrosas.<\/p>\n<p>Transforma\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio de bases<\/p>\n<p>Poder\u00edamos pensar que os militares dos EUA se encontram em um processo de redu\u00e7\u00e3o, em lugar de expans\u00e3o, da sua pouco percebida, mas enorme cole\u00e7\u00e3o de bases no exterior. Depois de tudo, foram obrigados a fechar toda a cole\u00e7\u00e3o de 505 bases, de megas a micros, que constru\u00edram no Iraque, e agora est\u00e3o iniciando o processo de redu\u00e7\u00e3o de suas for\u00e7as no Afeganist\u00e3o. Na Europa, oPent\u00e1gono segue fechando a grande quantidade de bases que tem na Alemanha e retirar\u00e3o imediatamente duas brigadas de combate desse pa\u00eds. Planeja-se que a quantidade de tropas globais sejareduzida a aproximadamente 100 mil soldados.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, os EUA continuam mantendo sua maior cole\u00e7\u00e3o de bases de toda a hist\u00f3ria: mais de mil instala\u00e7\u00f5es militares fora dos 50 Estados e de Washington-DC. Inclusive desde bases com d\u00e9cadas de exist\u00eancia na Alemanha e no Jap\u00e3o a bases totalmente novas de drones na Eti\u00f3pia e nas ilhas Seychelles, no Oceano \u00cdndico, e inclusive balne\u00e1rios para veraneios militares na It\u00e1lia e naCor\u00e9ia do Sul.<\/p>\n<p>No Afeganist\u00e3o, a for\u00e7a internacional dirigida pelos EUA ocupa mais de 450 bases. No total, os militares dos EUA mant\u00eam alguma forma de presen\u00e7a de suas tropas em aproximadamente 150 pa\u00edses estrangeiros, para n\u00e3o mencionar 11 for\u00e7as tarefas de porta-avi\u00f5es \u2013 essencialmente bases flutuantes \u2013 e uma presen\u00e7a militar significativa, e crescente, no espa\u00e7o. Os EUA gastam atualmente cerca de 250 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano para manter suas bases e tropas no exterior.<\/p>\n<p>Algumas bases, como a da Ba\u00eda de Guant\u00e1namo, em Cuba, datam de finais do s\u00e9culo XIX. A maioria foi constru\u00edda ou foi ocupada durante a Segunda Guerra Mundial, ou logo depois, em todos os continentes, inclusive na Ant\u00e1rtica. Ainda que os militares dos EUA desocupassem cerca de 60% de suas bases no exterior depois do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a base de infraestrutura da Guerra Fria permaneceu relativamente intacta, com 60 mil soldados estadunidenses que permaneceram apenas na Alemanha, apesar da aus\u00eancia de uma superpot\u00eancia inimiga.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, nos primeiros meses de 2001, inclusive antes dos ataques de 11 de setembro, o governo Bush lan\u00e7ou uma importante reestrutura\u00e7\u00e3o das bases e tropas, que continua agora com o \u201cgiro para a \u00c1sia\u201d de Obama. O plano original de Bush era fechar mais de um ter\u00e7o das bases da na\u00e7\u00e3o no exterior e transladar tropas at\u00e9 o leste e o sul, mais perto das zonas de conflito previstas no Oriente M\u00e9dio, \u00c1sia, \u00c1frica, e Am\u00e9rica Latina. O Pent\u00e1gono come\u00e7ou a concentrar-se na cria\u00e7\u00e3o de \u201cbases operativas avan\u00e7adas\u201d menores e flex\u00edveis, inclusive \u201clugares de coopera\u00e7\u00e3o\u201d ainda menores, ou seja, \u201cnen\u00fafares\u201d. As grandes concentra\u00e7\u00f5es de tropas se restringiriam a uma quantidade reduzida de \u201cbases operativas principais\u201d (MOBs, sigla em ingl\u00eas), \u2013 como Ramstein e Guam, no Pac\u00edfico, e Diego Garc\u00eda, no Oceano \u00cdndico \u2013, que deveriam ser expandidas.