{"id":33261,"date":"2025-10-18T17:33:26","date_gmt":"2025-10-18T20:33:26","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33261"},"modified":"2025-11-01T13:26:27","modified_gmt":"2025-11-01T16:26:27","slug":"o-valor-da-vida-e-o-genocidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33261","title":{"rendered":"O valor da vida e o genoc\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"497\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"imagem100\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1000081337.png?resize=747%2C497&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Foto: Hosny Salah \/ Pixabay<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>Blog da Boitempo<\/p>\n<p>\u201cA dor n\u00e3o \u00e9 a forma suprema da perfei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMeramente provis\u00f3ria, \u00e9 um protesto.<br \/>\nEst\u00e1 presa aos meios in\u00edquos, doentios e injustos.<br \/>\nQuando a iniquidade, a doen\u00e7a e a injusti\u00e7a forem<br \/>\nerradicadas, n\u00e3o haver\u00e1 mais lugar para ela\u201d.<br \/>\n\u2014 Oscar Wilde , A alma do homem sob o socialismo<\/p>\n<p>No ataque de 7 de outubro o Hamas matou 1.139 pessoas e deixou 3.400 feridos. Em dois anos de guerra o Estado de Israel matou mais de 67.869 mil pessoas e deixou algo em torno de 165 mil feridos. Al\u00e9m do custo humano, a agress\u00e3o do Estado sionista consumiu US$ 55,6 bilh\u00f5es, cerca de 10% do PIB israelense.<\/p>\n<p>O valor \u00e9 uma coisa estranha, esta objetividade impalp\u00e1vel, esta gelatina fantasmag\u00f3rica, nas palavras de Marx (O Capital) ao tratar da mercadoria. O car\u00e1ter impalp\u00e1vel ou fantasmag\u00f3rico viria do fato que o valor n\u00e3o se revela por si mesmo, mas somente na rela\u00e7\u00e3o entre duas mercadorias no ato da troca, no qual uma se apresenta como valor relativo e outra equivalente. Nada muda quando nos utilizamos de um equivalente monet\u00e1rio como equivalente geral.<\/p>\n<p>Como sabemos, a subst\u00e2ncia do valor \u00e9 o trabalho socialmente necess\u00e1rio que, na troca, se iguala entre valores de uso diferentes. Mas, e o valor da vida? Para alguns fil\u00f3sofos do direito, a vida seria o bem mais valioso. Para um comerciante de escravos no Brasil Col\u00f4nia, uma vida valeria algo em torno de 110$000 r\u00e9is (se fosse mulher, 85$000 r\u00e9is). Para as rela\u00e7\u00f5es de assalariamento no Brasil de hoje, R$1.518,00 por m\u00eas, mas voc\u00ea pode encontrar por menos.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, no entanto, a vida n\u00e3o tem, ou n\u00e3o deveria ter valor. Pelo simples fato de que nenhum ser humano \u2014 nem sua for\u00e7a de trabalho \u2014 deveria ser uma mercadoria. Mas, como vimos, os seres humanos s\u00e3o transformados em mercadoria na rela\u00e7\u00e3o de troca expressando um valor.<\/p>\n<p>Tomando por analogia o reino da economia pol\u00edtica, chegamos \u00e0 macabra matem\u00e1tica do valor da vida no contexto do genoc\u00eddio. Conclu\u00edmos tragicamente que na economia do genoc\u00eddio um israelense vale 57,12 palestinos. Se preferirem, considerando o custo medido em equivalente monet\u00e1rio, algo em torno de US$ 854 mil por palestino morto. O genoc\u00eddio \u00e9 democr\u00e1tico, n\u00e3o importa que entre os cad\u00e1veres palestinos que jazem sobre os escombros de Gaza 81% sejam crian\u00e7as, para que se estabele\u00e7a a justa equival\u00eancia entre a vida de um israelense e a de um palestino.<\/p>\n<p>Mas qual seria a subst\u00e2ncia de tal macabra equival\u00eancia? Por qual raz\u00e3o um palestino carrega t\u00e3o pouco valor na rela\u00e7\u00e3o de troca com outra vida? Aqui cessa a analogia, n\u00e3o pode radicar tal subst\u00e2ncia no trabalho ou nos meios de potenci\u00e1-lo. Verdade que o ataque de 7 de outubro se deu com bal\u00f5es e dirigiveis prec\u00e1rios, enquanto o Estado sionista conta com a mais alta tecnologia b\u00e9lica para destrui\u00e7\u00e3o em massa. No entanto, isso s\u00f3 diz respeito \u00e0 efic\u00e1cia do genoc\u00eddio e n\u00e3o \u00e0quilo que queremos compreender.<\/p>\n<p>A resposta est\u00e1 em outro lugar. Freud, diante do espanto da eclos\u00e3o da Primeira Guerra Mundial, vaticina que est\u00e1vamos preparados \u201cpara que a humanidade se visse ainda, por muito tempo, enredada em guerras entre os povos primitivos e os civilizados, entre ra\u00e7as humanas diferenciadas pela cor da pele e, inclusive, entre os povos menos evolu\u00eddos ou incultos da Europa\u201d (FREUD, 2009, p. 5); no entanto, os povos civilizados \u2014 os homens brancos a quem caberia supostamente o comando da civiliza\u00e7\u00e3o \u2014 deveriam, segundo o pai da psican\u00e1lise, encontrar outro meio para resolver conflitos que n\u00e3o a guerra.<\/p>\n<p>Bom, ao que parece a cor da pele, o patamar de evolu\u00e7\u00e3o e de cultura incidem sobre a diferen\u00e7a que se expressa na equival\u00eancia da morte. O povo judeu vivenciaria este fato no segundo conflito mundial, quando ao lado de ciganos, comunistas, homossexuais, crian\u00e7as com s\u00edndrome de down e outros foram considerados seres indignos de vida. Um ariano valia, segundo o nazismo, muito mais que um judeu.