{"id":3313,"date":"2012-08-09T01:23:43","date_gmt":"2012-08-09T01:23:43","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3313"},"modified":"2012-08-09T01:23:43","modified_gmt":"2012-08-09T01:23:43","slug":"o-dia-em-que-o-mundo-entrou-no-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3313","title":{"rendered":"O dia em que o mundo entrou no vermelho"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>No dia 9 de agosto de 2007, o BNP-Paribas, um dos maiores bancos da Europa e do mundo, com ramifica\u00e7\u00f5es que v\u00e3o da Ucr\u00e2nia ao Brasil, sede principal em Paris e segunda sede em Londres, congelou tr\u00eas de seus fundos de investimento, dizendo que n\u00e3o teria como honrar \u201cas d\u00edvidas de suas obriga\u00e7\u00f5es colaterais\u201d. Neste dia um mundo ruiu e come\u00e7ou outro, que ningu\u00e9m ainda sabe onde vai parar. O artigo \u00e9 de Fl\u00e1vio Aguiar, direto de Berlim.<\/strong><\/p>\n<p>Fl\u00e1vio Aguiar<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20681&amp;boletim_id=1317&amp;componente_id=21609\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n<p><strong>Berlim<\/strong> &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o estou me referindo ao dia 17 de dezembro de 2006, quando o meu Internacional derrotou o Barcelona por 1 x 0 em Yokohama, no Jap\u00e3o, e sagrou-se campe\u00e3o mundial de clubes.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia \u00e9 meio ano mais mo\u00e7a. \u00c9 o dia 9 de agosto de 2007, h\u00e1 cinco anos atr\u00e1s, portanto. Nesse dia o BNP-Paribas, um dos maiores bancos da Europa e do mundo, com ramifica\u00e7\u00f5es que v\u00e3o da Ucr\u00e2nia ao Brasil, sede principal em Paris e segunda sede em Londres, congelou tr\u00eas de seus fundos de investimento, dizendo que n\u00e3o teria como honrar \u201cas d\u00edvidas de suas obriga\u00e7\u00f5es colaterais\u201d \u2013 uma refer\u00eancia aos pacotes que detinha dos chamados \u201c<em>sub-prime loans<\/em>\u201d, ou seja, os empr\u00e9stimos feitos diretamente ou comprados no mercado secund\u00e1rio para pessoas que n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00e3o de pag\u00e1-los.<\/p>\n<p>Sobre aquele dia, houve quem (Larry Eliott, editor de Economia do\u00a0<em>The Guardian<\/em>) o comparasse ao 4 de agosto de 1914, dia em que o Arquiduque Franz Ferdinand, da \u00c1ustria, e sua esposa Sophie foram assassinados em Sarajevo, fato que levou diretamente \u00e0 Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Foi um dia em que um mundo ruiu e come\u00e7ou outro, que ningu\u00e9m ainda sabe onde vai parar. No 9 de agosto de 2007 o mundo que ruiu foi o das finan\u00e7as internacionais, o das certezas europ\u00e9ias, o da imagem feliz do\u00a0<em>american way of life<\/em>. Os acontecimentos se precipitaram velozmente nestes cinco anos.<\/p>\n<p>Um ano mais tarde, em 7 de setembro de 2008, o governo norte-americano tinha de injetar recursos nos grupos Fannie Mae e Freddie Mac. Em 15 de setembro quebrava o Lehman Brothers. Entre 7 e 8 de outubro do mesmo ano, os tr\u00eas maiores bancos da Isl\u00e2ndia \u2013 Glitnir, Landsbanki e Kauphting \u2013 quebram, for\u00e7ando o governo a nacionaliza-los. Na sequ\u00eancia cair\u00e1 o primeiro ministro do pa\u00eds, Geir Haarde.<\/p>\n<p>Em 10 de outubro de 2009 o socialista Yorgios Papandreou \u00e9 eleito para o governo grego. Empossado, na semana seguinte ele declara que a d\u00edvida do pa\u00eds \u00e9 muito maior do que se pensava, e que o governo conservador anterior (do atual primeiro ministro Antonis Samara) maquiara os n\u00fameros.<\/p>\n<p>Meio ano depois, em 10 de abril de 2010, a d\u00edvida soberana da Gr\u00e9cia recebe os \u00edndices que levam o pa\u00eds \u00e0 bancarrota. Em 2 de maio do mesmo ano, os governos da Zona do Euro concedem o primeiro \u201cpacote de ajuda\u201d (110 bilh\u00f5es de euros) \u00e0 Gr\u00e9cia, em troca da ado\u00e7\u00e3o do primeiro \u201cplano de austeridade\u201d na Zona do Euro. Est\u00e1 aberta, oficialmente, a \u201ccrise da Zona do Euro\u201d, que n\u00e3o fechou at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Ao final do ano, em 28 de novembro, \u00e9 a vez da irlanda: 85 bilh\u00f5es de euros. Em 5 de maio de 2011 \u00e9 a vez de Portugal. No come\u00e7o de 2012 o desemprego atinge n\u00edveis nunca dantes navegados na Europa. A Espanha afunda, a It\u00e1lia aderna. Em meados do ano a perspectiva da recess\u00e3o chega \u00e0 Alemanha. O presidente do Banco Central Europeu diz que tudo far\u00e1 para salvar o Euro. Analistas, pol\u00edticos de todas as tend\u00eancias, o presidente do Banco Central Alem\u00e3o interpretam algo furiosamente que isso significa que o BCE vai comprar no futuro letras dos pa\u00edses endividados, no mercado secund\u00e1rio, e que talvez o fa\u00e7a tamb\u00e9m diretamente. Apesar dessas rea\u00e7\u00f5es, sem outra sa\u00edda, o governo alem\u00e3o ap\u00f3ia a declara\u00e7\u00e3o de Draghi.