{"id":335,"date":"2010-03-16T04:09:33","date_gmt":"2010-03-16T04:09:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=335"},"modified":"2010-03-16T04:09:33","modified_gmt":"2010-03-16T04:09:33","slug":"mario-alves-a-dignidade-de-um-revolucionario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/335","title":{"rendered":"M\u00c1RIO ALVES, A DIGNIDADE DE UM REVOLUCION\u00c1RIO"},"content":{"rendered":"\n<p>Eram necess\u00e1rias medidas para estancar o problema e garantir a compartimenta\u00e7\u00e3o da estrutura organizativa do partido. M\u00e1rio Alves lembrou que havia a alternativa de pontos para os dois.<\/p>\n<p>No outro dia, Bruno estava l\u00e1 e nada dos companheiros chegarem. M\u00e1rio Alves surgiu do meio do povo e disse mais uma vez que tamb\u00e9m n\u00e3o aparecera ningu\u00e9m no ponto marcado com ele. A cisma no pernambucano aumentou. Ainda assim, o jornalista lembrou que ele tinha uma \u00faltima alternativa, um ponto de recupera\u00e7\u00e3o que era acionado quando todos os outros furavam. Seria no outro dia, 16 de janeiro, e entregou a Bruno Maranh\u00e3o um documento que denunciava aulas pr\u00e1ticas de tortura numa pris\u00e3o de Linhares, em Minas Gerais. A den\u00fancia era muito importante e grave: os irm\u00e3os Pezzuti relatavam que um oficial das for\u00e7as armadas norte-americanas estava ensinando a policiais brasileiros novos m\u00e9todos de interrogat\u00f3rio em aulas pr\u00e1ticas com tortura em prisioneiros pol\u00edticos. Segundo Bruno Maranh\u00e3o, o tal oficial foi identificado mais tarde como sendo Dan Mitrione, seq\u00fcestrado posteriormente pelos Tupamaros, no Uruguai. Na \u00e9poca, a ditadura militar uruguaia recusou-se a negociar com o grupo guerrilheiro e Dan Mitrione foi justi\u00e7ado. Bruno ficou com a tarefa de encaminhar a den\u00fancia a um companheiro que ia viajar \u00e0 Paris para que fosse amplamente divulgada. Sa\u00edram caminhando e retomaram a conversa da noite anterior. M\u00e1rio pediu para entrar numa lanchonete porque precisava beber leite, dieta para consolidar o tratamento da \u00falcera que tinha curado com a alimenta\u00e7\u00e3o macrobi\u00f3tica receitada por Dilma.<\/p>\n<p>Conversaram mais algum tempo e Bruno combinou de reencontrar M\u00e1rio Alves, dois dias depois, em 17 de janeiro. Despediram-se na esta\u00e7\u00e3o de Cascadura.<\/p>\n<p>Mais tarde, quando M\u00e1rio Alves voltou para casa, Dilma tamb\u00e9m cismou. Afinal, pela segunda vez consecutiva o marido sa\u00eda avisando que ficaria fora por alguns dias e retornava horas depois porque o encontro n\u00e3o se realizara. A mulher n\u00e3o era militante do PCBR e o marido, por medida de seguran\u00e7a, n\u00e3o conversava os assuntos internos do partido. Neste dia, no entanto, ele falou sobre as diverg\u00eancias no partido.<\/p>\n<p>Por isso insistia em cobrir todas as alternativas de ponto, inclusive a \u00faltima, no dia seguinte. A reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central era muito importante e ele, o principal dirigente, n\u00e3o poderia faltar.<\/p>\n<p>Aquela noite de espera tamb\u00e9m foi a \u00faltima que Dilma e M\u00e1rio ficaram juntos.<\/p>\n<p>O dia amanheceu e permaneceu calorento naquele 16 de janeiro de 1970. M\u00e1rio Alves vestia camisa de mangas curtas quando saiu de casa para cobrir o derradeiro ponto de sua vida. Como em \u201cAlegria, Alegria\u201d de Caetano Veloso estava sem len\u00e7o, sem documento, nada nos bolsos ou nas m\u00e3os. No local e hora marcada a f\u00faria do inimigo, na tocaia, o alcan\u00e7ou. No quartel do Ex\u00e9rcito, na rua Bar\u00e3o de Mesquita, na Tijuca, os torturadores agitaram-se, comemoraram e disseram uns aos outros que era preciso avisar ao coronel Alcyone Portela, na \u00e9poca comandante do DOI-CODI que acabara de ser inaugurado no Rio de Janeiro e funcionava naquele quartel. \u201cO preso \u00e9 calado, franzino e n\u00e3o ag\u00fcentar\u00e1 muito tempo\u201d, imaginavam os militares.