{"id":3314,"date":"2012-08-09T02:21:20","date_gmt":"2012-08-09T02:21:20","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3314"},"modified":"2012-08-09T02:21:20","modified_gmt":"2012-08-09T02:21:20","slug":"sao-as-armas-mas-nao-so-as-armas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3314","title":{"rendered":"S\u00e3o as armas; mas, n\u00e3o s\u00f3 as armas"},"content":{"rendered":"\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: ADITAL<\/p>\n<p>Amigos:<\/p>\n<p>Desde que Caim enlouqueceu e matou Abel sempre houve humanos que, por uma raz\u00e3o ou outra, perdem a cabe\u00e7a tempor\u00e1ria ou definitivamente e cometem atos de viol\u00eancia. Durante o primeiro s\u00e9culo de nossa era, o imperador romano Tib\u00e9rio gozava, jogando suas v\u00edtimas na ilha de Capri, no Mediterr\u00e2neo. Gilles de Rais, cavalheiro franc\u00eas aliado de Joana D\u2019Arc, na Idade M\u00e9dia, um dia, enlouqueceu e acabou assassinando centenas de crian\u00e7as. Apenas umas d\u00e9cadas depois, Vlad, o Empalador, na Transilv\u00e2nia, tinha in\u00fameros modos horripilantes de acabar com suas v\u00edtimas; o personagem de Dr\u00e1cula foi inspirado nele.<\/p>\n<p>Em tempos modernos, em quase toda as na\u00e7\u00f5es h\u00e1 um psicopata ou dois que cometem homic\u00eddios em massa, por mais estritas que sejam suas leis em mat\u00e9ria de armas: o demente supremacista branco, cujos atentados na Noruega cumpriram um ano nesse domingo; o carniceiro do p\u00e1tio escolar em Dunblane, Esc\u00f3cia; o assassino da Escola Polit\u00e9cnica de Montreal; o aniquilador em massa de Erfurt, Alemanha&#8230;; a lista parece intermin\u00e1vel. E agora o atirador de Aurora, na sexta-feira passada. Sempre houve pessoas com pouco ju\u00edzo e prud\u00eancia e sempre haver\u00e1.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, aqui reside a diferen\u00e7a entre o resto do mundo e n\u00f3s: aqui acontecem DUAS Auroras a cada dia de cada ano! Pelo menos 24 estadunidenses morrem a cada dia (de 8 a 9 mil por ano) em m\u00e3os de gente armada, e essa cifra inclui os que perdem a vida em acidentes com armas de fogo ou os que cometem suic\u00eddio com uma. Se cont\u00e1ssemos todos, a cifra se multiplicaria a uns 25 mil.<\/p>\n<p>Isso significa que os Estados Unidos s\u00e3o respons\u00e1veis por mais de 80% de todas as mortes por armas de fogo nos 23 pa\u00edses mais ricos do mundo combinados. Considerando que as pessoas desses pa\u00edses, como seres humanos, n\u00e3o s\u00e3o melhores ou piores do que qualquer um de n\u00f3s, ent\u00e3o, por que n\u00f3s?<\/p>\n<p>Tanto conservadores quanto liberais nos Estados Unidos operam com cren\u00e7as firmes a respeito do &#8220;porqu\u00ea\u201d desse problema. E a raz\u00e3o pela qual nem uns e nem outros podem encontrar uma solu\u00e7\u00e3o \u00e9 porque, de fato, cada um tem a metade da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>A direita cr\u00ea que os fundadores dessa na\u00e7\u00e3o, por alguma sorte de decreto divino, lhes garantiram o direito absoluto a possuir tantas armas de fogo quanto desejem. E nos recordam sem cessar que uma arma n\u00e3o dispara sozinha; que &#8220;n\u00e3o s\u00e3o as armas, mas quem mata s\u00e3o as pessoas\u201d.<\/p>\n<p>Claro que sabem que est\u00e3o cometendo uma desonestidade intelectual (se \u00e9 que posso usar essa palavra) ao sustentar tal coisa acerca da Segunda Emenda porque sabem que as pessoas que escreveram a Constitui\u00e7\u00e3o unicamente queriam assegurar-se de que se pudesse convocar com rapidez uma mil\u00edcia entre granjeiros e comerciantes em caso de que os brit\u00e2nicos decidissem regressar e semear um pouco de caos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, t\u00eam a metade da raz\u00e3o quando afirmam que &#8220;as armas n\u00e3o matam: os estadunidenses matam!