<\/p>\n<p>Uma perspectiva interessante \u00e9 ver o que aconteceu \u00e0s pessoas diretamente envolvidas nesse processo. Recentemente o jornal\u00a0<em>The Guardian<\/em> montou uma verdadeira tabela (07\/08\/2012) sobre 25 personalidades (incluindo nela o \u201cpovo norte-americano, coletivamente) consideradas como tendo alguma responsabilidade na deflagra\u00e7\u00e3o desses eventos.<\/p>\n<p>Entre elas h\u00e1 pol\u00edticos (como Bill Clinton, George Bush, Gordon Brown) dirigentes de bancos centrais, \u201cle\u00f5es\u201d do mercado financeiro, operadores banc\u00e1rios, etc.<\/p>\n<p>Um dos poucos a reconhecer que estava errado \u00e9 Alan Greespan, ex-diretor do US Federal Reserve. A nota geral \u00e9 a de sil\u00eancio obstinado, ou, como no caso do ent\u00e3o senador republicano pelo Texas, Phil Graham, um dos maiores opositores de qualquer regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado financeiro, a obstina\u00e7\u00e3o em que tudo estava certo.<\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas desses envolvidos \u2013 incluindo Clinton e Bush \u2013 \u00e9 essa oposi\u00e7\u00e3o a regulamenta\u00e7\u00f5es \u2013 o que facilitou a fus\u00e3o, hoje vista amplamente como insalubre, entre bancos de opera\u00e7\u00e3o comercial e capta\u00e7\u00e3o de contas e os de investimento no mercado financeiro, ou a fus\u00e3o incontrolada das respectivas carteiras numa mesma institui\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria.<\/p>\n<p>Da parte dos executivos envolvidos, a t\u00f4nica \u00e9 a obten\u00e7\u00e3o de polpudas recompensas durante o processo de bancarrota das pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es que dirigiam, sob a forma de b\u00f4nus, sal\u00e1rios diretos ou indiretos, e a completa impunidade posterior. Muitos continuaram ativos no sistema financeiro, simplesmente trocando de institui\u00e7\u00f5es, ou fundando outras com o capital que amealharam para, literalmente, causar e depois administrar a crise \u2013 sem dela sair, mas ao contr\u00e1rio, aprofundando-a at\u00e9 a exaust\u00e3o.<\/p>\n<p>Alguns foram punidos com a exclus\u00e3o do lugar em que trabalhavam \u2013 para ressurgir em outros. Uns poucos est\u00e3o em sil\u00eancio obsequioso, sumidos, mas impunes.<\/p>\n<p>Apenas duas pessoas foram condenadas em meio a esse redemoinho, at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Uma delas n\u00e3o \u00e9 propriamente um respons\u00e1vel pela crise, mas um aproveitador dela: Bernie Madoff, que, nos Estados Unidos, em meio ao processo de desregulamenta\u00e7\u00e3o do setor financeiro, promoveu o que se chama um \u201cesquema Ponzi\u201d.<\/p>\n<p>Um esquema desses consiste em tomar investimentos e ressarcir os investidores, em parcelas anuais, com dinheiro do seu pr\u00f3prio investimento, ou de outros investidores, ao inv\u00e9s de lucros em opera\u00e7\u00f5es financeiras, que s\u00e3o desviados para \u201coutras finalidades\u201d. Seu nome \u00e9 uma homenagem a Charles Ponzi, que na d\u00e9cada de 20, tamb\u00e9m nos Estados Unidos, armou o primeiro esquema dessa natureza que foi investigado (n\u00e3o foi o primeiro a existir) a fundo.<\/p>\n<p>Outro foi o ex-primeiro ministro island\u00eas, condenado por um tribunal especial por neglig\u00eancia no cargo. H\u00e1 inda processos contra executivos dos tr\u00eas bancos do pa\u00eds que quebraram na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, \u00e9 s\u00f3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: CM\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3313\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3313","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Rr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3313","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3313"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3313\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}