{"id":33354,"date":"2025-11-18T19:03:34","date_gmt":"2025-11-18T22:03:34","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33354"},"modified":"2025-11-29T21:14:54","modified_gmt":"2025-11-30T00:14:54","slug":"em-memoria-da-coluna-prestes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33354","title":{"rendered":"Em mem\u00f3ria da Coluna Prestes"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33355\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33354\/coluna-prestes\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/coluna-prestes.jpg?fit=1280%2C720&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1280,720\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"coluna-prestes\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/coluna-prestes.jpg?fit=747%2C420&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-33355\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/coluna-prestes.jpg?resize=747%2C420&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/coluna-prestes.jpg?resize=900%2C506&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/coluna-prestes.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/coluna-prestes.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/coluna-prestes.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Membros da Coluna Prestes &#8211; Acervo de Luiz Carlos Prestes Filho<\/p>\n<p>Edmilson Costa*<\/p>\n<p>A Coluna Prestes completou, neste ano de 2025, 100 anos. Trata-se de um evento dos mais emblem\u00e1ticos da hist\u00f3ria brasileira e uma epopeia militar extraordin\u00e1ria, maior que a de Alexandre da Maced\u00f4nia ou a Grande Marcha de Mao Tse Tung, uma vez que as tropas comandadas pelo capit\u00e3o Lu\u00eds Carlos Prestes e composta por tenentes insurgentes e rebeldes populares que se incorporaram \u00e0 luta, enfrentaram as tropas melhor armadas e muito mais numerosas do ent\u00e3o presidente Artur Bernardes, ao longo de 25 mil quil\u00f4metros, do Sul ao Norte, do Nordeste ao Centro-Oeste do pa\u00eds, numa guerra de guerrilhas invicta, entre os anos de 1925 e 1927. A coluna insurgente saiu do interior do Rio Grande do Sul, incorporou os tenentes sublevados de S\u00e3o Paulo, percorreu o pa\u00eds inteiro desafiando as for\u00e7as olig\u00e1rquicas da Rep\u00fablica Velha e, nessa trajet\u00f3ria pelo Brasil profundo, escreveu na mem\u00f3ria nacional um dos mais belos cap\u00edtulos da luta popular por justi\u00e7a social e liberdade.<\/p>\n<p>Portanto, celebrar o centen\u00e1rio da Coluna Prestes deve ser entendido n\u00e3o apenas como um evento militar, mas especialmente como um epis\u00f3dio importante para compreender o Brasil daquela \u00e9poca (e ainda hoje), marcado pelo coronelismo, pelos latifundi\u00e1rios, pelas desigualdades e mis\u00e9ria da imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o. Seu legado continua muito atual porque encarnou valores que ainda s\u00e3o muito atuais, tais como a luta pelas transforma\u00e7\u00f5es sociais, o combate \u00e0 oligarquia, ao latif\u00fandio, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e ao autoritarismo dos grupos conservadores, bem como a defesa da soberania nacional e popular. Celebrar este centen\u00e1rio da Coluna \u00e9 tamb\u00e9m recordar que o povo brasileiro, em condi\u00e7\u00f5es muito mais dif\u00edceis que atualmente, se levantou contra a opress\u00e3o e, portanto, pode novamente contestar a ordem estabelecida. \u00c9 tamb\u00e9m lembrar que a popula\u00e7\u00e3o pobre da caatinga, dos sert\u00f5es, do planalto foi capaz de apoiar a coragem e a dignidade daqueles revolucion\u00e1rios que, atrav\u00e9s da luta popular armada, decidiram enfrentar os poderosos e buscar uma p\u00e1tria livre e democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Um s\u00e9culo depois, a Coluna Prestes permanece como um desses raros acontecimentos que n\u00e3o envelhecem porque foi capaz de revelar o nervo exposto da sociedade brasileira da \u00e9poca, n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mis\u00e9ria das grandes massas, mas tamb\u00e9m sobre o poder dos grandes propriet\u00e1rios, a manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das elites regionais, a viol\u00eancia contra os pobres e a aus\u00eancia hist\u00f3rica de direitos para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. A marcha da Coluna tamb\u00e9m obteve a simpatia da imensa