{"id":33493,"date":"2026-01-03T16:59:39","date_gmt":"2026-01-03T19:59:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33493"},"modified":"2026-01-03T16:59:39","modified_gmt":"2026-01-03T19:59:39","slug":"e-necessario-frear-o-avanco-do-fascismo-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33493","title":{"rendered":"\u201c\u00c9 necess\u00e1rio frear o avan\u00e7o do fascismo global\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33494\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33493\/image-8-6\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-8.png?fit=960%2C1280&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"960,1280\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image (8)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-8.png?fit=675%2C900&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-33494\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-8.png?resize=675%2C900&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"675\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-8.png?resize=675%2C900&amp;ssl=1 675w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-8.png?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-8.png?resize=768%2C1024&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-8.png?w=960&amp;ssl=1 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Resumen Latinoamericano<\/p>\n<p>Entrevista com Carlos Luis Rivero (diretor do Instituto Sim\u00f3n Bol\u00edvar para a Paz e a Solidariedade &#8211; Venezuela)<\/p>\n<p>Carlos Luis Rivero \u00e9 uma figura hist\u00f3rica da esquerda revolucion\u00e1ria venezuelana cuja trajet\u00f3ria sintetiza as etapas da luta popular no pa\u00eds. Iniciou-se na milit\u00e2ncia durante a adolesc\u00eancia como dirigente estudantil do ensino m\u00e9dio e, posteriormente, universit\u00e1rio na Universidade Central da Venezuela. Diante do fechamento das vias democr\u00e1ticas durante a quarta rep\u00fablica, optou pelo caminho da luta armada, integrando por vinte e tr\u00eas anos a organiza\u00e7\u00e3o Bandeira Vermelha, onde alcan\u00e7ou as m\u00e1ximas responsabilidades como membro de sua dire\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Nas fileiras do movimento popular e revolucion\u00e1rio, participou ativamente dos processos insurrecionais que abalaram o pa\u00eds ap\u00f3s o Caracazo de 1989, vinculando-se \u00e0 estrat\u00e9gia que finalmente convergiu com a lideran\u00e7a de Hugo Ch\u00e1vez. Ap\u00f3s a chegada da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana, desempenhou pap\u00e9is-chave na arquitetura jur\u00eddica do novo Estado, coordenando as reformas das leis do poder popular: a lei dos conselhos comunit\u00e1rios e das comunas. Atualmente, exerce o cargo de diretor executivo do Instituto Sim\u00f3n Bol\u00edvar para a Paz e a Solidariedade, \u00f3rg\u00e3o vinculado ao Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores venezuelano presidido pela deputada Blanca Eekhout, respons\u00e1vel pela diplomacia dos povos e pela an\u00e1lise estrat\u00e9gica internacional.<\/p>\n<p>Resumen: Como diretor executivo do Instituto Sim\u00f3n Bol\u00edvar, como voc\u00ea articula o chamado aos povos do mundo neste momento de cerco contra a Venezuela?<\/p>\n<p>Rivero: Os povos do mundo temos um inimigo em comum, que \u00e9 o imperialismo. Aqueles de n\u00f3s que lutamos pela autodetermina\u00e7\u00e3o, pela p\u00e1tria e pelo socialismo, devemos nos articular n\u00e3o apenas em solidariedade com a Venezuela, mas entendendo que hoje nosso pa\u00eds \u00e9 um cen\u00e1rio de batalha global. A Venezuela tem sido o principal obst\u00e1culo para o avan\u00e7o das correntes fascistas no mundo. Guardando as devidas propor\u00e7\u00f5es, o que ocorre hoje em 2025 se assemelha ao que aconteceu no s\u00e9culo passado com a Guerra Civil Espanhola. Naquela \u00e9poca, brigadistas