{"id":33469,"date":"2025-12-24T13:43:00","date_gmt":"2025-12-24T16:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33469"},"modified":"2025-12-24T13:43:00","modified_gmt":"2025-12-24T16:43:00","slug":"a-dosimetria-da-correlacao-de-forcas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33469","title":{"rendered":"A dosimetria da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33470\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33469\/image-12-2\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-12.png?fit=770%2C513&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"770,513\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image-12\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-12.png?fit=747%2C498&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-33470\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-12.png?resize=747%2C498&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"498\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-12.png?w=770&amp;ssl=1 770w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-12.png?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-12.png?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>(para uma retrospectiva de 2025 e das \u00faltimas d\u00e9cadas)<\/p>\n<p>Por Leonardo Silva Andrada<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Qualquer pessoa que fa\u00e7a uma retrospectiva do ano ir\u00e1 considerar a ter\u00e7a-feira, 25 de novembro de 2025, um dia digno de registro. Nessa data foram conduzidos \u00e0 carceragem, para o cumprimento de suas penas por tentativa de golpe de Estado, um almirante, tr\u00eas generais e um capit\u00e3o da reserva do Ex\u00e9rcito. Um deles foi comandante da Marinha, outro comandante do Ex\u00e9rcito; os outros dois generais foram ministros de Estado e o capit\u00e3o da reserva, presidente da Rep\u00fablica. Em primeiro lugar, \u00e9 de se marcar o dia em que oficiais das For\u00e7as Armadas arcaram com as consequ\u00eancias de atos danosos \u00e0 vida p\u00fablica, inclu\u00eddas no pacote as reiteradas tentativas golpistas.<\/p>\n<p>Com o privil\u00e9gio que construiu em 1870 sobre as ru\u00ednas do Paraguai e sacramentou no golpe do Campo de Santana, o oficialato sempre fez e aconteceu, sem que experimentasse qualquer consequ\u00eancia justa. Os amotinados do 8 de janeiro se fiavam em um ancestral costume de se portar como Poder Moderador da Rep\u00fablica. A Rep\u00fablica, como se sabe, nasceu do golpe que um marechal executou da porta de sua casa, assumindo a presid\u00eancia que ocuparia por dois anos, ao cabo dos quais tentou novo golpe, mantendo o cargo por mais vinte dias. Ainda em novembro de 1891, o vice-presidente articula com oficiais da Marinha o levante que a historiografia denomina a Primeira Revolta da Armada, exigindo a ren\u00fancia de Deodoro da Fonseca. A Constitui\u00e7\u00e3o vigente estabelecia que, n\u00e3o tendo transcorrido dois anos de mandato, a falta do presidente exigiria novas elei\u00e7\u00f5es, mas Floriano Peixoto n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de abrir m\u00e3o do posto em raz\u00e3o de filigranas jur\u00eddicas. Assim, o primeiro vice golpista da nossa trajet\u00f3ria republicana articulou marechais, almirantes e oligarcas em favor de sua manuten\u00e7\u00e3o na fun\u00e7\u00e3o, e ainda enfrentaria uma Segunda Revolta da Armada antes de entregar o cargo a um civil. Cont\u00e1vamos o terceiro pronunciamento militar em quatro anos de Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Os dois mandatos seguintes transcorreram sem abalos que viessem da caserna mas, uma d\u00e9cada ap\u00f3s o \u00faltimo entrevero, parte da tropa considerou que estava em tempo de calar as baionetas. Aproveitando a insatisfa\u00e7\u00e3o que a hist\u00f3ria das lutas populares no Brasil registra como Revolta da Vacina, um convescote na Escola Militar da Praia Vermelha se al\u00e7a \u00e0 categoria de golpe de Estado, mas \u00e9 desbaratado poucos quarteir\u00f5es adiante em um enfrentamento com tropas do governo. No ano zero da Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana, o mesmo