{"id":33373,"date":"2025-11-26T11:20:15","date_gmt":"2025-11-26T14:20:15","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33373"},"modified":"2025-11-26T11:20:15","modified_gmt":"2025-11-26T14:20:15","slug":"astrojildo-interprete-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33373","title":{"rendered":"Astrojildo, int\u00e9rprete do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33374\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33373\/attachment\/1000098259\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/1000098259.png?fit=500%2C762&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"500,762\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"1000098259\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/1000098259.png?fit=500%2C762&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-33374\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/1000098259.png?resize=500%2C762&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"762\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/1000098259.png?w=500&amp;ssl=1 500w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/1000098259.png?resize=197%2C300&amp;ssl=1 197w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Imagem: Fundo Correio da Manh\u00e3 (Arquivo Nacional), via Wikimedia Commons.<\/p>\n<p>Por Leonardo Silva Andrada<\/p>\n<p>Blog da Boitempo<\/p>\n<p>Astrojildo Pereira saiu da prov\u00edncia para conhecer a metr\u00f3pole em uma \u00e9poca intensa. Nos primeiros anos do s\u00e9culo XX, o Rio de Janeiro que encantou o jovem passava por profundas transforma\u00e7\u00f5es a expressar sua corrida contra o preju\u00edzo de uma moderniza\u00e7\u00e3o tida como capenga. N\u00e3o fazia muito tempo, a ang\u00fastia com a supera\u00e7\u00e3o do atraso se materializara na Reforma Pereira Passos, visando emprestar fei\u00e7\u00e3o de progresso \u00e0 capital federal inspirada na reformula\u00e7\u00e3o urbana de Haussman, arquiteto da Paris da Belle \u00c9poque. Ambas, a seu modo, se livrando de inc\u00f4modos causados pela presen\u00e7a das massas, um problema da modernidade que o poder burgu\u00eas resolveu, n\u00e3o podendo contornar, neutralizando.<\/p>\n<p>A Cidade Luz construiu boulevards que tornaram virtualmente imposs\u00edvel a repeti\u00e7\u00e3o das barricadas de 1848 \u2014 o que levou Engels a refletir sobre as dificuldades de preservar as velhas t\u00e1ticas de luta urbana do proletariado diante das novas condi\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e espaciais no \u00faltimo pref\u00e1cio que escreveu, em 1895, para &#8220;As lutas de classes na Fran\u00e7a&#8221;. J\u00e1 a Cidade Maravilhosa buscou assumir ares de mundo desenvolvido \u00e0s custas de botar abaixo os corti\u00e7os em que se amontoavam, em condi\u00e7\u00f5es insalubres, a massa popular. Diante da maquiagem empreendida pela parceria entre governo federal e prefeitura da capital, mesmo o conservador Silvio Romero adotaria postura cr\u00edtica diante dessa no\u00e7\u00e3o espalhafatosa e in\u00f3cua de \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d, construindo avenidas em um pa\u00eds de miser\u00e1veis com resist\u00eancias do atraso reclamando trato mais urgente.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o das sobreviv\u00eancias de um passado sempre a se renovar, marca do pensamento social brasileiro em todas as gera\u00e7\u00f5es desde os contempor\u00e2neos de Machado de Assis (ou desde as telas de Debret e a Miss\u00e3o Francesa, sendo generoso com os conceitos) n\u00e3o poderia deixar de marcar sua presen\u00e7a em uma reflex\u00e3o que, para al\u00e9m de buscar objeto entre os autores que escreveram suas obras sob o impacto desse assombro, \u00e9 fruto de uma intelig\u00eancia que buscava a mais acertada linha pol\u00edtica para a supera\u00e7\u00e3o desse estado de coisas.