{"id":33186,"date":"2025-09-29T18:19:12","date_gmt":"2025-09-29T21:19:12","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33186"},"modified":"2025-09-29T18:19:12","modified_gmt":"2025-09-29T21:19:12","slug":"avoluma-se-a-crise-intensifica-se-o-belicismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33186","title":{"rendered":"Avoluma-se a crise &#8211; intensifica-se o belicismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33187\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33186\/attachment\/21869\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/21869.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"705,470\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"21869\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/21869.jpg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/21869.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-33187\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/21869.jpg?resize=705%2C470&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"705\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/21869.jpg?w=705&amp;ssl=1 705w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/21869.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 705px) 100vw, 705px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Foto: mppm-palestina.org<\/p>\n<p>Jorge Cadima<\/p>\n<p>ODIARIO.INFO<\/p>\n<p>Apesar de vivermos na era nuclear e de as armas existentes poderem acabar com a vida humana no planeta, o discurso da militariza\u00e7\u00e3o e da guerra generaliza-se e banaliza-se nas declara\u00e7\u00f5es dos dirigentes imperialistas. O dinheiro, que \u2018n\u00e3o existe\u2019 para as despesas sociais e sal\u00e1rios, \u2018existe\u2019 repentinamente \u2013 e \u00e0 farta \u2013 para a militariza\u00e7\u00e3o e a guerra. Tal como \u2018existe\u2019 sempre para pagar os desmandos da banca e da grande finan\u00e7a. A marca de classe \u00e9 gritante. Reflete-se na mis\u00e9ria que alastra lado a lado com a opul\u00eancia obscena de uma pequena minoria. A domina\u00e7\u00e3o imperialista est\u00e1 cada vez mais marcada pelo caos, a decad\u00eancia, a viol\u00eancia e a barb\u00e1rie \u2013 onde sobressai o intermin\u00e1vel horror do genoc\u00eddio contra o povo m\u00e1rtir da Palestina, levado a cabo h\u00e1 quase dois anos pelo sionismo a servi\u00e7o do imperialismo dos EUA.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que afirma uma propaganda martelante, que retrata um mundo de fic\u00e7\u00e3o cada vez mais desligado da realidade, a crise n\u00e3o \u00e9 produto de obscuros agentes do mal. A crise resulta da decad\u00eancia das velhas pot\u00eancias imperialistas (EUA, Inglaterra, Fran\u00e7a e Alemanha em primeiro lugar) e da sua recusa em abdicar de uma hegemonia que j\u00e1 n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade econ\u00f4mica. Esse decl\u00ednio \u00e9 fruto das pr\u00f3prias leis de desenvolvimento capitalista e das op\u00e7\u00f5es de extrema financeiriza\u00e7\u00e3o e parasitismo rentista no \u00faltimo meio s\u00e9culo (sob o nome de \u2018neoliberalismo\u2019 ou \u2018globaliza\u00e7\u00e3o\u2019). A crise manifesta-se hoje em todas as frentes: econ\u00f4mica, social, pol\u00edtica, financeira, militar e cultural. O decl\u00ednio \u00e9 simbolizado por Trump, Biden, Ursula von der Leyen, Macron, Merz, Starmer, Rutte. Mas eles s\u00e3o apenas a consequ\u00eancia, n\u00e3o a causa.