{"id":33119,"date":"2025-09-02T20:39:06","date_gmt":"2025-09-02T23:39:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33119"},"modified":"2025-09-02T20:39:06","modified_gmt":"2025-09-02T23:39:06","slug":"as-relacoes-entre-a-faria-lima-e-o-crime-organizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33119","title":{"rendered":"As rela\u00e7\u00f5es entre a Faria Lima e o crime organizado"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33120\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33119\/faria-lima-pcc\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Faria-Lima-PCC.png?fit=688%2C387&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"688,387\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Faria-Lima-PCC\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Faria-Lima-PCC.png?fit=688%2C387&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-33120\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Faria-Lima-PCC.png?resize=688%2C387&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"688\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Faria-Lima-PCC.png?w=688&amp;ssl=1 688w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Faria-Lima-PCC.png?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 688px) 100vw, 688px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Edmilson Costa<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Federal, o Minist\u00e9rio P\u00fablico e a Receita Federal realizaram na semana passada uma das maiores opera\u00e7\u00f5es policiais da hist\u00f3ria brasileira, com o objetivo de desbaratar as rela\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas entre a oligarquia financeira estabelecida na avenida Faria Lima, em S\u00e3o Paulo, e uma das fac\u00e7\u00f5es do crime organizado representada pelo Primeiro Comando da Capital, o PCC. Para se ter uma ideia da dimens\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o, basta dizer que a investiga\u00e7\u00e3o mobilizou 1.400 agentes da Pol\u00edcia Federal, cumpriu 350 mandados de busca em oito Estados (S\u00e3o Paulo, Esp\u00edrito Santo, Goi\u00e1s, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Paran\u00e1, Rio de Janeiro e Santa Catarina) e emitiu ordem de pris\u00e3o para 14 pessoas, das quais seis est\u00e3o presas e as outras ainda se encontram foragidas. O dado surpreendente para muitos foi a liga\u00e7\u00e3o estreita entre o crime organizado e os senhores de colarinho branco da oligarquia financeira. As revela\u00e7\u00f5es da investiga\u00e7\u00e3o indicaram que 42 empresas da Faria Lima estavam envolvidas numa engrenagem criminosa, entre as quais fintechs, corretores, gestoras de ativos e bancos, que movimentaram para o PCC cerca de R$ 52 bilh\u00f5es num esquema sofisticado que utilizava a engrenagem financeira, como fundos de investimentos, para ocultar o dinheiro de origem il\u00edcita.<\/p>\n<p>A narrativa dominante nos meios de comunica\u00e7\u00e3o sempre tratou a criminalidade como um problema oriundo das periferias e favelas, envolvendo jovens pobres e pretos, com o intuito de refor\u00e7ar o estigma das comunidades pobres como regi\u00f5es perigosas. Tudo isso para justificar a viol\u00eancia policial contra a popula\u00e7\u00e3o dessas regi\u00f5es. Entretanto, a Opera\u00e7\u00e3o Carbono Oculto deixou evidente o que sempre se suspeitava, ou seja, o verdadeiro crime organizado faz parte de uma engrenagem controlada por banqueiros, executivos, gestores de fundos de investimentos e respeit\u00e1veis consultorias, al\u00e9m de grandes escrit\u00f3rios de advocacia e contabilidade. S\u00e3o estes senhores os respons\u00e1veis por estruturar sofisticados esquemas de evas\u00e3o de divisas, sonega\u00e7\u00f5es bilion\u00e1rias, aberturas de offshores e agora lavagem expl\u00edcita de dinheiro de fac\u00e7\u00f5es criminosas. Mas \u00e9 bom lembrar que esses engravatados n\u00e3o operam sozinhos: se articulam com setores do executivo, do legislativo e at\u00e9 do judici\u00e1rio, numa engrenagem requintada para naturalizar a corrup\u00e7\u00e3o e blindar a impunidade, tudo isso legitimado pela m\u00eddia corporativa.