{"id":33719,"date":"2026-03-16T10:44:56","date_gmt":"2026-03-16T13:44:56","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33719"},"modified":"2026-03-16T10:44:56","modified_gmt":"2026-03-16T13:44:56","slug":"126-anos-do-homem-feito-de-ferro-e-de-flor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33719","title":{"rendered":"126 anos do homem feito de ferro e de flor!"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33720\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33719\/image-6-15\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-6-1.png?fit=591%2C413&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"591,413\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image (6)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-6-1.png?fit=591%2C413&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-33720\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-6-1.png?resize=591%2C413&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"591\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-6-1.png?w=591&amp;ssl=1 591w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-6-1.png?resize=300%2C210&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-6-1.png?resize=120%2C85&amp;ssl=1 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 591px) 100vw, 591px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Foto: Acervo de Roberto Arrais<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Autor: Roberto Arrais &#8211; membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio nasceu em Panelas-PE, no dia 13 de mar\u00e7o de 1900. Filho de camponeses pobres, nasceu na \u00e1rea rural do munic\u00edpio, localizado na Regi\u00e3o do Agreste pernambucano, no limite de transi\u00e7\u00e3o com a Zona da Mata Sul. Viveu ele as duas situa\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e de trabalho nessa regi\u00e3o, pois no ver\u00e3o trabalhava na zona da mata sul, cortando cana e, nos tempos de chuva, preparava a terra e colhia milho e feij\u00e3o no agreste, que em geral tinha um largo tempo de estiagem, quando n\u00e3o ocorriam as secas.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou trabalhando aos quatro anos de idade, ajudando na limpeza do terreno de sua fam\u00edlia. Aos sete anos, ficou \u00f3rf\u00e3o de seus pais, morando com a av\u00f3. Aos 10 anos seguiu para o Recife com uma fam\u00edlia de senhor de engenho da regi\u00e3o da mata sul. Ficou trabalhando como empregado dom\u00e9stico informal, dia e noite, recebendo migalhas para sobreviver. Fugiu da casa e foi morar nas ruas do Recife, dormindo embaixo das marquises e das pontes, onde o sono tomava conta do seu corpo. Nesse per\u00edodo trabalhou como carregador de fretes na esta\u00e7\u00e3o de trem, vendedor de jornais, entregador de recados e mercadorias. Aos 17 anos, estava como ajudante de pedreiro e, por participar da greve geral promovida pelo movimento sindical brasileiro em defesa da jornada de 8 horas de trabalho e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e sal\u00e1rio, foi preso e cumpriu pena de mais de cinco anos.<\/p>\n<p>Saindo da pris\u00e3o na Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Recife, seguiu para o Rio de Janeiro, se integrando ao ex\u00e9rcito, onde aprendeu a ler e escrever com 26 anos de idade. Passou no concurso para sargento, vindo a servir como instrutor de tiro ao alvo e educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Voltou para o Recife, depois seguiu para Fortaleza e participou da luta contra os constitucionalistas de S\u00e3o Paulo, em 1932. Entrou no PCB em 1930, mantendo-se em atividades do Partido junto aos militares, sem contato com militantes civis. Por\u00e9m, nas atividades da ANL (Alian\u00e7a Nacional Libertadora), se integrou \u00e0s a\u00e7\u00f5es coletivas que envolviam militantes de todas as c\u00e9lulas e companheiros e companheiras de outras organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e independentes, denominados de aliancistas.