<\/p>\n<p>Incapazes de barrar o ascenso pac\u00edfico de novas pot\u00eancias (em primeiro lugar a China), e vendo lhes escapar os tradicionais mecanismos de controle global, os setores mais reacion\u00e1rios das pot\u00eancias imperialistas apostam na via da viol\u00eancia e da guerra para impedir que a sua hegemonia se esvaia. Para isso promovem as for\u00e7as pol\u00edticas autorit\u00e1rias e fascistas que acompanham sempre a viragem para o militarismo e a guerra. J\u00e1 foi assim no s\u00e9culo XX. O grande capital financeiro que manda no sistema imperialista, e que tem nos EUA, Inglaterra e UE os seus mecanismos estatais de domina\u00e7\u00e3o mundial, \u00e9 incapaz de aceitar um mundo assentado em rela\u00e7\u00f5es de igualdade. Apenas conhece a linguagem da domina\u00e7\u00e3o e da vassalagem. Prefere arrastar a humanidade para o desastre a aceitar a realidade do seu ocaso hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A decad\u00eancia da superpot\u00eancia imperialista<\/p>\n<p>A decad\u00eancia dos Estados Unidos da Am\u00e9rica \u00e9 j\u00e1 uma evid\u00eancia indesment\u00edvel. A grande pot\u00eancia capitalista, outrora respons\u00e1vel por mais de metade da produ\u00e7\u00e3o industrial mundial, est\u00e1 hoje reduzida a uma p\u00e1lida sombra de si mesma. H\u00e1 muitas d\u00e9cadas que embarcou num rumo de financeiriza\u00e7\u00e3o extrema. A sua base industrial e produtiva foi sendo substitu\u00edda por atividades cada vez mais parasit\u00e1rias e rentistas. \u00c0 falta de investimentos, as suas infraestruturas foram se degradando. A produ\u00e7\u00e3o foi transferida para outros pa\u00edses (deslocaliza\u00e7\u00e3o), onde sal\u00e1rios mais baixos e mecanismos cambiais manipulados garantem super lucros. Em sua substitui\u00e7\u00e3o, foi crescendo um gigantesco polvo de atividades financeiras cada vez mais especulativas e desligadas daquilo a que os pr\u00f3prios economistas do sistema chamam a economia real, tentando assim contrariar os efeitos da baixa tendencial da taxa de lucro (1). Este polvo tem assegurado ao longo de d\u00e9cadas a transfer\u00eancia de enormes riquezas criadas em todo o mundo para os EUA, financiando os seus cada vez maiores d\u00e9ficits comerciais e de pagamentos, resultantes da desindustrializa\u00e7\u00e3o. Em 2024 o d\u00e9ficit na balan\u00e7a comercial de bens e servi\u00e7os dos EUA ultrapassou 918 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Os n\u00fameros oficiais para os cinco primeiros meses deste ano apontam para um aumento de 50% (2).<\/p>\n<p>Esta enorme placa girat\u00f3ria tem se baseado em tr\u00eas fatores interligados: o controle pelos EUA do sistema financeiro internacional (incluindo as institui\u00e7\u00f5es teoricamente multilaterais como o FMI e o Banco Mundial); o papel do d\u00f3lar como moeda de reserva internacional; e o gigantesco aparato militar e de subvers\u00e3o (CIA e cong\u00eaneres), que tem assegurado a supremacia hegem\u00f4nica dos EUA e sobre a qual assentam os dois primeiros fatores.<\/p>\n<p>Mas este mecanismo entrou em crise, apesar disso ter sido momentaneamente camuflado e mitigado nos anos 1990s, com o desaparecimento da URSS e a vaga contrarrevolucion\u00e1ria que o acompanhou no plano mundial. Ao mesmo tempo que essa viragem refor\u00e7ou o poderio mundial dos EUA, alimentou os piores aspectos do sistema imperialista: agressividade, belicismo, parasitismo, rentismo, hiperfinanceiriza\u00e7\u00e3o, a\u00e7ambarcamento da riqueza, empobrecimento de vastas massas (mesmo nos centros imperialistas), um endividamento estatal descontrolado e insustent\u00e1vel. Num aparente paradoxo, o sistema imperialista centrado nos EUA, no momento do seu maior poderio internacional \u2013 em que era capaz de impor com poucos entraves a sua \u2018lei\u2019 a pa\u00edses, povos e trabalhadores, colocados na defensiva pela vaga contrarrevolucion\u00e1ria dos anos 80 e 90 \u2013 entrou numa fase de intenso decl\u00ednio, quer no plano interno, quer no plano internacional. \u00c9 esse decl\u00ednio que est\u00e1 no cerne da crise atual.