<\/p>\n<p>Tais acontecimentos n\u00e3o podem ser avaliados como casos excepcionais, mas como um mecanismo estrutural vinculado \u00e0s pol\u00edticas neoliberais. Com a desregulamenta\u00e7\u00e3o da economia, o sistema financeiro ganhou uma autonomia quase absoluta para criar os chamados novos produtos financeiros, processo que abriu espa\u00e7o n\u00e3o s\u00f3 para o frenesi especulativo, mas tamb\u00e9m para a constru\u00e7\u00e3o de estruturas de lavagem de dinheiro e oculta\u00e7\u00e3o patrimonial, al\u00e9m de um esquema de poder paralelo capaz de ditar pol\u00edticas p\u00fablicas, influenciar elei\u00e7\u00f5es e vota\u00e7\u00f5es no Congresso e manipular muitas decis\u00f5es do judici\u00e1rio. Grandes escrit\u00f3rios de advocacia e contabilidade criam mecanismos legais e de planejamento tribut\u00e1rio para burlar o fisco, e o Estado aprova leis para facilitar a aplica\u00e7\u00e3o de recursos em offshores e para\u00edsos fiscais, com aus\u00eancia de tributa\u00e7\u00e3o de lucros e dividendos para beneficiar essa oligarquia parasit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O grande diferencial que se pode observar entre as a\u00e7\u00f5es contra a m\u00e1fia de casaca e os avi\u00f5ezinhos do varejo das comunidades perif\u00e9ricas \u00e9 a forma como o Estado atua nesses casos. Nas periferias e favelas a pol\u00edcia chega com todo aparato b\u00e9lico, como tanques, helic\u00f3pteros, fuzis autom\u00e1ticos, bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Invade resid\u00eancias, atira primeiro para perguntar depois e nessas opera\u00e7\u00f5es mata n\u00e3o s\u00f3 pequenos delinquentes, mas tamb\u00e9m muitas crian\u00e7as e pessoas inocentes. Muitas vezes os policiais se alegram ao expor na m\u00eddia os cad\u00e1veres dos jovens mortos. Nas opera\u00e7\u00f5es contra os ladr\u00f5es de casaca tudo \u00e9 diferente: n\u00e3o h\u00e1 manchete estampando seus rostos em hor\u00e1rio nobre, nem c\u00e2meras acompanhando suas fam\u00edlias desesperadas e humilhadas. Pelo contr\u00e1rio: s\u00e3o tratados com delicadeza e a pol\u00edcia quase pede licen\u00e7a antes de entrar nos escrit\u00f3rios chiques desses senhores. N\u00e3o se veem chutes nas portas nem tiros de fuzil, afinal o aparato repressivo foi moldado para tratar com rigor os pobres e com cortesia os banqueiros, executivos, pol\u00edticos e burgueses em geral, pois estes s\u00e3o parceiros respeit\u00e1veis mesmo quando est\u00e3o envolvidos em crimes bilion\u00e1rios, evas\u00e3o fiscal, corrup\u00e7\u00e3o ativa ou lavagem de dinheiro do crime, como ocorreu com os bandidos de colarinho branco da Faria Lima.<\/p>\n<p>Como operava a cadeia de crimes<\/p>\n<p>O PCC estruturou uma cadeia empresarial com postos de gasolina, fazendas de a\u00e7\u00facar, usinas de \u00e1lcool, padarias e lojas de conveni\u00eancia, al\u00e9m do tr\u00e1fico de drogas. Vale a pena listar aquilo que at\u00e9 agora as investiga\u00e7\u00f5es descobriram: o PCC \u00e9 propriet\u00e1rio de quatro usinas produtoras de \u00e1lcool, 1.600 caminh\u00f5es de transporte de combust\u00edvel, seis fazendas no interior de S\u00e3o Paulo, um terminal portu\u00e1rio e uma mans\u00e3o de R$ 13 milh\u00f5es na Bahia. Um dos neg\u00f3cios mais rent\u00e1veis era realizado na \u00e1rea de combust\u00edvel: empresas importavam combust\u00edvel com dinheiro do tr\u00e1fico, que depois era adulterado e distribu\u00eddo para postos de gasolina dos diversos Estados. Os recursos obtidos com a venda do combust\u00edvel eram recebidos pelas fintechs e misturados com recursos legais de outros clientes numa conta \u00fanica, as chamadas contas bols\u00e3o, o que tornava muito dif\u00edcil o rastreamento do dinheiro il\u00edcito. Posteriormente, os recursos eram direcionados a fundos de investimentos administrados ou geridos por organiza\u00e7\u00f5es da Faria Lima.