<\/p>\n<p>No Levante antifascista de novembro de 1935, tomou o quartel e foi lutar nas ruas, tendo sob seu controle um arsenal de armas para entregar aos camaradas e aliancistas, que n\u00e3o ocorreu como havia sido planejado pelo Partido. Foi preso e condenado a mais de 20 anos de pris\u00e3o, cumprindo 10 anos, de 1935 a 1945, e saindo com a Anistia e redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, ap\u00f3s o final da 2\u00aa Guerra Mundial. Da\u00ed se elegeu Deputado Federal Constituinte em 1945, sendo o segundo mais votado do Estado de Pernambuco e o primeiro na regi\u00e3o metropolitana do Recife.<\/p>\n<p>No seu livro de Mem\u00f3rias, escrito no ex\u00edlio de 1969 a 1979, destaca sua participa\u00e7\u00e3o na campanha, discorre sobre as atividades e os problemas enfrentados nos munic\u00edpios, entre eles, o de Paulista. Diz ele:<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) O com\u00edcio de encerramento da campanha eleitoral foi no munic\u00edpio de Paulista, feudo dos Lundgren. Foi aquele um dos \u00faltimos Comit\u00eas Municipais a se organizar na grande Recife. Isso porque os Lundgren n\u00e3o permitiam um s\u00f3 comunista em sua f\u00e1brica, que possu\u00eda mais de 12 mil oper\u00e1rios, sem contar os homens que trabalhavam em seu latif\u00fandio. N\u00f3s comunistas, n\u00e3o pod\u00edamos ficar esperando que desaparecesse o \u00f3dio hidrof\u00f3bico dos Lundgren contra os comunistas para organizar o partido dentro de sua f\u00e1brica; ent\u00e3o o fizemos discretamente, pois n\u00e3o quer\u00edamos que os oper\u00e1rios mais esclarecidos e conscientes fossem demitidos. Organizamos o trabalho clandestino. Organizamos uma base num dia, outra duas semanas depois; assim, criamos um comit\u00ea de f\u00e1brica com bases do partido em todas as se\u00e7\u00f5es, com mais de cinquenta elementos. E resolvemos fazer o com\u00edcio de encerramento da campanha na bastilha dos Lundgren. Antes fizemos uma s\u00e9rie de com\u00edcios preparat\u00f3rios nos distritos e, por fim, um diante da f\u00e1brica, \u00e0 hora da sa\u00edda dos oper\u00e1rios, convidando-os ao com\u00edcio de encerramento da campanha&#8221;. (Mem\u00f3rias Greg\u00f3rio Bezerra \u2013 p. 332).<\/p>\n<p>Foi uma grande surpresa para os Lundgren e tamb\u00e9m, para grande parte da popula\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 ent\u00e3o desconhecia o processo de organiza\u00e7\u00e3o do PCB, que tinha conquistado a legalidade naquele ano e contava com grandes l\u00edderes nacionais como Luiz Carlos Prestes, Jorge Amado, Agildo Barata e o pernambucano, Greg\u00f3rio Bezerra, dentre outros. Mesmo sendo legalizado, sofria muitas restri\u00e7\u00f5es por parte da direita e da extrema-direita, na qual se localizava a fam\u00edlia Lundgren, que segundo se afirmava, tinha afinidades com os nazistas e, aqui no Brasil, com seus representantes, os integralistas.<\/p>\n<p>Mesmo com a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a legaliza\u00e7\u00e3o do PCB e todo clima de liberdade que tomava conta do Brasil, os sentimentos nazifascistas ainda eram fortes, at\u00e9 por conta da alian\u00e7a destes com a maioria da Igreja cat\u00f3lica, que tinha muita influ\u00eancia na sociedade e na classe oper\u00e1ria de ent\u00e3o. E os Lundgren tinham agentes de seguran\u00e7a e de controle sobre os oper\u00e1rios, que fiscalizavam na hora de contratar, para que n\u00e3o tivessem envolvimento com os sindicatos e muito menos com os comunistas. Por isso, o trabalho clandestino e cuidadoso do Partido foi fundamental para a constru\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Municipal do PCB de Paulista, que foi um dos \u00faltimos a se organizar na regi\u00e3o metropolitana do Recife.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio fala sobre o com\u00edcio: \u201c(&#8230;) Iniciamos o com\u00edcio precedido de imensa foguetaria. Pra\u00e7a superlotada, enorme entusiasmo do povo. Ao se anunciar o nome do velho oper\u00e1rio Jos\u00e9 da Silva, que trabalhava na f\u00e1brica havia mais de vinte anos e era secret\u00e1rio pol\u00edtico do comit\u00ea de empresa, a massa oper\u00e1ria vibrou durante v\u00e1rios minutos. Esse oper\u00e1rio, filho de oper\u00e1rios, abriu o com\u00edcio apresentando-nos ao povo de Paulista; a massa delirava. (&#8230;)\u201d. (Mem\u00f3rias Greg\u00f3rio Bezerra, p. 326 e 327).