{"id":3298,"date":"2012-08-07T13:47:31","date_gmt":"2012-08-07T13:47:31","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3298"},"modified":"2012-08-07T13:47:31","modified_gmt":"2012-08-07T13:47:31","slug":"a-terceira-onda-da-crise-o-capitalismo-no-olho-do-furacao-desarticulacao-monetario-financeira-depressao-prolongada-e-lutas-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3298","title":{"rendered":"A terceira onda da crise: o capitalismo no olho do furac\u00e3o &#8211; desarticula\u00e7\u00e3o monet\u00e1rio-financeira, depress\u00e3o prolongada e lutas sociais"},"content":{"rendered":"\n<p>A crise sist\u00eamica global encaminha-se para um novo patamar de ebuli\u00e7\u00e3o, com impactos muitos mais explosivos do que em 2008, quando quebrou o Lehmon Brothers. Podemos dizer que aquele epis\u00f3dio, apesar das conseq\u00fc\u00eancias devastadoras para a economia mundial e, especialmente, para os Estados Unidos, deve ser considerado apenas como o in\u00edcio da crise sist\u00eamica global. As contradi\u00e7\u00f5es violentas que se acumularam no interior do sistema capitalista desde a d\u00e9cada de 70 e se aprofundaram com as pol\u00edticas monetaristas nas d\u00e9cadas de 80 e 90, ainda n\u00e3o se manifestaram em toda a sua plenitude. Estamos nos aproximando de mudan\u00e7as quantitativas e qualitativas no interior da ordem internacional capitalista, tais como a desarticula\u00e7\u00e3o do sistema monet\u00e1rio-financeiro que emergiu ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, a depress\u00e3o prolongada na grande maioria dos pa\u00edses capitalistas centrais, especialmente na economia-l\u00edder, e a retomada das lutas sociais em dimens\u00e3o global.<\/p>\n<p>O per\u00edodo que se abre agora vai entrecruzar um conjunto de fen\u00f4menos explosivos que tornar\u00e3o o in\u00edcio da crise apenas como a primeira ventania antes da grande tempestade.\u00a0 Passado o per\u00edodo de tensa calmaria ocorrido em fun\u00e7\u00e3o das inje\u00e7\u00f5es trilion\u00e1rias de d\u00f3lares pelos governos dos pa\u00edses centrais, principalmente os EUA, ocasi\u00e3o em que os meios de comunica\u00e7\u00e3o procuraram criar um clima manipulat\u00f3rio de normalidade e retomada do crescimento, a hora da verdade est\u00e1 chegando para todos os gestores pol\u00edticos do grande capital, todos eles ainda presos aos valores de um mundo que come\u00e7ou a ruir em 2008 e, por isso mesmo, n\u00e3o conseguem compreender a profundidade da crise, nem tomar as medidas necess\u00e1rias para enfrent\u00e1-la. Continuam a utilizar os mesmos m\u00e9todos do passado para fen\u00f4menos inteiramente novos do mundo do presente.<\/p>\n<p>A recess\u00e3o na Europa e, especialmente, na zona do euro, j\u00e1 uma realidade, muito embora ainda seja mais forte nas regi\u00f5es da Europa do Sul, os elos d\u00e9beis do sistema imperialista europeu. Mesmo com todas as tentativas de regula\u00e7\u00e3o, inje\u00e7\u00f5es trilion\u00e1rias de recursos para salvar pa\u00edses e bancos, a economia europ\u00e9ia est\u00e1 mergulhada na recess\u00e3o, tanto porque os problemas que originaram a crise n\u00e3o foram resolvidos como porque as medidas de austeridade v\u00e3o aprofundar ainda mais o processo recessivo. Os ajustes que est\u00e3o sendo realizados em praticamente todos os pa\u00edses aumentam o desemprego e a queda da atividade econ\u00f4mica. O desemprego m\u00e9dio na regi\u00e3o est\u00e1 acima de dois d\u00edgitos, sendo que em v\u00e1rios pa\u00edses ultrapassa 20% e entre os jovens este \u00edndice ainda \u00e9 maior. Desemprego significa queda na renda e queda na renda tem como resultado redu\u00e7\u00e3o do consumo e, portanto, mais recess\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave, apesar da manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e das estat\u00edsticas n\u00e3o revelaram em plenitude a crise da economia-l\u00edder. Na verdade, os Estados Unidos condensam todos os problemas da crise capitalista: uma d\u00edvida p\u00fablica que j\u00e1 ultrapassa 100% do PIB, com impactos potenciais muito mais explosivos que a d\u00edvida europ\u00e9ia, pois a carga tribut\u00e1ria norte-americana corresponde a apenas 19% do PIB, enquanto na Europa ultrapassa uma m\u00e9dia de 30%.<\/p>\n<p>A crise fiscal se torna cada vez mais problem\u00e1tica, com v\u00e1rios Estados e munic\u00edpios em situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-falimentar, al\u00e9m do fato de que as pol\u00edticas de facilidades quantitativas (qualitative easing 1 e 2)est\u00e3o se tornando invi\u00e1veis politicamente, tanto do ponto de vista interno quanto internacionalmente. A crise do setor imobili\u00e1rio continua se agravando, com o pre\u00e7o das resid\u00eancias caindo \u00e0 medida em que a crise persiste. Existem ainda os cortes no or\u00e7amento que o governo est\u00e1 realizando para satisfazer as press\u00f5es dos republicanos.<\/p>\n<p>Essas medidas ainda n\u00e3o produziram resultados explosivos porque o FED tem conseguido at\u00e9 agora realizar um conjunto de a\u00e7\u00f5es que vem adiando a emerg\u00eancia explicita da crise (juros baix\u00edssimos, inje\u00e7\u00f5es de recursos no sistema financeiro, facilidades quantitativas, etc.), mas esse arsenal de medidas tem limites e n\u00e3o pode se sustentar indefinidamente, uma vez que produzir\u00e3o efeitos colaterais severos na economia. \u00c0 medida em que a campanha eleitoral se desenvolva, vai ficar mais clara a gravidade dos problemas. A esses problemas podem ser adicionados a quest\u00e3o do d\u00f3lar como moeda de reserva mundial e a d\u00edvida p\u00fablica que j\u00e1 ultrapassou 100% do PIB.<\/p>\n<p>Outro ponto importante a ser abordado nesta crise \u00e9 o surgimento das lutas sociais. Se na primeira onda da crise os trabalhadores praticamente se comportaram como\u00a0 espectadores, a partir da segunda onda, com a crise das d\u00edvidas soberanas e as medidas de ajustes do grande capital, as lutas sociais emergiram em praticamente todas as regi\u00f5es afetadas pela crise. Mesmo ainda embrion\u00e1rias, com elevado grau de espontane\u00edsmo, sem uma dire\u00e7\u00e3o com perspectiva de classe na maioria dos pa\u00edses, essas lutas est\u00e3o se intensificando, especialmente na Europa, onde o capital tem realizado os ajustes mais severos. Mesmo nos Estados Unidos, surgiram v\u00e1rios movimentos em resposta \u00e0 crise, em v\u00e1rios Estados, especialmente o Ocuppy Wall Stret, que tem grande potencial de desenvolvimento com o aprofundamento da crise.<\/p>\n<p>Esses fen\u00f4menos ainda n\u00e3o est\u00e3o plenamente percebidos em fun\u00e7\u00e3o de avassaladora manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica que o capital desenvolve cotidianamente para dar uma apar\u00eancia de normalidade \u00e0 conjuntura. Mas a crise \u00e9 dram\u00e1tica e, em algum momento pr\u00f3ximo, os elementos objetivos da crise ir\u00e3o se impor e ent\u00e3o as pessoas tomar\u00e3o conhecimento da extens\u00e3o do problema. Estamos nos aproximando daqueles momento em que o impens\u00e1vel acontece como se fosse fato do cotidiano.<\/p>\n<p>Crises c\u00edclicas e crises sist\u00eamicas<\/p>\n<p>H\u00e1 uma enorme confus\u00e3o e desconhecimento sobre a quest\u00e3o das crises e, especialmente, sobre as crises sist\u00eamicas. Por isso, \u00e9 importante realizarmos um esfor\u00e7o no sentido n\u00e3o s\u00f3 de precisar melhor esta quest\u00e3o como tamb\u00e9m tentar estabelecer um estatuto te\u00f3rico \u00e0s crises sist\u00eamicas, buscando avan\u00e7ar em rela\u00e7\u00e3o a alguns fundamentos n\u00e3o observados pelos cl\u00e1ssicos, de forma a precisar melhor a natureza do fen\u00f4meno, bem como suas implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais.<\/p>\n<p>As crises s\u00e3o fen\u00f4menos imanentes do sistema capitalista, oriundas da contradi\u00e7\u00e3o central entre o car\u00e1ter social da produ\u00e7\u00e3o e a apropria\u00e7\u00e3o privada de seus resultados e ocorrem com periodicidade regular desde os prim\u00f3rdios deste modo de produ\u00e7\u00e3o. As crises n\u00e3o t\u00eam origem monocausal conforme muitos marxistas costumam analisar esses fen\u00f4menos. Resultam das contradi\u00e7\u00f5es gerais do sistema: n\u00e3o tem origem no subconsumo, n\u00e3o \u00e9 crise de despropor\u00e7\u00e3o entre os diversos setores de produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 crise em fun\u00e7\u00e3o da queda da taxa de lucro, da especula\u00e7\u00e3o financeira ou qualquer outro fator isoladamente. A crise \u00e9 a fus\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es que se acumulam ao longo do ciclo, muito embora possam se expressar mais acentuadamente em uma ou outra vari\u00e1vel espec\u00edfica.<\/p>\n<p>Desde Adam Smith\u00a0 que se busca uma explica\u00e7\u00e3o para as crises c\u00edclicas do capitalismo, passando por Ricardo, Malthus, Rodsberto, Sismondi, Marshall. Posteriormente, com o desenvolvimento docapitalismo, outros autores desenvolveram novas abordagens da crise, como os ciclos ou ondas longas, de Parvus, Von Gerendem,\u00a0 Kondratiev, Schumpeter, entre outros. Eles buscaram de alguma forma, com as ferramentas de sua \u00e9poca, identificar e compreender os fen\u00f4menos das crises. Estado estacion\u00e1rio em Smith, renda decrescente da terra em Ricardo, subconsumo das massas em Malthus, Sismondi e Rodsberto, os ciclos longos de Parvus, Von Gerendem, Krondratiev, as destrui\u00e7\u00f5es criadoras em Schumpeter,\u00a0\u00a0 todos eles tentaram explicar a natureza e o desenvolvimento das crises capitalistas.<\/p>\n<p>No entanto, foi Marx quem definiu de maneira mais precisa os fundamentos te\u00f3ricos das crises capitalistas, ao deslocar a an\u00e1lise da \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o para a esfera da produ\u00e7\u00e3o e defini-la como s\u00ednteses de todas as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo.<\/p>\n<p>As crises sist\u00eamicas<\/p>\n<p>Para efeito desta an\u00e1lise, procuraremos diferenciar as crises c\u00edclicas das crises sist\u00eamicas, bem como tentar estabelecer um estatuto te\u00f3rico para as crises sist\u00eamicas.\u00a0 As crises c\u00edclicas se transformaram em fen\u00f4menos recorrentes do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e para enfrent\u00e1-las o capital j\u00e1 adquiriu vasta experi\u00eancia e desenvolveu ferramentas para atenuar seus efeitos mais perversos e ressurgir desse processo num patamar superior.\u00a0 J\u00e1 as crises sist\u00eamicas s\u00e3o bem mais complexas, com dura\u00e7\u00e3o mais longa e efeitos devastadores mais acentuados. Seus resultados provocam mudan\u00e7as profundas na vida econ\u00f4mica, na estrutura das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, na forma de domina\u00e7\u00e3o do capital, al\u00e9m de modifica\u00e7\u00f5es em toda a vida social. Portanto, necessitam de um estatuto te\u00f3rico \u00e0 altura dos fen\u00f4menos que provoca.<\/p>\n<p>Marx n\u00e3o viveu o suficiente para testemunhar as crises sist\u00eamicas e delas apreender os resultados te\u00f3ricos que expressou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crises em geral. Escreveu sobre sua \u00e9poca, a \u00e9poca do capitalismo concorrencial e das crises c\u00edclicas. N\u00e3o tinha obriga\u00e7\u00e3o de adivinhar o futuro, nem teorizar sobre aquilo que ainda n\u00e3o existia, n\u00e3o possu\u00eda vida material. Como ele pr\u00f3prio enfatiza: \u201c\u00c9 por isso que a humanidade s\u00f3 apresenta os problemas que \u00e9 capaz de resolver e, assim, numa observa\u00e7\u00e3o atenta, descobrir-se-\u00e1 que o pr\u00f3prio problema s\u00f3 surgiu quando as condi\u00e7\u00f5es materiais para resolv\u00ea-lo j\u00e1 existiam ou estavam, pelo menos, em vias de aparecer\u201d.[1]<\/p>\n<p>Mesmo escrevendo sobre as crises em geral, no Manifesto Comunista, Marx j\u00e1 revelava alguma pista sobre o desenrolar das crises no capitalismo, muito embora n\u00e3o tenha escrito especificamente sobre as crises sist\u00eamicas e, principalmente, sobre as crises do per\u00edodo da internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e das finan\u00e7as, fen\u00f4menos que se tornaram conhecidos popularmente como globaliza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cA sociedade burguesa moderna, que criou gigantescos meios de produ\u00e7\u00e3o e de troca, assemelha-se ao feiticeiro que j\u00e1 n\u00e3o pode controlar os poderes infernais que invocou. H\u00e1 dezenas de anos a hist\u00f3ria da ind\u00fastria e do com\u00e9rcio n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a hist\u00f3ria da revolta das for\u00e7as produtivas modernas contra as modernas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o &#8230; Basta mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, amea\u00e7am cada vez mais a sociedade burguesa e seu dom\u00ednio. Cada crise destr\u00f3i regularmente n\u00e3o s\u00f3 uma grande massa de produtos fabricados, mas tamb\u00e9m grande parte das pr\u00f3prias for\u00e7as produtivas j\u00e1 criadas &#8230; O sistema burgu\u00eas tornou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu meio &#8230; A que leva isso? Ao preparo de crises mais extensas e mais destruidoras e \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o dos meios para evit\u00e1-las\u201d.[2]<\/p>\n<p>Em outras palavras, Marx j\u00e1 intu\u00eda que, \u00e0 medida que o capitalismo fosse se desenvolvendo, o sistema chegaria ao ponto em que as crises seriam mais prolongadas, mais devastadoras e, especialmente, em fun\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria amplia\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio do capital no mundo, seus gestores passariam a ter uma margem menor de manobra para\u00a0 evit\u00e1-las ou administr\u00e1-las, dada a amplitude do processo de acumula\u00e7\u00e3o e \u00e0 jun\u00e7\u00e3o de contradi\u00e7\u00f5es cada vez mais novas e complexas neste modo de produ\u00e7\u00e3o. Possivelmente, se tivesse vivido ap\u00f3s 1873, \u00e9poca do in\u00edcio da primeira grande crise sist\u00eamica do capitalismo, teria identificado esse fen\u00f4meno e elaborado as conclus\u00f5es te\u00f3ricas necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Friedrich Engels, seu parceiro te\u00f3rico e de lutas, que viveu bastante tempo ap\u00f3s a morte, e organizou sua obra seminal, os volumes II e III do Capital, j\u00e1 vislumbrava que algo de novo estava acontecendo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crise capitalistas, conforme escreveu, em 1886, no pref\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o inglesa do Capital. \u201cEnquanto a for\u00e7a produtiva cresce em progress\u00e3o geom\u00e9trica, a expans\u00e3o dos mercados cresce, na melhor das hip\u00f3teses, em progress\u00e3o aritm\u00e9tica. O ciclo decenal de estagna\u00e7\u00e3o, prosperidade, superprodu\u00e7\u00e3o e crise, que se repetiu sempre, de 1827 a 1867, parece ter se esgotado. Mas s\u00f3 para deixarmos aterrissar\u00a0 no loda\u00e7al desesperador de uma depress\u00e3o cr\u00f4nica e duradoura\u201d.