<\/p>\n<p>Para compreendermos esse esc\u00e2ndalo, \u00e9 importante tamb\u00e9m sumariar rapidamente o significado das fintechs. Essas empresas surgiram com o objetivo de modernizar e supostamente democratizar o sistema financeiro, mediante servi\u00e7os digitais inovadores, com baixo custo e acesso facilitado. Diferentemente dos bancos tradicionais, as fintechs operam com pouca estrutura f\u00edsica e totalmente digitais, com abertura de contas empresariais e pessoais sem an\u00e1lise detalhada ou checagem dos clientes, o que cria oportunidades para a infiltra\u00e7\u00e3o do crime organizado, como a investiga\u00e7\u00e3o recente identificou. Por meio de aplicativos, oferecem contas digitais, cart\u00f5es de cr\u00e9dito, pagamentos instant\u00e2neos, investimentos, cr\u00e9dito e at\u00e9 neg\u00f3cios com criptomoedas. Esse sistema facilita opera\u00e7\u00f5es nas quais os recursos passam por diversas camadas de contas digitais, carteiras e plataformas, tornando dif\u00edcil rastrear opera\u00e7\u00f5es de origem il\u00edcita. Muitas vezes as fintechs funcionam como uma esp\u00e9cie de banco paralelo digital, um terreno f\u00e9rtil para a atua\u00e7\u00e3o de criminosos.<\/p>\n<p>Com esse mecanismo altamente sofisticado, a oligarquia financeira da Faria Lima transformava o dinheiro sujo em ativos aparentemente leg\u00edtimos, como fundos de investimentos, participa\u00e7\u00e3o em empresas, compra de im\u00f3veis, fazendas, entre outros. O elo entre o dinheiro do crime e o sistema financeiro era operado por meio de laranjas, tais como empres\u00e1rios fict\u00edcios, familiares de integrantes da fac\u00e7\u00e3o criminosa e mesmo profissionais do ramo que atuavam como testas de ferro. Abriam contas nas fintechs, apareciam como s\u00f3cios, movimentavam recursos, mas tudo isso efetivamente controlado pelo PCC. Os laranjas tamb\u00e9m cumpriam o papel de empreendedores para a expans\u00e3o patrimonial, como controle de cotas de fundos de investimentos e outros tipos de propriedades. O mais ir\u00f4nico de tudo isso \u00e9 que muitas vezes esses bens eram utilizados como garantia para outras opera\u00e7\u00f5es financeiras, o que ampliava ainda mais o entrela\u00e7amento entre o mercado financeiro e a fac\u00e7\u00e3o criminosa.<\/p>\n<p>De acordo com as investiga\u00e7\u00f5es, cerca de 40 empresas da \u00e1rea da Faria Lima est\u00e3o envolvidas no esquema de lavagem de dinheiro do PCC (Tabela 1) e, entre 2020 e 2024 movimentaram cerca de R$ 52 bilh\u00f5es, ou 13 bilh\u00f5es por ano, funcionando em termos pr\u00e1ticos como verdadeiros bancos paralelos a servi\u00e7o do crime. Ou seja, as fintechs operavam como a porta de entrada da cadeia de recursos controlados pelo PCC, que depois eram reciclados e compensados pela m\u00e1fia de colarinho branco aparentemente sem despertar suspeitas das autoridades regulat\u00f3rias. Dessa forma, formava-se uma simbiose estrutural entre o dinheiro do crime e o cora\u00e7\u00e3o do sistema financeiro, alimentando um circuito perverso e uma engrenagem cuidadosamente constru\u00edda de maracutaias bilion\u00e1rias, onde caminhavam juntos o crime contra a economia popular, a sonega\u00e7\u00e3o de impostos, o enriquecimento da oligarquia financeira e o poder das fac\u00e7\u00f5es do crime organizado.<\/p>\n<p>Tabela 1<\/p>\n<p>Lista de institui\u00e7\u00f5es, fundos e empresas investigadas<\/p>\n<p>1 &#8211; BK Institui\u00e7\u00e3o de pagamento S\/A<br \/>\n2 &#8211; Bankrow Inst. de pagamento S\/A<br \/>\n3 &#8211; Trustee Dist. de T\u00edtulos e Val. Mob.