{"id":33351,"date":"2025-11-18T11:20:32","date_gmt":"2025-11-18T14:20:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33351"},"modified":"2025-11-18T11:20:32","modified_gmt":"2025-11-18T14:20:32","slug":"intelectuais-negros-no-pcb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33351","title":{"rendered":"Intelectuais negros no PCB"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33352\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33351\/intelectuais-negros-no-pcb\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Intelectuais-Negros-no-PCB.jpg?fit=720%2C960&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"720,960\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Intelectuais Negros no PCB\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Intelectuais-Negros-no-PCB.jpg?fit=675%2C900&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-33352\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Intelectuais-Negros-no-PCB.jpg?resize=675%2C900&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"675\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Intelectuais-Negros-no-PCB.jpg?resize=675%2C900&amp;ssl=1 675w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Intelectuais-Negros-no-PCB.jpg?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Intelectuais-Negros-no-PCB.jpg?w=720&amp;ssl=1 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Capitalismo, Racismo e Revolu\u00e7\u00e3o (1930 \u2013 1962)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Robson de Sousa Moraes &#8211; militante do PCB de Goi\u00e1s<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1960, o Brasil viveu um processo acelerado de industrializa\u00e7\u00e3o, urbaniza\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o de suas for\u00e7as pol\u00edticas. Nesse contexto, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 1922 e reorganizado ap\u00f3s a anistia de 1945, consolidou-se como a principal for\u00e7a da esquerda, difundindo uma leitura marxista da sociedade brasileira. Essa leitura, de forte influ\u00eancia sovi\u00e9tica, ao priorizar a luta de classes e o fen\u00f4meno do Imperialismo, deu pouco destaque a outras formas de opress\u00e3o, entre elas o racismo estrutural. A vis\u00e3o internacionalista difundida pela Internacional Comunista, contribuiu para que uma certa historiografia posterior denominou, equivocadamente, de cegueira racial do movimento comunista, ou seja, a aus\u00eancia de uma compreens\u00e3o do negro como sujeito hist\u00f3rico e pol\u00edtico aut\u00f4nomo.<\/p>\n<p>Este ensaio demostra que a presen\u00e7a de intelectuais negros nas fileiras do PCB, a partir de diferentes experi\u00eancias, sindical, produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, etnogr\u00e1ficas, introduziu fissuras e deslocamentos te\u00f3ricos decisivos. Estes militantes tencionaram a ortodoxia partid\u00e1ria, propondo interpreta\u00e7\u00f5es nas quais o racismo aparecia como elemento constitutivo da forma\u00e7\u00e3o capitalista brasileira. Suas trajet\u00f3rias demonstram que a cr\u00edtica ao capitalismo no Brasil n\u00e3o poderia ser plenamente compreendida sem considerar a dimens\u00e3o racial da explora\u00e7\u00e3o e da desigualdade.<\/p>\n<p>A literatura sobre o PCB, principalmente a produzida por n\u00e3o militantes, raramente reconheceu a contribui\u00e7\u00e3o desses intelectuais negros, concentrando-se em dirigentes como Astrojildo Pereira, Caio Prado J\u00fanior e Luiz Carlos Prestes. Este trabalho prop\u00f5e ressaltar e analisar as contribui\u00e7\u00f5es de Minervino de Oliveira, \u00c9dison (Edson) Carneiro, Solano Trindade, Claudino Jos\u00e9 da Silva e Cl\u00f3vis Moura, todos com v\u00ednculos documentados com o PCB. Ao longo de suas carreiras, essas figuras articularam luta de classes, combate ao racismo e cr\u00edtica \u00e0 depend\u00eancia cultural, antecipando formula\u00e7\u00f5es que mais tarde seriam reconhecidas como parte do marxismo negro e das teorias contempor\u00e2neas do capitalismo racial.<\/p>\n<p>O problema central que orienta esta pesquisa pode ser assim formulado: de que modo intelectuais negros vinculados ao PCB elaboraram interpreta\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias sobre capitalismo, racismo e revolu\u00e7\u00e3o? Parte-se da hip\u00f3tese de que suas experi\u00eancias e produ\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas introduziram a ra\u00e7a como categoria estruturante da luta de classes no Brasil. Al\u00e9m disso, suas pr\u00e1ticas pol\u00edticas e culturais, que v\u00e3o da poesia e do teatro ao parlamento e \u00e0 teoria hist\u00f3rica, expressam m\u00faltiplas formas de interven\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, revelando uma cr\u00edtica radical \u00e0 hierarquia racial mantida pela moderniza\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>O objetivo geral \u00e9 analisar a contribui\u00e7\u00e3o desses intelectuais para a incorpora\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o racial ao pensamento comunista brasileiro entre 1930 e 1962, per\u00edodo que vai da candidatura de Minervino de Oliveira \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica pelo Bloco Oper\u00e1rio Campon\u00eas (BOC\/PCB) at\u00e9 a cis\u00e3o que originou o Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Entre os objetivos espec\u00edficos, busca-se mapear as trajet\u00f3rias pol\u00edticas e culturais desses militantes, identificar como suas obras e a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas inseriram a tem\u00e1tica racial no marxismo brasileiro e avaliar o impacto dessas formula\u00e7\u00f5es na forma\u00e7\u00e3o posterior do pensamento negro de esquerda.<\/p>\n<p>O texto organiza-se em quatro blocos anal\u00edticos. O primeiro examina a forma\u00e7\u00e3o do PCB e suas limita\u00e7\u00f5es diante da quest\u00e3o racial. O segundo apresenta as trajet\u00f3rias e interven\u00e7\u00f5es dos intelectuais negros comunistas, evidenciando como suas pr\u00e1ticas culturais e pol\u00edticas alteraram o horizonte te\u00f3rico do partido. O terceiro discute, de forma comparada, as concep\u00e7\u00f5es de capitalismo, racismo e revolu\u00e7\u00e3o presentes em suas obras. O quarto bloco re\u00fane as conclus\u00f5es e prop\u00f5e uma interpreta\u00e7\u00e3o integrada dessas contribui\u00e7\u00f5es, ressaltando a import\u00e2ncia dos intelectuais negros do PCB na constitui\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica brasileira que concebe o racismo como fundamento da ordem capitalista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O PCB diante da Quest\u00e3o Racial<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fundado em 1922, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) nasceu sob a inspira\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Russa e das diretrizes da III Internacional. Ao longo das d\u00e9cadas de 1930 a 1960, consolidou-se como o principal instrumento de organiza\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira. Sua estrutura te\u00f3rica, de matriz marxista-leninista, orientava-se pela luta de classes como categoria central de interpreta\u00e7\u00e3o social e pela estrat\u00e9gia de uma revolu\u00e7\u00e3o nacional-democr\u00e1tica que unisse o proletariado urbano e o campesinato contra o imperialismo e a burguesia interna. Essa perspectiva, fortemente influenciada pelo marxismo sovi\u00e9tico, apresentava uma limita\u00e7\u00e3o fundamental: a dificuldade de compreender a especificidade do racismo na forma\u00e7\u00e3o social brasileira. O negro era reconhecido apenas como parte do proletariado, e n\u00e3o como sujeito hist\u00f3rico de uma opress\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os documentos oficiais do partido entre 1922 e 1960 confirmam essa dificuldade. As resolu\u00e7\u00f5es de seus congressos e os programas publicados, enfatizavam o combate ao imperialismo e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista, mas n\u00e3o abordavam o racismo como contradi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do sistema. O negro era absorvido conceitualmente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de trabalhador, e o racismo visto como mero reflexo da luta de classes. As leituras iniciais do PCB entendiam o racismo como proveniente de uma ideologia elaborada e fomentada pela burguesia, e n\u00e3o uma estrutura fundante da desigualdade. Como consequ\u00eancia a imprensa partid\u00e1ria, como o jornal A Classe Oper\u00e1ria e a revista Fundamentos (1948\u20131955), poucos artigos eram dedicados ao tema racial. Quando a cultura afro-brasileira aparecia, era tratada como folclore, express\u00e3o popular ou curiosidade etnogr\u00e1fica, mas raramente como forma de resist\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A