<\/p>\n<p>Ainda jovem, antes de assumir seu of\u00edcio de escritor, abra\u00e7ou posi\u00e7\u00e3o que soava mais radical \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de classe em que viva em seu meio familiar; foi um ardoroso civilista em campanha por Rui Barbosa. Desiludido com mais um recuo prussiano do capitalismo hipertardio brasileiro, encontra guarida naquele que foi o grande polo organizador da luta oper\u00e1ria da virada do XIX para o XX no Brasil. Astrojildo Pereira se torna refer\u00eancia do movimento oper\u00e1rio como resultado de sua milit\u00e2ncia anarquista, contribuindo com a forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, atrav\u00e9s da imprensa classista, e no avan\u00e7o da luta, com quest\u00f5es organizativas.<\/p>\n<p>Tem in\u00edcio sua dupla ocupa\u00e7\u00e3o como escritor e como combatente da luta popular. Sob a arrebatadora influ\u00eancia da vit\u00f3ria bolchevique na R\u00fassia, come\u00e7a, no in\u00edcio dos anos 1920, o esfor\u00e7o por fundar, no Brasil, um partido revolucion\u00e1rio que cumprisse o papel de vanguarda da classe, como escreveu, agiu e venceu Vlad\u00edmir Ilich L\u00eanin.<\/p>\n<p>Como nos conta Martin Cezar Feij\u00f3 em sua tese biogr\u00e1fica sobre &#8220;O revolucion\u00e1rio cordial&#8221;, um rapazola ainda na menoridade tomou a barca na esta\u00e7\u00e3o da Cantareira para chegar ao Cosme Velho e fazer uma \u00faltima visita ao mais destacado escritor brasileiro, o cronista da cidade como microcosmo da na\u00e7\u00e3o. Nas palavras de Euclides da Cunha, em suas horas finais o mestre recebeu a an\u00f4nima visita de um mo\u00e7o que, sem se anunciar, desejava apenas render homenagens. A identidade do admirador permaneceria longos anos inc\u00f3gnita, se tratava de Astrojildo dando seu adeus ao mesmo tempo em que come\u00e7ava a descobrir uma capital federal que sintetizava, para ele de forma encantadora, as virtudes e entraves da nacionalidade, a faina da moderniza\u00e7\u00e3o tropical que sempre renovava sua tradi\u00e7\u00e3o colonial.<\/p>\n<p>Credita-se a Octavio Brand\u00e3o o primeiro esfor\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o nacional sobre bases marxista, com seu &#8220;Agrarismo e industrialismo&#8221;, escrito em 1924 e publicado em 1926. E a Caio Prado Jr., o primeiro entre os grandes ensaios hist\u00f3ricos dos anos 1930 com essa mesma orienta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Pouca aten\u00e7\u00e3o se d\u00e1, por\u00e9m, \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o oferecida por Astrojildo na constru\u00e7\u00e3o dessas an\u00e1lises da forma\u00e7\u00e3o social brasileira referenciadas no materialismo hist\u00f3rico, que t\u00eam in\u00edcio cronologicamente entre esses dois referidos trabalhos. Como, por exemplo, um ensaio dedicado a criticar um dos grandes nomes do pensamento social brasileiro de ent\u00e3o, publicado em 1929, apresentando uma bem estruturada cr\u00edtica a Oliveira Vianna.<\/p>\n<p>O fio condutor da an\u00e1lise \u00e9 a defesa de um ponto caro a qualquer marxista, pois se trata de tese tratada no Manifesto como motor da hist\u00f3ria. Diz o Saquarema em &#8220;Popula\u00e7\u00f5es meridionais do Brasil&#8221; que em nossa p\u00e1tria n\u00e3o existiria a luta de classes, sendo mais uma das ideias importadas por intelectuais apartados da realidade nacional. O ent\u00e3o Secret\u00e1rio Geral do PCB discorda frontalmente, tratando a pretensa obra sociol\u00f3gica conservadora como ideologia a servi\u00e7o da lavoura. O texto foi inclu\u00eddo na colet\u00e2nea Interpreta\u00e7\u00f5es, publicada pela Boitempo. Lidando com aspectos abertamente pol\u00edticos, ou desvelando a pol\u00edtica em an\u00e1lises liter\u00e1rias, o volume agrupa ensaios produzidos no intervalo em que esteve afastado de atividades partid\u00e1rias por raz\u00f5es alheias \u00e0 sua vontade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>O per\u00edodo de afastamento, em suas causas e consequ\u00eancias, faz lembrar a sorte de Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs. Ambos sofreram profundo impacto com a vit\u00f3ria bolchevique, o h\u00fangaro aderindo a um partido leninista j\u00e1 formado, o fluminense arregimentando adeptos para fundar a se\u00e7\u00e3o brasileira da Internacional Comunista; assumiram posi\u00e7\u00e3o de destaque e, com mudan\u00e7as conjunturais, tornaram-se alvo de combate interno em seus partidos, sob acusa\u00e7\u00f5es de desvios pequeno-burgueses a partir do impulso que a pol\u00edtica de proletariza\u00e7\u00e3o do final dos anos 1920 proporcionou.