da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica em Portugal, tr\u00eas registros na consolida\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Brasileira: mais um cap\u00edtulo na hist\u00f3ria das lutas populares, com a Revolta da Chibata, a frustrada Campanha Civilista de Rui Barbosa e nova tentativa de golpe, resultando no bombardeio de Manaus e encerrando o ciclo de levantes militares da Primeira Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O regime de oligarcas chega a termo com outro golpe e, mesmo que capitaneado pelo estancieiro gaud\u00e9rio, n\u00e3o transcorreu em vestes estritamente paisanas. O mais eloquente testemunho da participa\u00e7\u00e3o da corpora\u00e7\u00e3o armada \u00e9 o comando do Executivo Federal nos primeiros dez dias ap\u00f3s a derrubada de Washington Lu\u00eds, uma Junta Militar. Passados o Governo Provis\u00f3rio, o Governo Constitucional e o Estado Novo, os oficiais irrequietos adotavam outras prefer\u00eancias, depois da experi\u00eancia da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira e a impress\u00e3o causada pelo vistoso ex\u00e9rcito estadunidense na It\u00e1lia. A orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que mais tarde presidiria a funda\u00e7\u00e3o da Escola Superior de Guerra, a formula\u00e7\u00e3o da doutrina de Seguran\u00e7a Nacional e seus desdobramentos na vida p\u00fablica brasileira j\u00e1 tinha escolhido lado na Guerra Fria, antes mesmo de seu in\u00edcio oficial. O Ministro da Guerra, figura de relevo nas articula\u00e7\u00f5es golpistas desse per\u00edodo em diante, encabe\u00e7a a interven\u00e7\u00e3o e dep\u00f5e o presidente que, quinze anos antes, os militares ajudaram a impor. Se as For\u00e7as Armadas remodelaram sua compreens\u00e3o de nacionalismo, de modo que ele acolhesse uma postura subserviente aos interesses yankees, tamb\u00e9m Vargas reelabora sua orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica quanto aos leg\u00edtimos interesses da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Com todas as contradi\u00e7\u00f5es e problemas de um governo que institucionalizou a moderniza\u00e7\u00e3o conservadora e avan\u00e7ou de forma autorit\u00e1ria o desenvolvimento capitalista internamente, ningu\u00e9m tira de Get\u00falio sua capacidade de leitura da conjuntura, e nem sua not\u00f3ria perspic\u00e1cia pol\u00edtica. Desde os tensos momentos finais da ditadura estadonovista, foi atento na identifica\u00e7\u00e3o da trilha para onde pendiam as fra\u00e7\u00f5es burguesas, e como isso significava a op\u00e7\u00e3o preferencial pela UDN e suas conex\u00f5es com o imperialismo. O Pai dos Pobres entendeu que s\u00f3 poderia encontrar apoio pol\u00edtico entre seus \u201cfilhos\u201d, aos quais se dirigia de forma direta, sem a interven\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica das institui\u00e7\u00f5es. Populista na forma, nacional-desenvolvimentista no conte\u00fado, a s\u00edntese do seu retorno \u00e0 presid\u00eancia, pelo voto, foi a funda\u00e7\u00e3o da Petrobras. A estatal do petr\u00f3leo, no que significava de mais profundo para o desenvolvimento de um capitalismo nativo, era tamb\u00e9m emblema de uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que germinava no ent\u00e3o Terceiro Mundo, cevada nos anos do p\u00f3s-guerra, com express\u00f5es mais \u00e0 esquerda ou mais \u00e0 direita, a depender das condi\u00e7\u00f5es da luta de classes em cada contexto. No ano seguinte, os franceses perdem a Indochina em Dien Bien Phu, e em dois anos, ocorreria a Confer\u00eancia de Bandung; em tr\u00eas, a nacionaliza\u00e7\u00e3o do Canal de Suez e, antes do fim da d\u00e9cada, os barbudos entram vitoriosos em La Habana. O processo de redefini\u00e7\u00e3o dos marcos de atua\u00e7\u00e3o do imperialismo, superando o neocolonialismo europeu atrav\u00e9s do controle financeiro via Wall Street, teve como contraparte dial\u00e9tica o surgimento de fissuras, a fermenta\u00e7\u00e3o de movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional e projetos de desenvolvimento aut\u00f3ctone que poderiam emperrar as engrenagens azeitadas em Bretton Woods. O continente sob os ausp\u00edcios da doutrina Monroe n\u00e3o deveria oferecer eventos para essa lista, e os EUA estavam dispostos a brandir seu big stick como garantia.