influ\u00eancia da Internacional Comunista, com sua orienta\u00e7\u00e3o para a unidade internacional do proletariado, tendia a rejeitar o debate sobre identidades espec\u00edficas, consideradas diversionistas. O PCB, em seus primeiros momentos organizativos, importou esse modelo sem adapt\u00e1-lo ao contexto colonial e escravocrata brasileiro, no qual o racismo cumpre papel de sustenta\u00e7\u00e3o da ordem social. Al\u00e9m disso, o mito da democracia racial, difundido como ideologia nacional desde os anos 1930, penetrou inclusive no pensamento progressista, produzindo a ilus\u00e3o de que o Brasil havia superado as barreiras raciais. Ainda assim, fissuras come\u00e7aram a se abrir nesse quadro. A presen\u00e7a de militantes negros como Minervino de Oliveira e \u00c9dison Carneiro, nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940, trouxe experi\u00eancias concretas que desafiaram o dogmatismo te\u00f3rico. Minervino, ao ser lan\u00e7ado candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 1930 pelo Bloco Oper\u00e1rio e Campon\u00eas (ligado ao PCB), rompe simbolicamente com a invisibilidade pol\u00edtica dos negros. \u00c9dison Carneiro, por sua vez, como etn\u00f3grafo e militante comunista, vinculou o estudo do candombl\u00e9 e das culturas afro-brasileiras \u00e0 cr\u00edtica do racismo e \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o das classes populares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos anos 1940 e 1950, com o breve per\u00edodo de legalidade do partido, a chamada \u201cfrente cultural\u201d passou a integrar artistas, escritores e intelectuais que buscavam expressar a vida popular na literatura, no teatro e no cinema. Nesse ambiente, o interesse pela cultura negra come\u00e7ou a ganhar visibilidade. A revista Fundamentos publicou textos de valoriza\u00e7\u00e3o da arte do povo e de den\u00fancia das desigualdades sociais, o que ampliou o tratamento dado a temas afro-brasileiros na esfera comunista. Intelectuais comunistas, como Cl\u00f3vis Moura, apontar\u00e3o mais tarde a necessidade de inserir a ra\u00e7a na dial\u00e9tica social do PCB. Em obras como Rebeli\u00f5es da Senzala (1959), Moura demonstrar\u00e1 que o racismo n\u00e3o \u00e9 mero subproduto da economia, mas elemento constitutivo do capitalismo no Brasil. Sua an\u00e1lise questionar\u00e1 a mec\u00e2nica e dogm\u00e1tica, op\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica de subordina\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a \u00e0 classe. Essa cr\u00edtica ilumina as limita\u00e7\u00f5es do PCB e ajuda a compreender a import\u00e2ncia das vozes dissidentes que, ainda nos anos 1930 e 1940, abriram caminho para uma reinterpreta\u00e7\u00e3o da luta revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que se verifica, portanto, \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o t\u00edpica das esquerdas latino-americanas: enquanto proclamavam a universalidade da emancipa\u00e7\u00e3o humana, mantinham-se prisioneiras de uma vis\u00e3o dogm\u00e1tica de classe social. O estudo das contribui\u00e7\u00f5es dos intelectuais negros comunistas permitir\u00e1, compreender como essas vozes transformaram, de dentro, o campo marxista brasileiro e recolocaram a quest\u00e3o racial como elemento indissoci\u00e1vel da cr\u00edtica ao capitalismo e do projeto revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minervino de Oliveira: visibilidade pol\u00edtica negra e classe<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre os intelectuais e militantes negros que se destacaram no interior do comunismo brasileiro, a trajet\u00f3ria de Minervino de Oliveira (1891\u20131936) ocupa um lugar inaugural. Oper\u00e1rio metal\u00fargico, natural da Para\u00edba e radicado no Rio de Janeiro, Minervino tornou-se um dos primeiros dirigentes sindicais negros do pa\u00eds e uma das figuras mais conhecidas do movimento oper\u00e1rio nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930. Sua milit\u00e2ncia antecede o per\u00edodo de consolida\u00e7\u00e3o do Partido Comunista (PCB) e est\u00e1 vinculada \u00e0 experi\u00eancia das greves urbanas que marcaram a Primeira Rep\u00fablica. Filiado ao PCB logo ap\u00f3s sua funda\u00e7\u00e3o, Minervino foi dirigente da Federa\u00e7\u00e3o dos Oper\u00e1rios em Constru\u00e7\u00e3o Civil e um dos articuladores da Confedera\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), organismos dirigidos por comunistas. Em uma sociedade profundamente hierarquizada racialmente, sua ascens\u00e3o a posi\u00e7\u00f5es de dire\u00e7\u00e3o representava um fato in\u00e9dito: um trabalhador negro ocupava fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a em um espectro pol\u00edtico ainda dominado por intelectuais e oper\u00e1rios brancos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O momento decisivo de sua proje\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ocorreu em 1930, quando o Bloco Oper\u00e1rio e Campon\u00eas (BOC), bra\u00e7o eleitoral do PCB, lan\u00e7ou sua candidatura \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Tratava-se de um acontecimento sem precedentes na hist\u00f3ria brasileira: um oper\u00e1rio negro disputando o cargo m\u00e1ximo da na\u00e7\u00e3o em um pleito dominado pelas oligarquias regionais e pelos representantes da elite branca. O programa apresentado por Minervino e pelo BOC defendia o direito de greve, a jornada de oito horas, a reforma agr\u00e1ria e a nacionaliza\u00e7\u00e3o das riquezas naturais, reivindica\u00e7\u00f5es que antecipavam as bandeiras do socialismo e do trabalhismo posteriores. Embora a candidatura tenha obtido vota\u00e7\u00e3o reduzida, o impacto simb\u00f3lico foi profundo: pela primeira vez, o povo negro e trabalhador se via representado em um espa\u00e7o at\u00e9 ent\u00e3o reservado \u00e0 elite.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A imprensa conservadora reagiu com sarcasmo e racismo. Jornais como A Na\u00e7\u00e3o e O Globo desqualificaram o candidato chamando-o de \u201co oper\u00e1rio preto\u201d e ironizando sua \u201cpretens\u00e3o\u201d de chegar \u00e0 presid\u00eancia. Esses registros n\u00e3o apenas revelam o racismo das elites. A candidatura de Minervino, principalmente diante das rea\u00e7\u00f5es conservadoras, exp\u00f4s de forma contundente, a necessidade do PCB (um partido que pregava a emancipa\u00e7\u00e3o humana), reconhecer plenamente a opress\u00e3o racial como eixo de luta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No interior do partido, a candidatura de 1930 foi vista como um gesto t\u00e1tico, parte de uma estrat\u00e9gia de propaganda e de afirma\u00e7\u00e3o p\u00fablica do BOC. Minervino foi apoiado pelos principais dirigentes, mas sua condi\u00e7\u00e3o racial nunca foi tematizada e aproveitada como elemento pol\u00edtico, sendo que nos documentos e resolu\u00e7\u00f5es da \u00e9poca, o racismo aparece dilu\u00eddo na linguagem da luta de classes. A candidatura do BOC contribuiu para trazer \u00e0 tona a quest\u00e3o de que a classe oper\u00e1ria brasileira era majoritariamente negra e mesti\u00e7a, e que a emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores passava tamb\u00e9m pela destrui\u00e7\u00e3o das hierarquias raciais herdadas da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A milit\u00e2ncia de Minervino demonstrava, na pr\u00e1tica, essa articula\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e classe. Nas greves do setor da constru\u00e7\u00e3o civil e nas assembleias oper\u00e1rias, denunciava as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores e a persegui\u00e7\u00e3o policial, que atingia com mais viol\u00eancia os negros. Ao mesmo tempo, defendia a unidade entre brancos e negros contra o patronato, buscando superar a fragmenta\u00e7\u00e3o racial como instrumento de domina\u00e7\u00e3o. Sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica antecipava o conceito de \u201cclasse racializada\u201d, que d\u00e9cadas mais tarde seria teorizado por Cl\u00f3vis Moura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos anos 1930 e a ascens\u00e3o de Get\u00falio Vargas ao poder, o PCB passou \u00e0 clandestinidade. Minervino, identificado como comunista, foi perseguido e preso diversas vezes. Ap\u00f3s a subleva\u00e7\u00e3o Comunista de 1935, a repress\u00e3o se intensificou. Em 1936, o dirigente foi novamente detido e assassinado sob cust\u00f3dia policial. Seu nome foi apagado pela repress\u00e3o do Estado Novo. Somente a partir dos anos 1980, com a renova\u00e7\u00e3o dos estudos sobre o movimento negro e o resgate das lutas populares, a trajet\u00f3ria de Minervino de Oliveira come\u00e7ou a ser revisitada. Pesquisadores como Petr\u00f4nio Domingues, Fl\u00e1vio Gomes e Carlos Zacarias de Sena J\u00fanior demonstraram