<\/p>\n<p>Equ\u00edvocos de orienta\u00e7\u00e3o que apartaram da vida partid\u00e1ria mentes complexas, capazes de an\u00e1lises da conjuntura e da estrutura que seriam de grande valia para a formula\u00e7\u00e3o de linhas pol\u00edticas mais ajustadas \u00e0s necessidades do avan\u00e7o da luta. Nos dois casos, os te\u00f3ricos comunistas mobilizaram sua capacidade de reflex\u00e3o e disciplina para a produ\u00e7\u00e3o de textos que testemunham seu amadurecimento intelectual, enquanto mantinham um respeitoso sil\u00eancio sobre a injusti\u00e7a pol\u00edtica de que eram v\u00edtimas, retornando \u00e0s fileiras da milit\u00e2ncia partid\u00e1ria quando foi poss\u00edvel.<\/p>\n<p>No per\u00edodo de afastamento for\u00e7ado, Luk\u00e1cs direcionou sua pot\u00eancia anal\u00edtica para uma s\u00f3lida obra de cr\u00edtica \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o capitalista e sua express\u00e3o art\u00edstica atrav\u00e9s de an\u00e1lises liter\u00e1rias, fundamentos do que mais tarde vai constituir sua densa an\u00e1lise da Est\u00e9tica (1). Tamb\u00e9m Astrojildo intensificou seu trabalho de cr\u00edtico, principalmente direcionado a seu grande inspirador, Machado de Assis, mas n\u00e3o somente, alcan\u00e7ando o reconhecimento entre os pares. Werneck Sodr\u00e9, a quem dedicou uma de suas colet\u00e2neas de ensaios Cr\u00edtica impura, chegou a trat\u00e1-lo como \u201cum dos mais brilhantes cr\u00edticos liter\u00e1rios\u201d de que disp\u00fanhamos.<\/p>\n<p>O primeiro livro de sua lavra, &#8220;URSS It\u00e1lia Brasil&#8221;, re\u00fane trabalhos elaborados entre 1929 e 1934, oferecendo uma vis\u00e3o de conjunto da disputa que tomaria o mundo como campo de batalha, reservando espa\u00e7o para refletir onde se encontrava o Brasil na contenda. A URSS apontava para o futuro, construindo o novo mundo, como chamaria Caio Prado Jr. (2), em acordo com a dire\u00e7\u00e3o que a classe trabalhadora imprimia \u00e0 supera\u00e7\u00e3o de um capitalismo retardat\u00e1rio. No extremo oposto caminhava a It\u00e1lia reacion\u00e1ria, o regime fascista se empenhando em fazer a roda da hist\u00f3ria girar ao contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Se aproveitarmos as considera\u00e7\u00f5es de L\u00eanin e Gramsci, s\u00e3o dois casos singulares de objetiva\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do capitalismo em sua particularidade tardia. O partido de Lenin encontrou o caminho t\u00e1tico ajustado \u00e0 hist\u00f3ria e \u00e0 conjuntura do final da guerra para submeter a moderniza\u00e7\u00e3o russa ao controle oper\u00e1rio; o de Gramsci, em contrapartida, teve em sua derrota a primeira tarefa cumprida pelas hostes do fascio na pavimenta\u00e7\u00e3o de sua Marcha sobre Roma. Para ambos, as an\u00e1lises buscam cobrir aspectos relevantes \u00e0 compreens\u00e3o do sentido de cada regime (para fazermos mais uma refer\u00eancia a Caio Prado Jr.), em que se estruturam e como operam, para esclarecer o fundamental a uma an\u00e1lise marxista: identificar quem se beneficia da opera\u00e7\u00e3o dos respectivos sistemas. E o Brasil?