maioria do povo sertanejo, que proporcionou comida, \u00e1gua e informa\u00e7\u00f5es sobre o inimigo, uma vez que a Coluna se transformou, aos olhos da popula\u00e7\u00e3o rural, num exemplo de ousadia e retid\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es entre os insurgentes e a popula\u00e7\u00e3o. Como relata o pr\u00f3prio comandante da Coluna, Lu\u00eds Carlos Prestes, em entrevista ao Estado de S\u00e3o Paulo: \u201cEncontr\u00e1vamos um ambiente de muita simpatia. As popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fugiam e que mantinham contato conosco compreendiam que lut\u00e1vamos contra seus inimigos. O povo do interior via no governo federal, nos governos estaduais e municipais e nos grandes fazendeiros os seus inimigos e percebia que todos lutavam contra n\u00f3s. N\u00e3o tinham consci\u00eancia suficiente para aderir \u00e0 luta e dar suas vidas a uma causa que ainda n\u00e3o compreendiam\u201d[1].<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a Coluna se converteu em mat\u00e9ria prima para uma grande radiografia do Brasil profundo ao revelar a estrutura das desigualdades brasileiras, que s\u00f3 muito depois a historiografia viria a reconhecer. Ou seja, o Brasil urbano que contrastava com o pa\u00eds interiorano, majoritariamente rural, analfabeto e miser\u00e1vel. Exp\u00f4s ainda o poder dos donos das terras e das fraudes nas elei\u00e7\u00f5es, escancarando o dom\u00ednio de uma oligarquia reacion\u00e1ria e violenta. Como ressalta Prestes na mesma entrevista: \u201cN\u00e3o pod\u00edamos imaginar que a situa\u00e7\u00e3o dos homens do campo fosse t\u00e3o miser\u00e1vel, apesar de conhecermos as favelas das grandes cidades. O quadro era realmente de horrorizar. O que vimos no interior do Mato Grosso, Goi\u00e1s, Nordeste foi mis\u00e9ria e explora\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias terr\u00edveis &#8230; Houve o caso de encontrarmos em algumas cho\u00e7as uma fam\u00edlia com tr\u00eas mocinhas. Duas ficaram dentro de casa porque s\u00f3 havia um vestido. As outras estavam nuas e n\u00e3o podiam aparecer. N\u00e3o era por medo da Coluna, porque o respeito era absoluto, mas sim porque n\u00e3o tinham roupa para vestir\u201d[2].<\/p>\n<p>Em termos hist\u00f3ricos, podemos dizer que a Coluna Prestes pode ser considerada uma esp\u00e9cie de mito fundador das lutas populares organizadas no Brasil porque n\u00e3o s\u00f3 desenvolveu uma trajet\u00f3ria militar vitoriosa, mas especialmente porque tornou vis\u00edvel aquilo que as classes dominantes procuravam invisibilizar. Um Brasil marcado pelo poder do latif\u00fandio, em que os chefes locais e seus jagun\u00e7os faziam as leis em cada uma das regi\u00f5es, controlavam e fraudavam as elei\u00e7\u00f5es, determinavam quem podia viver ou morrer nos seus dom\u00ednios. Revelou a falta de infraestrutura e as doen\u00e7as que atingiam a popula\u00e7\u00e3o e denunciou o poder da velha ordem agr\u00e1rio-exportadora, que criou uma Rep\u00fablica olig\u00e1rquica e aprofundou uma estrutura social perversamente desigual. Constatou tamb\u00e9m que o Estado n\u00e3o existia para a maioria da popula\u00e7\u00e3o, mas apenas para as classes dominantes, que usavam e abusavam do aparato estatal para manter seus privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>O Brasil de nossos dias tem uma imensa d\u00edvida com a lend\u00e1ria Coluna Invicta, como diz o historiador H\u00e9lio Silva, citado no livro de Nelson Werneck Sodr\u00e9: \u201cH\u00e1, por\u00e9m, um lado que supera e absorve o lado guerreiro, \u00e9 a significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 a grande marcha que vai despertar o sert\u00e3o, alertar a cidade, fortalecer os fracos e enrijecer os fortes. Sem a Coluna Prestes o Brasil seria uma colcha de retalhos, dividido pelo dom\u00ednio das oligarquias\u201d[3]. A Coluna teve tamb\u00e9m uma import\u00e2ncia especial para o imagin\u00e1rio popular brasileiro. Muitas lendas surgiram em torno da Coluna, que eram contadas entre os populares: dizia-se que os insurgentes tinham uma m\u00e1quina port\u00e1til para fabricar balas e que Prestes era adivinho porque sabia sempre onde se encontravam as for\u00e7as federais e por isso estava sempre prevenido das inten\u00e7\u00f5es de seus inimigos. Outros afirmavam que os combatentes tinham o corpo fechado e, portanto, eram imunizados contra as balas[4]. No campo intelectual, a Coluna influenciou at\u00e9 mesmo a literatura regional, com Graciliano Ramos, Jorge Amado, Jos\u00e9 Lins do Rego e Rachel de Queiroz, al\u00e9m do pensamento social com Caio Prado J\u00fanior e Nelson Werneck Sodr\u00e9, entre outros.