que ele foi n\u00e3o apenas um dirigente sindical, mas tamb\u00e9m um s\u00edmbolo da presen\u00e7a negra na forma\u00e7\u00e3o do comunismo brasileiro. Sua candidatura de 1930 \u00e9 hoje interpretada como o primeiro gesto p\u00fablico de visibilidade pol\u00edtica negra no campo da esquerda, anterior ao surgimento do Teatro Experimental do Negro e do Movimento Negro Unificado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O legado de Minervino reside tanto no exemplo quanto na contradi\u00e7\u00e3o que sua figura representa. Ao mesmo tempo em que expressava a universalidade do proletariado, sua pr\u00f3pria exist\u00eancia desafiava o universalismo abstrato, j\u00e1 denunciado por K. Marx em Teses contra Feuerbach. A imagem de um oper\u00e1rio negro candidato \u00e0 presid\u00eancia denunciava o racismo estrutural da sociedade e enfrentava os preconceitos hegem\u00f4nicos na \u00e9poca. Nesse sentido, Minervino de Oliveira foi mais do que uma figura simb\u00f3lica: foi o marco inicial de uma cr\u00edtica negra a sociedade brasileira e um sopro de vitalidade para marxismo brasileiro, cuja continuidade se manifestaria nas d\u00e9cadas seguintes em autores como \u00c9dison Carneiro, Solano Trindade e Cl\u00f3vis Moura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O percurso de Minervino permite compreender que a luta contra o capitalismo, no Brasil, esteve desde o in\u00edcio entrela\u00e7ada \u00e0 luta contra o racismo. Sua trajet\u00f3ria, resgatada tardiamente, devolve ao movimento comunista a dimens\u00e3o da qual a revolu\u00e7\u00e3o social no pa\u00eds n\u00e3o poderia ser pensada sem a participa\u00e7\u00e3o do negro, sem o reconhecimento de que o trabalho explorado e o corpo racializado s\u00e3o faces de uma mesma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9dison Carneiro: cultura negra, trabalho e antirracismo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de \u00c9dison Carneiro (1912\u20131972) constitui um dos elos mais significativos entre o marxismo, a cultura popular e o pensamento negro brasileiro. Nascido em Salvador, formou-se em Direito, mas desde muito jovem se envolveu com o jornalismo, a literatura e os estudos do folclore. Filho de uma professora e de um funcion\u00e1rio p\u00fablico, cresceu em ambiente intelectual e politizado, o que o levou, ainda nos anos 1930, a aproximar-se dos c\u00edrculos comunistas baianos. Sua milit\u00e2ncia no Partido Comunista (PCB) e seu interesse pela cultura afro-brasileira o transformaram em uma das figuras centrais do que se convencionou chamar de \u201cfrente cultural comunista\u201d. A originalidade de Carneiro reside em ter unido etnografia e pol\u00edtica, transformando o estudo das express\u00f5es negras em um projeto de combate ao racismo e de valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho cultural do povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de Edson Carneiro ocorreu num momento em que a cultura negra era tratada pelos estudiosos dominantes como res\u00edduo do passado escravista ou como curiosidade ex\u00f3tica. A chamada \u201cBahia folcl\u00f3rica\u201d, divulgada por autores como Gilberto Freyre, era descrita como s\u00edmbolo da mesti\u00e7agem harmoniosa, dentro da ideologia da democracia racial. Entretanto, sua conviv\u00eancia com lideran\u00e7as de candombl\u00e9, sambadores e mestres populares transformou profundamente sua vis\u00e3o. Influenciado pelo marxismo, Carneiro passou a compreender a cultura popular n\u00e3o como simples sobreviv\u00eancia do passado, mas como forma de resist\u00eancia social produzida pelas classes subalternas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1936, publicou Religi\u00f5es Negras, obra pioneira que denunciava a persegui\u00e7\u00e3o policial \u00e0s casas de culto afro-brasileiras e interpretava o candombl\u00e9 como espa\u00e7o de organiza\u00e7\u00e3o coletiva e preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria africana. Essa leitura rompia com o discurso folclorista e abria caminho para uma antropologia pol\u00edtica da cultura negra. Mais tarde, em Candombl\u00e9s da Bahia (1948), ampliou sua an\u00e1lise, descrevendo a estrutura hier\u00e1rquica dos terreiros e suas rela\u00e7\u00f5es de solidariedade, economia e g\u00eanero. Para Carneiro, a religi\u00e3o afro-brasileira era um modo de trabalho social e simb\u00f3lico, express\u00e3o da resist\u00eancia \u00e0 escravid\u00e3o e \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua aproxima\u00e7\u00e3o com o PCB intensificou-se na d\u00e9cada de 1940, quando se engajou na produ\u00e7\u00e3o de textos para jornais e revistas comunistas. Colaborou em O Momento, peri\u00f3dico de orienta\u00e7\u00e3o marxista em Salvador, e na revista Fundamentos, publica\u00e7\u00e3o do partido que reunia escritores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Apar\u00edcio Torelly. Nesse ambiente, Carneiro defendeu a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura popular como base da arte revolucion\u00e1ria brasileira, argumentando que a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deveria nascer das formas culturais produzidas pelo povo. Tal concep\u00e7\u00e3o contrariava setores ortodoxos do partido, que viam o folclore e a religiosidade afro como manifesta\u00e7\u00f5es \u201cpr\u00e9-modernas\u201d e, portanto, incapazes de contribuir para a revolu\u00e7\u00e3o. Carneiro, ao contr\u00e1rio, via na cultura do povo uma via concreta de transforma\u00e7\u00e3o social e de constru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua vis\u00e3o materialista da cultura estava diretamente relacionada \u00e0 cr\u00edtica ao racismo. Carneiro argumentava que o preconceito racial servia como instrumento de domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, impedindo que o trabalhador negro fosse reconhecido como sujeito produtivo e pol\u00edtico. O racismo, portanto, n\u00e3o era mero desvio moral, mas parte integrante da estrutura de explora\u00e7\u00e3o. Essa concep\u00e7\u00e3o o aproxima das formula\u00e7\u00f5es que, d\u00e9cadas depois, Cl\u00f3vis Moura desenvolveria sob a no\u00e7\u00e3o de \u201cluta de classes racializada\u201d. Em suas pesquisas etnogr\u00e1ficas, Carneiro observava que a cultura negra era tamb\u00e9m trabalho material e imaterial, coletivo, comunit\u00e1rio e que o desqualificar dessa cultura significava negar o trabalho do negro como base da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>No campo da milit\u00e2ncia, Edson Carneiro participou da cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Folclore e organizou exposi\u00e7\u00f5es e confer\u00eancias que valorizavam as tradi\u00e7\u00f5es afro-brasileiras. Sua atua\u00e7\u00e3o o colocou em contato com intelectuais como Jorge Amado e Caryb\u00e9. Em colabora\u00e7\u00e3o com o grupo de artistas comunistas baianos, articulou redes que uniam pesquisa, arte e pol\u00edtica. Como membro do PCB, defendeu que a arte popular fosse considerada instrumento de conscientiza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o mero entretenimento. Essa posi\u00e7\u00e3o se reflete em sua defesa da figura do \u201cpovo produtor de cultura\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 elite intelectual que se pretendia int\u00e9rprete do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante o Estado Novo, foi perseguido e teve livros censurados. Ainda assim, continuou escrevendo sob pseud\u00f4nimos e realizando pesquisas de campo. Sua resist\u00eancia silenciosa representava a forma poss\u00edvel de milit\u00e2ncia num regime de censura e vigil\u00e2ncia. Nos anos 1950 e 1960, com o breve retorno da legalidade comunista, Carneiro manteve la\u00e7os com o PCB, mas sua produ\u00e7\u00e3o tornou-se mais aut\u00f4noma, integrando o circuito acad\u00eamico e institucional. Mesmo afastado da milit\u00e2ncia direta, suas obras continuaram a expressar o ideal de que o reconhecimento da cultura negra \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para a emancipa\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Edson Carneiro consiste em articular marxismo e etnografia sem reduzir a cultura \u00e0 superestrutura. Para ele, o folclore \u00e9 campo de luta ideol\u00f3gica e o povo \u00e9 o verdadeiro sujeito da hist\u00f3ria. Essa formula\u00e7\u00e3o antecipa discuss\u00f5es sobre hegemonia e resist\u00eancia, que mais tarde seriam desenvolvidas por Antonio Gramsci. Carneiro foi, portanto, um dos primeiros a aplicar a l\u00f3gica da hegemonia cultural ao contexto brasileiro, mostrando que o combate ao racismo se trava tamb\u00e9m na disputa pelos significados da cultura. Seu legado estende-se para al\u00e9m da milit\u00e2ncia comunista. As gera\u00e7\u00f5es seguintes do pensamento negro, entre elas Abdias do Nascimento, L\u00e9lia