[3]<\/p>\n<p>Alguns anos mais tarde, em 1890, em nota de rodap\u00e9 do tomo II do Capital, Engels volta novamente a se referir \u00e0s novas manifesta\u00e7\u00f5es das crises, identificando alguns elementos constitutivos de uma crise diferente, muito embora ainda sem defin\u00ed-la plenamente, at\u00e9 mesmo porque a crise sist\u00eamica de 1873-1896 n\u00e3o estava totalmente completa nesse per\u00edodo. Apenas indaga se o sistema n\u00e3o estaria diante de um fen\u00f4meno mundial de \u201cveem\u00eancia inaudita\u201d:<\/p>\n<p>\u201cA forma aguda do processo peri\u00f3dico, com seu ciclo at\u00e9 ent\u00e3o de 10 anos, parece ter cedido lugar a uma altern\u00e2ncia mais cr\u00f4nica, mais prolongada, que se distribuiu entre diversos pa\u00edses em tempos diferentes, de melhoria relativamente curta e d\u00e9bil dos neg\u00f3cios e press\u00e3o relativamente longa e indecisa. Mas talvez trata-se apenas de uma expans\u00e3o de dura\u00e7\u00e3o do ciclo. Na inf\u00e2ncia do com\u00e9rcio mundial, de 1815 a 1847, pode-se comprovar ciclo de at\u00e9 cinco anos; de 1847 a 1867 os ciclos s\u00e3o decididamente de 10 anos; ser\u00e1 que nos encontramos no per\u00edodo preparat\u00f3rio de uma nova crise mundial de veem\u00eancia inaudita\u201d? [4]<\/p>\n<p>A partir dessas pistas, continuaremos nossa investiga\u00e7\u00e3o seguindo as pegadas dos fundadores do marxismo, que definiram as crises do capitalismo como colapso da totalidade, a totalidade do capitalismo de sua \u00e9poca, a \u00e9poca do capitalismo concorrencial. Cremos que, a partir de um posto de observa\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XXI, quando o capitalismo atingiu seu amadurecimento pleno, poderemos realizar uma primeira media\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a esta quest\u00e3o te\u00f3rica, sugerindo que as crises c\u00edclicas representam colapsos parciais da totalidade, enquanto as crises sist\u00eamicas podem ser consideradasrebeli\u00f5es generalizadas da totalidade contra a cis\u00e3o da unidade entre valor de uso e valor, mercadoria e dinheiro, produ\u00e7\u00e3o e consumo, for\u00e7as produtivas e rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o plenamente desenvolvidas em n\u00edvel mundial, provocadas pelas contradi\u00e7\u00f5es do sistema capitalista e que se expressam explosivamente em toda a vida social, provocando mudan\u00e7as quantitativas e qualitativas no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>O correto entendimento te\u00f3rico destas duas formas de manifesta\u00e7\u00e3o da crise do capital nos permite compreender melhor a din\u00e2mica hist\u00f3rica do capitalismo. Primeiro, as crises c\u00edclicas s\u00e3o fen\u00f4menos perturbadores do curso natural deste modo de produ\u00e7\u00e3o e j\u00e1 fazem parte do cotidiano hist\u00f3rico. Dada suas manifesta\u00e7\u00f5es rotineiras, os capitalistas adquiriram experi\u00eancia suficiente para manej\u00e1-las, atenuar suas dimens\u00f5es mais destrutivas e renascer das cinzas num patamar superior, muito embora carreguem todas as contradi\u00e7\u00f5es do passado e acrescentem novas contradi\u00e7\u00f5es que se desenvolver\u00e3o ao longo do pr\u00f3ximo ciclo.\u00a0 As pol\u00edticas keynesianas utilizadas generalizadamente ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial podem ser consideradas como o exemplo mais sofisticado das ferramentas utilizadas pelos capitalistas para administrar o ciclo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>No entanto, as crises sist\u00eamicas t\u00eam uma dimens\u00e3o superior, ocorrem em per\u00edodos mais longos, desestruturam toda a ordem anterior e constroem, sob seus escombros, uma nova ordem, isso porque significam a exaust\u00e3o de um per\u00edodo hist\u00f3rico de acumula\u00e7\u00e3o do capital. As crises sist\u00eamicas n\u00e3o s\u00f3 desorganizam de maneira radical o sistema econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social constru\u00eddo para responder \u00e0s necessidades da ordem anterior, como atingem todas as institui\u00e7\u00f5es da velha ordem, em propor\u00e7\u00f5es tais que provocam mudan\u00e7as no conjunto do sistema e abrem espa\u00e7o para a contesta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema, uma vez que nestas \u00e9pocas de crises sist\u00eamicas torna-se mais aberta a alian\u00e7a entre o Estado\u00a0 e as classes\u00a0 dominantes, pois essas duas criaturas siamesas passam a agir abertamente no sentido de colocar todo o \u00f4nus da crise na conta dos trabalhadores, o que leva a intensas lutas sociais.<\/p>\n<p>As crises sist\u00eamicas carregam consigo um conjunto de fen\u00f4menos novos que v\u00e3o muito al\u00e9m do horizonte convencional com o qual as classes dominantes est\u00e3o acostumadas a lidar, para os quais as ferramentas corriqueiras do processo anterior (as crises c\u00edclicas) n\u00e3o surtem os mesmos efeitos. Por isso, s\u00e3o muito mais explosivas, colocam em perigo a ordem capitalista e despertam os trabalhadorespara as batalhas de classe. Tamb\u00e9m s\u00e3o mais duradouras: n\u00e3o apenas por carregam consigo em bases ampliadas as velhas e novas contradi\u00e7\u00f5es, mas porque as classes dominantes, acostumadas aos valores da velha ordem em desagrega\u00e7\u00e3o, teimam em utilizar os instrumentos convencionais, num ambiente em que estes j\u00e1 n\u00e3o produzem mais os resultados que produziam no per\u00edodo precedente.<\/p>\n<p>As crises sist\u00eamicas do capitalismo apresentam caracter\u00edsticas bastante diferentes das crises c\u00edclica comuns, em fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas de sua profundidade devastadora, mas tamb\u00e9m com rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0 forma como se desenvolvem no ambiente econ\u00f4mico e social. Geralmente, as pessoas com pouco conhecimento hist\u00f3rico t\u00eam dificuldades de compreender as diferen\u00e7as entre as crises c\u00edclicas e as crises sist\u00eamicas, confundem os dois fen\u00f4menos ou ent\u00e3o imaginam as crises sist\u00eamicas como colapsos destrutivos lineares que, ao ser desencadeada, seguem uma trajet\u00f3ria avassaladora de maneira cont\u00ednua, sem compassos de espera ou espasmos recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A realidade das crises sist\u00eamicas \u00e9 bastante diferente: estas crises irrompem de maneira unilateral na conjuntura e realizam os primeiros estragos na economia e na sociedade, tomando a todos de surpresa. Mas os governos reagem com uma s\u00e9rie de medidas que aliviam momentaneamente os efeitos mais perversos da crise. Num ambiente de tens\u00f5es nos circuitos que se beneficiavam da bonan\u00e7a anterior \u00e0 crise, esses setores procuram criar nos meios de comunica\u00e7\u00e3o ma atmosfera de normalidade e recupera\u00e7\u00e3o da economia, de forma a manter seus privil\u00e9gios e retornar ao status precedente,<\/p>\n<p>No entanto, a crise irrompe novamente de maneira unilateral na conjuntura, muitas vezes com mais intensidade que o per\u00edodo anterior, ampliando a destrui\u00e7\u00e3o da primeira onda. Pode acontecer novamente um compasso de espera para emergir uma nova onda da crise e assim por diante at\u00e9 desagregar a velha ordem e provocar mudan\u00e7as quantitativas e qualitativas no interior do sistema ou a mudan\u00e7a do pr\u00f3prio sistema. Nesse processo h\u00e1 apenas uma const\u00e2ncia: a cont\u00ednua deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas a cada patamar em que se desenvolve a crise.<\/p>\n<p>As crises sist\u00eamicas s\u00e3o tamb\u00e9m mais devastadoras porque reproduzem em bases ampliadas todas as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo. Toda crise do capital traz um conte\u00fado novo \u00e0 conjuntura, al\u00e9m de carregar em seu bojo as contradi\u00e7\u00f5es do passado. No entanto, as crises sist\u00eamicas s\u00e3o muito mais devastadoras porque s\u00e3o crises completas, rebeli\u00f5es generalizadas da totalidade contra a velha ordem(Campos, 2001). Esta crise que explode em 2008 \u00e9 a primeira grande crise completa do sistema capitalista, portanto mais explosiva, uma vez que envolve todo o arcabou\u00e7o econ\u00f4mico e social do sistema capitalista \u2013 a esfera da produ\u00e7\u00e3o, da circula\u00e7\u00e3o, do cr\u00e9dito, das d\u00edvidas p\u00fablicas e privadas, o sistema social, o meio ambiente e os valores neoliberais\u00a0 (Costa, 2009).<\/p>\n<p>Como constatam Roubini e Mihm: \u201cInfelizmente, as crises financeiras t\u00eam fluxos e refluxos; \u00e9 raro que explodam de uma s\u00f3 vez e terminem. Na verdade, se parecem mais com furac\u00f5es, que re\u00fanem suas for\u00e7as, amainam por algum tempo, para em seguida se tornar mais destrutivos. Isso reflete o fato de que as vulnerabilidades que se acumulam na forma\u00e7\u00e3o de uma crise s\u00e3o generalizadas e sist\u00eamicas\u201d[5].<\/p>\n<p>Assim foram as crises sist\u00eamicas de 1873 e 1929. Em 1873, a crise come\u00e7ou pela Bolsa de Valores de Viena, seguiu com fal\u00eancias banc\u00e1rias na \u00c1ustria e Alemanha, Estados Unidos e, posteriormente na Inglaterra. A crise se espalhou ainda pela \u00e1rea industrial, tendo como consequ\u00eancia grande desemprego entre os trabalhadores (Coggiola, 2009)[6]. Como todas as crises sist\u00eamicas, sua particularidade foi uma longa depress\u00e3o, at\u00e9 1896, ou seja, 23 anos de crise. No entanto, esta primeira grande crise sist\u00eamica n\u00e3o foi linear como o senso comum costumar imaginar: ocorreram per\u00edodos de recupera\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios pontos da curva descendente, conforme Dobb: \u201cA grande depress\u00e3o, iniciada em 1873, foi interrompida\u00a0 por surtos de recupera\u00e7\u00e3o em 1880 e 1888 e continuada at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 90\u201d[7]. A crise sist\u00eamica iniciada em 1873 resultou macroeconomicamente na transi\u00e7\u00e3o do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista.<\/p>\n<p>A crise de 1929-1945, bem mais documentada, o que nos pouca de alongarmos em seus detalhes, produziu a segunda guerra mundial e a destrui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas de praticamente toda a Europa. Nos Estados Unidos, epicentro da crise, o Produto Interno Bruto, entre 1929 e 1933, teve uma queda de mais de 25%, a Bolsa de Valores se desagregou, e o desemprego atingiu um quarto da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa. Da mesma forma que na crise sist\u00eamica de 1873-1896 a crise nos EUA teve momentos de depress\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o, especialmente com a pol\u00edtica do New Deal e a produ\u00e7\u00e3o para guerra, mesmo assim a produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis s\u00f3 alcan\u00e7aria os patamares do in\u00edcio da crise (1929) quatro anos ap\u00f3s o fim da Segunda guerra Mundial, em 1949.[8]<\/p>\n<p>Como pode ser observado na crise anterior, a crise de 1929-1945 produziu mudan\u00e7as profundas\u00a0 na conjuntura econ\u00f4mica internacional, na organiza\u00e7\u00e3o do capitalismo e na correla\u00e7\u00e3o das for\u00e7as sociais. Primeiro, a Uni\u00e3o sovi\u00e9tica emerge da Segunda Guerra como uma poderosa pot\u00eancia econ\u00f4mica e militar, liderando um sistema socialista composto por um ter\u00e7o da humanidade. Segundo, os pa\u00edses capitalistas, sob press\u00e3o dos trabalhadores,\u00a0 reorganizam as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, tendo como norte te\u00f3rico o keynesianismo e a constru\u00e7\u00e3o do Estado do Bem Estar Social.\u00a0 No plano pol\u00edtico, cria-se uma nova ordem econ\u00f4mica internacional, com novas institui\u00e7\u00f5es e com os pa\u00edses vencedores da guerra com poder de veto na Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Portanto, essa nova crise sist\u00eamica de 2008, por incorporar todas as contradi\u00e7\u00f5es das crises anteriores e por ser a primeira crise completa do sistema capitalista, com certeza resultar\u00e1 tamb\u00e9m em mudan\u00e7as de fundo na economia e na sociedade.<\/p>\n<p>A crise sist\u00eamica de 2008<\/p>\n<p>A crise sist\u00eamica de 2008 marca uma diferen\u00e7a qualitativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s duas crises sist\u00eamicas anteriores (1873-96 \/ 1929-1945), porque surge ap\u00f3s um per\u00edodo em que o capitalismo se transformou num sistema mundial completo, em fun\u00e7\u00e3o da internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e da internacionaliza\u00e7\u00e3o financeira, popularmente denominada de globaliza\u00e7\u00e3o. Anteriormente, o sistema s\u00f3 era realmente completo no que se refere a duas vari\u00e1veis da \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o: o com\u00e9rcio mundial e a exporta\u00e7\u00e3o de capitais. Com a globaliza\u00e7\u00e3o, o sistema mundializou objetivamente as esferas da produ\u00e7\u00e3o e da circula\u00e7\u00e3o, unificando globalmente o ciclo do capital e fechando assim uma etapa hist\u00f3rica que se iniciara com a revolu\u00e7\u00e3o inglesa de 1640 na Inglaterra (Costa, 2009).