<\/p>\n<p>Os primeiros acolhidos no zelo do Grande Irm\u00e3o para impedir que o fantasma comunista assombrasse a Am\u00e9rica Latina foram os guatemaltecos, tomando o pioneirismo dos brasileiros por meros dois meses. Agosto de 1954, Pal\u00e1cio do Catete cercado por tropas e artilharia, \u00e9 de se esperar que capachos reincidentes contestem a tentativa de golpe contra Vargas constando na longa lista de interven\u00e7\u00f5es da Casa Branca pelo mundo afora; mas, para Get\u00falio Vargas, as for\u00e7as que o obrigaram a sair da vida para entrar na hist\u00f3ria n\u00e3o eram verdadeiramente ocultas. O tiro que deu no pr\u00f3prio peito adia o golpe por um dec\u00eanio, per\u00edodo extremamente rico para a vida pol\u00edtica, econ\u00f4mica e cultural do pa\u00eds. Enquanto o pa\u00eds se urbanizava e acelerava a industrializa\u00e7\u00e3o lastreada na penetra\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de capital estrangeiro, a vida associativa ganhava tra\u00e7\u00e3o, projetos diversos se confrontavam medindo os erros e acertos t\u00e1ticos na estrat\u00e9gia da Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira, e a express\u00e3o est\u00e9tica dava testemunho de vitalidade com Bossa Nova, Cinema Novo, literatura regionalista e arquitetura modernista. Concomitantemente a coaliz\u00e3o reacion\u00e1ria fermentava o golpismo, e o adiamento n\u00e3o significou, em absoluto, o evanescimento da conspira\u00e7\u00e3o ou a aus\u00eancia de atividade. Se nenhum golpe se concretizou nesse intervalo, n\u00e3o foi por falta de tentativa.<\/p>\n<p>Antes mesmo da posse de JK, uma movimenta\u00e7\u00e3o de militares para impedir a sua efetiva\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi desbaratada pela interven\u00e7\u00e3o de um contragolpe comandado por fac\u00e7\u00e3o militar advers\u00e1ria. Durante seus cinquenta anos em cinco, Jacareacanga e Aragar\u00e7as d\u00e3o mostras do \u00edmpeto golpista n\u00e3o debelado, mas ainda sem for\u00e7a que bastasse. Na ren\u00fancia do moralista de ocasi\u00e3o, a tentativa de impedir a posse de Jo\u00e3o Goulart n\u00e3o angariou oficiais suficientes para o conchavo, e o ensaio de sedi\u00e7\u00e3o foi barrado pela rede da Legalidade comandada por Leonel Brizola. A din\u00e2mica do per\u00edodo Jango tratou de polarizar a divis\u00e3o de classes com a clareza que enunciar\u00e1, mais tarde, o senador Porf\u00edrio D\u00edaz no filme Terra em Transe, de Glauber Rocha. As organiza\u00e7\u00f5es para elabora\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, propaganda e articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ligadas ao imperialismo e \u00e0s fra\u00e7\u00f5es burguesas associadas foram eficientes na consolida\u00e7\u00e3o da linha golpista entre as For\u00e7as Armadas, empacotadas no anticomunismo histri\u00f4nico da guerra fria. A crise dos m\u00edsseis ainda v\u00edvida na mem\u00f3ria, era imperioso o cuidado com a defesa (eufemismo para controle) do hemisf\u00e9rio. Os documentos relativos \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o da embaixada estadunidense no Brasil, liberados depois de d\u00e9cadas, atestam: era de conhecimento dos encarregados que n\u00e3o havia uma amea\u00e7a comunista no horizonte brasileiro, mas era essa a propaganda eficiente para ativar o p\u00e2nico que levaria \u00e1gua para o moinho do golpe. A 13 de mar\u00e7o de 1964, uma multid\u00e3o se aglomerava a apenas uma avenida atravessada de onde Deodoro da Fonseca avisou sobre a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. No palco, Goulart anuncia as Reformas de Base, ades\u00e3o tardia ao p\u00f3lo popular de um governo que havia tentado se equilibrar, tropegamente, entre os interesses incompat\u00edveis do capital e do trabalho. N\u00e3o havia mais espa\u00e7o para concilia\u00e7\u00e3o e a op\u00e7\u00e3o pela classe trabalhadora n\u00e3o seria tolerada. A 1\u00ba de abril as tropas descidas de Juiz de Fora