Gonzalez e Solano Trindade, herdaram de Carneiro a compreens\u00e3o de que a arte e a cultura s\u00e3o dimens\u00f5es indissoci\u00e1veis da luta pol\u00edtica. Suas obras influenciaram tanto o campo acad\u00eamico, inaugurando uma linha de estudos sobre religi\u00f5es afro-brasileiras, quanto os movimentos sociais, que passaram a ver o candombl\u00e9, o samba e o maracatu como formas de resist\u00eancia e identidade coletiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Morto em 1972, Edson Carneiro deixou um legado de engajamento intelectual e de milit\u00e2ncia antirracista. Sua trajet\u00f3ria mostra que a revolu\u00e7\u00e3o, para ser efetiva, deve incluir o reconhecimento da cultura popular como trabalho, da religi\u00e3o afro como forma de organiza\u00e7\u00e3o social e do povo negro como sujeito hist\u00f3rico. Dentro e fora do PCB, ele foi um dos primeiros a afirmar que sem cultura negra n\u00e3o h\u00e1 emancipa\u00e7\u00e3o nacional, pois o Brasil moderno s\u00f3 poderia se reconstruir reconhecendo a centralidade africana de sua forma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Solano Trindade: poesia, teatro e organiza\u00e7\u00e3o popular<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Solano Trindade (1908\u20131974) constitui um dos cap\u00edtulos mais expressivos da articula\u00e7\u00e3o entre arte, pol\u00edtica e identidade negra no Brasil do s\u00e9culo XX. Nascido em Recife, em uma fam\u00edlia humilde do bairro de S\u00e3o Jos\u00e9, cresceu em meio a tradi\u00e7\u00f5es afro-brasileiras, maracatus, sambas e festas populares. Autodidata, come\u00e7ou a escrever poesia ainda jovem e, desde os anos 1930, participou de movimentos de valoriza\u00e7\u00e3o da cultura popular nordestina. Sua atua\u00e7\u00e3o transcendeu a literatura: foi ator, teatr\u00f3logo, pintor e militante comunista. Em 1940, aproximou-se formalmente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), atra\u00eddo pela perspectiva de transforma\u00e7\u00e3o social e pela defesa da cultura como instrumento de emancipa\u00e7\u00e3o do povo. Em Solano, a milit\u00e2ncia pol\u00edtica e a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica constituem uma \u00fanica pr\u00e1tica, uma pr\u00e1xis est\u00e9tica e revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A poesia foi o primeiro espa\u00e7o em que Solano Trindade fez de sua voz um ato pol\u00edtico. Em Poemas Negros (1936), j\u00e1 se delineia um projeto liter\u00e1rio voltado \u00e0 den\u00fancia do racismo e \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o das origens africanas do povo brasileiro. Sua escrita, marcada pela oralidade e pelos ritmos da cultura popular, rompe com o c\u00e2none liter\u00e1rio e institui um lirismo coletivo, que fala em nome dos oprimidos e n\u00e3o de um sujeito individual. O poema \u201cTem gente com fome\u201d, publicado em 1944, tornou-se s\u00edmbolo dessa proposta: nele, o trem, met\u00e1fora da moderniza\u00e7\u00e3o excludente, atravessa o pa\u00eds sem ver os corpos famintos que comp\u00f5em a paisagem social. A for\u00e7a est\u00e9tica do texto est\u00e1 no entrela\u00e7amento entre forma popular, den\u00fancia social e solidariedade de classe. Ao transformar a fome e a cor em mat\u00e9ria po\u00e9tica, Solano fez da poesia uma forma de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o poeta, a arte n\u00e3o podia se separar da vida. Sua obra \u00e9 insepar\u00e1vel de sua milit\u00e2ncia cultural, voltada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de organiza\u00e7\u00e3o popular. Em 1944, fundou no Rio de Janeiro o Teatro Popular Brasileiro (TPB), junto com Margarida Trindade e outros artistas. O TPB tinha como objetivo unir arte e povo, levando o teatro \u00e0s ruas, pra\u00e7as e sindicatos. Suas montagens incorporavam elementos da cultura afro-brasileira, o samba de roda, o maracatu, o coco e a capoeira, afirmando a centralidade est\u00e9tica e pol\u00edtica das tradi\u00e7\u00f5es negras. O teatro, nessa concep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era espet\u00e1culo, mas atividade pedag\u00f3gica e coletiva, uma forma de educar politicamente as massas e de devolver-lhes sua pr\u00f3pria imagem como protagonistas da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Teatro Popular Brasileiro expressava na pr\u00e1tica o ideal de que a revolu\u00e7\u00e3o brasileira deveria ser tamb\u00e9m cultural. Inspirado nas diretrizes do PCB para o trabalho de massas, o grupo de Solano Trindade entendia a arte como meio de conscientiza\u00e7\u00e3o e como instrumento de resist\u00eancia. Solano Trindade, compartilhava o prop\u00f3sito de uma arte a servi\u00e7o do povo defendido pelo PCB, mas se colocava como um cr\u00edtico contundente \u00e0 est\u00e9tica do realismo socialista defendido por setores mais ortodoxos do coletivo partid\u00e1rio. A est\u00e9tica negra e popular de Solano era frequentemente vista como \u201crom\u00e2ntica\u201d ou \u201cfolcl\u00f3rica\u201d por aqueles que privilegiavam uma representa\u00e7\u00e3o mais did\u00e1tica da luta de classes. Essa tens\u00e3o ilustra o debate no interior do PCB, no esfor\u00e7o de compreender a cultura afro-brasileira como linguagem pol\u00edtica. Para Solano, a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia prescindir das formas simb\u00f3licas do povo negro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos anos 1950 e 1960, Solano Trindade organizou congressos de arte popular, grupos de bairro e movimentos culturais comunit\u00e1rios, sobretudo nas periferias do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo. Em Embu das Artes, ajudou a formar cooperativas de artistas e artes\u00e3os, transformando a arte em economia solid\u00e1ria e resist\u00eancia cotidiana. Nessas experi\u00eancias, antecipou as pr\u00e1ticas que d\u00e9cadas depois inspirariam pol\u00edticas culturais de base comunit\u00e1ria, como os Pontos de Cultura. Sua a\u00e7\u00e3o estava orientada por uma convic\u00e7\u00e3o profunda: o povo deve ser o criador e gestor de sua pr\u00f3pria cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A obra e a vida de Solano Trindade mostram que a luta contra o racismo e a explora\u00e7\u00e3o de classe passa tamb\u00e9m pela afirma\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Sua poesia faz do negro o centro da narrativa nacional e recusa a invisibilidade imposta pela hist\u00f3ria oficial. No teatro, sua pr\u00e1tica pedag\u00f3gica e colaborativa inverte a l\u00f3gica hier\u00e1rquica entre artista e p\u00fablico: o povo deixa de ser espectador para tornar-se ator de sua pr\u00f3pria emancipa\u00e7\u00e3o. A dimens\u00e3o pedag\u00f3gica do TPB antecipa, em certa medida, a pedagogia cr\u00edtica de Paulo Freire, ao conceber a arte como instrumento de liberta\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em di\u00e1logo com autores como Cl\u00f3vis Moura e Abdias do Nascimento, Solano construiu uma est\u00e9tica marxista popular que compreendia o racismo como estrutura material da explora\u00e7\u00e3o. Sua poesia e seu teatro desmontam o mito da democracia racial, revelando que a cultura brasileira \u00e9 fruto de um processo de resist\u00eancia negra. Ao mesmo tempo, sua obra expressa uma esperan\u00e7a radical: a de que o povo possa refazer o pa\u00eds a partir de seus pr\u00f3prios s\u00edmbolos, ritmos e mem\u00f3rias. O legado de Solano Trindade ultrapassa o campo art\u00edstico. Ele \u00e9 hoje reconhecido como precursor da arte negra pol\u00edtica no Brasil. Seu nome figura entre os inspiradores do Teatro Experimental do Negro e do Movimento Negro Unificado, que retomaram sua proposta de unir arte e a\u00e7\u00e3o direta. As gera\u00e7\u00f5es posteriores encontraram em sua obra um modelo de engajamento est\u00e9tico e pol\u00edtico, no qual a poesia n\u00e3o \u00e9 ornamento, mas ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No conjunto dos intelectuais negros vinculados ao PCB, Solano representa o elo entre a arte e a revolu\u00e7\u00e3o. Se Minervino de Oliveira inscreveu o negro na arena pol\u00edtica e Edson Carneiro o inseriu no campo da cultura intelectual, Solano Trindade fez do corpo e da palavra negra a pr\u00f3pria cena da luta. Sua trajet\u00f3ria confirma que o socialismo brasileiro n\u00e3o pode ser compreendido sem a dimens\u00e3o simb\u00f3lica e sens\u00edvel do povo negro. Atrav\u00e9s da poesia e do teatro, Solano Trindade transformou a arte em a\u00e7\u00e3o coletiva e deixou como heran\u00e7a a certeza de que a revolu\u00e7\u00e3o, para ser plena, deve ser tamb\u00e9m po\u00e9tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Claudino Jos\u00e9 da Silva: parlamento e antirracismo na tribuna<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A figura de Claudino Jos\u00e9 da Silva ocupa um lugar