<\/p>\n<p>A internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o possibilitou modifica\u00e7\u00f5es profundas nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o internacionais e mudou de maneira expressiva a forma de expropria\u00e7\u00e3o do valor por parte da burguesia dos pa\u00edses centrais, possibilitando a descentraliza\u00e7\u00e3o dos ambientes de apropria\u00e7\u00e3o da mais-valia. Pela primeira vez na hist\u00f3ria do capitalismo, a burguesia passou a extrair diretamente e generalizadamente o valor fora de suas fronteiras nacionais[9], transformando-se assim numa classe exploradora direta tanto nos pa\u00edses centrais quanto na periferia, o que confirma objetivamente o car\u00e1ter internacional do proletariado.<\/p>\n<p>No passado, a burguesia se apropriava do valor dos pa\u00edses perif\u00e9ricos mediante\u00a0 o com\u00e9rcio\u00a0 internacional, em fun\u00e7\u00e3o da troca desigual (produtos manufaturados versus mat\u00e9rias-primas), o pagamento dos juros das d\u00edvidas, os dividendos ou remessas de lucros enviadas pelas filiais de suas empresas que atuavam na \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o. Agora, o capital vive sua maturidade plena, ao transformar o planeta numa esfera \u00fanica de investimento, produ\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>A internacionaliza\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as e, especialmente, a desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira realizada mundialmente ap\u00f3s os governos Reagan e Tatcher, aliadas \u00e0s ferramentas das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e a universaliza\u00e7\u00e3o dos computadores, possibilitaram ao capital atuar com a mais ampla liberdade poss\u00edvel em todas as partes do mundo e auto-acrescentar-se\u00a0 ao longo das 24 horas do dia, rompendo assim as barreiras do espa\u00e7o e do tempo, num processo como nunca antes se verificara no sistema capitalista. Para tanto, basta se utilizar da melhor maneira poss\u00edvel dos fusos hor\u00e1rios para atuar permanentemente em todas as pra\u00e7as financeiras do mundo, em todos os continentes.<\/p>\n<p>Essas modifica\u00e7\u00f5es operadas na \u00e1rea das finan\u00e7as marcaram tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as fra\u00e7\u00f5es do grande capital internacional: o setor mais parasit\u00e1rio passou a hegemonizar as decis\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas nos pa\u00edses centrais e subordinou todos os outros setores \u00e0 l\u00f3gica financeira, desenvolvendo de maneira acelerada um processo especulativo quehegemonizou n\u00e3o s\u00f3 a esfera das finan\u00e7as, mas contaminou a produ\u00e7\u00e3o e as decis\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias do Estado. No plano pol\u00edtico, esse movimento foi expresso nas pol\u00edticas neoliberais desenvolvidas desde o final da d\u00e9cada de 70 nos pa\u00edses centrais e, posteriormente, em todos os pa\u00edses capitalistas ligados \u00e0 economia l\u00edder.<\/p>\n<p>O frenesi especulativo se desenvolveu como um rastilho de p\u00f3lvora, facilitado pela interconex\u00e3o dos mercados financeiros e sua integra\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, e resultou num enorme descolamento entre a \u00f3rbita financeira e a esfera da produ\u00e7\u00e3o, criando assim possibilidades de rupturas de liquidez a uma velocidade impressionante, em fun\u00e7\u00e3o da extraordin\u00e1ria capacidade de propaga\u00e7\u00e3o pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, como se verificou a partir da queda do Lehmann Brothers.<\/p>\n<p>Estas considera\u00e7\u00f5es precedentemente elencadas, levando em conta o grau de mudan\u00e7as que se operou na base do sistema capitalismo, d\u00e3o \u00e0 atual crise sist\u00eamica um conte\u00fado novo, fruto dos novos fen\u00f4menos que emergiram nesta fase do capitalismo. Conforme assinal\u00e1vamos em ensaio publicado em fevereiro\u00a0 de 2009, a crise sist\u00eamica global era profunda, devastadora e de longa dura\u00e7\u00e3o: \u201cEsta \u00e9 a primeira grande crise realmente completa[10] do sistema capitalista, por isso mais complexa e potencialmente mais explosiva, uma vez que envolve toda a vida social do sistema capitalista \u2013 a esfera da produ\u00e7\u00e3o, da circula\u00e7\u00e3o, o cr\u00e9dito, as d\u00edvidas p\u00fablicas e privadas, o sistema social, o meio ambiente, os valores neoliberais, a cultura individualista e, especialmente, o Estado como articulador do processo de acumula\u00e7\u00e3o\u201d[11].<\/p>\n<p>Portanto, a crise sist\u00eamica mundial est\u00e1 em curso, apesar da manipula\u00e7\u00e3o di\u00e1ria operada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Eles buscam cotidianamente confundir os trabalhadores, buscando dar uma apar\u00eancia de normalidade e recupera\u00e7\u00e3o da economia mundial, mas a realidade tem sido mais dura que as miragens plantadas pela m\u00eddia. Em breve estaremos assistindo um aprofundamento da crise, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, e a amplia\u00e7\u00e3o das lutas sociais nas principais regi\u00f5es afetadas pela crise, uma vez que as medidas tomadas at\u00e9 agora para enfrentar a crise est\u00e3o objetivamente criando as condi\u00e7\u00f5es para seu acirramento.<\/p>\n<p>A crise no cora\u00e7\u00e3o do sistema<\/p>\n<p>Conforme alert\u00e1vamos em 2002, a crise mundial do capitalismo s\u00f3 estaria madura quanto atingisse o cora\u00e7\u00e3o do sistema: os Estados Unidos, a Europa e o Jap\u00e3o[12]. Agora, com a crise sist\u00eamica global, o mundo assiste a maior crise de toda a hist\u00f3ria do capitalismo e, ao mesmo tempo, inicia-se o processo de amadurecimento para as transforma\u00e7\u00f5es de todas as institui\u00e7\u00f5es constru\u00eddas em Bretton Woods. O velho sistema monet\u00e1rio-financeiro est\u00e1\u00a0 desaparecendo, porque j\u00e1 n\u00e3o cumpre mais as fun\u00e7\u00f5es para as quais foi criado e nem corresponde mais \u00e0s novas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o oriundas da internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e das finan\u00e7as. A ordem econ\u00f4mica internacional est\u00e1 \u00e0 deriva: suas institui\u00e7\u00f5es, seus m\u00e9todos de regula\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos governos centrais se mostram incapazes de resolver os problemas oriundos da crise.<\/p>\n<p>As v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es de classe do grande capital, (norte-americano, europeu e japon\u00eas) tateiam no escuro, impotentes diante dos fen\u00f4menos novos para os quais n\u00e3o est\u00e3o preparados. N\u00e3o conseguem entender a profundidade da crise e continuam aplicando sem sucesso os mesmos m\u00e9todos do passado. Essa impot\u00eancia diante dos fatos objetivos da vida torna mais agressiva as elites parasit\u00e1rias dos pa\u00edses centrais, que buscam a todo o custo sair da crise pelos m\u00e9todos mais primitivos e predat\u00f3rios, como a fomenta\u00e7\u00e3o de guerras cada vez destrutivas contra na\u00e7\u00f5es que n\u00e3o obedecem aos ditames do capital, a imposi\u00e7\u00f5es de ajustes econ\u00f4micos predat\u00f3rios contra os trabalhadores, buscando regredir seus direitos aos estatutos do s\u00e9culo XIX, bem como a manipula\u00e7\u00e3o cada vez mais sem cerim\u00f4nia dos meios de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0 para justificar suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas a ofensiva do grande capital n\u00e3o pode esconder que o sistema capitalista est\u00e1 doente, passa pelo momento de maior dificuldade em toda a sua hist\u00f3ria e a crise sist\u00eamica global tende a se agravar mais a cada dia que passa, porque desde que foi desencadeada nenhum dos problemas que a detonaram foi resolvido. Pelo contr\u00e1rio, a crise agora est\u00e1 mais explosiva porque re\u00fane em torno de si todas as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo oriundas do processo anterior e adiciona os novos fen\u00f4menos do capitalismo contempor\u00e2neo, o que a torna mais devastadora e cujo momento explosivo se aproxima com uma velocidade expressiva. Em breve, a crise completa do capital estar\u00e1 produzindo fen\u00f4menos t\u00e3o desconcertantes que deixar\u00e3o os observadores impressionados com sua din\u00e2mica e efeitos econ\u00f4micos, pol\u00edticos, sociais e geopol\u00edticos em todo o sistema capitalista.<\/p>\n<p>Nossa investiga\u00e7\u00e3o buscar\u00e1 apreender os principais elementos constitutivos da crise sist\u00eamica global nas duas principais regi\u00f5es do capitalismo central, Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e, a partir desses dados objetivos, avaliar a profundidade da crise, os principais fen\u00f4menos novos que brotar\u00e3o dessa conjuntura, bem como as possibilidades de mudan\u00e7as no interior do sistema, a partir da entrada em cena de um novo personagem \u2013 os trabalhadores, cuja resist\u00eancia vem se manifestando em v\u00e1rias regi\u00f5es, mas com o agravamento da crise est\u00e1 se abrindo um novo patamar na luta de classes internacional.<\/p>\n<p>A crise fiscal nos Estados Unidos<\/p>\n<p>A crise fiscal dos Estados Unidos \u00e9 muito grave e atinge todas as esferas dos governos federal, estadual e municipal. A sociedade norte-americana est\u00e1 iniciando um per\u00edodo de dificuldades semelhantes aos pa\u00edses da periferia capitalista. O d\u00e9ficit p\u00fablico em 2010 atingiu 1,260\u00a0 trilh\u00e3o e nos \u00faltimos meses de 2011 atingiu cerca de 10% do PIB. Essa performance tende a se agravar em fun\u00e7\u00e3o da queda da atividade econ\u00f4mica, da reda\u00e7\u00e3o no consumo das fam\u00edlias, al\u00e9m do aumento do desemprego. Quer queira ou n\u00e3o o presidente Obama, os Estados Unidos iniciam, premidos pela l\u00f3gica objetivas dos fatos, um per\u00edodo de austeridade que dever\u00e1 agravar ainda mais a crise social no Pa\u00eds, cuja express\u00e3o mais vis\u00edvel \u00e9 o aumento do n\u00famero de pobres, que hoje j\u00e1 alcan\u00e7a 60 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>A crise nos Estados Unidos tem origem nas contradi\u00e7\u00f5es do sistema capitalista, mas carrega consigo uma s\u00e9rie de problemas espec\u00edficos que foram se acumulando ao longo dos anos, tais como o deslocamento de plantas industriais para outras regi\u00f5es e, especialmente, em fun\u00e7\u00e3o de medidas tomadas pelo governo Bush, como a\u00a0 redu\u00e7\u00e3o de impostos para os setores de maior renda, os gastos trilion\u00e1rios para resgatar os bancos da crise, as guerras no Afeganist\u00e3o e Iraque, bem como a chamada \u201cguerra contra o terror\u201d, que ampliou de maneira acentuada o aparato de espionagem e ex\u00e9rcitos irregulares pelo mundo afora.<\/p>\n<p>Vale ressaltar ainda que os Estados Unidos\u00a0 possuem um problema estrutural em rela\u00e7\u00e3o ao or\u00e7amento. Enquanto nos pa\u00edses da zona do Euro a arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria corresponde em m\u00e9dia a cerca de 30% do PIB, nos Estados Unidos o Pa\u00eds arrecada apenas 19% do produto.\u00a0 Essa \u00e9 uma debilidade da economia norte-americana, porque o n\u00edvel de arrecada\u00e7\u00e3o torna mais dif\u00edcil uma solu\u00e7\u00e3o do d\u00e9ficit no curto prazo, especialmente se levarmos em conta que a redu\u00e7\u00e3o de impostos e aumento de gastos alteraram o panorama tribut\u00e1rio norte-americano para n\u00edveis mais baixos desde 1950 (Eichengreen, 2011). A menos que haja uma pol\u00edtica de ajuste predat\u00f3rio, o que \u00e9 um problema com poucas perspectivas em fun\u00e7\u00e3o da rea\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, essa quest\u00e3o vai continuar por bastante tempo.<\/p>\n<p>Esses problemas fizeram com o d\u00e9ficit fosse se tornando cada vez mais uma bomba de efeito retardado, \u00e0 medida em que a economia norte-americana perdia competitividade industrial, o setor financeiro passava a hegemonizar as decis\u00f5es de pol\u00edtica econ\u00f4mica, as administra\u00e7\u00f5es republicanas reduziam o imposto para os ricos e aumentava as despesas militares. A crise veio ampliar o d\u00e9ficit, uma vez\u00a0 o governo teve que resgatar os bancos da fal\u00eancia e a recess\u00e3o oriunda da crise duplicou o n\u00edvel de desemprego e reduziu o consumo, completando assim um quadro de anemia fiscal no Pa\u00eds. Vejamos mais detalhadamente os principais pontos que tornam o d\u00e9ficit fiscal uma quest\u00e3o explosiva, principalmente em fun\u00e7\u00e3o da crise:<\/p>\n<p>1) O deslocamento das plantas fabris para outras regi\u00f5es operou-se de maneira lenta mas permanente em fun\u00e7\u00e3o da queda na taxa de lucro nos Estados Unidos. Parcelas expressivas das grandes corpora\u00e7\u00f5es deslocaram-se para v\u00e1rios continentes, especialmente para a\u00a0 \u00c1sia em busca de m\u00e3o de obra e mat\u00e9rias baratas e condi\u00e7\u00f5es fiscais vantajosas. Os estrategistas do capital imaginavam que o poder hegem\u00f4nico norte-americano criaria uma economia de servi\u00e7os, com alta densidade tecnol\u00f3gica, a partir da qual os Estados Unidos capturariam parcela expressiva da mais-valia produzida mundialmente mediante a apropria\u00e7\u00e3o das rendas remetidas do exterior (royalties, patentes, dividendos, juros) e o sistema financeiro se encarregaria de reciclar os capitais que migrariam para Estados Unidos em fun\u00e7\u00e3o de seus mercados sofisticados e hegem\u00f4nicos. Esse movimento reduziu a din\u00e2mica do setor da economia que produzia o valor e abriu espa\u00e7o para o frenesi especulativo que viria a se estilha\u00e7ar em 2008 e contaminar todos os setores econ\u00f4micos do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o da competitividade industrial inverteu um curso hist\u00f3rico: os Estados Unidos passaram de maior exportador mundial para maior importador, acumulando ao longo dos \u00faltimos 30 anos crescentes d\u00e9ficit na balan\u00e7a comercial. Na d\u00e9cada de 70, os EUA apresentaram apenas pequenos d\u00e9ficits na balan\u00e7a comercial, mas a partir de meados da d\u00e9cada de 80 esses d\u00e9ficits foram crescendo de maneira extraordin\u00e1ria at\u00e9 ultrapassar, em 1984, a marca de US$ 100 bilh\u00f5es. A partir da\u00ed, os saldos negativos na balan\u00e7a comercial foram se avolumando at\u00e9 atingir US$ 328,8 bilh\u00f5es em 1999. Apartir de 2003, os d\u00e9ficits passam a superar os US$ 500 bilh\u00f5es, at\u00e9 ultrapassar os US$ 800 bilh\u00f5es em 2006, 2007, 2008, caindo para US$ 634,9 bilh\u00f5es em 2010\u00a0 (Tabela 1).