{"id":33274,"date":"2025-10-28T23:57:49","date_gmt":"2025-10-29T02:57:49","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33274"},"modified":"2025-11-01T13:25:47","modified_gmt":"2025-11-01T16:25:47","slug":"brasil-uma-economia-de-baixos-salarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33274","title":{"rendered":"Brasil, uma economia de baixos sal\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem100\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/image-5.png?w=747&#038;ssl=1\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Edmilson Costa*<\/p>\n<p>O governo Lula e os meios de comunica\u00e7\u00e3o anunciaram com estardalha\u00e7o que o desemprego no Brasil caiu para 5,8%, o menor \u00edndice em toda s\u00e9rie hist\u00f3rica aferida no pa\u00eds desde 2012. Ao mesmo tempo, anunciaram que a renda dos trabalhadores estava aumentando e a pobreza diminuindo em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo. Alguns economistas ligados ao PT chegaram mesmo a dizer que a economia vai t\u00e3o bem que j\u00e1 atingimos o pleno emprego. Muitos companheiros e companheiras de esquerda, por certa pregui\u00e7a em investigar mais a fundo o problema, est\u00e3o comprando os dados como se espelhassem efetivamente a realidade plena do mercado de trabalho. No entanto, esses resultados estat\u00edsticos, apesar de n\u00e3o corresponderem propriamente a uma inverdade, n\u00e3o representam exatamente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o real da classe trabalhadora brasileira em termos de emprego e renda, uma vez que o desemprego envolve milh\u00f5es de trabalhadores e trabalhadoras e os sal\u00e1rios no Brasil s\u00e3o considerados dos mais baixos do mundo industrializado, t\u00e3o baixos que o Brasil \u00e9 conhecido internacionalmente como uma economia de baixos sal\u00e1rios. Nesse contexto, podemos dizer que a classe trabalhadora sustenta o crescimento da economia mediante a superexplora\u00e7\u00e3o e o endividamento, que este ano j\u00e1 atinge mais de dois ter\u00e7os das fam\u00edlias, sendo que o comprometimento m\u00e9dio com a renda \u00e9 de 27,9%, segundo o Banco Central.<\/p>\n<p>O Brasil atual vive uma situa\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima daquela que Marx certa vez advertiu: se a apar\u00eancia dos fen\u00f4menos correspondesse \u00e0 ess\u00eancia, n\u00e3o era necess\u00e1ria a ci\u00eancia, o que significa que nem sempre a apar\u00eancia das coisas corresponde aos fatos.[1] Em termos reais, os n\u00fameros divulgados pelo governo podem ser considerados uma ilus\u00e3o estat\u00edstica, pois escondem uma realidade diferente do que ocorre efetivamente no mercado de trabalho. Sen\u00e3o vejamos: segundo a PNAD Cont\u00ednua de abril-maio-junho de 2025, os 5,8% de desempregados e desempregadas correspondem a uma popula\u00e7\u00e3o desocupada de 6,3 milh\u00f5es de trabalhadores e trabalhadoras, numa popula\u00e7\u00e3o de 102,3 milh\u00f5es de ocupados e ocupadas, enquanto outros 2,8 milh\u00f5es est\u00e3o na categoria de desalentados\/as &#8211; aqueles e aquelas que j\u00e1 desistiram de procurar trabalho, mas na pr\u00e1tica est\u00e3o tamb\u00e9m desempregados\/as.<\/p>\n<p>Somados\/as, formam um ex\u00e9rcito de reserva de 9,1 milh\u00f5es de trabalhadores\/as fora do mercado, o que n\u00e3o \u00e9 um n\u00famero pequeno.[2] A gravidade dessa situa\u00e7\u00e3o aumenta quando avaliamos a metodologia oficial de aferi\u00e7\u00e3o, que considera como empregadas as pessoas que dedicaram ao menos uma hora completa de trabalho em uma ocupa\u00e7\u00e3o (o que \u00e9 ris\u00edvel) ou que estavam temporariamente afastadas por motivos de doen\u00e7a, f\u00e9rias ou jornada vari\u00e1vel,[3] o que significa uma abstra\u00e7\u00e3o conveniente e uma defini\u00e7\u00e3o el\u00e1stica que transforma a precariedade em estat\u00edstica de sucesso.