<\/p>\n<p>No seu discurso, Greg\u00f3rio fez um paralelo entre os interesses do patr\u00e3o e dos explorados, a classe oper\u00e1ria, trazendo a vis\u00e3o marxista para a realidade vivida pelos oper\u00e1rios e oper\u00e1rias que trabalhavam nessas f\u00e1bricas:<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) E agora, permitam-me que aborde um problema local, que diz respeito ao operariado desta f\u00e1brica, aos camponeses deste munic\u00edpio e ao povo em geral. Trata-se do homem mais poderoso deste munic\u00edpio, que se diz humanista. At\u00e9 mesmo alguns oper\u00e1rios inexperientes, explorados, menos esclarecidos, caem no seu engodo. Troquemos em mi\u00fados o humanismo do senhor Lundgren, citemos apenas alguns exemplos de seu \u2018humanismo\u2019. O senhor Lundgren, como todo capitalista e industrial, compra suas gigantescas m\u00e1quinas e paga ao oper\u00e1rio para limp\u00e1-las e lubrific\u00e1-las. O senhor Lundgren tem esse zelo por sua maquinaria porque lhe custou muito capital e, se n\u00e3o for cuidadosamente tratada, ela enferruja e morre, isto \u00e9, n\u00e3o produzir\u00e1 mais nada. Tudo isso \u00e9 correto, estamos de pleno acordo com esse senhor. O que censuramos no senhor Lundgren \u00e9 n\u00e3o ter ele o mesmo zelo com a m\u00e1quina humana, que \u00e9 o oper\u00e1rio, mais sens\u00edvel do que a m\u00e1quina met\u00e1lica, sujeito a um constante desgaste f\u00edsico devido \u00e0s impurezas que absorve e \u00e0 falta de alimenta\u00e7\u00e3o adequada, capaz de restituir-lhe as energias que consome durante as horas de trabalho. E porque o oper\u00e1rio n\u00e3o recupera as energias gastas no trabalho? Porque o sal\u00e1rio que recebe pela venda de sua for\u00e7a de trabalho \u00e9 pouqu\u00edssimo, n\u00e3o d\u00e1 para alimentar-se como deveria, levando-o \u00e0 debilidade f\u00edsica, \u00e0 morte prematura. O senhor Lundgren sabe disso, mas sabe que a m\u00e1quina humana n\u00e3o lhe custou dinheiro e quando enferruja ou morre, h\u00e1 centenas de outras para substitu\u00ed-la e estas n\u00e3o lhe custam nada. Podem enferrujar ou morrer aos milhares, que ele ter\u00e1 outras tantas para substitu\u00ed-las. Da\u00ed o carinho que tem o capitalista pela m\u00e1quina mec\u00e2nica, que lhe custou capital, e o total desprezo pela m\u00e1quina humana, que fabrica, monta e que movimenta a m\u00e1quina met\u00e1lica. E onde est\u00e1 ent\u00e3o o humanismo do senhor Lundgren? Respondeu a massa &#8211; Nos infernos! &#8211; Nos cofres! \u2013 responderam outras vozes (&#8230;)\u201d. (Mem\u00f3rias Greg\u00f3rio Bezerra, p. 333 e 334).<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) Ao falar em Prestes, a massa irrompeu em aplausos. Foi um com\u00edcio dos mais entusi\u00e1sticos que realizamos; nos rendeu mais de 3 mil votos para a legenda do PCB, ou seja, mais votos do que os votos de todos os candidatos reunidos. Um fato que devemos ressaltar foi a venda de 3 mil exemplares da Folha do Povo no com\u00edcio. Muita gente a comprava pagando o dobro do pre\u00e7o. Era a colabora\u00e7\u00e3o de todos para nos ajudar a eleger os nossos candidatos e a construir um poderoso partido. Inegavelmente, \u00e9ramos o partido mais querido das massas populares e que lhes inspirava mais confian\u00e7a, apesar dos ataques da rea\u00e7\u00e3o, das suas cal\u00fanias e insultos (&#8230;)\u201d. (Mem\u00f3rias Greg\u00f3rio Bezerra, p. 334).<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio, junto com seus 13 camaradas deputados e o senador mais bem votado do Brasil, Luiz Carlos Prestes, foram cassados, junto com dezenas de outras e outros parlamentares estaduais e vereadores e vereadoras, por conta da cassa\u00e7\u00e3o do registro do PCB pelo Superior Tribunal Eleitoral, numa manobra golpista das elites brasileiras e dos militares, subjugados pela vontade dos imperialistas estadunidenses, que por conta da Guerra Fria p\u00f3s-Segunda Guerra, come\u00e7aram a perseguir os comunistas pelo mundo. Os capitalistas come\u00e7aram a dar guarida aos nazifascistas que sobreviveram ap\u00f3s esse embate entre as na\u00e7\u00f5es, ampliando as a\u00e7\u00f5es anticomunistas.