<\/p>\n<p>Mas essa epopeia extraordin\u00e1ria e heroica \u00e9 pouco conhecida pelas novas gera\u00e7\u00f5es e pouco investigada pela academia em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica anticomunista das classes dominantes, que procuram permanentemente, de todas as formas, colocar no esquecimento as insurg\u00eancias que questionam os poderosos, principalmente a Coluna Prestes, cuja trajet\u00f3ria de invencibilidade se tornou hist\u00f3rica. Mas esse esquecimento tem uma causa ainda maior porque o comandante da Coluna Invicta, o capit\u00e3o Lu\u00eds Carlos Prestes, posteriormente aderiu ao comunismo e ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Como diz a historiadora Anita Prestes, filha do comandante: \u201cA Coluna estava identificada com Prestes. E Prestes, a partir de 1930, estava identificado com o comunismo e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Por essa raz\u00e3o os donos do poder e seus mais novos colaboradores, os antigos &#8216;tenentes&#8217;, consideraram necess\u00e1rio destruir o mito do &#8216;Cavaleiro da Esperan\u00e7a&#8217; &#8230; Para isso era necess\u00e1rio silenciar a hist\u00f3ria da Coluna &#8230; A Coluna era uma lembran\u00e7a inc\u00f4moda e perigosa: n\u00e3o s\u00f3 porque seu principal comandante e l\u00edder indiscut\u00edvel de prest\u00edgio nacional se tornara comunista, como a Coluna tamb\u00e9m representava um exemplo de luta armada que a classe dominante n\u00e3o conseguira esmagar\u201d[5].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Brasil dos anos 20<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para compreendermos a import\u00e2ncia hist\u00f3rica da Coluna Prestes \u00e9 necess\u00e1rio reconstruir sumariamente o cen\u00e1rio pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social dos anos 20 do s\u00e9culo passado. Nesse per\u00edodo, o Brasil vivia uma s\u00e9rie de contradi\u00e7\u00f5es: ao mesmo tempo em que emergiam sinais de moderniza\u00e7\u00e3o nas grandes cidades, como o r\u00e1dio, os bondes el\u00e9tricos, cinemas, autom\u00f3veis, o desenvolvimento de uma pequena ind\u00fastria e a energia el\u00e9trica, o pa\u00eds convivia com um sistema pol\u00edtico arcaico, no qual imperava o poder do coronelismo; a maioria da popula\u00e7\u00e3o vivia no campo, marcada pela pobreza e o analfabetismo; al\u00e9m de uma estrutura agr\u00e1ria dominada pelos grandes propriet\u00e1rios de terras. \u201cA realidade (do pa\u00eds) continuava eminentemente agr\u00edcola. Segundo o Censo de 1920, dos 9,1 milh\u00f5es de pessoas em atividade, 6,3 milh\u00f5es (69,7%) se dedicavam \u00e0 agricultura; 1,2 milh\u00e3o (13,8%) \u00e0 ind\u00fastria; 1,5 milh\u00e3o (16,5%) aos servi\u00e7os de uma maneira geral\u201d[6]. Ou seja, a vida social dos anos 20 era moldada por esses contrastes permanentes, o que viria a desembocar nas revoltas tenentistas, na Coluna Prestes e na revolu\u00e7\u00e3o de 1930.<\/p>\n<p>Vale lembrar ainda que em 1922 comemorava-se o centen\u00e1rio da independ\u00eancia, quando ent\u00e3o foram realizados v\u00e1rios debates e balan\u00e7os sobre os cem anos do Brasil independente. Tamb\u00e9m em 1922 ocorreu a Semana da Arte Moderna, movimento que refletia a emerg\u00eancia de uma consci\u00eancia nacional na literatura e na arte e marcava o descontentamento de setores jovens das camadas m\u00e9dias urbanas contra os costumes pol\u00edticos e as estruturas sociais e econ\u00f4micas da \u00e9poca. Ainda em 1922 foi fundado o Partido Comunista Brasileiro, o que marcaria tamb\u00e9m um salto de qualidade na luta dos trabalhadores e das trabalhadoras, que at\u00e9 ent\u00e3o era dirigida pelos anarquistas. Tamb\u00e9m na d\u00e9cada de 20 estava emergindo um processo industrial, favorecido pelos problemas causados pela Primeira Guerra Mundial, e a constitui\u00e7\u00e3o de um proletariado fabril, enquanto no Rio e em S\u00e3o Paulo os jovens come\u00e7avam a contestar a moral conservadora: fumavam, dan\u00e7avam, discutiam pol\u00edtica e literatura. Ou seja, havia um certo ar de ebuli\u00e7\u00e3o social naquela sociedade em transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como ressalta o economista Werner Baer: \u201cO poder pol\u00edtico estava nas m\u00e3os das classes propriet\u00e1rias cujos interesses eram compat\u00edveis com a divis\u00e3o internacional do trabalho do s\u00e9culo XIX &#8230; O efeito exercido pela Primeira Guerra Mundial n\u00e3o foi o de expandir e mudar a capacidade produtiva do Brasil, mas sim de aumentar a capacidade de produ\u00e7\u00e3o de artigos t\u00eaxteis e aliment\u00edcios originada antes da guerra\u201d[7]. Avaliando tamb\u00e9m esse per\u00edodo, o historiador Boris Fausto enfatiza o seguinte: \u201cA d\u00e9cada de 20 foi t\u00e3o significativa quanto o conflito europeu, pois nela come\u00e7aram a aparecer as tentativas de superar os limites da expans\u00e3o industrial. Incentivadas pelo governo, surgiram duas empresas importantes: em Minas Gerais, a Sider\u00fargica Belgo Mineira, que come\u00e7ou a produzir em 1924; em S\u00e3o Paulo, a Companhia de Cimento Portland, cuja produ\u00e7\u00e3o foi iniciada em 1926. Ao mesmo tempo, a partir da experi\u00eancia e dos lucros acumulados durante a guerra, pequenas oficinas de conserto foram se transformando em ind\u00fastrias de m\u00e1quinas e equipamentos\u201d[8]. Vejamos detalhadamente cada um dos aspectos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais.<\/p>\n<p>Aspectos econ\u00f4micos: o eixo econ\u00f4mico do pa\u00eds girava inteiramente em torno da produ\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria, especialmente do caf\u00e9, que era respons\u00e1vel por mais de 70% das exporta\u00e7\u00f5es e principal atividade econ\u00f4mica brasileira, proporcionando grande poder pol\u00edtico aos estados produtores. Em outras regi\u00f5es exercia tamb\u00e9m importante papel econ\u00f4mico a produ\u00e7\u00e3o de leite e a produ\u00e7\u00e3o de borracha, cacau, erva-mate e charque. A produ\u00e7\u00e3o do caf\u00e9 era organizada em grandes latif\u00fandios, com m\u00e3o de obra barata e rela\u00e7\u00f5es de trabalho prec\u00e1rias, o que garantia custos baixos e expans\u00e3o cont\u00ednua da produ\u00e7\u00e3o. O sistema produtivo estimulava a superprodu\u00e7\u00e3o. Para evitar colapsos econ\u00f4micos, a classe dominante pressionava o governo a intervir sempre que os pre\u00e7os ca\u00edam no mercado internacional. O mecanismo garantia que os fazendeiros n\u00e3o ficassem vulner\u00e1veis \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es do mercado, estimulando ainda mais o plantio, o que ampliava o problema estrutural da superprodu\u00e7\u00e3o. Essa pol\u00edtica implodiu com a crise de 1929. Do ponto de vista industrial, o governo concedia ajuda especial aos novos setores industriais, tanto que as ind\u00fastrias recentes, como qu\u00edmica e metalurgia, experimentaram um crescimento significativo. \u201cEntre 1925 e 1929 os fabricantes de artigos n\u00e3o-t\u00eaxteis testemunharam taxas de crescimento superiores \u00e0 m\u00e9dia da ind\u00fastria\u201d, diz Baer. [9]<\/p>\n<p>Aspectos sociais no campo. A base social da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria era o latif\u00fandio, que no interior do Brasil exercia a autoridade econ\u00f4mica, pol\u00edtica e policial em seus territ\u00f3rios. Os\/as trabalhadores\/as viviam presos \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia: moravam geralmente nas fazendas ou em casas de pau-a-pique, contra\u00edam d\u00edvidas impag\u00e1veis nos armaz\u00e9ns da fazenda, o que lhes obrigava a manter v\u00ednculos de lealdade com os patr\u00f5es. Quando algu\u00e9m se revoltava era amea\u00e7ado pelos capangas e impossibilitado de se deslocar livremente no territ\u00f3rio. Outros trabalhadores eram meeiros: trabalhavam a terra uma parte para si e outra para o fazendeiro. A grande maioria dos trabalhadores e das trabalhadoras vivia na mis\u00e9ria, sem escolas, hospitais, saneamento b\u00e1sico, professores para seus filhos e com aus\u00eancia completa de direitos trabalhistas. A mortalidade infantil era alt\u00edssima e as doen\u00e7as atacavam a maioria das fam\u00edlias. Enfermidades como mal\u00e1ria, var\u00edola, febre amarela e tuberculose atingiam popula\u00e7\u00f5es inteiras do campo. A mis\u00e9ria e a fome eram uma realidade cotidiana para milh\u00f5es de trabalhadores\/as do campo. Nas grandes metr\u00f3poles, um dos tra\u00e7os mais importantes foram as mudan\u00e7as ocorridas com a imigra\u00e7\u00e3o. \u201cCerca de 3,8 milh\u00f5es de estrangeiros entraram no Brasil entre 1887 e 1930\u201d[10]. Mesmo com os trabalhadores europeus, as condi\u00e7\u00f5es de trabalho n\u00e3o eram das melhores e ocorreram muitos conflitos com os donos do caf\u00e9, acostumados a lidar com a m\u00e3o de obra escrava. No entanto, ao longo das d\u00e9cadas seguintes, muitos imigrantes alcan\u00e7aram boas posi\u00e7\u00f5es na sociedade brasileira, e alguns deles se tornaram grandes industriais, mas os\/as trabalhadores\/as negros\/as continuaram na mis\u00e9ria, sem terra e sem perspectivas.