{"id":33319,"date":"2025-11-07T12:48:46","date_gmt":"2025-11-07T15:48:46","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33319"},"modified":"2025-11-07T12:48:46","modified_gmt":"2025-11-07T15:48:46","slug":"seguranca-publica-violencia-e-barbarie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33319","title":{"rendered":"Seguran\u00e7a p\u00fablica, viol\u00eancia e barb\u00e1rie"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33320\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33319\/573545088_18093021466867964_8169825605470008337_n\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/573545088_18093021466867964_8169825605470008337_n.jpg?fit=1440%2C754&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1440,754\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"573545088_18093021466867964_8169825605470008337_n\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/573545088_18093021466867964_8169825605470008337_n.jpg?fit=747%2C391&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-33320\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/573545088_18093021466867964_8169825605470008337_n.jpg?resize=747%2C391&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"391\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/573545088_18093021466867964_8169825605470008337_n.jpg?resize=900%2C471&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/573545088_18093021466867964_8169825605470008337_n.jpg?resize=300%2C157&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/573545088_18093021466867964_8169825605470008337_n.jpg?resize=768%2C402&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/573545088_18093021466867964_8169825605470008337_n.jpg?w=1440&amp;ssl=1 1440w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>A barb\u00e1rie no Estado RJ e as ra\u00edzes da crise de seguran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Edmilson Costa*<\/p>\n<p>A matan\u00e7a ocorrida no Rio de Janeiro, comandada pelo governador bolsonarista Cl\u00e1udio Castro, n\u00e3o \u00e9 apenas mais um epis\u00f3dio da barb\u00e1rie contra as popula\u00e7\u00f5es dos morros e periferias, mas um projeto pol\u00edtico da extrema-direita para recuperar o terreno que vinha perdendo com os esc\u00e2ndalos envolvendo os bolsonaristas, as den\u00fancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tentativa de golpe e as articula\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos que resultaram nas tarifas contra o Brasil. Al\u00e9m disso, as grandes manifesta\u00e7\u00f5es realizadas em todo o pa\u00eds, que resultaram na derrota da PEC da bandidagem, no enterro da pauta da anistia para Bolsonaro e, mais recentemente, a aprova\u00e7\u00e3o pela C\u00e2mara da isen\u00e7\u00e3o do imposto de renda para quem ganha at\u00e9 R$ 5 mil deixaram o bolsonarismo numa situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito dif\u00edcil. A chacina realizada no Complexo do Alem\u00e3o e na Penha foi o caminho encontrado pela extrema-direita para se reposicionar no jogo pol\u00edtico, uma vez que a carnificina alterou bruscamente a conjuntura nacional, deslocando o centro do debate pol\u00edtico da economia para a quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica e proporcionando ao bolsonarismo sair das cordas e colocar o governo na defensiva.<\/p>\n<p>Sob o pretexto de combate ao crime, a matan\u00e7a no Rio foi utilizada como propaganda pol\u00edtica, mediante um macabro espet\u00e1culo midi\u00e1tico, atrav\u00e9s do qual o bolsonarismo buscou coesionar sua base social e passar \u00e0 ofensiva pol\u00edtica. Todos devem lembrar que essa n\u00e3o \u00e9 uma t\u00e1tica nova: ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, a pol\u00edtica de seguran\u00e7a sempre serviu de mote para as for\u00e7as conservadoras buscarem prest\u00edgio e voto junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o brasileira. A direita percebeu que essa pauta mobiliza o senso comum e os sentimentos mais prim\u00e1rios da popula\u00e7\u00e3o (como medo, frustra\u00e7\u00e3o, raiva e desejo de seguran\u00e7a) e, por isso, sempre apela para o velho discurso da lei e da ordem. Essa estrat\u00e9gia \u00e9 funcional porque reorganiza o consenso reacion\u00e1rio em torno da ideia de