<\/p>\n<p>Os dois ensaios que comp\u00f5em a se\u00e7\u00e3o dedicada ao nosso lugar na infausta conjuntura foram redigidos, respectivamente, em 1931 e 1934; de menos de seis meses ap\u00f3s o levante da Alian\u00e7a Liberal, ao per\u00edodo de trabalhos da Constituinte, pouco antes da promulga\u00e7\u00e3o da Carta, com um levante paulista no meio do caminho. No primeiro deles, \u00e9 dissecado o Manifesto da Contrarrevolu\u00e7\u00e3o, identificando a confus\u00e3o ideol\u00f3gica que grassava entre intelectuais pequeno-burgueses: condenavam o \u201clirismo messi\u00e2nico\u201d, ao mesmo tempo em que eram incapazes de vislumbrar a verdadeira realidade nacional. Esta se configurava pelo latif\u00fandio e a condi\u00e7\u00e3o neocolonial, posto que em 1822 apenas substituiu-se o decadente modelo portugu\u00eas pelo ascendente esquema ingl\u00eas, e \u00e0quela altura do desenvolvimento econ\u00f4mico, j\u00e1 se abalando com a penetra\u00e7\u00e3o yankee. \u00c9 essa percep\u00e7\u00e3o m\u00edope que falseia o pretenso radicalismo de uma brasilidade incapaz de identificar o peso do imperialismo sobre a economia p\u00e1tria.<\/p>\n<p>O adequado entendimento da din\u00e2mica imperialista deveria constituir chave para a percep\u00e7\u00e3o de que o verdadeiro problema nacional brasileiro \u00e9 parte de uma cadeia global, ainda que cada elo cobre uma forma particular de enfrentamento. No sistema imperialista o Brasil deveria ser tratado como parceiro de afli\u00e7\u00f5es de todo pa\u00eds agr\u00e1rio e, portanto, colonial. As solu\u00e7\u00f5es brasileiras para problemas brasileiros, reverberando uma constela\u00e7\u00e3o de autores desde o \u00faltimo quartel do XIX, t\u00eam no Manifesto uma formula\u00e7\u00e3o conservadora, que preserva o latif\u00fandio e se cala sobre o imperialismo. Um programa que mant\u00e9m os mecanismos coloniais de renova\u00e7\u00e3o do atraso, requentando a pauta anti-industrialista da voca\u00e7\u00e3o agr\u00edcola da Terra de Santa Cruz.<\/p>\n<p>A localiza\u00e7\u00e3o dos males na importa\u00e7\u00e3o de modelos alheios \u00e0 nossa hist\u00f3ria oblitera a assimila\u00e7\u00e3o do conte\u00fado de classe do Estado, muito mais significativo para sua compreens\u00e3o plena do que as formas em que conjunturalmente se organiza. Enfim, um am\u00e1lgama de nacionalismo que n\u00e3o distingue o imperialismo, a preserva\u00e7\u00e3o da propriedade e a representa\u00e7\u00e3o corporativa; como Astrojildo n\u00e3o negocia com tergiversa\u00e7\u00f5es, essa n\u00e3o \u00e9 para ele, em absoluto, uma inova\u00e7\u00e3o nativa \u2014 trata-se t\u00e3o somente de uma vers\u00e3o mal disfar\u00e7ada de fascismo.<\/p>\n<p>Chega a conclus\u00f5es parecidas sobre o car\u00e1ter do regime instaurado em 1930, institucionalizado constitucionalmente em 1934, no segundo ensaio da se\u00e7\u00e3o dedicada ao Brasil. Uma imita\u00e7\u00e3ozinha camuflada do fascismo italiano. Regime de terror e demagogia, como classifica; seria exagerado entender essa composi\u00e7\u00e3o como sua vers\u00e3o do par coer\u00e7\u00e3o e consenso, constante das an\u00e1lises do comunista sardo sobre a constru\u00e7\u00e3o da hegemonia? Considerando outras aproxima\u00e7\u00f5es destacadas adiante, fica suspensa a rigidez anal\u00edtico-conceitual, em favor da homenagem.<\/p>\n<p>Com a permanente vig\u00edlia diante das manobras imperialistas, Astrojildo Pereira entende outubro de 1930 como manobra estadunidense para desalojar os brit\u00e2nicos e assumir o controle da economia brasileira e a Constitui\u00e7\u00e3o que estava, \u00e0quela altura, em vias de promulga\u00e7\u00e3o, \u00e9 tratada como solu\u00e7\u00e3o de compromisso entre as fra\u00e7\u00f5es dominantes. Sem o aprofundamento conceitual que o debate proporcionaria apenas tr\u00eas d\u00e9cadas mais tarde, ele antecipa os embates discursivos sobre a adequa\u00e7\u00e3o do uso de categorias como bonapartismo e populismo para uma leitura acurada da objetiva\u00e7\u00e3o do capitalismo nas condi\u00e7\u00f5es nativas.