singular na hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira e na trajet\u00f3ria dos intelectuais e militantes negros ligados ao comunismo. Oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o civil e sindicalista carioca, Claudino foi um dos rar\u00edssimos parlamentares negros da primeira metade do s\u00e9culo XX, eleito deputado constituinte em 1946 pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Sua presen\u00e7a no parlamento representou n\u00e3o apenas a ascens\u00e3o pol\u00edtica de um trabalhador de origem popular, mas tamb\u00e9m a entrada simb\u00f3lica da quest\u00e3o racial em uma arena que, at\u00e9 ent\u00e3o, permanecia hermeticamente branca e elitista. Em um contexto de redemocratiza\u00e7\u00e3o e de efervesc\u00eancia do movimento oper\u00e1rio, Claudino transformou a tribuna parlamentar em espa\u00e7o de den\u00fancia do racismo e de defesa dos direitos da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O contexto hist\u00f3rico que possibilitou sua elei\u00e7\u00e3o foi o breve per\u00edodo de legalidade do PCB entre 1945 e 1947, quando o partido, rec\u00e9m-anistiado ap\u00f3s o Estado Novo, alcan\u00e7ou cerca de 10% dos votos nacionais e elegeu 14 deputados federais. A Assembleia Nacional Constituinte de 1946 simbolizou o reencontro do pa\u00eds com a pol\u00edtica ap\u00f3s anos de ditadura varguista e inaugurou uma nova carta constitucional. Nesse cen\u00e1rio, a bancada comunista se destacou por propor reformas estruturais, amplia\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas, educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, liberdade sindical e soberania nacional e Claudino Jos\u00e9 da Silva se tornou a express\u00e3o mais n\u00edtida do v\u00ednculo entre o operariado negro e o projeto socialista brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos registros dos Anais da Constituinte de 1946, Claudino aparece como um dos parlamentares mais ativos da bancada do PCB. Sua orat\u00f3ria simples, mas incisiva, trazia para o plen\u00e1rio a linguagem das ruas e das f\u00e1bricas. Defendia a regulamenta\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, o sal\u00e1rio m\u00ednimo digno e a inclus\u00e3o dos trabalhadores negros nas pol\u00edticas de qualifica\u00e7\u00e3o profissional. Em discursos not\u00e1veis, denunciou o racismo nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, a desigualdade salarial entre brancos e negros e a marginaliza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do povo afro-brasileiro. Afirmava que \u201cn\u00e3o h\u00e1 democracia real onde o negro continua sendo o \u00faltimo a ser admitido e o primeiro a ser despedido\u201d, frase que sintetiza sua vis\u00e3o de que a igualdade formal inscrita na Constitui\u00e7\u00e3o seria in\u00fatil sem justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o de Claudino Jos\u00e9 da Silva foi pioneira porque deslocou o debate racial do campo moral e cultural para o campo pol\u00edtico-institucional. Ao levar o tema do racismo \u00e0 tribuna, inscreveu-o na agenda da pol\u00edtica nacional d\u00e9cadas antes da emerg\u00eancia dos movimentos negros contempor\u00e2neos. Sua presen\u00e7a na Constituinte desmontava o mito da democracia racial e evidenciava que o racismo era um problema estrutural da Rep\u00fablica, insepar\u00e1vel da quest\u00e3o de classe. A postura combativa de Claudino o colocava em sintonia com a vis\u00e3o do PCB de que a emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores deveria ocorrer por meio da luta organizada, em sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica parlamentar era not\u00f3rio sua \u00eanfase na discrimina\u00e7\u00e3o racial como elemento constituinte do capitalismo no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cassa\u00e7\u00e3o do registro do PCB em 1947, sob o governo Eurico Gaspar Dutra, interrompeu bruscamente essa experi\u00eancia. Claudino e seus companheiros de bancada foram destitu\u00eddos de seus mandatos por decreto do Tribunal Superior Eleitoral, num ato que simbolizou o fechamento do espa\u00e7o democr\u00e1tico rec\u00e9m-aberto. A partir de ent\u00e3o, o ex-deputado retornou \u00e0 milit\u00e2ncia sindical, mas passou a ser alvo constante da repress\u00e3o pol\u00edtica. Documentos do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (DOPS) registram sua vigil\u00e2ncia e persegui\u00e7\u00e3o. A invisibilidade de sua trajet\u00f3ria nas d\u00e9cadas seguintes n\u00e3o se deve apenas \u00e0 repress\u00e3o estatal, mas tamb\u00e9m ao apagamento hist\u00f3rico promovido pelas narrativas dominantes da pol\u00edtica nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pesquisas recentes t\u00eam buscado reconstruir o percurso de Claudino Jos\u00e9 da Silva e resgatar o significado de sua experi\u00eancia parlamentar. Autores como Petr\u00f4nio Domingues e Fl\u00e1vio Gomes mostram que sua elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi um fato isolado, mas parte de um processo mais amplo de ascens\u00e3o pol\u00edtica de trabalhadores negros que, nas d\u00e9cadas de 1940 e 1950, encontraram no PCB uma via de express\u00e3o e de organiza\u00e7\u00e3o. Ainda que o partido n\u00e3o tenha desenvolvido uma teoria sistem\u00e1tica sobre o racismo, a atua\u00e7\u00e3o de Claudino demonstrou que o espa\u00e7o comunista podia servir como instrumento organizativo da classe racializada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia hist\u00f3rica de Claudino Jos\u00e9 da Silva reside em ter transformado o parlamento em tribuna de den\u00fancia social, num momento em que o discurso antirracista era quase inexistente nas institui\u00e7\u00f5es republicanas. Sua pr\u00e1tica pol\u00edtica antecipou pautas que s\u00f3 seriam formalmente reconhecidas quarenta anos depois, com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988: igualdade racial, combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e ao trabalho. Ao afirmar que o negro n\u00e3o podia esperar a revolu\u00e7\u00e3o para ser livre, Claudino incorporou \u00e0 esquerda brasileira um princ\u00edpio fundamental do marxismo negro: o de que n\u00e3o h\u00e1 emancipa\u00e7\u00e3o de classe sem emancipa\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seu legado \u00e9 o de um oper\u00e1rio intelectualizado, que levou \u00e0 tribuna a voz dos trabalhadores silenciados e abriu espa\u00e7o para uma cr\u00edtica comunista da democracia racial. Embora sua figura tenha sido apagada da mem\u00f3ria pol\u00edtica nacional, a redescoberta de sua trajet\u00f3ria restabelece uma linha de continuidade entre o comunismo, o movimento oper\u00e1rio e o pensamento negro. Claudino Jos\u00e9 da Silva demonstrou, com sua presen\u00e7a e sua palavra, que o combate ao capitalismo no Brasil s\u00f3 pode ser completo quando incorpora a luta contra o racismo, a forma mais persistente de explora\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o que estrutura a sociedade brasileira desde a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cl\u00f3vis Moura: dial\u00e9tica do capitalismo racial<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Cl\u00f3vis Steiger de Assis Moura (1925\u20132003) marca um ponto de inflex\u00e3o no pensamento social brasileiro. Soci\u00f3logo, historiador, jornalista e militante comunista, Moura foi um dos intelectuais que mais radicalmente reinterpretaram a forma\u00e7\u00e3o do Brasil \u00e0 luz do materialismo hist\u00f3rico, incorporando a dimens\u00e3o racial como eixo estruturante da luta de classes. Nascido em Amarante, Piau\u00ed, e criado no interior paulista, sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e intelectual deu-se fora das universidades, nos sindicatos, na imprensa e na milit\u00e2ncia comunista. Ao longo das d\u00e9cadas de 1940 e 1950, participou da imprensa de esquerda, escrevendo para O Momento e Imprensa Popular e integrou o Partido Comunista Brasileiro (PCB), atuando na chamada \u201cfrente cultural\u201d. Essa viv\u00eancia direta nas lutas oper\u00e1rias, somada ao contato com as desigualdades raciais do cotidiano, moldou uma perspectiva cr\u00edtica singular, que desafiou o dogmatismo do marxismo ortodoxo e lan\u00e7ou as bases de uma interpreta\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do racismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O contexto pol\u00edtico do p\u00f3s-guerra foi decisivo para a consolida\u00e7\u00e3o de sua vis\u00e3o. Durante os anos 1950, o PCB viveu o auge de sua influ\u00eancia de massas. A linha sovi\u00e9tica do partido ainda compreendia a quest\u00e3o racial como derivada da luta de classes, subordinando-a \u00e0 an\u00e1lise econ\u00f4mica. Nesse ambiente, Moura se destacou por propor uma leitura que recolocava o negro como protagonista. Cr\u00edtico da sociologia \u201cintegradora\u201d que via a aboli\u00e7\u00e3o como caminho natural para a democracia racial, Moura elaborou uma teoria em que o racismo n\u00e3o era um res\u00edduo feudal, e sim mecanismo constitutivo do capitalismo brasileiro. A publica\u00e7\u00e3o de Rebeli\u00f5es da Senzala (1959) representa o marco inaugural dessa virada: a escravid\u00e3o passa a ser interpretada como modo de produ\u00e7\u00e3o racializado e como base da acumula\u00e7\u00e3o primitiva que sustentou o capitalismo nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Moura, em debate com intelectuais comunistas como Alberto Passos Guimar\u00e3es, Caio Prado Junior e Jacob Gorender, o Brasil n\u00e3o viveu uma transi\u00e7\u00e3o do feudalismo ao capitalismo, mas a continuidade de uma estrutura de explora\u00e7\u00e3o que reorganizou o trabalho escravizado sob novas formas. A escravid\u00e3o, longe de ser um anacronismo, foi o motor da economia colonial e deixou como heran\u00e7a a racializa\u00e7\u00e3o do trabalho. Com a Aboli\u00e7\u00e3o de 1888, a liberta\u00e7\u00e3o formal do negro n\u00e3o significou a ruptura com essa estrutura: a expropria\u00e7\u00e3o do trabalho negro e a marginaliza\u00e7\u00e3o racial tornaram-se pilares do capitalismo dependente. O racismo, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas uma ideologia, mas um sistema material de domina\u00e7\u00e3o, que garante a superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Em sua an\u00e1lise, a moderniza\u00e7\u00e3o brasileira se ergue sobre o mesmo fundamento da senzala. Essa formula\u00e7\u00e3o antecipa a ideia de capitalismo racial, desenvolvida posteriormente por Cedric Robinson, e demonstra a dimens\u00e3o internacional de seu pensamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro eixo fundamental de sua obra \u00e9 a redefini\u00e7\u00e3o do papel do negro na hist\u00f3ria. Em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 historiografia tradicional, que via a popula\u00e7\u00e3o escravizada como massa passiva, Moura a concebe como sujeito revolucion\u00e1rio. Em Rebeli\u00f5es da Senzala, demonstra que as fugas, os quilombos e as insurrei\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram rea\u00e7\u00f5es espor\u00e1dicas, mas express\u00f5es de consci\u00eancia pol\u00edtica e de resist\u00eancia de classe. O quilombo \u00e9 interpretado como forma de nega\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da ordem colonial e ensaio de uma sociabilidade alternativa, baseada na solidariedade e na igualdade. Essa leitura confere \u00e0 luta negra um car\u00e1ter central no processo hist\u00f3rico brasileiro: o negro n\u00e3o \u00e9 o \u201cobjeto\u201d da hist\u00f3ria, mas seu motor oculto. Moura amplia, assim, o conceito de proletariado, incluindo os descendentes de escravizados e os trabalhadores marginalizados como integrantes da classe trabalhadora ampliada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A formula\u00e7\u00e3o de Cl\u00f3vis Moura implicou uma profunda cr\u00edtica te\u00f3rica ao economicismo expondo o que chamou de \u201caus\u00eancia dial\u00e9tica da ra\u00e7a no marxismo brasileiro\u201d. Para ele, a ortodoxia reproduzia o universalismo abstrato europeu, ignorando as condi\u00e7\u00f5es coloniais e raciais da Am\u00e9rica Latina. O racismo, afirmava, n\u00e3o era uma mera consequ\u00eancia do capitalismo, mas um dos seus fundamentos hist\u00f3ricos: \u201ca cor negra foi a primeira forma de mais-valia social\u201d. Essa concep\u00e7\u00e3o radicalizou o pensamento marxista brasileiro e abriu espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o de uma perspectiva, que unia materialismo hist\u00f3rico e an\u00e1lise racial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Moura, em 1962, fez a op\u00e7\u00e3o em se inserir nas fileiras do PC do B, sendo preso durante a ditadura militar, entre 1964 e 1968. Escreveu textos que consolidaram sua vis\u00e3o sobre a hist\u00f3ria e a sociologia do negro. Em obras posteriores, como Sociologia do Negro Brasileiro (1988) e Dial\u00e9tica Radical do Brasil Negro (1994), aprofundou sua tese de que a modernidade brasileira \u00e9 insepar\u00e1vel da heran\u00e7a escravista e de que a aboli\u00e7\u00e3o inacabada continua a definir as rela\u00e7\u00f5es de trabalho e de poder. Desenvolveu os conceitos de luta de classes racializada e de racializa\u00e7\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o, explicando como as desigualdades raciais s\u00e3o continuamente reproduzidas pelas estruturas econ\u00f4micas e pol\u00edticas. Nessas an\u00e1lises, o racismo n\u00e3o \u00e9 apenas ideologia de domina\u00e7\u00e3o, mas forma concreta de reprodu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seu pensamento exerce influ\u00eancia decisiva sobre o Movimento Negro Unificado (MNU) a partir de 1978 e sobre os N\u00facleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) que se consolidam nas universidades p\u00fablicas nas d\u00e9cadas seguintes. Moura foi o primeiro a propor uma leitura hist\u00f3rica e dial\u00e9tica do racismo estrutural, antecipando discuss\u00f5es que seriam retomadas por autores como Kabengele Munanga, Sueli Carneiro e Silvio Almeida. Sua obra tamb\u00e9m estabelece pontes com a tradi\u00e7\u00e3o pan-africanista e com o pensamento revolucion\u00e1rio caribenho de Frantz Fanon, sem abandonar a centralidade do contexto brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O legado de Cl\u00f3vis Moura ultrapassa a fronteira da sociologia e da hist\u00f3ria: ele reconfigura o pr\u00f3prio horizonte da esquerda brasileira. Ao demonstrar que o racismo \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de possibilidade do capitalismo no pa\u00eds, substitui a ideia de uma revolu\u00e7\u00e3o universalista por uma revolu\u00e7\u00e3o concreta, anticapitalista e antirracista, capaz de romper simultaneamente com a explora\u00e7\u00e3o de classe e com a domina\u00e7\u00e3o racial. Sua \u201cdial\u00e9tica do Brasil negro\u201d n\u00e3o busca integrar o negro \u00e0 sociedade existente, mas transformar radicalmente essa sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No conjunto dos intelectuais negros vinculados ao PCB, Moura representa o \u00e1pice te\u00f3rico e o ponto de inflex\u00e3o hist\u00f3rica. Se Minervino de Oliveira simbolizou a entrada do negro na arena pol\u00edtica e Edson Carneiro a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura popular, Cl\u00f3vis Moura deu a esse movimento uma base filos\u00f3fica e hist\u00f3rica de longo alcance. Sua obra permanece como uma das mais vigorosas tentativas de pensar o Brasil a partir da senzala e de compreender o capitalismo como ordem racializada. Ao propor que a revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 completa quando destruir as estruturas raciais da economia e do Estado, Moura inscreveu-se definitivamente na tradi\u00e7\u00e3o dos pensadores que fizeram da teoria um gesto de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00edntese cr\u00edtica e converg\u00eancias<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de intelectuais e militantes negros no interior do Partido Comunista Brasileiro entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1960 constitui uma das experi\u00eancias mais significativas de deslocamento do pensamento marxista no Brasil. O percurso de Minervino de Oliveira, \u00c9dison Carneiro, Solano Trindade, Claudino Jos\u00e9 da Silva e Cl\u00f3vis Moura revela uma constela\u00e7\u00e3o de trajet\u00f3rias que, embora distintas em forma e intensidade, convergem na cr\u00edtica ao universalismo na defesa de uma revolu\u00e7\u00e3o brasileira que s\u00f3 pode ser plena se for tamb\u00e9m antirracista. Cada um, a seu modo, abriu trincheiras te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas que expuseram a realidade da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ponto de partida dessa trajet\u00f3ria \u00e9 Minervino de Oliveira, oper\u00e1rio e dirigente sindical, candidato \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 1930. Sua candidatura rompeu o monop\u00f3lio racial da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e marcou a entrada do trabalhador negro na arena p\u00fablica nacional. Em um contexto de forte repress\u00e3o e de hegemonia das elites brancas, Minervino projetou a imagem do negro como sujeito pol\u00edtico aut\u00f4nomo, rompendo a l\u00f3gica assistencialista e paternalista predominante. Embora n\u00e3o tenha elaborado um corpo te\u00f3rico sistem\u00e1tico, sua atua\u00e7\u00e3o simbolizou a primeira tentativa de articular classe e ra\u00e7a no plano pol\u00edtico-eleitoral, antecipando debates que s\u00f3 se consolidariam d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O segundo momento \u00e9 representado