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o desemprego brasileiro n\u00e3o pode ser medido apenas pelos n\u00fameros formais porque a an\u00e1lise real do mercado de trabalho brasileiro \u00e9 muito diferente: a popula\u00e7\u00e3o subutilizada e subocupada por insufici\u00eancia de horas, que s\u00e3o aqueles e aquelas que n\u00e3o conseguem trabalho integral, mas gostariam de trabalhar mais, somam 21,1 milh\u00f5es de trabalhadores\/as, fen\u00f4meno que revela um problema muito mais amplo que o discurso otimista do governo. Entretanto, o n\u00famero mais dram\u00e1tico \u00e9 o da informalidade: 38,7 milh\u00f5es de trabalhadores\/as, um percentual pr\u00f3ximo a 40% da for\u00e7a de trabalho nacional, est\u00e3o na informalidade, sem carteira assinada, sem direitos, sem aposentadoria e sem seguridade social (Tabela 1).[4] Para esse imenso contingente de trabalhadores\/as precarizados\/as, governo e burguesia difundem o empreendedorismo como solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica para resolver seus problemas. O Estado capitalista, incapaz de gerar empregos dignos, coloca nos ombros do trabalhador e da trabalhadora a responsabilidade pela pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Tabela 1<\/strong><\/p>\n<table style=\"font-weight: 400;\" width=\"534\">\n<tbody>\n<tr>\n<td colspan=\"3\" width=\"534\"><strong>Desemprego, subutiliza\u00e7\u00e3o, insufici\u00eancia de horas, informalidade (milh\u00f5es)<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"184\"><\/td>\n<td width=\"176\">N\u00fameros absolutos<\/td>\n<td width=\"175\">% da pop. Ocupada<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"184\"><strong>Pop. desempregada<\/strong><\/td>\n<td width=\"176\">6,3<\/td>\n<td width=\"175\">5,8<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"184\"><strong>Pop. Subutilizada<\/strong><\/td>\n<td width=\"176\">16,5<\/td>\n<td width=\"175\">14,4<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"184\"><strong>Pop. desalentada<\/strong><\/td>\n<td width=\"176\">2,8<\/td>\n<td width=\"175\">2,5<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"184\"><strong>Informalidade<\/strong><\/td>\n<td width=\"176\">38,7<\/td>\n<td width=\"175\">37,8<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"359\">Fonte: PNAD Cont\u00ednua, abril-maio-junho 2025<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>A informalidade, longe de ser uma anomalia do sistema, \u00e9 parte integrante da l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o capitalista no Brasil, ao garantir ao capital flexibilidade no mercado de trabalho, redu\u00e7\u00e3o de custos e desorganiza\u00e7\u00e3o sindical, pois o\/a trabalhador\/a informal n\u00e3o tem jornada regular nem os direitos dos\/as trabalhadores\/as formais, vive de trabalhos prec\u00e1rios, submetidos \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es da demanda e da instabilidade cotidiana e pode ser descartado conforme a conveni\u00eancia do mercado. O emprego, que deveria ser um direito, converte-se na ilus\u00e3o de montar o seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio, uma aventura individual marcada pela instabilidade e risco permanente. O Estado cria uma narrativa de sucesso individual (que n\u00e3o corresponde \u00e0 verdade) para esconder a aus\u00eancia de uma pol\u00edtica p\u00fablica de cria\u00e7\u00e3o de empregos formais para os\/as trabalhadores\/as. Em resumo: o Brasil n\u00e3o vive uma era de pleno emprego, mas uma situa\u00e7\u00e3o em que grande parcela da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora \u00e9 submetida a um regime de subemprego, com m\u00e3o de obra barata e descart\u00e1vel. O que o governo chama de \u201crecupera\u00e7\u00e3o do emprego\u201d n\u00e3o \u00e9 nada mais nada menos do que uma estrutura na qual convivem um n\u00facleo de empregos formais (39 milh\u00f5es no setor privados e 12,8 milh\u00f5es no setor p\u00fablico) e uma imensa maioria na informalidade, em empregos prec\u00e1rios ou no desemprego.