<\/p>\n<p>Aspectos pol\u00edticos. O sistema pol\u00edtico da Rep\u00fablica Velha na d\u00e9cada de 20 era estruturado atrav\u00e9s da chamada pol\u00edtica dos governadores, que reconhecia a autonomia dos governos regionais, mas em contrapartida todos deveriam agir em coes\u00e3o com o poder central. E o poder central era exercido, alternadamente, por representantes dos Estados de S\u00e3o Paulo e de Minas Gerais, esquema que ficou conhecido como pol\u00edtica do caf\u00e9 com leite. Em termos pr\u00e1ticos, essa pol\u00edtica dava poder aos chamados \u201ccoron\u00e9is\u201d, que mandavam e desmandavam nas suas regi\u00f5es, consolidando o poder das oligarquias. Esses \u201ccoron\u00e9is\u201d tinham os chamados \u201ccurrais eleitorais\u201d em seus dom\u00ednios, onde os votantes eram mantidos sob vigil\u00e2ncia at\u00e9 atender a vontade do coronel, mecanismo que era conhecido como \u201cvoto de cabresto\u201d. Nas cidades, as fraudes eram frequentes, tanto no alistamento dos eleitores quanto no reconhecimento dos eleitos. E como \u00faltima inst\u00e2ncia, existia ainda uma \u201cComiss\u00e3o de Verifica\u00e7\u00e3o\u201d, que podia anular a elei\u00e7\u00e3o de um parlamentar[11]. A popula\u00e7\u00e3o em geral encarava as elei\u00e7\u00f5es como um jogo das classes dominantes e pouco se interessava pela vota\u00e7\u00e3o. \u201cA percentagem de votantes oscilou entre um m\u00ednimo de 1,4% da popula\u00e7\u00e3o total do pa\u00eds (elei\u00e7\u00e3o de Afonso Pena em 1906) e um m\u00e1ximo de 5,6% (elei\u00e7\u00e3o de J\u00falio Prestes em 1930)\u201d[12]. Em outras palavras, o sistema olig\u00e1rquico da d\u00e9cada de 20 era uma estrutura organizada desde os coron\u00e9is do interior at\u00e9 os mais altos cargos da Rep\u00fablica para manter o poder das oligarquias agr\u00e1rio-exportadoras.<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia dos tenentes<\/p>\n<p>Enquanto a oligarquia se aferrava ao poder, uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos come\u00e7avam a modificar o cotidiano das grandes cidades, especialmente seus polos mais din\u00e2micos, como S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, impulsionados pela urbaniza\u00e7\u00e3o, aumento dos neg\u00f3cios e da burocracia, novas formas de lazer e novos estilos de sociabilidade. As ind\u00fastrias cresciam em S\u00e3o Paulo, enquanto os servi\u00e7os aumentavam no Rio de Janeiro. Surgiam novos bairros, servi\u00e7os por bondes e luz el\u00e9trica. Os cinemas se espalhavam por v\u00e1rias regi\u00f5es e se tornavam espa\u00e7os de conviv\u00eancia social, assim como bares e caf\u00e9s. Apareceram tamb\u00e9m as revistas difundindo pol\u00edtica, moda, humor e cultura. E o r\u00e1dio come\u00e7ava a se tornar um aparelho comum nas resid\u00eancias e seus programas possu\u00edam cada vez mais audi\u00eancia. O futebol se consolidava como esporte nacional e se expandia para os bairros populares. As mulheres conquistavam mais autonomia, usavam cabelos curtos, roupas mais leves e o operariado come\u00e7ava a se organizar em sindicatos.<\/p>\n<p>Essas novas rela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas estavam em contradi\u00e7\u00e3o com a velha ordem olig\u00e1rquica e isso podia se notar nos debates pol\u00edticos, nos movimentos culturais e no descontentamento de v\u00e1rios setores da popula\u00e7\u00e3o. Foi neste contexto que a jovem oficialidade do Ex\u00e9rcito come\u00e7ou a questionar a ordem olig\u00e1rquica e seus costumes pol\u00edticos e conspirar nos quart\u00e9is. Vale lembrar que, mesmo com v\u00e1rios setores descontentes, n\u00e3o existia nenhuma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou sindical capaz de transformar o descontentamento em for\u00e7a pol\u00edtica disposta a romper com a velha ordem. A pr\u00f3pria oligarquia dissidente, apesar de descontente, se adaptava em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s regras do jogo e da ordem estabelecida. Como \u00fanica for\u00e7a organizada em uma institui\u00e7\u00e3o, os tenentes se transformaram em vanguarda das for\u00e7as pol\u00edticas que queriam derrotar o poder da oligarquia, muito embora suas reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas se resumissem ao patriotismo, moralidade pol\u00edtica, voto secreto e elei\u00e7\u00f5es livres.