por \u00c9dison Carneiro, cuja produ\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica e jornal\u00edstica conferiu densidade cultural \u00e0 luta antirracista. Atuando nas frentes culturais do PCB e colaborando com peri\u00f3dicos progressistas, Carneiro recusou a vis\u00e3o folclorizante da cultura negra e a descreveu como campo de resist\u00eancia social. Em obras como Religi\u00f5es Negras (1936) e O Quilombo dos Palmares (1947), demonstrou que os cultos afro-brasileiros e as tradi\u00e7\u00f5es populares n\u00e3o eram resqu\u00edcios de um passado \u201catrasado\u201d, mas formas de organiza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e pol\u00edtica diante da domina\u00e7\u00e3o colonial e capitalista. Sua leitura aproxima a etnografia do materialismo hist\u00f3rico: o terreiro, o maracatu e o samba tornam-se express\u00f5es de luta de classes, codificadas na linguagem da cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com Solano Trindade, essa luta assume forma est\u00e9tica e comunit\u00e1ria. Poeta, ator e organizador popular, Solano fez da arte um instrumento de conscientiza\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia. Sua poesia e o Teatro Popular Brasileiro transformaram o espa\u00e7o cultural em arena pol\u00edtica, aproximando o marxismo das pr\u00e1ticas coletivas do povo. Ao recusar o realismo socialista ortodoxo e valorizar as est\u00e9ticas afro-brasileiras, Solano ampliou o sentido de revolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas limitada a ideia de tomada do poder, mas como reapropria\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e espiritual da vida coletiva. Sua pr\u00e1tica mostra que a luta antirracista n\u00e3o se limita \u00e0 cr\u00edtica das estruturas econ\u00f4micas, mas implica a reconstru\u00e7\u00e3o da subjetividade e da linguagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O itiner\u00e1rio de Claudino Jos\u00e9 da Silva levou o debate racial para dentro da institucionalidade. Deputado constituinte em 1946, ele inaugurou o antirracismo parlamentar ao denunciar o preconceito racial no mercado de trabalho e exigir pol\u00edticas p\u00fablicas para a inclus\u00e3o do trabalhador negro. Claudino representou a face mais vis\u00edvel da luta por igualdade dentro do Estado e demonstrou que a revolu\u00e7\u00e3o socialista exigia tamb\u00e9m a transforma\u00e7\u00e3o das estruturas legais. Sua experi\u00eancia parlamentar \u00e9 um elo entre o operariado de Minervino e a cr\u00edtica te\u00f3rica de Moura, evidenciando que a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 campo de disputa e n\u00e3o mera concess\u00e3o do poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por fim, Cl\u00f3vis Moura consolidou, no plano te\u00f3rico, o que os demais haviam esbo\u00e7ado na pr\u00e1tica. Em Rebeli\u00f5es da Senzala (1959), transformou o quilombo em categoria hist\u00f3rica e prop\u00f4s a no\u00e7\u00e3o de luta de classes racializada. A partir dele, a escravid\u00e3o passa a ser entendida como modo de produ\u00e7\u00e3o racializado que estrutura o capitalismo brasileiro. Moura rompe com o economicismo e formula uma cr\u00edtica radical ao universalismo europeu, afirmando que o racismo \u00e9 parte constitutiva da acumula\u00e7\u00e3o capitalista e n\u00e3o simples deriva\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Sua obra integra a rebeldia de Palmares, a milit\u00e2ncia sindical de Minervino e Claudino, e a cultura popular de Carneiro e Solano num mesmo horizonte: a revolu\u00e7\u00e3o como destrui\u00e7\u00e3o das estruturas raciais da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de suas diferen\u00e7as, esses intelectuais compartilham tr\u00eas eixos comuns. Primeiro, a den\u00fancia de que o capitalismo brasileiro depende da racializa\u00e7\u00e3o do trabalho. De Minervino a Moura, a cor da pele \u00e9 vista como crit\u00e9rio de hierarquiza\u00e7\u00e3o e controle, essencial para a reprodu\u00e7\u00e3o da economia dependente. Segundo, a compreens\u00e3o do racismo como estrutura e n\u00e3o como preconceito individual: para Carneiro e Solano, ele organiza a vida cultural e simb\u00f3lica; para Claudino, molda as institui\u00e7\u00f5es; para Moura, estrutura a produ\u00e7\u00e3o e o Estado. Terceiro, a defesa de uma revolu\u00e7\u00e3o antirracista, em que o socialismo n\u00e3o se resume \u00e0 igualdade formal, mas implica a refunda\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As diverg\u00eancias entre eles revelam a pluralidade das t\u00e1ticas de luta, unificadas em uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica definida pelos Congressos do PCB. Minervino e Claudino foram, pela t\u00e1tica partid\u00e1ria, al\u00e7ados para a via pol\u00edtica institucional, esfor\u00e7ando-se em ampliar, pela lei e pela representa\u00e7\u00e3o, direitos inalien\u00e1veis; Carneiro e Solano tiveram suas milit\u00e2ncias direcionadas a via cultural e comunit\u00e1ria, atuando no campo simb\u00f3lico; Moura, em sua milit\u00e2ncia, elaborou a s\u00edntese te\u00f3rica que amarra essas experi\u00eancias sob a forma de uma dial\u00e9tica do capitalismo racial. Essas diferentes frentes n\u00e3o se anulam, mas se complementam: o voto, a arte, a cultura e a teoria formam um mesmo movimento de insurg\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O conjunto dessas trajet\u00f3rias instaurou uma nova gram\u00e1tica pol\u00edtica, a partir destes quadros pol\u00edticos do PCB, o marxismo brasileiro ganha densidade hist\u00f3rica e se aproxima da experi\u00eancia real dos oprimidos. O negro deixa de ser mero objeto de solidariedade para tornar-se sujeito revolucion\u00e1rio, produtor de teoria, cultura e pol\u00edtica. Essa tradi\u00e7\u00e3o constituiu as bases do marxismo negro no Brasil, influenciando o Movimento Negro Unificado, os estudos afro-brasileiros e as atuais reflex\u00f5es sobre racismo estrutural. Ao fim, a converg\u00eancia entre esses intelectuais reafirma uma tese comum: sem antirracismo, n\u00e3o h\u00e1 socialismo poss\u00edvel no Brasil. O capitalismo e o racismo formam um mesmo sistema de domina\u00e7\u00e3o, e a revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o enfrentar essa unidade ser\u00e1 apenas parcial. Minervino, Carneiro, Solano, Claudino e Moura transformaram o comunismo em campo de disputa simb\u00f3lica e pol\u00edtica, provando que a emancipa\u00e7\u00e3o de classe precisa ser, ao mesmo tempo, uma emancipa\u00e7\u00e3o racial e cultural. Suas vozes, vindas das f\u00e1bricas, dos terreiros, dos palcos, das tribunas e das senzalas reescritas pela hist\u00f3ria, comp\u00f5em uma mesma melodia: a de um Brasil que s\u00f3 ser\u00e1 livre quando a cor da pele deixar de ser o limite da humanidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Capitalismo, Racismo e Revolu\u00e7\u00e3o: o legado dos intelectuais negros comunistas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O percurso anal\u00edtico empreendido ao longo deste estudo confirma a hip\u00f3tese de que os intelectuais negros vinculados ao Partido Comunista Brasileiro entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1960 transformaram profundamente o horizonte te\u00f3rico e pol\u00edtico da esquerda brasileira. A partir de experi\u00eancias distintas, a milit\u00e2ncia sindical e eleitoral de Minervino de Oliveira, a etnografia militante de \u00c9dison Carneiro, a pr\u00e1xis est\u00e9tica e comunit\u00e1ria de Solano Trindade, a atua\u00e7\u00e3o institucional de Claudino Jos\u00e9 da Silva e a formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Cl\u00f3vis Moura, observa-se a constru\u00e7\u00e3o de uma linha de continuidade que reinterpreta o marxismo a partir da realidade racial brasileira. Em comum, todos partem da constata\u00e7\u00e3o de que o racismo n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno cultural perif\u00e9rico, mas o eixo oculto da explora\u00e7\u00e3o capitalista e da depend\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esses caminhos revelam que a quest\u00e3o racial, foi gradualmente convertida em campo de elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica. Conforme j\u00e1 demostrado Minervino de Oliveira inaugurou a presen\u00e7a negra na cena comunista, confirmando que o proletariado brasileiro tinha cor e que a revolu\u00e7\u00e3o deveria incluir o trabalhador negro em sua lideran\u00e7a simb\u00f3lica e material. \u00c9dison Carneiro, ao traduzir o candombl\u00e9, o samba e o quilombo em linguagens pol\u00edticas, conferiu dignidade epistemol\u00f3gica \u00e0 cultura popular e deslocou a etnografia para o terreno da luta de classes. Solano Trindade, por sua vez, transformou a arte em instrumento de liberta\u00e7\u00e3o, convertendo o teatro e a poesia em pedagogias de resist\u00eancia. Claudino