<\/p>\n<p>Tabela I<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td colspan=\"4\">\n<p>Balan\u00e7a Comercial dos EUA ,1983-2010<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Ano<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Exporta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Importa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Saldo comercial<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1983<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>205,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>258,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-52,4<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1984<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>224,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>330,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-106,7<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1985<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>218,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>336,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-117,7<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1986<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>227,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>365,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-138,2<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1987<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>254,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>406,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-152,1<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1988<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>322,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>441,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-118,6<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1989<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>363,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>473,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-109,4<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1990<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>393,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>495,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-101,7<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1991<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>421,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>488,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-66,8<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1992<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>448,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>532,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-84,5<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1993<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>465,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>580,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-115,6<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1994<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>512,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>663,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-150,7<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1995<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>584,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>743,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-158,8<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1996<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>625,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>795,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-170,2<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1997<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>689,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>869,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-180,5<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1998<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>682,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>911,9<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-229,8<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>1999<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>695,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.024,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-328,8<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2000<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>781,9<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.218,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-436,1<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2001<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>729,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.141,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-411,9<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2002<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>693,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.161,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-468,3<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2003<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>724,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.257,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-532,3<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2004<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>814,9<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.469,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-654,8<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2005<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>901,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.673,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-772,4<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2006<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.026,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.853,9<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-827,9<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2007<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.148,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.957,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-808,8<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2008<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.287,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>2.103,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-816,2<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2009<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.056,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.559,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-503,6<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>2010<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.278,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>1.913,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>-634,9<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Fonte: Department of Commerce (Bureau of the Census and Bureau of Economic Analysis), Table B -106<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">2) A conjuntura econ\u00f4mica viria a se deteriorar de maneira dram\u00e1tica ap\u00f3s a crise sist\u00eamica global. A redu\u00e7\u00e3o dos impostos realizada entre 2001 e 2003 e os gastos com as guerras do Afeganist\u00e3o e Iraque, ap\u00f3s a queda das torres g\u00eameas, aliados \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o dos gastos militares secretos em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica anti-terrorista do governo Bush, continuada por Obama, reduziram drasticamente o perfil tribut\u00e1rio dos EUA. Passou-se de um super\u00e1vit fiscal em 2000 para um d\u00e9ficit de 4% do PIB em 2007-2008 (Eichengreen, 2011). Essa conjuntura seria agravada de maneira dram\u00e1tica em fun\u00e7\u00e3o da crise sist\u00eamica global, que levou o Tesouro a injetar cerca de 8,5 trilh\u00f5es de d\u00f3lares para salvar os bancos, o que agravou de maneira dram\u00e1tica a crise fiscal norte-americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">3)\u00a0 Mas o problema menos conhecido e menos divulgado, mas t\u00e3o grave como os precedentemente elencados, \u00e9 a crise fiscal dos Estados e Munic\u00edpios. Atualmente, 45 Estados est\u00e3o com suas contas no vermelho. A crise fiscal regional \u00e9 resultado tanto da recess\u00e3o que o pa\u00eds enfrenta desde 2008, que reduziu as receitas, quanto das perdas oriundas das aplica\u00e7\u00f5es financeiras realizadas por Estados e Munic\u00edpios na especula\u00e7\u00e3o financeira. Uma particularidade da legisla\u00e7\u00e3o fiscal norte-americana \u00e9 o fato de que os Estados e Munic\u00edpios s\u00e3o proibidos de ter d\u00e9ficits, muito embora sempre encontrem uma maneira criativa de burlar a legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Estados grandes e ricos como a Calif\u00f3rnia se encontram em calamidade fiscal, enquanto outros mais pobres tamb\u00e9m possuem d\u00e9ficits elevad\u00edssimos. Por exemplo, 13 Estados est\u00e3o com d\u00e9ficit acima de 20% em rela\u00e7\u00e3o ao ano fiscal de 2011, seis Estados com d\u00e9ficit acima de 30% e 15 com d\u00e9ficit acima de 10%, o que configura uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica do ponto de vista fiscal (Tabela2). Como a crise eleva as despesas dos Estados e a recess\u00e3o reduz as receitas, temos assim um dilema dif\u00edcil de ser resolvido e que tende a se agravar \u00e0 medida em que a recess\u00e3o se ampliar pelo conjunto da economia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Tabela 2<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">D\u00e9ficit dos Estados em rela\u00e7\u00e3o ao ano fiscal de 2011<\/p>\n<table style=\"text-align: justify; \" border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p>Alabama<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>12,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Loisiania<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>14,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Oklahoma<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>13,7<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Arizona<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>39,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Maine<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>34,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Oregon<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>34,2<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Calif\u00f3rnia<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>20,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Maryland<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>15,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Pennsylvania<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>16,4<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Colorado<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>25,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Massachusetts<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>8,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Rhode Island<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>13,4<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Connecticut<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>28,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Michigan<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>9,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>South Carolina<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>26,1<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Delaware<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>11,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Minnesota<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>25,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>South Dakota<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>8,8<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>District Of Columbia<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>4,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Mississipi<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>15,9<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Tennessee<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>9,4<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Florida<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>19,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Missori<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>9,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Texas<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>20,9<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Georgia<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>25,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Nebraska<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>9,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Utah<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>14,7<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Hawai<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>16,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Nevada<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>54,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Vermont<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>31,3<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Idaho<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>3,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>New Hampshire<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>27,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Virginia<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>8,5<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Illinois<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>40,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>New Jersey<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>38,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Washington<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>29,6<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Indiana<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>9,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>New