<\/p>\n<p>Os epis\u00f3dios de crise, que at\u00e9 ao in\u00edcio do mil\u00eanio atingiam sobretudo os pa\u00edses da chamada periferia (Am\u00e9rica Latina, os \u2018tigres asi\u00e1ticos\u2019, uma R\u00fassia sangrada pelas \u2018terapias de choque\u2019 da restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo), explodiram em cheio no centro imperialista em 2007-8 e na crise do Euro, revelando as fragilidades e vulnerabilidades da engrenagem criada pelo grande capital financeiro. Tornou-se evidente que os t\u00e3o badalados \u2018mercados\u2019 n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o \u2018eficientes\u2019, como dependem inteiramente da \u2018m\u00e3o salvadora\u2019 do Estado para evitar o seu afundamento. S\u00e3o meros mecanismos de apropria\u00e7\u00e3o da riqueza \u2013 criada pelo trabalho da humanidade \u2013 nas m\u00e3os duma parasit\u00e1ria e destrutiva minoria que embolsa lucros e rendas, deixando os preju\u00edzos para serem suportados pelos trabalhadores e os povos.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico da decad\u00eancia dos EUA \u00e9 partilhado por toda a classe dominante da superpot\u00eancia imperialista (3): um pa\u00eds corro\u00eddo pela desindustrializa\u00e7\u00e3o, crescentemente dependente do exterior, mesmo em \u00e1reas de ponta e at\u00e9 em aspectos cr\u00edticos no plano militar; insustentavelmente endividado; e com largas camadas da popula\u00e7\u00e3o cada vez mais empobrecidas e profundamente descontentes. Mas a dificuldade em dar a volta \u00e0 situa\u00e7\u00e3o tem dividido de forma profunda a classe dirigente dos EUA. Os seus contrastes internos atingiram uma intensidade sem precedentes desde h\u00e1 muitas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O trumpismo<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno do trumpismo reflete o descontentamento generalizado no seio do povo estadunidense. Eficaz na venda de promessas, Trump soube congregar o profundo mal-estar social e a revolta com as permanentes guerras que \u2013 al\u00e9m de destru\u00edrem pa\u00edses e regi\u00f5es inteiras do planeta \u2013 contribuem para o endividamento e empobrecimento do povo nos EUA. Foi vendida a ilus\u00e3o de \u2018tornar de novo grande a Am\u00e9rica\u2019 (MAGA). O seu estilo de simultaneamente afirmar uma coisa e o seu contr\u00e1rio ajudou a camuflar a verdadeira ess\u00eancia do seu projeto. Mas seis meses de presid\u00eancia permitem j\u00e1 constatar duas coisas. A primeira, \u00e9 que a natureza profundamente reacion\u00e1ria e de classe da sua pol\u00edtica est\u00e1 se afirmando de forma \u00f3bvia. As promessas sociais s\u00e3o tra\u00eddas. E em vez do prometido fim das guerras dos EUA no mundo, elas intensificam-se (como ficou patente nos ataques ao Ir\u00e3 e I\u00eamen e no apoio incondicional a Israel). A segunda, \u00e9 que o estilo de permanente confronta\u00e7\u00e3o e ataques, quer contra advers\u00e1rios, quer contra vassalos, torna altamente prov\u00e1vel que a Presid\u00eancia Trump, longe de resolver a crise da hegemonia planet\u00e1ria dos EUA, acabe por agrav\u00e1-la.<\/p>\n<p>A t\u00e3o falada \u2018pol\u00edtica tarif\u00e1ria\u2019 do trumpismo assenta num objetivo que n\u00e3o \u00e9 irracional. Levantar barreiras alfandeg\u00e1rias encarece as importa\u00e7\u00f5es e poderia fomentar a produ\u00e7\u00e3o interna e trazer receitas para o Estado. Trump proclama abertamente esses objetivos. Na mira do regresso da produ\u00e7\u00e3o ao solo dos Estados Unidos est\u00e3o, n\u00e3o apenas grandes empresas estadunidenses com f\u00e1bricas sediadas noutros pa\u00edses, mas tamb\u00e9m empresas estrangeiras que queiram vender no mercado dos EUA. As taxas aduaneiras s\u00e3o acompanhadas de a\u00e7\u00f5es de for\u00e7a, muitas j\u00e1 vindas do tempo de Biden, como \u00e9 o caso das restri\u00e7\u00f5es \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es de chips avan\u00e7ados para a China ou o ataque aos gasodutos NordStream. Este \u00faltimo visou tamb\u00e9m tornar os custos de produ\u00e7\u00e3o na Europa invi\u00e1veis, incentivando a deslocaliza\u00e7\u00e3o e a subordina\u00e7\u00e3o aos EUA, objetivo que est\u00e1 sendo conseguido com o colaboracionismo do governo alem\u00e3o e da UE. Os EUA nutrem-se tamb\u00e9m dos seus \u2018aliados\u2019 vassalos.