que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d, ao mesmo tempo em que proporciona um mecanismo de controle social que legitima a repress\u00e3o e desvia o foco das causas estruturais da viol\u00eancia: o modelo econ\u00f4mico, o desemprego, a concentra\u00e7\u00e3o de renda e a exclus\u00e3o da maioria da popula\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, a mobiliza\u00e7\u00e3o oportunista dos governadores de extrema-direita ap\u00f3s a chacina demonstra a natureza instrumental da pauta da seguran\u00e7a. Sob o pretexto de coordenar pol\u00edticas de combate ao crime organizado, a proposta do chamado \u201cCons\u00f3rcio da Paz\u201d n\u00e3o \u00e9 nada mais, nada menos do que uma opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das for\u00e7as conservadoras visando as elei\u00e7\u00f5es de 2026 e, ao mesmo tempo, uma iniciativa que busca dois objetivos: a) nacionalizar o discurso da lei e da ordem, ocupar o v\u00e1cuo da lideran\u00e7a conservadora e desgastar o governo; b) constranger o Congresso e o Executivo atrav\u00e9s da narrativa de que s\u00e3o omissos diante da viol\u00eancia e do crime. Al\u00e9m disso, procura apresentar esses pol\u00edticos como homens de a\u00e7\u00e3o, capazes de propor medidas contra o crime e resolver problemas que o governo n\u00e3o resolve. Na verdade, esse cons\u00f3rcio deveria ser chamado de \u201ccons\u00f3rcio da morte\u201d, porque nasce do massacre de mais de cem jovens pretos e pobres das comunidades do Rio de Janeiro, enquanto esses governadores se omitem diante das mil\u00edcias, protegem o capital e reproduzem as desigualdades.<\/p>\n<p>Um aspecto que chama a aten\u00e7\u00e3o nessa trag\u00e9dia \u00e9 o fato de que a maioria das pessoas nas comunidades apoia a chacina promovida pelo governo do Rio. Esse fato n\u00e3o pode ser ignorado nem tratado com arrog\u00e2ncia pol\u00edtica. \u00c9 fundamental buscar as causas mais profundas de tal posicionamento da popula\u00e7\u00e3o. O apoio n\u00e3o nasce da simpatia com a extrema-direita nem da coniv\u00eancia com a viol\u00eancia, mas de uma combina\u00e7\u00e3o perversa de medo, \u00f3dio, frustra\u00e7\u00e3o e abandono. Isso porque a popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica \u00e9 duplamente oprimida, tanto pelo tr\u00e1fico quanto pela pol\u00edcia. De um lado, existe o tr\u00e1fico armado, que imp\u00f5e de maneira brutal sua lei nos territ\u00f3rios, alicia os jovens e estabelece seu dom\u00ednio baseado na amea\u00e7a e na for\u00e7a. De outro, o terror policial, que invade as casas, mata inocentes e espalha o medo e viol\u00eancia nas comunidades em nome da seguran\u00e7a. O resultado \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o encurralada, submetida a uma guerra peri\u00f3dica entre o tr\u00e1fico e a pol\u00edcia, sem alternativa de vida e sem perspectiva de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o apoio n\u00e3o \u00e9 fruto de um conservadorismo consciente, mas do desespero social que leva os mais pobres a apoiar aqueles que lhes prometem seguran\u00e7a, porque n\u00e3o veem outra sa\u00edda. \u00c9 justamente nessa conjuntura que o discurso da extrema-direita encontra eco, se fortalece e transforma o medo em mat\u00e9ria-prima para atingir seus objetivos pol\u00edticos. A hist\u00f3ria nos ensina que o medo e o \u00f3dio, quando manipulados ideologicamente, podem se converter em poderosa for\u00e7a pol\u00edtica a servi\u00e7o das for\u00e7as conservadoras, legitimando as barbaridades cometidas pelo bra\u00e7o armado das classes dominantes. Podemos dizer que o apoio da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie \u00e9 um gesto de desespero, com sinais trocados, uma busca por prote\u00e7\u00e3o diante de um pa\u00eds que abandonou os pobres \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Por isso, a quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica deve ser encarada como uma disputa de classe, diante da qual as for\u00e7as progressistas n\u00e3o podem ficar passivas: precisam afirmar corajosamente uma concep\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a p\u00fablica baseada na vida, para romper o v\u00e9u que aliena a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A esquerda na berlinda<\/strong><\/p>\n<p>O