<br \/>\n4 &#8211; Reag distribuidora de T\u00edtulos<br \/>\n5 &#8211; Altinvest Adm. de Rec. de Terceiros<br \/>\n6 &#8211; BFL Administra\u00e7\u00e3o de Recursos<br \/>\n7 &#8211; Banco Genail S\/A<br \/>\n8 &#8211; Actual Dist. de T\u00edtulos e Valores S\/A<br \/>\n9 &#8211; Ello Gestora de Recursos<br \/>\n10 &#8211; Banvox Dist. de Tit. e Valores<br \/>\n11 &#8211; Libertas Asset. S\/A<br \/>\n12 &#8211; Zeus Fund. de Inv. E Valores Credit\u00f3rios<br \/>\n13 &#8211; Brazil Special Fund<br \/>\n14 &#8211; Atena Fundo de Inv. Multiestrat\u00e9gia<br \/>\n15 &#8211; Olimpia Fundo de Inv. Multimercado<br \/>\n15 &#8211; Olimpia Fundo de Inv. Multimercado<br \/>\n17 &#8211; Minnesota Fundo de Inv. Imobili\u00e1rio<br \/>\n18 &#8211; Olsen Fundo de Inv. Imobili\u00e1rio<br \/>\n18 &#8211; Pinheiros Fundo de Inv. Imobili\u00e1rio<br \/>\n20 &#8211; Mabruk Fundo de Inv. em Dir. Credit\u00f3rios<br \/>\n21 &#8211; Redford Fundo de Inv. Multimercado<br \/>\n22 &#8211; Participation Fundo de Inv. e Participa\u00e7\u00f5es<br \/>\n23 &#8211; Zurich Fundo de Inv. Multiestrat\u00e9gia<br \/>\n24 &#8211; Pompeia Fundo de Investimento<br \/>\n25 &#8211; Derby Fundo de Inv. Multimercado<br \/>\n26 &#8211; Los Angeles Fundo de Inv. Imobili\u00e1rio<br \/>\n27 &#8211; Gold Style Fun. De Inv. Credit\u00f3rio<br \/>\n28 &#8211; Hans 95 Fun. De Inv Multimercado<br \/>\n29 &#8211; Celebration Fun de Inv. Multiestrat\u00e9gia<br \/>\n30 &#8211; Keros Fundos de Inv. Multiestrat\u00e9gia<br \/>\n31 &#8211; Ruby Green Fundo de Inv Imobili\u00e1rio<br \/>\n32 &#8211; Enseada Fundo de Inv. Imobili\u00e1rio<br \/>\n33 &#8211; Green Eagle Fundo De Inv. Imobili\u00e1rio<br \/>\n34 &#8211; Pegasus Fundo de Inv. Multiestrat\u00e9gia<br \/>\n35 &#8211; Paraibuna Fundo de Inv. Multiestrat\u00e9gia<br \/>\n36 &#8211; Toronto Fundo de Inv. Imobili\u00e1rio<br \/>\n37 &#8211; MAM ZC Tesouro Selic Soberano<br \/>\n38 &#8211; Anna Fun. De Inv. Em cotas Credit\u00f3rios<br \/>\n39 &#8211; Real Righ Yeld Fundo de Investimentos<br \/>\n40 &#8211; Auster Petr\u00f3leo LTDA<br \/>\n41 &#8211; Safra Distribuidora De Petr\u00f3leo<br \/>\n42 &#8211; Duvale Dist. De Petr\u00f3leo e \u00c1lcool<br \/>\n43 &#8211; GGX Global Participa\u00e7\u00f5es<br \/>\n44 &#8211; Vila Rica Participa\u00e7\u00f5es LTDA<br \/>\n45 &#8211; Dubai Administra\u00e7\u00e3o de Bens<\/p>\n<p>Fonte: Metr\u00f3poles<\/p>\n<p>Al\u00e9m das empresas envolvidas com uma das fac\u00e7\u00f5es do crime organizado, a investiga\u00e7\u00e3o at\u00e9 agora alcan\u00e7ou muitos dos grandes figur\u00f5es do mercado financeiro e empresarial, que at\u00e9 ent\u00e3o eram considerados figuras respeit\u00e1veis no mundo dos neg\u00f3cios (Tabela 2). Ressalte-se ainda que alguns dos nomes aqui listados s\u00e3o apenas uma pequena parcela dos comparsas de colarinho branco e sua rela\u00e7\u00e3o com os subterr\u00e2neos da corrup\u00e7\u00e3o e do crime. O aprofundamento das investiga\u00e7\u00f5es com certeza vai revelar ainda mais nomes, n\u00e3o s\u00f3 de empres\u00e1rios, mas possivelmente de pol\u00edticos, como j\u00e1 se anuncia, al\u00e9m de integrantes do mundo institucional e da pol\u00edtica. Os pr\u00f3ximos cap\u00edtulos dessa investiga\u00e7\u00e3o v\u00e3o ser emocionantes e poder\u00e3o revelar a podrid\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas das classes dominantes com os subterr\u00e2neos do crime.<\/p>\n<p>Tabela 2<\/p>\n<p>Alguns banqueiros e empres\u00e1rios alcan\u00e7ados pela opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal<\/p>\n<p>Mauricio Quadrado &#8211; Ex-Bradesco e ex-s\u00f3cio do Banco Master, \u00e9 s\u00f3cio das administradoras Trustee e Banvox. As duas empresas s\u00e3o alvos da opera\u00e7\u00e3o por gerirem fundos utilizados pelo grupo criminoso.<\/p>\n<p>Ricardo Magro &#8211; Controlador da Refinaria Refit, chegou a ser preso em 2026 por desvios de fundos de pens\u00e3o. A refinaria forneceu combust\u00edvel para o crime por meio da distribuidora Rodopetro.