<\/p>\n<p>Multiplicam-se an\u00fancios de grandes investimentos nos EUA, quer de empresas estadunidenses (como a Apple), quer de empresas estrangeiras (TSMC, Samsung, Mercedes-Benz). Mas a realidade est\u00e1 se revelando dif\u00edcil. Por um lado, o estilo err\u00e1tico e confrontacional de Trump gera enormes incertezas que dificultam planos de investimentos e criam ressentimentos. Por outro lado, a devasta\u00e7\u00e3o do tecido industrial e a baixa de qualidade do sistema educativo nos EUA atingiu tais propor\u00e7\u00f5es que muitas das novas empresas tecnol\u00f3gicas est\u00e3o tendo dificuldades, quer em se tornar comercialmente vi\u00e1veis, quer em encontrar m\u00e3o de obra especializada. A maior fabricante mundial de chips, a empresa taiwanesa TSMC, est\u00e1 desde 2020 investindo nos EUA. Os investimentos efetuados e planejados sobem a 165 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, tendo j\u00e1 recebido subs\u00eddios do governo dos EUA de mais de 6,6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (4). Mas cerca de metade da sua m\u00e3o de obra teve de ser trazida de Taiwan (5). E em 2024 totalizou preju\u00edzos de 441 milh\u00f5es de d\u00f3lares (6). A sul-coreana Samsung adiou o in\u00edcio da labora\u00e7\u00e3o da sua nova f\u00e1brica no Texas \u2013 um investimento de 37 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para o qual recebeu 4,7 bilh\u00f5es em subs\u00eddios do governo dos EUA \u2013 devido \u00e0 falta de clientes (isto \u00e9, de empresas produtoras de equipamentos que necessitassem dos seus chips) (7). O patr\u00e3o da Nvidia queixa-se publicamente do fracasso da pol\u00edtica de restri\u00e7\u00f5es \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es de chips avan\u00e7ados para a China, que resultou numa perda de cotas de mercado no gigante asi\u00e1tico, que vai se tornando autossuficiente na produ\u00e7\u00e3o desses chips avan\u00e7ados (bbc.com, 21.5.25). As retalia\u00e7\u00f5es da China (restringindo a exporta\u00e7\u00e3o de terras raras e outros materiais) est\u00e3o afetando a pr\u00f3pria ind\u00fastria militar dos EUA.<\/p>\n<p>Um tecido industrial n\u00e3o se cria por decreto, sem uma interven\u00e7\u00e3o estatal planificada que, por raz\u00f5es diversas, o poder nos EUA parece incapaz de assegurar. E permanecem de p\u00e9 as causas de fundo que levaram \u00e0 financeiriza\u00e7\u00e3o da economia. \u00c9 dif\u00edcil convencer o grande capital financeiro a investir na economia produtiva quando os seus lucros rentistas s\u00e3o maiores numa economia de especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que parece conhecer uma expans\u00e3o sem limites \u00e9 a grande finan\u00e7a. Num n\u00famero especial dedicado aos EUA, a revista The Economist (31.5.25) afirma que \u00aba finan\u00e7a americana transformou-se na \u00faltima d\u00e9cada\u00bb, com um crescimento explosivo de institui\u00e7\u00f5es financeiras (designadas hedge funds, private-equity firms e trading firms), na qual se destacam a Apollo, BlackRock, Blackstone, Citadel, Jane Street, KKR e Millenium. Est\u00e3o crescendo gra\u00e7as \u00e0s mesmas atividades especulativas que levaram ao crash de 2007. O Economist confessa que s\u00e3o firmas \u00abassustadoramente opacas\u00bb, que fogem \u00e0s (escassas) limita\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 banca ap\u00f3s 2008. Adverte j\u00e1 que na pr\u00f3xima crise financeira (que \u00abhaver\u00e1 sempre\u00bb), iremos \u00abdespertar para o fato de estarmos lidando com um sistema financeiro que n\u00e3o conhecemos\u00bb. E antecipa tranquilamente: \u00abNovos esquemas de empr\u00e9stimos de emerg\u00eancia ser\u00e3o necess\u00e1rios. Salvar os bancos da \u00faltima vez foi politicamente t\u00f3xico. Salvar investidores bilion\u00e1rios ser\u00e1 uma tarefa incomparavelmente mais dif\u00edcil. E no entanto, se se deixarem falir as maiores destas gigantescas firmas, isso poder\u00e1 conduzir a uma crise de cr\u00e9dito global\u00bb. Traduzido por mi\u00fados: os multimilion\u00e1rios andam outra vez lucrando enormemente, mas quando estourarem os seus novos para-bancos os povos ser\u00e3o, como de costume, chamados a pagar a fatura. \u00c9 o capitalismo parasit\u00e1rio em todo o seu esplendor.