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1930, como na de 1960, tratava-se de buscar, no referencial marxista, elementos para a compreens\u00e3o do golpe de Estado e a instaura\u00e7\u00e3o de autocracia como recursos para a estabiliza\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o burguesa, diante das limita\u00e7\u00f5es impostas pela heran\u00e7a colonial e a situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia imperializada. O al\u00e7amento que desloca o oligarca paulista em favor do estancieiro ga\u00facho \u00e9 tomado, portanto, como golpe reacion\u00e1rio pr\u00f3-fascista, incapaz de realizar o elemento democr\u00e1tico da moderniza\u00e7\u00e3o precisamente por ter permanecido sob controle burgu\u00eas, o que na situa\u00e7\u00e3o de crise s\u00f3 poderia ser cumprido pelo proletariado. Independentemente dos ajustes que mere\u00e7a a caracteriza\u00e7\u00e3o de 1930 como golpe reacion\u00e1rio, est\u00e3o presentes aqui elementos da reflex\u00e3o sobre o capitalismo tardio e o ator pol\u00edtico incumbido de levar a cabo as tarefas hist\u00f3ricas da revolu\u00e7\u00e3o burguesa, posto que em tal quadro, a pr\u00f3pria burguesia n\u00e3o pode nem quer faz\u00ea-lo. O compromisso que as fra\u00e7\u00f5es dominantes estabelecem entre si n\u00e3o elimina os antagonismos, que politicamente ficam suspensos em favor da tr\u00e9gua diante da amea\u00e7a comum oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Outubro de 1930 \u00e9, portanto, interpretado por ele em termos que, quatro d\u00e9cadas mais tarde, estar\u00e3o no centro do pensamento social brasileiro sobre a moderniza\u00e7\u00e3o conservadora, recebendo trato conceitual mais afeito ao debate acad\u00eamico \u2014 \u201cvia prussiana\u201d, \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d, \u201cbonapartismo\u201d, \u201cdepend\u00eancia\u201d. Pontuar essas similitudes n\u00e3o visa tanto conferir-lhe uma medalha de pioneiro, expediente bizantino de escassa contribui\u00e7\u00e3o para o avan\u00e7o da discuss\u00e3o, mas para dar relevo \u00e0 sofistica\u00e7\u00e3o de um int\u00e9rprete do processo de conforma\u00e7\u00e3o do capitalismo brasileiro que n\u00e3o costuma receber o justo destaque. At\u00e9 mesmo porque se trata de um autor que confere espa\u00e7o, em suas cr\u00edticas, ao elemento que via de regra \u00e9 exclu\u00eddo da historiografia. Ao incluir o tratamento das greves que sucederam a deposi\u00e7\u00e3o de Washington Lu\u00eds e o impedimento da posse de J\u00falio Prestes, o militante comunista d\u00e1 relevo \u00e0 rea\u00e7\u00e3o das classes populares, via de regra jogadas na conta de espectadores bestializados, alheios aos eventos nacionais.<\/p>\n<p>Para sustentar seu ponto de Machado de Assis como leg\u00edtimo int\u00e9rprete do Brasil, Astrojildo se apresenta, ele pr\u00f3prio, um \u201cleitor\u201d da nossa nacionalidade, da nossa forma\u00e7\u00e3o, dos nossos tra\u00e7os. Nesse conjunto de escritos tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel identificar temas e an\u00e1lises que, mais tarde, ter\u00e3o centralidade nos esfor\u00e7os de compreens\u00e3o das especificidades do capitalismo brasileiro. J\u00e1 na nota introdut\u00f3ria a &#8220;Machado de Assis&#8221;, de Astrojildo Pereira, Jos\u00e9 Paulo Netto constata uma reflex\u00e3o que se aproxima de debate caro ao marxismo brasileiro, sem que o autor tenha recorrido ao arcabou\u00e7o conceitual correspondente; trata-se do tema do nacional-popular, central na aprecia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e na pol\u00edtica cultural dos comunistas nos anos 1950 e 1960.