<\/p>\n<p><strong>Trabalho barato e l\u00f3gica da superexplora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Se a taxa de desemprego pode ser enfeitada pelas estat\u00edsticas para parecer virtuosa, com rela\u00e7\u00e3o aos rendimentos a situa\u00e7\u00e3o dos\/as trabalhadores\/as \u00e9 muito mais dram\u00e1tica. Recente estudo realizado pelo IBGE, com base no Censo de 2022, indica que 35,3% das pessoas ocupadas no Brasil recebiam at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo (R$ 1.212,00 em 2022), ressaltando-se ainda que 1% n\u00e3o possu\u00eda rendimentos. Isso significa que mais de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o vive na linha da sobreviv\u00eancia, que mal garante a reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica para realizar o trabalho. A mesma pesquisa constata que 32,7% ganhavam, no mesmo per\u00edodo, entre 1 e 2 sal\u00e1rios m\u00ednimos. Se somarmos os dois contingentes de trabalhadores\/as, verificaremos que 68% ganhavam muito mal em 2022, situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o melhorou muito em nossos dias. Esses dados revelam que a grande maioria dos\/as trabalhadores\/as no pa\u00eds possuem uma remunera\u00e7\u00e3o extremamente baixa, perfazendo uma massa salarial agregada que constitui o alicerce da economia brasileira de baixos sal\u00e1rios. Paralelamente, 14,2% ganham de 2 a 3 sal\u00e1rios m\u00ednimos e apenas 7,6% possu\u00edam ganhos superiores a 5 sal\u00e1rios m\u00ednimos, assim distribu\u00eddos: de 5 a 10 sal\u00e1rios m\u00ednimos, 5,1%; de 10 a 15 sal\u00e1rios m\u00ednimos, 1,2%; de 15 a 20 sal\u00e1rios m\u00ednimos 0,7%; e mais de 20 sal\u00e1rios m\u00ednimos, 0,7% (Tabela 2).[5] Aprofundando-se mais os dados do IBGE, encontramos uma situa\u00e7\u00e3o impressionante: exatamente em 520 dos 5.571 munic\u00edpios os\/as trabalhadores\/as recebiam um rendimento inferior a um sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Tabela 2<\/strong><\/p>\n<table style=\"font-weight: 400;\" width=\"519\">\n<tbody>\n<tr>\n<td colspan=\"5\" width=\"519\"><strong>Distribui\u00e7\u00e3o dos trabalhadores segundo o rendimento &#8211; 2022<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"349\"><strong>Classes de rendimento<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td colspan=\"2\" width=\"160\"><strong>% da pop. ocupada<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"339\"><strong>Sem rendimentos<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">1%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"339\"><strong>At\u00e9 um 1\/4 de S\/M<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">3,9<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"349\"><strong>Mais de 1\/4 a 1\/2 de S\/M<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">6,3<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"339\"><strong>Mais de 1\/2 a 1 S\/M<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">24,2<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"339\"><strong>Mais de 1 a 2 S\/M<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">32,7<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"339\"><strong>Mais de 2 a 3 S\/M<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">14,2<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"339\"><strong>Mais de 3 a 5 S\/M<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">10,1<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"339\"><strong>Mais de 10 S\/M<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">5,1<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"339\"><strong>Mais de 10 a 15 S\/M<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">1,2<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"339\"><strong>Mais de 15 a 20 S\/M<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">0,7<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"339\"><strong>Mais de 20 S\/M<\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\">0,7<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"3\" width=\"359\">Fonte: IBGE &#8211; Trabalho e Rendimento<\/td>\n<td width=\"13\"><\/td>\n<td width=\"147\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Se