mais dram\u00e1tico dessa conjuntura, em que as for\u00e7as conservadoras dominam a narrativa, \u00e9 o fato de que a esquerda tem revelado um despreparo impressionante para enfrentar esse tema. Historicamente, a esquerda sempre evitou tratar a quest\u00e3o da viol\u00eancia e da seguran\u00e7a p\u00fablica em profundidade, seja por medo de parecer punitivista, seja por n\u00e3o possuir uma formula\u00e7\u00e3o s\u00f3lida sobre o assunto. Limitou-se, na maioria das vezes, \u00e0 den\u00fancia moral das chacinas e \u00e0 cr\u00edtica \u00e0 viol\u00eancia policial. Mas a den\u00fancia abstrata n\u00e3o organiza nem oferece horizonte pol\u00edtico \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Dessa forma, entregou o monop\u00f3lio do discurso da seguran\u00e7a \u00e0 direita, que passou a falar sozinha com as massas, utilizando uma narrativa simplista sobre o medo da morte, a perda dos filhos, a aus\u00eancia do Estado e a necessidade de repress\u00e3o. Essa conjuntura \u00e9 refor\u00e7ada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e pelas igrejas conservadoras, que diariamente fortalecem a hegemonia reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p>A esquerda ainda n\u00e3o conseguiu construir uma linguagem pol\u00edtica que traduza as ang\u00fastias da periferia, nem uma proposta de seguran\u00e7a popular que inclua justi\u00e7a social, desmilitariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias, combate \u00e0 lavagem de dinheiro e pol\u00edticas urbanas e de emprego capazes de atacar as ra\u00edzes sociais do tr\u00e1fico e da viol\u00eancia. Continua a reagir espasmodicamente a cada trag\u00e9dia, sem formular um projeto alternativo que dispute o imagin\u00e1rio popular sobre seguran\u00e7a, territ\u00f3rio, viol\u00eancia, justi\u00e7a e perspectiva social. A direita avan\u00e7a no espa\u00e7o que a esquerda tem sido incapaz de ocupar com propostas concretas e compreens\u00edveis para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Romper esse quadro exige trabalho de base, formula\u00e7\u00e3o, criatividade e forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Somente assim ser\u00e1 poss\u00edvel romper o consenso do medo e transformar a luta contra a viol\u00eancia em luta pela vida, na perspectiva das transforma\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>A esquerda tamb\u00e9m n\u00e3o tem sabido explorar uma contradi\u00e7\u00e3o decisiva nesta quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica: a hipocrisia da direita. Seus porta-vozes clamam por repress\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o quando o crime \u00e9 cometido por pretos e pobres, mas silenciam em rela\u00e7\u00e3o aos verdadeiros chefes do crime, os lavadores de dinheiro, banqueiros, empres\u00e1rios e pol\u00edticos. O exemplo mais cristalino dessa contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de que n\u00e3o h\u00e1 opera\u00e7\u00e3o policial em condom\u00ednios de luxo, nem helic\u00f3pteros atirando em bairros abastados, nem blitzes em mans\u00f5es milion\u00e1rias. A pol\u00edcia sabe que as favelas representam o varejo, enquanto o atacado mora na zona sul do Rio de Janeiro ou na Faria Lima em S\u00e3o Paulo. A viol\u00eancia \u00e9 seletiva e cumpre uma fun\u00e7\u00e3o de classe: controlar a pobreza e proteger o capital. O fuzil tem alvo certo: o corpo negro e perif\u00e9rico.<\/p>\n<p>Essa seletividade n\u00e3o \u00e9 resultado de nenhum desvio funcional ou brutalidade isolada de agentes policiais. \u00c9 a ess\u00eancia de uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a de classe. O aparato repressivo \u00e9 treinado para reprimir os pobres; a juventude negra e parda \u00e9 suspeita mesmo sem cometer crime algum. Para a pol\u00edcia, os territ\u00f3rios perif\u00e9ricos s\u00e3o zonas de exce\u00e7\u00e3o, onde qualquer arbitrariedade \u00e9 permitida e protegida pelo Estado. A guerra \u00e0s drogas, nessas circunst\u00e2ncias, \u00e9 um mecanismo de regula\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito industrial de reserva e o aparato militar cumpre o papel de executor das ordens que mant\u00eam os privil\u00e9gios dos donos do poder. Parodiando Marx no Manifesto Comunista, podemos reafirmar: o Estado brasileiro \u00e9 um comit\u00ea que administra os neg\u00f3cios das classes dominantes e a pol\u00edcia \u00e9 o bra\u00e7o armado encarregado de manter sua lei e sua ordem.