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se enganem\u201d, avisou o chefe de todos eles: \u201ctrata-se de comunista convicto, o mais perigoso e bem preparado dos intelectuais subversivos do antigo partid\u00e3o, aquele que enfrentou Prestes, fundou um partido revolucion\u00e1rio e \u00e9 um dos l\u00edderes da rebeli\u00e3o que quer derrubar o governo pelas armas. Ser\u00e1 preciso dobr\u00e1-lo, desmoraliz\u00e1-lo\u201d. N\u00e3o conseguiram.<\/p>\n<p>Na sala de interrogat\u00f3rio, M\u00e1rio enfrentou o inimigo. Durante oito horas seguidas foi espancado com cassetetes de borracha, pendurado que nem morcego no pau-de-arara, recebeu choques el\u00e9tricos em todas as partes do corpo e foi afogado na masmorra da brutalidade. Aquele homem de f\u00edsico d\u00e9bil, que come\u00e7ou suas andan\u00e7as ainda menino e escolheu seu pr\u00f3prio destino, n\u00e3o cedia e conseguia dominar at\u00e9 seu instinto animal de conserva\u00e7\u00e3o. Embora amarrado, completamente imobilizado e \u00e0 merc\u00ea de seus carrascos, M\u00e1rio aceitava o combate e desafiava a morte que se anunciava.<\/p>\n<p>Naquela noite, que varou pela madrugada do dia seguinte, os presos da cela que ficava ao lado da c\u00e2mara de tortura ouviram tudo no espa\u00e7o vazio deixado pela meia parede. Estavam ali, sem conseguir dormir, o advogado Raimundo Jos\u00e9 Barros Teixeira Mendes, o tenente da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 Augusto Henrique Maria D\u2019Aurrelli, o l\u00edder oper\u00e1rio Manoel Jo\u00e3o da Silva e Ant\u00f4nio Carlos Carvalho, eleito posteriormente vereador pelo MDB carioca. Tamb\u00e9m torturados, eram testemunhas, para o futuro, do horror que M\u00e1rio Alves passava. Raimundo Teixeira Mendes n\u00e3o se conteve: subiu na cama de beliche que ficava junto ao teto e pela fresta viu o jornalista pendurado no pau-de-arara.<\/p>\n<p>O torturado recusava-se a dar qualquer informa\u00e7\u00e3o aos inquisidores. Mesmo quando o inquiriam afirmativamente sobre seu verdadeiro nome e a fun\u00e7\u00e3o que exercia de secret\u00e1rio-geral, dirigente m\u00e1ximo do PCBR, M\u00e1rio confirmava, sarc\u00e1stico: \u201cvoc\u00eas j\u00e1 sabem\u201d. Naquele dia daquela noite o guerreiro aplicou ele mesmo as regras que havia escrito no segundo semestre de 1969 sobre o comportamento que o militante deve ter diante da pol\u00edcia, dos torturadores e dos juizes:<\/p>\n<p>\u201cQuando um revolucion\u00e1rio se acha em poder do inimigo enfrenta uma das situa\u00e7\u00f5es mais duras de sua vida. \u00c9 o momento que p\u00f5e \u00e0 prova sua firmeza ideol\u00f3gica, suas qualidades morais, sua dignidade pessoal\u2026 \u00c9 preciso ter profunda convic\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, confian\u00e7a na causa que defende e disposi\u00e7\u00e3o para enfrentar todos os sacrif\u00edcios\u2026 O medo surge quando o prisioneiro se sente sozinho, isolado e impotente diante do inimigo\u2026 Mas o revolucion\u00e1rio consciente nunca se sente s\u00f3\u2026 Sabe que al\u00e9m dos muros do c\u00e1rcere est\u00e3o seus companheiros, est\u00e1 o povo que luta\u2026 Ele se sente parte dessa grande for\u00e7a que h\u00e1 de vencer o regime de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Dessa compreens\u00e3o retira energia para enfrentar com coragem seus algozes\u201d.<\/p>\n<p>M\u00e1rio Alves nunca foi levado diante do juiz. N\u00e3o houve tempo para isso. Naquele dia daquela noite de horror o guerreiro do sem medo, humano, sentiu dor e um gemido ecoou pelas celas do quartel da rua Bar\u00e3o de Mesquita. Mas de nada adiantaram todos os m\u00e9todos de tortura aplicados. Negava-se a responder \u00e0s perguntas sobre seus companheiros e sua organiza\u00e7\u00e3o. Tentaram pression\u00e1-lo pelo lado familiar e falavam no paradeiro da menina L\u00facia: \u201cN\u00f3s j\u00e1 sabemos que ela est\u00e1 em Minas Gerais\u201d, disse o interrogador. \u201cEnt\u00e3o v\u00e3o busc\u00e1-la\u201d, respondeu M\u00e1rio Alves em tom de desafio.