de todas as partes do mundo foram \u00e0 Espanha para lutar, mesmo sabendo que poderiam perder, porque era necess\u00e1rio unir for\u00e7as para impedir o avan\u00e7o do fascismo. Hoje na Venezuela devemos fazer o mesmo: unificar todas as for\u00e7as do mundo. Transformar a Venezuela no grande muro contra o avan\u00e7o do fascismo. O presidente Trump nos v\u00ea como se f\u00f4ssemos uma col\u00f4nia ou uma propriedade privada, esquecendo que no s\u00e9culo dezenove perdemos metade de nossa popula\u00e7\u00e3o lutando para nos tornarmos independentes. Essa soberania \u00e9 inegoci\u00e1vel. A Venezuela n\u00e3o se caracterizou por colonizar ningu\u00e9m, nem por tomar posse de qualquer territ\u00f3rio, fomos lutar para libertar povos.<\/p>\n<p>Resumen: Voc\u00ea menciona a proposta das brigadas internacionais. Como v\u00ea essa iniciativa no contexto da solidariedade militante e da luta contra a agress\u00e3o imperialista?<\/p>\n<p>Rivero: \u00c9 uma tarefa inadi\u00e1vel. A liberta\u00e7\u00e3o nacional de um pa\u00eds requer uma vis\u00e3o internacionalista ativa. \u00c9 necess\u00e1rio que nos diferentes pa\u00edses se organizem brigadas de solidariedade que possam ser transferidas para os lugares onde se travam as batalhas mais duras e, posteriormente \u00e0 vit\u00f3ria, se mantenham de forma permanente. Jos\u00e9 Mart\u00ed, assim como Che, diziam que a solidariedade \u00e9 a ternura dos povos. Ap\u00f3s o genoc\u00eddio na Palestina, o imperialismo dinamizou a rela\u00e7\u00e3o entre legalidade e legitimidade. Eles baixaram a m\u00e1scara e j\u00e1 n\u00e3o se importam com a apar\u00eancia da democracia burguesa. Por isso, precisamos de uma transforma\u00e7\u00e3o profunda da multilateralidade, uma que n\u00e3o dependa apenas dos governos, mas da a\u00e7\u00e3o de seus povos.<\/p>\n<p>Resumen: Sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica \u00e9 extensa. Voc\u00ea militou vinte e tr\u00eas anos na Bandeira Vermelha e conheceu de perto a guerrilha. Como analisa essa transi\u00e7\u00e3o para o apoio ao chavismo e o papel das antigas organiza\u00e7\u00f5es armadas?<\/p>\n<p>Rivero: N\u00e3o foi f\u00e1cil passar de militante de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria para apoiar uma rebeli\u00e3o militar ou c\u00edvico-militar, pois os militares eram nossos inimigos no campo de batalha. Mas a Venezuela tem uma hist\u00f3ria particular de suas for\u00e7as armadas, os oficiais v\u00eam de estratos populares, filhos de oper\u00e1rios, camponeses e, na hist\u00f3ria recente, a primeira escola guerrilheira foi formada por oficiais de nossas for\u00e7as armadas, perseguidos nas revoltas do \u201cCarupanaso\u201d e do \u201cPorte\u00f1aso\u201d. A exist\u00eancia de comandos progressistas e revolucion\u00e1rios nas for\u00e7as armadas era poss\u00edvel. Por isso se toma a decis\u00e3o de participar das insurrei\u00e7\u00f5es do ano 92. Quanto pensamos sobre isso? Quanto nos custou tomar essa decis\u00e3o hist\u00f3rica para uma organiza\u00e7\u00e3o armada?<\/p>\n<p>Convertemos a pol\u00edtica em nossa vida como prioridade desde a adolesc\u00eancia; n\u00e3o foi um hobby, nem um passatempo. Escolhemos o caminho da luta armada porque os canais da democracia liberal n\u00e3o nos permitiam, aos revolucion\u00e1rios, chegar ao poder. A experi\u00eancia do Chile de Allende nos ensinou essa li\u00e7\u00e3o. Durante os anos setenta e oitenta, ap\u00f3s a derrota militar da guerrilha, apenas tr\u00eas organiza\u00e7\u00f5es mantiveram as bandeiras da luta armada: a OR, o PRV e a Bandeira Vermelha. Cada uma tinha estrat\u00e9gias diferentes. O PRV construiu o caminho insurrecional que deu caminho a Ch\u00e1vez. Na Bandeira Vermelha, onde eu era militante, mant\u00ednhamos a estrat\u00e9gia da guerra popular prolongada.