<\/p>\n<p>Apesar da ret\u00f3rica de consolida\u00e7\u00e3o e fechamento que acompanhou esse plano, na era posterior ao 11-S, na realidade, o Pent\u00e1gono est\u00e1 expandindo drasticamente sua infraestrutura b\u00e1sica, incluindo dezenas de importantes bases em cada pa\u00eds do Golfo P\u00e9rsico, com exce\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3, e em v\u00e1rios pa\u00edses centro-asi\u00e1ticos cr\u00edticos para a guerra no Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>Reinicia-se a expans\u00e3o das bases<\/p>\n<p>O \u201cgiro para a \u00c1sia\u201d, anunciado recentemente por Obama, assinala que a \u00c1sia oriental estar\u00e1 no centro da explos\u00e3o das bases nen\u00fafares e em eventos relacionados. Na Austr\u00e1lia, est\u00e3o posicionandofuzileiros navais dos EUA em uma base compartilhada em Darwin. Em outros lugares, o Pent\u00e1gono se dedica a planos para uma base de drones e vigil\u00e2ncia nas ilhas Cocos, da Austr\u00e1lia, com desdobramentos em Brisbane e Perth. Na Tail\u00e2ndia, o Pent\u00e1gono negociou direitos de novas visitas da Marinha e um \u201ccentro de ajuda para desastres\u201d em U-Tapao.<\/p>\n<p>Nas Filipinas, de onde o governo expulsou os EUA da grande Base A\u00e9rea Clark e da Base Naval Subic Bay em princ\u00edpios dos anos de 1990, at\u00e9 600 soldados das for\u00e7as especiais est\u00e3o operando silenciosamente no sul do pa\u00eds desde janeiro de 2002. No m\u00eas passado, os dois governos chegaram a um acordo sobre o uso futuro por parte dos EUA de Clark e Subic, assim como de outros centros de repara\u00e7\u00e3o de suprimentos da era da Guerra do Vietn\u00e3. Como sinal de mudan\u00e7a dos tempos, os funcion\u00e1rios estadunidenses inclusive assinaram em 2011 um acordo de defesa com seu antigo inimigo, o Vietn\u00e3, e iniciaram negocia\u00e7\u00f5es para o crescente uso de portos vietnamitas pela Marinha.<\/p>\n<p>Em outros lugares da \u00c1sia, o Pent\u00e1gono reconstruiu uma pista de aterrissagem na pequena ilha Titian, perto de Guam, e considera futuras bases na Indon\u00e9sia, Mal\u00e1sia e Brunei, enquanto impulsiona v\u00ednculos militares mais estreitos com a \u00cdndia. Suas for\u00e7as armadas realizam a cada ano 170 exerc\u00edcios militares e 250 visitas a portos na regi\u00e3o. Na ilha Jeju, da Cor\u00e9ia do Sul, os militares coreanos constroem uma base que formar\u00e1 parte do sistema de defesa de m\u00edsseis dos EUA, \u00e0 qual as for\u00e7as estadunidenses ter\u00e3o acesso regularmente.<\/p>\n<p>\u201cSimplesmente n\u00e3o podemos estar em um s\u00f3 lugar para fazer tudo que necessitamos\u201d, disse o comandante do Comando Pac\u00edfico, o almirante Samuel Locklear III. Para os planejadores militares, \u201cfazer tudo que necessitamos\u201d se define claramente como o isolamento e (na terminologia da Guerra Fria) \u201cconten\u00e7\u00e3o\u201d da China, a nova pot\u00eancia da regi\u00e3o. Isso significa evidentemente disseminar novas bases por toda a regi\u00e3o, agregando-as \u00e0s mais de 200 bases estadunidenses, que t\u00eam cercado a China por d\u00e9cadas, no Jap\u00e3o, Cor\u00e9ia do Sul, Guam e Hava\u00ed.