<\/p>\n<p>Como ressalta Anita Prestes: \u201cOs tenentes substitu\u00edram os inexistentes partidos pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o aos governos olig\u00e1rquicos de Epit\u00e1cio Pessoa e Artur Bernardes &#8230; Na verdade, o clima revolucion\u00e1rio instalado no Brasil causou um forte impacto na juventude militar que, tanto por sua origem social quanto pelas suas condi\u00e7\u00f5es de vida, estava estreitamente ligada \u00e0s camadas m\u00e9dias urbanas, sofrendo influ\u00eancia do clima de radicaliza\u00e7\u00e3o de tais setores &#8230; Os tenentes reuniam uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas que permitiram sua transforma\u00e7\u00e3o na vanguarda pol\u00edtica da luta contra o dom\u00ednio olig\u00e1rquico &#8230; Al\u00e9m de disporem de armas, estavam organizados numa institui\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter nacional \u2013 as For\u00e7as Armadas \u2013 o que lhes propiciava o estabelecimento de contatos em todo o pa\u00eds, fator de grande import\u00e2ncia considerando-se a desarticula\u00e7\u00e3o dos demais setores populacionais\u201d[13].<\/p>\n<p>O primeiro levante dos tenentes contra o governo olig\u00e1rquico realizou-se no Rio de Janeiro, em 5 de julho de 1922, e ficou conhecido como \u201cOs 18 do Forte\u201d. Nessa rebeli\u00e3o, os jovens militares buscavam impedir a posse do presidente eleito num pleito que consideravam fraudulento. Os insurgentes planejavam uma rebeli\u00e3o de maior amplitude, envolvendo diversos quart\u00e9is no pa\u00eds, mas somente o Forte de Copacabana se rebelou. Cercado pelas for\u00e7as legalistas, a maioria dos militares que inicialmente aderiram ao levante recuaram, sobrando apenas 18 rebelados, incluindo dois civis, que decidiram enfrentar o governo at\u00e9 o fim. Sa\u00edram do quartel e caminharam pela praia de Copacabana, onde foram esmagados pelas for\u00e7as legalistas, sobrevivendo apenas dois dos 18 jovens oficiais rebeldes \u2013 Siqueira Campos e Eduardo Gomes. Mesmo derrotada, a revolta dos 18 do Forte tornou-se o movimento fundador do tenentismo e inspirou as insurrei\u00e7\u00f5es posteriores dos jovens oficiais.<\/p>\n<p>Em 5 de julho de 1924, novamente os tenentes se sublevaram, desta vez em S\u00e3o Paulo, liderados pelo general Isidoro Dias Lopes e pelo major da For\u00e7a P\u00fablica paulista Miguel Costa. A insurrei\u00e7\u00e3o denunciava o dom\u00ednio olig\u00e1rquico, a fraude eleitoral e buscava depor o presidente Artur Bernardes. A rebeli\u00e3o conquistou rapidamente as \u00e1reas centrais da cidade, ocupando bairros e montando trincheiras em v\u00e1rias regi\u00f5es. Nestas circunst\u00e2ncias, o governador do Estado fugiu. O governo federal respondeu com brutalidade, utilizando artilharia pesada e bombardeando v\u00e1rios bairros densamente povoados. Estima-se que entre 500 e 800 civis e militares foram mortos, al\u00e9m de milhares de feridos e desabrigados. Mesmo inicialmente bem sucedidos, os insurgentes n\u00e3o conseguiram resistir na capital e recuaram para o interior, iniciando uma marcha at\u00e9 o Paran\u00e1, sempre perseguidos pelas tropas legalistas, at\u00e9 se unirem \u00e0s for\u00e7as ga\u00fachas sublevadas, chefiadas pelo capit\u00e3o Lu\u00eds Carlos Prestes. Embora militarmente derrotados em S\u00e3o Paulo, o movimento evidenciou a crise da Rep\u00fablica Olig\u00e1rquica e, ao se unir \u00e0s for\u00e7as ga\u00fachas, realizou uma das maiores epopeias militares do Brasil e possivelmente do mundo.