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Carlos Mansur &#8211; Fundou a Reag em 2013, sendo considerada a maior gestora de patrim\u00f4nio do Brasil, com R$ 299 bilh\u00f5es.\u00a0Respons\u00e1vel pelos fundos Malbruk II e Hans 95<\/p>\n<p>Nelson Tanure &#8211; Acumula a\u00e7\u00f5es nas principais empresas do Pa\u00eds, sendo dono de fundos controlados pela Reag e Trustee. Tem neg\u00f3cios com Jo\u00e3o Carlos Mansur e Maur\u00edcio Quadrado.<\/p>\n<p>Mohamed Mourad &#8211; Um dos chefes do esquema criminoso. Realizava fraudes fiscais, oculta\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio e lavagem de dinheiro. Se apresentava como CEO da G8LOG e formou uma rede criminosa com parentes, s\u00f3cios e profissionais cooptados.<\/p>\n<p>Fonte: Lazaro Rosa<\/p>\n<p>Essa teia de neg\u00f3cios il\u00edcitos n\u00e3o se sustentaria sem o envolvimento dos setores institucionais, tais como o financiamento de campanhas eleitorais e a a\u00e7\u00e3o dos lobbies no Congresso que atuam em defesa dos interesses financeiros e contra as medidas regulat\u00f3rias. Um caso recente ilustra bem a atua\u00e7\u00e3o do populismo de extrema-direita para blindar as a\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias. Todos devem lembrar que o deputado Nikolas Ferreira se destacou como uma das vozes mais ativas que, mediante fake news, contribuiu para impedir o governo de aprovar instru\u00e7\u00f5es normativas para regular as fintechs. Nikolas, mediante v\u00eddeo que teve milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es, denunciou que o governo queria aumentar o monitoramento da Receita Federal sobre os gastos dos cidad\u00e3os, instalar sistema de taxa\u00e7\u00e3o e controle do pix, visando aumentar a arrecada\u00e7\u00e3o. Diante da imensa repercuss\u00e3o desse v\u00eddeo e da cria\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico artificial, o governo recuou das medidas, o que terminou minando a tentativa de ampliar a transpar\u00eancia sobre as movimenta\u00e7\u00f5es financeiras das fintechs.<\/p>\n<p>Essa ofensiva da desinforma\u00e7\u00e3o, como sempre acontece nesses casos, n\u00e3o foi uma iniciativa ing\u00eanua, porque na pr\u00e1tica a dissemina\u00e7\u00e3o de sofismas como liberdade financeira, defesa dos cidad\u00e3os serviram apenas para blindar as estruturas utilizadas pela fac\u00e7\u00e3o criminosa no mercado financeiro. Isso atrasou a implementa\u00e7\u00e3o de mecanismos importantes de rastreamento das opera\u00e7\u00f5es il\u00edcitas que s\u00f3 agora, ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o, o governo conseguiu implantar. Do ponto de vista do crime, as fake news funcionaram como uma cortina de fuma\u00e7a perfeita, pois desviou o debate da regula\u00e7\u00e3o financeira para temas subjetivos como persegui\u00e7\u00e3o do Estado ou liberdade para empreender. Ou seja, enquanto a popula\u00e7\u00e3o era enganada com as desinforma\u00e7\u00f5es na m\u00eddia, os membros do PCC e os operadores da Faria Lima continuavam movimentando bilh\u00f5es em sil\u00eancio, demonstrando uma vez mais que a mentira \u00e9 parte integrante das a\u00e7\u00f5es da extrema-direita para favorecer engrenagens criminosas e blindar a oligarquia financeira.<\/p>\n<p>Um dado importante a ser verificado com a continuidade das investiga\u00e7\u00f5es \u00e9 o fato de que o esc\u00e2ndalo que veio \u00e0 tona \u00e9 apenas a ponta de um iceberg muito mais profundo, cuja base envolve setores formais e informais usados historicamente para a lavagem de dinheiro e a corrup\u00e7\u00e3o estrutural. N\u00e3o ser\u00e1 nenhuma surpresa se a pol\u00edcia encontrar v\u00ednculos expl\u00edcitos n\u00e3o s\u00f3 entre a m\u00e1fia financeira e as fac\u00e7\u00f5es criminosas, mas tamb\u00e9m outros esquemas envolvendo pol\u00edticos e setores institucionais