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o de um Machado nacional-popular n\u00e3o resulta da leitura de Gramsci, ainda inacess\u00edvel ao tempo em que os ensaios foram escritos, mas da reelabora\u00e7\u00e3o de um ju\u00edzo que o pr\u00f3prio Bruxo do Cosme Velho teria produzido sobre Jos\u00e9 de Alencar, como \u00e9 poss\u00edvel averiguar em nota de p\u00e9 de p\u00e1gina ao texto \u201cMachado de Assis, romancista do Segundo Reinado\u201d. Uma outra aproxima\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, nesse mesmo texto, \u00e9 com o h\u00fangaro com quem compartilha dissabores de trajet\u00f3ria militante. Enxergando um Machado de Assis que investe contra o patriarcalismo do imp\u00e9rio por suas origens de classe, se avizinha dos crit\u00e9rios do realismo cr\u00edtico de Luk\u00e1cs, dando passagem ao movimento progressista da hist\u00f3ria. Uma intui\u00e7\u00e3o que identifica em um dos grandes nomes da literatura p\u00e1tria, um cr\u00edtico desse aspecto da sociabilidade brasileira atrelado ao passado, aos restos coloniais, \u00e0 heran\u00e7a que devemos renunciar, atrav\u00e9s de personagens que s\u00e3o unidades dial\u00e9ticas contradit\u00f3rias, como que vetores de rela\u00e7\u00f5es sociais t\u00edpicas \u2014 e cujo prop\u00f3sito da a\u00e7\u00e3o \u00e9 de den\u00fancia de rela\u00e7\u00f5es alienadas, apontando para a sua supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o intuito de reconstruir o contexto que nos deu a Gera\u00e7\u00e3o de 1870, sendo Machado de Assis o mais proeminente de seus representantes, Astrojildo Pereira articula todo o processo que inicia com a Lei Eusebio de Queiroz, proibindo o tr\u00e1fico escravista em 1850, e prossegue pelas pr\u00f3ximas duas d\u00e9cadas com seu efeito dinamizador da economia. A libera\u00e7\u00e3o de capitais que ficavam empatados no com\u00e9rcio de pessoas impulsionou a distribui\u00e7\u00e3o de recursos por \u00e1reas diversificadas da atividade econ\u00f4mica, dando tra\u00e7\u00e3o ao andamento molecular da moderniza\u00e7\u00e3o brasileira. Din\u00e2mica temporariamente sustada pela Guerra do Paraguai, que desvia a torrente de recursos para o esfor\u00e7o b\u00e9lico, mas de cujo desenlace germina um impulso mais acelerado.<\/p>\n<p>Astrojildo demonstra um conhecimento abrangente da pletora de autores que, nesse per\u00edodo decisivo, refletiam em distintas \u00e1reas do pensamento a crise do Imp\u00e9rio que desaguaria na dupla revolu\u00e7\u00e3o de 1888-1889. Em uma esp\u00e9cie de vers\u00e3o nacional do processo de transmuta\u00e7\u00e3o da classe em si que se torna classe para si, aborda os processos infraestruturais que criaram a base material, ao mesmo tempo em que fomentaram dialeticamente a pr\u00f3pria crise de um regime que n\u00e3o dispunha de mecanismos institucionais para continuar timoneando uma moderniza\u00e7\u00e3o que avan\u00e7ava titubeante. Uma metamorfose entendida como a transi\u00e7\u00e3o do instinto de nacionalidade (termo utilizado por Machado de Assis para dar t\u00edtulo a um de seus ensaios) para a consci\u00eancia da nacionalidade, o que teve um impacto decisivo nos caminhos que o pensamento social brasileiro percorreu dali em diante. \u00c9 a partir dessa consci\u00eancia de nacionalidade que dois tra\u00e7os marcantes da reflex\u00e3o sobre o que s\u00e3o o Brasil e seu povo ganham proemin\u00eancia: as preocupa\u00e7\u00f5es com a identidade nacional e a identifica\u00e7\u00e3o das causas do atraso e suas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Outro desdobramento te\u00f3rico dessa nova mentalidade se refere a uma cobran\u00e7a recorrente desde essa conjuntura at\u00e9, pelo menos, os anos 1930: a den\u00fancia de nossa aliena\u00e7\u00e3o politica e cultural, a insist\u00eancia em for\u00e7ar a adequa\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira a modelos incapazes de lidar com seus problemas, posto que incompat\u00edveis com sua hist\u00f3ria. Seguiram por essa via Silvio Romero e, com grande intensidade, Oliveira Vianna, exasperado com a insist\u00eancia em um liberalismo pensado para resolver quest\u00f5es inglesas, constitucionalmente servindo apenas para tolher instrumentos pol\u00edticos e administrativos do poder central. Sobre esse \u00faltimo aspecto, Astrojildo ainda pontua o pioneirismo de seu autor favorito, mostrando como Machado de Assis inicia sua atua\u00e7\u00e3o como cr\u00edtico de teatro deplorando a importa\u00e7\u00e3o de modelos europeus de dramaturgia.