desagregarmos os indicadores da pesquisa por sexo, poderemos constatar um padr\u00e3o caracter\u00edstico da sociedade brasileira: a popula\u00e7\u00e3o ocupada masculina possu\u00eda, em 2022, rendimento nominal m\u00e9dio de todos os trabalhos 24,3% maior que os ganhos das mulheres. Avaliando o recorte da pesquisa por cor ou ra\u00e7a, encontraremos os seguintes resultados: as categorias amarela e branca registraram resultados consideravelmente acima da m\u00e9dia nacional, enquanto os\/as trabalhadores\/as de cor parda e preta recebiam bem menos, e a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena apresentava o menor rendimento m\u00e9dio do trabalho. Por n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o, a pesquisa indicou um dado j\u00e1 esperado, ou seja, quanto mais instru\u00eddo o trabalhador e a trabalhadora, maior ser\u00e1 o seu ganho. Assim, os menores rendimentos encontram-se entre as pessoas sem instru\u00e7\u00e3o e fundamental incompleto, enquanto aqueles com superior completo obtiveram os maiores ganhos.<\/p>\n<p>Numa an\u00e1lise mais extensa, levando em conta a composi\u00e7\u00e3o do rendimento domiciliar per capita, que envolve a renda de outras fontes al\u00e9m do trabalho, como aposentadoria, pens\u00e3o, benef\u00edcios de programa sociais, rendimento de aluguel e outras origens, observa-se que, em n\u00edvel nacional, o rendimento de todos os trabalhos correspondia a 75,5% do rendimento mensal domiciliar, enquanto 24,5% vinham de outras fontes. Nas grandes regi\u00f5es havia diferen\u00e7as marcantes na composi\u00e7\u00e3o de ganhos oriundos de outras fontes na renda domiciliar: no Nordeste, era de 32,1%; no Norte, 23,9%; no Sudeste 23,3%; no Sul, 23,1%; e no Centro-Oeste 23,4%. Em outras palavras, cerca de um quarto do rendimento familiar nacional era proveniente de outras fontes que n\u00e3o o trabalho, o que demonstra que os\/as trabalhadores\/as, em fun\u00e7\u00e3o do baixo rendimento, s\u00e3o obrigados\/as a recorrer aos programas sociais do Estado para sobreviver.<\/p>\n<p>A desagrega\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o por classes de rendimento mensal per capita, em termos nacionais e grandes regi\u00f5es, revela os seguintes resultados, ainda de acordo com o Censo de 2022: nacionalmente, 13,3% da popula\u00e7\u00e3o tinham renda domiciliar per capita de at\u00e9 um quarto de sal\u00e1rio m\u00ednimo, enquanto em algumas regi\u00f5es os percentuais eram ainda maiores: na regi\u00e3o Norte, era de 23,3% da popula\u00e7\u00e3o; no Nordeste, 22,4%; enquanto no Sudeste, Centro-Oeste e Sul os indicadores eram menores: 9,1%; 8,1%; e 5,4% respectivamente. Em sequ\u00eancia poderemos constatar que 39% da popula\u00e7\u00e3o brasileira tinham rendimento domiciliar per capita m\u00e9dio de mais de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, \u00edndice que cai para 20,8 na regi\u00e3o Nordeste; 23% na regi\u00e3o Norte; e aumenta para 56% na regi\u00e3o Sul; 46,6% na regi\u00e3o Sudeste; 46,4% na regi\u00e3o Centro-Oeste.<\/p>\n<p>Outro indicador importante para se medir a desigualdade de rendimento da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00cdndice de Gini, que analisa toda a informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel sobre os rendimentos da popula\u00e7\u00e3o, considerando a distribui\u00e7\u00e3o em valores que variam de 0 a 1 (zero a um), sendo zero uma situa\u00e7\u00e3o de perfeita igualdade na distribui\u00e7\u00e3o dos rendimentos e um uma perfeita desigualdade, onde os rendimentos estariam concentrados na m\u00e3o de uma \u00fanica pessoa. Pelos dados do Censo de 2022, o \u00edndice de Gini do rendimento domiciliar per capita m\u00e9dio foi de 0,542 para o territ\u00f3rio nacional. Esses indicadores s\u00e3o mais elevados nas regi\u00f5es Norte e Nordeste (0,545 e 0,541 respectivamente). Nas regi\u00f5es Sudeste e Centro-Oeste o \u00cdndice de Gini atingiu, respectivamente, 0,530 e 0,531, enquanto na regi\u00e3o Sul foi registrado o menor valor \u2013 0,476.