Mexico<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>9,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>West Virginia<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>3,6<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Iowa<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>20,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>New York<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>15,9<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Wiscosin<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>24.9<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Kansas<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>10,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>North Carolina<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>30,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Wyoming<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>10,3<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Kentucky<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>9,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>Ohio<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>11,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>States total<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>19,9<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify; \">Fonte: Center Of Budgetand Policy Priorits, Tabel 4, March, 2012, by Elizabeth McNichol, Phil Oliff and Nicholas\u00a0 Johnson<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Esta crise dentro da crise vem afetando diretamente a popula\u00e7\u00e3o, uma vez que os Estados endividados diminuem os sal\u00e1rios dos funcion\u00e1rios e reduzem os servi\u00e7os como linhas do metr\u00f4, coleta de lixo, limpeza, assist\u00eancia m\u00e9dica aos pobres, velhos e deficientes&gt; H\u00e1 inda os cortes nas verbas para escolas e faculdades, demiss\u00e3o de professores, policiais, pessoal m\u00e9dico e funcion\u00e1rios p\u00fablicos em geral. Some-se a isso o fato de que a infraestrutura de v\u00e1rios Estados e Munic\u00edpios est\u00e1 em frangalhos, com equipamentos sociais prec\u00e1rios, pontes desabando, escolas e hospitais sucateados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Al\u00e9m dos problemas relacionados, um outro fator tamb\u00e9m veio adicionar mais um elemento explosivo: a crise dos t\u00edtulos municipais (Munis Bonds) e a incapacidade dos governos locais de pag\u00e1-los diante da conjuntura de pen\u00faria fiscal. Trata-se de um mercado de US$ 3 trilh\u00f5es, geralmente est\u00e1vel em tempos de bonan\u00e7a. No entanto, como em todas as crises, algumas quest\u00f5es que estavam adormecidas afloram na superf\u00edcie com uma veem\u00eancia extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Pode-se dizer que h\u00e1 um sinal amarelo no mercado de Munis Bonds, n\u00e3o apenas porque h\u00e1 pelo US$ 10 bilh\u00f5es em t\u00edtulos inadimplentes e outros US$$ 22 bilh\u00f5es em estado de stress, como costumam se referir eufemisticamente os comentaristas econ\u00f4micos norte-americanos. Mas o indicador mais objetivo da crise desse mercado foi o fato de a\u00a0 Standard &amp; Poor\u00b4s ter rebaixado a notatr\u00edplice A (AAA) de 4% dos t\u00edtulos desse mercado. Portanto, \u00e0 medida em que a crise for avan\u00e7ando, o mercado de Munis Bonds tamb\u00e9m seguir\u00e1 a rota de desagrega\u00e7\u00e3o, amplificando para as popula\u00e7\u00f5es regionais a crise nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Outros dos indicadores da crise fiscal podem ser localizados nos gastos militares dos Estados Unidos. Mesmo com as promessas de retirada das tropas do Iraque e Afeganist\u00e3o, os gastos norte-americanos continuam desproporcionais em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo. Para se ter uma id\u00e9ia, o or\u00e7amento militar de 2011 est\u00e1 calculado em US$ 700 bilh\u00f5es (4,8% do PIB), um quantum maior que\u00a0 os 17 maiores or\u00e7amento militares do planeta e seis vezes maior que a China, a na\u00e7\u00e3o com o segundo maior gasto do mundo. Nesta quest\u00e3o tanto faz ser republicano ou democrata, todos est\u00e3o de acordo em manter a aperfei\u00e7oar a m\u00e1quina de guerra norte-americana e continuar alimentando o complexo industrial militar. Segundo informa\u00e7\u00f5es dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, essa m\u00e1quina de guerra \u00e9 composta por 560 bases militares fora dos Estados Unidos e um aparato de espionagem que tem mais pessoas com acesso a informa\u00e7\u00f5es secretas que todas as pessoas que vivem na capital, Washington.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Quem imaginar que o final da guerra fria significou a redu\u00e7\u00e3o desta m\u00e1quina de guerra est\u00e1 completamente enganado. Hoje, os Estados Unidos n\u00e3o t\u00eam concorrentes no espa\u00e7o a\u00e9reo nem nos mares: porta-avi\u00f5es gigantes, submarinos at\u00f4micos, sat\u00e9lites por toda a parte, avi\u00f5es rob\u00f4s, bombas inteligentes guiadas a laser, ca\u00e7as-bombardeios, avi\u00f5es invis\u00edveis, tanques e helic\u00f3pteros da mais alta sofistica\u00e7\u00e3o comp\u00f5em a m\u00e1quina militar mais agressiva que a humanidade j\u00e1 conheceu. Muito embora esse aparato seja assustador, ironicamente est\u00e1 perdendo a guerra para bedu\u00ednos nas areias do Iraque e guerrilheiros das montanhas no Afeganist\u00e3o, o que demonstra que a hegemonia n\u00e3o envolve apenas quest\u00f5es militares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A crise da d\u00edvida dos Estados Unidos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A d\u00edvida dos Estados Unidos condensa atualmente toda a din\u00e2mica da economia norte-americana, seus problemas, contradi\u00e7\u00f5es e perspectivas, porque sintetiza historicamente as op\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas estrat\u00e9gicas, a euforia e as debilidades da economia l\u00edder do sistema capitalista. A crise da d\u00edvida, portanto, \u00e9 o elemento catalisador de todos os problemas da sociedade norte-americana. Os dilemas pol\u00edticos ocorridos recentemente no Congresso, referentes ao aumento do teto da d\u00edvida, s\u00e3o apenas a ponta do iceberg da crise pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social de um sistema imperial em decad\u00eancia, cujos contornos ficar\u00e3o mais claros \u00e0 medida em que a crise for aprofundando as contradi\u00e7\u00f5es\u00a0 de uma economia ferida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Ao longo dos \u00faltimos 30 anos a d\u00edvida p\u00fablica funcionou como uma esp\u00e9cie de colch\u00e3o social, econ\u00f4mico e financeiro do sistema de poder imperial norte-americano. Trata-se de um d\u00e9bito que estruturou macroeconomicamente toda a ordem econ\u00f4mica internacional e possibilitou aos Estados Unidos viverem por v\u00e1rias d\u00e9cadas com d\u00e9ficits permanentes, um padr\u00e3o de vida acima da m\u00e9dia mundial, enquanto os pa\u00edses superavit\u00e1rios transformavam seus saldos comerciais positivos em t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica norte-americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Em fun\u00e7\u00e3o do poderio de sua economia, da lideran\u00e7a que exerciam no mundo capitalista, da sofistica\u00e7\u00e3o de seu mercado financeiro e da liquidez de seus pap\u00e9is, os t\u00edtulos da d\u00edvida dos EUA eram considerados o porto mais seguro para as aplica\u00e7\u00f5es das reservas internacionais de grande maioria dos pa\u00edses industrializados. Na\u00e7\u00f5es como a China, o Jap\u00e3o e o Brasil, principais detentores desses t\u00edtulos,\u00a0 acumularam por anos a fio super\u00e1vits comerciais e os trocaram por T-Bonds, t\u00edtulos do Tesouro norte-americano, mesmo a uma taxa de juros extraordinariamente baixa, como se esses pap\u00e9is representassem a cristaliza\u00e7\u00e3o do valor produzido mundialmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Para os Estados Unidos, tratava-se de um bom neg\u00f3cio. Sem trocadilho: um neg\u00f3cio da China! Como num transe de m\u00e1gica, os sucessivos governos dos Estados Unidos conseguiam trocar pap\u00e9is pintados (d\u00f3lares) ou promiss\u00f3rias (t\u00edtulos da d\u00edvida), ambos sem lastro em ativos reais, por bens tang\u00edveis dos pa\u00edses produtores de manufaturas do resto do mundo. Demorou muito para que os governos come\u00e7assem a compreender que a quantidade de d\u00f3lares impressos pelos Estados Unidos e espalhados pelo mundo, bem como os t\u00edtulos da d\u00edvida pelos quais trocavam seus super\u00e1vits comerciais, n\u00e3o possu\u00edam rela\u00e7\u00e3o direta com os ativos reais dos Estados Unidos. Em outras palavras, os agentes econ\u00f4micos que participaram dessa pantomina est\u00e3o atualmente com um mico na m\u00e3o, pois a qualquer momento podem ser surpreendidos pela terr\u00edvel not\u00edcia que seus pap\u00e9is n\u00e3o valem quase nada, foram desvalorizados pela lei do valor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Essa severa realidade est\u00e1 se aproximando com uma velocidade acentuada, em fun\u00e7\u00e3o desta terceira onda da crise global. Conforme advert\u00edamos no in\u00edcio de 2009, a crise iria produzir um conjunto de fen\u00f4menos novos: \u201cQuanto mais a crise se acirrar, mais haver\u00e1 a possibilidade de questionamento da hegemonia norte-americana e um acirramento da disputa interimperialista, pois a crise pode gerar um clima de salve-se quem puder &#8230; Existe ainda a possibilidade concreta de uma maxidesvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar ou de um calote generalizado da d\u00edvida externa norte-americana\u201d. Naquela \u00e9poca pode ter parecido um exagero essas afirma\u00e7\u00f5es, mas agora j\u00e1 \u00e9 parte de uma dolorosa realidade dolorosa para o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A d\u00edvida p\u00fablica dos Estados Unidos vem crescendo de maneira impressionante desde o in\u00edcio deste s\u00e9culo: correspondia a cerca de U$ 5 trilh\u00f5es em 2000 e agora em outubro de 2011 se situa em torno de US$ 15 trilh\u00f5es (aumentou tr\u00eas vezes na d\u00e9cada), ou seja, cerca de 100% do PIB. Uma d\u00edvida dessa magnitude n\u00e3o seria grande problema se as circunst\u00e2ncias n\u00e3o fossem as mais sombrias para a economia norte-americana, afinal pa\u00edses como a It\u00e1lia convivem com d\u00e9ficits de mais de 100% do PIB h\u00e1 v\u00e1rios anos. Mas num per\u00edodo de crise sist\u00eamica todos os valores do per\u00edodo anterior passam a ser questionados. O debilitamento da economia, aliada \u00e0 disputa recente entre os republicanos e democratas em rela\u00e7\u00e3o ao teto da d\u00edvida, acendeu o sinal amarelo para os detentores dosT-Bonds, criou um clima de desconfian\u00e7a entre principais agentes econ\u00f4micos, especialmente a China, e dificilmente essa conjuntura ser\u00e1 revertida,\u00a0 em fun\u00e7\u00e3o do agravamento da crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Em termos de perspectiva, os T-Bonds j\u00e1 n\u00e3o podem ser considerados a base das finan\u00e7as mundiais, uma vez que est\u00e3o mais claras uma s\u00e9rie de fissuras na estrutura de domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e financeira dos Estados Unidos. Pela primeira vez em 70 anos, uma ag\u00eancia de classifica\u00e7\u00e3o de risco rebaixou a nota dos t\u00edtulos norte-americanos. Um dos principais fundos privados de investimentos dos Estados Unidos, o PINCO,\u00a0 j\u00e1 colocou os T-Bonds fora do seu portf\u00f3lio. A China, principal credor, discretamente est\u00e1 se desembara\u00e7ando desses t\u00edtulos. E n\u00e3o faz em maior velocidade porque est\u00e1 presa ao destino de seu maior devedor. Caso se desfa\u00e7a rapidamente\u00a0 a crise se aprofundar\u00e1, haver\u00e1 uma grande desvaloriza\u00e7\u00e3o, o que significa tamb\u00e9m preju\u00edzos na mesma propor\u00e7\u00e3o para os chineses. Os bancos centrais dos principais pa\u00edses industrializados est\u00e3o acelerando a compra de ouro, o que tem feito o pre\u00e7o do metal subir vertiginosamente, ao mesmo tempo em reflete a desconfian\u00e7a na capacidade dos EUA de honrar a d\u00edvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Numa conjuntura dessa ordem a tend\u00eancia principal \u00e9 uma cont\u00ednua deteriora\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica financeira do Pa\u00eds e, consequentemente, uma perda de confian\u00e7a dos agentes econ\u00f4micos na capacidade dos Estados Unidos de honrar a d\u00edvida. Quanto mais a conjuntura interna se deteriora (recess\u00e3o, desemprego, crise imobili\u00e1ria, austeridade fiscal, crise nas administra\u00e7\u00f5es locais, crise do d\u00f3lar, crise social) basta uma fagulha, um elemento fortuito, para desencadear a nova onda da crise de grandes propor\u00e7\u00f5es que j\u00e1 est\u00e1 madura no interior do sistema. Uma crise no cora\u00e7\u00e3o do sistema se espalhar\u00e1 pelo conjunto do planeta como um rastilho de p\u00f3lvora, colocando a economia mundial numa situa\u00e7\u00e3o mais explosiva que a de 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A crise do d\u00f3lar como moeda mundial<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A d\u00edvida p\u00fablica dos Estados Unidos e o d\u00f3lar s\u00e3o como irm\u00e3os siameses. Portanto, o destino de um est\u00e1 ligado \u00e0 performance do outro e vice-versa. Por isso, a crise da d\u00edvida contamina o prestigio da moeda norte-america, abala sua credibilidade, consolida um clima de desconfian\u00e7a e abre espa\u00e7o para que os pa\u00edses passem a contestar com mais rigor a hegemonia do d\u00f3lar. Por isso, v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es j\u00e1 prop\u00f5em abertamente a substitui\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar como moeda mundial e instrumento de refer\u00eancia das transa\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">O prestigio de uma moeda \u2013 especialmente uma moeda de reserva internacional \u2013 est\u00e1 umbilicalmente ligado \u00e0 performance da economia que a emite. Desde os acordos de Bretton Woods o d\u00f3lar tem sido a moeda de