<\/p>\n<p>No entanto, em 1989, quando ocorreu o Caracazo, conseguimos fazer uma an\u00e1lise correta: viv\u00edamos uma situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-revolucion\u00e1ria. A burguesia entrou em contradi\u00e7\u00e3o interna e ela n\u00e3o permitia que governasse, e o povo n\u00e3o queria que nos governassem, e o povo saiu massivamente \u00e0s ruas. Mas faltava o terceiro elemento que Lenin definiu, de uma situa\u00e7\u00e3o evolutiva: faltava a dire\u00e7\u00e3o e a estrat\u00e9gia para mudar o rumo. Ch\u00e1vez, em fevereiro de 1992, deu ao povo essa perspectiva em apenas alguns segundos com seu por enquanto. Entendemos que aquela blindagem que abriu as portas de Miraflores abriu um espa\u00e7o para que o povo entrasse no poder e n\u00e3o sa\u00edsse mais; aquele buraco que se abriu ainda n\u00e3o se fechou.<\/p>\n<p>Resumen: Voc\u00ea mencionou que a Bandeira Vermelha terminou traindo o processo. Como se explica que uma organiza\u00e7\u00e3o com uma hist\u00f3ria heroica acabe aliada ao imperialismo?<\/p>\n<p>Rivero: Foi consequ\u00eancia de um processo de desmoraliza\u00e7\u00e3o coletiva e perda de direcionamento estrat\u00e9gico. Alguns apontam que foi a infiltra\u00e7\u00e3o, isso foi poss\u00edvel, o inimigo trabalha para infiltrar as organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, mas isso n\u00e3o foi o elemento determinante; o elemento fundamental foi que a dire\u00e7\u00e3o perdeu o rumo estrat\u00e9gico. Hoje reivindicamos a hist\u00f3ria dos her\u00f3is e hero\u00ednas da Bandeira Vermelha, mas rejeitamos a c\u00fapula que traiu os ideais revolucion\u00e1rios. Infelizmente, existe um dogmatismo que acaba coincidindo com a extrema direita. N\u00e3o entendem que os processos reais s\u00e3o aluviais e v\u00e3o se radicalizando na marcha, quando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as nos favorece; como quando Ch\u00e1vez se declarou socialista em 2005.<\/p>\n<p>Resumen: Muitos revolucion\u00e1rios se perguntam por que n\u00e3o se for\u00e7ou uma radicaliza\u00e7\u00e3o maior quando Ch\u00e1vez retornou em 2002. Foi uma falta de for\u00e7a ou uma decis\u00e3o t\u00e1tica?<\/p>\n<p>Rivero: Na pol\u00edtica n\u00e3o basta ter raz\u00e3o; \u00e9 preciso ter for\u00e7a. Quando Ch\u00e1vez voltou com a cruz naquele treze de abril, t\u00ednhamos todo o alto comando militar contra e trai\u00e7\u00f5es civis internas. N\u00e3o era o momento de radicaliza\u00e7\u00e3o extrema. A radicaliza\u00e7\u00e3o acontece quando se tem for\u00e7a para avan\u00e7ar. Tomamos o governo, mas o poder \u00e9 um processo que se constr\u00f3i na consci\u00eancia do povo. Hoje temos muito mais poder do que em 2002, porque temos um povo mais coeso e consciente do que naquela \u00e9poca. Por isso falamos de poder, de poder popular.<\/p>\n<p>Resumen: Nesse processo de constru\u00e7\u00e3o de poder, voc\u00ea costuma citar a import\u00e2ncia da hegemonia gramsciana. Como se aplica essa teoria quando a vanguarda deve mobilizar as grandes massas em momentos de crise extrema?<\/p>\n<p>Rivero: A hegemonia n\u00e3o \u00e9 apenas ganhar elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 conseguir que nossa vis\u00e3o de mundo se a compartilhada pela maioria. Gramsci nos ensinou que, em certos momentos hist\u00f3ricos, a vanguarda deve ter a lucidez de ler o sentimento das massas para transform\u00e1-lo em a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Um exemplo claro foi o ano de 2017, durante as guarimbas. A direita tentou nos levar a uma guerra civil fratricida. Naquele momento de m\u00e1xima viol\u00eancia, o presidente Nicol\u00e1s Maduro teve a genialidade de convocar a Assembleia Nacional Constituinte (ANC). N\u00e3o foi um chamado apenas para a milit\u00e2ncia de vanguarda, foi um chamado a toda a massa, a todo o povo, para resolver as diferen\u00e7as atrav\u00e9s do di\u00e1logo original e n\u00e3o das balas. Essa decis\u00e3o