<\/p>\n<p>Tabela 3<\/p>\n<table style=\"font-weight: 400;\" width=\"537\">\n<tbody>\n<tr>\n<td colspan=\"7\" width=\"537\"><strong>\u00cdndice Gini de renda domiciliar per capita &#8211; Brasil e Grandes regi\u00f5es, 2022<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"294\"><strong>Brasil<\/strong><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"182\">0,542<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"294\"><strong>Norte<\/strong><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"182\">0,545<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"294\"><strong>Nordeste<\/strong><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"182\">0,541<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"306\"><strong>Centro-Oeste<\/strong><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"182\">0,531<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"294\"><strong>Sudeste<\/strong><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"182\">0,530<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"294\"><strong>Sul<\/strong><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"182\">0,476<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"294\">Fonte: IBGE, Trabalho e Rendimento<\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"12\"><\/td>\n<td width=\"182\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Avalia\u00e7\u00e3o da superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho no Brasil<\/p>\n<p>Os dados revelados pelo IBGE demostram claramente que existe no Brasil um processo escandaloso de superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, desigualdade de rendimentos e estrutura\u00e7\u00e3o de um modelo baseado no pagamento de expressiva parte dos\/as trabalhadores\/as abaixo do valor da for\u00e7a de trabalho. Marx j\u00e1 tinha observado esse processo quando afirmou, em O Capital, que o valor da for\u00e7a de trabalho \u00e9 determinado pelo valor de certa quantidade de meios de subsist\u00eancia do\/a trabalhador\/a, mas muitas vezes o que o\/a trabalhador\/a recebe pode estar abaixo de seu valor, isto \u00e9, esse processo ocorre quando o pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho n\u00e3o compensa o seu desgaste acelerado.[6] Marx em seus trabalhos desenvolveu as bases para se compreender n\u00e3o apenas o processo de explora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a superexplora\u00e7\u00e3o dos\/as trabalhadores\/as, muito embora n\u00e3o tenha efetivamente cunhado esta express\u00e3o.<\/p>\n<p>O termo superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho foi desenvolvido de maneira mais completa pelo te\u00f3rico brasileiro exilado no M\u00e9xico e professor da Universidade Aut\u00f4noma daquele pa\u00eds, Ruy Mauro Marini, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70 do s\u00e9culo passado. Marini desenvolveu a ideia de que a superexplora\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina \u00e9 consequ\u00eancia da concorr\u00eancia desigual entre os pa\u00edses da regi\u00e3o e os pa\u00edses centrais no mercado mundial. Para compensar as desvantagens em termos tecnol\u00f3gicos e de produtividade, o capital local deprecia o custo da m\u00e3o de obra para competir no mercado internacional, transferindo dessa forma valor para as economias centrais e aprofundando a depend\u00eancia. Ou seja, a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 a l\u00f3gica das economias regionais e o mecanismo que permite ao pa\u00eds dependente se inserir de forma subordinada no mercado mundial \u00e0s custas da classe trabalhadora latino-americana, o que em termos pr\u00e1ticos significa uma transfer\u00eancia colossal de valor para as economias do centro capitalista.