refer\u00eancia internacional. Mesmo que na d\u00e9cada de 60 alguns pa\u00edses europeus, especialmente a Fran\u00e7a, tenham questionado o privil\u00e9gio norte-americano, mesmo com a desvincula\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar em rela\u00e7\u00e3o ao ouro anunciada por Nixon em 1971, a moeda norte-americana continuou sendo um porto seguro para as reservas internacionais dos Bancos Centrais e para as transa\u00e7\u00f5es do com\u00e9rcio internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">No entanto, com a decad\u00eancia da economia dos Estados Unidos, a emerg\u00eancia da China como pot\u00eancia mundial e o aparecimento do euro como moeda de grande parte dos pa\u00edses da Europa e, especialmente, com a crise sist\u00eamica mundial e o aumento exponencial do endividamento norte-americano, o panorama mudou radicalmente. O que era impens\u00e1vel em tempos de calmaria \u2013 a crise da d\u00edvida e a crise do d\u00f3lar \u2013 hoje \u00e9 uma realidade para grande parte dos agentes econ\u00f4micos. A maior parte dos Bancos Centrais bem que gostariam de se desfazer do d\u00f3lar, mas um movimento brusco dessa ordem levaria a economia mundial ao caos e os pa\u00edses detentores de d\u00f3lares a registrar enormes preju\u00edzos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">O governo norte-americano injetou, desde o in\u00edcio da crise, cerca de US$ 8,5 trilh\u00f5es para salvar os bancos e empresas e lan\u00e7ou dois Quantitative Easing (QE1 e QE2) e agora est\u00e1 com poucascondi\u00e7\u00f5es de lan\u00e7ar um Quantitative Easing 3, porque as medidas tomaram anteriormente reduziram o estoque de a\u00e7\u00f5es do Federal Reserve, at\u00e9 mesmo estas trilion\u00e1rias inje\u00e7\u00f5es de capitais n\u00e3o apresentaram resultados desejados, uma vez que a economia continua em processo de deteriora\u00e7\u00e3o. Essa quantidade de dinheiro em circula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma bomba de efeito retardado para a economia dos Estados Unidos, pois em algum momento isso se refletir\u00e1 em aumento da infla\u00e7\u00e3o e, conseq\u00fcentemente da taxa de juros, o que significa um tiro de miseric\u00f3rdia para qualquer esperan\u00e7a de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Al\u00e9m disso, as a\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias unilaterais geram s\u00e9rios atritos com os aliados, porque inauguram uma esp\u00e9cie de guerra cambial sem nenhuma regula\u00e7\u00e3o. Com a inunda\u00e7\u00e3o de d\u00f3lares sem lastro no mundo, haver\u00e1 uma sobrevaloriza\u00e7\u00e3o das moedas nacionais (e uma desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar) e um impacto negativo nas balan\u00e7as comerciais, pois quanto mais valorizada a moeda nacional menos o Pa\u00eds ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de exportar. Nesse contexto, cada Pa\u00eds procurar\u00e1 tomar as medidas necess\u00e1rias para proteger o seu setor exportador, o que em \u00faltima inst\u00e2ncia tender\u00e1 a desencadear um protecionismo generalizado, um clima de salve-se quem puder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Como os Bancos Centrais n\u00e3o podem se desfazer bruscamente do d\u00f3lar, seguem uma estrat\u00e9gia discreta de diversificar seu portf\u00f3lio, comprando ouro e realizando transa\u00e7\u00f5es comerciais bilaterais em moedas locais (yuan na \u00c1sia, Euro na Europa, Real com alguns pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina) ou realizando fortes investimentos na aquisi\u00e7\u00e3o de ativos reais pelo mundo, como compra de terras na \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina, e empresas lucrativas em v\u00e1rios pa\u00edses, de forma a se desfazer dos d\u00f3lares em carteira. Mas esses movimentos n\u00e3o resolvem o problema central:\u00a0 h\u00e1 mais d\u00f3lares no mundo que os ativos reais norte-americanos possam representar e esse fato em algum momento ser\u00e1 um fator para a contesta\u00e7\u00e3o final do d\u00f3lar como moeda de reserva, como j\u00e1 vem sendo feito pela China, especialmente com o agravamento da crise, afinal uma economia moribunda n\u00e3o pode ter uma moeda de reserva mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">No entanto, a crise n\u00e3o significa que uma outra moeda venha substituir imediatamente o d\u00f3lar, pois este ainda possui um peso grande na economia mundial e o Euro ou o Yuan ainda n\u00e3o est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de substitu\u00ed-lo. Para ser ter uma id\u00e9ia, o d\u00f3lar representava 61% das divisas internacionais, em 2010. Continua a moeda dominante nos mercados cambiais, com 85% das opera\u00e7\u00f5es; Cerca de 45% dos t\u00edtulos das d\u00edvidas dos pa\u00edses s\u00e3o expressos em d\u00f3lar (Eichengreem, 2011). Portanto, numa situa\u00e7\u00e3o de crise, uma solu\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria poder\u00e1 ser a cria\u00e7\u00e3o de uma cesta de moeda compostas por Euro, Yuan, D\u00f3lar, Real, Rublo e DES (Dep\u00f3sitos Especiais de Saque) do FMI. Mas essa solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o impediria a desarticula\u00e7\u00e3o do sistema monet\u00e1rio financeiro montado a partir de 1945.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A crise na Uni\u00e3o Europ\u00e9ia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A Uni\u00e3o Europ\u00e9ia \u00e9 parte integrante do sistema imperialista mundial, especialmente a Alemanha, Fran\u00e7a, Inglaterra e It\u00e1lia, e o velho continente est\u00e1 tamb\u00e9m envolvido profundamente na crise sist\u00eamica global e sofrer\u00e1 conseq\u00fc\u00eancias semelhantes \u00e0s que est\u00e3o atingindo a economia l\u00edder, tendo em vista as interconex\u00f5es entre o grande capital e as opera\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas cruzadas entre as v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es da burguesia dos pa\u00edses centrais. Acrescente-se a isso a identidade destas classes dominantes com o sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico neoliberal, implantado a partir do final da d\u00e9cada de 70, com a elei\u00e7\u00e3o de Margareth Tatcher, na Inglaterra, e Ronald\u00a0 Reagan, nos Estados Unidos, al\u00e9m das pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo europeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A forma\u00e7\u00e3o da zona do euro, sob a orienta\u00e7\u00e3o do Tratado de Maastricht, consolidou uma Europa do capital, no qual as fra\u00e7\u00f5es mais reacion\u00e1rias da burguesia impuseram aos pa\u00edses participantes um conjunto de leis e regras que buscam garantir seus interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos, \u00e0s custas dos trabalhadores e dos povos europeus. Estruturou-se um conjunto de institui\u00e7\u00f5es regidas pelos interesses do grande capital, sob a \u00f3tica neoliberal, mesmo com este j\u00e1 moribundo, uma hierarquia draconiana entre as na\u00e7\u00f5es e um sistema esquizofr\u00eanico onde existe uma moeda \u00fanica sem um Estado para respald\u00e1-la, nem um emprestador de \u00faltima inst\u00e2ncia; com um teto de d\u00e9ficit p\u00fablico formal, irrealista, especialmente em fun\u00e7\u00e3o da crise, e uma assimetria fiscal que torna a gest\u00e3o macroecon\u00f4mica da pol\u00edtica monet\u00e1ria uma lenda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Apesar de ser parte do sistema imperialista mundial, a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia possui um conjunto de singularidades que devem ser levadas em conta na an\u00e1lise desta crise. A primeira \u00e9 a pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do bloco econ\u00f4mico, um processo que vem se consolidando h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas e que criou certa identidade cultural entre os povos. A segunda \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma moeda \u00fanica na zona do euro. Mesmo levando em conta a heterogeneidade das economias, o desenvolvimento desigual e as quest\u00f5es fiscais, o euro rapidamente se constituiu num importante instrumento de reserva dos bancos centrais, representando hoje 21% de todas as reservas em poder dos estados nacionais. Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio desenvolvimento desigual do capitalismo e os interesses dos diversos blocos das burguesias dos pa\u00edses centrais, criam necessariamente disputas entre as fra\u00e7\u00f5es do grande capital da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e as fra\u00e7\u00f5es dominantes do capital da economia l\u00edder e dos outros pa\u00edses imperialistas, o que tem se refletido em decis\u00f5es de pol\u00edtica internacional e na pr\u00f3pria gest\u00e3o da crise europ\u00e9ia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">No entanto, o processo que atinge a Europa e que se expressa atualmente na crise das d\u00edvidas soberanas tem origem tanto nas contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo europeu e seu modelo neoliberal atrelado \u00e0 economia l\u00edder, quanto da op\u00e7\u00e3o dos seus governos em salvar os bancos com recursos p\u00fablicos, cujo resultado levou ao acirramento da crise, com a amplia\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria das d\u00edvidas soberanas. Se observarmos a evolu\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas dos pa\u00edses europeus poderemos ver claramente o impacto fiscal das opera\u00e7\u00f5es de salvamento dos bancos europeus:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A d\u00edvida total dos pa\u00edses da \u00e1rea do euro correspondia a 79,3% do PIB em 2008 e cresceu para 102,4% em 2011. Se observarmos isoladamente os diversos pa\u00edses da Europa, numa hierarquia inversa em fun\u00e7\u00e3o da crise veremos mais precisamente o impacto das opera\u00e7\u00f5es de salvamento dos bancos. A d\u00edvida grega, que em 2008, era de 116,1% do PIB aumentou para 157,1% em junho de 2011. Ad\u00edvida portuguesa aumentou, no mesmo per\u00edodo, de 80,6% do PIB para 110,8%; a da Espanha de 47,4% para 74,8%; a da It\u00e1lia, cresceu de de 115,2 para 129,0%; a da Irlanda de 49,6 para 120,4%; a da Inglaterra de 57% para 88,5%;\u00a0 a da Fran\u00e7a de 77,8 para 97,3%; e a da Alemanha de 69,3 para 87,3%. O Jap\u00e3o, o mais endividado, passou de uma d\u00edvida de 174,1 em 2008 para 212,7% em junho de 2011. Em todos os pa\u00edses, o que se nota \u00e9 um salto extraordin\u00e1rio no endividamento ap\u00f3s a crise (Tabela 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Passivo financeiro dos pa\u00edses centrais em rela\u00e7\u00e3o ao PIB (junho de 2011)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Fonte: OECD \u2013 Economic Outlook. No. 89, 2011<\/p>\n<table style=\"text-align: justify; \" border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p>Pa\u00edses<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>2000<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>2005<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>2008<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>2009<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>2010<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>2011<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>B\u00e9lgica<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>113,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>95,9<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>93,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>100,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>100,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>100,4<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Alemanha<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>60,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>71,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>69,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>76,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>87,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>87,3<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Gr\u00e9cia<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>115,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>121,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>116,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>131,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>147,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>157,1<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Irlanda<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>39,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>32,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>49,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>71,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>102,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>120,4<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>It\u00e1lia<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>121,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>120,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>115,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>127,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>126,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>129,0<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Jap\u00e3o<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>135,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>175,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>174,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>194,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>197,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>212,7<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Portugal<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>60,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>72,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>80,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>93,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>103,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>110,8<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Espanha<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>66,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>50,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>47,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>62,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>66,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>74,8<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Fran\u00e7a<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>65,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>75,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>77,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>89,2<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>94,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>97,3<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Inglaterra<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>45,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>46,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>57,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>72,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>82,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>88,5<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>EUA<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>54,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>61,4<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>71,0<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>84,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>93,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>101,1<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Eurozona<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>75,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>78,1<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>76,5<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>86,9<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>92,7<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>95,6<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p>Total