Jos\u00e9 da Silva introduziu o tema racial na arena parlamentar, antecipando, sob forma institucional, o que mais tarde se configuraria como pol\u00edtica de a\u00e7\u00e3o afirmativa. Cl\u00f3vis Moura sistematizou essas experi\u00eancias em uma teoria da luta de classes racializada, demonstrando que o capitalismo brasileiro se sustenta sobre a heran\u00e7a escravista e a perman\u00eancia do trabalho racializado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Identificamos que as contribui\u00e7\u00f5es desses autores convergem na redefini\u00e7\u00e3o de tr\u00eas pilares da tradi\u00e7\u00e3o marxista brasileira. O primeiro \u00e9 o da forma\u00e7\u00e3o social, reinterpretada como estrutura de acumula\u00e7\u00e3o racial. Ao contr\u00e1rio da leitura economicista, que via a escravid\u00e3o como obst\u00e1culo \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o, Moura e seus antecessores mostram que ela foi o alicerce do capitalismo dependente. O segundo \u00e9 o da classe trabalhadora, compreendida como corpo racialmente constitu\u00eddo, cuja explora\u00e7\u00e3o se legitima pela ideologia da inferioridade negra. O terceiro \u00e9 o da revolu\u00e7\u00e3o, entendida n\u00e3o apenas como transi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas como processo de descoloniza\u00e7\u00e3o social, cultural e simb\u00f3lica. A liberta\u00e7\u00e3o do trabalho, para esses intelectuais, exige tamb\u00e9m a liberta\u00e7\u00e3o da cor, da mem\u00f3ria e da cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A s\u00edntese alcan\u00e7ada por esses intelectuais confirma que o marxismo negro n\u00e3o \u00e9 uma ruptura externa ao marxismo, mas um deslocamento conceitual e pol\u00edtico em seu momento dial\u00e9tico mais consequente. Ao introduzir a ra\u00e7a na an\u00e1lise de classe, eles devolvem ao materialismo hist\u00f3rico sua dimens\u00e3o concreta, ancorada na experi\u00eancia colonial e escravista do Brasil. Ao mesmo tempo, reconfiguram o projeto socialista como revolu\u00e7\u00e3o cultural e simb\u00f3lica, superando o reducionismo economicista. A partir deles, o comunismo brasileiro deixa de ser tradu\u00e7\u00e3o de modelos europeus e torna-se express\u00e3o aut\u00f3ctone da luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Conclui-se, assim, que o encontro entre capitalismo, racismo e revolu\u00e7\u00e3o define a especificidade do pensamento negro comunista no Brasil. Esses intelectuais demonstraram que o socialismo s\u00f3 ser\u00e1 efetivo quando incorporar a luta antirracista e que a emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora depende da destrui\u00e7\u00e3o das hierarquias raciais que sustentam o Estado e o capital. O futuro da esquerda brasileira, portanto, repousa sobre o reconhecimento de que n\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o social sem revolu\u00e7\u00e3o racial. O gesto de Minervino, a pena de Carneiro, o palco de Solano, a tribuna de Claudino e a dial\u00e9tica de Moura formam uma genealogia insurgente que ainda interpela o presente: construir um Brasil em que a cor da pele n\u00e3o determine o lugar do homem na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n<p>1. Fontes prim\u00e1rias<\/p>\n<p>CARNEIRO, \u00c9dison. Religi\u00f5es negras: notas de etnografia religiosa. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1936. Dispon\u00edvel em: https:\/\/bndigital.bn.gov.br\/. Acesso em: 03 set. 2025.<\/p>\n<p>CARNEIRO, \u00c9dison. O quilombo dos Palmares. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958. (1. ed., 1947). Dispon\u00edvel em: https:\/\/repositorio.ufrj.br\/. Acesso em: 03 set. 2025.<\/p>\n<p>TRINDADE, Solano. Poemas negros. [Rio de Janeiro]: [Editora do Autor], 1936. Dispon\u00edvel em: https:\/\/bndigital.bn.gov.br\/. Acesso em: 10 set. 2025.<\/p>\n<p>TRINDADE, Solano. Tem gente com fome (poema, 1944). Dispon\u00edvel em: https:\/\/funarte.gov.br\/acervo\/solano-trindade\/. Acesso em: 012 set. 2025.<\/p>\n<p>TRINDADE, Solano; TEATRO POPULAR BRASILEIRO. Depoimentos e registros sobre o TPB [documenta\u00e7\u00e3o]. Rio de Janeiro: Funarte, [1952]. Dispon\u00edvel em: https:\/\/funarte.gov.br\/acervo\/solano-trindade\/. Acesso em: 12 set. 2025.<\/p>\n<p>MOURA, Cl\u00f3vis. Rebeli\u00f5es da senzala: quilombos, insurrei\u00e7\u00f5es e guerrilhas. Reedi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Anita Garibaldi; Funda\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Grabois, 2014. Dispon\u00edvel em: https:\/\/grabois.org.br\/. Acesso em: 23 set. 2025.<\/p>\n<p>MOURA, Cl\u00f3vis. Sociologia do negro brasileiro. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1988. Dispon\u00edvel em: https:\/\/pt.scribd.com\/. Acesso em: 23 set. 2025.<\/p>\n<p>MOURA, Cl\u00f3vis. Dial\u00e9tica radical do Brasil negro. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Anita Garibaldi; Funda\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Grabois, 2014. Dispon\u00edvel em: https:\/\/grabois.org.br\/. Acesso em: 10 out. 2025.<\/p>\n<p>MOURA, Cl\u00f3vis. As injusti\u00e7as de Clio: o negro na historiografia brasileira. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1990. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.academia.edu\/. Acesso em: 10 out. 2025.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Fontes secund\u00e1rias<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. S\u00e3o Paulo: P\u00f3len, 2019.<\/p>\n<p>DOMINGUES, Petr\u00f4nio Jos\u00e9. O negro no Partido Comunista Brasileiro (1930\u20131964). S\u00e3o Paulo: UNESP, 2012.<\/p>\n<p>DOMINGUES, Petr\u00f4nio Jos\u00e9. O marxismo negro e o pensamento de Cl\u00f3vis Moura. Estudos Afro-Asi\u00e1ticos, Rio de Janeiro, v. 34, n. 2, p. 65-89, 2012.<\/p>\n<p>GOMES, Fl\u00e1vio dos Santos. Negros e pol\u00edtica no Brasil: experi\u00eancias da primeira metade do s\u00e9culo XX. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2011.<\/p>\n<p>MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mesti\u00e7agem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petr\u00f3polis: Vozes, 1999.<\/p>\n<p>NOGUEIRA, Maria Nazareth Soares. Solano Trindade e o Teatro Popular Brasileiro. S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1999.<\/p>\n<p>PRESTES, Anita Leoc\u00e1dia. Luiz Carlos Prestes e o PCB: lutas e contradi\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017.<\/p>\n<p>SENNA J\u00daNIOR, Carlos Zacarias. Os comunistas e o Brasil: cultura pol\u00edtica e hist\u00f3ria do PCB (1922\u20131964). Salvador: EDUFBA, 2014.<\/p>\n<p>SODR\u00c9, Muniz. Claridade e sombra: ensaios sobre cultura e pol\u00edtica. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008.<\/p>\n<p>GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1978.<\/p>\n<p>MOURA, Cl\u00f3vis. O negro: de bom escravo a mau cidad\u00e3o?. S\u00e3o Paulo: Conquista, 1988.<\/p>\n<p>MOURA, Cl\u00f3vis. O negro e o marxismo. S\u00e3o Paulo: Anita Garibaldi, 1996.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Fontes documentais e peri\u00f3dicos on-line<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BRASIL. Assembleia Nacional Constituinte (1946). Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946. Bras\u00edlia, DF: C\u00e2mara dos Deputados, 1946. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.camara.leg.br\/anais-da-constituinte-de-1946\/. Acesso em: 10 out. 2025.<\/p>\n<p>A Classe Oper\u00e1ria. Rio de Janeiro: Partido Comunista Brasileiro, edi\u00e7\u00f5es de 1935\u20131957. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Dispon\u00edvel em: https:\/\/hemerotecadigital.bn.gov.br\/. Acesso em: 10 out. 2025.<\/p>\n<p>Imprensa Popular. Rio de Janeiro: Partido Comunista Brasileiro, 1948\u20131957. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Dispon\u00edvel em: https:\/\/hemerotecadigital.bn.gov.br\/. Acesso em: 12 out. 2025.<\/p>\n<p>Correio da Manh\u00e3. Rio de Janeiro, edi\u00e7\u00f5es de 1945\u20131947. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Dispon\u00edvel em: https:\/\/hemerotecadigital.bn.gov.br\/. Acesso em: 12 out. 2025.<\/p>\n<p>Di\u00e1rio Carioca. Rio de Janeiro, edi\u00e7\u00f5es de 1945\u20131947. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Dispon\u00edvel em: https:\/\/hemerotecadigital.bn.gov.br\/. Acesso em: 15 out. 2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33351\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[66,10],"tags":[222],"class_list":["post-33351","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8FV","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33351"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33351\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33353,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33351\/revisions\/33353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}