permitiu retomar a hegemonia da paz. Demonstrou que a vanguarda pol\u00edtica sabia que o desejo mais profundo da massa era a estabilidade. A ANC desativou a viol\u00eancia e reafirmou que a soberania reside no povo, alcan\u00e7ando uma vit\u00f3ria pol\u00edtica que deslocou completamente o fascismo. Atualmente vemos uma forte ret\u00f3rica sobre o empreendedorismo que parece influenciar as rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Resumen: N\u00e3o existe o risco de que esse modelo capitalista acabe colonizando a mente dos jovens e enfraquecendo a constru\u00e7\u00e3o coletiva?<\/p>\n<p>Rivero: O risco \u00e9 real porque o capitalismo n\u00e3o ataca apenas a economia, ataca a subjetividade. O empreendedorismo, quando \u00e9 vendido como o sucesso individual do mais apto, \u00e9 a antiga receita liberal disfar\u00e7ada de modernidade. Busca atomizar o trabalhador, transform\u00e1-lo em algu\u00e9m que s\u00f3 pensa em seu bem-estar pessoal e compete com seu vizinho. Frente a essa l\u00f3gica que tenta se impor mesmo sob o bloqueio, n\u00f3s propomos a Comuna. O empreendedorismo tem sido uma t\u00e1tica de sobreviv\u00eancia popular diante da crise, mas se n\u00e3o for politizado, reproduz a explora\u00e7\u00e3o. Por isso, atrav\u00e9s da reforma da lei do sistema econ\u00f4mico comunal, estamos impulsionando um modelo onde os meios de produ\u00e7\u00e3o sejam de propriedade social, rompendo essa cadeia de individualismo.<\/p>\n<p>Resumen: Quanto \u00e0 situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um cr\u00edtica recorrente sobre os baixos sal\u00e1rios. Como o governo lida com essa contradi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Rivero: O imperialismo estadunidense atacou primeiro a nossa moeda. Se o governo n\u00e3o tem d\u00f3lares por causa do bloqueio, o mercado privado imp\u00f5e o pre\u00e7o que quiser. Para um olhar externo ou dogm\u00e1tico, manter sal\u00e1rios nominais baixos pode parecer uma pol\u00edtica liberal, mas \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o imposta pela guerra. Eu mesmo tenho um sal\u00e1rio real de apenas alguns d\u00f3lares, mas consigo cobrir minhas necessidades porque os servi\u00e7os s\u00e3o quase gratuitos, recebo o pacote CLAP e existem pol\u00edticas que subsidiam a vida. \u00c9 um sal\u00e1rio social. N\u00e3o \u00e9 o ideal, mas \u00e9 o que nos permitiu resistir sem sermos estrangulados. Atrav\u00e9s da reforma da lei do sistema econ\u00f4mico comunal, estamos promovendo um modelo onde os meios de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o de propriedade social.<\/p>\n<p>Resumen: Como essa propriedade social se traduz na pr\u00e1tica cotidiana para evitar que seja apenas um r\u00f3tulo jur\u00eddico e se torne uma verdadeira alternativa ao capitalismo?<\/p>\n<p>Rivero: Isso se traduz em uma transforma\u00e7\u00e3o radical da l\u00f3gica do trabalho. N\u00e3o se trata de uma mudan\u00e7a superficial; \u00e9 uma reestrutura\u00e7\u00e3o de como nos relacionamos com a produ\u00e7\u00e3o. Essa vis\u00e3o n\u00e3o surge do nada, mas da observa\u00e7\u00e3o direta. Recentemente, realizamos um estudo comparativo analisando o funcionamento de cooperativas tradicionais e tr\u00eas empresas sociais de propriedade direta em setores produtivos chaves. Todas essas novas formas n\u00e3o capitalistas correm o risco de serem metabolizadas e transformadas em capitalistas. No entanto, enquanto permanecerem formas de exerc\u00edcio democr\u00e1tico direto, com lucros distribu\u00eddos de acordo com o tempo de trabalho e excedentes distribu\u00eddos dentro da comunidade, demonstraremos, por meio de a\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o de ret\u00f3rica, que essa economia \u00e9 superior ao capitalismo, onde os excedentes s\u00e3o apropriados pelo capitalista.