OCDE<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>69,8<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>76,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>79,3<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>90,9<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>97,6<\/p>\n<\/td>\n<td>\n<p>102,4<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify; \">Apesar de a crise expressar mais explicitamente na quest\u00e3o das d\u00edvidas soberanas, esta \u00e9 uma crise do sistema como um todo. Sua express\u00e3o nas d\u00edvidas soberanas \u00e9 apenas a face mais vis\u00edvel da crise sist\u00eamica global na Europa. Um dado importante a ser analisado \u00e9 o fato de que as classes dominantes europ\u00e9ias, mesmo com a experi\u00eancia da primeira onda da crise, continuam insistindo nos velhos m\u00e9todos do passado como se essa crise n\u00e3otivesse caracter\u00edsticas inteiramente diferentes das crises anteriores. O mais grave desta cegueira pol\u00edtica \u00e9 o fato de que est\u00e3o implementando um conjunto de medidaspredat\u00f3rias contra os trabalhadores que ter\u00e3o como conseq\u00fc\u00eancia o aprofundamento da crise, que se espalhar\u00e1 para o conjunto das economias capitalistas; a desagrega\u00e7\u00e3o do sistema financeiro internacional tal como conhecemos hoje; a recess\u00e3o prolongada, o aumento do desemprego e a crise social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Vejamos mais detalhadamente os principais\u00a0 elementos dessa conjuntura explosiva. O ritual \u00e9 mais ou menos o seguinte: parte expressiva dessa d\u00edvida foi incentivada pelos pr\u00f3prios bancos, no seu permanente desejo de lucro f\u00e1cil e sem risco, uma vez que imaginava-se que as d\u00edvidas dos Estados eram um porto seguro para as atividades banc\u00e1rias. Com a crise de 2008, os Estados ampliaram de maneira extraordin\u00e1ria seu endividamento para salvar o sistema banc\u00e1rio da fal\u00eancia. O sistema banc\u00e1rio ganhou sobrevida e imp\u00f4s condi\u00e7\u00f5es financeiras draconianas para os pr\u00f3prios pa\u00edses que lhes salvaram da bancarrota. Os Estados entraram em crise em fun\u00e7\u00e3o do aumento cada vez maior do servi\u00e7o da d\u00edvida. Para garantir seus lucros, o sistema banc\u00e1rio vem pressionando as institui\u00e7\u00f5es e governos europeus para que imponham aos trabalhadores e ao povo em geral ajustes predat\u00f3rios para que possam pagar a d\u00edvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Vale ressaltar que a troika\u00a0 (Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, Banco Central Europeu e FMI) tem se comportado nesta crise como uma junta de representantes do grande capital. No entanto, as medidas tomadas at\u00e9 gora, tais como a cria\u00e7\u00e3o do fundo de resgate, empr\u00e9stimos bilion\u00e1rios ao sistema banc\u00e1rio, os torniquetes econ\u00f4micos impostos a pa\u00edses como a Gr\u00e9cia, Irlanda e Portugal, n\u00e3o foram suficientes para resolver a crise, pelo simples fato de que a crise sist\u00eamica que envolve o mundo capitalista n\u00e3o pode ser resolvida com medidas paliativas. Essas medidas apenas adiam o desfecho do processo. Se observarmos o tamanho das d\u00edvidas soberanas e os recursos que est\u00e3o sendo organizados para resgatar as economias de um poss\u00edvel colapso, poderemos constatar que s\u00e3o absolutamente irrelevantesdiante da dimens\u00e3o do problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">De fato, as d\u00edvidas soberanas dos pa\u00edses da zona do euro, conforme podemos observar na tabela, s\u00e3o inadministr\u00e1veis, pois grande parte desses d\u00e9bitos ultrapassam 100% do PIB. Numa conjuntura de crescimento econ\u00f4mico, as d\u00edvidas poderiam ir sendo roladas sem grandes problemas, desde que n\u00e3o ultrapassassem certos limites. No entanto numa conjuntura de crise, com recess\u00e3o generalizada, desemprego, queda no consumo e\u00a0 na arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria, a tend\u00eancia \u00e9 o aprofundamento da crise, fato que se concretizar\u00e1 \u00e0 medida em que o primeiro Pa\u00eds se declarar inadimplente, mesmo que este Pa\u00eds n\u00e3o tenha grande express\u00e3o econ\u00f4mica, tendo em vista a estreita rela\u00e7\u00e3o entre o endividamento e os bancos da zona do euro. Os chamados mercados entrar\u00e3o em p\u00e2nico, contagiando todas as outras d\u00edvidas e se instalar\u00e1 o caos econ\u00f4mico, um clima de salva-se quem puder, o que tamb\u00e9m atingir\u00e1 em cheio a economia norte-americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Por falar na rela\u00e7\u00e3o bancos europeus-d\u00edvidas soberanas, \u00e9 necess\u00e1rio ressaltar que os bancos do velho continente est\u00e3o profundamente envolvidos nesse processo e foram part\u00edcipes art\u00edfices doendividamento p\u00fablico. Em termos concretos, os bancos da Europa t\u00eam em carteira\u00a0 3 trilh\u00f5es de euros em t\u00edtulos da d\u00edvida soberana,\u00a0 representando quase 8% de seus ativos totais, o que por si s\u00f3 d\u00e1 uma id\u00e9ia da dimens\u00e3o do problema. Se levarmos conta que a crise de 2008 levou \u00e0 nacionaliza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios conglomerados financeiros europeus, imaginem o que poder\u00e1 acontecer ao sistema banc\u00e1rio se ocorrer uma onde de calote soberano n\u00e3o apenas na Gr\u00e9cia, Portugal ou Irlanda, mas em pa\u00edses como Espanha ou It\u00e1lia ou mesmo a Fran\u00e7a?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A cegueira do grande capital e seus representantes pol\u00edticos diante da crise \u00e9 tamanha que agora eles resolveram, num gesto desesperado, deixar de lado as apar\u00eancia e intervir diretamente nos pa\u00edses com crises mais expl\u00edcitas e exercer diretamente o poder pol\u00edtico nas institui\u00e7\u00f5es e governos da regi\u00e3o. \u00c9 o caso dos pr\u00f3-consules da Goldman Sachs que assumiram o poder na Europa. Ferina ironia: os homem que fabricaram a crise est\u00e3o agora comandando o poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico na Europa. Sob a prote\u00e7\u00e3o da manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, que os apresenta como um \u201cgoverno t\u00e9cnico\u201d, eles est\u00e3o encarregados de implementar o trabalho sujo, que consiste em saquear as economias nacionais, privatizar o patrim\u00f4nio p\u00fablico, aumentar os impostos, ampliar o desemprego, cortar os sal\u00e1rios, as pens\u00f5es, reduzir o padr\u00e3o de vida dos povos para satisfazer o apetite voraz do capital financeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Vejamos quem s\u00e3o esses personagens: M\u00e1rio Draghi, antigo vice-presidente e membro do Comit\u00ea de Administra\u00e7\u00e3o da Goldman Sachs, que tinha como uma de suas fun\u00e7\u00f5es vender swaps aos pa\u00edses europeus, agora \u00e9 presidente do Banco Central Europeu (BCE); Mario Monti, ex-presidente da Comiss\u00e3o Trilateral, do grupo Bilderberg, tamb\u00e9m assessor internacional da Goldman, agora \u00e9 o principal dirigente pol\u00edtico da It\u00e1lia; Lucas Papademos, ex-governador do Banco Central Grego, participou das opera\u00e7\u00f5es de falsifica\u00e7\u00e3o das contas do Pa\u00eds a servi\u00e7o da Goldman, agora \u00e9 o l\u00edder pol\u00edtico da Gr\u00e9cia; al\u00e9m de outros personagens influentes na Europa e que participam da rede da Goldman na regi\u00e3o<a name=\"0.1__ftnref13\"><\/a><a href=\"https:\/\/mail-attachment.googleusercontent.com\/attachment\/u\/0\/?ui=2&amp;ik=75175ffdb2&amp;view=att&amp;th=13900dd23a69e4db&amp;attid=0.1&amp;disp=vah&amp;realattid=f_h5e0gjno0&amp;zw&amp;saduie=AG9B_P9DBtEWrPkCEY2j2tzmrbxY&amp;sadet=1344347304105&amp;sads=hvb4wzXus4ddTXEiXm293xhBnXM#0.1__ftn13\">[13]<\/a>. Em rela\u00e7\u00e3o a esses personagens, vale o que disse certa vez Alessio Rastani, ex-trader, numa entrevista \u00e0 BBC que chocou os mais desavisados; \u201cOs pol\u00edticos n\u00e3o governam o mundo. A Goldman Sachs governa o mundo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Essa a\u00e7\u00e3o desesperada do grande capital na Europa pode ser o canto dos cisnes antes da tempestade, mas vale uma advert\u00eancia: a a\u00e7\u00e3o ousada do capital representa um perigo para o padr\u00e3o de vida n\u00e3o apenas dos trabalhadores e da popula\u00e7\u00e3o em geral, mas para a pr\u00f3pria democracia, pois a burguesia, em sua busca desesperada para sair da crise n\u00e3o apenas vem colocando todo o custo da crise na conta dos trabalhadores, como tamb\u00e9m n\u00e3o hesitar\u00e1 em atropelar a democracia e criar um clima de terra arrasada, caos, instabilidade, para atingir seus objetivos, instalando governos de car\u00e1ter fascistas, como ocorreu na Alemanha e It\u00e1lia na d\u00e9cada de 30, com as conseq\u00fc\u00eancias que todos conhecemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A luta de classes mudou de patamar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Mas um fen\u00f4meno novo vem ocorrendo nesta conjuntura, que \u00e9 a emerg\u00eancia das lutas sociais em praticamente todas as regi\u00f5es do planeta. Ainda embrion\u00e1rias, com certo grau de espontane\u00edsmo, sem uma vanguarda com capacidade de construir um projeto alternativo ao do capital, as lutas de massas mudaram de patamar. Na primeira onda, a crise n\u00e3o teve uma resposta contundente dos trabalhadores, em termos de lutas sociais. Tomados de surpresa pela intensidade da crise, sem uma dire\u00e7\u00e3o que as orientasse no sentido da combatividade de classe, fragmentados em fun\u00e7\u00e3o da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, do refluxo que caracterizou as tr\u00eas d\u00e9cadas de neoliberalismo e da ofensiva contra o movimento sindical e os direitos dos trabalhadores operados pelos sucessivos governos neoliberais, os trabalhadores praticamente se comportaram como coadjuvantes diante da crise mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">O grande capital, tamb\u00e9m tomado de surpresa pela intensidade da crise, buscou num primeiro momento resolver os problemas injetando uma quantidade extraordin\u00e1ria de recursos na \u00e1rea financeira,visando\u00a0 evitar o colapso do sistema. No entanto, t\u00e3o logo foram aliviados os sintomas mais perversos da crise, o grande capital se estruturou em n\u00edvel internacional, especialmente nos pa\u00edses centrais,para colocar todo o \u00f4nus da crise na conta dos trabalhadores, com medidas draconianas, impens\u00e1veis h\u00e1 poucos anos atr\u00e1s, buscando aplicar aos trabalhadores uma derrota hist\u00f3rica, condi\u00e7\u00e3o essencial para recuperar as taxas de lucros, disciplinar a classe oper\u00e1ria, sair da crise e organizar a economia em novo patamar, de acordo com seus interesses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Mas, ao contr\u00e1rio do que imaginam os gestores do capital, essas medias predat\u00f3rias podem at\u00e9 apresentar algum resultado no curto prazo, mas \u00e9 uma bomba de efeito retardado no m\u00e9dio prazo, uma vez que provocar\u00e3o queda na atividade econ\u00f4mica, desemprego, queda na renda e no consumo e, portanto, mais recess\u00e3o e mais crise. Realizar os ajustes draconianos em n\u00edvel global, como est\u00e1 sendo feito na Europa, levar\u00e1 o mundo a uma depress\u00e3o prolongada, maior que na crise de 1930, e a um levante social tamb\u00e9m de car\u00e1ter global. Uma coisa \u00e9 implementar essas medidas em pa\u00edses em que a mis\u00e9ria \u00e9 parte da vida cotidiana das pessoas. Outra, \u00e9 realizar essas medidas nos pa\u00edses onde as conquistas sociais j\u00e1 faziam parte do cotidiano da sociedade. A rea\u00e7\u00e3o nessas sociedades pode ser muito maior, mais organizada, at\u00e9 mesmo porque as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito mais avan\u00e7adas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Conforme advert\u00edamos em nosso primeiro artigo<a name=\"0.1__ftnref14\"><\/a><a href=\"https:\/\/mail-attachment.googleusercontent.com\/attachment\/u\/0\/?ui=2&amp;ik=75175ffdb2&amp;view=att&amp;th=13900dd23a69e4db&amp;attid=0.1&amp;disp=vah&amp;realattid=f_h5e0gjno0&amp;zw&amp;saduie=AG9B_P9DBtEWrPkCEY2j2tzmrbxY&amp;sadet=1344347304105&amp;sads=hvb4wzXus4ddTXEiXm293xhBnXM#0.1__ftn14\">[14]<\/a>, a