<\/p>\n<p>Mesmo diante dessa situa\u00e7\u00e3o, a esquerda tem sido t\u00edmida na den\u00fancia dos criminosos de colarinho branco, do car\u00e1ter de classe da viol\u00eancia policial e do uso pol\u00edtico da morte como forma de gest\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo perif\u00e9rico brasileiro. A direita, ao silenciar e encobrir os crimes das classes dominantes, protege seus pr\u00f3prios mecanismos de enriquecimento: corrup\u00e7\u00e3o, sonega\u00e7\u00e3o fiscal, tr\u00e1fico de influ\u00eancia, superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, assalto ao fundo p\u00fablico e rentismo institucionalizado, al\u00e9m das conex\u00f5es entre mil\u00edcias, pol\u00edcia e pol\u00edticos. A chamada guerra ao tr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9, portanto, uma guerra contra os chefes do crime organizado, mas uma guerra dos milion\u00e1rios e de seus representantes na institucionalidade contra os pobres para preservar esse modelo econ\u00f4mico perverso, a especula\u00e7\u00e3o financeira, os lucros da burguesia e a desigualdade estrutural brasileira.<\/p>\n<p><strong>O servilismo e a vassalagem ao imp\u00e9rio<\/strong><\/p>\n<p>Um dos aspectos mais graves dessa crise \u00e9 o fato de que, sorrateiramente, antes da matan\u00e7a, o governador do Estado do Rio enviou \u00e0s autoridades dos EUA um dossi\u00ea buscando vincular o tr\u00e1fico local ao narcotr\u00e1fico internacional, em busca de apoio pol\u00edtico e log\u00edstico de Trump e da extrema-direita estadunidense, numa manobra de alt\u00edssimo conte\u00fado de subordina\u00e7\u00e3o da soberania nacional \u00e0 tutela imperialista. Com esse gesto, o governador cometeu n\u00e3o s\u00f3 um vergonhoso ato de trai\u00e7\u00e3o nacional, mas uma vassalagem sem cerim\u00f4nia aos interesses de Washington. Esta \u00e9 a mesma l\u00f3gica que levou bolsonaristas a erguerem bandeiras dos Estados Unidos nas manifesta\u00e7\u00f5es pelas ruas brasileiras. Tanto o dossi\u00ea quanto esse gesto simb\u00f3lico revelam o complexo de vira-lata bolsonarista e desmascaram seu falso patriotismo.<\/p>\n<p>Enviar o dossi\u00ea aos Estados Unidos significou tamb\u00e9m uma tentativa de internacionalizar o tema da seguran\u00e7a p\u00fablica brasileira buscando conferir legitimidade externa \u00e0 pol\u00edtica de exterm\u00ednio e apresentando-a como parte da guerra global ao narcotr\u00e1fico. Visa ainda refor\u00e7ar os la\u00e7os entre a direita brasileira e o trumpismo internacional, criando um eixo ideol\u00f3gico entre a extrema-direita brasileira e estadunidense e abrindo espa\u00e7o para eventual a\u00e7\u00e3o do imperialismo no Brasil. Essa tentativa de envolver os Estados Unidos \u00e9 parte de uma estrat\u00e9gia neocolonial, um verdadeiro Cavalo de Troia que justifica espionagem e at\u00e9 interven\u00e7\u00e3o militar. Cl\u00e1udio Castro e os bolsonaristas agem como capatazes subservientes, dispostos a todo tipo de trai\u00e7\u00e3o para servir a seus amos e alcan\u00e7ar seus objetivos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>A conex\u00e3o entre o bolsonarismo e o imperialismo estadunidense se tornou ainda mais clara quando o chefe da Administra\u00e7\u00e3o de Repress\u00e3o \u00e0s Drogas dos Estados Unidos, James Sparks, encaminhou carta \u00e0 Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio de Janeiro n\u00e3o s\u00f3 lamentando as mortes de policiais, mas manifestando disposi\u00e7\u00e3o de auxiliar o governo fluminense no combate ao tr\u00e1fico. Essa carta n\u00e3o foi um gesto inocente de solidariedade, mas uma inger\u00eancia nos assuntos internos do Brasil, uma tentativa disfar\u00e7ada de submeter a pol\u00edtica de seguran\u00e7a fluminense ao controle norte-americano. \u00c9 a velha t\u00e1tica imperialista: oferece ajuda, mas o objetivo \u00e9 penetrar nas institui\u00e7\u00f5es para mold\u00e1-las de acordo com seus interesses.