<\/p>\n<p>E a \u00c1sia \u00e9 apenas o come\u00e7o. Na \u00c1frica, o Pent\u00e1gono criou silenciosamente \u201ccerca de uma dezena de bases a\u00e9reas\u201d para drones e vigil\u00e2ncia desde 2007. Fora o Camp Lemonnier, sabemos que os militares criaram ou criar\u00e3o imediatamente instala\u00e7\u00f5es em Burkina Faso, Burundi, na Rep\u00fablica Centro-africana, na Eti\u00f3pia, Qu\u00eania, Maurit\u00e2nia, S\u00e3o Tom\u00e9 y Pr\u00edncipe, Senegal, Seychelles, Sud\u00e3o do Sul e Uganda. O Pent\u00e1gono tamb\u00e9m estuda a constru\u00e7\u00e3o de bases na Arg\u00e9lia, Gab\u00e3o, Gana, Mali e Nig\u00e9ria, entre outros lugares.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo ano, uma for\u00e7a do tamanho de uma brigada de 3 mil soldados, e \u201cpossivelmente mais\u201d, chegar\u00e1 para realizar exerc\u00edcios e miss\u00f5es de treinamento em todo o continente. No Golfo P\u00e9rsico, a Marinha est\u00e1 desenvolvendo uma \u201cbase avan\u00e7ada flutuante\u201d, ou \u201cnavio-m\u00e3e\u201d, para que sirva de \u201cnen\u00fafar\u201d flutuante para helic\u00f3pteros e barcos patrulheiros, e est\u00e1 envolvida em um grande aumento das for\u00e7as na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, depois da expuls\u00e3o dos militares do Panam\u00e1, em 1999, e do Equador, em 2009, o Pent\u00e1gono criou ou atualizou novas bases em Aruba y Cura\u00e7ao, Chile, Col\u00f4mbia, El Salvador e Peru. Em outros lugares, o Pent\u00e1gono financia a cria\u00e7\u00e3o de bases militares e policiais capazes de abrigar for\u00e7as estadunidenses em Belize, Guatemala, Honduras, Nicar\u00e1gua, Panam\u00e1, Costa Rica e,inclusive, no Equador. Em 2008, a Marinha reativou sua Quarta Frota, inativa desde 1950, para patrulhar a regi\u00e3o. Os militares podem desejar uma base no Brasil e buscaram infrutiferamente criar bases, supostamente para ajuda humanit\u00e1ria e de emerg\u00eancia, no Paraguai e na Argentina.<\/p>\n<p>Finalmente, na Europa, depois de chegar aos B\u00e1lc\u00e3s durante as interven\u00e7\u00f5es dos anos de 1990, as bases estadunidenses se deslocaram para alguns Estados do bloco oriental da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. O Pent\u00e1gono desenvolve atualmente instala\u00e7\u00f5es capazes de apoiar deslocamentos rotativos, do tamanho de brigadas, na Rom\u00eania e Bulg\u00e1ria, e uma base de defesa de m\u00edsseis e instala\u00e7\u00f5es a\u00e9reas na Pol\u00f4nia. Previamente, o governo de Bush manteve duas instala\u00e7\u00f5es ocultas (pris\u00f5es secretas) da CIA na Litu\u00e2nia e na Pol\u00f4nia. Cidad\u00e3os da Rep\u00fablica Checa recha\u00e7aram uma base de radar planejada para o sistema de defesa de m\u00edsseis do Pent\u00e1gono, que ainda n\u00e3o foi aprovada, e agora a Rom\u00eania receber\u00e1 m\u00edsseis baseados em terra.<\/p>\n<p>Um novo modo de guerra dos EUA<\/p>\n<p>Um nen\u00fafar em uma das ilhas no Golfo de Guin\u00e9, de S\u00e3o Tom\u00e9 y Pr\u00edncipe, frente \u00e0 costa ocidental, rica em petr\u00f3leo, da \u00c1frica, ajuda a explicar o que est\u00e1 sucedendo. Um funcion\u00e1rio estadunidense descreveu a base como \u201coutra Diego Garcia\u201d referindo-se a base do Oceano \u00cdndico que ajuda a assegurar por d\u00e9cadas a domina\u00e7\u00e3o dos EUA sobre os insumos de energia do Oriente M\u00e9dio. Sem a liberdade de criar novas grandes bases na \u00c1frica, o Pent\u00e1gono est\u00e1 utilizando S\u00e3o Tom\u00e9 e una crescente