<\/p>\n<p>Para entender esse modelo, precisamos observar como ele se baseia em princ\u00edpios fundamentais que rompem com a estrutura antiga. Primeiro, buscamos superar a propriedade privada. Enquanto o empreendedorismo capitalista refor\u00e7a a propriedade individual, a comuna promove empresas de propriedade social. Nesses casos, o excedente n\u00e3o \u00e9 convertido em acumula\u00e7\u00e3o pessoal, mas sim em reinvestimento social para a escola do bairro, o posto de sa\u00fade local ou para a melhoria da habita\u00e7\u00e3o. Isso transforma a consci\u00eancia do trabalhador; ele n\u00e3o vende mais sua for\u00e7a de trabalho a terceiros, mas produz para sua pr\u00f3pria comunidade.<\/p>\n<p>Outro princ\u00edpio fundamental \u00e9 priorizar o valor de uso em detrimento do valor de troca. O mercado capitalista nos for\u00e7a a produzir apenas o que gera dinheiro, mas a economia comunit\u00e1ria produz para satisfazer necessidades humanas reais. Se uma comuna produz milho ou tecidos, sua prioridade n\u00e3o \u00e9 a especula\u00e7\u00e3o no mercado externo, mas sim garantir o acesso a esses bens para as fam\u00edlias do territ\u00f3rio a um pre\u00e7o justo. \u00c9 uma economia subordinada \u00e0 vida. Por fim, defendemos a autogest\u00e3o em detrimento da burocracia e do capital. Contrariando o mito de que o socialismo se resume \u00e0 gest\u00e3o estatal, propomos que o poder deve residir no povo. O controle social dos recursos \u00e9 o melhor ant\u00eddoto para a corrup\u00e7\u00e3o e a l\u00f3gica da explora\u00e7\u00e3o. Quando o povo administra sua pr\u00f3pria economia, a aliena\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 rompida.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos dogm\u00e1ticos; sabemos que vivemos em uma economia monetizada sob ataque. Mas a comuna \u00e9 o laborat\u00f3rio onde estamos desaprendendo o capitalismo. A transi\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo de inunda\u00e7\u00e3o: passamos de resolver emerg\u00eancias por meio do empreendedorismo individual para organizar essa for\u00e7a em um bloco hist\u00f3rico produtivo e coletivo. N\u00e3o queremos que as pessoas apenas ganhem dinheiro; queremos que as pessoas construam a sociedade e fortale\u00e7am o poder popular.<\/p>\n<p>Para concluir, voc\u00ea mencionou o sacrif\u00edcio da sua gera\u00e7\u00e3o. Como her\u00f3is como os de Cantaura influenciam sua vis\u00e3o atual?<\/p>\n<p>Lembrar de Cantaura \u00e9 doloroso, mas necess\u00e1rio. Eu perten\u00e7o \u00e0quela gera\u00e7\u00e3o, e fui ativista e trouxe para o movimento pol\u00edtico camaradas como Mauricio Tejada e Nelson Pac\u00edn, ambos assassinados l\u00e1 quando t\u00ednhamos apenas 23 anos. Nosso comandante, a quem cham\u00e1vamos de &#8220;o velho&#8221; porque parecia um veterano, tinha apenas 32 anos quando caiu. Essa era a juventude que a Quarta Rep\u00fablica massacrou. Hoje, nossa luta \u00e9 para garantir que a hist\u00f3ria n\u00e3o se repita.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33493\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[73,65,75,10],"tags":[226],"class_list":["post-33493","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c86-anti-imperialismo","category-c78-internacional","category-c88-internacionalismo","category-s19-opiniao","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Id","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33493","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33493"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33493\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33495,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33493\/revisions\/33495"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33493"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33493"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33493"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}