do pa\u00eds. Afinal, n\u00e3o poderemos esquecer que o Brasil, nesses tempos de neoliberalismo, vive sob a domina\u00e7\u00e3o da ditadura das finan\u00e7as que fez da quebra dos direitos e garantias dos trabalhadores, das trabalhadoras e pensionistas, da naturaliza\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o e da normaliza\u00e7\u00e3o da pilhagem ao fundo p\u00fablico uma das f\u00f3rmulas principais de acumula\u00e7\u00e3o de riqueza de poucos. Se as investiga\u00e7\u00f5es forem mesmo a fundo poderemos dizer que este \u00e9 apenas o in\u00edcio de um processo que ir\u00e1 revelar n\u00e3o s\u00f3 os crimes de outros peixes grandes, mas tamb\u00e9m desmascarar a forma de agir do sistema pol\u00edtico neoliberal implantado h\u00e1 mais de 35 anos no Brasil.<\/p>\n<p>Numa conjuntura dessa ordem, torna-se cada vez mais evidente por que a oligarquia financeira, os latifundi\u00e1rios e os monop\u00f3lios em geral est\u00e3o empenhados em construir uma candidatura de direita para as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es de 2026. Esse esfor\u00e7o revela um conjunto de a\u00e7\u00f5es que se desdobram em v\u00e1rios vetores: controle pol\u00edtico, econ\u00f4mico, ideol\u00f3gico e de autoprote\u00e7\u00e3o. Afinal, elegendo um presidente alinhado com seus interesses, esses capitalistas ter\u00e3o um aliado fiel no posto mais importante da Rep\u00fablica, um executor das pol\u00edticas que refletir\u00e1 seus interesses e a manuten\u00e7\u00e3o de uma estrutura que abre as portas para o saque sistem\u00e1tico aos cofres p\u00fablicos e, quando for o caso, acobertamento de seus crimes. N\u00e3o \u00e9 por acaso que esses setores do capital j\u00e1 est\u00e3o realizando uma campanha subrept\u00edcia e investindo milh\u00f5es para alinhar a m\u00eddia e consolidar a forma\u00e7\u00e3o de um bloco pol\u00edtico ultraconservador, que preserve esse modelo baseado na acumula\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria, na superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e das trabalhadoras e no saque do fundo p\u00fablico.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, \u00e9 fundamental que as for\u00e7as populares se organizem para dar combate aos setores que transformaram o Brasil num vasto territ\u00f3rio de saque, no qual o capital financeiro, os monop\u00f3lios e os latifundi\u00e1rios continuam acumulando riqueza \u00e0s custas do trabalho de milh\u00f5es de brasileiros e brasileiras e da mis\u00e9ria da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio que as for\u00e7as de esquerda construam um projeto que tenha a capacidade de redefinir o futuro do pa\u00eds, sem concilia\u00e7\u00e3o com a burguesia, para derrotar a extrema-direita, colocar em evid\u00eancia a pauta da classe trabalhadora, com o povo em movimento, na perspectiva da constru\u00e7\u00e3o do poder popular e do socialismo. Essa alternativa est\u00e1 na ordem do dia: tudo depende da nossa capacidade de transformar a indigna\u00e7\u00e3o e a revolta latente em for\u00e7a organizada para realizar as transforma\u00e7\u00f5es sociais no Brasil.<\/p>\n<p>Edmilson Costa \u00e9 doutor em economia pela Unicamp e secret\u00e1rio geral do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33119\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[385,66,10,383],"tags":[234],"class_list":["post-33119","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica-da-economia-politica","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Cb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33119","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33119"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33119\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33121,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33119\/revisions\/33121"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}