\u201d. Porque somos os \u00fanicos no primeiro mundo que cometemos crimes em massa. E escutamos estadunidenses de toda condi\u00e7\u00e3o aduzir toda classe de raz\u00f5es para n\u00e3o ter que lidar com o que est\u00e1 por tr\u00e1s de todas essas matan\u00e7as e atos de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Uns culpam os filmes e os jogos de videogame violentos. Na \u00faltima vez em que revisei, os videojogos do Jap\u00e3o s\u00e3o mais violentos do que os nossos e, no entanto, menos de 20 pessoas ao ano morrem por armas de fogo naquele pa\u00eds; e em 2006 o total foi de duas pessoas! Outros dir\u00e3o que o n\u00famero de lares destro\u00e7ados \u00e9 o que causa tantas mortes. Detesto dar-lhes essa not\u00edcia; por\u00e9m, na Gr\u00e3-Bretanha h\u00e1 quase tantos lares desfeitos, com um s\u00f3 dos pais assumindo o cuidado dos filhos quanto nos EUA; e, no entanto, em geral, os crimes cometidos l\u00e1 com armas de fogo s\u00e3o menos de 40 ao ano.<\/p>\n<p>Pessoas como eu dir\u00e3o que tudo isso \u00e9 resultado de ter uma hist\u00f3ria e uma cultura de homens armados, &#8220;\u00edndios e vaqueiros\u201d, &#8220;dispara agora e pergunta depois\u201d. E se bem \u00e9 certo que o genoc\u00eddio de ind\u00edgenas americanos assentou um modelo bastante feio de fundar uma na\u00e7\u00e3o, me parece mais seguro dizer que n\u00e3o somos os \u00fanicos com um passado violento ou uma marca genocida.<\/p>\n<p>Ol\u00e1, Alemanha! Falo de ti e de tua hist\u00f3ria, desde os hunos at\u00e9 os nazistas, todos os que amavam uma boa carnificina (tal qual os japoneses e os brit\u00e2nicos, que dominaram o mundo por centenas de anos, coisa que n\u00e3o conseguiram plantando margaridas). E, no entanto, na Alemanha, na\u00e7\u00e3o de 80 milh\u00f5es de habitantes, s\u00e3o cometidos apenas 200 assassinatos com armas de fogo ao ano.<\/p>\n<p>Assim que esses pa\u00edses (e muitos outros) s\u00e3o iguais a n\u00f3s, exceto que aqui mais pessoas acreditam em Deus e v\u00e3o \u00e0 Igreja mais do que em qualquer outra na\u00e7\u00e3o ocidental.<\/p>\n<p>Meus compatriotas liberais dir\u00e3o que se tiv\u00e9ssemos menos armas de fogo haveria menos mortes por essa causa. E, em termos matem\u00e1ticos, seria certo. Se temos menos ars\u00eanico na reserva de \u00e1gua, matar\u00e1 menos gente. Menos de qualquer coisa m\u00e1 \u2013calorias, tabaco, reality shows- significar\u00e1 menos mortes. E se tiv\u00e9ssemos leis estritas em mat\u00e9ria de armas, que proibissem as armas autom\u00e1ticas e semiautom\u00e1ticas e prescrevessem a venda de grandes magazines capazes de portar milh\u00f5es de balas, atiradores como o de Aurora n\u00e3o poderiam matar a tantas pessoas em pouqu\u00edssimos minutos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, tamb\u00e9m nisso h\u00e1 um problema. H\u00e1 um mont\u00e3o de armas no Canad\u00e1 (a maioria rifles de ca\u00e7a) e, no entanto, a conta de homic\u00eddios \u00e9 de uns 200 ao ano. De fato, por sua proximidade, a cultura canadense \u00e9 muito similar \u00e0 nossa: as crian\u00e7as t\u00eam os mesmos videojogos, veem os mesmos filmes e programas de TV; mas, no entanto, n\u00e3o crescem com o desejo de matar uns aos outros. A Su\u00ed\u00e7a ocupa o terceiro lugar mundial em posse de armas por pessoa; por\u00e9m, sua taxa de criminalidade \u00e9 baixa. Ent\u00e3o, por que n\u00f3s? Formulei essa pergunta h\u00e1 uma d\u00e9cada em meu filme \u2018Tiros em Columbine\u2019, e esta semana tive pouco que dizer porque me parecia ter dito h\u00e1 dez anos o que tinha que dizer; e acho que n\u00e3o fez muito efeito; exceto ser uma esp\u00e9cie de bola de cristal em forma de filme.