s\u00e3o bem sucedidas no golpe que passara dez anos em compasso de espera, dando in\u00edcio a uma ditadura burgo-militar que atravessaria mais de duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A disputa interna do bloco no poder n\u00e3o cessa com o assalto ao Estado \u2014 nem suas conclus\u00f5es, pela via do golpe. O Ato Institucional n\u00ba 2 elimina as prometidas elei\u00e7\u00f5es que deveriam acontecer em 1965; o AI-5 fecha o congresso, suspende o habeas corpus, cassa e ca\u00e7a brasileiros, institucionalizando a selvageria. A \u201ctemperatura sufocante, o ar irrespir\u00e1vel\u201d da previs\u00e3o do tempo anunciada pelo Jornal do Brasil em 14 de dezembro de 1968 tornam sup\u00e9rfluos os golpes at\u00e9 1974. A partir de ent\u00e3o, as desaven\u00e7as no condom\u00ednio reacion\u00e1rio abrem espa\u00e7o para avan\u00e7os da oposi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 retorquida com o Pacote de Abril. Momento de \u201cs\u00edstole\u201d, na caracteriza\u00e7\u00e3o cardiol\u00f3gica que Golbery do Couto e Silva d\u00e1 a seu projeto de Distens\u00e3o, operou interven\u00e7\u00e3o institucional em sintonia com a nova orienta\u00e7\u00e3o da \u201cdemocracia forte\u201d, regime convocado a substituir a ditadura que se desmontava por dentro. Comprova\u00e7\u00e3o decisiva da efic\u00e1cia dessa t\u00e1tica foi a derrota da emenda Dante de Oliveira, em um Congresso que fez ouvidos moucos ao estrondoso movimento das Diretas J\u00e1!. O palat\u00e1vel Tancredo Neves foi eleito indiretamente, mas como \u00e9 imprescind\u00edvel estar vivo para governar, assumiu seu vice. Jos\u00e9 Sarney foi empossado por decis\u00e3o militar (e coniv\u00eancia civil), uma vez que o morto n\u00e3o chegou a assumir a presid\u00eancia e um detalhe legal estabelecia a realiza\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es. Nos per\u00edodos Collor e Fernando Henrique Cardoso os atores que costumam coordenar putsches se sentiram contemplados o suficiente para hibernar o antigo costume. O problema reaparece com Dilma Rousseff, execrada entre os fardados pelo gesto louv\u00e1vel de criar uma Comiss\u00e3o Nacional da Verdade dedicada a publicizar a viol\u00eancia de Estado nos 21 anos de arb\u00edtrio. Uma permanente tens\u00e3o alimentada por cobran\u00e7as dissimuladas, comemora\u00e7\u00f5es nos clubes do pijama, e que finalmente perde o pudor com o veto ao habeas corpus de Lula, em amea\u00e7a nada velada ao Supremo Tribunal Federal atrav\u00e9s de rede social.<\/p>\n<p>Esse sum\u00e1rio de levantes castrenses registra uma longa tradi\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es que, frustradas ou consumadas, nunca foram devidamente cobradas. Tradi\u00e7\u00e3o duradoura a ponto de um capit\u00e3o rastaquera e indisciplinado contar com a certeza de gozar o mesmo benef\u00edcio. De forma in\u00e9dita, desta feita golpistas de muitas estrelas e seu pinscher aloprado foram condenados. Mesmo com todas as desaven\u00e7as e disputas internas \u2014 como as que levaram \u00e0 decis\u00e3o de desmontar a ditadura por dentro \u2014 a coaliz\u00e3o dominante nunca chegou ao ponto de submeter a fac\u00e7\u00e3o derrotada a ju\u00edzo. O diferencial desse grupo atual, em rela\u00e7\u00e3o a seus cong\u00eaneres do passado, \u00e9 que a extrema in\u00e9pcia ofusca a compreens\u00e3o de que os golpes n\u00e3o prov\u00eam de gestos de vontade militar. Se fossem dados ao estudo, poderiam conhecer melhor o te\u00f3rico que abominam no discurso, aproveitando a leitura de O 18 de brum\u00e1rio, leitura que tamb\u00e9m interessa aos que ainda sentem dificuldade em assimilar como tamanha bo\u00e7alidade p\u00f4de chegar ao comando da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um golpe de Estado e uma ditadura, no capitalismo, s\u00f3 se efetivam e se mant\u00eam enquanto garantem o interesse burgu\u00eas. S\u00e3o solu\u00e7\u00f5es de compromisso para contornar a crise de representa\u00e7\u00e3o e hegemonia no bloco no poder. Da perspectiva dos militares envolvidos na conspira\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso que estejam alinhados