[7]<\/p>\n<p>Em termos concretos, pode-se claramente dizer que a estrutura de rendimentos no Brasil \u00e9 marcada pela superexplora\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o dos baixos sal\u00e1rios pagos aos trabalhadores e \u00e0s trabalhadoras. Para tanto, basta dizer que 35,3% dos\/as trabalhadores\/as ocupados\/as recebiam, em 2022, at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo, o que demonstra que mais de um ter\u00e7o da for\u00e7a de trabalho est\u00e1 ganhando abaixo das condi\u00e7\u00f5es de sua reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica e social. A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 muito diferente para 68% da m\u00e3o de obra, que ganhava no per\u00edodo at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos, o que mais uma vez comprova que o Brasil possui uma economia de baixos sal\u00e1rios. Mesmo observando o topo da pir\u00e2mide salarial, pode-se constatar que apenas 7,6% da classe trabalhadora ganhava mais de 5 sal\u00e1rios m\u00ednimos. Para termos uma ideia do n\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o dos\/as trabalhadores\/as, basta dizer que o Dieese calcula periodicamente o sal\u00e1rio m\u00ednimo necess\u00e1rio para sustentar uma fam\u00edlia trabalhadora de quatro pessoas. O \u00faltimo dado do Dieese indica que que, para sustentar essa fam\u00edlia, seria necess\u00e1rio um sal\u00e1rio de R$ 7.075,00, ou seja, o atual sal\u00e1rio m\u00ednimo de R$ 1.518,00 corresponde a pouco mais de 20% do que o\/a trabalhador\/a deveria ganhar atualmente. O resultado desse perfil salarial \u00e9 uma sociedade profundamente desigual, com uma brutal concentra\u00e7\u00e3o de renda, que imp\u00f5e permanentemente limita\u00e7\u00f5es \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do mercado nacional.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise mais detalhada da pesquisa do IBGE demonstra outros resultados negativos relacionados ao diagn\u00f3stico sobre a desigualdade do mercado de trabalho no pa\u00eds: a popula\u00e7\u00e3o de 520 munic\u00edpios ganhava, em m\u00e9dia, menos de 1 sal\u00e1rio m\u00ednimo, o que revela a exist\u00eancia de verdadeiros bols\u00f5es de mis\u00e9ria e abismos regionais que separam as v\u00e1rias regi\u00f5es brasileiras. A desigualdade de g\u00eanero e de cor destaca outro tra\u00e7o persistente: os homens ganhavam mais que as mulheres, e os brancos e amarelos tinham rendimento maior que pretos e pardos. Essas diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o apenas estat\u00edsticas, mas refletem a heran\u00e7a hist\u00f3rica do patriarcado e do racismo estrutural na sociedade brasileira. Tamb\u00e9m do ponto de vista da escolaridade se pode constatar a l\u00f3gica da exclus\u00e3o educacional: os menos instru\u00eddos s\u00e3o empurrados para atividades prec\u00e1rias e baixos sal\u00e1rios, enquanto os de n\u00edvel superior est\u00e3o posicionados nas \u00e1reas de trabalho mais qualificados e com maiores sal\u00e1rios, o que alimenta a desigualdade e consolida privil\u00e9gios de classe.<\/p>\n<p>Outro dado interessante da pesquisa do IBGE aparece quando analisamos o rendimento domiciliar per capita das fam\u00edlias brasileiras: os ganhos de 24,5% dessas fam\u00edlias s\u00e3o oriundos de fontes como aposentadorias e benef\u00edcios sociais, fen\u00f4meno que demonstra que a ocupa\u00e7\u00e3o dos componentes das unidades familiares deixou de ser suficiente para a sobreviv\u00eancia dessas fam\u00edlias, fato que mais uma exp\u00f5e a precariedade do mercado de trabalho. Nas regi\u00f5es, observam-se dados ainda mais intrigantes, uma vez que no Nordeste 32,1% da renda domiciliar prov\u00e9m de fontes diferentes do trabalho, enquanto nas regi\u00f5es Sudeste, Sul e Centro-Oeste a propor\u00e7\u00e3o de renda proveniente do trabalho \u00e9 maior que nas regi\u00f5es mais pobres. Essa realidade indica que o Estado, atrav\u00e9s de pol\u00edtica previdenci\u00e1ria e de transfer\u00eancia de renda, tem sido um dos elementos importantes para a reprodu\u00e7\u00e3o social nas regi\u00f5es mais pobres, funcionando como um amortecedor da mis\u00e9ria no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o \u00edndice de Gini, ao medir a concentra\u00e7\u00e3o de renda no Brasil, sintetiza o abismo social que marca a sociedade