<\/p>\n<p>Para que essa antecipa\u00e7\u00e3o se generalizasse como uma demanda pol\u00edtica, seria preciso que se configurasse, em primeiro lugar, a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de nacionalidade. Astrojildo entende, seguindo crit\u00e9rios referenciados no debate marxista sobre nacionalidades, que isso s\u00f3 ocorreria na d\u00e9cada de 1870; e ainda assim, enfrentando obst\u00e1culos de grande porte. A obstruir a passagem do pa\u00eds para a constru\u00e7\u00e3o de sua nacionalidade, em condi\u00e7\u00f5es emancipadas, um par de empecilhos ilustrativos da conjuga\u00e7\u00e3o que caracteriza nossa via prussiana colonial: o atraso da escravid\u00e3o e o modern\u00edssimo imperialismo.<\/p>\n<p>Astrojildo Pereira foi, intelectualmente, um int\u00e9rprete do Brasil. A partir da leitura e an\u00e1lise cuidadosa da literatura nacional, tendo Machado de Assis ao centro \u2014 mas acompanhado de uma constela\u00e7\u00e3o de outros \u2014, o cr\u00edtico encontrou o caminho para dar trato te\u00f3rico \u00e0s quest\u00f5es fundamentais de nossa forma\u00e7\u00e3o social, dos aspectos t\u00edpicos de um capitalismo resultante do processo colonial, do papel do imperialismo, do lugar das massas populares na luta de classes que caracteriza nossa trajet\u00f3ria hist\u00f3rica. Na condi\u00e7\u00e3o de militante do Partido Comunista Brasileiro, que ajudou a construir, atento \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o marxista fundamental de que n\u00e3o basta interpretar o mundo, direcionou esfor\u00e7os para que as an\u00e1lises sobre o pa\u00eds informassem uma linha pol\u00edtica apropriada \u00e0 sua transforma\u00e7\u00e3o. Ainda que n\u00e3o tivesse dado sua valiosa contribui\u00e7\u00e3o para o pensamento social brasileiro atrav\u00e9s de an\u00e1lises hist\u00f3rico-pol\u00edticas e liter\u00e1rias, sua mem\u00f3ria j\u00e1 mereceria cultivo em raz\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o na funda\u00e7\u00e3o do mais do que centen\u00e1rio PCB, com o qual achou melhor errar junto do que acertar estando s\u00f3. Na efem\u00e9ride em que contamos seis d\u00e9cadas de sua despedida, \u00e9 tempo de reafirmar: \u201cCamarada Astrojildo, presente!\u201d<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>1) No prefacio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o brasileira Jose Paulo Netto faz uma pormenorizada an\u00e1lise da trajet\u00f3ria intelectual de Lukacs, justapondo a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e as vicissitudes de um intelectual denso submetido ao controle de dirigentes pouco refinados. Ver Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs, Est\u00e9tica: vol. 1:a peculiaridade do est\u00e9tico. Boitempo, 2023. \u21a9\ufe0e<\/p>\n<p>2) Na mais recente edi\u00e7\u00e3o, Luiz Bernardo Peric\u00e1s faz um abrangente apanhado de publica\u00e7\u00f5es baseadas nos relatos de viajantes que foram conhecer de perto o mundo que o pa\u00eds dos soviets estava construindo. Ver Caio Prado Jr. URSS, um novo mundo e O mundo do socialismo. Boitempo, 2023. \u21a9\ufe0e<\/p>\n<p>***<br \/>\nLeonardo Silva Andrada \u00e9 Professor Associado do Instituto de Ci\u00eancias Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora. \u00c9 militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33373\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10],"tags":[223],"class_list":["post-33373","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Gh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33373"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33373\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33375,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33373\/revisions\/33375"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}