com o interesse de fra\u00e7\u00f5es burguesas hegem\u00f4nicas; o que j\u00e1 estava claro que n\u00e3o era o caso de Jair Bolsonaro, desde a primeira metade do mandato. Havia ind\u00edcios consistentes de que o golpe que ele e sua base esperneavam n\u00e3o passava de bravata. Os ve\u00edculos de m\u00eddia corporativa, porta-vozes do poder econ\u00f4mico, eram hostis a suas manifesta\u00e7\u00f5es. Para seu pesar, o indouto presidente foi incapaz de identificar a falta de apoio, como tamb\u00e9m n\u00e3o foi capaz de aprender muita coisa sobre a din\u00e2mica da pol\u00edtica em quase 40 anos de conv\u00edvio com os pares. Expediente est\u00e9ril esperar que ele e seu entorno leiam Maquiavel para entender a l\u00f3gica do poder, das alian\u00e7as, da escolha entre ser amado ou ser temido, de fazer o mal de uma vez; mas da mera aten\u00e7\u00e3o ao que acontecia a seu redor nessas quase quatro d\u00e9cadas, ele poderia ter apreendido que n\u00e3o se briga com todas as fontes de poder de uma s\u00f3 tacada. Bolsonaro, como os demais golpes frustrados da nossa hist\u00f3ria republicana, n\u00e3o tinha apoio decisivo dos grupos com capacidade de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Testemunhar militares conspiradores sofrendo consequ\u00eancias n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica raz\u00e3o para j\u00fabilo. Um segundo motivo de satisfa\u00e7\u00e3o com o tr\u00e2nsito em julgado, determinando o in\u00edcio do regime fechado dos personagens em quest\u00e3o \u00e9 um justo sentimento de desforra entre todos dentro do escopo de discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia vindos do campo que esses senhores representam, o ex-presidente como figura mais destacada. E n\u00e3o foram poucos os que estiveram na mira da trucul\u00eancia verbal e f\u00edsica que essas criaturas perpetraram ao longo dos anos. Mulheres, negros, LGBTs, esquerdistas, artistas, intelectuais, ind\u00edgenas, sem-terra, sem-teto, desempregados\u2026 n\u00e3o foram poucos os qualificados como indignos por destoarem da vis\u00e3o estreita de \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d e, portanto, merecedores de todo tipo de diatribe, persegui\u00e7\u00e3o e f\u00faria. Todos os que portassem algum tra\u00e7o divergente da estrita determina\u00e7\u00e3o que atende a perspectiva neofascista seriam poss\u00edveis endere\u00e7os de improp\u00e9rios, chacota, amea\u00e7a, cal\u00fania e brutalidade. Os pronunciamentos canhestros do ex-capit\u00e3o, ao longo de toda sua carreira pol\u00edtica, eram ao mesmo tempo identifica\u00e7\u00e3o de alvo e instru\u00e7\u00e3o para a\u00e7\u00e3o, coordenando o comportamento de cardume que o s\u00e9quito deveria adotar. Uma boa quantidade de pessoas eventualmente no radar dessa horda ficou apavorada com o resultado das elei\u00e7\u00f5es de 2018, em raz\u00e3o de um comportamento p\u00fablico desavergonhadamente preconceituoso e espalhafatosamente entusiasta da viol\u00eancia. Ningu\u00e9m sabia exatamente como se portariam governo e apoiadores, mas havia motiva\u00e7\u00e3o s\u00f3lida para temer o pior.<\/p>\n<p>Por fim, um grande contingente de festejadores daquela ter\u00e7a-feira extraordin\u00e1ria inclui amigos e familiares das v\u00edtimas da pandemia de covid-19 e sobreviventes que experimentaram a ang\u00fastia da contamina\u00e7\u00e3o em seus momentos mais cr\u00edticos. N\u00e3o h\u00e1 registro de outro l\u00edder nacional que tenha mobilizado sua base t\u00e3o intensamente para boicotar orienta\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias de prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que tentava manter a opera\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina p\u00fablica em sentido contr\u00e1rio ao das medidas preventivas. Como se n\u00e3o bastasse, tamb\u00e9m foi caso isolado de administrador boicotando a aquisi\u00e7\u00e3o de vacinas, enquanto o resto do mundo corria para adquiri-las, junto a uma campanha de desinforma\u00e7\u00e3o via comunica\u00e7\u00e3o oficial do governo, pronunciamentos e entrevistas, desacreditando cada imunizante desenvolvido enquanto propagandeava tratamentos sem qualquer fundamento cient\u00edfico. Um dirigente que, em um momento de como\u00e7\u00e3o global, quando as mortes di\u00e1rias se contabilizavam na casa dos milhares em seu pa\u00eds, foi capaz de debochar dos doentes, promovendo o misto de estupidez insuper\u00e1vel e insensibilidade patol\u00f3gica que comp\u00f5em sua personalidade desorientada.