brasileira. A valora\u00e7\u00e3o de 0,542 registrada para o Brasil confirma que o nosso pa\u00eds continua a se posicionar entre os mais desiguais do mundo e revela que a renda segue concentrada em m\u00e3os de uma pequena minoria. Avaliando-se em termos regionais, veremos que os dados do Norte e Nordeste apresentam desigualdade ainda maior que a m\u00e9dia nacional, enquanto a regi\u00e3o Sul mostra uma distribui\u00e7\u00e3o da renda menos desigual, mas ainda distante de qualquer indicador que represente uma distribui\u00e7\u00e3o semelhante aos pa\u00edses centrais. Por todos os \u00e2ngulos que se examine, a desigualdade de renda no Brasil n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno conjuntural, mas a base sobre a qual se ergue a acumula\u00e7\u00e3o capitalista e guarda semelhan\u00e7a hist\u00f3rica com o padr\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o de renda que se desenvolveu desde a coloniza\u00e7\u00e3o. Nessa perspectiva, a pobreza e a mis\u00e9ria n\u00e3o s\u00e3o acidentes, mas condi\u00e7\u00f5es essenciais para a reprodu\u00e7\u00e3o do sistema capitalista brasileiro.<\/p>\n<p>O Estado como gestor da pobreza<\/p>\n<p>Em termos s\u00f3cio-econ\u00f4micos, o capitalismo brasileiro se estrutura a partir da pobreza generalizada. Trata-se de um sistema que produz uma massa de consumidores empobrecidos, que sustenta grande parte de seu consumo mediante o endividamento e o cr\u00e9dito ao consumidor, em consequ\u00eancia dos baixos sal\u00e1rios e do alto custo de vida, situa\u00e7\u00e3o que submete o\/a trabalhador\/a a um processo de depend\u00eancia financeira permanente. Um aspecto importante dessa conjuntura \u00e9 o fato de que o governo tem um papel fundamental nessa engrenagem porque transformou o endividamento em pol\u00edtica de Estado. As pol\u00edticas de cr\u00e9dito popular e incentivo ao consumo criam um ciclo de expans\u00e3o artificial da demanda que endivida e empobrece o\/a trabalhador\/a e beneficia o sistema financeiro e o setor comercial. A propaganda completa o processo ao convencer as pessoas de que comprar uma geladeira, um televisor, um telefone ou um t\u00eanis em dez vezes parceladas significa sua inclus\u00e3o no mercado, quando na verdade est\u00e3o caindo em uma armadilha, pagando juros exorbitantes e aprofundando a depend\u00eancia financeira.<\/p>\n<p>A grande m\u00eddia difunde ainda a narrativa de que o pa\u00eds est\u00e1 vivendo um per\u00edodo de grande prosperidade, com desemprego em baixa, sal\u00e1rios em alta, economia em recupera\u00e7\u00e3o. Parece um mundo encantado, mas a realidade \u00e9 bem diferente. Como vimos nos n\u00fameros divulgados pelo IBGE, o crescimento econ\u00f4mico \u00e9 o crescimento do lucro dos bancos e dos grandes monop\u00f3lios privados; a redu\u00e7\u00e3o do desemprego \u00e9 realizada mediante precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, a propaganda do empreendedorismo e baixos sal\u00e1rios. Nesse sentido, a base da desigualdade brasileira combina informalidade estrutural, carga tribut\u00e1ria regressiva e superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, resultando num sistema onde uma pequena minoria vive nababescamente cercada por vastas regi\u00f5es e periferias de pobreza e mis\u00e9ria. Al\u00e9m disso, o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) n\u00e3o se traduz em bem estar social para a maioria da popula\u00e7\u00e3o, mas no enriquecimento cada vez maior dos setores de alta renda.