<\/p>\n<p>O mesmo crit\u00e9rio de classe presidiu \u00e0 Grande Bela Lei (Big Beautiful Bill, BBB) aprovada pelo parlamento dos EUA e assinada por Trump no dia 4 de julho. Longe de impedir o endividamento, como prometido por Trump, o seu BBB vai \u00abacrescentar 3,4 bili\u00f5es de d\u00f3lares aos deficits or\u00e7amentais nos pr\u00f3ximos dez anos e deixar milh\u00f5es sem seguros de sa\u00fade\u00bb (cbsnews.com, 4.7.25). Os mais ricos v\u00e3o ver prolongados os cortes aos seus impostos. E o Congresso atribuiu 150 bilh\u00f5es de d\u00f3lares adicionais \u00e0 despesa militar que, junto com o j\u00e1 or\u00e7amentado para este ano, faz o or\u00e7amento militar dos EUA aproximar-se de 1 bili\u00e3o de d\u00f3lares (thehill.com, 3.7.25). Mas ser\u00e3o cortadas as verbas dos programas especiais de assist\u00eancia na sa\u00fade (Medicaid) em 793 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. E ser\u00e1 cortado em 286 bilh\u00f5es o programa SNAP, de apoios alimentares aos mais necessitados, que beneficia 41,7 milh\u00f5es de pessoas, ou seja, 12,3% da popula\u00e7\u00e3o dos EUA (wvmetronews.com, 3.7.25).<\/p>\n<p>A d\u00edvida p\u00fablica dos EUA, que j\u00e1 excede 37 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (123% do PIB), vai continuar a crescer descontroladamente. Mesmo com o refor\u00e7o da despesa militar, os juros da d\u00edvida continuam a exceder o gigantesco or\u00e7amento militar da superpot\u00eancia do capitalismo. Embora tenham consci\u00eancia da insustentabilidade do sistema, o grande capital financeiro e os mais ricos revelam-se incapazes de refrear a sua insaci\u00e1vel gula. Mas a d\u00edvida \u00e9 impag\u00e1vel. Como a anular sem comprometer o poderio mundial dos EUA \u00e9 seguramente uma preocupa\u00e7\u00e3o maior dos centros dirigentes da grande finan\u00e7a.<\/p>\n<p>A guerra como \u2018solu\u00e7\u00e3o\u2019<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que ganham express\u00e3o os setores do grande capital financeiro que apostam numa solu\u00e7\u00e3o de for\u00e7a para ultrapassar a crise e preservar a sua domina\u00e7\u00e3o. Trump amea\u00e7ou retirar os EUA do p\u00e2ntano ucraniano. Mas as declara\u00e7\u00f5es do Ministro da Defesa Hegseth na sua primeira viagem \u00e0 Europa (fevereiro 2025) deixaram logo evidente que o objetivo era efetuar uma \u00abdivis\u00e3o de tarefas\u00bb: p\u00f4r a Europa a ocupar-se do conflito com a R\u00fassia, para permitir aos EUA concentrar-se na prepara\u00e7\u00e3o da guerra \u00e0 China. Da\u00ed as exig\u00eancias que os membros da OTAN subissem as suas despesas militares para 5% do PIB. O espect\u00e1culo de subservi\u00eancia e bajula\u00e7\u00e3o que rodeou a C\u00fapula da OTAN de junho 2025 foi degradante. As exig\u00eancias de Trump foram acolhidas, ao som do lamber de botas. Uma subservi\u00eancia repetida em julho, com a claudica\u00e7\u00e3o da UE face \u00e0s exig\u00eancias econ\u00f4micas de Trump. Prometem bilh\u00f5es sem fim, desde que os EUA n\u00e3o se desinteressem pelo p\u00e2ntano ucraniano. Dirigentes da Alemanha, Fran\u00e7a e Inglaterra clamam abertamente por uma guerra contra a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m neste campo se manifestam clivagens no seio do campo imperialista. Enquanto alguns autores apontam como alvo priorit\u00e1rio a R\u00fassia, outros visam a China e ainda outros o Ir\u00e3. O resultado \u00e9 o aumento do conflito nas tr\u00eas frentes. O genoc\u00eddio em Gaza \u2013 agora tamb\u00e9m pela via da fome como arma de guerra \u2013 prossegue impune. O que n\u00e3o se vislumbra s\u00e3o setores das classes dominantes imperialistas que defendam solu\u00e7\u00f5es pac\u00edficas. T\u00eam consci\u00eancia do seu afundamento e receiam