crise torna a burguesia mais agressiva e evidencia de maneira mais clara os projetos do capital para resolver os problemas oriundos da crise. Do ponto de vista militar, pode-se constatar claramente uma ofensiva do imperialismo no sentido para fomentar interven\u00e7\u00f5es militares e guerras em v\u00e1rias regi\u00f5es, como os casos recentes da L\u00edbia, da S\u00edria e do Ir\u00e3. Do ponto de vista econ\u00f4mico h\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o articulada do capital no sentido de avan\u00e7ar sobre as finan\u00e7as do Estado, bem como sobre os direitos e garantias dos trabalhadores e, do ponto de vista pol\u00edtico, o capital vai cada vez mais tirando a m\u00e1scara e impondo aos povos governos diretamente geridos pelos representantes do capital, cujas a\u00e7\u00f5es vem sendo realizadas no sentido de suprimir as pr\u00f3prias liberdades democr\u00e1ticas t\u00edpicas dos tempos de calmaria do capitalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Diante desse quadro, os trabalhadores v\u00e3o tomando consci\u00eancia da conjuntura num processo de aprendizado mais r\u00e1pido que nos tempos de calmaria. A partir do momento em que os governos come\u00e7aram a tomar medidas concretas contra seus direitos e garantias, como no caso atual da Europa, a crise abre espa\u00e7o para a emerg\u00eancia da luta popular, os trabalhadores e a popula\u00e7\u00e3o come\u00e7am a sair \u00e0s ruas em resist\u00eancia aos ajustes, v\u00e3o perdendo o medo, reorganizando suas for\u00e7as e a luta de classes se intensifica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Conforme ainda afirm\u00e1vamos no mesmo artigo, a crise iria abrir a possibilidade de uma retomada da luta de massas em car\u00e1ter mundial, especialmente nos pa\u00edses centrais. \u201cOs desdobramentos desta crise v\u00e3o atingir profundamente os trabalhadores em termos de emprego e de renda e v\u00e3o acirrar a luta de classes nos pa\u00edses centrais e na periferia. Ao contr\u00e1rio do senso comum e de muitos companheiros da esquerda, n\u00f3s achamos que o potencial da classe oper\u00e1ria e dos trabalhadores em geral \u00e9 muito mais forte nos pa\u00edses centrais que na periferia, pois \u00e9 exatamente nos pa\u00edses centrais onde se encontra a classe oper\u00e1ria mais avan\u00e7ada do ponto de vista das for\u00e7as produtivas e o capitalismo mais maduro. Portanto, \u00e9 o teatro de opera\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1vel para a luta de classes que nos pa\u00edses atrasados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Essa nossa an\u00e1lise continua v\u00e1lida para este momento hist\u00f3rico, muito embora a luta de classes n\u00e3o tenha ainda atingido, da mesma maneira que na Europa, o cora\u00e7\u00e3o da economia l\u00edder, os Estados Unidos. Se observarmos o desenvolvimento da luta de classes em car\u00e1ter mundial desde 2008, poderemos constatar que ocorreu uma mudan\u00e7a de qualidade em praticamente todos os continentes. Poucas pessoas imaginariam a queda dos regimes da Tun\u00edsia, do Egito, do I\u00eamen e as lutas ainda em curso dos povos \u00e1rabes e do norte da \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio contra os sistemas tir\u00e2nicos nessas regi\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Na Europa, onde o ajuste predat\u00f3rio promovido pelo capital \u00e9 mais forte, tem ocorrido lutas em todos os pa\u00edses e, em muito deles, como na Gr\u00e9cia, se aproxima de insurrei\u00e7\u00e3o popular. At\u00e9 mesmo nos Estados Unidos ocorreram v\u00e1rias lutas sociais, em v\u00e1rios Estados, e um importante movimento social, o Ocuppy Wall Street, pode ter um desdobrando muito grande no futuro pr\u00f3ximo. Na Am\u00e9rica Latina, as lutas sociais tamb\u00e9m est\u00e3o ocorrendo de maneira efetiva, apesar de a regi\u00e3o n\u00e3o ter sofrido o impacto da crise da mesma forma como ocorreu nos pa\u00edses centrais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">At\u00e9 agora, no entanto, a resist\u00eancia popular \u00e0 ofensiva do capital n\u00e3o tem sido realizada de forma organizada na maioria dos pa\u00edses. Isso se deve ao fato de que, em fun\u00e7\u00e3o da crise do socialismo, com a queda da URSS, ocorreu uma desagrega\u00e7\u00e3o generalizada pol\u00edtica, org\u00e2nica e ideol\u00f3gica dos comunistas,\u00a0 o que afetou de maneira profunda o curso da luta de classe em n\u00edvel mundial. Mas a crise \u00e9 um fen\u00f4meno objetivo e se desenvolve independentemente da vontade das pessoas. Como a crise vai se aprofundar, o capital tamb\u00e9m vai procurar de todas as formas aprofundar o ajuste em car\u00e1ter mundial, o que ampliar\u00e1 a resposta dos trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">O futuro em disputa<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">A crise, por sua profundidade, dimens\u00e3o e ofensiva do capital, comp\u00f5e um labirinto de possibilidades tanto para o capital quanto para os trabalhadores. As crises em geral e as crises sist\u00eamicas em particular, significam a hora da verdade da luta de classes. As classes fundamentais, burguesia e proletariado, entram em disputa aberta mesmo que a luta aparentemente n\u00e3o se torne expl\u00edcita. Cada classe vai medir for\u00e7as para implementar seu projeto de acordo com seus interesses e quando mais a crise se estender, maior ser\u00e1 o acirramento da luta de classes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Neste momento o capital est\u00e1 na ofensiva pol\u00edtica, militar e econ\u00f4mica, mas seu calcanhar de Aquiles \u00e9 a pr\u00f3pria crise econ\u00f4mica que n\u00e3o consegue resolver. Conforme assinal\u00e1vamos, a crise se desenvolve em tr\u00eas patamares, a saber: a crise econ\u00f4mica, que leva \u00e0 crise social, que se os problemas n\u00e3o forem resolvidas leva \u00e0 crise pol\u00edtica. A crise econ\u00f4mica e a crise social est\u00e3o na ordem do dia e a crise pol\u00edtica \u00e9 o pr\u00f3ximo momento da crise sist\u00eamica global, quando ocorrer a desarticula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria financeira global e um ambiente de salve-se quem puder, com novas quebras financeiras, protecionismo, amplia\u00e7\u00e3o da guerra cambial, ditadura aberta do capital e emerg\u00eancia do movimento social em fun\u00e7\u00e3o da desarticula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do poder do capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Nada est\u00e1 descartado num ambiente de crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica do capital, nem mesmo um governo ao estilo fascista como na d\u00e9cada de 30 na Europa, nem a revolu\u00e7\u00e3o social. As crises funcionam como parteiras de uma nova \u00e9poca tanto para a burguesia quanto para o proletariado. Em fun\u00e7\u00e3o da crise e das lutas sociais, pode iniciar-se um per\u00edodo de repress\u00e3o aberta contra os trabalhadores, sob o pretexto de manter a lei, a ordem e a estabilidade econ\u00f4mica. Mas tamb\u00e9m pode ocorrer uma resposta\u00a0 dos trabalhadores muito maior do que se imaginava no in\u00edcio da crise. Vale lembrar que as crises levam a um aprendizado acelerado das massas. Setores que antes pareciam adormecidos, irrompem na cena pol\u00edtica de maneira inesperada, h\u00e1 uma mudan\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es subjetivas de sua organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">Isso n\u00e3o significa que toda crise sist\u00eamica gere fascismo ou revolu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o apenas possibilidades. Mas a luta entre capital e trabalho em car\u00e1ter mundial est\u00e1 num outro patamar. O mundo que emergir\u00e1 ap\u00f3s a crise ser\u00e1 muito diferente da ordem estruturada em Bretton Woods. N\u00e3o se pode prever qual ser\u00e1 a classe vitoriosa nesse processo que se abriu com a crise de 2008, mas a constru\u00e7\u00e3o de um mundo futuro ser\u00e1 resultado do embate que as duas classes fundamentais travar\u00e3o ao longo da crise sist\u00eamica global.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; \">*Edmilson Costa \u00e9 doutor em economia pela Unicamp, com p\u00f3s-doutorado no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 professor universit\u00e1rio e autor de Imperialismo(Global, 2007), A Pol\u00edtica Salarial no Brasil (Boitempo, 1997) A Globaliza\u00e7\u00e3o e o Capitalismo Contempor\u00e2neo (Express\u00e3o Popular, 2008), al\u00e9m de v\u00e1rios ensaios publicados no Brasil e exterior. \u00c9 membro do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n<p>Bibliografia<\/p>\n<p>DEPARTMENT of COMMERCE. Bureal of the Census and Bureau of Economic Analysis, Table B, 106, 2011.<\/p>\n<p>CAMPOS, Lauro. A Crise Completa \u2013 A economia pol\u00edtica do N\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial<\/p>\n<p>COGGIOLA, Oswaldo. As Grandes Depress\u00f5es, 1873-1986; 1929-1939. S\u00e3o Paulo: Alameda, 2009.<\/p>\n<p>COSTA, Edmilson. A Crise Econ\u00f4mica Mundial e as Perspectivas do Capitalismo. S\u00e3o Paulo: Novos Temas, No. 1, 2009.<\/p>\n<p>_____________ A Globaliza\u00e7\u00e3o Neoliberal e as Novas Dimens\u00f5es do Capitalismo. Tese de P\u00f3s-Doutoramento. IFCH-Unicamp, 2002.<\/p>\n<p>DOBB, Maurice. A Evolu\u00e7\u00e3o do Capitalismo. Rio de Janeiro: LTC, 2009.<\/p>\n<p>EYCHENGREEN, Barry. Privil\u00e9gio exorbitante. Rio de Janeiro: Campus, 2011.<\/p>\n<p>ENGELS, Friedrick. Nota de rodap\u00e9. Vol. II de O capital. S\u00e3o Paulo: Abril Culural, 1983.<\/p>\n<p>ECONOMIC OUTLOOK. OCDE, No. 89. Annex Table, 32. General government financial liabilities, 2011.<\/p>\n<p>MCNICHOL, E; OLIFF, P. JOHNSON, N. States Continue to Feel Recession\u00b4s Impact. Center Budget and Policy Priorities. USA: Table 4, March, 2012.<\/p>\n<p>MARX, Karl; ENGELS, Friedrick. Manifesto Comunista. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 1998.<\/p>\n<p>MARX, Karl. Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2007.<\/p>\n<p>MICHALET, Charles Albert. Capitalismo Mundial. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1983.<\/p>\n<p>OECD. Economic Outlook, No. 89, 2011.<\/p>\n<p>ROUBINI, Nouriel; MIHM, Stephen. A Economia das Crises \u2013 Um curso rel\u00e2mpago sobre o futuro do sistema financeiro internacional. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2010.<\/p>\n<p>Cr\u00e9dito: a ilustra\u00e7\u00e3o \u00e9 do s\u00edtio\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">resistir.info<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p>[1] Karl Marx. Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica, pag. 6. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2003.<\/p>\n<p>[2] Karl Marx. Manifesto Comunista, pg. 45. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 1998.<\/p>\n<p>[3] Engels, Friedrich. Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do capital. Volume I, pg 33. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983.<\/p>\n<p>[4] Engels, Friedrich. O capital. Vol. II. Pg. 28. S\u00e3o Paulo: Abril cultural, 1983.<\/p>\n<p>[5] Roubini, N. Mihm, S. A economia das crises \u2013 Um curso rel\u00e2mpago sobre o futuro do sistema financeiro internacional. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2010.<\/p>\n<p>[6] Coggiola. O. As Grandes Depress\u00f5es, 1873-1896\u00a0 &#8211; 1929-1939, pag. 72-3. S\u00e3o Paulo: Alameda, 2009.<\/p>\n<p>[7] Dobb, M. A Evolu\u00e7\u00e3o do Capitalismo, 9\u00ba. Ed., pag. 300. Rio de Janeiro: LTC, 2009.<\/p>\n<p>[8] Coggiola, O. As Grandes Depress\u00f5es \u2013 1876-18796 \u2013 1929-1939, pag. 73-73. S\u00e3o Paulo: Alameda, 2009.<\/p>\n<p>[9] A extra\u00e7\u00e3o do valor fora das fronteiras nacionais foi abordada anteriormente por Michalet, em seu livro capitalismo mundial (Paz e Terra, 1984), muito embora aquela an\u00e1lise n\u00e3o se referisse \u00e0 quest\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>[10] A crise completa do sistema capitalista foi desenvolvida por Lauro Campos\u00a0 (A crise completa \u2013 a economia pol\u00edtica do n\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2001), muito embora o autor n\u00e3o estivesse se referindo especificamente \u00e0 crise sist\u00eamica global em curso.<\/p>\n<p>[11] Costa, Edmilson. A crise mundial do capitalismo e as perspectivas dos trabalhadores. Resistir.info, 5 de fevereiro de 2009.<\/p>\n<p>[12] Trata-se da tese de p\u00f3s-doutoramento que elaboramos em 2002 no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Unicamp.<\/p>\n<p>[13] Peter Chistodoulos, hoje administrador da d\u00edvida p\u00fablica grega, tamb\u00e9m ex-presidente do Banco Nacional da Gr\u00e9cia e ex-trade da Golman, tamb\u00e9m participou da maquiagem das contas gregas para favorecer a Goldman; Ottmar Issing, ex-presidente do Bundesbank e conselheiro internacional as Goldman; Peter Sutherland, ex-presidente da Goldman Internacional, e ex-integrante da Comiss\u00e3o de Competi\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia; e at\u00e9 mo criar dos BRICS, Peter O\u00b4Neil, influente personagem na formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas econ\u00f4micas atuais, tamb\u00e9m \u00e9 um homem da Goldman, pois presidiu a Goldman Sachs Asset Management.<\/p>\n<p>[14] Trata-se do artigo\u00a0 \u201cA crise mundial do capitalismo e a perspectiva dos trabalhadores\u201d, publicado inicialmente em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">resistir.info<\/a> e depois reproduzido em centenas de sites, blogs de v\u00e1rios pa\u00edses e, posteriormente na revista Novos Temas, do Instituto Caio Prado Junior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nEdmilson Costa*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3298\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3298","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Rc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3298","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3298"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3298\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3298"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3298"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3298"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}