cole\u00e7\u00e3o de outros nen\u00fafares no continente com a inten\u00e7\u00e3o de controlar outra regi\u00e3o crucial rica em petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Muito al\u00e9m da \u00c1frica Ocidental, a competi\u00e7\u00e3o do \u201cGrande Jogo\u201d do s\u00e9culo XIX pela \u00c1sia Central voltou com for\u00e7a, e desta vez de modo global. Estende-se a terras ricas em mat\u00e9rias-primas da \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica do Sul, enquanto os EUA, China, R\u00fassia e membros da Uni\u00e3o Europeia se enfrentam em uma competi\u00e7\u00e3o cada vez mais intensa pela supremacia econ\u00f4mica e geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Enquanto Pequim, em particular, tem participado dessa competi\u00e7\u00e3o de uma maneira sobretudo econ\u00f4mica, marcando o globo com investimentos estrat\u00e9gicos, Washington est\u00e1 se concentrado implacavelmente na for\u00e7a militar como seu trunfo global, marcando o planeta com novas bases e outras formas de poder militar. \u201cEsquecemos os investimentos em grande escala e as amplas ocupa\u00e7\u00f5es no continente euro-asi\u00e1tico\u201d, escreveu Nick Turse sobre essa nova estrat\u00e9gia militar do S\u00e9culo XXI. \u201cEm vez disso, pensa-se em for\u00e7as de opera\u00e7\u00f5es especiais\u2026 ex\u00e9rcitos &#8220;testa de ferro&#8221;\u2026 militariza\u00e7\u00e3o da espionagem e da intelig\u00eancia\u2026 avi\u00f5es drones sem tripula\u00e7\u00e3o\u2026 ataques cibern\u00e9ticos e opera\u00e7\u00f5es conjuntas do Pent\u00e1gono com ag\u00eancias governamentais \u2018civis\u2019 cada vez mais militarizadas\u201d.<\/p>\n<p>A essa incompar\u00e1vel pot\u00eancia a\u00e9rea e naval de longo alcance h\u00e1 que agregar as vendas de armas que superam qualquer na\u00e7\u00e3o da Terra; miss\u00f5es humanit\u00e1rias e de ajuda em desastres que servem claramente a fins de intelig\u00eancia militar, a patrulhas e a fun\u00e7\u00f5es de \u201ccora\u00e7\u00f5es e mentes\u201d; o deslocamento rotativo de for\u00e7as regulares dos EUA em todo o globo; visitas a portos e o desdobramento expansivo de exerc\u00edcios militares conjuntos e miss\u00f5es de treinamento que d\u00e3o aos militares dos EUA uma \u201cpresen\u00e7a\u201d de fato em todo o mundo e que ajudam a converter os militares estrangeiros em for\u00e7as &#8220;testa de ferro&#8221;.<\/p>\n<p>E cada vez mais bases nen\u00fafares.<\/p>\n<p>Os planajadores militares preveem um futuro de intermin\u00e1veis interven\u00e7\u00f5es em pequena escala nas quais uma grande cole\u00e7\u00e3o de bases, geograficamente dispersas, sempre estar\u00e3o preparadas para um aceso operativo instant\u00e2neo. Com bases na maior quantidade de lugares poss\u00edveis, os planejadores militares querem estar em condi\u00e7\u00f5es de se voltarem para outro pa\u00eds convenientemente pr\u00f3ximo, caso os EUA n\u00e3o possam utilizar uma certa base, como foi o caso na Turquia antes da invas\u00e3o do Iraque. Em outras palavras, os funcion\u00e1rios do Pent\u00e1gono sonham com uma flexibilidade quase ilimitada, a capacidade de reagir com not\u00e1vel rapidez diante de eventos em qualquer parte do mundo, e que, portanto, conceda os EUA o controle militar total do planeta.