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio foi acusado de ter incendiado um quartel em Jo\u00e3o Pessoa, mesmo estando no Rio de Janeiro. Era mais um processo falsificado para prend\u00ea-lo, depois da sua cassa\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a desmoraliza\u00e7\u00e3o do processo, Greg\u00f3rio que fez uma forte defesa de seus princ\u00edpios e acusou os verdadeiros incendi\u00e1rios do quartel, sendo libertado, mas ficando sob a jura de vingan\u00e7a dos militares acusados por ele. Tentam criar motivos para assassin\u00e1-lo, mas Greg\u00f3rio consegue se safar. Quando saiu do pres\u00eddio, foi direto para a clandestinidade e para fora do estado, indo para Goi\u00e1s, Paran\u00e1, Santa Catarina e regi\u00e3o, com outra identidade, para continuar a luta do povo e do Partido.<\/p>\n<p>No Paran\u00e1, na cidade de Cascavel, ele foi chamado por um campon\u00eas, que lhe disse:<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) Eu conhe\u00e7o voc\u00ea, Greg\u00f3rio. Fui oper\u00e1rio da f\u00e1brica de fia\u00e7\u00e3o e tecelagem de Paulista. Em 1945, votei em Prestes para o senado e em voc\u00ea para deputado federal. Depois fui expulso da f\u00e1brica e acabei vindo bater com os costados aqui por estas bandas. Aqui tenho prosperado: colhi boas safras, possuo algumas vaquinhas e um mangueiro de porcos. Conte comigo, farei tudo para ajudar meus irm\u00e3os posseiros e o partido. Esse companheiro de fato, nos prestou depois boa ajuda (&#8230;)\u201d. (Mem\u00f3rias Greg\u00f3rio Bezerra, p. 466).<\/p>\n<p>Pelo Planalto central e pelo interior dos estados do Sudeste, Greg\u00f3rio ajudou a fazer campanhas das Ligas Camponesas e Ligas pela Paz e contra a Guerra na Cor\u00e9ia. Foi detido algumas vezes, foi ferido, conseguiu sobreviver. Voltou \u00e0 legalidade ap\u00f3s ser preso no interior de Pernambuco, em 1957, ser conduzido \u00e0 pris\u00e3o e logo depois de ouvi-lo foi liberado, pois n\u00e3o havia processos, nem acusa\u00e7\u00f5es sobre suas atividades nos \u00faltimos anos. Participou ativamente na coordena\u00e7\u00e3o da campanha de Cid Sampaio para governador de Pernambuco, em 1958, e de Miguel Arraes para prefeito do Recife, em 1959.<\/p>\n<p>Nos anos 60, Greg\u00f3rio estava na organiza\u00e7\u00e3o dos sindicatos de trabalhadores rurais de Pernambuco, especialmente na Zona da Mata e algumas cidades do agreste. Jogou-se no campo para organizar os sindicatos e o Partido. Na campanha de Miguel Arraes para governador em 1962, ele teve papel fundamental na coordena\u00e7\u00e3o, viajando pelos canaviais fazendo campanha, organizando os sindicatos e o PCB. Tinha como seu companheiro um velho jipe que n\u00e3o parava um instante, era no mundo.<\/p>\n<p>Veio o golpe de 1964 para barrar as for\u00e7as democr\u00e1ticas e populares que, junto com o governo federal e de boa parte dos estados, estavam alinhados com a maioria da popula\u00e7\u00e3o defendendo as reformas de base. Logo que soube do golpe, Greg\u00f3rio pegou seu jipe e foi para os sindicatos de trabalhadores rurais, para desmobiliz\u00e1-los, porque ele tinha pedido armas ao governador, para enfrentar o poss\u00edvel golpe que se avizinhava, mas Dr. Arraes dizia n\u00e3o acreditar nessa possibilidade e n\u00e3o encaminhou nada nesse sentido. Greg\u00f3rio, vendo Arraes sendo preso, correu pelos sindicatos e convenceu os trabalhadores a n\u00e3o virem ao Recife para enfrentar os militares, pois eles queriam vir com enxadas e estrovengas se solidarizar e defender o governo que eles tinham escolhido. Nesse processo ele foi detido pelo ex\u00e9rcito e encaminhado para o Recife.