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Naquela \u00e9poca eu disse algo, que repetirei agora:<\/span><\/p>\n<p>1. Os estadunidenses somos incrivelmente bons para matar. Acreditamos em matar como forma de conseguir nossos objetivos. Tr\u00eas quartos de nossos Estados executam criminosos, apesar de que os Estados que t\u00eam as taxas mais baixas de homic\u00eddios s\u00e3o, em geral, os que n\u00e3o aplicam a pena de morte.<\/p>\n<p>Nossa tend\u00eancia a matar n\u00e3o \u00e9 somente hist\u00f3rica (o assassinato de \u00edndios, de escravos e de uns e outros na guerra &#8220;civil\u201d): \u00e9 nossa forma atual de resolver qualquer coisa que nos inspira medo. \u00c9 a invas\u00e3o como pol\u00edtica exterior. Sim, l\u00e1 est\u00e3o Iraque e Afeganist\u00e3o; por\u00e9m, somos invasores desde que &#8220;conquistamos o oeste selvagem\u201d e agora estamos t\u00e3o enganchados que j\u00e1 n\u00e3o sabemos o que invadir (Bin Laden n\u00e3o se escondia no Afeganist\u00e3o, mas no Paquist\u00e3o), nem porque invadir (Saddam n\u00e3o tinha armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva, nem nada a ver com o 11-S). Enviamos nossas classes pobres para fazer matan\u00e7as, e os que n\u00e3o temos um ser querido l\u00e1, n\u00e3o perdemos um s\u00f3 minuto de um s\u00f3 dia em pensar nessa carnificina. E agora, enviamos avi\u00f5es sem pilotos para matar (drones), avi\u00f5es controlados por homens sem rosto em um luxuoso est\u00fadio com ar condicionado em um sub\u00farbio de Las Vegas.\u00a0\u00c9 a loucura!<\/p>\n<p>2. Somos um povo que se assusta com facilidade e \u00e9 f\u00e1cil de ser manipulado pelo medo. De que temos tanto medo, que necessitamos ter 300 milh\u00f5es de armas de fogo em nossas casas? Quem vai machucar? Por que a maior parte dessas armas se encontra nas casas de brancos, nos sub\u00farbios ou no campo? Talvez, se resolv\u00eassemos nosso problema racial e nosso problema de pobreza (uma vez mais, somos o n\u00famero um com maior n\u00famero de pobres no mundo industrializado) teria menos pessoas frustradas, atemorizadas e encolerizadas estendendo a m\u00e3o para pegar a arma que guardam na gaveta. Talvez, cuidar\u00edamos mais uns dos outros (aqui vemos um bom exemplo disso).<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que penso sobre Aurora e sobre o violento pa\u00eds do qual sou cidad\u00e3o. Como mencionei, disse tudo nesse filme e se quiserem, podem assisti-lo e partilh\u00e1-lo sem custo com os demais. E o que nos faz falta, amigos meus, \u00e9 valor e determina\u00e7\u00e3o. Se voc\u00eas est\u00e3o prontos, eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: normal;\">*Cineasta e escritor estadunidense<\/span><\/p>\n<p>[Tradu\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas para o espanhol: Jorge Anaya &#8211; Fonte original:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.jornada.unam.mx\/2012\/07\/26\/opinion\/025a1mun\" target=\"_blank\">jornada.unam.mx<\/a>, publicado pela Adital].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: wikimedia.org\n\n\n\n\n\n\n\n\nMichael Moore*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3314\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3314","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Rs","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3314"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3314\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}