<\/p>\n<p>Os celerados afinal foram para o c\u00e1rcere. N\u00e3o pelas for\u00e7as que deveriam cobrar pelo deboche, o sarcasmo, a trucul\u00eancia e o preconceito violento; n\u00e3o por tudo que fizeram; mas ainda assim, pela primeira vez, figuras dessa extra\u00e7\u00e3o v\u00e3o sofrer alguma pena. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 hist\u00f3rico, posto que momentaneamente interfere na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Tira de cena uma lideran\u00e7a e alguns de seus mais destacados ajudantes na articula\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do neofascismo local. Como consequ\u00eancia imediata, deixa uma legi\u00e3o desorientada e cria uma cunha no campo da direita. O espet\u00e1culo t\u00e9trico da disputa interna \u00e9 encenado a c\u00e9u aberto, com declara\u00e7\u00f5es diuturnas dos filhos do ex-presidente alvejando candidatos a candidato, com vistas a preservar o capital pol\u00edtico amealhado nos \u00faltimos anos, arrimados por um bando de legisladores sem luz pr\u00f3pria que depende da bizarrice animada para garantir sua reelei\u00e7\u00e3o. Os pretendentes \u00e0 sucess\u00e3o, por sua vez, lapidam cautelosamente as cr\u00edticas \u00e0 atua\u00e7\u00e3o da prole do condenado, calculando o quanto podem avan\u00e7ar no butim eleitoral sem melindrar uma base que se comporta como seita. Na \u00faltima rodada da contenda, esposa e filhos do ex-duce entraram em rota de colis\u00e3o na antecipa\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia eleitoral. \u00c9 nesse contexto que se abre a oportunidade para interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do campo popular, transformando o dissenso escancarado em oportunidade para um intenso trabalho de base, que esclare\u00e7a o teor excludente, concentrador e violento da pol\u00edtica que esse setor executa.<\/p>\n<p>Para uma atua\u00e7\u00e3o consistente \u00e9 imprescind\u00edvel que n\u00e3o se perca de vista que as condena\u00e7\u00f5es est\u00e3o muito distantes de significar uma \u201ccomprova\u00e7\u00e3o da solidez de nossa jovem democracia\u201d, como tem sido festejado por pr\u00f3ceres do atual governo, lideran\u00e7as da esquerda institucional e comentadores da pol\u00edtica. O avan\u00e7o, na C\u00e2mara, do projeto de lei para redu\u00e7\u00e3o das penas impostas atesta a aus\u00eancia de uma escora popular politicamente forte. Se o tempo em c\u00e1rcere dos l\u00edderes do golpe frustrado \u00e9 moeda de troca para os interesses de camel\u00f4s legislativos, \u00e9 porque sua defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o resultou de mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as da luta de classes, mas do balan\u00e7o final entre acordos e desaven\u00e7as no interior das elites. O pessimismo da raz\u00e3o compele ao reconhecimento: n\u00e3o estamos diante de consequ\u00eancias do avan\u00e7o da luta popular; o principal coordenador desse processo foi um operador jur\u00eddico de fra\u00e7\u00f5es burguesas querendo se livrar de funcion\u00e1rios incompetentes e inc\u00f4modos e, entre outras coisas, serve para arrumar o campo pol\u00edtico da direita e liberar caminho para estafeta mais diligente e confi\u00e1vel. O que testemunhamos, ainda que hist\u00f3rico e digno de entusiasmo circunscrito, n\u00e3o \u00e9, de forma alguma, consolida\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u2014 a menos que aceitemos a vers\u00e3o liberal do significado de democracia, a mesma que se esfor\u00e7a, h\u00e1 mais de tr\u00eas s\u00e9culos, para expurgar o demos de qualquer exerc\u00edcio da cracia.