<\/p>\n<p>A coluna Prestes e a guerra de movimento<\/p>\n<p>A epopeia da Coluna Prestes teve in\u00edcio quando os jovens oficiais de Santo \u00c2ngelo se levantaram contra o dom\u00ednio olig\u00e1rquico, sob o comando do capit\u00e3o Lu\u00eds Carlos Prestes e do tenente Mario Portela. A estes insurgentes se juntaram as tropas dos Maragatos ga\u00fachos, ocasi\u00e3o em que decidiram, por raz\u00f5es estrat\u00e9gicas, entrincheirar-se em S\u00e3o Lu\u00eds Gonzaga. \u201cO levante foi cuidadosamente preparado. Prestes j\u00e1 amargara antes o fracasso do levante de 1922 &#8230; N\u00e3o queria incorrer nos mesmos erros e se cercou de precau\u00e7\u00f5es. Em setembro, procurou o comandante do batalh\u00e3o de Santo \u00c2ngelo, major Eduardo Siqueira Montes, e pediu demiss\u00e3o. Era uma forma de ficar livre para conspirar &#8230; O levante foi um sucesso: levantamos Santo \u00c2ngelo, S\u00e3o Borja e S\u00e3o Lu\u00eds. S\u00f3 n\u00e3o foi um sucesso maior porque muitos oficiais, na medida em que os problemas iam surgindo, resolveram fugir para a Argentina\u201d, dizia Prestes [14].<\/p>\n<p>Com grande mobilidade, ousadia e manobras t\u00e1ticas, os rebelados seguiram enfrentando as for\u00e7as federais at\u00e9 chegar a Santa Catarina. Movendo-se com dificuldades, com pouco alimentos e muitos seguindo a p\u00e9, os insurgentes alcan\u00e7aram o Oeste do Paran\u00e1, onde, em abril de 1925, se encontraram com os tenentes rebeldes de S\u00e3o Paulo, momento em que se confraternizaram e definiram seguir pelo interior do pa\u00eds, para manter acesa chama da revolu\u00e7\u00e3o e \u00e0 espera de novos levantes Brasil afora. A partir da\u00ed come\u00e7ava a lend\u00e1ria marcha daquilo que posteriormente passou-se a denominar Coluna Prestes e \u00e0 qual se incorporaram os tenentes paulistas comandados por Isidoro Dias Lopes e Miguel Costa. Eram apenas 1.500 combatentes, mas todos dispostos a lutar para derrubar o governo de Artur Bernardes[15].<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds dominado pelas oligarquias regionais, coron\u00e9is com ex\u00e9rcitos particulares e uma estrutura que afastava o povo das decis\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas, a Coluna emergiu para a popula\u00e7\u00e3o pobre como a possibilidade de se insurgir contra o atraso e o mandonismo das classes dominantes. A Coluna se distinguiu das experi\u00eancias militares at\u00e9 ent\u00e3o conhecidas porque combinou uma for\u00e7a motivada e extremamente disciplinada com uma t\u00e1tica militar de guerra de movimento, elaborada por Prestes, o que lhe possibilitou cruzar os sert\u00f5es, a caatinga, os p\u00e2ntanos, as florestas, os rios caudalosos, aparecer e desaparecer diante do inimigo como um fantasma, sem nunca ser derrotada. Enfrentou fome, doen\u00e7as, emboscadas e batalhas com for\u00e7as muito superiores em n\u00famero de homens e armamento. Mas a genialidade de seu comandante militar, Lu\u00eds Carlos Prestes, possibilitou que a Coluna se mantivesse viva e combatente. Isso s\u00f3 foi poss\u00edvel porque a Coluna mantinha tr\u00eas princ\u00edpios fundamentais da guerra de guerrilhas: mobilidade, apoio popular e convic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Enquanto as for\u00e7as federais se moviam lentamente, dentro da estrat\u00e9gia tradicional da l\u00f3gica militar, dependendo de estradas, ferrovias e equipamento pesado, a Coluna marchava nas mais dif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es por regi\u00f5es in\u00f3spitas, mas numa velocidade que surpreendia e desorientava seus perseguidores, criando um estilo de guerra irregular que posteriormente seria implementado por guerrilhas em todo o mundo. Mas a Coluna n\u00e3o poderia ter realizado essa epopeia se n\u00e3o tivesse apoio da popula\u00e7\u00e3o. Por onde passavam, os insurgentes davam exemplo de retid\u00e3o: os combatentes respeitavam as popula\u00e7\u00f5es, prometiam fim dos abusos dos coron\u00e9is, proibiam saques, viol\u00eancia contra os moradores, especialmente contra as mulheres, e pagavam pelo que consumiam. Essa conduta, mantida durante todo o percurso da marcha, estabeleceu uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a e solidariedade em torno da m\u00edstica da Coluna, apesar da propaganda que os coron\u00e9is faziam para apavorar a popula\u00e7\u00e3o, dizendo que os insurgentes eram assaltantes e que queriam matar a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi dessa forma que a Coluna Invicta percorreu cerca de 25 mil quil\u00f4metros por todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, o equivalente a mais da metade de uma volta \u00e0 terra. Enfrentou milhares e