<\/p>\n<p>Para que se possa praticar o genoc\u00eddio \u00e9 necess\u00e1rio romper o elo que iguala as pessoas como seres humanos. Dizem que aqueles que praticavam as matan\u00e7as em Ruanda consideravam suas v\u00edtimas como baratas, e seus assassinatos como mera jornada de trabalho. O pr\u00f3prio Freud, diante do horror de uma guerra entre povos brancos e civilizados, nos diz que a aparente insensibilidade frente \u00e0 enorme matan\u00e7a na guerra teria se dado pelo rompimento dos milhares de la\u00e7os entre os seres humanos, de forma que sua perda n\u00e3o se prestar\u00e1 a provocar um luto ou uma melancolia (FREUD, 2013, p.34).<\/p>\n<p>Os palestinos precisam perder sua dignidade de pessoas, t\u00eam que ser apresentados como terroristas para que possam ser eliminados em massa, exterminados como animais, como afirmou o ministro da Defesa de Israel, Yov Gallant. Ao ser liberada ap\u00f3s o sequestro das for\u00e7as israelenses, Greta Thunberg, que poderia destacar as torturas e maus tratos sofridos, preferiu destacar o horror diante da apatia do mundo diante do massacre na Faixa de Gaza.<\/p>\n<p>A apatia diante do massacre, a banalidade do mal, nas palavras de Hannah Arendt, ou ainda a insensibiliza\u00e7\u00e3o vendo o notici\u00e1rio enquanto jantamos, como queiram, desumanizam as v\u00edtimas na mesma medida que nos desumanizamos.<\/p>\n<p>Enquanto se festejava o cessar fogo e se incensava Donald Trump como candidato ao pr\u00eamio Nobel da Paz, a economia pol\u00edtica do genoc\u00eddio ainda n\u00e3o cessou. O ministro das Finan\u00e7as de Israel, o direitista Bezael Smotrich, est\u00e1 preocupado em recuperar o investimento no genoc\u00eddio atrav\u00e9s de um empreendimento imobili\u00e1rio em conjunto com o pacifista presidente do EUA (que forneceu as armas e recursos para a destrui\u00e7\u00e3o de Gaza). De forma c\u00ednica e brutal, afirmou que o trabalho de destrui\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava feito, agora trata-se da fase da constru\u00e7\u00e3o, o que implicara em bairros de luxo e condom\u00ednios para policiais sionistas, talvez uma est\u00e1tua dourada e de mau gosto. H\u00e1 tamb\u00e9m as reservas de g\u00e1s e petr\u00f3leo sob os escombros de Gaza e dos cad\u00e1veres em decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O complexo industrial-militar computar\u00e1 seus lucros. O mundo gastou em 2024 a quantia de 2,7 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em guerras localizadas e outras j\u00e1 est\u00e3o no forno prestes a eclodir. Os palestinos que desde 1948 n\u00e3o t\u00eam um Estado, agora n\u00e3o ter\u00e3o mais terra, mar, bra\u00e7os, pernas, filhos, av\u00f3s e oliveiras centen\u00e1rias.<\/p>\n<p>Enquanto Estados ruminam acordos, a ONU morre lentamente de letargia provando que os la\u00e7os com a humanidade v\u00e3o se rompendo e enterrando seja o luto ou a melancolia, uma bandeira percorre o mundo, sem territ\u00f3rio ou fronteiras, apenas alimentada por estes la\u00e7os que ainda nos unem como humanidade e preenchem nossos cora\u00e7\u00f5es de dor, de raiva, de poesia e de cantos.<\/p>\n<p>Os palestinos n\u00e3o ter\u00e3o um Estado. Mas, quando o mundo n\u00e3o tiver mais Estados, ainda haver\u00e1 Palestina, talvez como um dor imensa, talvez como um broto de oliveira crescendo entre escombros diante do mar.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>FREUD, S. A nossa atitude diante da morte. Escritos sobre a guerra e a morte. Covilh\u00e3: Universidade de Beira Interior, 2009.<\/p>\n<p>FREUD, S. Luto e melancolia. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2013.<\/p>\n<p>MARX, K. O capital. V. I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>WILDE, O. A alma do homem sob o socialismo. Porto Alegre: LP&amp;M, 2003.<\/p>\n<p>***<br \/>\nMauro Iasi professor aposentado da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, professor convidado do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social da PUC de S\u00e3o Paulo, educador popular e membro do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2025\/10\/17\/o-valor-da-vida-e-o-genocidio\/\">https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2025\/10\/17\/o-valor-da-vida-e-o-genocidio\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33261\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[65,10,78],"tags":[223],"class_list":["post-33261","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional","category-s19-opiniao","category-c91-solidariedade-a-palestina","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Et","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33261","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33261"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33261\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33300,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33261\/revisions\/33300"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}