<\/p>\n<p>Os ratos de porrete e p\u00ealo cor de oliva queriam, sobretudo que ele revelasse o endere\u00e7o de seu aparelho, de sua resid\u00eancia, onde estava Dilma. Nesse instante Vila silenciou. O segredo era s\u00f3 seu, lhe pertencia.<\/p>\n<p>Naquele final de noite e in\u00edcio de seu derradeiro dia, M\u00e1rio Alves de Souza Vieira foi sentenciado na c\u00e2mara do horror.<\/p>\n<p>Impotentes para quebrar a vontade daquele homem franzino, mas determinado, os carrascos pegaram o cassetete de madeira dentado com estrias de a\u00e7o e sangraram por dentro o revolucion\u00e1rio. M\u00e1rio Alves foi empalado e teve os intestinos perfurados.<\/p>\n<p>No supl\u00edcio medieval do empalamento, Eduardo II, da Inglaterra, urrou como um animal. M\u00e1rio lutou quando os ratos roeram as entranhas dele. Gritou, gemeu e depois calou para sempre.<\/p>\n<p>O dia 17 de janeiro de 1970 amanheceu mais cedo para os presos da cela ao lado.<\/p>\n<p>Tr\u00eas deles \u2013 Manoel Jo\u00e3o, Augusto Henrique e Ant\u00f4nio Carlos \u2013 foram escolhidos para limpar a sala de tortura. No ch\u00e3o banhado em sangue, e tamb\u00e9m em coragem, restava o corpo de M\u00e1rio Alves.<\/p>\n<p>Ainda vivia moribundo, cheio de hematomas, sangrando pelo nariz e pela boca. Arquejava e n\u00e3o se mexia. Balbuciou pedindo \u00e1gua que n\u00e3o conseguiu beber.<\/p>\n<p>Antes dos policiais retirarem o jornalista da sala, Manuel e Augusto o reconheceram.<\/p>\n<p>Outro preso, Jos\u00e9 Carlos Brand\u00e3o Monteiro, posteriormente deputado do PDT, foi levado por engano \u00e0 cela naquela manh\u00e3 do dia 17 de janeiro e tamb\u00e9m viu M\u00e1rio Alves ca\u00eddo no ch\u00e3o, ensang\u00fcentado. Depois, os soldados rasos que serviam no quartel comentaram que M\u00e1rio Alves havia morrido.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central do PCBR nunca se realizou. Entre os dias 12 a 20 de janeiro daquele ano, a maior parte da dire\u00e7\u00e3o do partido foi presa. As quedas come\u00e7aram depois que Salatiel Teixeira Rolim, ex-dirigente nacional e um dos fundadores do PCBR foi preso dentro de um cinema da Baixada Fluminense durante uma batida policial e entregue ao quartel do Ex\u00e9rcito, na rua Bar\u00e3o de Mesquita.<\/p>\n<p>Fazia meses que Salatiel n\u00e3o mantinha contato com o partido. No livro \u201cCombate nas Trevas\u201d, Jacob Gorender relata o que aconteceu: \u201cPor norma de seguran\u00e7a clandestina, os aparelhos que ele conhecia precisavam ser desativados, o que n\u00e3o se fez devido \u00e0 evidente neglig\u00eancia. Depois de muito torturado, Salatiel abriu a localiza\u00e7\u00e3o de aparelhos do PCBR e tamb\u00e9m dos dois s\u00edtios comprados no Paran\u00e1. A partir de 12 de janeiro come\u00e7aram as pris\u00f5es que arrastaram Apol\u00f4nio, Miguel Batista e outros membros da dire\u00e7\u00e3o\u201d\u2026) \u201cNas semanas seguintes, novas quedas no Rio. Pris\u00f5es de Ren\u00e9 de Carvalho (tamb\u00e9m da dire\u00e7\u00e3o nacional) e de \u00c1lvaro Caldas. Crivado de balas num apartamento de Copacabana, morte do marujo Marco Ant\u00f4nio. Salatiel conhecia liga\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Paulo e a\u00ed as pris\u00f5es come\u00e7aram no dia 16\u201d.