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da utilidade militar, as bases nen\u00fafares e outras formas de proje\u00e7\u00e3o do poder s\u00e3o tamb\u00e9m instrumentos pol\u00edticos e econ\u00f4micos utilizados para construir e manter alian\u00e7as e assegurar um aceso privilegiado dos EUA a mercados, recursos e oportunidades de investimentos nos pa\u00edses estrangeiros. Washington planeja utilizar bases nen\u00fafares e outros projetos militares para sujeitar pa\u00edses na Europa Oriental, \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina o mais estreitamente poss\u00edvel aos militares dos EUA, e assim a cont\u00ednua hegemonia pol\u00edtica e econ\u00f4mica dos EUA. Em conclus\u00e3o, os funcion\u00e1rios estadunidenses esperam que o poderio militar estabele\u00e7a sua influ\u00eancia e mantenha a maior quantidade poss\u00edvel de pa\u00edses dentro da \u00f3rbita estadunidense em uma \u00e9poca em que alguns est\u00e3o afirmando sua independ\u00eancia, ainda com mais for\u00e7a, e gravitam at\u00e9 a China e outras pot\u00eancias ascendentes.<\/p>\n<p>Esses perigosos nen\u00fafares<\/p>\n<p>Ainda que a depend\u00eancia de pequenas bases possa soar mais inteligente e mais econ\u00f4mica que manter imensas bases que sempre criaram problemas em lugares como Okinawa e Cor\u00e9ia do Sul, os nen\u00fafares amea\u00e7am a seguran\u00e7a global e dos EUA de v\u00e1rias maneiras.<\/p>\n<p>Primeiro, o termo \u201cnen\u00fafar\u201d pode ser enganoso e intencionalmente, ou de outra forma, essas instala\u00e7\u00f5es podem crescer rapidamente at\u00e9 se converterem em imensas bestas.<\/p>\n<p>Segundo, apesar da ret\u00f3rica sobre a extens\u00e3o da democracia que persiste em Washington, a constru\u00e7\u00e3o de mais nen\u00fafares garante na realidade a colabora\u00e7\u00e3o com um n\u00famero crescente de regimes desp\u00f3ticos, corruptos e assassinos.<\/p>\n<p>Terceiro, existe um modelo bem documentado do dano que as instala\u00e7\u00f5es militares de diversos tamanhos infligem \u00e0s comunidades. Ainda que os nen\u00fafares pare\u00e7am prometer isolamento de uma oposi\u00e7\u00e3o local, com o tempo acontece frequentemente que inclusive as pequenas bases causam o rep\u00fadio dos movimentos de protesto.<\/p>\n<p>Finalmente, uma prolifera\u00e7\u00e3o de nen\u00fafares significa a militariza\u00e7\u00e3o progressiva de grandes \u00e1reas do globo. Como os verdadeiros nen\u00fafares \u2013 que na realidade s\u00e3o parasitas aqu\u00e1ticas \u2013, as bases tendem a crescer e a se reproduzir incontrolavelmente. Por certo, as bases tendem a engendrar outras bases, criando \u201cra\u00e7as de bases\u201d com outras na\u00e7\u00f5es, aumentando as tens\u00f5es militares e desestimulando as solu\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas de conflitos. Depois de tudo isso, como reagiriam os EUA se a China, R\u00fassia, ou Ir\u00e3 constru\u00edsse ainda que fosse uma s\u00f3 base nen\u00fafar pr\u00f3pria no M\u00e9xico ou no Caribe?<\/p>\n<p>Para a China e a R\u00fassia em particular, mais bases estadunidenses pr\u00f3ximas de suas fronteiras amea\u00e7am provocar novas guerras frias. Mais inquietante ainda, a cria\u00e7\u00e3o de novas bases para se proteger contra uma suposta futura amea\u00e7a militar chinesa pode chegar a se converter em uma profecia que se autorrealize: semelhantes bases na \u00c1sia criar\u00e3o provavelmente a amea\u00e7a contra a qual supostamente se devem proteger, fazendo com que uma catastr\u00f3fica guerra contra a China seja mais prov\u00e1vel \u2013 n\u00e3o menos.