<\/p>\n<p>J\u00e1 a pobreza no Brasil \u00e9 muito mais que um processo de priva\u00e7\u00e3o material: trata-se tamb\u00e9m de um modo de aliena\u00e7\u00e3o, que aprisiona os indiv\u00edduos a um ciclo de car\u00eancia que os impede de perceber as contradi\u00e7\u00f5es da vida e sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de explorado. Esse processo \u00e9 complementado pela maioria das igrejas pentecostais, que buscam condicionar os pobres a acreditarem que sua situa\u00e7\u00e3o \u00e9 transit\u00f3ria, que se tiver f\u00e9 e perseveran\u00e7a poder\u00e1 resolver os seus problemas e ascender na vida. Essa aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 ampliada pela ideologia neoliberal que transforma o indiv\u00edduo em culpado pela pr\u00f3pria pobreza. Se o\/a trabalhador\/a se esfor\u00e7ar na aventura empreendedora poder\u00e1 se libertar do patr\u00e3o, ter um trabalho flex\u00edvel e ganhar muito dinheiro com o seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio. Dessa forma, um povo empobrecido se torna muito mais f\u00e1cil de controlar, muito mais distante da rebeli\u00e3o e dependente da tutela estatal.<\/p>\n<p>O Estado tamb\u00e9m cumpre o papel de gestor da desigualdade, garantindo \u00e0s classes dominantes o controle da riqueza nacional e entregando \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais pobre apenas as migalhas da pol\u00edtica de compensa\u00e7\u00e3o social. Os programas sociais, como Bolsa Fam\u00edlia, aliviam temporariamente a mis\u00e9ria e a fome, mas n\u00e3o questionam suas causas estruturais nem a l\u00f3gica da concentra\u00e7\u00e3o de renda que produz pobres aos milhares. Esses programas, que fazem parte do receitu\u00e1rio neoliberal, funcionam tamb\u00e9m como v\u00e1lvula de conten\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es sociais, buscando evitar as explos\u00f5es populares e visando anestesiar a popula\u00e7\u00e3o para que n\u00e3o compreendam a explora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se revoltem contra o sistema. Sendo um pouco mais duro: \u00e9 necess\u00e1rio dizer que o combate \u00e0 pobreza com essas pol\u00edticas \u00e9 uma forma de gest\u00e3o da mis\u00e9ria porque, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o capitalismo brasileiro precisa da mis\u00e9ria para existir da forma como existe. A pobreza termina sendo o combust\u00edvel que alimenta a superexplora\u00e7\u00e3o e o cimento ideol\u00f3gico que estratifica a hierarquia social em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>*Edmilson Costa \u00e9 doutor em economia pela Unicamp, com p\u00f3s-doutorado no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 secret\u00e1rio geral do PCB.<\/p>\n<p>[1] Na verdade, a afirma\u00e7\u00e3o que fizemos \u00e9 uma par\u00e1frase em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 famosa frase de Marx. Vejamos na \u00edntegra o que disse o Mouro: \u201c&#8230; toda ci\u00eancia seria sup\u00e9rflua se a forma de manifesta\u00e7\u00e3o e a ess\u00eancia das coisas coincidisse imediatamente\u201d. O Capital, vol. III, cap\u00edtulo 48 \u201cA forma trinit\u00e1ria\u201d. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017.<\/p>\n<p>[2] PNAD Cont\u00ednua abril-maio-junho de 2025<\/p>\n<p>[3] IBGE. Trabalho e Rendimento. Resultados Preliminares da Amostra, 2025.<\/p>\n<p>[4] Todos esses dados foram obtidos na \u00faltima pesquisa da PNAD Cont\u00ednua referente ao trimestre abril-maio-junho de 2025.<\/p>\n<p>[5] Todos esses dados constam da pesquisa do IBGE, denominada Trabalho e Rendimento \u2013 Resultados preliminares da amostra. Rio de Janeiro, outubro de 2025<\/p>\n<p>[6] Marx, K. O Capital. Cap\u00edtulo 15. Varia\u00e7\u00e3o e grandeza do pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho e do mais-valor. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2023.<\/p>\n<p>[7] Marini, R. M. Dial\u00e9tica da depend\u00eancia, especialmente o cap\u00edtulo 2. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33274\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[385,66,10,383],"tags":[221],"class_list":["post-33274","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica-da-economia-politica","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8EG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33274"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33274\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33299,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33274\/revisions\/33299"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}