que a paz aprofunde esse decl\u00ednio. Encaram como um perigo mortal qualquer mecanismo de coopera\u00e7\u00e3o multilateral que n\u00e3o esteja sob o seu dom\u00ednio. \u00c9 o caso dos BRICS, cuja principal caracter\u00edstica \u00e9 a heterogeneidade \u2013 no plano econ\u00f4mico, social, pol\u00edtico e cultural. N\u00e3o \u00e9 um acaso que os pa\u00edses definidos como inimigos pelas doutrinas militares das pot\u00eancias imperialistas (China, R\u00fassia, Ir\u00e3) sejam motores dos BRICS. N\u00e3o \u00e9 um acaso que a f\u00faria de Trump se dirija contra o Brasil, \u00cdndia e \u00c1frica do Sul. N\u00e3o \u00e9 um acaso que o terrorismo (provavelmente com a m\u00e3o dos servi\u00e7os secretos ingleses e israelenses) tenha estado na origem da recente guerra entre \u00cdndia e Paquist\u00e3o. Trump assume publicamente a guerra aos BRICS.<\/p>\n<p>A corrida aos armamentos e \u00e0 guerra est\u00e1 inevitavelmente associada ao endividamento massivo dos Estados. Mas a d\u00edvida \u00e9 a fonte dos lucros do grande capital financeiro. O rumo de desindustrializa\u00e7\u00e3o para o qual a Alemanha est\u00e1 hoje sendo conduzida (salvo na ind\u00fastria militar) reproduz o caminho seguido h\u00e1 meio s\u00e9culo por EUA e Inglaterra. As consequ\u00eancias ser\u00e3o semelhantes. Mas o desastre social ser\u00e1 um man\u00e1 para o grande capital financeiro transnacional que o Primeiro Ministro alem\u00e3o Merz representa.<\/p>\n<p>Barrar o caminho \u00e0 guerra<\/p>\n<p>O sistema revela-se incapaz de se reformar. Tal como o Titanic, n\u00e3o consegue mudar de rumo embora o iceberg esteja \u00e0 vista. O belicismo vem sempre acompanhado do autoritarismo e de for\u00e7as extremistas e fascistas, que s\u00e3o promovidas pelo poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico. T\u00eam por objetivo esmagar a resist\u00eancia dos trabalhadores, das trabalhadoras e dos povos. N\u00e3o se podem excluir grandes provoca\u00e7\u00f5es que sirvam de pretexto a escaladas de guerra.<\/p>\n<p>A barreira que pode impedir uma cat\u00e1strofe reside na luta da classe trabalhadora e povos. Reside na cria\u00e7\u00e3o de uma ampla frente anti-imperialista que \u2013 congregando todos quantos recusem a vassalagem ao grande capital financeiro \u2013 possa derrotar o partido da guerra e impedir o caminho do desastre.<\/p>\n<p>________________________<br \/>\nNotas<\/p>\n<p>(1) A lei da baixa tendencial da taxa de lucro \u00e9 uma das leis fundamentais do capitalismo, descoberta por Marx.<\/p>\n<p>(2) www.bea.gov\/news\/2025\/us-international-trade-goods-and-services-may-2025<\/p>\n<p>(3) Veja-se a interven\u00e7\u00e3o de Jake Sullivan, Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional de Biden, na Brookings Institution, em 27.4.23.<\/p>\n<p>(4) 9to5mac.com\/2024\/0408\/3rd-arizona-chip-plant<\/p>\n<p>(5) www.nytimes.com\/2024\/08\/08\/business\/tsmc-phoenix-arizona-semiconductor.html<\/p>\n<p>(6) finance.yahoo.com, 24.4.25<\/p>\n<p>(7) www.techspot.com\/news\/108564-samsung-delays-37b-texas-chip-plant-no-customers.html<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.omilitante.pcp.pt\/pt\/398\/Internacional\/2207\/Avoluma-se-a-crise-%E2%80%94-intensifica-se-o-belicismo.htm?tpl=142\">https:\/\/www.omilitante.pcp.pt\/pt\/398\/Internacional\/2207\/Avoluma-se-a-crise-%E2%80%94-intensifica-se-o-belicismo.htm?tpl=142<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33186\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[65,10],"tags":[234],"class_list":["post-33186","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional","category-s19-opiniao","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Dg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33186"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33186\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33188,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33186\/revisions\/33188"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}