<\/p>\n<p>Entre outras pessoas, foram presos na capital paulista Aytan, Helenita, Valdizar, S\u00f4nia, S\u00e9rgio Sister e finalmente Gorender, no dia 20 de janeiro. Bruno Maranh\u00e3o acrescenta outra informa\u00e7\u00e3o: no aparelho onde aconteceria a reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central, no Rio de Janeiro, tamb\u00e9m foi preso o motorista do partido que usava o nome de Jurandir e era uma das pessoas que conheciam o local, dia e hor\u00e1rio do tal ponto de recupera\u00e7\u00e3o onde M\u00e1rio Alves foi feito prisioneiro. Sob tortura Jurandir abriu o local. Bruno foi um dos poucos que escapou: cobriu o ponto que havia marcado com M\u00e1rio Alves no dia 17 de janeiro, repetiu seis vezes, mas Vila nunca apareceu, mas tamb\u00e9m n\u00e3o entregou o encontro. Oito anos depois, quando Suzana, a mulher de Bruno deu \u00e0 luz um menino, os pais decidiram cham\u00e1-lo de M\u00e1rio, em homenagem a Vila.<\/p>\n<p>Depois que Vila foi trucidado, Dilma assumiu a luta, percorreu as pris\u00f5es da ditadura, bateu em todas as portas dos comandantes militares, que negavam a morte e at\u00e9 a pris\u00e3o de M\u00e1rio. Dilma e a filha L\u00facia souberam logo que o tinham matado. Choraram. Enxugaram as l\u00e1grimas e continuaram valentes. Dilma escreveu para deputados, senadores, ministros de estado, juizes e diversas outras autoridades constitu\u00eddas e denunciou o desaparecimento e assassinato do marido.<\/p>\n<p>Processou o governo e com base nos depoimentos daqueles presos que estavam na cela ao lado da sala de tortura onde M\u00e1rio foi empalado, a mulher conseguiu provar em ju\u00edzo sua pris\u00e3o e assassinato.<\/p>\n<p>Em 21 de outubro de 1981, a ju\u00edza T\u00e2nia de Melo Heine, da Primeira Vara Federal, responsabilizou a Uni\u00e3o pelo seq\u00fcestro, tortura, morte e oculta\u00e7\u00e3o do cad\u00e1ver do jornalista: \u201cM\u00e1rio Alves de Souza Vieira faleceu em conseq\u00fc\u00eancia de maus tratos sofridos nas depend\u00eancias do DOI-CODI\u201d.<\/p>\n<p>Foi o primeiro e \u00fanico caso de reconhecimento na Justi\u00e7a da pris\u00e3o e morte de um \u201cdesaparecido pol\u00edtico\u201d. O corpo n\u00e3o foi localizado. Por conta disso, Dilma e L\u00facia insistiram no direito de enterrar M\u00e1rio Alves. Todos os anos, no dia 16 de janeiro, depositavam uma palma de flores na est\u00e1tua de Tiradentes, em frente \u00e0 Assembl\u00e9ia Legislativa do Rio Janeiro.<\/p>\n<p>Os herdeiros da determina\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Alves continuam buscando os restos mortais do jornalista. Em dezembro de 1987, o Tribunal Federal de Recursos confirmou a senten\u00e7a da ju\u00edza T\u00e2nia Heine e responsabilizou a Uni\u00e3o pelo assassinato de M\u00e1rio Alves nas depend\u00eancias do DOICODI, no quartel da rua Bar\u00e3o de Mesquita. Mas n\u00e3o foi um carimbo final no seu dossi\u00ea. Em setembro de 1995, o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica Fernando Henrique Cardoso enviou e aprovou no Congresso Nacional um projeto que reconhece a morte de 136 presos pol\u00edticos desaparecidos durante o governo militar e estabelece uma indeniza\u00e7\u00e3o para os familiares. M\u00e1rio Alves est\u00e1 na lista. Mas o governo n\u00e3o esclarece as circunst\u00e2ncias das mortes, n\u00e3o diz nada sobre onde est\u00e3o os restos mortais desses brasileiros e deixou de fora do projeto os nomes de outras pessoas reconhecidamente assassinadas nos tempos da ditadura.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, os arquivos do CENIMAR, CIEX E CISA continuam secretos . Mas n\u00f3s insistimos e repetimos o que escreveu Pablo Neruda no seu poema \u201cOs inimigos\u201d:<\/p>\n<p><strong><em>Por esses mortos, os nossos mortos,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>pe\u00e7o castigo. Para os que salpicaram a<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>p\u00e1tria de sangue, pe\u00e7o castigo. Para o<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>verdugo que ordenou esta morte, pe\u00e7o<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>castigo. Para o traidor que ascendeu<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>sobre o crime, pe\u00e7o castigo. Para o que<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>deu a ordem de agonia, pe\u00e7o castigo.