<\/p>\n<p>Ter\u00e7a-feira, 25 de novembro, foi outro dia, mas eles ainda n\u00e3o est\u00e3o pagando com juros. \u00c1gua nova brotando para o campo popular, est\u00e1 dada a tarefa de saber aproveitar o evento para n\u00e3o permanecer eternamente sob o controle das for\u00e7as que sempre conduziram nossa moderniza\u00e7\u00e3o conservadora. A crise de hegemonia e de representatividade entres fra\u00e7\u00f5es dominantes pode resultar, como solu\u00e7\u00e3o para preserva\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es de mando, em alguma variedade de bonapartismo \u2014 inclu\u00eddas a\u00ed express\u00f5es adaptadas de fascismo. Mas esse n\u00e3o \u00e9 um desfecho prescrito, como se derivasse de algum automatismo hist\u00f3rico. Entre as sa\u00eddas poss\u00edveis de qualquer crise, se imp\u00f5e a que atende aos interesses do ator que finalmente se torna hegem\u00f4nico, como consequ\u00eancia do confronto entre as for\u00e7as. A hist\u00f3ria de nosso capitalismo de bases coloniais oferece material para a interpreta\u00e7\u00e3o das possibilidades de emerg\u00eancia e adensamento do movimento de massas, diante de uma estrutura que parece intranspon\u00edvel, sedimentada em cinco s\u00e9culos de dom\u00ednio. \u00c9 justamente nesses momentos de contenda entre as fra\u00e7\u00f5es dominantes que, bem aproveitadas, as cavilhas no bloco no poder proporcionam oportunidade para o avan\u00e7o da organiza\u00e7\u00e3o das massas. Da mesma forma que a resultante bonapartista, tamb\u00e9m a alternativa popular depende da correta opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica capaz de fazer avan\u00e7ar seu programa. Para que se afirme \u00e9 indispens\u00e1vel a combina\u00e7\u00e3o entre uma pauta capaz de apreender o que s\u00e3o os pontos de interesse dessa massa e uma comunica\u00e7\u00e3o que apresente de forma cristalina por que essas bandeiras s\u00e3o suas. Din\u00e2mica que s\u00f3 pode ser animada por um operador pol\u00edtico que atue como o Moderno Pr\u00edncipe que, int\u00e9rprete fino da trajet\u00f3ria hist\u00f3rica da forma\u00e7\u00e3o social em que pretende atuar, seja capaz de galvanizar a for\u00e7a do movimento para se constituir como o ator que se imp\u00f5e aos fatos.<\/p>\n<p>A s\u00edntese pol\u00edtica da resist\u00eancia \u00e0 ditadura burgo-militar se afirmou a partir de uma certa interpreta\u00e7\u00e3o da formata\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de nossa nacionalidade, de como se consolidaram os problemas relacionados a essa via colonial de objetiva\u00e7\u00e3o do capitalismo, do programa necess\u00e1rio para superar os problemas do sempre renovado atraso e, finalmente, da forma partido que deveria organizar a classe trabalhadora para a execu\u00e7\u00e3o dos movimentos t\u00e1ticos que conformariam a estrat\u00e9gia vitoriosa. Tornado projeto e institucionalizado no exerc\u00edcio do poder, abdicou do seu \u201creformismo forte\u201d em favor de uma sujei\u00e7\u00e3o progressivamente entusiasmada ao modelo explorador e anticivilizat\u00f3rio do neoliberalismo, sob o mantra thatcherista de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d e o salvo conduto m\u00edstico da governabilidade. A insist\u00eancia do campo democr\u00e1tico popular nesse roteiro desperdi\u00e7a a oportunidade que a conjuntura oferta, amea\u00e7ando seriamente replicar, no Brasil de 2026, os exemplos de Argentina, Peru, Bol\u00edvia, Paraguai e demais testemunhos da decep\u00e7\u00e3o com o esvaziamento de sentido da esquerda institucional ao redor do mundo.<\/p>\n<p>***<br \/>\nLeonardo Silva Andrada \u00e9 Professor Associado do Instituto de Ci\u00eancias Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora. \u00c9 militante do PCB de Minas Gerais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33469\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10],"tags":[227],"class_list":["post-33469","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8HP","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33469"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33469\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33471,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33469\/revisions\/33471"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}