milhares de soldados das for\u00e7as federais escapando de cercos perigosos, desorientando os soldados inimigos e vencendo batalhas memor\u00e1veis. A estrat\u00e9gia de Prestes era criativa e engenhosa, t\u00edpica da guerra popular: nunca realizar combate frontal onde o inimigo tivesse maior vantagem em for\u00e7as e armas, n\u00e3o cair em armadilhas e n\u00e3o desperdi\u00e7ar vidas. N\u00e3o h\u00e1 paralelo, no Brasil e no mundo, de uma marcha militar t\u00e3o longa, t\u00e3o resistente, t\u00e3o popular e t\u00e3o politicamente transformadora, pois a Coluna deixou marcas profundas na hist\u00f3ria e na imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o, mesmo que at\u00e9 hoje as classes dominantes tentem colocar no esquecimento essa lend\u00e1ria fa\u00e7anha hist\u00f3rica. A Coluna foi tamb\u00e9m uma escola de forma\u00e7\u00e3o \u00e9tica, pol\u00edtica e militar, ao mesmo tempo em que realizou a den\u00fancia das estruturas olig\u00e1rquicas do Brasil dos poderosos. Por isso mesmo, seu comandante \u00e9 conhecido at\u00e9 hoje como o Cavaleiro da Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Politicamente, a Coluna tamb\u00e9m expressava as contradi\u00e7\u00f5es de sua \u00e9poca. O tenentismo, enquanto movimento geral, n\u00e3o era socialista e buscava reformas dentro da ordem, tanto que a grande maioria dos tenentes terminaram suas vidas como gestores da pr\u00f3pria ordem. No entanto, ao longo da marcha, Lu\u00eds Carlos Prestes amadureceu a compreens\u00e3o da realidade brasileira, a partir da pr\u00f3pria viv\u00eancia pelo interior do Brasil, e fez a op\u00e7\u00e3o definitiva pela revolu\u00e7\u00e3o socialista, ingressando no Partido Comunista Brasileiro, no qual foi seu secret\u00e1rio geral por mais de quatro d\u00e9cadas. Portanto, nestes 100 anos do in\u00edcio das lutas da Coluna Invicta, \u00e9 fundamental honrar o Cavaleiro da Esperan\u00e7a e todos os combatentes que lutaram sob seu comando, honrar o povo pobre do interior do Brasil que lhe deu apoio e reverenciar, acima de tudo, a mem\u00f3ria de todos aqueles que tombaram na luta contra a opress\u00e3o e contra o dom\u00ednio das classes dominantes brasileiras.<\/p>\n<p>Viva os 100 anos da Coluna Prestes!<\/p>\n<p>Edmilson Costa \u00e9 doutor em economia pela Unicamp, com p\u00f3s-doutorado no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da mesma institui\u00e7\u00e3o e Secret\u00e1rio Geral do PCB.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>1 &#8211; Sodr\u00e9, N. W. A Coluna Prestes, onde foi reproduzida a entrevista do Estad\u00e3o, 2 de julho de 1978. S\u00e3o Paulo: C\u00edrculo do Livro, s\/d.<\/p>\n<p>2 &#8211; Sodr\u00e9, N. W. op. cit.<\/p>\n<p>3 &#8211; Sodr\u00e9, N. W. op. cit.<\/p>\n<p>4 &#8211; Sodr\u00e9, op. cit.<\/p>\n<p>5 &#8211; Prestes, A. L. Uma epopeia brasileira \u2013 a Coluna Prestes. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2009.<\/p>\n<p>6 &#8211; Schwarcz. L. M; Starling, H. M. Brasil, uma radiografia. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2015.<\/p>\n<p>7 &#8211; Baer, W. A economia brasileira. S\u00e3o Paulo: Nobel, 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2009.<\/p>\n<p>8 &#8211; Fausto, B. Hist\u00f3ria Concisa do Brasil. S\u00e3o Paulo: Edusp, 2012.<\/p>\n<p>9 &#8211; Baer, W. Op. cit.<\/p>\n<p>10 &#8211; Fausto, B. op. cit.<\/p>\n<p>11 &#8211; Schwarcz e Starling, op. cit.<\/p>\n<p>12 &#8211; Fausto, op. cit.<\/p>\n<p>13 &#8211; Prestes, A. L. op. cit.<\/p>\n<p>14 &#8211; Moraes, D; Viana, F. Prestes, lutas e autocr\u00edticas. Petr\u00f3polis: Vozes, 1982<\/p>\n<p>15 &#8211; Prestes, A. L. op. cit.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33354\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20,383],"tags":[219],"class_list":["post-33354","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8FY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33354","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33354"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33354\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33371,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33354\/revisions\/33371"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33354"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33354"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33354"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}