<\/p>\n<p>L\u00e1 no Quartel de Motomecaniza\u00e7\u00e3o localizado na Avenida 17 de Agosto, em Casa Forte, ele foi espancado barbaramente sob o comando do coronel Viloq. Foram atos de viol\u00eancia de todo tipo: queimaram seus p\u00e9s com solu\u00e7\u00e3o de bateria, fizeram-no andar por britas, que iam entrando nos seus p\u00e9s, espancaram com cano de ferro sua cabe\u00e7a e seu corpo inteiro. Greg\u00f3rio tinha, naquele momento, 64 anos de idade. N\u00e3o satisfeitos com aquela viol\u00eancia bestial, colocaram 3 cordas no pesco\u00e7o dele e sa\u00edram puxando-o pelas ruas de Casa Forte, levando-o para a Pra\u00e7a da Casa Forte, onde pretendiam enforc\u00e1-lo. Assim relata Greg\u00f3rio em suas mem\u00f3rias:<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) Linchem esse bandido! \u00c9 um monstro! \u00c9 um incendi\u00e1rio! Queria fazer a revolu\u00e7\u00e3o comunista a servi\u00e7o de Moscou! Queria entregar o Brasil \u00e0 R\u00fassia Sovi\u00e9tica! Tinha um plano para incendiar o bairro da Casa Forte e matar todas as crian\u00e7as queimadas! Venham, batam at\u00e9 ele morrer! (&#8230;) Ningu\u00e9m o aplaudiu. Ningu\u00e9m o atendeu. Enfurecido, o coronel espumava pelos cantos da boca. Concentrava a raiva contra mim. (&#8230;) Eu tinha muito sangue coagulado no pesco\u00e7o, dando a impress\u00e3o de que tinha sido semidegolado. (&#8230;) nessas alturas, eu j\u00e1 n\u00e3o sentia mais dor. Tinha vontade de beber \u00e1gua, vontade de vomitar. N\u00e3o enxergava mais nada, pois a vista tinha escurecido. (&#8230;) Fui salvo pelo clamor p\u00fablico (&#8230;)\u201d (Mem\u00f3rias de Greg\u00f3rio Bezerra, p.534 e 535).<\/p>\n<p>Gra\u00e7as aos apelos populares, das freiras e da opini\u00e3o p\u00fablica que reprovava aquela insanidade e brutalidade, o comandante do IV Ex\u00e9rcito mandou suspender a sess\u00e3o de tortura p\u00fablica, e mandou recolher Greg\u00f3rio para o Forte das Cinco Pontas. Depois foi transferido para a Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Recife, hoje Casa da Cultura de Pernambuco. Greg\u00f3rio foi condenado a 19 anos de pris\u00e3o, num julgamento de cartas marcadas, por acusa\u00e7\u00f5es montadas e pr\u00e9-determinadas. Mesmo assim, em 1969, ele foi trocado com outros presos pol\u00edticos pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, numa a\u00e7\u00e3o realizada por for\u00e7as de esquerda que lutavam contra a ditadura militar.<\/p>\n<p>Da\u00ed ele foi para o M\u00e9xico, Cuba e decidiu cumprir o seu asilo pol\u00edtico na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Voltou do ex\u00edlio ap\u00f3s a anistia em 1979. Estava como membro do Comit\u00ea Central do PCB, j\u00e1 que nos anos de 1975 um ter\u00e7o do CC foi sequestrado e assassinado pela ditadura, sob a responsabilidade do general Ernesto Geisel. Por isso, os que escaparam foram para o ex\u00edlio e outros que l\u00e1 estavam foram cooptados para a dire\u00e7\u00e3o central do Partido.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio \u00e9 um exemplo para as atuais e futuras gera\u00e7\u00f5es, pela sua seriedade, idealismo, \u00e9tica, compromisso com a classe trabalhadora do campo e da cidade, pela sua coragem e entrega humanista de sua vida \u00e0 luta coletiva contra a fome, a pobreza, a explora\u00e7\u00e3o, as desigualdades e, mais do que isso, lutava com seu cora\u00e7\u00e3o carregado de ternura pela igualdade, pela liberdade e pelo socialismo, como sistema capaz de tornar todas as pessoas iguais em seu direito ao usufruto das riquezas produzidas, no respeito e na conviv\u00eancia harmoniosa com a natureza e todos os seres de vida, para que a vida seja partilha de paz e felicidade para todos.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio Bezerra, hoje e sempre, Presente!<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) Mas existe nesta terra \/ muito homem de valor \/ que \u00e9 bravo, sem matar gente \/ mas n\u00e3o teme matador,\/ que gosta de sua gente\/ e luta a seu favor,\/ como Greg\u00f3rio Bezerra,\/ Feito de Ferro e de Flor (&#8230;)\u201d. (Mem\u00f3rias Greg\u00f3rio Bezerra, p. 628).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33719\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[221],"class_list":["post-33719","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8LR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33719"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33719\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33721,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33719\/revisions\/33721"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}