<\/p>\n<p>O servilismo do governador do Rio lembra tamb\u00e9m o epis\u00f3dio do filho de Bolsonaro que, financiado pelo pai, viajou aos Estados Unidos para conspirar contra o Brasil e terminou sendo o principal respons\u00e1vel pela imposi\u00e7\u00e3o de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e san\u00e7\u00f5es contra magistrados do Supremo Tribunal Federal. Esse comportamento \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o mais acabada do fascismo tupiniquim: entreguismo, vassalagem e autoritarismo. N\u00e3o \u00e9 novidade, faz parte da velha tradi\u00e7\u00e3o das classes dominantes brasileiras desde o Imp\u00e9rio, passando pela Rep\u00fablica Velha, pelas ditaduras e chegando ao bolsonarismo, que n\u00e3o se v\u00ea como parte do povo, mas como agente local dos interesses estrangeiros.<\/p>\n<p>O entreguismo bolsonarista n\u00e3o \u00e9 apenas um ato de covardia: \u00e9 uma estrat\u00e9gia para tentar voltar ao poder com base na for\u00e7a e no apoio do imperialismo estadunidense. Sabem que, ao demonstrar fidelidade ao imp\u00e9rio, poder\u00e3o obter respaldo pol\u00edtico, financiamento e apoio nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es em 2026. Al\u00e9m disso, a pol\u00edtica de exterm\u00ednio dos pobres est\u00e1 em sintonia com os m\u00e9todos da extrema-direita internacional e atende tamb\u00e9m \u00e0s demandas dos setores m\u00e9dios conservadores internos que se sentem protegidos com a repress\u00e3o e a morte dos pobres. N\u00e3o podemos esquecer que o golpe de 1964 teve como pretexto \u201csalvar o pa\u00eds do comunismo\u201d e hoje a \u201cguerra ao tr\u00e1fico\u201d cumpre o mesmo papel: justificar a interfer\u00eancia imperialista no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Pobreza como raiz da viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Para compreender a crise da seguran\u00e7a p\u00fablica brasileira, \u00e9 fundamental avaliar sua natureza. Antes de tudo, \u00e9 preciso enfatizar que o problema do tr\u00e1fico e do crime n\u00e3o pode ser resolvido com repress\u00e3o e exterm\u00ednio, pois as ra\u00edzes do problema est\u00e3o na desigualdade e na mis\u00e9ria que atingem o povo brasileiro. Nossa hist\u00f3ria recente est\u00e1 cheia de exemplos de opera\u00e7\u00f5es espetaculares (incurs\u00f5es policiais, matan\u00e7as, ocupa\u00e7\u00f5es territoriais) que servem mais a objetivos pol\u00edticos das for\u00e7as conservadoras do que \u00e0 solu\u00e7\u00e3o real dos problemas, j\u00e1 que logo depois das trag\u00e9dias o tr\u00e1fico volta a ocupar os territ\u00f3rios. Na verdade, as classes dominantes brasileiras n\u00e3o pretendem resolver o problema, mas apenas administrar a barb\u00e1rie que criaram, dosando repress\u00e3o e abandono conforme suas necessidades pol\u00edticas.<\/p>\n<p>A cada novo massacre renova-se a ilus\u00e3o de que a morte pode restaurar a lei e a ordem, mas o tr\u00e1fico \u00e9 express\u00e3o de um sistema que naturalizou a pobreza, a mis\u00e9ria e a exclus\u00e3o. Quando o Estado mata, n\u00e3o est\u00e1 combatendo o crime, mas eliminando o excedente humano que n\u00e3o cabe no sistema econ\u00f4mico. Enquanto n\u00e3o forem resolvidas as causas estruturais que produzem o tr\u00e1fico e o crime (desigualdade, pobreza e falta de perspectiva), o tr\u00e1fico permanecer\u00e1 ativo e continuar\u00e1 aliciando novos soldados, que ter\u00e3o vida curta numa guerra que s\u00f3 beneficia a burguesia e o sistema da lei e da ordem. Nessas circunst\u00e2ncias, apenas a luta por uma nova sociabilidade ser\u00e1 capaz de romper esse ciclo perverso de viol\u00eancia e barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Edmilson Costa \u00e9 doutor em Economia pela Unicamp, com p\u00f3s-doutorado no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 Secret\u00e1rio-Geral do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33319\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10,383],"tags":[221],"class_list":["post-33319","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Fp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33319","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33319"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33319\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33321,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33319\/revisions\/33321"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}