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Para os que defenderam este crime,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>pe\u00e7o castigo. N\u00e3o quero que me d\u00eaem<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>a m\u00e3o empapada de nosso sangue,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>pe\u00e7o castigo. N\u00e3o vos quero como<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>embaixadores, tampouco em casa<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>tranq\u00fcilos. Quero ver-vos aqui<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>julgados nesta pra\u00e7a, neste lugar.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Quero castigo!\u201d <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quando isso finalmente acontecer, ouviremos emocionados os sinos da catedral em \u201cReq\u00fciem\u201d, a missa para os mortos, derradeira e inacabada composi\u00e7\u00e3o de Amadeus Mozart e nos lembraremos da hist\u00f3ria contada em versos por outro guerreiro de outro tempo:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cCheguei \u00e0s cidades num per\u00edodo de desordens, quando aqui a fome reinava. Vim para o meio do povo quando imperava a revolta, e cresci com ela. Assim passou-se o tempo que me foi concedido nesta Terra (\u2026) Mas v\u00f3s, que renascereis do dil\u00favio no qual n\u00f3s nos afogamos, pensai tamb\u00e9m, quando falardes de nossa fraqueza, na sombria \u00e9poca de que haveis escapado.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>N\u00f3s caminhamos, mudando de pa\u00eds mais do que de sapatos, atrav\u00e9s da luta de classes, confundidos, quando havia apenas injusti\u00e7a e n\u00e3o protesto. E ainda assim sabemos: o \u00f3dio, mesmo contra a degrada\u00e7\u00e3o, contorce as fei\u00e7\u00f5es. A ira, mesmo contra a injusti\u00e7a, torna a voz \u00e1spera. Ah, n\u00f3s que quer\u00edamos preparar o ch\u00e3o da amizade, n\u00e3o pudemos, n\u00f3s mesmos, ser amigos. Mas, v\u00f3s quando tudo estiver t\u00e3o perfeito que o homem ajude o homem, lembrai-vos de tudo isto, quando pensardes em n\u00f3s\u201d (Bertold Brecht, \u201cAos que vir\u00e3o depois de n\u00f3s\u201d).<\/em><\/strong><\/p>\n<p>* OTTO FILGUEIRAS \u2013 jornalista e est\u00e1 preparando um livro sobre a organiza\u00e7\u00e3o de esquerda A\u00e7\u00e3o Popular.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n*OTTO FILGUEIRAS\nAs praias do Rio de Janeiro encheram-se de velas no dia 3l de dezembro de 1969.\nO sol rompeu forte no ano novo e avisou que at\u00e9 o calor seria de amargar. \u00c0s 20 horas do dia 14 de janeiro, Bruno Maranh\u00e3o esperava na rua Br\u00e1s de Pina, conforme o combinado. L\u00e1 adiante, avistou M\u00e1rio Alves. O jornalista explicou que n\u00e3o comparecera ningu\u00e9m no ponto dele \u00e0s 18 horas. M\u00e1rio faria parte da primeira turma a entrar no local da reuni\u00e3o e sabia do ponto de Bruno porque fora ele que passara a outro companheiro e estava ali para trocar opini\u00f5es sobre o desencontro. Bruno cismou, mas Vila ponderou que o pessoal deveria estar com dificuldade para arranjar o aparelho onde seria realizada a reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central. Por medida de seguran\u00e7a sa\u00edram do local e caminharam trocando id\u00e9ias sobre a pris\u00e3o do militante na fuga do assalto no Souto Maior e posteriormente de alguns simpatizantes.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/335\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-335","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5p","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/335","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=335"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/335\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}