<\/p>\n<p>\u00c9 alentador, no entanto, que as bases no estrangeiro tenham come\u00e7ado a gerar uma investiga\u00e7\u00e3o cr\u00edtica atrav\u00e9s do espectro pol\u00edtico, desde a senadora republicana Kay Bailey Hutchison e o candidato presidencial republicano Ron Paul, ao senador democrata Jon Tester e o colunista do New York Times, Nicholas Kristof. Enquanto todos buscam meios para reduzir o deficit, o fechamento de bases no estrangeiro possibilita economias f\u00e1ceis. Por certo, cada vez mais personagens influentes reconhecem que o pa\u00eds simplesmente n\u00e3o se pode permitir mais de mil bases no exterior.<\/p>\n<p>A Gr\u00e3-Bretanha, como outros imp\u00e9rios anteriores, teve que fechar a maior parte de suas bases restantes no exterior em meio de uma crise econ\u00f4mica nos anos de 1960-1970. Os EUA se mover\u00e3oindubitavelmente nessa dire\u00e7\u00e3o cedo ou tarde. A \u00fanica pergunta \u00e9 se o pa\u00eds renunciar\u00e1 a suas bases e reduzir\u00e1 sua miss\u00e3o global voluntariamente ou se seguir\u00e1 o caminho da Gr\u00e3-Bretanha como pot\u00eancia em decad\u00eancia obrigada a renunciar a suas bases desde uma posi\u00e7\u00e3o de debilidade.<\/p>\n<p>Por certo, as consequ\u00eancias de n\u00e3o eleger outro caminho v\u00e1 mais al\u00e9m dos motivos econ\u00f4micos. Se continuar a prolifera\u00e7\u00e3o dos nen\u00fafares, das for\u00e7as de opera\u00e7\u00f5es especiais e a guerras de drones, \u00e9 prov\u00e1vel que os EUA enfrente novos conflitos e novas guerras, gerando formas desconhecidas de rea\u00e7\u00e3o e ineg\u00e1vel morte e destrui\u00e7\u00e3o. Nesse caso, mais vale que nos preparemos para a chegada de muitos mais voos \u2013 desde o Chifre da \u00c1frica at\u00e9 Honduras \u2013 n\u00e3o transportando apenas amputados, mas caix\u00f5es.<\/p>\n<p>David Vine \u00e9 professor-assistente de Antropologia na American University em Washington DC. \u00c9 autor de Island of Shame: The Secret History of the U.S. Military Base on Diego Garcia(Princeton University Press, 2009). Escreveu para o New York Times, Washington Post, The Guardian, e Mother Jones, entre outros. Atualmente termina um livro sobre as mais de milbases militares estadunidenses localizadas fora dos EUA.<\/p>\n<p>Fonte (em ingl\u00eas): <a href=\"http:\/\/www.tomdispatch.com\/post\/175568\/tomgram%3A_david_vine%2C_u.s._empire_of_bases_grows\/#more\" target=\"_blank\">http:\/\/www.tomdispatch.com\/post\/175568\/tomgram%3A_david_vine%2C_u.s._empire_of_bases_grows\/#more<\/a><\/p>\n<p>Fonte em espanhol: <a href=\"http:\/\/www.rebelion.org\/noticias\/ee.uu.\/2012\/7\/la-estrategia-del-nenufar-153172\" target=\"_blank\">http:\/\/www.rebelion.org\/noticias\/ee.uu.\/2012\/7\/la-estrategia-del-nenufar-153172<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: PCB \u2013 PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 3.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nDavid Vine\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3295\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3295","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-R9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3295","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3295"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3295\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}